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PAPAI DAS TREVAS


Direitos autorais, capa e diagramação FABIANO VIANA OLIVEIRA


Fabiano Viana Oliveira

PAPAI DAS TREVAS

Salvador 2017


OLIVEIRA, Fabiano Viana. PAPAI DAS TREVAS. Salvador: Edição do Autor, 2017. 48 p. ISBN: 9788591708505 1. Romance brasileiro. 2. Ficção pedagógica.


Está história foi escrita através de um aplicativo de tablet que transcreve o que está sendo ditado oralmente em forma escrita.

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E

stava sentado no lobby do hotel fazendo minhas leituras matinais. Um vento frio cortava minha nuca vindo da janela aberta nas minhas costas. O luxo era mediano no hotel, mas o mesmo tinha conforto. As poltronas do lobby eram aconchegantes e limpas. Lia distraidamente Nietzsche e Dumont tal que o vazio do hotel me passou despercebido. De repente o frio aumentou e eu lembrei que tinha de voltar para o quarto e chamar minha esposa, Lêda, e ele, meu filho... o Lorde das Trevas... Dante. Tarefa complicada essa de ser o pai de um garoto predestinado a ser o destruidor de toda a cristandade. No começo, quando ele tinha somente alguns dias de vida e um mensageiro das profundezas veio me procurar ainda no hospital, achei aquilo tudo uma grande piada. Ele era uma criaturinha estranha. Tinha cerca de um metro e vinte de altura e um rosto alongado, avermelhado, com olhos amarelados, como se tivesse uma doença do fígado, e um sorriso constante, com simpatia e horror ao mesmo tempo.

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Olhava o menino pelo vidro da enfermaria infantil, quando ele falou comigo: - Preocupado com menino? - Olhei para baixo e respondi: - Claro! - Gostaria de garantir o bem estar dele para sempre? Mesmo estranhando a proposta, respondi: - Claro que sim! Como bom ateu e professor de filosofia nunca levaria aquilo nas palavras exatas. Dei um sorriso de ironia e perguntei: - Que tenho de fazer... Assinar um contrato com sangue? - Nada disso, mestre. Clique aqui em ACEITO. - Ele ergueu um tablet com um texto de letras pequenas e com um local para clicar aceito bem grande no final. Claro que hesitei de meter meu dedo ali. Afinal era um monstrinho totalmente desconhecido, apesar da 8


simpatia. Depois pensei: - “Que mal podia acontecer? Ele não tinha nenhum dado meu...”- Claro, baixinho! - Apontei o indicador e cliquei. Senti um leve formigamento no dedo, a tela piscou entre o branco e o vermelho e depois o personagem desfez o sorriso, pareceu crescer em tamanho e me disse com tom assustador: - Sem volta agora, Mestre. Vai ser o pai do Lorde das Trevas. - Opa, Megadeth, o que quer dizer com isso? - Sendo conhecedor de mitologia e ouvidor de metal sabia que toda aquela bobagem somente poderia advir de algum conjunto de crenças. Estiquei o braço para pegar o tablet. - Deixa eu ler isso, feioso. - Mas antes que pudesse pegar, o monstrinho bateu o calcanhar no piso e sumiu num buraco flamejante. Olhei para aquilo e depois de volta para meu filho e pensei: - “Lêda vai me matar quando souber disso”.

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Voltando ao hotel no momento atual, entrei no quarto bem devagar. Tanto minha esposa quanto Ele detestam ser acordados muito cedo. Toquei nela de leve e disse: - Querida, passa das 8 horas. - Ela acordou e olhou para mim como quem olha para um monstro. Levantou assustada e perguntou: - E ele acordou? Ele detesta acordar sem ter a comida pronta! - Esqueceu que estamos viajando, querida, no hotel em Malhado? - Ah, verdade... Deixa eu me vestir para a gente levar ele para comer. - Ok. Vou chamar ele. - Minha esposa se levantou enquanto eu fui ao leito dele no quarto ao lado do nosso. Abri a porta e entrei no seu quarto. O quarto estava frio como se fosse uma geladeira e dele exalava um cheiro forte como se fosse uma espĂŠcie de veneno. O que acontecia de fato ĂŠ que os aromas que ele exala durante a noite eram muito similares a gases 10


vulcânicos. Acordei-o com cuidado porque sabia que ele ficava irritado quando era acordado de repente e disse a ele para descermos e assim podermos tomar nosso café da manhã juntos. Ele abriu seus olhos amarelados avermelhados e olhou para mim com aquele olhar de “não me acorde agora”, mas depois viu quem era. Era o pai dele que estava acordando ele, aí ele mudou a expressão e deu bom dia. Para todos os efeitos meu filho Dante era uma criança normal. Ele era carinhoso comigo, atencioso com a mãe e até obediente. O grande problema era quando ele é contrariado. Diferente de muitas crianças, quando ele é contrariado a raiva dele faz acender os poderes sobrenaturais que contavam com a vida dele. Ele me abraçou forte e eu o arrumei para descermos para o café. Sua idade agora é de cinco anos. É uma criança sorridente e até certo ponto muito inteligente. Aliás, ele era excepcionalmente inteligente. Minha esposa é que até certo ponto ainda tinha algum medo dele em algumas ocasiões, mas o amava muito e tratava-o com carinho como se fosse um filho normal. 11


Os poderes relacionados com fato de ele ser o Lorde das Trevas não mudavam o fato de ele ser nosso filho. Descemos para o café juntos e lá encontramos Lêda. Todos estavam sorrindo felizes por estarmos de férias, mas uma coisa chamava atenção no hotel: ele estava insistentemente vazio, apesar de todos os funcionários do mesmo estarem trabalhando normalmente. Ele estava sempre vazio mesmo sendo um local turístico em alta estação e isso era estranho. Era época de férias como em todos os anos e era uma estação turística muito movimentada em que as pessoas vinham para frequentar e participar de atividades nas belas serras da região. A princípio o vazio do hotel não me chamou atenção, mas no terceiro dia notei essa questão do hotel estar sempre vazio. Como era possível um local tão movimentado ter um hotel para ficar somente para nós três? Estava completamente vazio. As pessoas simplesmente não se hospedavam lá? Os funcionários estavam atendendo muito bem, no entanto só tinha a gente para o café da manhã, por exemplo. Era apenas nós três. 12


Comecei a desconfiar que aquilo tinha alguma coisa a ver com nosso filho. Enquanto estávamos na mesa tomando café, olhei para Dante. Ele olhou ao redor para o vazio do hotel e aí perguntei: - Filho, você tem alguma coisa a ver com o vazio do hotel? - Ele olhou para mim pensativo e disse: - Não sei de nada disso, papai. Minha esposa olhou para mim também diante da pergunta, olhou ao redor o vazio e aí também perguntou: - Realmente, esse hotel anda muito vazio e é a estação mais movimentada aqui da região. Porque será que ele tá tão vazio? Quando um dos funcionários passou perto da nossa mesa, paramos ele e perguntamos porque que o hotel andava tão vazio. O rapaz, um jovem de 16 anos, olhou meio desconfiado, parando o olhar um pouco em nosso filho e respondeu com certa hesitação:

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- Isso é normal, senhor. O hotel às vezes fica vazio quando tem hóspedes muito importantes. - Olhei com estranheza e minha esposa também. Enfim perguntamos: - Quem é o hóspede importante? - O rapaz novamente deu uma olhadela para nosso filho, que continuava a comer, e falou: - Ora Senhor, é seu filho, ele é o hóspede importante. - Dante virou para a gente deu uma risada, olhou para o rapaz, que meio que se esquivou ao sair andando, e aí ele continuou comendo. Novamente viramos para nosso filho e perguntamos: - Você não tem nada a ver com isso, menino? - Ele olhou com aquela cara inocente que sempre faz e disse: - Eu não tenho nada a ver com isso. Nem me mexi, nem dei opinião sobre o Hotel que viríamos dessa vez nessas férias... porque eu ia me meter numa coisa dessas? 14


Ainda com certa desconfiança terminamos nosso café e depois saímos para passear pela cidade. Nesses cinco anos como o pai de uma criança destinada a fazer algo tão complexo quanto destruir toda a cristandade poucas coisas fora do comum realmente aconteceram. O cotidiano de uma criança destinada a ser o Lorde das Trevas não é muito diferente de uma criança qualquer, passando por todas as fases. Mas tinha que chamar atenção de algumas coisas específicas e enquanto passeávamos pela cidade ia lembrando alguma dessas coisas para chegar a uma conclusão do por que as pessoas no hotel estarem tratando ele e a gente como algo especial, como pessoas especiais... E acho que talvez na cidade toda também. Com poucos meses de idade meu filho já tinha passado por vários problemas normais de crianças como cólicas, resfriados, choros, todas as questões relacionadas com o desenvolvimento infantil. O que diferenciava é que ele sempre fazia de um jeito que terminava muito rápido. Era como se fosse uma 15


adaptação muito rápida a um problema corriqueiro. O que normalmente uma criança levaria meses para desenvolver, ele desenvolvia muito rápido. Aí era Engraçado que as coisas deveriam espantar a gente, pois a gente estava criando o Lorde das Trevas, mas na verdade deixava a gente aliviado, já que a gente tinha menos problemas com que se preocupar. A criaturinha quando deu a notícia e disse que ele seria sempre saudável, não explicou os detalhes. O conceito de sempre saudável varia muito. Ele podia ser sempre saudável. Ele podia ou nunca ficar doente ou poderia significar sempre saudável no sentido de nunca nos perturbar. Eu acho que acabou sendo o segundo sentido. Todos os pais de primeira viagem quando lidam com crianças pequenas, com bebês, sempre têm que aprender a lidar com a fralda suja, o início da alimentação, pequenos problemas de saúde e das constantes idas ao médico pediatra. Vacinas têm que ser dadas e tudo isso nós fizemos. Só que era sempre uma visita muito rápida. Era sempre uma coisa muito ligeira e corriqueira. Os médicos e vacinadores especialistas sempre se surpreendiam 16


com a velocidade com que a criança que é meu filho se desenvolvia e sorria sempre das situações. Era como se estivesse sempre no comando, além do fato de ser uma criança e por isso inconsciente. Sempre no comando mesmo. Quando ele tinha uns dois anos, por exemplo, alguns fatos curiosos também aconteceram logo que levamos ele para escolinha, para o Jardim de Infância. Ele se desenvolveu muito rápido como era esperado pelo status que foi dado a ele pelo mundo Sobrenatural, mas era curioso como ele interagia bem com as outras crianças. Essas crianças meio que aprendem assim e ele pela vida que tinha conosco, dois intelectuais, era natural ele desenvolver a fala muito rápido também e a sua articulação era sempre muito boa. Talvez também porque nós sempre o estimulamos a falar bem. Incutimos nele a ideia de que ele tinha uma responsabilidade diante do status que lhe foi dado, pois ele não devia imaginar que ser o Lorde das Trevas fosse simplesmente ser um malvado destruidor de tudo. Era apenas um status adquirido, como uma espécie de herdeiro de um reinado ou coisa 17


parecida. O fato também de não sermos religiosos acabou influenciando para o modo como vivemos, o modo como lidamos com aquilo e para o modo como trabalhamos aquilo. Era sempre uma grande descoberta em tudo que ele ia fazenda. Com três anos ele já falava de maneira bastante articulada. Ele veio a mim e perguntou: - Papai, o que eu tenho de fazer por ser o Lorde das Trevas? - E meio sem jeito olhei para ele e respondi: - Bom, você vai ter que fazer algumas coisas quando for adulto e muitas pessoas provavelmente irão tentar ir contra você. - Aí ele olhou para mim e respondeu: - E o que eu faço com essas pessoas que vão contra mim? - Pensei bastante tempo antes de responder com muito cuidado, pois afinal, apesar de ele ser uma entidade Sobrenatural superpoderosa, eu ainda era o pai dele e quem tinha a responsabilidade de educa-lo. Afinal disse:

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- Eu acho que você vai ter que saber conviver com essas pessoas que vão contra a sua vontade e apesar de você ter poder suficiente para exterminá-las, você deve mostrar para elas que o seu ponto de vista é um ponto de vista que deve ser respeitado e elas devem simplesmente acatar o que você disse, mas sem ameaças. - Ele ainda meio inocente dos termos e significados das palavras olhou para mim e eu para os lados e ele disse assim: - Eu acho que todos vão obedecer porque vão gostar de mim. - E você acha mesmo que eles vão gostar de você? - Claro, papai, e vão gostar de mim porque eu sou o Lorde das Trevas, sou poderoso e vou ser mais ainda. E acima de tudo eu sou muito legal, você não acha? Dei um sorriso e respondi para ele: - Claro que eu acho que você é legal. Afinal você é meu filho, você é superinteligente e você faz coisas muito legais ao menos com a gente, mas eu não sei o que é que vai acontecer no futuro. 19


Voltando a cidade de Malhado onde estávamos passando nossas férias, agora ele com cinco anos, notei a apreensão no rosto de minha mulher. A cidade parecia ter sido preparada para nossa vinda e a vinda de nosso filho. O que aquilo poderia significar? A cidade de Malhado era uma pequena cidade no sul do país com população de menos de 50 mil habitantes voltada inteiramente para o turismo. Quando ganhamos o pacote turístico gratuito para vir para essa cidade passar nossas férias, não sabia do diferente relacionamento com a religiosidade que o povo dessa cidade tinha. Diferente da maior parte do país, a cidade de Malhado não tem nenhum Cristão. As pessoas praticam e vem praticando uma espécie de paganismo que recusa totalmente entidades espirituais, no entanto abraça fortemente entidades físicas com poderes sobrenaturais, que era exatamente o caso do nosso filho. Não sei como eles ficaram sabendo da natureza do nosso filho, mas à medida que fomos passeando pela cidade e frequentando os museus e lojas e até falando 20


com as pessoas, vimos o quanto esses mostravam admiração e temor pelo nosso filho. Ele, por outro lado, reagia como uma criança normal apesar de entender bem que as pessoas estavam venerando a sua presença ali. Então de fato para ele era uma grande brincadeira. Ele achava muito legal as pessoas ficarem servindo e sorrindo para ele, tendo medo dele, tomando cuidado com o que falavam, dando presentes para ele. Era uma situação inusitada para nós pais, que temos que ao mesmo tempo que cuidar, criar e educar nossos filhos, vermos que o filho tem mais poder, tem mais presença do que qualquer pessoa ao redor. A região de Malhado é famosa pela sua produção de chocolate. Todos sabem que as crianças adoram chocolate. Aconteceram situações curiosas nas casas de produção e venda de chocolate, pois apesar de nosso filho ser venerado na cidade ele ainda era nosso filho e existe uma economia monetária por trás da produção. Então como toda criança ele chegava no lugar e pedia: “eu quero isso, eu quero aquilo, eu quero mais chocolate” e a população local por venerar ele simplesmente dava o chocolate, oferecia chocolate, 21


mas queria o pagamento em troca, então nós tivemos que, apesar da veneração da população, parar toda vez e conversar com ele, falando pacientemente, pois ele é uma criança de cinco anos, que não se pode ter tudo, que as pessoas esperam pagamento, que nós somos seus pais e que você deve aprender a controlar esses impulsos, senão mesmo tendo grandes poderes das Trevas, você vai acabar perdendo o seu respeito que a população detém. Mesmo sendo aqueles que veneram você, não se pode ter somente medo daquilo que se venera. Você deve ter também respeito. Era muito estranho falar com a criança com tanto poder e sendo tão errada, mas mesmo assim ainda uma criança. Isso diz muito sobre a educação, não é? Outra atividade muito comum na cidade de Malhado é o esporte radical. Nestes locais ele aproveitava para tentar se exibir para aquelas pessoas que estavam fazendo algo perigoso em uma garganta profunda, por exemplo. Ele disse que queria fazer a tirolesa mais difícil e mais perigosa, argumentando com a gente que não aconteceria nada com ele, no entanto olhei e falei: 22


- Olha, meu filho, você tem cinco anos de idade e aquela corda de segurança não vai suportar você. Você vai ser pequeno demais e vai acabar caindo. Você pode se achar invulnerável, mas você é mortal. Lembre-se disso! E todo esforço que foi feito para que você existisse e tivesse esses seus poderes e assim poder comandar o mundo? O que acontece se você simplesmente na hora da diversão e da brincadeira cai naquela garganta? Ele olhou para mim com aquele olhar de meio coitado meio assustado e disse: - Mas eu quero papai. Eu quero fazer tirolesa. Papai, eu posso, eu consigo. - Porém não adiantava argumentar. Eu como pai via que ele não tinha capacidade e não tinha tamanho suficiente para poder fazer aquele esporte e aí tive que me abaixar, ficar na altura dele e ouvir ele e falar com ele pacientemente, dizendo que “não importa que você seja o Lorde das Trevas, tem coisas que você não pode fazer ainda, tem que se controlar”. Ele bateu os pés, fez um pouco de birra usando aquela voz dele tenebrosa, dizendo “eu quero, 23


eu posso”, mas mesmo assim me mantive firme. Lêda tentou ajudar também se abaixando e conversando com ele carinhosamente. Até que enfim ele se convenceu e disse: - Ah, tá bom, mas eu vou fazer outras coisas quando eu quiser. - E aí eu disse: - Vamos ver. Depois de rodar bastante pela cidade, comendo chocolate e tendo de convencer Dante de que ele tem que controlar os impulsos, fazendo esportes radicais, quando possível, convencendo ele que ele não é capaz de tudo, apesar dos poderes que tem. Tendo sempre que comentar com minha esposa que apesar de tudo nós devemos educar ele como uma criança normal. Nós voltamos para o hotel para poder descansar e aí já é outra batalha, porque apesar dele ser essa entidade física com poderes sobrenaturais e com um destino traçado para ser o detentor de grandes poderes, ele é uma criança e ele se comporta como criança e quando a criança tem muitas habilidades é pior ainda. Então como pais temos que fazer muitas e muitas concessões ao mesmo tempo em que fazemos castigos. 24


Ele não queria descansar. Ele ficava dizendo que não estava cansado. Seus olhos já estavam cheios de olheiras, apesar do avermelhado amarelado meio Sobrenatural. Ele estava evidentemente cansado porque andou pela cidade toda, brincou, passeou, fez esportes e conversou com as pessoas. As pessoas falaram com ele com medo, mas falaram. Ele tinha começado a descansar um pouquinho, aí tive que preparar ele, conversar com ele e falar para ele deitar se não ele não ia aguentar as outras atividades no resto do dia. Aquele dia era o terceiro dia nosso na cidade de Malhado. Enquanto ele descansava, nós também aproveitamos para descansar um pouco, vendo um pouco de televisão no lobby do hotel, o mesmo onde ia fazer minhas leituras. Então, uma coisa poderosa aconteceu. Começou a aparecer pessoas trazendo alguns presentes, algumas espécies de oferendas para nosso filho. Era sem dúvida estranho quantas pessoas de uma cidade tão bonita e tão próspera como essa vir e oferecer presentes para uma criança simplesmente porque ela tinha uma marca de destino que aquelas pessoas acreditavam ser importante. 25


Ainda tinha minhas dúvidas do que ele conseguiria realizar ou não. Afinal de contas era uma criança bastante normal, apesar de tudo: fazia birra, ia para escola, fazia cocô, tomava banho, se recusava a comer às vezes, queria comer o que não devia outras vezes. Alegre, brincava, assistia televisão, abraçava a gente e às vezes fazia mais daquela voz tenebrosa, mas mesmo assim ele é uma criança. As oferendas foram deixadas na porta do hotel, na entrada e as pessoas queriam muito ver ele. Eu achei aquilo muito estranho e em outros locais que nós visitamos e na cidade onde moramos, em que há uma presença muito forte de cristianismo, as pessoas quando notam a presença dele diferente das outras crianças sentem medo e são de certo modo hostis com ele, pelo menos aparentemente. Ainda assim tentamos criar Dante como uma criança normal, apesar de tudo que ele consegue fazer. E agora, naquele lugar, tinha essa veneração exagerada. Por isso comecei a perguntar às pessoas: “o que é que vocês esperam afinal que meu filho faça quando crescer e realizar esse tal destino que vocês acham que ele tem sobre o mundo?” 26


Algumas pessoas aparentemente mais cultas começaram a explicar para mim que a crença deles era que um tipo de entidade, que meu filho representava, seria o futuro da superação de todos os fracassos do cristianismo nos últimos dois mil e tantos anos. Ficava pensando do que exatamente ele estava falando. Será que era aquela coisa nietzscheana de superar a moral Cristã e de levar os mais fortes e os mais cultos ao ponto de liderança do mundo, em que o bem e o mal sejam superados? Havia evidentemente um perigo histórico nisso de tudo que nosso filho representava, podendo ser interpretado como o nazismo, o fascismo ou stalinismo ou qualquer outro tipo de tendência política totalitária. Eu não queria criar uma criança, por mais poderosa que fosse e dominante de forças Sobrenaturais, para ser um grande ditador que transformaria o mundo no lugar Tenebroso, sem Liberdade. Fiquei pensando então se aquela crença não poderia significar simplesmente uma forma de libertação do homem (da humanidade) de todo tipo de crença que aprisiona o ser humano num mundo 27


em que forças superiores parecem dominar a nossa mentalidade. Talvez o que meu filho representava não seria a dominação ou o caminho para um futuro de Dominação e transformação a partir da vontade de uma pessoa só, de uma criatura só. Talvez fosse mais a questão de tornar as pessoas livres para tomar suas próprias decisões autônomas, para não precisar realmente de nenhuma religião ou religiosidade que comandasse a moral e o comportamento. Esses visitantes mais cultos então argumentaram comigo que bastava olhar para nossa sociedade para ver que não era possível um tipo de libertação dessa natureza sem uma liderança, uma liderança forte e com demonstração de poder Sobrenatural. Inevitavelmente seria a mudança de uma forma de moralidade religiosa por outra evidentemente mais poderosa e real, no sentido de ser uma entidade física, uma pessoa física, mas que demonstrasse todos os poderes do Lorde das Trevas. Fiquei pensando no que essas pessoas disseram e me lembrava de todo o comportamento do meu 28


filho. Toda criança tem a ilusão de que é o centro do mundo, o egocentrismo faz parte do processo de construção da personalidade da criança. Então, se isso fosse refletido na vida adulta realmente criaria um ditador centralizador e dominador do mundo inteiro, especialmente tendo poderes sobrenaturais, os quais ainda não tinha certeza quais seriam, além do fato de ele conseguir manipular um pouco o clima ao redor dele, conseguir fazer aquela voz tenebrosa e evidentemente ser praticamente invulnerável a doenças e infecções. Com certeza ele não é invulnerável a ferimentos, porque ele, do jeito que era destemido, por causa dessa suposta habilidade, tomava muitas quedas e se feria muito. Então, de fato, ele não era Imortal, a cicatrização dele nunca foi extraordinária, era sempre normal. Toda pereba que ele tinha curava normalmente. Então, afinal o que significava tudo aquilo? O que representava essa Esperança dessas pessoas nesse futuro mudando de uma moral Cristã para a moral anticristã, uma moral advinda da vontade do Lorde das Trevas? Lembrando que o Lorde das 29


Trevas era um menino de cinco anos que eu tinha de cuidar, que eu limpei a bunda; eu tinha que insistir para lhe dar comida e que ele era um bebê e eu tinha às vezes que botar o pé firme para ele poder descansar, dormir, tomar banho etc. Sem dúvida me fazia pensar muito sobre o que tudo aquilo significava: ser pai do Lorde das Trevas desde o momento que aquela criaturinha fez aquela oferta para mim no hospital e eu, achando que era piada, aceitei... De fato era uma piada, porque parece uma brincadeira de uma criança, não de uma entidade Sobrenatural, mas as pessoas acham que é. Depois que as pessoas começaram a partir deixando suas oferendas, eu e minha esposa começamos a falar sobre algumas coisas e sobre o que achávamos do futuro do nosso filho. Ela perguntou: - O que você acha dessa loucura toda? Ontem achei esse pessoal meio fanático. Hoje esse pessoal mais culto que falou com você e comigo parecia acreditar que nosso filho é uma espécie de Salvador. - De fato estávamos especulando que não parecia haver muita 30


diferença entre o que aquelas pessoas acreditavam e o modo como o resto das pessoas de outras religiões, especialmente o cristianismo, se comportava a respeito da imagem do salvador, do Cristo. Eu não podia imaginar meu filho como sendo uma espécie de anticristo ou Salvador. A crença que acabei formulando para mim e formulando sobre meu filho, depois que ele foi escolhido como sendo Lorde das Trevas, é que via a oportunidade através desse futuro de construir uma sociedade sem religiões. Talvez não se possa no nível da sociedade de massa e no jogo da cultura dos povos eliminar de fato a religião, já que não há possibilidade de se livrar de fatores religiosos simplesmente sem abraçar outra religião. Lembrava da minha leitura de Dumont e como na Índia, por exemplo, quando o indivíduo fazia renúncia da casta do sistema de castas, ele simplesmente abraçava algum outro tipo de crença, algum outro tipo de religiosidade, assim voltando para o mesmo círculo. Inclusive tendo uma nova classificação dentro do próprio sistema de castas, apesar de se 31


considerar renunciante. Será mesmo possível que com todo esforço de educação a que tínhamos dedicado nosso filho, ele realmente se tornaria uma espécie de símbolo de religiosidade nova, com outro nome, outros padrões, outras liturgias e doutrinas? Será que não seria possível a mente humana criar um mundo livre desse tipo de crença no Sobrenatural? Lêda tinha outras preocupações, além disso. Ela achava que com essa veneração toda, além de afetar a sua educação e o modo como ele veria a si mesmo no futuro, as pessoas, por agirem e buscarem a reafirmação de si mesmos, muitas vezes se voltam para o que é violento: é o que nós chamamos na ciência do fundamentalismo. Eu comecei a pensar que de fato era possível que a própria construção do conceito Lorde das Trevas trazido por aquela criaturinha alguns dias após seu nascimento, inevitavelmente criaria um tipo de antagonismo com relação ao meu filho. Pois se por um lado era possível a criação e o surgimento de um Lorde das Trevas, com certeza haveria também uma 32


criança ou outro ente ou outra pessoa que representaria o seu oposto. Nas origens do cristianismo com certeza somente se a origem de um Messias, de um Salvador que viria para salvar e redimir todas as pessoas. Mas sendo um estudioso, um Acadêmico da área de filosofia e um ateu, uma pessoa cética em todos os sentidos, compreendendo de Mitologia e compreendendo também da natureza da religiosidade na sociedade Humana, não podia ver as coisas dessa maneira simples, dessa maneira maniqueísta: Lorde das Trevas e Senhor da Luz, isso apenas facilita a compreensão das pessoas sobre os acontecimentos, porém tinha que pensar que tinha motivos de criar uma criança, que agora estava com cinco anos e que tem todos os problemas de uma criança, e além disso esse futuro pela frente. Como há muito tempo atrás ou depois do Nascimento dele e da revelação de que de fato aquele contrato assinado naquele tablet para aquela criaturinha é realmente verdade Eu e Lêda decidimos e continuamos 33


a decisão de que iríamos criar nosso filho para ser uma criança normal, para ele se ver e se aceitar com uma criança normal e nunca se achar superior ou inferior a ninguém, que todos esses conceitos relacionados com a religião, com poderes, com o Sobrenatural, eram apenas uma maneira das pessoas lidarem com aquilo que não conseguem controlar, que no final das contas é o acaso. Naquele dia, naquele hotel, depois de todo aquele processo de veneração inédito, que nunca tinha acontecido, mesmo quando estamos em algum local que alguém por alguma razão decide identificar nosso filho como sendo o Lorde das Trevas, nunca houve veneração. Até mesmo atividade de fato, sempre houve algum tipo de estranheza, mas nunca Veneração. Naquele dia decidimos continuar e criar ele do jeito correto e que o mais importante de tudo seja fazer com que ele se integrasse, se tornasse um ser humano, uma criança normal, e que pudesse ver os outros também como normais, especialmente se de fato houvesse um antagonista. Pois, pelo que ele representava, estava decidido por nós dois, que queríamos encontrar esse 34


antagonista de nosso filho e esses dois deveriam ser colocados juntos, como crianças que precisam se entender como crianças, que têm que aprender a conviver Juntas, pois é assim que se cria um futuro de paz através da Educação de crianças, que mesmo aparentemente em lados opostos no sentido ideológico ou religioso conseguem conviver e brincar e aprender juntas. Terminado o cochilo da tarde, Dante acordou e disse que estava com fome. Levamos ele para fazer uma merenda no restaurante perto do hotel. Foi nessa ocasião que tivemos mais um encontro curioso nessa cidade tão diferente de tantas outras, em que nosso filho se apresentava como a esperança do Futuro daquelas pessoas. Estávamos comendo alguma coisa que eu não me lembro o que e veio até nós um senhor de aparência culta e respeitada, mas ao mesmo tempo com olhar bastante profundo e que falava com se fosse uma espécie de profeta. Ele disse: - Vocês, pais do Lorde das Trevas, prestem bastante atenção: logo vocês vão enfrentar um grande desafio 35


que representa o ritual de passagem do jovem lorde das trevas para o caminho do seu destino. Depois partiu sem dizer mais nada, tão misterioso como quem trouxe a gente aqui, nem ouviu quando eu virei para ele e falei: - Senhor, por favor, explique melhor a sua profecia doida. – Lêda me puxou pelo braço e disse - Querido, tome cuidado com os conselhos dessas pessoas fanáticas. Eu acho que ele sumiu. - Com certeza elas são fanáticas. Elas têm a noção muito errada sobre o que é religião e sobre nosso filho. Enquanto tudo isso acontecia nosso filho simplesmente comia bolo com leite, sem se importar com o que o velho falou ou com nossa pequena discussão sobre o profeta. Recordei naquele momento uma situação curiosa quando ele tinha uns dois ou três anos de idade. Estávamos no parquinho do nosso condomínio onde a gente mora na sociedade quando Dante, durante as brincadeiras com os coleguinhas vizinhos, começou a brigar com um menino por causa de um brinquedo. 36


Ele ensaiou fazer aquele levantamento de voz que faz, fazendo a voz tenebrosa. Eu percebi que ele ia fazer isso, daí o chamei no lado e conversei com ele. “Por mais que você possa fazer uma coisa, você não deve fazer. O seu amiguinho estava simplesmente querendo o brinquedo. E você também. Vocês se conhecem e podem brincar juntos.” Ele respondeu com uma voz um pouco autoritária. Apesar do vocabulário ainda pobre de dois para três anos de idade, disse: “papai, quando eu quero eu quero. O brinquedo é meu e eu posso.” Eu disparei: “não é assim que as coisas funcionam e nós sabemos que você faz muita coisa, mas você deve saber dividir, se você não souber dividir, você não vai aprender a conquistar. Essa é a lei. Essa é a regra: tem que dividir depois conquistar. A conquista e a divisão e partilha fazem parte do mesmo jogo de poder. Com sabedoria e certeza.” Ele olhou para mim um pouco desanimado, chegou a levantar um pouco a voz como ele faz antes de fazer a voz tenebrosa, daí me levantei, olhei para ele, mesmo com um pouco de medo, e falei assim: “erga essa voz para mim que você vai ver o que acontece com você. Não importa quem você seja, 37


o que você sente, você vai ficar sem mim, vai ficar sem um pai!” Ele pensou um pouco, me olhou com olhar de desculpas e me abraçou. Foi nessa ocasião que eu percebi o quanto é importante para a formação de uma criança, mesmo que ela seja superpoderosa, a figura de um pai e de uma mãe ou de um adulto que seja autoridade e respeito, que saiba se impor com correção. Aquela tinha sido a primeira vez que eu tinha realmente me sobreposto com autoridade sobre ele. Até aquele momento eu o tratava com carinho e respeito, e mesmo assim tinha dúvidas a respeito do que ele poderia ou não fazer se eu o contrariasse. Lembro que logo depois que nos conformamos dele com a situação colocada por aquela criaturinha lá no hospital, estudei um pouco mais sobre mitologia tanto cristã quanto pagã a respeito de entidades maléficas e maniqueísmo Deus e Diabo. Pesquisei no mundo da ficção e da literatura sobre essa suposta entidade do mal ou entidade dominadora, esse tipo de coisa. Na série de filmes A Profecia, por exemplo, a criança 38


central do filme, Damien, no primeiro e segundo filmes, ele sempre conseguia o que queria, mas principalmente através dos seus seguidores, dos seus asseclas, pessoas que se dedicavam em protegê-lo para garantir que ele alcançasse o destino dele, como um dominador do mundo no futuro. No primeiro filme, por exemplo, ele não tem consciência do que está fazendo. Sempre tem um acidente quando ele é contrariado. Ela dá um olhar feio para as pessoas como qualquer criança, mas aí aparece um cachorro ou uma empregada ou algum tipo de seguidor que vai fazer a coisa ruim, fazer a maldade. É claro que tem a terrível cena que ele bate na escada e derruba a mãe dele de uma altura de quase cinco metros, deixando ela totalmente despedaçada. Já no segundo filme, em que ele é um adolescente com seus 12 a 14 anos, nota-se que há certa consciência e aceitação dele da situação como ente poderoso, o que cai bem com a ideia de uma personalidade adolescente que quer tudo para si. Mas ele ainda é dependente dos seus seguidores, que fazem com que ele seja um instrumento de expressão do Mal. E aí está a questão, 39


o problema do maniqueísmo nessas situações fictícias e mitológicas, em que uma pessoa é completamente má nas suas ações. A noção de bem e mal construída culturalmente está dentro de todo mundo. No caso fiquei imaginando, vendo e revendo os filmes, e pensando no meu filho, que o pai (os pais), seja quem for, se tivesse mais atitude de autoridade e carinho, talvez na volta não tivesse acontecido tudo de ruim, mas é claro para um filme de ficção seria muito pouco interessante, já que a ideia é criar um vilão. E como foi de terror também: criar o medo no espectador. No mundo real as coisas são mais complicadas e mais simples também ao mesmo tempo. Todas as vezes que Dante fazia alguma coisa errada ou se sentia contrariado ensaiava usar a sua estatura e graça como Lorde das Trevas, eu sempre consegui evitar e minha esposa mais ou menos, mas o fato é que ele confiava na gente, confiava que nós estávamos guiando ele no caminho mais correto: um caminho de felicidade e é isso que importa. Pois é sempre bom 40


lembrar: uma criança confiante se torna um adulto confiante e a confiança está na maneira como aqueles que criam ele demonstram confiança pelo exemplo. Assim então voltando às nossas férias e de volta à lanchonete onde estávamos após a saída intempestiva do estranho profeta, perguntamos ao nosso filho, que ainda comia, que ainda nem lembrava: o que ele achava daquilo que tinha ouvido. Ele, com a voz tranquila de criança e o olhar com certa ingenuidade em meio a certa confiança, falou com a gente: - Papai, mamãe, acho que aquele moço tá com medo de alguma coisa, talvez alguma coisa que ele saiba e que a gente não sabe. - Olhei para minha esposa e pensei: “Acho que ele tá certo, é melhor a gente ir pesquisar para saber do que aquele senhor estava falando.” Decidi sair da lanchonete, deixando Lêda e Dante lá, e procurar saber mais informações sobre aquele profeta. Perguntando ao dono da lanchonete, ele disse que o senhor é uma espécie de professor aposentado, que normalmente voltava a ensinar coisas para as pessoas, mas muitas vezes é considerado meio doido mesmo. 41


Fui então procurar saber mais a partir das pessoas em lojas, em lotéricas, em teatros locais, onde supostamente pessoas mais cultas pudessem me responder sobre a situação. Todos evidentemente já tinham conhecimento da presença do meu filho e da importância que ele tinha para eles, pelo menos. Finalmente um simpático cidadão que estava na livraria contou um pouco da história da cidade de Malhado e se referiu a uma cidade vizinha chamada de Panela. Essas duas cidades que foram fundadas na mesma época e se dividiram em modelos de crença diferentes por causa de suas influências culturais bastante díspares e bastante diversas nesse campo. Malhado tinha fundação e origem basicamente pagã advinda de países nórdicos e países orientais. Já a cidade de Panela tinha uma presença muito forte de europeus latinos. Essa diferença fez com que enquanto a cidade de Malhado se afastasse da religião para resolver seus problemas, rejeitando o pensamento oficial Cristão, 42


fazendo essa profecia que espera por um antiMessias; a cidade de Panela acreditava na vinda de novo Messias ou na segunda vinda de Cristo, alguma coisa que pudesse lhes trazer a salvação do mundo. Comecei a ficar preocupado com aquilo porque duas cidades tão próximas uma da outra e ao mesmo tempo com tão diferentes modelos de crença. E com nossa presença e do nosso filho, tudo parecia destinado e pré-determinado. Porém eu estava determinado a construir um futuro de normalidade para nosso filho. Voltei para a lanchonete e eles já tinham voltado para o hotel. Encontrei-os e disse que nós iríamos fazer uma visita na cidade vizinha de Panela, para conhecer coisas novas durante as férias. Eles concordaram de imediato. Ambos gostam muito de novidades. A cidade de Panela é bem próxima de Malhado. As duas cidades partilham partes de uma mesma rodovia, ambas são cidades simpáticas, calorosas e turísticas. Chegando lá o que notei diferente de cara foi a quantidade de Cruzes na cidade. Ela era 43


predominantemente Cristã, contrastando com o laicismo da cidade de Malhado. Andando pela cidade pude observar a simpatia das pessoas. Depois, terminamos por encontrar outra família: um casal e um filho como nós, somente que este era um pouco mais velho, com sete anos. Começamos a conversar e as Crianças começaram a brincar. Estávamos com dúvidas e questionamentos, basicamente porque descobrimos que eles também tinham recebido um pacote de viagem turística gratuitamente para a cidade de Panela. Começamos a perceber que tínhamos sido atraídos daquele jeito devido ao antagonismo das cidades, que se refletia nos supostos destinos de nossos filhos, pois de fato, ao compararmos, percebemos que o outro menino, filho da outra família, era o suposto Pequeno Messias da cristandade. Seu nome inclusive era Téo (deus em grego). Olhando para as crianças, percebemos que na verdade eram crianças brincando juntas e tinham juntos os mesmos problemas e dificuldades. Falando com 44


os pais de Téo, indiquei se eles tiveram os mesmos problemas com o filho deles, fazendo birra de criança, escolhendo escola, pagar isso, pagar aquilo, atender os desejos da criança, colocar limites... os mesmos problemas que nós temos vivido desde o nascimento de Dante. Então, notando a parte de nossas divergências convergentes, as Crianças na verdade seriam apenas instrumentos de uma necessidade presente nos seres humanos, nas pessoas. Eu e Lêda, como professores e ateus, achamos o casal bastante culto. Eles também notaram que na verdade a revelação dos filhos serem destinados a coisas sobrenaturais, o Messias e o Lorde das Trevas, não representa muito para educação das crianças. Apesar de tudo, nossos filhos eram crianças normais com uma educação normal, porém as pessoas daquelas duas cidades propositadamente queriam outra coisa, que logo descobriríamos o que. Depois do almoço pegamos o caminho de volta para Malhado. Tínhamos alugado um carro. A família do Pequeno Messias se despediu de nós e concordamos 45


em manter contato. Só que a volta não seria tão tranquila. No meio da rodovia entre as duas cidades havia uma barreira: eram centena de pessoas das duas cidades que, cientes das presenças das duas crianças... afinal foram elas que tinham arranjado as nossas viagens... decidiram expressar suas ridículas rivalidades religiosas em uma espécie de contestação campal mútua. Paramos o carro no lugar que nos indicaram, já do lado de Malhado. Enquanto do outro lado, os pais do Pequeno Messias e ele tinham sido trazidos também ao campo da rodovia. Cumprimentamo-nos de longe com simpatia e com o celular ficamos trocando mensagens, comentando o ridículo de tudo aquilo. Combinamos de nos encontrarmos no gramado neutro ao largo da rodovia para as crianças poderem brincar e não ficarem entediadas. Os manifestantes dos dois lados não notaram que tínhamos nos afastado e continuaram de um lado e do outro da Fronteira das duas cidades a se manifestar. Eles gritavam palavras de ordem e agitavam cartazes: 46


“Lorde das Trevas é o maior!” de um lado; e “Pequeno Messias é a salvação” do outro. Apesar de pacífica era um movimento bastante animado dos dois lados. Todo cidadão do centro da cidade se expressando pela segurança nas suas crenças absolutas. Nem se deram conta que as duas crianças tinham saído da Visão deles, de tão concentrados que estavam uns nos outros. De longe, no Gramado próximo à beira da estrada, nós quatro, os pais das duas crianças, ficamos só observando as manifestações. Como um contraste de tudo aquilo, a visão das duas crianças brincando na grama, inocentes, realizando tudo que pensamos juntos: “quanta energia desperdiçada e logo aqui a verdadeira visão de futuro... uma brincadeira de criança”. Pensando bem, conhecedor que sou de história, filosofia e mitologia, aquela disputa em suas ações de manifestações agonistas também era uma brincadeira de criança, só que entre Crianças grandes e Imaturas. A depender de como criássemos nossos filhos eles 47


poderiam reproduzir esse mesmo comportamento. Diante disso nos comprometemos em criar nossos filhos o mais próximos possível, com amizade e companheirismo. Dante, o Lorde das Trevas, e Téo, o Pequeno Messias, duas crianças destinadas a uma luta maluca e sem sentido, mas criadas por nós, pais esclarecidos, cultos e ateus, para serem amigos, com talentos para a vida como pessoas normais, sem superstições, ignorando suas origens Sobrenaturais para valorizar as suas humanidades, com esperança no futuro.

Fim

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Papai das trevas  

Novo livro de Fabiano Oliveira. Uma história de literatura fantástica e pedagógica sobre o Lorde das Trevas como criança e o esforço de seus...

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