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FUNDO DEMA - Instrumento de Justiça Ambiental na Amazônia

Entrevista com Matheus Otterloo soas foram atraídas pelas promessas de melhores condições de vida. Servindo de mão de obra barata para a abertura da estrada e “assentadas” de maneira precária, são estimuladas e forçadas a derrubar o máximo da floresta tropical. A floresta é considerada obstáculo para o progresso e, portanto, deve ser removida onde for possível.

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arece que há uma vocação embutida na região Amazônica de servir como baú onde outros podem tirar o necessário para a sua riqueza em qualquer momento e de qualquer jeito. Desde o “descobrimento” do Brasil pelos povos Europeus, a região se tornou cobiçada pelas suas riquezas, seja especiarias, borracha, minério, madeira, água doce e potencial energético, ou ainda terra para a grande pecuária. Este vai e vem dos interesses dos outros, implicou para a região a destruição dos seus povos nativos; não só das suas culturas, mas também da extinção das suas vidas, além de causar prejuízos significativos à biodiversidade do bioma amazônico. A ditadura militar, nas décadas de 1970-80, é mais um exemplo bem claro disto. Já sabendo das grandes riquezas presentes na região e com seus projetos já prontos (hidrelétrica de Tucuruí, província mineral de Carajás e outros), enfrentando inúmeros problemas nas regiões do Sul, Sudeste e Nordeste do país causados pela não implementação da reforma agrária, a ditadura anunciou a construção de grandes rodovias (a Transamazônica e a Perimetral). Sob o lema “TERRA SEM HOMENS PARA HOMENS SEM TERRA”, milhares de pes-

Mais tarde, a Transamazônica e a Perimetral são relegadas ao abandono e as milhares de pessoas introduzidas na floresta amazônia - em particular nas regiões da Transamazônica e do rio Xingu - sobrevivem em condições extremamente precárias: sem saúde e educação básica, sem acesso aos seus lotes, por conta das intransitáveis vicinais, enquanto o esquema de “grandes projetos” se desenvolve com todo vigor. Cresce então a reação popular ao perceber que esta bandeira de desenvolvimento é falsa: não traz benefícios para a maioria da população, é violadora de direitos, significa imposição autoritária de uma minoria e aniquila com as riquezas da Amazônia. Na década de oitenta crescem na região as Comunidades Eclesiais de Base (CEB`s) estimulando a perspectiva da libertação enquanto cada vez mais sindicatos de trabalhadores(as) rurais se empenham para voltar à sua missão de ser instrumento de luta para a conquista e defesa dos direitos dos(as) pequenos(as) agricultores(as). Em 1989, se realiza em Altamira o encontro nacional e internacional dos povos indígenas em protesto aos grandes projetos, que consegue barrar a execução da hidrelétrica planejada no rio Xingu, perto de Altamira. Série Entrevistas sobre a Amazônia

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Fundo Dema - Entrevista Matheus Otterloo  
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