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“Uma obra-prima da ficção científica” USA Today


Intrusão: 1995 Não haverá despertar. A mulher adormecida nada sentirá na manhã seguinte, além de uma vaga sensação de inquietação e uma constante impressão de que alguém a observa. A ansiedade vai desaparecer em menos de um dia e logo será esquecida. A lembrança do sonho vai permanecer um pouco mais. Em seu sonho, uma grande coruja empoleirou-se no parapeito de sua janela e observou-a através do vidro com os olhos enormes rodeados de branco. Ela não acorda. Nem o marido ao seu lado. A sombra que recai sobre eles não lhes perturba o sono. E o que a sombra veio buscar – o bebê no interior da mulher adormecida – nada sente. A intrusão não rompe a pele, não viola uma única célula do corpo dela ou do bebê. Em menos de um minuto está acabado. A sombra se retira. Agora, são apenas o homem, a mulher, o bebê dentro dela e o intruso dentro do bebê, dormindo. A mulher e o homem vão despertar pela manhã. O bebê, alguns meses mais tarde, quando nascer. O intruso dentro dele vai dormir e só vai despertar depois de vários anos, quando a inquietação da mãe da criança e a lembrança daquele sonho já terão há muito desaparecido. Cinco anos depois, durante uma visita ao zoológico com a criança, a mulher verá uma coruja idêntica à do sonho. Vê-la perturba-a por motivos que não compreende. Ela não é a primeira a sonhar com corujas no escuro. Ela não será a última.


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lienígenas são tolos. Não estou falando dos verdadeiros alienígenas. Os Outros não são tolos. Os Outros são tão adiantados em relação a nós, que é o mesmo que comparar o ser humano mais estúpido com o cão mais inteligente. Sem condições. Não, estou falando dos alienígenas dentro de nossas cabeças. Aqueles que inventamos, os que viemos inventando desde que compreendemos que aquelas luzes cintilantes no céu são sóis como o nosso e, provavelmente, têm planetas como os nossos girando ao redor. Você sabe, os alienígenas que imaginamos, o tipo de alienígenas que gostaría­mos que nos atacassem, alienígenas humanos. Vocês os viram milhões de vezes. Eles descem impetuosamente do céu em seus discos voadores pa­ra destruir Nova York, Tóquio e Londres, ou marcham pelo interior em imensas máquinas parecidas com aranhas mecânicas, disparando armas de raios, e sempre, sempre, a humanidade deixa de lado suas diferenças e agrupa-se para derrotar a horda alienígena. Davi derrota Golias, e todos (exceto Golias) vão felizes para casa. Que droga. É como uma barata elaborando um plano para derrotar o sapato que está prestes a esmagá-la. É impossível ter certeza, mas aposto que os Outros sabiam dos alienígenas que imaginávamos. E aposto que eles acharam tudo muito engraçado. Eles devem ter rolado os traseiros no chão de tanto rir. Se é que têm senso de humor... ou traseiros. Eles devem ter rido como nós rimos quando um cão faz algo especialmente bonitinho e idiota. “Ah, esses humanos, tão bonitinhos e idiotas! Eles acham que gostamos do que fazem! Não é lindo?” Esqueça os discos voadores, e homenzinhos verdes, e aranhas mecâ­ nicas gigantes cuspindo raios de fogo. Esqueça as batalhas épicas com tan­ques e jatos de guerra e a vitória final para nós, humanos intrépidos, brigões e indomados sobre o enxame de olhos esbugalhados. Isso está tão


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distante da verdade quanto o seu planeta agonizante se encontrava do nosso planeta vicejante. A verdade é: quando nos encontrarem, a gente já era.

2 Às vezes, acho que sou a última pessoa na Terra. O que significa que sou a última pessoa no Universo. Sei que isso é bobagem. Eles não podem ter matado todos... ainda. Mas entendo como pode ter acontecido, afinal. E, então, acho que isso é exatamente o que os Outros querem que eu veja. Você se lembra dos dinossauros? Pois bem. Provavelmente, então, não sou o último humano na Terra, mas sou um dos últimos. Totalmente só – e com a probabilidade de continuar dessa forma – até que a 4ª Onda caia sobre mim e me derrube. Esse é um dos meus pensamentos noturnos. Sabe, aqueles pensamentos que nos ocorrem às três da madrugada, tipo Deus-estou-ferrado; quando me enrolo como uma pequena bola tão apavorada, que não consigo fechar os olhos, mergulhada num medo tão intenso que tenho que me lembrar de respirar para que o coração continue a bater; quando meu cérebro apaga e começa a falhar como um CD arranhado. “Sozinha, sozinha, sozinha, Cassie, você está sozinha.” Eu me chamo Cassie. Não Cassie de Cassandra, ou Cassie de Cassidy. Cassie de Cassiopeia, a constelação, a rainha presa à sua cadeira no céu do norte, bela, mas fútil, colocada nos céus por Poseidon, deus dos mares, como punição por sua arrogância. Em grego, meu nome significa “aquela cujas palavras se destacam”. Os meus pais não sabiam absolutamente nada sobre mitologia. Eles apenas acharam que era um nome bonito. Mesmo quando havia pessoas por perto que me chamavam, nunca usa­vam o nome Cassiopeia. Somente meu pai, e somente quando estava me provocando, e sempre com um péssimo sotaque italiano: Cass-ee-oh-PEE-a. Ele me deixava maluca. Eu não achava divertido ou bonitinho, e aquilo me fazia detestar o próprio nome. 4


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– Eu sou Cassie! – gritava. – Só Cassie! – Agora daria qualquer coisa para ouvi-lo chamar-me só mais uma vez. Quando fiz 12 anos, quatro anos antes da Chegada, meu pai me deu um telescópio de presente de aniversário. Numa noite fria e clara de outono, ele instalou no quintal dos fundos e mostrou a constelação. – Está vendo como se parece com um M? – perguntou. – Por que deram o nome de Cassiopeia, se tem o formato de um M? – retruquei. – M de quê? – Bem... não sei se tem algum significado – respondeu com um sorriso. Minha mãe sempre dizia que essa era a sua melhor qualidade, portanto ele abusava dela, principalmente depois que começou a ficar calvo. Sabe, você atrai o olhar das pessoas para baixo. – Então, significa qualquer coisa que você quiser. Que tal maravilhoso? Ou macio? Ou madrepérola? Ele pousou a mão no meu ombro, enquanto pela lente eu observava de olhos semicerrados do ponto em que nos encontrávamos das cinco estrelas que brilhavam havia mais de 50 anos-luz. Senti a respiração de meu pai no rosto, quente e úmida no ar frio e seco de outono. Sua respiração tão próxima, as estrelas de Cassiopeia tão distantes. As estrelas parecem muito mais perto agora. Mais perto do que os 300 milhões de milhas que nos separam. Perto o bastante para serem tocadas, para que eu as toque, para que me toquem. Elas estão tão próximas de mim quanto a respiração do meu pai tinha estado. Isso parece loucura. Estou louca? Perdi a cabeça? Só se pode dizer que alguém está louco se houver outra pessoa que é normal. Como o bem e o mal. Se tudo fosse bom, nada seria mau. Uau. Isso parece, bem... loucura. Loucura: a nova normalidade. Acho que poderia dizer que estou louca, já que há uma única pessoa com quem posso me comparar: eu mesma. Não quem sou agora, tremendo em uma barraca embrenhada na floresta, apavorada demais até para pôr a cabeça para fora do saco de dormir. Não essa Cassie. Não. Estou falando da Cassie que eu era antes da Chegada, antes de os Outros colocarem seus traseiros alienígenas em órbita alta. A Cassie de 12 anos, cujos maiores problemas eram as minúsculas sardas salpicadas no nariz, os cabelos crespos com que não conseguia fazer nada e o garoto bonitinho que a via todos os dias e não tinha noção de que ela existia. A Cassie que estava aceitando o fato de ser apenas uma menina comum. Comum na aparência. Comum na 5


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escola. Comum nos esportes como caratê e futebol. Basicamente, o único detalhe incomum nela era o nome esquisito – Cassie, de Cassiopeia, que aliás, ninguém conhecia – e sua habilidade para tocar o nariz com a ponta da língua, um talento que rapidamente perdeu o encanto, quando chegou ao ensino médio. Provavelmente, segundo os padrões de Cassie, eu sou louca. E ela também é, segundo os meus. Às vezes, grito com ela, essa Cassie de 12 anos de idade, me aborreço com seus cabelos, seu nome estranho ou com o fato de ser apenas “comum”. “– O que você está fazendo?” – grito comigo mesma. “– Você não sabe o que vai acontecer?” Mas isso não é justo. Na verdade, ela não sabia, não tinha como saber, o que foi uma vantagem para ela, e o motivo para eu sentir tanta falta dela, mais do que de qualquer outra pessoa, se quiser ser sincera. Quando choro, quando me permito chorar, é por quem eu choro. Não choro por mim. Choro pela Cassie que se foi. E me pergunto o que essa Cassie iria pensar a meu respeito. A Cassie que mata.

3 Ele não podia ser muito mais velho do que eu. Teria 18. Talvez 19. Mas, droga, em minha opinião ele poderia ter 719 anos. Cinco meses se passaram, e ainda não tenho certeza se a 4ª Onda é humana ou alguma espécie de híbrido, ou mesmo os próprios Outros, embora eu não goste de pensar que os Outros tenham exatamente a nossa aparência, falem como nós e sangrem como nós. Gosto de pensar nos Outros como sendo... bem, outros. Eu fazia minha incursão semanal em busca de água. Há um córrego perto de meu acampamento, mas receio que possa estar contaminado, seja por produtos químicos, esgoto ou alguns corpos corrente acima. Ou envenenado. Privar-nos de água potável seria uma excelente forma de nos eliminar rapidamente. Assim, uma vez por semana coloco meu confiável M16 no ombro e caminho para fora da floresta até a Interestadual. A três quilômetros ao 6


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sul, exatamente na saída 175, existem uns dois postos de gasolina com lojas de conveniência. Abasteço-me de toda a água engarrafada que consigo carregar, o que não é muito, pois água é pesado, e volto para a estrada e a relativa segurança das árvores o mais depressa possível, antes que a noite caia de vez. O anoitecer é o melhor momento para viajar. Nunca vi uma alma sequer ao anoitecer. Três ou quatro durante o dia e muitos mais à noite, mas nunca ao anoitecer. Assim que passei pela estilhaçada porta frontal do posto, soube que algo estava diferente. Eu não vi nada diferente. A loja parecia exatamente igual à semana anterior, com as mesmas paredes grafitadas, prateleiras reviradas, chão coberto com caixas vazias e fezes de rato secas, caixas arrombados e geladeiras de cerveja saqueadas. Era a mesma confusão nojenta e malcheirosa que eu atravessava a cada semana havia um mês para chegar ao depósito atrás das gôndolas refrigeradas. Por que as pessoas apanharam a cerveja e os refrigerantes, o dinheiro dos caixas e do cofre, os rolos de bilhetes de loteria, mas deixaram dois engradados de água estava além de minha compreensão. O que elas tinham na cabeça? “É um apocalipse alienígena! Depressa, peguem a cerveja!” O mesmo estrago provocado pelo desperdício, o mesmo mau cheiro de ratos e comida podre, a mesma espiral intermitente de poeira na luz obscura insinuando-se nas janelas sujas, todas as coisas deslocadas em seu lugar, imperturbadas. Imóveis. Algo estava diferente. Eu me encontrava parada no pequeno monte de vidro quebrado do lado de dentro da porta. Não vi nada. Não ouvi nada. Não cheirei nem sen­ti nada. Mas eu sabia. Algo estava diferente. Já fazia muito tempo desde que os humanos tinham sido animais predadores. Uma centena de milhares de anos atrás, mais ou menos. Contudo, enterrada profundamente em nossos genes, a memória permanece: a percepção da gazela, o instinto do antílope. O vento sussurra pela grama. Uma sombra corre entre as árvores. E a pequena voz se faz ouvir, e diz: – Shhh, agora está perto. Perto. Não me lembro de ter sacudido o fuzil do ombro. Num instante, ele estava pendurado nas minhas costas, no outro, estava em minhas mãos, boca para baixo, gatilho pronto. 7


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Perto. Eu nunca tinha atirado em nada maior do que um coelho, e, mesmo assim, foi uma espécie de experiência, para ver se realmente podia usar a coisa sem estourar alguma parte de meu corpo. Certa vez, atirei acima das cabeças de uns cães selvagens interessados demais no meu acampamento. Noutra oportunidade, diretamente para cima, mirando uma minúscula luz esverdeada e cintilante, que era a nave mãe deslizando silenciosamente pelos fundos da Via Láctea. Certo, admito que fui tola. Eu poderia igualmente ter erigido um cartaz com uma imensa seta apontando para a minha cabeça, exibindo os dizeres: EI-EI, ESTOU AQUI! Depois do teste do coelho – aquele pobre coelhinho foi desintegrado, transformando Peter numa massa irreconhecível de ossos e intestinos despedaçados –, desisti da ideia de usar o fuzil para caçar. Nem mesmo para praticar pontaria. No silêncio que desabou após o ataque da 4ª Onda, os tiros soavam mais alto que uma explosão atômica. Mesmo assim, achava meu M16 o melhor dos melhores. Sempre a meu lado, até durante a noite, enterrado no saco de dormir comigo, fiel e confiável. Na 4ª Onda, não se pode confiar que pessoas continuem sendo pessoas, mas se pode confiar que a sua arma ainda é sua arma. Shhh, Cassie. Está perto. Perto. Eu deveria ter fugido. A vozinha estava zangada comigo. A vozinha era mais velha do que eu. Ela era mais velha do que a pessoa mais velha que já viveu. Eu deveria ter dado ouvidos à voz. Em vez disso, escutei o silêncio da loja abandonada com muita atenção. Alguma coisa estava perto. Dei um minúsculo passo para longe da porta, e o vidro quebrado rangeu suavemente sob meu pé. E então Alguma Coisa fez um barulho, algo entre uma tossidela e um gemido. O barulho veio do aposento dos fundos, atrás dos refrigeradores, onde estava a minha água. Esse era o momento em que eu não precisava daquela vozinha para me dizer o que fazer. Era óbvio, simples. Correr. Mas não corri. A primeira regra para sobreviver à 4ª Onda é não confiar em ninguém, não importa qual a sua aparência. Os Outros são muito espertos nessa questão – certo, eles são espertos em tudo. Não importa se eles têm o aspecto correto, digam as coisas certas e façam exatamente o que você 8


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espera que façam. A morte de meu pai não é uma prova disso? Mesmo que o estranho esteja disfarçado de uma velhinha mais doce do que a sua tia-avó Tilly carregando um gatinho indefeso no colo, não se pode saber ao certo, nunca se sabe, se ela é um deles, e que não há um 45 carregado atrás do gatinho. Não é impensável. E, quanto mais se pensa no assunto, mais pensável ele se torna. A velhinha tem que sumir. Essa é a parte difícil, a parte que, se eu pensasse demais nela, me faria rastejar para dentro do saco de dormir, fechar o zíper e morrer lentamente de inanição. Quando não se pode confiar em ninguém, então não se pode confiar em ninguém. É melhor acreditar na possibilidade de a tia Tilly ser um deles do que arriscar na probabilidade de tropeçar num colega sobrevivente. Isso é assustadoramente diabólico. Esse dilema nos dilacera. Ele facilita em muito a tarefa de nos caçar e erradicar. A 4ª Onda nos obriga à solidão. Somos minoria, enlouquecemos lentamente devido ao isolamento, ao medo e à terrível expectativa pelo inevitável. Assim, não corri. Não poderia. Quer fosse um deles ou uma tia Tilly, tinha que defender meu território. A única forma de continuar viva é ficar sozinha. Essa é a regra número dois. Segui os soluços com tossidelas, ou tossidelas com soluços, ou qualquer que seja o nome que quisesse dar aos sons, até chegar à porta que levava ao aposento dos fundos. Quase sem respirar, pisando nos calcanhares. A porta estava entreaberta, o espaço largo apenas o suficiente para eu passar de lado. Um engradado de metal na parede diretamente a minha frente, e à direita, o longo corredor estreito que corria ao longo dos refrigeradores. Não havia janelas ali. A única luz era o laranja pálido às minhas costas, proporcionado pelo dia que terminava, ainda claro o suficiente para lançar minha sombra no chão grudento. Agachei-me. Minha sombra agachou-se comigo. Eu não conseguia enxergar atrás do canto do refrigerador nem o corredor. Mas conseguia ouvir quem, ou o quê, estava na extremidade oposta, tossindo, gemendo, emitindo o soluço gorgolejante. “Ou gravemente ferido, ou fingindo estar gravemente ferido”, pensei. “Ou precisa de ajuda, ou é uma armadilha.” Continua...

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Depois da primeira onda, só restou a escuridão. Depois da segunda onda, somente os que tiveram sorte sobreviveram. Depois da terceira onda, somente os que não tiveram sorte sobreviveram. Depois da quarta onda, só há uma regra: não confie em ninguém. Agora A QUINTA ONDA está começando... Cassie está sozinha, fugindo dos Outros. Ela vive em uma Terra devastada, onde qualquer pessoa, até mesmo uma criança, pode ser o inimigo. Um inimigo que parece humano, que espreita em todos os lugares, pronto para aniquilar os últimos sobreviventes. Permanecer sozinha é permanecer viva – Cassie acredita nisso até encontrar Evan Walker. Mas será que ela pode confiar nele? Será que ele pode ajudá-la a resgatar o irmão? Chegou o momento em que Cassie deve escolher entre a esperança ou o desespero, entre enfrentar os Outros ou se render ao seu destino, entre a vida ou a morte. Entre desistir ou lutar! Do premiado autor best-seller Rick Yancey, este é o primeiro livro de uma trilogia épica excepcional, uma obra-prima da ficção científica, com acontecimentos impensáveis, perdas catastróficas e coragem inabalável.

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A 5° Onda  

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