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CADERNO DE CULTURA

PERNAMBUCO

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CADERNO DE CULTURA

PERNAMBUCO 2012

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pesar da pobreza em que há tanto tempo se debate o Nordeste — e que vem sendo enfrentada com coragem e eficiência pelo Presidente Lula —, do ponto de vista da Cultura o nosso Povo tem demonstrado uma força que me comove e me alenta. Certa vez, em Tracunhaém, um dos municípios mais pobres da Zona da Mata pernambucana, eu estava numa praça, quando, de repente, saiu de um beco um grupo de Maracatu Rural, o “Leão de Ouro”, que tanto como música quanto como dança era um esplendor e um exemplo para todos nós. Integrado em sua maioria por cortadores de cana e por suas mulheres e filhos, estavam todos os dançarinos cobertos de golas e mantos recamados de lantejoulas, espelhos e pedrarias. E eu fiquei ali, deslumbrado diante do milagre, sem saber nem poder explicar como é que esse Povo brasileiro cria tanta beleza no meio de tantas dificuldades. De um modo geral, dizem que o nosso Povo é um povo irresponsável exatamente por isso, porque gasta todas as suas parcas economias, conseguidas ao longo de um ano de trabalho, para, em apenas quatro dias, no Carnaval, vestir-se com roupas principescas, carregadas de pedrarias e metais baratos. A meu ver, esses metais populares, apesar de baratos, são mais valiosos do que os “verdadeiros” usados pelos ricos, porque contêm uma quantidade maior de sonho humano. E nisso que alguns vêem, em nosso Povo, um grave defeito, eu vejo uma de suas maiores qualidades – o sacrifício realizado para vestir-se, ao menos durante alguns dias do ano, à altura da sua dignidade e da sua grandeza. Por conta das dimensões continentais do nosso País, a Cultura brasileira só pode ser compreendida através da expressão “unidade na variedade”. É preciso que cada brasileiro, portanto, se preocupe em conhecer de modo mais profundo o seu chão, a sua aldeia, as suas tradições, os aspectos locais de sua cultura, para, num movimento de expansão, do local para o nacional (e daí para o universal), empreender o vôo de compreensão do universo maior da cultura brasileira, para que cada um, na medida de suas forças, possa valorizá-la e defendê-la dos que a querem descaracterizar e corromper. Louvo, portanto, a iniciativa da Secretaria de Educação de Pernambuco, que, ao publicar o presente “Caderno de Cultura”, disponibiliza para o estudante do ensino médio da nossa rede pública uma espécie de súmula da Cultura Pernambucana, nos seus múltiplos aspectos. E lembro, por fim, o que já disse em outras oportunidades, ou seja, que a Tradição verdadeira não pode jamais ser confundida com repetição ou rotina; que nela nós não cultuamos as cinzas dos nossos antepassados, mas sim a chama imortal que os animava e que temos o dever de legar aos que nos seguirão, renovada e recriada para expressar nosso Estado, nossa Região, nosso País, nosso Povo e nosso atormentado e glorioso tempo. ARIANO SUASSUNA


Sou o coração do folclore nordestino Eu sou Mateus e Bastião do boi-bumbá Sou o boneco do Mestre Vitalino Dançando uma ciranda em Itamaracá Eu sou um verso de Carlos Pena Filho Num frevo de Capiba Ao som da Orquestra Armorial Sou Capibaribe Num livro de João Cabral Sou mamulengo de São Bento do Una Vindo no baque solto de maracatu Eu sou um auto de Ariano Suassuna No meio da Feira de Caruaru Sou Frei Caneca do Pastoril do Faceta Levando a Flor da Lira Pra Nova Jerusalém Sou Luiz Gonzaga E eu sou do Mangue também


Eu sou mameluco, sou de Casa Forte Sou de Pernambuco, sou o Leão do Norte Sou Macambira de Joaquim Cardozo Banda de Pife no meio do canavial Na Noite dos Tambores Silenciosos Sou a calunga revelando o Carnaval Sou a folia que desce lá de Olinda O Homem da Meia-Noite eu sou puxando esse cordão Sou jangadeiro na festa de Jaboatão Eu sou mameluco, sou de Casa Forte Sou de Pernambuco, sou o Leão do Norte [Leão do Norte — Lenine e Paulo César Pinheiro]


O que é cultura? N

a sua origem latina, a palavra cultura refere-se à ação de cuidar, tratar, reverenciar. São diversas as compreensões de cultura: na agricultura refere-se ao cultivo da terra; na biologia trata do cultivo de células e tecidos vivos; na religião é o culto a uma divindade. No dicionário, a palavra cultura apresenta vários significados. Ela pode ser entendida como “a atividade artística ou intelectual e os trabalhos produzidos por estas atividades”. Ou “o desenvolvimento das faculdades sociais, morais e intelectuais através da educação”. Cultura pode também ser sinônimo de “um estilo de expressão artística ou social peculiar a uma sociedade.” E ainda designar “um alto grau de gosto e refinamento adquirido através de treino intelectual.” O sentido de cultura que queremos ressaltar neste caderno é o da cultura como herança social, que se adquire e se transmite de geração em geração. Aquela que é característica de um povo, de uma região, de uma sociedade. Temos ainda outros tipos de cultura, como a judaica, a nordestina, a hippie ou a do hip-hop. Cultura é também a totalidade das formas de explicar a origem da vida e de construir o abrigo, o templo ou a cidade. Envolve os padrões de comportamento de uma comunidade, as artes, as crenças e valores que aprendemos com nossos pais, familiares e com quem convivemos e trabalhamos. Tudo que criamos, todos os produtos do trabalho e do pensamento das pessoas, característicos de uma comunidade e de uma população, é cultura. São vivências seculares, atitudes, gestos, gostos que têm sua origem nas atividades que os povos vêm exercendo no mundo para garantirem sua sobrevivência e que vão se mantendo pela tradição, e ainda que repassamos às gerações que se sucedem.

Xilogravura (Bezerros) | Vaqueiro na caatinga | Sinagoga Kahal Zur Israel (Recife)


Os antropólogos definem cultura como um conjunto sistemático de representações, símbolos, idéias e valores, de crenças, de saberes e de expressão de criatividade. Para eles, cultura é também o conjunto de normas, de regras, de padrões de conduta, de modos de adaptação à natureza e de instituições que ditam as normas e regras sobre como as pessoas devem se relacionar e se organizar para conviver, produzir e garantir sua sobrevivência. A cultura se faz de coisas dinâmicas, conectadas a um sistema de relações entre as pessoas e os grupos sociais. Ela é, portanto, o traço que caracteriza uma sociedade, um povo, uma região, garantindo, acima de tudo, a sua identidade e a sua individualidade em face de um processo mais amplo que se vive no mundo inteiro. Na contemporaneidade, os acontecimentos locais influenciam ou são influenciados por fatos que ocorrem a milhares de quilômetros de distância e vice-versa. Neste intercâmbio, a cultura de um lugar pode ter o papel determinante de diferenciação. Numa perspectiva econômica, o peculiar, o singular torna-se matéria prima diferenciada no âmbito da indústria cultural.

Instituto de Educação de Pernambuco (Recife) | Arte rupestre | Grafitagem (Recife)

antropólogos

Os antropólogos estudam a origem e o desenvolvimento físico, social e cultural dos grupos humanos e o comportamento das pessoas.

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E a cultura brasileira? A

cultura brasileira formou-se das contribuições de indígenas, africanos e europeus que se conjugaram aqui, neste território, criando uma cultura distinta, que é a cultura brasileira. Ela é composta de bens de natureza material e imaterial, que constituem o patrimônio cultural brasileiro, que todos precisam conhecer e valorizar, difundir e preservar. “A sociedade e a cultura brasileira, resultantes de um processo de fusão de raças e etnias, têm outra característica distintiva que é sua extraordinária homogeneidade lingüística, cultural e étnica, alcançada pelo desfazimento e refazimento de suas matrizes européias, índias e negras. Aqui não se formou nenhuma camada ou quisto etnicamente diferenciado, disputando autonomia. Por toda a extensão do Brasil se fala uma mesma língua, menos marcada por sotaques regionais do que as falas de Portugal. E todos os brasileiros nativos, antigos e recentes, se identificam como um povo coeso, posto na mais bela província do planeta, em busca de seu destino”. [Ribeiro e Moreira Neto, 1992, p.57]

material e imaterial

Patrimônio material é aquele que é concretamente percebido, que tem aspecto exterior que seja corpóreo, palpável, visível: a arquitetura, a paisagem, os lugares, as obras de arte, as relíquias históricas. O Sítio Histórico de Olinda, patrimônio nacional tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), foi classificado pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade pela excepcionalidade da sua paisagem, da sua arquitetura e do seu urbanismo. Patrimônio imaterial compreende as expressões de vida e tradições que comunidades, grupos e indivíduos em todas as partes do mundo recebem de seus ancestrais, transmitindo esses conhecimentos a seus descendentes. Por exemplo, o frevo foi declarado pelo Ministério da Cultura, Patrimônio Cultural Imaterial. O bolo de rolo, assim como o bolo Souza Leão, é hoje Patrimônio Imaterial de Pernambuco. Vista aérea de Olinda Patrimônio da Humanidade


frevo É de fazer chorar, quando dia amanhece e obriga o frevo a acabar Oh quarta-feira ingrata chega tão depressa só pra contrariar! Quem é de fato um bom pernambucano espera um ano e se mete na brincadeira, esquece tudo quando cai no frevo e no melhor da festa vem a quarta-feira É de fazer chorar... [Quarta-feira ingrata — Luiz Bandeira]

Bloco Bacalhau do Batata (Olinda)

Passista de frevo


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A Matriz Os Povos da Floresta O espanto europeu na América tropical foi a indianidade, essa outra humanidade canibal e gentil que, longe dos mundos de então, se fizera a si mesma com o só propósito de existir curtindo a vida. Era o povo da floresta, ritmo das árvores gigantescas, das águas sem fim e de seus peixes inumeráveis, dos pássaros mil, e de toda sorte de bicho com os quais aprendera a conviver, deixando-os viver. [Ribeiro e Moreira Neto, 1992, p. 23]

Os Povos Lusitanos O português foi a cal jesuítica e o óleo genésico que argamassaram o saibro índio e o cascalho negro na edificação do Brasil. Foi o nervo dessas carnes e desses ossos que, a partir de seu punhadinho de gente, se multiplicou, prodigioso, lusitanizando o mundo, numa façanha inverossímil de tão grandiosa, impossível de se pensar, se não tivesse sido feita. [Ribeiro e Moreira Neto, 1992, p.43]

Os Povos da África Encontrando já constituída a protocélula luso-tupi, tiveram que nela aprender a viver. Aliciados para incrementar a produção açucareira, comporia o contingente fundamental da mão de obra. Apesar do seu papel como agente cultural ter sido mais passivo que ativo, o negro teve uma importância crucial, tanto por sua presença como massa trabalhadora que produziu quase tudo que aqui se fez, como por sua introdução sorrateira mas tenaz e continuada, que remarcou o amálgama racial e cultural brasileiro com suas cores mais fortes. [Ribeiro e Moreira Neto, 1992, p. 120]


Fundado nessa matriz é que se forma o Brasil, descrito por Roberto DaMatta como: O BRASIL do povo e das suas coisas. Da comida, da mulher, da religião que não precisa de teologia complicada nem de padres estudados. Das leis da amizade e do parentesco, que atuam pelas lágrimas, pelas emoções do dar e do receber, e dentro das sombras acolhedoras das casas e quartos onde vivemos o nosso quotidiano. Dos jogos espertos e vivos da malandragem e do carnaval, onde podemos vadiar sem sermos criminosos e, assim fazendo, experimentamos a sublime marginalidade que tem hora para começar e terminar”. [DaMatta, 1984, p.13]

detalhes do painel cerâmico Batalha dos Guararapes de Francisco Brennand (Recife)

As pessoas não têm existência separada da natureza. Há uma ligação muito forte entre a natureza e a forma como a cultura vai sendo criada. Quando uma é afetada, a outra também muda. As pessoas, em relação com a natureza e em relação com as outras pessoas, vão criando uma cultura típica de cada lugar. Assim acontece na região Nordeste, assim é em Pernambuco.

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O que é cultura nordestina? Nordeste compreende oficialmente nove estados: Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Per-

nambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia.

Esse imenso território, onde caberiam Alemanha, Dinamarca, Holanda, Bélgica, Suíça, França, Espanha e Portugal juntos, apresenta uma grande variedade de vegetação, solo e clima. [Garcia: 2005, p. 23]

Obedecendo a essa variedade, o Nordeste é dividido em quatro sub-regiões naturais: Zona da Mata,

Agreste, Sertão e Meio-Norte.

Nordeste

É uma área de 1.660.359 km², que corresponde a 19,5% do território nacional, onde vivem 51,5 milhões de pessoas, equivalente a cerca de 28% da população do País (IBGE 2007). Isso significa que quase um terço da população brasileira é de nordestinos, que ocupam quase um quinto do território nacional.

Vários Nordestes Aliás, há mais de dois Nordestes e não um. (...) As especializações regionais de vida, de cultura e de tipo físico no Brasil estão ainda por ser traçadas debaixo de um critério rigoroso de ecologia ou de sociologia regional, (...) que mostre que dentro da unidade essencial, que nos une, há diferenças às vezes profundas. [Freyre: 2004. p. 46]


Zona da Mata A Mata se estende do Rio Grande do Norte até a Bahia, numa faixa estreita do litoral, de clima tropical úmido e terras férteis, antigamente coberta pela Mata Atlântica e, hoje em dia, praticamente ocupada pelas monoculturas da cana-de-açúcar e do cacau.

Agreste O Agreste é zona de transição entre Mata e Sertão, de clima mais seco, tropical semi-árido, sujeito a secas periódicas. Aí se pratica uma agricultura mais diversificada, além de pecuária leiteira.

Sertão O Sertão tem clima seco, sujeito a estiagens prolongadas, é coberto pela caatinga, vegetação adaptada ao meio, e onde se instalaram, desde o começo da colonização, grandes fazendas de gado para fornecimento de carne às áreas litorâneas.

Meio-Norte O Meio-Norte, onde se registra uma transição para a Amazônia, estende-se pelo oeste do Piauí e por todo o Maranhão.

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Matrizes culturais Plantando mandioca, plantando feijão, colhendo café, borracha, cacau, comendo pamonha, canjica, mingau, rezando de tarde nossa ave-maria, Negramente... Caboclamente... Portuguesamente... A gente vivia. De festas no ano só quatro é que havia: Entrudo e Natal, Quaresma e Sanjoão! Mas tudo emendava, num só carrilhão! E a gente vadiava, dançava, comia... Negramente... Caboclamente... Portuguesamente... Todo santo dia! O Rei, entretanto, não era da terra! E gente pra Europa mandou-se estudar... Gentinha idiota que trouxe a mania de nos transformar da noite pro dia... A gente que tão Negramente... Caboclamente... Portuguesamente... Vivia! Moça na rede, José Cláudio (Olinda)

A cultura nordestina é marcada pela criatividade e se caracteriza pela diversidade e mistura. Nela coexistem várias tipos de culturas, cada qual preservando seus traços e diferenças. Em grande parte das manifestações da cultura nordestina é bem nítida a presença das três matrizes culturais formadoras da sociedade brasileira: Dos povos da floresta, herdamos o nome de grande parte dos rios, serras, montanhas, matas e lugares. Eles contribuíram com suas danças, como o toré e o caboclinho. Vem deles, o uso do tabaco, de ervas e remédios caseiros; a rede para dormir e o hábito do banho diário; as crenças e mitos, como o jurupari, a iara, o curupira; as lendas, como a de Tamandaré. No artesanato, predominam os cestos de palha trançada, os vasilhames de barro, as redes de dormir, os objetos de uso diário. 16

(E foi um dia a nossa civilização tão fácil de criar!) Passou-se a pensar, passou-se a cantar, passou-se a dançar, passou-se a comer, passou-se a vestir, passou-se a viver, passou-se a sentir, tal como Paris pensava, cantava, comia, sentia... A gente que tão Negramente... Caboclamente... Portuguesamente... Vivia! [História Pátria — Ascenso Ferreira]


Os africanos marcam a cultura nordestina com seus cantos, suas histórias, ritos e cerimônias, com sua religião e cultos, com suas danças como o coco e o bumba-meu-boi. Este último, misturado a influências européias e indígenas, gira em torno de temas comuns às sociedades pastoris. Na nossa alimentação, vêm da África a pimenta, a moqueca, o vatapá, a feijoada. No vestuário o gosto pelas vestimentas coloridas. Os portugueses trouxeram da Europa mitos de várias partes do continente, já incorporados ao imaginário do povo português, a exemplo do lobisomem, do cavalo-marinho, da mula-sem-cabeça e de tantas histórias populares. E ainda os autos natalinos como, por exemplo, o pastoril, o fandango ou a chegança, que relembra a luta entre mouros e cristãos. Trouxeram também certas comidas e a própria língua, que prevaleceu como a língua oficial e falada no Brasil. Dentro da diversidade e criatividade da cultura nordestina, incorporada na unidade da cultura brasileira, foi sendo forjada a cultura pernambucana, mesmo que tomando formas distintas e particulares. E é dentro dessa pluralidade nordestina que Pernambuco vai construindo história e cultura com características bem próprias.

Tamandaré

Quer dizer o repovoador, segundo diz a lenda tupi: quando as águas cresceram cobrindo a terra, todos os viventes pereceram. Tamandaré, porém, com sua família, subiu para o olho de uma palmeira, cujos frutos os sustentaram por todo o tempo que durou a inundação, até que ele pôde descer para tornar a povoar a terra.

Cestaria - Artesanato indígena

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E a cultura de Pernambuco?

omo maior produtor de açúcar do mundo nos séculos XVI e XVII, Pernambuco viabilizou o projeto colonial português no Brasil. Ao longo da sua história, destacou-se pelas lutas nativistas e libertárias, de resistência ao domínio português, pela independência e instauração da República. . Destaca-se também, historicamente, como um centro irradiador da cultura. Em 1827, D. Pedro I sanciona lei que permite o funcionamento dos primeiros cursos jurídicos do Brasil, em São Paulo e Olinda. Essa vocação para a formação permanece através de instituições como a Universidade Federal de Pernambuco.

A tradição de luta é uma marca que tornou Pernambuco conhecido por sua rebeldia e inconformismo. Ela se traduz numa viva participação popular em movimentos sociais e culturais, de resistência à exploração, caso dos quilombos, do cangaço e das ligas camponesas, e de inovação na busca de novos caminhos e formas de expressão cultural, que se revelaram, por exemplo, no Movimento de Cultura Popular (MCP), no Movimento Armorial e no Manguebeat.

Tudo isso vai formar o caldo da cena multicultural pernambucana.


Marco comemorativo ao movimento republicano de 1710 (Olinda)

Pernambuco

A origem do nome Pernambuco tem várias hipóteses. A mais aceita pelos historiadores é a de que significa, do tupi Paranã-Puca, “buraco de mar ou mar furado”, que era como os índios conheciam a foz do rio Santa Cruz, em Itamaracá. Também se interpreta como “onde o mar se rompe ou arrebenta”, em referência ao choque das ondas com os paredões de recifes de arenito existentes em quase todo o litoral pernambucano. lutas libertárias A história de Pernambuco se caracteriza pelas rebeliões contra os governos coloniais e imperiais. Já em 1710, um movimento em Olinda reivindicava a independência do Brasil e a instalação de um regime republicano. A Revolução de 1817 proclamou a República, aboliu impostos e defendeu a liberdade de culto e de imprensa. O 6 de março, dia de sua eclosão, é oficialmente a data magna de Pernambuco. Reprimidos pelo Governo Imperial, os pernambucanos rebelaram-se novamente em 1824, na chamada Confederação do Equador. Em 1848, eclode outro movimento revolucionário, a Revolução Praieira, cujos integrantes lutavam por ideais republicanos e libertários. “A Praia foi um dos raros movimentos de massa em nossa história política. Geralmente, as nossas revoltas têm sido mais resultantes de impulsos das elites intelectuais do que mesmo impelidas pelo povo”. [Quintas, 2004, p.39] Praia de Muro Alto (Ipojuca)

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LOCALIZAÇÃO DE ALGUMAS COMUNIDADES QUILOMBOLAS

Fonte: “Quilombolas – Tradições e Cultura da Resistência”, Rafael Sanzio Araújo e André Cipriano, Aori Comunicação, São Paulo, 2006

Quilombos

Os quilombos eram comunidades onde os escravos que fugiam passavam a viver, a partir de 1580, num movimento de resistência à escravidão. O mais importante deles foi o de Palmares, que ficava na Serra da Barriga, na divisa de Pernambuco e Alagoas. Chegou a reunir 20 mil habitantes em aldeias, governados por um rei. Os quilombolas dedicavam-se à agricultura, à pesca, à coleta de frutos e ao artesanato, num regime em que a terra pertencia a todos. O governo colonial português e os proprietários de engenho organizaram 18 expedições militares para aniquilar Palmares, que somente foi vencido, em 1695, depois de quase um século de lutas. Detalhe do painel Frei Caneca - Revolução de 1817, Cícero Dias (Recife)

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Cangaço O cangaço foi um fenômeno social complexo, que eclodiu em meio às injustiças sociais e fundiárias do Nordeste brasileiro. O mais conhecido dos cangaceiros foi Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, também chamado rei do cangaço e governador do sertão. Os membros do seu bando usavam cabelos compridos, lenço em volta do pescoço, grande quantidade de jóias e perfumavam-se exageradamente.

Virgulino Ferreira da Silva, Lampião Lampião e Padre Cícero cena do filme O Baile Perfumado


Ligas Camponesas As ligas camponesas foram associações de trabalhadores criadas inicialmente no Engenho Galiléia, em Vitória de Santo Antão, e seus membros exerceram intensa atividade a partir de 1955. A princípio arrecadavam recursos para enterrar os mortos, até então depositados em vala comum. Ampliaram suas atividades para assistência médica e jurídica, contra ameaças, expulsões e falta de indenização por benfeitorias das terras, entre outras questões. As ligas camponesas transformaram-se em símbolo da reforma agrária, numa ação política que atraiu para Pernambuco a atenção do mundo. O movimento desagregou-se em 1964, mas não foram desarticuladas suas reivindicações básicas, que continuam sendo defendidas, ainda hoje, por outras formas de organização - sindicatos e movimentos dos sem-terra.

Movimento das Ligas Camponesas

Movimento de Cultura Popular - MCP O MCP foi criado em 1960, com sede no Sítio da Trindade, no Recife, pelo professor Paulo Freire e por outros educadores. Atendia às camadas populares por meio de ações culturais e educacionais. O trabalho, coletivo, visava ao desenvolvimento e à valorização da cultura local: as produções culturais tradicionais vividas pela população e também os valores culturais existentes nacionalmente. Era feito através de apresentação de espetáculos em praça pública, organização de grupos artísticos, oficinas e cursos de arte, exposições, edições de livros e cartilhas. Esse trabalho ganhou dimensão nacional e serviu de modelo para movimentos semelhantes criados em outros estados brasileiros. Com o golpe militar de 1964, o MCP foi extinto. Turma de alfabetização do método Paulo Freire (Sítio Juá)

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Movimento Armorial

O Movimento Armorial surge no início da década de 70, liderado por Ariano Suassuna. Seu objetivo é valorizar a cultura popular do Nordeste brasileiro, ao realizar uma arte brasileira erudita a partir das raízes populares da cultura do país. Reúne nomes importantes da cultura pernambucana, além de grupos como o Quinteto Armorial, o Grupo Grial de Dança e o Quarteto Romançal, com interesses pela pintura, música de viola, rabeca ou pífano, literatura de cordel, cerâmica, dança, escultura, tapeçaria, arquitetura, teatro, xilogravura e cinema.

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Iluminogravura de Ariano Suassuna

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Lucio Maia, Chico Science, Tony e Fred 04 (Recife)

Manguebeat

Movimento artístico-cultural criado no início da década de 90, no Recife, a partir da iniciativa das bandas Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S.A. Tendo como uma das referências a obra de Josué de Castro, o movimento resgatou a imagem do homem-caranguejo e do mangue sobre o qual se consolidou a cidade do Recife. A biodiversidade do mangue, como ecossistema, foi associada a uma fusão de estilos, locais e globais, capaz de tornar a cena cultural do Recife tão rica quanto sua situação geográfica.

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Cena do espetรกculo da Paixรฃo de Cristo (Brejo da Madre de Deus)


Como a cultura de Pernambuco se expressa? E

xistem, pelo menos, dois modos básicos que se complementam para se reconhecer a cultura dos lugares: um quantifica e o outro qualifica.

Um modo é utilizar informações oficiais. É procurar dados demográficos, econômicos e geográficos. É quantificar o que se produz e estabelecer indicadores dessa produção. Podemos verificar os dados relativos ao sistema político e educacional para saber o número de alunos escolarizados, o índice de analfabetismo e quantas escolas existem nas diferentes regiões do estado. Por exemplo, o projeto Travessia, que trabalha com o Ensino Médio no estado de Pernambuco, teve um total de 1.900 telessalas, com professores ensinando a mais de 14 mil alunos. Esses dados, baseados em estatísticas, permitem construir uma identidade social e quantificar a cultura do grupo dos alunos do Telecurso, de acordo com os critérios oficiais estabelecidos por sistemas, tais como o governo ou as agências internacionais. Assim, a definição da cultura pode chegar através de critérios quantitativos, reconhecidos oficialmente. Outro modo de reconhecer a cultura é descobrindo de que maneiras ela se exprime: identificar como se revela um estilo, um modo ou um jeito de ser e de fazer as coisas. Buscar dados qualitativos, tentar entender significados e o sentido do ser e fazer coisas. Isso não se mede somente por indicadores e dados estatísticos, nem pelo número de praças, prédios históricos ou monumentos.

informações oficiais

Pernambuco tem uma área de 98.311 quilômetros quadrados, onde vive uma população de 8.413.593 de habitantes, distribuídos em 184 municípios e mais o território estadual de Fernando de Noronha. Quase 80% da população, ou mais de 6 milhões de pessoas, vivem nas áreas urbanas [IBGE, 2007]. Está localizado na região centro-leste do Nordeste brasileiro e seu relevo geográfico é formado pela planície litorânea, planalto central e depressões a oeste e a leste. Sua vegetação característica é formada pelo mangue (Litoral), floresta tropical (Zona da Mata) e caatinga (Agreste e Sertão). Os principais rios que banham o estado compõem as bacias do São Francisco, Capibaribe, Ipojuca, Una, Pajeú e Jaboatão. O clima é tropical atlântico (no Litoral) e semi-árido (no Agreste e no Sertão).

Boi Pintado de Grimário (Aliança)

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Porto de Suape (Ipojuca)

No período colonial, Pernambuco tornou-se um grande produtor de açúcar e durante muitos anos foi responsável por mais da metade das exportações brasileiras. Com o advento da República, Pernambuco procura ampliar sua rede industrial, mas continua marcado pela tradicional exploração do açúcar. O Estado moderniza suas relações trabalhistas e lidera movimentos para o desenvolvimento do Nordeste, como no momento da criação da Sudene. A partir de meados da década de 60, Pernambuco começa a reestruturar sua economia, ampliando a rede rodoviária até o Sertão e investindo em pólos de desenvolvimento no interior do estado. Os principais produtos agrícolas do estado são a mandioca, o feijão, a cana-de-açúcar e o milho. Já na área mineral, o estado tem significativas jazidas de calcário e gipsita. Tem uma indústria tradicional de transformação de minerais não metálicos, confecções, mobiliário e curtume. Nos anos 90, consolidam-se os setores de ponta da economia pernambucana, sobretudo aqueles ligados ao setor de serviços. O turismo é uma dessas atividades que vêm se desenvolvendo, na capital e no interior, aproveitando não apenas as belas paisagens como também a enorme tradição cultural do estado.


Também no setor da Tecnologia da Informação o estado tem presença destacada, abrigando dezenas de empresas produtoras de equipamentos (hardware) e programas (software), a partir da base de conhecimento construída pelas universidades e empresas da área. O Pólo Médico do Recife, um dos mais importantes do país, tem atraído clientes de todo o Nordeste, em busca da excelência dos seus serviços. O desenvolvimento tem começado a se expandir para o interior, com áreas de grande dinamismo, como o Pólo de Confecções do Agreste (Caruaru, Santa Cruz do Capibaribe e Toritama), o Pólo de Gesso, no oeste do estado (Araripina e municípios vizinhos), e a área irrigada do Vale do São Francisco (Petrolina e adjacências), produtora de frutas e vinhos.

Pólo gesseiro (Chapada do Araripe)

No complexo portuário-industrial de Suape, novas indústrias de ponta estão sendo instaladas, como um estaleiro para construções de grandes navios petroleiros e uma refinaria de petróleo. Fábricas de vacinas e hemoderivados estão em construção em Goiana e vão constituir o pólo farmacoquímico. Tudo aponta para um desenvolvimento sustentável e moderno, com a criação de empregos e aumento da renda no estado nos próximos anos. [GOVERNO DE PERNAMBUCO, 2007] Pólo de fruticultura irrigada (Vale do São Francisco)

Empresa do Porto Digital (Recife)


Praias do Meio, Conceição e Morro do Pico (Fernando de Noronha)


Tapioqueira (Olinda)

O pernambucano também constrói sua memória cultural com as coisas do dia-a-dia: os sons, os cheiros, as paisagens. Ao beber água de coco, a gente vivencia os mesmos sabores com os quais se deliciavam os nossos avós e bisavós. Da maneira de preparar a goma da tapioca, até o ato de consumir a carne de bode de sal preso, há toda uma tradição cultural, uma relação com o passado e o presente, ligando gerações e gerações. Tudo que torna viva a herança pernambucana, que se acende ao ouvir os sons dos clarins e dá um arrepio na espinha! A diversidade e a mistura da cultura pernambucana fazem com que ela seja uma das mais vivas e fortes do Brasil.

Tirador de cocos


Um cantador de viola e um show de hip-hop, uma poesia de Manuel Bandeira, um boneco de barro de Mestre Vitalino, um show da banda Nação Zumbi, uma escultura de Francisco Brennand, o filme Cinema, Aspirinas e Urubus, o mamulengo, um santo barroco, uma xilogravura de J. Borges, um quadro de Samico, um frevo de Nelson Ferreira ou a Orquestra do Maestro Duda, tudo isso é cultura pernambucana. Como também a mania de falar “visse?”, os temperos e cheiros, o jeito de brincar o Carnaval e o São João, o Mercado de São José no Recife, as carrancas de dona Ana e seus seguidores em Petrolina, os santos e as figuras de barro de Tracunhaém e Goiana, as noites cheias de movimento de Olinda e o giro das cirandas de Itamaracá, as rendas e os bordados de Poção e Passira, o coco-de-roda, as loas do maracatu rural, as toadas do Mestre Salu, é tudo cultura de Pernambuco.

Artesanato em barro (Caruaru)

Xilogravura A Dama da Noite, Gilvan Samico (Olinda)


Figura de barro de Mestre Vitalino (Caruaru)

filme

Muitos filmes têm sido realizados em Pernambuco, alcançando repercussão nacional e sendo premiados em festivais de cinema de todo o mundo. Essa produção recente retoma antiga tradição cinematográfica, como o famoso Ciclo do Recife, na década de 20 do século passado.

Cartaz do filme Cinema, Aspirina e Urubus

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Tupinambá Sou Pataxó, sou Xavante e Cariri, Ianonami, sou Tupi Guarani, sou Carajá. Sou Pankararu, Carijó, Tupinajé, Potiguar, sou Caeté, Fulniô, Tupinambá.

GENTES

Uma terra de misturas Os povos nativos da nação Tupinambá habitavam quase todo o litoral brasileiro. Em Pernambuco pertenciam principalmente às tribos Tabajara, Caeté e Tapuia. Dentre seus traços socioculturais peculiares podemos destacar a forma coletiva de viver e habitar, mas também a educação das crianças, tarefa de toda a comunidade, e os ritos de passagem para a idade adulta. Descendentes desses povos habitam ainda hoje o agreste e o sertão. LOCALIZAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS EM PERNAMBUCO

[Chegança – Antonio Nóbrega e Wilson Freire]

Tabajara, Caeté, Tapuia

Os Tabajaras (tawa, aldeia, e yara, senhor, literalmente “o senhor da aldeia”) foram um povo que habitou a zona da mata e o agreste. Os Caetés viviam na região que vai da foz do Rio São Francisco à Ilha de Itamaracá. A sua alimentação baseava-se fundamentalmente em mandioca e em peixe. Os Tapuias (ou Jês), denominação genérica dada aos grupos que não falavam línguas do tronco tupi, habitavam no interior, como os Cariris e os Fulniôs. Escultura em fachada de imóvel (Recife)

Índios Pankararus (Petrolândia)


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O colonizador português era fruto do somatório de vários povos e culturas miscigenadas, que deixaram fortes marcas. Ainda hoje podem-se perceber elementos da cultura moura na paisagem pernambucana, a exemplo do uso do azulejo em igrejas, conventos, residências, banheiros, bicas e chafarizes; da telha chamada colonial, dos balcões, da janela quadriculada, da gelosia e das paredes grossas.

Janela com gelosia (Olinda)

Torre da Igreja de N. Sa. do Terço (Recife)

Balcão mourisco (Olinda)


Mais tarde, entraram na composição social os africanos de diversas partes da África Ocidental. Povos que vieram deportados, como escravos. Etnias inteiras, provenientes de diversas nações, que muitas vezes sequer falavam a mesma língua entre si e, conseqüentemente, possuíam identidades culturais diferentes. Esses povos deixaram profundas marcas nos nossos costumes, no modo de falar, na culinária, na dança, na música, no vestuário, nas crenças.

etnias

A etnia qualifica a maior unidade tradicional de consciência de espécie, no ponto de encontro do biológico, do social e do cultural: comunidade lingüística e religiosa, relativa unidade territorial, tradição míticohistórica, tipo comum de organização do espaço. [Akoun:1994]

Grupo de dança Daruê Malungo (Olinda)

Loja de artigos religiosos (Recife)


Da passagem dos holandeses em Pernambuco no século XVII (1630-1654) ficaram incontáveis realizações no campo das artes, da literatura e das ciências. Eles trouxeram para o Novo Mundo o espírito do Renascimento. O registro da natureza e da paisagem, do povo, da vida e dos costumes locais, feitos por pintores, cartógrafos, aquarelistas, astrônomos, naturalistas e desenhistas trazidos pelos holandeses são hoje documentos de valor inestimável para dar lastro à compreensão do que vieram a se tornar as sociedades pernambucana e brasileira.

passagem dos holandeses

Em 1621 é criada a Companhia das Índias Ocidentais, empresa privada que recebe do governo da Holanda o monopólio do comércio, navegação e conquista em toda a área do Atlântico entre as Américas e a África. Sem intenção de se fixarem na terra, o objetivo dos holandeses era lucro rápido, explorando os recursos naturais do país ocupado. Busto de Maurício de Nassau (Recife)


Vista de Olinda, Frans Post (Recife)

Os achados arqueológicos da primeira sinagoga das Américas, no bairro do Recife, testemunham a tolerância religiosa que se estabeleceu neste período contemporâneo das perseguições religiosas da Inquisição. Do que cada povo trouxe de suas culturas e juntou à cultura dos povos indígenas se foi fazendo e se tecendo a cultura deste pedaço do Brasil.

Pernambuco é uma terra forjada na mistura de suas gentes. Palácio Boa Vista, construído pelo Conde de Nassau em 1643. Gravura baseada em desenhos de Frans Post


língua

COSTUMES

Um modo de falar e de curar O falar é talvez a maior expressão da cultura de um povo. Mas é o falar do povo, sendo transmitido de geração a geração, que vai dando dinamicidade à língua, ao denominar saberes, costumes e sentimentos característicos de um lugar, paisagem ou território. A forma de se expressar dos pernambucanos assume, por vezes, as características de um dialeto, tal as invenções do povo a criar o seu próprio jeito de falar. A língua vai assim se ampliando e, de uma forma dinâmica, tomando o colorido especial que determinadas palavras conseguem traduzir.

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros Vinha da boca do povo na língua errada do povo Língua certa do povo Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil [Evocação do Recife (trecho) - Manuel Bandeira]

jeito de falar

A mãe entrou tão azuretada que o pai aboticou os olhos e reclamou: “Deixe de pantim, mulher”! ̶ Este menino anda muito biqueiro, visse? Só come brebote e depois se queixa de gastura! Vive naquele muquifo, vagabundando, e quando a gente se aperreia e reclama, inda faz a maior gréia.

O costume de usar ervas para cura de doenças advém dos pajés e curandeiros, que nos legaram os conhecimentos e as técnicas para lidar com ervas, plantas e cascas. A sua utilização na fabricação de remédios permanece um costume ainda bem vivo na vida de grande parte da população. As ervas são facilmente encontradas nas feiras e mercados, que fornecem ainda o modo de fazer, conselhos e recomendações sobre o uso, adicionando rituais de benzimentos, simpatias e orações. São usadas em chás, infusões, banhos, emplastros, pós, ungüentos, xaropes ou lambedores.

costume

Um comportamento usual, um comportamento prescrito de acordo com as regras e normas de uma sociedade. Atitudes e valores sociais advindos da tradição e transmitidos de geração em geração.

lambedor de mastruz

Nas gripes, para expectorar, não tem igual! Macerar as folhas numa vasilha. Colocá-las num pano e espremer até extrair o sumo. Misturar com leite morno, reservar e acrescentar mel de uruçu.


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ARTES

Uma arte viva Do sertão ao cais, a arte popular pernambucana é um atestado da vitalidade de nossa cultura. O artesanato de Pernambuco se espalha por todas as regiões do estado. Das olarias, onde peças utilitárias de barro são produzidas — alguidares, quartinhas, jarras —transcendem as cozinhas e viram peças ornamentais. Mas a evolução dessa produção utilitária não pára por aí: rendas, couro, madeira, cestaria, bordados, tapeçaria constituem um patrimônio expressivo da tecnologia e do imaginário do povo pernambucano.

MAPA CULTURAL

SERTÃO Terra das caatingueiras, da poesia, do xaxado e dos sanfoneiros, do vaqueiro e do aboio, da carne de sol e de bode, do São Francisco e das carrancas,da fruta e do vinho, dos caretas, dos bonecos gigantes e da bicharada.

AGRESTE Terra da Feira de Caruaru, dos papangus, dos caiporas, do artesanato de barro e couro, das bandas de pífano, dos cordéis, da moda, da renda, das flores, do espetáculo da Paixão de Cristo, dos repentistas e cantadores.

ZONA DA MATA Terra dos engenhos e da rapadura, da tapeçaria, dos maracatus e dos caboclinhos, da boa cachaça e de seus alambiques, das praias e dos jangadeiros, da ciranda e do coco de roda.

REGIÃO METROPOLITANA Terra dos mangues, dos movimentos sociais, da nova cena cinematográfica e musical, das cidades históricas com suas igrejas, sobrados e casarios seculares, da identidade político-libertária, do frevo, dos altos coqueiros e da multiculturalidade. Recife e Olinda, patrimônio histórico-cultural da humanidade.

ARQUIPÉLAGO DE FERNANDO DE NORONHA Ilhas de águas de identidade cultural plural, paraíso ecológico marinho, patrimônio mundial, de águas transparentes e tesouros naturais; marcas humanas expressas no coco, no samba, na capoeira, no Maracatu Nação Noronha.

Carranca (Rio São Francisco), Vestimenta de couro de vaqueiro, Renda, Brinquedo popular e Fuxico.

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folhetos de cordel

Conhecida pelo povo como folhetos de feira, a literatura de cordel, trazida da Espanha e de Portugal, assumiu características próprias por aqui. Relata fatos históricos, encantados, humorísticos da vida cotidiana, vidas de santos e de grandes líderes ou ainda antigas histórias de cavalaria.

Os folhetos de cordel, ilustrados por xilogravuras, são uma marca registrada da nossa gente. Nos folhetos, os poetas retratam a alma do povo, em suas histórias rimadas e metrificadas.

xilogravura

A xilogravura é uma técnica simples de impressão, na qual a matriz é de madeira e o desenho é entalhado em alto relevo. A partir do início do século XX, começou a ser usada para ilustrar as capas dos folhetos de cordel aos quais ficou associada por muitos anos. Hoje, os gravuristas trabalham temas independentes, ilustram livros ou fazem pôsteres e são reconhecidos como uma expressão de qualidade de nossas artes gráficas.

Impressão de xilogravura


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Outro aspecto da arte pernambucana é a cantoria de viola. Os temas improvisados vão do desafio jocoso entre dois violeiros aos fatos da atualidade, passando pelo lirismo da vida sertaneja até a exaltação do amor e da saudade.

cantoria de viola

Os poetas se apresentam em dupla, declamando versos sugeridos (motes) pela platéia ou banca dos torneios, sobre os quais fazem seus improvisos (glosas), acompanhados pelo som da viola. Além de obedecer às rimas e métrica predeterminadas, os cantadores se exercitam em dezenas de gêneros, todos com regras específicas em termos de quantidade de sílabas e colocação e tipo das rimas.

Saudade Saudade é um parafuso Que na rosca quando cai, Só entra se for torcendo, Porque batendo não vai E depois de enferrujar dentro, Nem distorcendo não sai. Saudade tem cinco fios Puxados à eletricidade, Um na alma, outro no peito, Um amor, outro amizade, O derradeiro, a lembrança Dos dias da mocidade. Antônio Pereira de Moraes (Itapetim, PE)

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Mote: E o dia não amanhece Glosa: Berra o bode no chiqueiro, Relincha, longe, o cavalo, Pia o pinto, canta o galo Ciscando pelo terreiro; A vaca, no tabuleiro, Muge fazendo uma prece! O candeeiro estremece, Chia o grilo na parede, Chora o menino na rede E o dia não amanhece! Antônio Marinho (São José do Egito, PE)

Mote: Mulher não tem coração Glosa: Um cientista profundo Solivcitou-me, uma vez, Que eu enumerasse os três Desmantelos deste mundo. Eu respondi num segundo: Doido, mulher e ladrão! E disse mais a razão: Doido não tem paciência, Ladrão não tem consciência, Mulher não tem coração. Lourival Batista (São José do Egito, PE)

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Outra expressão da arte pernambucana, que continua no gosto do povo, é a do teatro de bonecos ou mamulengo. Basta armar a tenda no meio da feira que junta uma porção de crianças e adultos para assistir ao espetáculo. Os personagens do mamulengo, além de engraçados, costumam fazer crítica social e política.

mamulengo

O mamulengo é uma representação de dramas e comédias por meio da manipulação de bonecos, em pequeno palco coberto por uma empanada. Os bonecos são manejados com luva, vareta, haste ou fio. Muitos dos diálogos são inventados na hora, de acordo com as circunstâncias e a reação do público. Os personagens mais conhecidos são Benedito, Cabo 70, Professor Tiridá, João Rodondo. Há ainda cobras, onças, bois, cachorros, vaqueiros, fazendeiros e bandidos, além de entidades sobrenaturais como o Diabo e a Morte.

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Apresentação de Mamulengo (Glória do Goitá)


COMIDAS

Sabores para todos os gostos Dos tachos e caldeirões dos engenhos à aspereza das panelas de barro nos sertões saem inúmeros pratos típicos. Neste amálgama está o que hoje forma a nossa culinária: da rapadura, da tapioca, do bode e do surubim defumado aos sucos de fruta, cocadas, bolinhos de goma, doces e bolos refinados. A cozinha vai se moldando às características de cada território e formando o mapa culinário do estado em função da fauna, da flora e das heranças e contribuições dos grupos sociais. O cozido, a peixada e o sarapatel são clássicos portugueses revisitados. Do litoral: a peixada, a agulha frita, o camarão de coco e o siri mole. Do sertão: a buchada e o bode guisado ou assado. A cabidela africana e a farofa de bolão dos índios completam este cardápio multicultural. Numa sociedade cuja base econômica foi o açúcar, a doçaria pernambucana usufrui de toda a variedade de frutas regionais: há doces de jaca, banana, goiaba, araçá; em calda, em barra, como geléia... Alguns bolos e doces são ligados a determinadas festas, como os filhós ao carnaval e o pé-de-moleque ao São João; outros são onipresentes como o bolo Souza Leão e o bolo de rolo.


peixada

Feita à moda pernambucana, exige postas grandes de peixe - a cavala, o camurim, a garoupa, a cioba, a arabaiana, a pescada. É cozida com legumes - tomate, cenoura, batata, chuchu e leva leite de coco e suco de limão. Do caldo resultante é preparado o pirão, com farinha de mandioca.

buchada

Um dos mais tradicionais pratos da cozinha sertaneja, a buchada é preparada com o bucho do bode ou do carneiro, recheado com um picadinho de sangue, tripas e fígado, refogado com limão, alho, cebola e temperos. Também se come com pirão.

pé-de-moleque

O pé-de-moleque pernambucano tem por base a massa de mandioca e leva açúcar mascavo, castanha de caju, manteiga, cravo, erva-doce e sal. É obrigatório nas mesas durante as festas juninas.

bolo de rolo

Enrolado em camadas finíssimas de uma massa de farinha de trigo, manteiga, ovos e açúcar, recheado com goiabada derretida, o bolo de rolo é levado como presente sempre que um pernambucano viaja para outros lugares.

Preparo de rapadura

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Carnaval de Olinda


FESTAS

Festas de todos os povos Em Pernambuco, o sagrado e o profano se misturam também nas festas. O calendário religioso sinaliza as datas e manifestações coletivas, que se estendem por todo o ano: o início da quaresma, a Semana Santa, o São João e o Natal são referências para as mais diversas expressões de identidade cultural. O sentimento religioso se faz ver através de procissões e outros ritos, mas as festas daí decorrentes são motivo para a criação de um cenário que vai envolver a música, a dança, as brincadeiras e as comidas de época.

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O Carnaval está na alma do pernambucano. Desde o Sábado de Zé Pereira, quando os clarins de Momo anunciam a festança, as gentes fantasiadas e mascaradas invadem as ruas das principais cidades. O povo se organiza em blocos, troças, clubes, caboclinhos, maracatus, ursos. Existe uma multiplicidade de ritmos sem igual. O frevo, patrimônio imaterial de Pernambuco, impera com seu ritmo acelerado e seus passos acrobáticos. O jeito de ser pernambucano está todo aí, na música, na dança, nas roupagens, nos artefatos musicais.


frevo

O nome vem do verbo ferver, pronunciado pelo povo frever. A dança se chama passo e é uma coreografia em que o passista executa passos acrobáticos como a “dobradiça” a “tesoura” ou o “parafuso”. Musicalmente, o ritmo se divide em frevo-de-rua - instrumental, com predominância de metais nas orquestras e andamento muito acelerado, frevo-canção - cantado e menos frenético e frevo-de-bloco lento, interpretado por coral feminino e acompanhado por orquestra de sopro e cordas.


frevo-de-rua

Esse tipo de frevo não tem letra, pois é instrumental. Alguns dos mais populares são: Último dia, de Levino Ferreira; Come e dorme, de Nelson Ferreira; Cabelo de fogo, do Maestro Nunes; Fogão, de Sergio Lisboa. Sem falar no Vassourinhas, de Matias da Rocha e Joana Batista, espécie de hino no carnaval pernambucano que faz a multidão acender ao ouvir os primeiros acordes.

Carnaval de rua do Recife


frevo-canção Quando a vida é boa Não precisa pressa Até quarta-feira A pisada é essa Prá que vida melhor Fale quem tiver boca Eu nunca vi coisa assim Oh que gente tão louca Eu quero ver Carvão queimar Eu quero ver queimar carvão Eu quero ver daqui a pouco Pegar fogo no salão. [A Pisada é Essa - Capiba]

frevo-de-bloco Felinto... Pedro Salgado... Guilherme... Fenelon... Cadê teus Blocos famosos? Bloco das Flores... Andaluzas... Pirilampos... Após Fum... Dos carnavais saudosos! Na alta madrugada O coro entoava Do bloco a marcha-regresso Que era o sucesso Dos tempos ideais Do velho Raul Moraes Adeus, adeus, minha gente Que já cantamos bastante... E Recife adormecida Ficava a sonhar Ao som da triste melodia... [Evocação nº1 - Nelson Ferreira] Carnaval de rua do Recife


As festas juninas, celebradas de 12 de junho, véspera de Santo Antônio, a 28 do mesmo mês, véspera de São Pedro, têm seu auge na véspera do dia de São João, 23 de junho. Os fogos de artifício, as fogueiras e adivinhações dão um colorido especial às noites, resgatando antiqüíssimas tradições populares. É a época das quadrilhas, do forró e das comidas de milho: pamonha, canjica, pé-de-moleque, milho assado. Por toda a parte, só se ouvem os sons da sanfona, do zabumba e do triângulo. As festas têm intensa participação popular.

forró

O forró é um gênero musical que engloba vários ritmos como o baião, o xote, o xaxado. As festas onde se tocam e dançam esses ritmos também são chamadas forró e Luiz Gonzaga é o expoente maior desse gênero.

fogueiras

As fogueiras de São João são uma tradição de origem pagã, para celebrar as noites de verão do hemisfério norte e incorporada depois pelo cristianismo. Conta a lenda que Santa Isabel, mãe de São João e prima de Maria, combinou acender uma fogueira para avisá-la do nascimento do seu filho.

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adivinhações Eu vou mostrar pra vocês Como se dança o baião E quem quiser aprender É favor prestar atenção Morena chegue pra cá Bem junto ao meu coração Agora é só me seguir Pois eu vou dançar o baião Eu já dancei balancê Chamego, samba e xerém Mas o baião tem um quê Que as outras danças não têm Oi quem quiser é só dizer Pois eu com satisfação Vou dançar cantando o baião Eu já cantei no Pará Toquei sanfona em Belém Cantei lá no Ceará E sei o que me convém Por isso eu quero afirmar Com toda convicção Que sou doido pelo baião [Baião - Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira]

...A cozinha da nossa casa no Engenho Pontable era um laboratório. Mais de vinte mulheres, mexendo alguidares, dando ponto em goiabadas, torrando castanhas de caju, desnudando espigas, ralando coco, enrolando bolinhas cambará, davam-se de corpo e alma ao êxito de festa. Dali saíam dois bolos inesquecíveis: o de mandioca e o pé-demoleque, que atraíam gente de longe para comê-los com café torrado e moído (no pilão) no quintal da nossa casa. Quando dava meia-noite, começavam as adivinhações. Minhas irmãs iam cravar facas virgens nos troncos das bananeiras e, no dia seguinte, não sei por que, amanhecia uma letra na folha da faca. Cada uma ia buscar um copo, com água até a metade, derramava uma clara de ovo dentro e, misteriosamente, no fundo do copo aparecia uma igreja ou um cemitério, agourando mortes e casamentos. Nos pratos fundos, cheios de água também, pingavam cera de vela, até aparecer uma letra boiando. Ante os meus olhos ansiosos e assustados, tudo aquilo era verdade, predição de Deus e dos santos. [Véspera de São João - Antonio Maria]


Qual é o jeito de ser e de fazer pernam C

omo estamos vendo ao longo deste Caderno, são muitos e ricos os registros do jeito de ser pernambucano. Todas as gentes do estado, dos habitantes mais anônimos aos mais conhecidos, vêm tecendo, nas mais variadas formas de expressão, a cultura de Pernambuco, como está presente em tudo que mostramos até aqui e ainda na música, no teatro, na ficção, na poesia. E é ainda o caso de tantos outros exemplos que cabe a vocês, agora, mostrar: como a cultura dos pernambucanos, com seu jeito de ser e de fazer, vai alimentando e enriquecendo a cultura brasileira.

Música O sabiá no sertão Quando canta me comove, Passa três meses cantando E sem cantar passa nove... Porque tem a obrigação De só cantar quando chove! Chover! Chover! Valei-me Ciço, o que posso fazer? Chover! Chover! Um terço pesado pra chuva descer! Chover! Chover! Até Maria deixou de moer! Chover! Chover! Banzo, Batista, bagaço e banguê! Chover! Chover! Cego Aderaldo peleja pra ver! Chover! Chover! Já que meu olho cansou de chover... Chover! Chover! Até Maria deixou de moer! Chover! Chover! (...)

Choveu! Choveu! Inácio e Romano meu verso e o teu! Choveu! Choveu! Água dos olhos que a seca bebeu! Quando chove no sertão, O sol deita e a água rola O sapo vomita espuma Onde um boi pisa se atola... E a fartura esconde o saco Em que a fome pedia esmola! Seu boiadeiro por aqui choveu! Seu boiadeiro por aqui choveu! Choveu que amarrotô... Foi tanta água que meu boi nadou! [Chover ou a Invocação para um dia líquido Lirinha e Clayton Barros – Cordel do Fogo Encantado]


nambucano?


poesia

Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro; de um outro galo que apanhe o grito que um galo antes e o lance a outro; e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos. E se encorpando em tela, entre todos, Se erguendo tenda, onde entrem todos, Se entretendendo para todos, no toldo (a manhã) que plana livre de armação. A manhã, toldo de um tecido tão aéreo Que, tecido, se eleva por si: luz balão. [Tecendo a Manhã - João Cabral de Melo Neto]

teatro

João Cabral de Melo Neto Rua da Aurora (Recife)

Inquisidor Dr. Penico Branco: — Vou fazer-lhe outra pergunta, tome nota do recado: quero que você me diga o que é mal-empregado.

Primeira e única montagem da peça A Donzela Joana

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Joana: — Doutor, eu vou lhe dizer o que é mal-empregado: é uma moça bonita casar com rapaz safado; é um vaqueiro ruim num cavalo bom de gado; paletó de pano fino num corpo mal-amanhado; é um cabra preguiçoso abrir um grande roçado: se ele planta, não limpa, perde o legume plantado. Disso tudo é que se diz: Ó, meu Deus, mal-empregado! [A Donzela Joana - Hermilo Borba Filho]


ficção

Na véspera da viagem, enquanto eu a ajudava a arrumar as coisas na maleta, pensava que no dia seguinte estaria livre e imaginava o amplo mundo no qual iria desafogar-me: passeios, domingos sem missa, trabalho em vez de livros, mulheres nas praias, caras novas. Como tudo era fascinante! Que viesse logo. Que as horas corressem e eu me encontrasse imediatamente na posse de todos esses bens que me aguardavam. Que as horas voassem, voassem! Percebi que minha avó não me olhava. A princípio, achei inexplicável ela fizesse isso, pois costumava fitar-me, longamente, com uma ternura que incomodava. Tive raiva do que me parecia um capricho e, como represália, fui para a cama. Deixei a luz acesa. Sentia não sei que prazer em contar as vigas do teto, em olhar para a lâmpada. Desejava que nenhuma dessas coisas me afetasse e irritava-me por começar a entender que não conseguiria afastar-me delas sem emoção. Minha avó fechara a maleta e agora se movia, devagar, calada, fiel ao seu hábito de fazer arrumações tardias. A quietude da casa parecia triste e ficava mais nítida com os poucos ruídos aos quais me fixava: manso arrastar de chinelos, cuidadoso abrir e lento fechar de gavetas, o tiquetaque do relógio, tilintar de talheres, de xícaras. Por fim, ela veio ao meu quarto, curvou-se: – Acordado? Apanhou o lençol e ia cobrir-me (gostava disto, ainda hoje o faz quando a visito); mas pretextei calor, beijei sua mão enrugada e, antes que ela saísse, dei-lhe as costas. (...) [A Partida (trecho) - Osman Lins]

Antiga Estação Ferroviária (Vitória de Santo Antão)

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Parque de esculturas, Francisco Brennand Arrecifes do Porto do Recife


No ponto onde o mar se extingue e as areias se levantam cavaram seus alicerces na surda sombra da terra e levantaram seus muros do frio sono das pedras. Depois armaram seus flancos: trinta bandeiras azuis plantadas no litoral. Hoje, serena, flutua, metade roubada ao mar, metade à imaginação, pois é do sonho dos homens que uma cidade se inventa. [O Início – Guia Prático da Cidade do Recife - Carlos Pena Filho]


Hino de Pernambuco

Letra: Oscar Brandão da Rocha - Música: Nicolino Milano

Coração do Brasil! Em teu seio Corre sangue de heróis - rubro veio Que há de sempre o valor traduzir És a fonte da vida e da história Desse povo coberto de glória, O primeiro, talvez, no porvir. Coro Salve! Oh terra dos altos coqueiros! De belezas soberbo estendal! Nova Roma de bravos guerreiros Pernambuco, imortal! Imortal! II Esses montes e vales e rios, Proclamando o valor de teus brios, Reproduzem batalhas cruéis. No presente és a guarda avançada, Sentinela indormida e sagrada Que defende da Pátria os lauréis.

Coro Salve! Oh terra dos altos coqueiros!... III Do futuro és a crença, a esperança, Desse povo que altivo descansa Como o atleta depois de lutar... No passado o teu nome era um mito, Era o sol a brilhar no infinito Era a glória na terra a brilhar! Coro Salve! Oh terra dos altos coqueiros!... IV A República é filha de Olinda, Alva estrela que fulge e não finda De esplender com seus raios de luz. Liberdade! Um teu filho proclama! Dos escravos o peito se inflama Ante o Sol dessa terra da cruz!


A bandeira de Pernambuco é a bandeira da Revolução de 1817, que foi oficialmente adotada nas festividades do seu centenário. A cor azul do retângulo superior simboliza a grandeza do céu pernambucano; a cor branca representa a paz; o arco-íris tricolor (verde, amarelo, vermelho) representa a união de todos os pernambucanos; a estrela caracteriza o estado no conjunto da Federação; o Sol é a força e a energia de Pernambuco; finalmente, a cruz representa a fé na justiça e no entendimento.

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Créditos

Referências Bibliográficas

AKOUN, André. Dicionário de Antropologia, São Paulo: Editora Verbo, 1994. DAMATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro, Salamandra, 1984. FREYRE, Gilberto. Nordeste — Aspectos da influência da cana sobre a vida e a paisagem do Nordeste do Brasil. São Paulo, Global, 2004. GARCIA, Carlos. O que é o Nordeste. Recife, Comunigraf, 2005. GOVERNO DE PERNAMBUCO. Disponível em http://www2.pe.gov.br/home/home.html Acesso em: 12 de Março de 2008. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA — IBGE. Disponível em http://www. ibge.gov.br/home/ Acesso em: 26 de Janeiro de 2008. QUINTAS, Amaro. O sentido social da Revolução Praieira. Rio de Janeiro, Atlântida, 2004. RIBEIRO, Darcy e MOREIRA NETO, C. A. A fundação do Brasil: testemunhos 1500-1700. Petrópolis, Vozes, 1992. P. 03, 24 e 25 - Texto Introdutório / Iluminogravura Onça Castanha / Iluminogravura 1980 / Alfabeto Armorial Ariano Suassuna Acervo do Instituto Maximiano Campos P. 04 e 05 - “Leão do Norte” Lenine/ Paulo César Pinheiro Trama/ EMI P. 06 e 37 - Figura de barro —padre / Figura de boi Mestre Vitalino Fundação Joaquim Nabuco/ Museu do Homem do Nordeste P. 06 - Interior da Sinagoga Kahal Zur Israel / Rua do Bom Jesus / Recife P. 10 —“É de fazer chorar (Quarta-feira ingrata)” Luiz Bandeira Fermata do Brasil/ Rio Musical Ltda. P. 15 - “Árvore carnaúba” Juan Pratginestós/ SambaPhoto

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P. 16 - “Moça na rede” José Cláudio da Silva Coleção particular: Adriana Dória Matos / Breno Laprovitera P. 16 - “Poema História Pátria” Ascenso Ferreira P. 20 - “Frei Caneca- Revolução de 1817” Cícero Dias Simões de Assis Galeria de Arte/ Comitê Cícero Dias P. 22 - Foto do filme “O baile perfumado” Arquivo Paulo Caldas P. 22 - Foto de Virgulino Ferreira da Silva, Lampião Direitos AbaFilm e Sociedade do Cangaço Foto: B. Abrahão P. 23 - Foto Turma de Alfabetização de 1962 do Método Paulo Freire Arquivo pessoal Ana Maria Araújo Freire P. 23 e 48 - Foto Movimento das Ligas Camponesas / Foto boneca de artesanato Fundação Joaquim Nabuco/ Museu do Homem do Nordeste P. 26 e 27 - Espetáculo “Paixão de Cristo” Robinson Kennedy de Mendonça Pacheco P. 29 e 61 - “Boi Pintado de Grimário” José Grimário da Silva P. 36 - “A Dama da Noite” Gilvan Samico P. 37 - Cartaz do filme “Cinema, Aspirinas e Urubus” REC Produtores Associados Ltda. P. 38 - “Chegança” Wilson Freire/ Antonio Nóbrega P. 39 - Índios Pankararus de Petrolândia Cacique José Auto dos Santos/ Terra indígena Pankararu Fundação Nacional do Índio- FUNAI

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P. 42 - Crianças do grupo de dança Daruê Malungo Centro de Educação Cultural Daruê Malungo P. 43 - Loja de artigos religiosos “Tenda dos Orixás” Augusto José Reis de Carvalho P. 44 e 45 - “Palácio Boa Vista, construído pelo Conde de Nassau em 1643, à oeste da Cidade Maurícia, às margens do Rio Capeberibe” Gravura baseada em desenhos de Frans Post, publicada para o livro de Gaspar Barleus. “Vistas de Olinda” Têmpera sobre papel Dimensões: 25,1 x 41,2 cm Frans Post Acervo do Instituto Ricardo Brennand. Recife, PE, Brasil. P. 50 - “As Bailarinas” J.Borges P. 51 - “As proezas de João Grilo” (trecho) João Ferreira de Lima Academia Brasileira de Literatura de Cordel P. 53 - “Mulher não tem coração” Lourival Batista (São José do Egito, PE) P. 53 - “E o dia não amanhece” Antonio Marinho (São José do Egito, PE) P. 54 - Boneco de Mamulengo Acervo do Museu do Mamulengo (Espaço Tiridá) P. 54 e 55 - Mamulengo do Riso de Zé Lopes José Lopes da Silva Filho (Gloria do Goitá, PE) P. 61 - “Cavalo Marinho” Mestre Salustiano Manuel Salustiano Soares P. 64 e 65 - “Carnaval de rua do Recife, 1947” Foto: Alexandre Berzin Fundação Joaquim Nabuco

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P. 65 - “A pisada é essa” Capiba Copyright: © 1952, Todamerica Edições Ltda. sucessora de Melodias Populares Ltda. P. 65 - “Evocação (Evocação n° 1)” Nelson Ferreira /Copacor Edições Musicais Ltda. ADDAF P. 67 - “Baião” Luiz Gonzaga/ Humberto Teixeira Copyright: © 1946, Todamerica Edições Ltda. sucessora de Editora Musical Brasileira Ltda. P. 67 - “Véspera de São João” (trecho) “Para um possível livro de lembranças” (trecho) Antonio Maria P. 68 - “Chover (ou Invocação para um dia líquido)” Letra: Lirinha/ Clayton Barros Música: Clayton Barros P. 70 - “Tecendo a manhã” In: A Educação pela Pedra de João Cabral de Melo Neto © by herdeiros de João Cabral de Melo Neto P. 70 - Trecho da peça teatral “A Donzela Joana” Hermilo Borba Filho Editora Vozes (1996); Editora Massangana (Fundaj)/ Bagaço (2004); Ministério da Cultura (O Teatro Escolhido de Hermilo Borba Filho - 2007). Autorizado por Leda Alves. P. 70 - Foto da montagem da peça “A Donzela Joana” (1978) Divisão de Teatro Universitário da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) P. 71 - “A partida” (trecho) Osman Lins P. 73 - “O Início- Guia Prático da Cidade do Recife” Carlos Pena Filho

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Equipe Técnica

Concepção e Supervisão Pedagógica Vilma Guimarães Desenvolvimento de Conteúdo Ana Cristina Loureiro Jurema (coordenação) Homero Fonseca Noé Sergio do Rêgo Barros Coordenação Pedagógica Célia Farias Equipe Pedagógica Anna Elisa Zidanes Cláudia Picanço Ludmila Figueiredo Projeto Gráfico e Diagramação Romero Pereira Capa Dotz Design Fotografias Fred Jordão Roberta Guimarães (Imago Fotografia) Arte Final Carlos Montenegro Digitalização e Tratamento de Imagens Robson Lemos Revisão Maria da Graça Bello de Campos

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