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JANEIROFEVEREIROMARÇO2013

GERAL

Ser jovem hoje

A crise de valores e a perda de identidade parecem caracterizar a vivência actual da sociedade. Neste contexto de grande dispersão e profunda crise social, os jovens juntamente com a família, são o anel mais exposto e mais vulnerável de toda a cadeia social. Entre as mui-

tas questões que surgem frequentemente, existe uma em particular que parece atrair o interesse: “È possível a coerência com os valores cristãos para os jovens?” A resposta está na multiplicidade de experiências positivas e encorajadoras de muitos dos nossos jovens brilhantes que escolhem caminhos para reafirmar a centralidade de Deus e do homem em uma sociedade que favorece o exterior e aquilo que é desumano. Tenhamos sempre muito cuidado quando – na televisão e nos jornais – ouvimos falar de jovens desajustados e destruídos que se tornam os protagonistas de cenas de

violência, de solidão e de conflitos. Isso revela apenas uma parte de uma realidade que, muitas vezes, é diferente. Este ano, no Natal tive uma experiência com os jovens da Obra dos Ardinas. Celebramos a festa do Natal numa grande simplicidade mas muito rica, quer a nível dos símbolos, cânticos e da participação dos jovens, marcados por uma sociedade que os marginaliza, mas que viveram a Eucaristia com muita fá, apesar da sua pouca formação religiosa. Para mim marcou-me muito a forma como eles viveram este acontecimento. Tive a certeza que neles há ainda espaço para a espe-

Padre Valdemar F.C. rança e a confiança, as quais não podemos ignorar. Quem não tem confiança nos jovens é cego e surdo, porque não sabe ver a realidade nem ouvir a verdade, que são muito diferentes de como nós imaginamos.O mal faz sempre mais barulho que o bem. Hoje pergunto se não gastamos muito tempo em considerações inúteis sobre os jovens e não aprendemos a olhar ao redor para tentar essa multidão silenciosa de esperança, que cresce se dirigindo a Deus. Se cada um de nós olhar bem e escutar bem não será difícil localizar jovens comprometidos e ansiosos para crescer no conheci-

mento da verdade. Senhor, jesus, dá-nos olhos claros que superem as turvas sugestões do mal, fazendo com que possamos ver a riqueza de inúmeros jovens que continuamente te escolhem, que se doam para aqueles que são mais fracos e que, com suas vidas,Te louvam. Te dou graças pelos formadores destes jovens dos Ardinas que com muito amor e carinho dão o melhor de si mesmo para que eles cresçam no amor e na justiça e descobrem que vida tem sentido e vale apena lutar por ela.Teço-te, Senhor Jesus que estes coordenadores sejam para eles, pai, mãe e irmão.

Crimes sem castigo

“A Economia tem de ser humana, tem de ser para as pessoas” (Dr. Guilherme de Oliveira Martins) Testemunho III É urgente mudar, a começar por nós próprios, procurando converter o coração e a mente à energia transformadora do Amor. “Abre os olhos e reconhece a pobreza. Escuta atentamente a voz dos pobres. Abre o coração e encontra-te com os outros. Abre o espírito e apercebe-te: somos todos humanos!” A indiferença, o desprezo, o desrespeito, o excessivo individualismo, a insensibilidade social e humana, a falta de atenção ao próximo, da compaixão, constituem pecados individuais e sociais. As suas consequências mais se agravam, aprofun-

dam e tornam evidentes com a crise que, cada vez mais, nos amargura, reduz espaço de confiança e de esperança, retira alegria de viver, expande medos e aprofunda insegurança, exaurindo-nos. Para onde caminhamos? Que presente e que futuro se está a construir? “Sem vida é muito difícil falar de esperança”. Repito o que já escrevi: é urgente podermos restaurar a confiança, potenciar a esperança, lutar para criar uma nova ordem social, onde as pessoas realmente contem, compreender melhor porque chegámos à atual situação de penúria, também de anti valores, à nomeada crise, refletirmos que tipo de pessoa queremos educar e formar, para que tipo de Sociedade a (re) construir. Em relação à Obra do Ardina, é urgente encontrar respostas enquadradas, estruturadas e sistémicas, para apoiar jovens saídos da adolescência, a partir dos 18 anos de idade, alguns já jovens adultos, a encontrar o lugar a que têm direito na sociedade, que lhes possibilite viver em condições propícias de dignidade, ter e desenvolver os seus projetos de vida, serem os atores das suas vidas.

São jovens que NADA têm, a não ser a vida para viver, da qual são os principais responsáveis e já respondem perante a Lei. Têm deveres com a sonegação de básicos direitos. Estes jovens não têm família, quando a família existe não tem condições para poder ser um real suporte, não têm trabalho (nem qualquer meio de subsistência), não têm um teto onde se possam abrigar (um lar), e já não têm idade para continuar ao abrigo das instituições, que os acolheram, educaram e onde cresceram… Reflitamos que,“nem todos os frutos amadurecem ao mesmo tempo…” Em que condições podem realmente viver? Como podem dar alguma resposta eficaz ao apelo da vida? É como se não tivessem o real direito à existência. É evidente que se trata de um problema também de Direitos Humanos. Reflitamos empaticamente: Perante uma situação de múltiplas carências, em inevitável sofrimento, que projetos de vida se podem arquitetar e desenvolver? Como se pode viver harmoniosamente as energias e pulsões vitais que a natureza desperta, como se pode assumir

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Fernando Carvalho

uma dinâmica de vida continuada e em construção? Com que sentida liberdade, autonomia, alegria e felicidade? Como podem ter sonho, iniciativa,segurança,viver Amor e ser amados? Como podem acalentar esperança e desenvolver ideais? Como podem ser jovens no tempo de o serem? Estamos perante quadros de vida que parecem ser surreais, mas que, todavia, são cruelmente reais. São jovens que já não tiveram o calor do berço (um Lar), vindos de “ninhos quebrados”, que cresceram e caminham já fragilizados, carentes de tudo, que não podem ter real presente nem promissor futuro, são vidas que correm o risco de se perder, à mercê de tudo o que, neste vazio de sufoco traumático, lhes possa acontecer. Que crimes cometeram estes jovens para serem tornados proscritos e tão severamente punidos? Para onde e para quê estão a ser empurrados? Não há lugar para eles na sociedade? Pensemos: Como se repercutirão estas situações, de múltiplas carências, não só de ordem materialmente básica e que indeléveis

marcas deixarão para a vida, também ao nível do necessário equilíbrio psicoafectivo? Estas situações limite podem levar a um extremo cansaço e desencanto, ao desespero… As feridas da alma são sempre as mais dolorosas, as mais difíceis de sarar e ultrapassar, no que ainda for possível ser ultrapassado. Os Serviços do Estado, sobretudo das áreas do social e do trabalho, onde têm recorrido à procura de alguma resposta, de algum apoio, parecem não funcionar, não orientam para qualquer solução ajustada. Estes jovens não são números de estatística, têm rostos, são pessoas, cidadãos, querem amar e ser amados, ser pessoas de bem, úteis para si e para a sociedade, viverem dignidade, poderem evoluir, serem cidadãos plenos. Lançamos um alerta: Precisamos do vosso apoio,ajudem-nos a ajudar. Se, de algum modo, quiserem apoiar esta causa, escrevam para o jornal O Ardina, ao cuidado do seu Diretor, Prof.Alexandre Martins. Um abraço fraterno e um Bom Ano de 2013, o melhor possível. Obrigado.

A Cidade e o desemprego - parte II - 2013

Em Setembro do ano anterior escrevia sobre a cidade e o desemprego. Entre-

tanto, nestes escassos quatro meses, para desalento de tantos, cada vez em maior número, a cidade do desemprego em Portugal em vez de diminuir ou mesmo estabilizar, aumentou. Quais os efeitos secundários? In-feli-cidade? Na Obra do Ardina, por exemplo,os jovens que aí são acolhidos e se encontram no momento de iniciar trabalho continuam sem saber como fazer parte das engrenagens

produtivas do país. Se estiverem ávidos de soluções, espreitam os jornais ou os telejornais em horário nobre e ficarão ainda mais deprimidos. A cidade é cada vez mais lugar de desencontro entre os decisores-austeros-do-sacrifício e os decididos-do-trabalho-sem-alternativa. Contudo, a cidade, em dueto com águas fluviais, ergue-se em pontes. Em Lisboa é assim. À primeira ponte sobre o Tejo, a partir de 1974, deu-se

o nome da revolução – Ponte 25 de Abril. À segunda deu-se o nome de um conquistador – Ponte Vasco da Gama. A terceira Ponte,não sobre o Tejo mas que atravesse a Cidade do Desemprego de ponta a ponta, entre decisores e decididos, a Ponte Humana,por ventura actualmente a mais Desejada, a que vença nevoeiros e más marés, é a – Ponte Sem Ninguém – porque não se faz, não se er-

gue, não tem pilares. Porquê? Porque não há um real diálogo entre os que podem e os que não podem, porque a maior construção de todas, a Construção Humana, a única sem a qual nenhuma cidade se teria construído desde que o mundo é mundo, não se viabiliza. Em Lisboa, como no país inteiro, não há verdadeira ponte, edificada nos únicos pilares que a poderiam sustentar – os da Vontade e da

Solidariedade políticas. Estes pilares, já nos diziam na escola, não são os das pontes das cidades ou dos países, são os da Cidade dos Sem Lugar, os da Utopia. Sem Ponte entre governantes e desempregados, o direito inalienável e essencial ao trabalho permanece uma Miragem, para desalento de todos. Cristina Veora Lisboa

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