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AGRADECIMENTOS Geralmente uma segunda edição deve ser a mais fiel possível à primeira. Não foi aqui o caso. Na hora de conferir os dados nos deparamos com milhares e talvez milhões de páginas lançadas na internet pelos arquivos públicos, em especial no site da Biblioteca Nacional. Com um sistema de busca eficiente, resgatamos milhares de documentos da nossa história, assim, de última hora, que fizeram mudar radicalmente o conteúdo deste livro. Dessa forma, saiu um trabalho quase que inteiramente novo. Por isso acrescentamos ao título da obra, o subtítulo: Novos Apontamentos. Uma pesquisa que demoraria anos e anos para ser concluída, fizemos em poucos dias. Foi uma grande correria e para isso contei com a ajuda de diversas pessoas, sem as quais não teria vencido o prazo estipulado pela Lei Municipal de Incentivo e Fomento à Cultura de Balneário Camboriú. Aos colaboradores meus agradecimentos: à Fundação Cultural e seus funcionários pela compreensão, ajuda e paciência na composição do Plano de Trabalho. À Dagma Castro pela composição desse plano e paciência com relação às repetidas prorrogações por causa dos meus atrasos. Ao colega Magru Floriano por todos os tipos de ajuda na fase da pesquisa, suas valiosas sugestões, composição e revisão do conteúdo. À professora Tereza da Silva Santos pela ajuda na composição do texto e revisão. À minha filha, historiadora Tárcila da Silva Borba Corrêa, pela parceria na pesquisa e ajuda na composição dos textos e revisão final. À sobrinha Almira Luiza pela ajuda na correção do texto. Aos funcionários da câmara municipal de Porto Belo por abrir seus arquivos para a pesquisa. Aos funcionários dos arquivos públicos, em especial os do Arquivo Publico do Estado e os de Joinville pelo atendimento on-line que me facilitou a pesquisa, evitando viagens desnecessárias ao local. Ao genealogista Telmo Tomio pela ajuda quanto à decodificação de registros antigos da igreja de Penha. Aos patrocinadores e àqueles que contribuíram com fotos e depoimentos. Fizemos tudo com uma rapidez fora do comum. Espero que tenhamos eliminados os erros mais crassos. A todos, muito obrigado!


© Isaque de Borba Corrêa Capa: Praia de Camboriú 1935. Gentileza de Marlene Karin Werner. Restauração e colorização de Volnei Vogel. Diagramação: Raôni Corrêa e Luiz Nascimento

Composição e impressão - Gráfica e Editora: Impressul Indústria Gráfica Ltda.

FICHA CATALOGRÁFICA Catalogação da Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina 961.64 c824h Corrêa, Isaque de Borba, 1960 História de duas cidades:Camboriú e Balneário Camboriú / Isaque de Borba Corrêa -- Balneário Camboriú: 2a ed. do Autor, 2019 148p. : il. : 26,5 cm 1. Camboriú - História 2. Balneário Camboriú História. I. Título.

Contato: isaqueborba@gmail.com /isaquedeborba.correa

O Projeto nº 22/2018 - Edital CP LIC 006/2017- é patrocinado pela Lei Municipal de Incentivo e Fomento à Cultura de Balneário Camboriú DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

© Direitos reservados


SUMÁRIO AGRADECIMENTOS .......................................................................................................... 3 PREFÁCIO DA PRIMEIRA EDIÇÃO ..................................................................................... 13 PREFÁCIO .......................................................................................................................... 15 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 16 DE ARRAIAL A CAPITAL DO TURISMO: ARRAZOADO GERAL ........................................ 19 O DISTRITO PRAIA DE CAMBORIÚ .................................................................................. 22 CAMBORIÚ ENTRE A AGRICULTURA E O TURISMO ........................................................ 25 A EVOLUÇÃO DO TOPÔNIMO CAMBORIÚ ....................................................................... 28 PEQUENA FREGUESIA, ILUSTRES VISITANTES............................................................... 30 ANO DE 1779 – VISITA DO GOVERNADOR DA CAPITANIA JOÃO ALBERTO MIRANDA RIBEIRO ..30 ANO DE 1816 - O CRONISTA PORTUGUÊS PAULO JOZÉ MIGUEL DE BRITO. .................................30 ANO DE 1821- O BOTÂNICO FRANCÊS AUGUST SAINT-HILAIRE. ..................................................30 ANO DE 1851- O ENGENHEIRO JOÃO DE MELLO E ALVIM. .............................................................31 ANO DE 1858 - O MÉDICO ALEMÃO AVÉ-LALLEMANT. ..................................................................32 ANO DE 1894- DOM JOSÉ CAMARGO BARROS – BISPO DO PARANÁ E SANTA CATARINA ..........32

O REAL CORTE DA MADEIRA E SUA RELAÇÃO COM O POVOAMENTO NA REGIÃO ..... 35 A EXTRAÇÃO DA MADEIRA – E OS PRIMEIROS NÚCLEOS COLONIAIS EM SANTA CATARINA .......................................................................................................................... 40 A LENTA E GRADUAL LIBERAÇÃO DO CORTE DA MADEIRA .......................................... 41 MADEIRA PARA CONSTRUÇÃO NAVAL ............................................................................ 44 A SEGURANÇA DA PROVÍNCIA E O CORTE DA MADEIRA ............................................... 45 A ABUNDÂNCIA DA MADEIRA E A DIFICULDADE EM EXPLORÁ-LA .............................. 47 A CARTA RÉGIA ................................................................................................................. 48 AS CONCESSÕES DE SERRARIAS...................................................................................... 51 O MODELO SESMARIAL E AS DIFICULDADES DE ENTRAR NESSE SISTEMA ................. 53 O ESQUEMA DA FUNDAÇÃO DE COLÔNIAS E SEUS PRINCIPAIS ATORES...................... 56 O FIM DA COLÔNIA NOVA ERICEIRA ............................................................................... 58 A CRIAÇÃO DE PORTO BELO............................................................................................. 59 QUEM FOI O INTENDENTE MIGUEL DE MELO E ALVIM ................................................. 61 O ENGENHEIRO JOÃO DE MELO E ALVIM E SEU PROJETO DE MUDANÇA ..................... 63 O GOVERNADOR TOVAR DE ALBUQUERQUE .................................................................. 65 A QUESTÃO SESMARIAL E A OCUPAÇÃO EM CAMBORIÚ ............................................... 68 A CHEGADA DO CONSELHEIRO VASCONCELOS DE DRUMMOND NA REGIÃO ............. 71 DRUMMOND E A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL .............................................................. 72


DRUMMOND - E A SONDAGEM POLÍTICA ....................................................................... 74 DRUMMOND E O OURO .................................................................................................... 77 DRUMMOND E A MADEIRA .............................................................................................. 78 OCUPANTES DO ITAJAÍ-MIRIM ANTES DE DRUMMOND ............................................... 80 QUEM FOI ANACLETO JOSÉ PEREIRA DA SILVA .............................................................. 82 QUEM FOI AGOSTINHO RAMOS ....................................................................................... 84 BALTAZAR PINTO E SUA PROXIMIDADE COM AGOSTINHO E ANACLETO .................... 89 OS SUCESSORES DE BALTAZHAR ..................................................................................... 95 OCUPANDO A FOZ DOS RIOS ........................................................................................... 97 FIM DO GRUPO ARTICULADOR .................................................................................102 CANTO DA PRAIA E PRAIA BRAVA ................................................................................... 104 O FIM DA ENSEADA DAS GAROUPAS E O NASCIMENTO DE PORTO BELO .................... 111 A PRFERÊNCIA PELA PRAIA BRAVA.................................................................................... 112

PRAIA BRAVA DENTRO DO CONTEXTO CAMBORIÚ ....................................................... 113 NEM PORTOS, NEM ARMAÇÕES, NEM INDÚSTRIA PUDERAM CONTER O ÊXODO....... 116 AS ARMAÇÕES DE BALEIA - ATRAINDO COLONIZADORES............................................ 119 UM POUCO DE HISTÓRIA DEMOGRÁFICA DA PRAIA BRAVA ......................................... 121 ATRAVESSANDO PARA A MARGEM SUL .......................................................................... 125 O PORTINHO DO CANTO DA PRAIA................................................................................. 127 O PORTO DE CAMBORIÚ................................................................................................... 129 O SERTÃO INCULTO E OS ENTRAVES COM OS ÍNDIOS ................................................... 134 O ALDEAMENTO ............................................................................................................... 136 A PARCERIA DE BALTAZHAR FOI COM ANTÔNIO ROSA OU ANTÔNIO COSTA? ........... 137 QUEM FOI ANTÔNIO DIAS DA COSTA.............................................................................. 140 A SESMARIA - DIREITOS E DEVERES............................................................................... 144 O PERFIL DE BALTAZHAR PINTO CORRÊA ..................................................................... 148 DADOS PESSOAIS DE BALTAZHAR PINTO CORRÊA ........................................................ 151 POVOS PRÉ COLONIZAÇÃO EUROPEIA ............................................................................ 153 CONHECIMENTO EM ARQUEOASTRONOMIA ................................................................. 155 OUTROS POVOS MAIS RECENTES .................................................................................... 157 O BANDEIRANTE DO BEM ............................................................................................... 160 QUEM FOI JOSÉ DE BORBA COELHO................................................................................ 162 O BANDEIRANTE DO MAL ............................................................................................... 166 MAIS BRIGAS, MAIS DEGOLAS ......................................................................................... 170 OLHO POR OLHO, DENTE POR DENTE ............................................................................ 171


A SAGA DE TOMAZ GARCIA.............................................................................................. 174 O EPÔNIMO GARCIA ......................................................................................................... 181 A TRANSFERÊNCIA DA SEDE ........................................................................................... 184 MUDAR AO INVÉS DE CRIAR ............................................................................................ 187 A LENDA DA MALDIÇÃO DO ALMEIDA ........................................................................... 190 QUEM FOI PADRE JOÃO RODRIGUES DE ALMEIDA ......................................................... 192 A PARÓQUIA DE BOM SUCESSO ....................................................................................... 193 CAPELA DE SANTO AMARO.............................................................................................. 194 A MATRIZ DE NOSSA SENHORA DO BOM SUCESSO ....................................................... 197 OS ORATÓRIOS DO CANTO DA PRAIA ............................................................................ 201 A VISITA DO MISSIONÁRIO PAULO BIOLCHINE.............................................................. 205 PADRES COM OPINIÕES DIFERENTES ............................................................................ 207 OS RELATÓRIOS DO PADRE PETERS ................................................................................ 210 VISÕES DIVERGENTES SOBRE O MESMO LUGAR ........................................................... 214 A VISITA DE SANTA PAULINA A CAMBORIÚ ................................................................... 216 BENJAMIM VIEIRA E A CAUSA DA EMANCIPAÇÃO DA IGREJA ....................................... 218 FINALMENTE A MATRIZ DO ESPÍRITO SANTO ............................................................... 221 CAMBORIÚ - BERÇO DA REPÚBLICA EM SANTA CATARINA ........................................... 222 PRIMITIVOS CAMINHOS E AS PRIMEIRAS ESTRADAS ................................................... 225 CAMINHO DO MORRO DO BOI ......................................................................................... 230 A PRAIA QUE NEM PARA ESTRADA SERVIA .................................................................... 233 A ESTRADA EM 1835 ......................................................................................................... 234 TRANSFORMANDO CAMINHO EM ESTRADA .................................................................. 236 A ESCRAVIDÃO EM CAMBORIÚ ....................................................................................... 239 CONSTRUÇÃO CIVIL EM BALNEÁRIO CAMBORIÚ ......................................................... 246


PREFÁCIO DA PRIMEIRA EDIÇÃO O Livro de Isaque de Borba Corrêa sobre os dois camboriús: o velho e o novo, o pai e o filho, o Camboriú e o Balneário Camboriú, mistura histórica com crônica de família, no bom estilo de Gabriel Garcia Marques, no seu “Cem anos de solidão”. Ninguém melhor que Isaque para registrar os fatos que constam neste Livro. Ele é bom pesquisador, tem paciência para remexer velhos arquivos paroquiais e, sobretudo, participa da Historia através da sua numerosa família, começa com Baltazhar e se espraia pelos Corrêa e os Germano. Isaque é um jovem e não farei a injustiça de dizer que fez um trabalho perfeito. Falta-lhe ainda a vivência e até a malÍcia de historiador na interpretação de fatos. Mas na verdade é que conseguiu produzir um livro que será de extraordinária utilidade para aqueles que depois desta geração, quiserem fazer um trabalho de maior fôlego sobre estas duas cidades: a velha Camboriú e sua filha jovem bela: Balneário Camboriú. Quando há 31 anos passados, fiz um pequeno trabalho de divulgação turística, intitulando “Álbum Fotográfico Descritivo da Praia de Camboriú”, fui procurar o patriarca Manoel Germano Corrêa, avô de Isaque, para me transmitir a sua vivência de pescador e pioneiro da nascente estância balneária. Isaque mais feliz do que eu, não precisou procurar o velho Manoel Germano: criou-se com ele, aprendeu a falar no convívio do avô austero e bigodudo. E por isso, seu Livro tem muito de crônica familiar, sem tirar a absoluta honestidade descritiva que e´a marca dos Germanos, gente séria e temente a Deus, tradicionalista. O patriarca Manoel Germano transmitiu à sua numerosa descendência, o gosto pelas coisas do mar, o tempo generoso para as observações dos homens, dos ventos, das marés e das tainhas. Isaque valeu-se dessa herança atávica e colocou-a no seu primeiro Livro. Um Livro ainda com marcas da imaturidade. Mas já com o valor das coisas feitas com amor e seriedade.

SILVEIRA JÚNIOR Cadeira n 01 da Academia Catarinenses de Letras. Agosto 1984

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PREFÁCIO Há livros que atentam contra o livre-arbítrio de seus leitores. Por mais que alguém precise dormir ou fazer cumprir a pauta de sua agenda particular a obra se impõe tirânica às vistas do leitor hipnotizado. Parece ser este o caso do livro de Isaque de Borba Corrêa: um tirano feito de palavras que nos impõe uma leitura sem descanso, de fio a pavio, não importando tempo ou compromissos previamente agendados, porque simplesmente não dá de parar de ler. A “História de duas cidades” – na sua segunda edição – é uma obra completa. O autor completou algumas lacunas encontradas e apontadas por Silveira Júnior na primeira edição. Revisada e ampliada a obra torna-se material paradidático indispensável à formação cívico-intelectual dos jovens de Camboriú e Balneário Camboriú. Serve também de fonte primária para novos trabalhos de pesquisa. Isaque é um memorialista como o foram seus ascendentes. Tendo o privilégio de nascer no berço dos Corrêa e dos Borba, primitivos povoadores da cidade, soube valorizar e preservar as histórias de sua família e dos pioneiros dessas duas comunidades – conheceu muitos dos homens que contribuíram para a história e frequentou todos os lugares e localidades, sendo testemunha ocular da radical transformação ocorrida ali em apenas cinco décadas. Somando sua própria vivência aos depoimentos que colheu dos antigos moradores, mais sua participação direta na coleta de documentos que deram corpo aos Arquivos Municipais, temos um acervo extraordinário que só gerações futuras poderão aquilatar seu real valor. Contudo, recomendo a leitura crítica da obra, porque Isaque é daqueles pesquisadores autorais, que não se conformam em reproduzir mecanicamente o que leram em documentos oficiais. É um espectador irrequieto da História que se propõe a elaborar e defender teses, a levantar hipóteses, a inferir e supor, fazer ilações, promover ligações entre fatos. Isaque coleta dados, interpreta-os e propõe uma leitura histórica diferenciada, provocativa. Daí sua condição autoral. Suas obras apresentam-se sempre inéditas porque seu olhar é inédito. Alguns leitores poderão considerar essa postura do autor como provocação, eu, sob minha ótica de pesquisador da História Regional, considero um desafio.

MAGRU FLORIANO PRIMAVERA DE 2018.

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INTRODUÇÃO A HISTÓRIA NÃO MUDOU. Contudo, podemos dizer que muitas das informações que nos faltavam, começaram a aparecer a partir do surgimento dos imensos recursos que os arquivos e as bibliotecas estão disponibilizando na internet nos últimos tempos. Por isso criamos o subtítulo Novos Apontamentos. Sugestões e deduções podem até ser válidas enquanto um documento não venha confirmá-las. Contra documenção, não há hipóteses de dúvidas. Novos documentos trouxeram novas luzes ao nosso conhecimento e a nossa história ampliou-se, tomando mais corpo dentro do contexto regional. Na primeira edição estávamos centrados em Balneário Camboriú, usando como referência histórica o município original, que é Camboriú. Esses novos apontamentos nos inseriram diretamente dentro do contexto histórico de Itajaí, tendo Porto Belo como município original e até mesmo no contexto do distrito de Penha, comarca de São Francisco do Sul. Vamos oferecer neste introito um panorama geral da história. Veja que o povoamento de Camboriú começou no litoral por razões pra lá de óbvias. Os pioneiros estavam estacionados aqui na segurança do litoral e viviam suficientemente bem para os padrões da época, pois eram desprovidos de maiores ambições. Porém, a necessidade da Coroa Portuguesa em ocupar a costa catarinense fez crescer a densidade demográfica do nosso Estado. A Província estava com muita gente ocupando uma área bem restrita, proibidos de desmatar para poder para plantar, e isso era uma situação muito incômoda. Confinados pelos índios entre o mar e o rio Camboriú, os pioneiros foram esgotando o solo. Em quase todos os pedidos de sesmaria ao governo, os peticionários alegavam o enfraquecimento da terra. Suas técnicas rudimentares de tratar o solo aceleraram a sua exaustão. Um exemplo clássico disso é o pedido de sesmaria de Silvestre de Borba Coelho para as margens do Rio Itajaí Pequeno. Silvestre é um dos mais antigos moradores da Praia Brava e expressa, no seu pedido, o desespero por terras produtivas para sustentar sua enorme família de 15 filhos. O homem desse tempo estava precisando de mais espaço para produzir alimento e pastagem para o gado. Porém, havia pelo menos dois percalços nesse caminho: os índios e a intolerância da Coroa Portuguesa que não permitia desmatar nem um pau sequer, como veremos em alguns capítulos mais adiante. No entanto, com o passar do tempo, a cama ficou curta e a coberta estreita. Para onde os assentados se virassem, estariam encrencados. Desesperados, os nossos colonizadores saíram em busca de novas terras. Estava pronto o cenário para duas brigas gigantescas: uma com os índios e outra com Sua Majestade. Um ditado popular diz que quando a fome entra pela porta, a vergonha sai pela janela.

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Sem muitas opções para alimentar-se, os primitivos camboriuenses tiveram que enfrentar os índios e a lei. A necessidade obrigava-os a fazer o impossível. Sem muita opção, os nossos colonizadores investiram primeiro contra o mais fraco, os índígenas, que sem noção de nação e de direito, correram, fugiram ou foram dominados e mortos. Sem os índios para atrapalhar, os colonos migraram da Praia Brava para a margem Sul do Rio Camboriú, através do Poço das Pedras. Primeiro ocuparam o Bairro Barranco, em seguida o Morro do Boi, para depois derivar à Barra e ao Garcia. É o que os tais novos documentos que nos chegaram às mãos estão a nos mostrar. Os apresentaremos mais adiante. Nesse momento da história, em princípios do Século XIX, estamos situados em Porto Belo como cidade matriz. Porto Belo que logo ao nascer, em 1832, já deu luz a três distritos geminados: Tijucas, Itajaí e Cambriú. O Distrito de Cambriú era disparado o maior deles. Esse fato fez requisitar o direito de construir uma capela em 1840 e, nove anos depois, foi promovida à freguesia. Nem bem esta freguesia estava firmada, aparece alguém que aconselha mudar sua Sede do Município. Os Garcia emprestaram seu nome a um arraial que teria de mudar o nome em virtude dessa transferência. Porém, eles não irão querer desvincular seu sobrenome da cidade. Veremos que isso rendeu muita confusão. Vai mudar a ‘sede’ política e o nome do lugar, porém a ‘sede’ eclesial (Sé) não irá mudar. O Padre João Rodrigues ignora a nova sede municipal no Garcia e garante que a Sé não mudará de lugar. Por esse tempo, o País tinha sua economia baseada na atividade agrícola. Era impossível fazer-se agricultura intensiva nas terras magras próximas da praia, a população morreria à míngua. Foi pensando na economia do município que a tese da mudança de Sede Municipal prosperou. A agricultura intensiva não tinha mais lugar na Barra devido à sua topografia. Os lavradores precisavam de lugares amplos e planos, mais adequados a uma agricultura intensiva. Qualidades estas abundantes no Garcia. A modernidade foi chegando e mudando paradigmas. Até que chegou a vez do agronegócio e a Vila do Garcia vai ficar antiquada também. “Deus fecha uma porta, mas abre uma janela”, diz o povo e, nesse caso, a janela para o futuro era o turismo. Porém, Camboriú não vai deixar de investir na agricultura para apostar em turismo e por esse erro, o futuro vai cobrar caro. Além dos portugueses, os alemães também vieram para Santa Catarina. E quem diria: uma das nacionalidades mais trabalhadoras do mundo, inventaria o lazer junto ao mar. Por mais incrível que isso pudesse parecer aos olhos do homem primitivo, o lazer acabou por trazer mais riquezas que o trabalho braçal, sob o signo do turismo, para o

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espanto dos incrédulos políticos da época. Mas não foi fácil fazer o nosso povo acreditar nisso. Alguns aceitaram essa nova condição e acreditaram, outros não; mesmo assim, a era do turismo de praia chegou para ficar. Mudou tudo! Por isso, seu Manoel Germano, o pescador mais velho dos anos 50, dizia que era o chumbo virando sobre a cortiça: “Desde quando terra fraca teria mais valor que terra boa”? Seu Mané Germano não viveu para ver, mas esse dia chegou. Como tudo é cíclico, a praia que era lugar bom só para jogar lixo, agora trazia riquezas. Anúncios nos jornais antigos vendiam casas com fundos virados para o mar como sendo um lugar excelente para se jogar o lixo e o esgoto. Até 1974/75 o lixão de Balneário Camboriú era na Praia Brava. Era lá também a zona do meretrício. Pobre de quem morava por ali nesse tempo, sofria toda a espécie de preconceito. Bem, como quem ri por último ri melhor, atualmente morar na Praia Brava é privilégio para poucos. E se não fosse o fenômeno do turismo, as favelas estariam nas praias, lugar de gente pobre, pescadores, com seus ranchos, casebres e palhoças. Que rico iria querer morar perto deles? Chique era morar na fazenda, na casa grande, no interior. O que transformou essa vila de pobres pescadores na Dubay da América do Sul foi o turismo. Cremos ser difícil aparecer uma nova matriz econômica que reverta esse processo. Sabe-se lá o que o futuro nos reserva.

Foz do Rio Camboriú 1952

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DE ARRAIAL A CAPITAL DO TURISMO: ARRAZOADO GERAL A evolução topomástica das nossas cidades foi influenciada por duas vertentes: a laica de origem indígena e a eclesiástica. As duas também podiam estabelecer fronteiras que geralmente eram usadas para identificar os limites de um lugar. A igreja, o quanto pôde, usava terminologias religiosas para designar seus topônimos. Desde a Idade Média que os países cristãos estavam subordinados ao poder da igreja e elegeram o Papa como sua autoridade superior. Dele emanava o poder para empossar ou até depor reis. Portanto, dar nome aos lugares, tirados da lista dos santos da igreja, demarcava com mais contundência um território cristão. Nosso arraial começou pertencendo à Freguesia de Nossa Senhora das Graças do Rio São Francisco Xavier do Sul, que fazia divisa com a Freguesia de São Miguel da Terra Firme, pelo Rio Camboriú. Com a criação do Município de Porto Belo, o termo de Itajaí foi desmembrado de São Francisco para ser incorporado à nova Vila. Pela primeira vez, o Rio Camboriú vai deixar de figurar como divisor de águas e pertencer totalmente a Porto Belo. Passamos, então, a pertencer à Freguesia do Senhor Bom Jesus dos Aflictos da Villa de Porto Bello. Pouco se sabe sobre a criação da Vila de Porto Belo. Através dos anais do Senado Imperial, detectamos que a ideia de tornar o antigo Distrito de Enseada das Garoupas em Vila de Porto Belo, foi do Conselho Provincial Catarinense, que encaminhou projeto de lei à Câmara e ao Senado Imperial. Depois de aprovada seguiu para sanção. O Imperador a sancionou juntamente com outros decretos, no dia 13 de outubro de 1832. Por isso, o decreto que cria a nossa “vila avó”, sequer tem número; sabemos apenas a data da sanção. A Villa de Porto Bello teve sua instalação proposta oficialmente para o dia 7 de setembro de 1833, no entanto, de fato só foi instalar-se em 7 de dezembro daquele ano. Nesse dia, sob a presidência do Capitão Joaquim Roiz Pereira, foi dada posse aos primeiros vereadores. Na ata está escrito que estão agora totalmente desvinculados da câmara da cidade de Desterro. Muitas informações se perderam pela falta de documentos na Câmara de Porto Belo. Pouco temos de formal sobre a criação dos distritos de Tijucas Grande, Itajaí e Cambriú. O que temos, origina-se de um livro denominado Registro Geral da Câmara de Porto Belo, de 1834/1875 ou das correspondências do Presidente da Câmara de Porto Belo ao Presidente da Província. Essas fontes apenas citam a existência desses distritos, mas não encontramos neles o ato de criação. Nesse livro consta inclusive o termo de nomeação e posse das autoridades necessárias para a composição de um distrito, tais como o juiz de paz, o escrivão e os inspetores de quarteirão.

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Apesar do Distrito de Camboriú ter mais população, mais eleitores, mais jurados, mais casas, mais quarteirões do que Itajaí e Tijucas, nossa condição de distrito vai ser anulada. Passaremos a pertencer a Itajaí, um distrito bem menor. O livro de Registro Geral da Câmara de Porto Belo, de 1834, relata que Itajaí tem quatro quarteirões e Camboriú 15 quarteirões. Por enquanto, ficamos sem saber os reais motivos desse rebaixamento. O povo camboriuense não concordou com a extinção do distrito e, no dia 23 de junho de 1841, o Presidente da Câmara de Porto Belo, João da Cunha Bittencourt, oficia ao Presidente da Província, Antero Jozé Ferreira de Brito, um novo pedido de criação de um “Districto de Paz no lugar de Cambrihú.” O Presidente Antero Brito acatou o pedido e ordenou, em menos de um mês, que a Câmara de Porto Belo propusesse os novos limites para Cambriú. Já o Presidente João da Cunha Bittencourt sugeriu que os novos limites de Cambriú devessem ser os mesmos do antigo distrito. Na continuação do texto, este mesmo Presidente tras duas revelações interessantes: a primeira informação é que o lugar possui “cento e cessenta[sic] e tantas casas habitadas; e muitas pessoas aptas para exercerem o cargo juízes de paz” o que deixa inequívoca a grandeza do lugar. Pouco tempo antes, Itajaí informava a existência de apenas 75 casas em todo o seu território.1 A segunda revelação é o nome que os moradores do lugar estão informando que moram: “Morro do Boy”. Ao encerrar o ofício, como é de praxe, o Presidente João da Cunha põe a data e informa o nome do Morro do Boÿ, ao invés de Cambriú. Esse fato confirma a informação dada por Mário Fernandes Guedes, no seu relatório de 1941, que os primeiros moradores da banda sul do Rio Camboriú se alinharam no eixo Barranco/Morro do Boi, antes de derivar à leste e ocupar a barra do rio. O lugar Morro do Boi teve seu nome modificado para Bairro Nova Esperança em 1980.2 Não foi difícil para Mário Guedes obter essa informação, já que conviveu com personagens daqueles tempos. O Senhor Osmar Linhares, conhecido como Babá, foi aluno do Professor Bernardino Rodrigues de Almeida, irmão do Padre João Rodrigues. Homem de boa formação escolar, Seu Osmar também afirma em gravação que o o professor Bernardino dizia que tudo começou no Barranco. Em 18 de novembro de 1841, o Presidente da Câmara, João da Cunha, comunica ao Presidente da Província, Antero Brito, que foram eleitos para Juiz municipal do novo Districto de Cambriú, o Alferes da 1ª Companhia de Cavalaria da 4ª Legião, Faustino Antônio do Nassimento e o Tenente da 2ª 1

Ofício da Câmara ao Presidente da Província - 1841, pp. 230-234

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LEI Nº 518/1980 – FONTE: site da Câmara Municipal de Balneário Camboriú.

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Companhia, Felício Jozé Borges”.3 A “recriação” do Distrito de Paz de Cambriú, em 1841, é um expediente que decreta uma condição política nova para o lugar. Por esse instrumento, a banda sul do Rio Camboriú, composta pela Barra, Barranco e Morro do Boi, começam definitivamente tomar forma de cidade. A marcha para o Sul do Rio promoveu um fluxo migratório tão considerável e com tamanha velocidade, que dificultou nossa compreensão dos acontecimentos. O fato de o governo promulgar uma lei, criando uma paróquia em 1840, evidencia um agrupamento humano de vulto no local. Só mesmo uma migração em massa e com relativa emergência, justificaria tantos acontecimentos em 1840. Esta sequência de fatos vai insuflar a criação da Freguesia em maio de 1849 e a emancipação de Itajaí em 1884. Finalmente, em 1964, o turismo faz a Praia de Camboriú crescer e emancipar-se, tornando-se o mais importante polo de turismo do Sul do Brasil. Veremos todo esse processo mais esmiuçadamente no decorrer dessa história. A História de Camboriú cresce e se robustece com os “novos apontamentos”, ficando melhor contextualizada na história regional.

Distrito de Praia de Camboriú - 1952

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Correspondência do Pres. da Câmara de Porto Belo - p. 242.

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O DISTRITO DE PRAIA DE CAMBORIÚ Alguns anos depois da Grande Guerra, a Praia de Camboriú começou a receber muita gente. Visitantes e mais visitantes, então denominados de “veranistas” vieram para cá. Lugar turístico atrai moradores fixos também e por isso, em 1952 vai acontecer um surto de desenvolvimento jamais visto em outro lugar. A prefeitura vinha aprovando a construção de uma média de 40 casas por ano até 1951. No ano seguinte, em 1952, os requerimentos vão somar um montante de 620 unidades. Foi um crescimento absurdo, de mais de 1.200%, o que vai guindar a Praia de Camboriú ao topo das cidades turísticas do Sul do Brasil. Isso fez a Praia pleitear seu status para distrito. Logo no início de 1959, o Vereador Gilberto Américo Meirinho, com apoio de Domingos Fonseca, dá entrada, junto à Câmara Municipal, a um pedido de criação de um Distrito o qual se materializa no Decreto nº 02/59.

Hotel Miramar 1934

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Sempre houve resistência por parte do município original para emancipar o distrito. Nesta sessão o Vereador Antônio Fadel pediu a palavra e foi muito verdadeiro ao dizer que Camboriú acabava de perder sua sala de visitas. O Vereador Meirinho contestou, dizendo que Camboriú não perdia, mas ganhava, pois pela exígua faixa de terras que compunha a Praia de Camboriú, jamais se tornaria município. Porém, conceitos podem mudar e a lógica de que pequena extensão de terra não poderia crescer, caiu por terra numa velocidade que jamais se imaginaria. Em menos de cinco anos, a Praia se emanciparia, provando mais uma vez, que o fenômeno do turismo atuou em favor do progresso das cidades que nele investem. Em apenas inacreditáveis quatro anos, o distrito tomou um impulso tão grandioso, que fez a Câmara discutir a emancipação do Distrito Praia de Camboriú. No começo de 1964, esse distrito já contava com boa representação de vereadores e Aldo Novaes apresenta um projeto de lei para a sua emancipação. Com ajuda de um vereador adventício, chamado Leonel Pereira, gerente da empresa Votorantim, conseguiram aprová-lo. Leonel foi cooptado à ideia de emancipação pelos praianos, sob o pretexto de que a indústria da construção civil, grande cliente da sua fábrica, iria se fortalecer ainda mais. O vereador foi convencido de que emancipar seria mais conveniente aos interesses de sua empresa. O bom senso fez com que se requisitasse mais uma vez o Rio Camboriú para fazer sua última divisa entre seus vizinhos. Mas alguns políticos da Sede não acharam isso uma boa ideia. Alegaram que o limite pelo rio Camboriú iria diminuir muito o seu território e, principalmente, perderiam o famoso Colégio Agrícola. Um município com tremenda vocação agrícola não poderia perder o “centro do pensamento da engenharia agrícola de Santa Catarina”. Uma escola de ensino de agronomia em nada iria servir a um município turístico. Seria prudente separar as coisas pela ordem econômica. Recomendou-se, então, aos membros da Comissão de Limites, que encontrassem outra solução. Para os políticos da Sede, o turismo estava longe de ser uma fonte de riquezas. Ao contrário, dizia-se que o turismo era uma fonte de prejuízos, pois consumia muito investimento e apresentava pouco retorno. Alegavam que o turista era um sujeito muito exigente, que só queria boas estradas, água e energia em muita quantidade e, em contrapartida, deixava muito pouco recurso. Um vereador da época chegou a dizer, na sessão da câmara, que “Camboriú não devia deixar de atender o colono pra dar banho em alemão na praia”. Dizia-se que era muita exigência em infraestrutura para pouco retorno econômico e político. O interior tinha mais gente, dava mais votos e era para lá que os esforços deveriam ser dirigidos. Definitivamente, a Administração não concordou em ceder a divisa pelo rio. Ofereceram para a nova cidade só o litoral. Em princípio parecia ser 23


um desastre anunciado. Em 1961, a cidade de Camboriú criou uma taxa municipal de turismo;4 e apesar de que na época da emancipação (1964) essa taxa representasse mais de 40% do orçamento, isso não convenceu os políticos da Sede de que turismo é rentável. Houve, inclusive, um cidadão inteligente que recomendou a mudança da Sede para mais próximo do distrito e isso impediria a emancipação, pois assim ficaria a uma distância mais curta que a recomendável por lei. A sugestão era que se construísse o novo paço municipal perto do trevo da BR 101. Porém o turismo, como nova matriz econômica, ainda estava obscuro no pensamento dos mais conservadores e parecia absurdo abandonar a imensa e produtiva zona rural do município para assistir melhor uma praia árida. Não se admitia valorizar mais um turista “estrangeiro” que o agricultor que produzia comida e dava votos. Turista não dava votos. A Comissão de Limites vai propor que a divisa seja pela futura BR 101, mesmo confinando o Distrito de Praia ao litoral, deixando Balneário só com a foz do rio. O Distrito da Praia acabou virando município e achou-se por bem dar uma nova roupagem ao seu nome, desvulgarizando o substantivo “praia” que identificava apenas um acidente geográfico. Recorreram então a um sinônimo pretensamente mais moderno e então escolheram para a cidade o nome de BALNEÁRIO DE CAMBORIÚ. Meses depois perceberam que uma preposição intrusa, (DE) imputava propriedade à cidade de Camboriú. Um terrível equívoco, pois a preposição “de” indicava historicamente proximidade do Rio Camboriú e não propriedade da Cidade de Camboriú. Assim, através de uma resolução estadual, foi suprimida tal preposição e a cidade se firmou apenas como BALNEÁRIO CAMBORIÚ.

Hotel Balneário Camboriú -1950

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Lei municipal 20/61.

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CAMBORIÚ ENTRE A AGRICULTURA E O TURISMO Havia um consenso entre as autoridades camboriuenses que a comida era mais importante que o lazer e isso bastava para fazer o administrador investir mais no interior que no litoral. Parece lógico, racional e muito prudente para nossa sobrevivência essa assertiva. Eram tempos em que as informações não andavam tão depressa. Atualmente as estatísticas nos chegam mais rapidamente e com mais frequência nos possibilitando vislumbrar o futuro baseado em “tendências”, coisa que definitivamente não fazia parte das previsões econômicas daquele tempo. “O povo sempre vai precisar de comida e lazer não enche barriga”, era um pensamento generalizado entre os políticos antigos. Os nossos governantes não perceberam que técnicas mais modernas na agricultura e na economia estavam acontecendo. A forma de agricultura do Brasil rural dos anos 60 evoluiu para o agronegócio, através do qual não comportou o pequeno agricultor doméstico. O “sistema” derrubou o modelo minifundiário e o padrão camboriuense de produzir alimentos, de forma extensiva, sucumbiu. Parecia inacreditável que um dia o homem daria mais valor às coisas “supérfluas” que a produção de comida. O homem antigo não acreditava que alguma atividade viesse a existir que fosse mais rentável do que produzir alimentos. Subestimaram a atividade econômica do turismo de lazer, mas esse dia chegou! Os agricultores também não levaram em conta que outras formas modernas na agricultura poderiam advir, principalmente a mecanização. Essa forma de fazer agricultura, no Camboriú rural dos anos 60, não acompanhou o agronegócio que estava acontecendo no centro do País. Balneário Camboriú nasceu a partir de uma lei aprovada em 08 de abril de 1964, poucos dias depois da implantação do regime militar. A esse regime podemos facilmente atribuir a culpa de enterrar de vez o modelo rudimentar de se cultivar a terra. Os militares implantaram planos de desenvolvimento econômico muito ambiciosos que objetivavam modernizar o campo, estimular a produção agrícola, inserindo a agricultura na realidade da produção capitalista, com o objetivo de adequar a produção dos bens primários ao capital financeiro. Deu-se a transformação das técnicas de produção agrícola, com as bênçãos do exagerado incentivo estatal, que ocorreu por meio do crédito rural para o financiamento de grandes empreendimentos. Camboriú não tinha estrutura para tanto. As condições topográficas do nosso município não se enquadravam nessa nova ordem, nesse novo modelo. A justificativa da necessidade brasileira de

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ampliar a produção alimentar e aumentar o volume de exportações, atraiu também o interesse do capital internacional. Sem condições de concorrer em igualdade, nosso pequeno produtor não resistiu. Os créditos subsidiados e os incentivos fiscais para os gigantes do agronegócio contribuíram para a derrocada do modelo conservador que subsistia no Camboriú do final do Século XX. Aos nossos pequenos produtores, coube abandonar as terras e buscar os grandes centros industriais do Estado. Localidades rurais, outrora florescentes em Camboriú, foram tomadas novamente pelo mato nos anos 70/80. A cultura geral dos nossos governantes não teve alcance para ler, nas entrelinhas dos movimentos sociais e econômicos, uma forma de antecipar o destino e o futuro do País como se faz hoje em dia. Caso as pessoas tivessem a visão econômica do turismo, a sorte poderia ter sido outra para Camboriú. Diante desse contexto no qual ficou evidente o recuo da produção do pequeno agricultor, houve uma drástica queda no valor da renda dos produtores agrícolas, com a desvalorização do preço das terras e, consequentemente, uma violenta baixa na arrecadação do município, empurrando-o ainda mais para o caos econômico. E como desgraça pouca é bobagem, com a inauguração da BR 101, deu-se uma diminuiução sensivel no fluxo no trânsito da cidade de Camboriú. A mesma BR que fez diminuir o movimento rodoviário em Camboriú, aumentou o fluxo de turistas no Distrito Praia. A proporção foi exatamente inversa. Junta-se nesse caldeirão de desgraça, o esgotamento das jazidas de mármore. Uma série de restrições de cunho ambiental dificultou também a exploração das jazidas de granito e da pedra calcária. Diminuiu a produção do paralelepípedo para calçamentos e a matéria-prima das caieiras. Acabou-se a Capital do Café Sombreado e a Capital do Mármore. A economia do município agonizava. O resultado foi o êxodo. Por outro lado, o pequeno espaço territorial do maior polo turístico do Sul do Brasil torna-se incapaz de comportar toda a demanda dos que lá querem residir. A solução é a generosa quantidade de terras ainda disponíveis para loteamentos em Camboriú. Atualmente, esta cidade está vivendo um novo e grande surto de crescimento capaz até de causar preocupação às autoridades. Esse crescimento repentino e sem infraestrutura adequada, causa problemas sociais graves sobre os quais a prefeitura já está tomando providências. De qualquer forma Camboriú é uma das cidades que mais cresce no Estado; o que de alguma maneira alenta aqueles que se entristeciam com a decadência. Camboriú volta aos poucos a recuperar seu lugar de destaque no cenário estadual. Todavia, esse lugar busca uma nova identidade econômica. Devagar a cidade de Camboriú vai investindo no “turismo em ambiente rural” e religioso, para alavancar sua economia. Por ocasião do centenário de Camboriú, em 1984, aconteceu o primeiro

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evento dos Gideões Missionários da Última Hora projetando a cidade no cenário internacional. Seria o fim da maldição do Padre João Rodrigues de Almeida Dias? Saiba mais sobre essa história no capítulo específico sobre essa lenda.

Distrito de Praia de Camboriú - 1952

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A EVOLUÇÃO DO TOPÔNIMO CAMBORIÚ Os primeiros que escreveram o nome do nosso lugar quiseram grafar CAMBORI GUASSU. Convenhamos que para alguns escribas representar em sinais gráficos palavras oriundas de um idioma ágrafo já é dificil, sobretudo numa época quando ainda não havia regras ortográficas. Isso fez criar diversas formas para a mesma palavra. Cada um grafava a forma mais aproximada da fonética que ouvira da boca dos índios. Esta representação varia de autor para autor e para o nome do nosso rio encontramos: CAMBRICIASSU, CAMBARIQUASSU, CAMBORIGUASSU, CAMBORIGÚ-AÇU, CAMBIRIU-AÇU, CAMBIRIU-GUAÇU, CAMBRIASSU, CAMBRIUGASSU, CAMBRIUASSU, CAMBORIGÚ- AÇU, ETC. Considerando que o falante brasileiro não gosta de palavras de construção difícil, muito elaboradas, a tendência é ir reduzindo o termo, a exemplo da forma como hoje chamam Florianópolis: Floripa. Por isso, durante muitos anos, a forma mais fácil e mais duradoura foi mesmo a redução por síncope para CAMBRIÚ. O termo Camboriú, usado hoje em dia, é uma forma elaborada mais tardia, por escribas mais instruídos, como vigários e tabeliães. A tradução desse topônimo é polêmica em virtude de várias pessoas buscarem sua interpretação, baseadas no termo reduzido “Camboriú”, ignorando o termo original Camboriguassu. Certidão de óbito onde consta a grafia CAMBRIGUASSU em 1790

TRANSCRIÇÃO: “Aos vinte e um dias do mez de dezembro de mil sete centos noventa e nove anos: faleceo Floriana de idade de hum e meyo anno; filha ligitima de José Coelho dos Santos e de Anna Francisca de Jessus[SIC] moradores no Rio de Cambriguassu. Foi sepultada no semiterio d’esta Armação, donde encomendey-a na forma do Ritual Romano para constar, fiz este que somente assigney por pobre Emcomendeyo Graty. Padre Antº Martins.”

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Fomos buscar na obra de Luís da Câmara Cascudo, no Dicionário do Folclore Brasileiro, a definição que achamos mais adequada. Cascudo traz o verbete “camori ou camorim”, como variação de camuri ou cambori, para o peixe robalo. Câmara Cascudo ainda apresenta como referência uma carta de um escriba português, datada de 1501, que relata ao Rei Dom Manuel, que no Brasil há um peixe que os índios chamam de cambori ou camori, o mesmo que em Portugal conhecem por Robalo. Como açu ou guassu já estão consagrados como sinônimos para a palavra “grande”, juntando-se os dois termos cambori+ guaçu, chegamos facilmente à tradução “robalo grande”. Levemos em conta que na tradição dos povos primitivos que somente nomes de exemplares da natureza podem ser usados como topônimo. Qualquer tradução envolvendo a espécie humana ou parte dela, poderia constituir uma heresia própria da religião dos nossos nativos que cultuavam a natureza, tendo o Sol no topo das divindades. Essa tradição vem desde as mais antigas civilizações até as mais modernas, como a cristã por exemplo. Pela mesma razão, os colonizadores católicos achavam que dar nome de espécies animais às cidades, também constituía-se em heresia e as trocaram todas por nomes de santos da igreja. Portanto o nome do lugar Camboriguaçu foi “rebatizado” para Nossa Senhora do Bom Sucesso.

Certidão de óbito do ano de 1803, relativa à PRAYA DO CAMBIRIASU- Penha -SC

TRANSCRIÇÃO: “Aos vinte e doys dias do mês de mayo de mil oito centos e três,

faleceo Lauriana, solteira, filha legítima de José Coelho e sua Mulher Anna Francisca, moradores na Praya de Cambiriasu, tenia de idade pouco may ou menos vinte e hum annos, morrio sem sacramentos por não darem parte, foi sepultada no semiterio desta Armação emcoomendeya na forma do ritual pelo amor de Deus para que conste fis este termo que assigney. Padre Antº Martins.“ 29


PEQUENA FREGUESIA, ILUSTRES VISITANTES. A Freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Rio Camboriú era pequena, conforme alguns relatos, porém encantadora. Diversas pessoas estiveram aqui nos tempos de Freguesia e deixaram seus relatos. Eis alguns deles: ANO DE 1779 – VISITA DO GOVERNADOR DA CAPITANIA, JOÃO ALBERTO MIRANDA RIBEIRO. Nesse ano, o Governador da Província, o Tenente-Coronel João Alberto de Miranda Ribeiro, em um documento que ele intitula de “Relatório Sobre a Capitania de Santa Catarina”, descreve a situação sócio-econômica do Estado. Nesse tempo, o Rio Camboriú servia de limites às freguesias de São Francisco e São Miguel. Ele descreve apenas o Rio, pois não havia mais nada em suas margens.

O Camboriguassu, 3 legoas ao Norte {sul?} do Tajahy, pouco mais ou menos, terá 20 brasas de Largo na Sua Barra: Estando a maré baixa não entra Lanxa nem Canoa grande; Porem depois que esta dentro, poderá navegar 1 legoa pouco mais ou menos: Não admite Ponte pela violência das agoas do monte; e hé onde o Districto dessa Vila, extrema com a Freguesia de São Miguel, pode dar desembarque ficando as naus fora. (Corografia da Capitania de Santa Catarina; Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, publicado por Dante Laytano V. 245 p 132 - 1959)

ANO DE 1816 - O CRONISTA PORTUGUÊS PAULO JOZÉ MIGUEL DE BRITO. Em 1816, passou por aqui um escritor português chamado Paulo Jozé Miguel de Brito que relatou sua viagem em um livro intitulado Memórias Políticas Sobre a Capitania de Santa Catharina, publicado em 1829. Ele também só menciona o rio.

O Cambarigú-assú* conflúe no oceano a distancia de duas legoas e meia ao Sul da barra do Tajahy e pouco para o Norte da ponta septentrional da Enseada das Garoupas (Porto Belo) tem sua foz 20 braças de largo e pouco fundo: este rio serve de limite ao termo Judicial da Villa de São Francisco pelo Sul, e do da Vila Capital do Desterro pelo Norte. Ele ainda grafou Camborigú-assú e Cambariquassu.(Paulo Jozé Miguel de Brito – Memórias Políticas Sobre a Capitania de Santa Catharina – 1816, pp 31 e 32.)

ANO DE 1821- O BOTÂNICO FRANCÊS AUGUST SAINT-HILAIRE. Em sua viagem à Província de Santa Catarina em 1821, o botânico Francês August de Saint-Hilaire descreve o Rio Camboriú e faz comentários preciosos sobre a grafia desse nome.

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O Districto de São Francisco, em 1820, não se compunha somente das ilhas, de seu nome; compreendia ainda dezenove leguas da costa do Sahy, que separa da Província de São Paulo, até a margem septentrional do Rio CAMBRIAÇU (*19) Neste livro, em nota de rodapé (n. 19)o tradutor consta a seguinte ano-

tação: (*19) Escrevi esse nome como ouvi pronunciar in loco e como escreveu Van Lede. Segundo Casal, porém, a orthographia certa seria CAMBORYGUASSU (corografia I. 188), e segundo Milliet CAMBORIÚ. Este entretanto acrescenta que no lugar dizem Cambriú e se Aubé escreve no texto CAMBIRIGUASSÚ, na carta anexa a sua obra acha-se escripto simplesmente CAMBRIÚ. CAMBRIAÇÚ é o aumentativo indígena de CAMBRIÚ.(Viagem à Província de Santa Catarina – 1821 – trad, Carlos da Costa Pereira – pp 90 e 91)

ANO DE 1851- O ENGENHEIRO JOÃO DE MELLO E ALVIM. Atente bem para o que ele escreve. Falaremos muito disso à frente. Tem a ver com a mudança da Sede da Barra para o Garcia, entre outras questões. Ele veio com a missão oficial de projetar melhorias sobre os aspectos urbanos das cidades litorâneas. Vindo do sul pelo antigo caminho do Morro do Boi, passa por Itapema (Tapera) e chega ao arraial da Freguesia de Bom Sucesso (Barra). Ele descreve o caminho desde o alto do Morro do Boi. O texto foi revisado e adequado à ortografia atual.

O último é na verdade, além de muito longo, o mais difícil acesso, especialmente nos tempos chuvosos.5 Contudo, é susceptível de melhoramentos, sendo minha franca opinião que deve ser abandonada a estrada atual, desde o ponto de subida e mudada para a banda do mar (direita) por onde a simples vista, se reconhece melhor localidade.6 Na baixada do morro, junto à Ponta das Laranjeiras, corre o Rio Camboriú, com largura de 35 braças e fundo de 7 palmos, termo médio. O seu curso navegável limita-se a uma légua. A Barra não é boa e só é franca nas altas marés. A embarcação que não demandar mais de 4 pés n' água. O Arraial da Freguesia de Bom Sucesso, há curto tempo criada, tem poucas casas, não excede a 8, e fica junto à estrada e à barra do Rio. A capela que ali está edificada está pessimamente colocada.7 Porque a fixaram sobre um barranco e transversalmente ao rio e a estrada ficando tão próxima 5

Alvim está falando do último trecho do Caminho do Morro do Boi.

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Ele está no topo do Morro e sugerindo mudar a direção para a banda do mar. (Estrada do Estaleiro)

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Este texto prova que a capela de N.S. do B. Sucesso estava iniciada.

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daquele, que não há espaço para se fazer uma boa praça, havendo no entanto outras pontas mais adequadas que foram desprezadas, tanto públicas quanto particulares, que os ofereciam gratuitamente para o fim a que não foram destinadas, entre os quais apontarei como o mais apropriado aquele do Tenente Costa.8 O comércio em proporção com a pequenez do lugar é regular e uma prova de que ele prospera, é o grande preço que ali tem as terras. A importação e a exportação constam dos mesmos gêneros dos outros municípios, tornando saliente na última espécie, a madeira e a farinha para cuja lavoura prestam-se generosamente às férteis margens dos rios. Tem alguns estaleiros, nos quais se têm construído navios do porte de mais de 100 toneladas 9 Biguassu, 1º de abril de 185110 O leitor pode ver o fac símilli de parte desse relatório na página 227

ANO DE 1858 - O MÉDICO ALEMÃO AVÉ-LALLEMANT. Outra visita importante, ainda no Século XIX, foi a do médico alemão Robert Christian Bertold Avé-Lallemant, no ano de 1858. Ele escreveu um livro chamado Reise Durch Sud – Brasilien. No livro ele descreve assim a póvoa de Bom Sucesso:

Após passar Tijucas e Porto Belo vem em seguida a aldeiola de Bom Sucesso, romanticamente situada onde se tem de passar um belo e largo rio, o CAMBIRIÚAÇU, lugar evidentemente pobre. Em casa de família brasileira, conhecida de Burkart, fizemos pequena pausa ao meio-dia, enquanto Adão passava o rio com as bagagens e os animais. As filhas do casal, tinham sido educadas em Desterro e davam a impressão muito agradável, mas me despertaram também certa compaixão. Moças bonitas, principalmente uma delas, tinha que viver no Bom Sucesso no CAMBIRIÚ-AÇU como um degredo. (Robert Christian Bertold Avé-Lallemant; Reise Durch Sud – Brasilien”. Tradução de Teodoro Cabral, 1858, p 152.)

ANO DE 1894- DOM JOSÉ CAMARGO BARROS – BISPO DO PARANÁ E SANTA CATARINA – Ainda no Século XIX, Dom José de Camargo Barros, Bispo do Paraná e Santa Catarina, fez a mais importante visita até hoje, naquela igreja. Dom José de Camargo Barros nasceu em São Paulo, na cidade de Indaiatuba e foi provisio8

Futuro Capitão Antônio Dias da Costa. seu correligionário.

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Nessa visita, o senhor João Melo e Alvim contratou o “artista pintor” em Itajaí chamado Lottar Fischer que pintou o quadro da Freguesia de Bom Sucesso de 1851. (Arquivo Histórico de Santa Catarina – Florianópolis)

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FONTE: Livro de Engenheiros - Período de 1846 a 1857- p 179- Arq. Público do Estado.


nado Bispo do Paraná e Santa Catarina, pelo Papa Leão XIII, em 11 de janeiro de 1894. Competentíssimo, sério e cuidadoso, mal foi empossado, já veio visitar as igrejas de sua jurisdição. Ele registrou sua viagem em um diário e relata que seu trajeto foi feito a cavalo, da Barra para o Itajaí, passando por Camboriú. Foi a última visita importante que a Barra recebeu. O diário do Bispo começa a relatar sobre Camboriú, a partir do dia 8 de setembro, um domingo. Veja o que diz:

Antes do chrisma da tarde (às 4 ), visita da egreja e depois do chrisma encomendação das almas da egreja. Só estavam presentes o Pe. Alberto e o Vigario, por que o Pe. Eising tinha voltado hoje, ao meio dia para Brusque, Pe. Herculano com o Pe. Licinio foi para Camboriu, Pe. Solano tinha ido visitar uma família. Depois da encomendação, practica da despedida bençam do Santíssimo e beija mão. (mais de 700 pessoas beijaram o anell).''11 DIA 9 DE SETEMBRO- SEGUNDA FEIRA.

Partimos as 10 horas para Camboriu, todos a cavallo. Eu, Pe. Alberto e perto de 50 cavalleiros. Pe. Herculano e Pe. Licinio tinha ido na vespera. Fizemos boa viagem. Tivemos que atravessar o Rio Camboriu em balças, que conduziram os cavallos de 2 em 2, de modo que como eram muitos cavalleiros tivemos que esperar quasi uma hora. Antes de chegarmos ao rio fomos escoutados por 2 comissões de Camboriuenses e de outro lado do Rio nos esperava uma grande turma de cavalleiros com pequenos estandartes. Na entrada da povoação estavam postadas 2 allas de moças de branco. Dahi fomos a pé até a residencia que foi arranjada na casa do irmão do Pe. Almeida. [Professor Bernardino Rodrigues de Almeira] Em ato contínuo tomei os paramentos e fiz entrada solenne conforme o costume. DIA 10, AINDA EM CAMBORIÚ:

Vi mal e mal os livros e não tive tempo de por o visto, mas notei nelles os seguintes defeitos: falta de rubrica em alguns, uso de tinta roxa, de abreviaturas, de datas em algarismos, falta de livro do tombo. Assentos de óbitos assignados pelo sacristão. As 3 ½ voltamos para Itajahy, passando pela Vila do Garcia. O logar é bonito, mas a egreja não está acabada. Tivemos uma viagem difficil: animaes bons, mas caminhos ruins e depois cahiu forte e prolongada chuva, que nos molhou totalmente. Felizmente eu me agasalhei com a capa de borracha do Pe. Alberto e com o guarda chuva do filho do Procopio (um itajahyense assassinado pelos federalistas) Chegamos as 7 horas da noite. De Cambriu viemos acompanhados por huns 10 ou 12 homens que ficaram todos ensopados (Revista do Instituto Histórico Geográfico de Santa Catarina) 11

A mesma quantidade de pessoas que Padre Paulo Biolchini diz que se fizeram presente na sua missa em 1868. Confira na página 205.

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34 Publicada no Álbum de Santa Catarina

Vê-se a Capela do Garcia.

CENTRO CAMBORIÚ – 1909.


O REAL CORTE DA MADEIRA E SUA RELAÇÃO COM O POVOAMENTO NA REGIÃO A conjuntura em que se consolidou o processo de ocupação do território Sul do Brasil apresenta diversos fatores externos e internos relevantes. Entre os fatores externos destacamos a disputa entre Portugal e Espanha pelo território que inicia em Cananéia e vai até a foz do Rio da Prata. Essa situação vai gerar uma necessidade premente de ocupação territorial por parte da Coroa Portuguesa. No decorrer do processo colonial, esses dois fatores criaram uma conjuntura única. A estratégia de Portugal é intensificar o fluxo migratório para o sul do Brasil, criando colônias, inicialmente de portugueses continentais e ilhéus, depois com europeus não ibéricos [Alemanha, Itália, etc.] A ocupação das terras dos vales dos rios Tijucas, Camboriú e Itajaí dá-se dentro dessa conjuntura. É importante observar que sempre vamos nos referir aos três distritos juntos, pois eles formavam a Vila de Porto Belo. Vamos citar também a Colônia Nova Ericeira que foi um projeto experimental de ocupação com colonos oriundos de Portugal continental, numa tentativa de colonizar com gente que se identificasse com as condições geofísicas do território. Na medida em que Portugal obtinha sucesso total na consolidação da posse da terra ao Sul do Brasil, os fatores externos começavam a dar espaço para a emergência de fatores internos: a disputa pela terra produtiva, concessão de sesmarias, o corte e comercialização da madeira e a Independência do Brasil. Pelo fato de acreditarmos que a atividade do corte da madeira tivesse influenciado a organização das colônias nos vales dos rios Itajaí, Camboriú e Tijucas; nos propusemos a mostrar como funcionava essa atividade econômica no período colonial e nos primeiros anos do Império Brasileiro. Com a expectativa da Independência do Brasil, vislumbrava-se a possibilidade de se quebrar certos monopólios da Coroa Portuguesa. O corte da madeira e a exploração das minas de metais preciosos eram as mais prováveis. Com a expectativa da independência, o Brasil iria precisar, e muito, de fazer “caixa”. Essas duas riquezas poderiam alavancar a nossa economia. A possibilidade de cortar madeira, mediante assentamento de povoadores, gerou uma busca pela aquisição de sesmarias e a implantação de colônias nos tabuleiros litorâneos de Santa Catarina. Esses lugares eram muito fiscalizados pelas autoridades imbuídas no processo de conservação das matas de Sua Majestade. Podemos dizer até mesmo que houve uma corrida por terras no litoral da foz dos rios Itajaí, Camboriú e Tijucas por volta do ano de 1821. Estas terras eram facilmente detectadas a um simples olhar, como terras planas para se construir arraiais. Além disso, eram extremamente férteis em relação às ocupa-

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das no exaurido litoral catarinense, mormente os da Ilha do Desterro, de onde veio a maioria dos nossos pioneiros. A madeira foi a primeira matriz econômica que a Colônia pôde oferecer de imediato à Coroa Portuguesa. As atividades neste setor iniciaram com a extração do pau-brasil e, no decorrer do tempo, ampliaram-se para todo tipo de madeira, desde as de qualidade até as mais comuns. A madeira era considerada uma matéria-prima estratégica na época. Sabemos que Portugal e Espanha estavam no auge de suas conquistas coloniais e precisavam de muita madeira de qualidade para a fabricação dos navios. E, nesse contexto, o território catarinense foi sempre muito elogiado pela quantidade e qualidade de sua madeira. Devido aos movimentos de emancipação da Colônia, a Coroa Portuguesa fez dobrar a precaução sobre a atividade do corte e comercialização da madeira. Em se tratando de guerra, os navios eram a maior arma daquele tempo. Por questões de estratégia militar, o Rei não podia deixar a Colônia livre para fabricar equipamentos tão perigosos. Seria uma imprudência primária deixar esse material à vontade na mão de súditos tão pouco confiáveis. Nesse sentido, o governo português emitiu leis, alvarás, resoluções, recomendações, avisos régios de tudo que era jeito e maneira, para dificultar o acesso dos seus súditos à extração da madeira. O rigor foi a tal ponto que o colono não podia cortar nem um pau sequer, mesmo para suas maiores necessidades, sem autorização do Juiz Conservador das Matas, como veremos no documento que vamos analisar na página seguinte. A Colônia vivia ainda em uma situação de muito atraso econômico e tecnológico, sendo corriqueiro arrastar os troncos pelos caminhos. Uma das artimanhas do governo, para evitar o corte, foi justamente proibir o arrasto de madeira pelas ruas. Uma medida bastante restritiva, principalmente para regiões que não contavam com rios que possibilitassem o sistema de transporte em balsas. Chegamos ao cúmulo de encontrar em relatórios de engenheiros, uma recomendação para não se abrir estradas, pois poderia facilitar o arrasto de madeiras. A Coroa montou um aparelhamento estatal sem precedentes na história para proteger as matas. Esse fato constituiu-se um fardo muito pesado ao erário e culminou com o estabelecimento do sistema que conhecemos até hoje como empreguismo. Para ganhar simpatia do povo, a coroa mantinha uma multidão de pessoas empregadas no real corte das matas. Em um regime absolutista, como naturalmente era o regime de autocracia real, sua majestade desconhecia limites à sua autoridade. Do absolutismo nasce o controle sobre a economia, a regulação de atividades, o uso abusivo de decretos, a restrição da livre expressão, a vigilância em massa e o disseminado uso do terrorismo de Estado. Tudo isso

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foi aplicado sobre aos súditos da colônia portuguesa na América para manter a Colônia submissa, sob rédeas curtas. A Coroa portuguesa aparelhou de tal forma o sistema colonial que praticamente ficou inviável o negócio da madeira pelos caminhos da legalidade. O estrangulamento foi tão severo no período colonial, que o império viu-se obrigado a ir abrandando aos poucos suas regras. O corte da madeira ocupava um grande número de burocratas e funcionários braçais. Como o governo central estava distante, em um país continental, administrado por funcionários públicos sabidamente desonestos, isso foi uma porta escancarada para a corrupção. Um documento datado por volta do ano de 1800, endereçado ao Príncipe D. João, revela importantes detalhes dessa atividade e sua estrutura de empreguismo oficial. O documento recebe o título de Memória sobre os cortes da madeira de construção, estabelecidos na Comarca de S. Jorge de Ilheos, pertencente à Capitânia da Bahia.12 Por esse documento ficamos sabendo que o controle burocrático do corte real da madeira exigia inúmeros cargos: conservadoria, inspetoria, ministério, promotoria, juizado especial. Tudo aparelhado pelo sistema de empreguismo que garantia espaço na burocracia estatal ou reserva no mercado profissional. Encontramos cargos como: Ministro Inspetor do Corte, Escrivão do Real Corte, Mestre Geral, Contra-Mestre, Prospector de Matas, Inspetor das Matas, Prático das Matas, Encarregado do Corte na Mata, Desbastador, Falquejador, Toradeiro, Carregador, Estivador, Embarcador, Lancheiro, Remeiro, Entaboador, Galivador e até cozinheiro exclusivo. O empreguismo no governo era tal que, quando um juiz da Bahia facilitou aos pescadores pobres o uso das madeiras moles, uma parte da população se revoltou, alegando que a atitude do magistrado causava desemprego. O clamor no setor chegou ao Real Trono e o piedoso juiz foi afastado de suas funções. Um pescador não tinha mais liberdade para cortar por conta própria um pau de madeira macia sequer, para fazer uma embarcação. No documento citado, o autor faz pesadas críticas à maior autoridade portuguesa no assunto, o Desembargador Baltazhar da Silva Lisboa. Baltazhar era irmão do todo poderoso José da Silva Lisboa, que em 1821, sob o título honorífico de Barão de Cayru e presidente da Mesa de Desembargo do Paço, desembaraçou o pedido de sesmaria de Baltazhar Pinto Corrêa. Baltazhar Lisboa era a maior autoridade sobre o assunto “madeira” no Brasil. Escreveu o primeiro livro de botânica que ele dedica como presente ao nosso regente imperial. No livro, o autor descreve todas as qualidades das árvores da Colônia e seus usos na construção civil e naval. Todas as plantas por ele catalogadas estão em ordem alfabética de A a V. 12

Em 23 de maio de 2018, estava disponível em: http://bndigital.bn.gov.br/acervodigital/

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O autor do documento citado: Memória sobre os cortes da madeira de construção, estabelecidos na Comarca de S. Jorge de Ilheos, denuncia as pesadas medidas imposta pelo Desembargador da Comarca de Ilhéus na Bahia Baltazhar da Silva Lisboa. Veja o que diz o autor: O Desembargador Baltazhar da Silva

Lisboa, criou 3 diferentes projetos: Primeiro projeto severo: ninguém pode entrar nas suas próprias matas, a cortar hum único páo, ainda que fosse para o concerto da ruína amiassada sem licença do Juiz Conservador. A mesma faculdade éra necessária para cultivar, e para preparar os terrenos, para uso necessários. 13 Que opressão!– desabafa o autor O autor do documento reclama, ainda, que extratores de madeira estavam utilizando-se de mão de obra de escravos africanos, alegando que nada entendiam de corte e estavam longe de ser falquejadores. “Estavam recebendo como se bons falquejadores fossem.”- Denuncia. Esclarece ainda que o mal falquejamento das madeiras, demandavam mais bois no transporte das toras. A segunda denúncia do autor também é acerca da proibição do uso de madeiras moles, por parte da população pobre, só para favorecer empresários ricos:

O Juiz conservador ao seu arbítrio fez estancar todas as madeiras moles, como loiros, camassaris, a favor de quatro fabricantes de planxões de vinhaticos e potumanjus, ordenando que só estes poderiam entrar nas matas e serrarem negociarem as sobreditas madeiras moles e assim ficar com os lucros daquele estanque em prejuízo da fazenda real. Por fim o autor apresenta a terceira denúncia:

As canoas daquellas mesmas qualidade de páos, por serem então as melhores e mais duráveis para o serviço dos lavradores no tranzito dos rios, foram igualmente embaraçadas e ninguém ouzará fabricalas sem licença do Juiz Conservador para o que sempre era necessário proteção.14

Fizemos essas transcrições para o leitor sentir mais de perto o quanto o povo estava sendo oprimido pelo jugo da legislação pertinente ao corte real. Agora imagine o leitor as vantagens dos funcionários públicos que estavam no comando desse negócio. O autor denuncia que a jornada de trabalho dos funcionários do corte era muito curta e isso custava caro ao erário. Iniciavam às 9h da manhã às 3h da tarde estavam dispensados. Entretanto os demais trabalhadores tinham uma carga horária pesada de sol a sol.

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(pág. 23 e 24)

14

(pág. 25 26)

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Sem contar que os do corte oficial, não trabalhavam aos domingos nem dias santificados. É possível que aqui em Santa Catarina as implicações desse aparato estatal tenham sido menos sentidas. Estávamos mais longe da Corte e as autoridades catarinenses, comprometidas com o esquema, puderam ter aliviado a pressão. Havia um grupo organizado e especializado em burlar o estanco da madeira, com a desculpa de formação de colônias. Nas palavras do historiador Magru Floriano, era a “máfia da madeira”.15 Enquanto isso, em Santa Catarina, lembra Nelma Baldim, no livro A Intendência da Marinha em Santa Catarina e a Questão da Cisplatina, que a atividade do corte da madeira ficou tão pesada e cara para o tesouro que o governo viu-se obrigado a privatizar o serviço. Segundo os próprios relatórios oficiais, em seis meses, a administração da Intendência da Marinha em território catarinense gastou. só com embarcações para o transporte da madeira, a quantia de 2$559:395.16 Para concluir, aquele escritor baiano, que fez o documento, a partir do qual baseamos esse capítulo, tinha notável noção de ecologia. Naquele tempo, o autor já demonstrava preocupação com o meio ambiente, usando muito a expressão “destroço das matas de bordo de águas”. Atualmente, no dialeto moderno, nós brasileiros que gostamos de inventar palavras bonitas e chamamos esse fenômeno de “devastação das matas ciliares”. Diz ele: O destroço das matas continuam do mesmo modo, não só a respei-

to dos páos que deviam ser conservados por estarem chegados à borda dágoa, mas ainda no interior dos terrenos e ainda mais por não se fazer plantar de novo.17

Extremamente consciente, ele finaliza sugerindo suspender a devastação da mata por meio de ferro e fogo. Recomenda só fazer uso disso estritamente à pastaria dos animais. Em alguns momentos, denuncia a pressão sobre agricultores que estão desanimados e pensam em abandonar a agricultura por causa de tamanha fiscalização. Elaboramos esse capítulo inicial, unicamente para evidenciar o quão importante era essa atividade nos tempos do Brasil colonial e o quanto ela vai influenciar na colonização do litoral do nosso Estado, particularmente nos estuários dos rios Tijucas, Camboriú e Itajaí.

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Entrevista concedida ao autor no dia 15 de janeiro de 2017.

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Nelma Baldin - A Intendência da Marinha de Santa Catarina e seu papel na ocupação da Província Cisplatina, 1817-1832 p. 75

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Páginas 10 e 11

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A EXTRAÇÃO DA MADEIRA – E OS PRIMEIROS NÚCLEOS COLONIAIS EM SANTA CATARINA Como vimos anteriormente, a exploração da madeira tornou-se uma atividade levada muito a sério pela Coroa. Isso criou mais embaraços que desenvolvimento à colônia e à própria Coroa. Por fim, esse fardo ficou tão pesado que o governo preferiu abrir mão do monopólio da exploração da madeira, abrindo concessão a empreendedores particulares. Essa nova realidade, no mais importante setor econômico colonial, em tese, pode ter incentivado a formação de núcleos coloniais em Santa Catarina. Se por um lado era proibido explorar as florestas, por outro a Coroa precisava povoar a Província para fortalecer sua posse e combater as pretensões espanholas sobre ela. Essa contradição da estrutura administrativa, foi o mote que alguns políticos, consorciados a empresários, precisavam para extrair a madeira em caráter legal. A tese da existência desse grupo econômico, atuando paralelo ao Estado, fica evidente no livro Itajaí – uma cidade em busca de seu fundador, do historiador Magru Floriano. O livro é uma coletânea de artigos de diversos escritores catarinenses que dissertaram sobre a fundação de Itajaí. A exploração da madeira é um assunto recorrente em quase todos os artigos nele compilados. Observamos que em muitos dos artigos coligidos por esse autor, ficam nas entrelinhas algumas questões cruciais ao desenvolvimento dessa região e, sempre com forte destaque para o assunto da exploração da madeira. No epicentro de tal trama, estão dois personagens de suma importância para Itajaí e, consequentemente, para a história de todos os municípios que dele se originaram. Os personagens destacados são o Conselheiro Antônio de Meneses Vasconcelos de Drummond, também Veador da Princesa Leopoldina e o empresário Agostinho Alves Ramos. Gravitando em derredor desses dois personagens centrais, encontramos pessoas que vão dar consistência à história do nosso Camboriú. Personagens como o capitalista Anacleto José Pereira da Silva, o governador João Tovar e Albuquerque, o intendente Miguel Alvim e seu filho, João de Mello e Alvim. E, por fim, os nossos colonizadores inseridos nesse processo: Baltazhar Pinto Corrêa, Antônio da Costa Dias, Tomaz Garcia e talvez outros. Daqui em diante, os assuntos que vão nortear o nosso texto serão, principalmente, as ocupações territoriais do litoral norte catarinense e os cortes oficiais e extraoficiais da madeira.

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A LENTA E GRADUAL LIBERAÇÃO DO CORTE DA MADEIRA Chegou o tempo em que o fardo do monopólio sobre a madeira, entre outras atividades correlacionadas, ficou insuportável à Coroa Portuguesa. Já na fase do Império Brasileiro não foi possível levar esse peso por muito tempo. O erário imperial sucumbiu à folha de pagamento e ao inchaço da máquina pública que foi, aos poucos, abrindo mão do seu monopólio. Será que na nossa Camboriú a atividade da extração da madeira também foi motivo suficiente para justificar a ocupação do território? A resposta é sim! E, por esse viés, dando mais atenção ao fato específico da extração das madeiras de lei, chegamos à conclusão de que a Vila de Porto Belo e suas localidades satélites tiveram, como leitmotiv para sua fundação, a extração da madeira. Nos primórdios do Brasil colonial e do Império Brasileiro era proibido cortar madeira sob qualquer pretexto. Vimos que era proibido, até ao cidadão mais pobre, cortar um pau sequer, sem autorização do Juiz Conservador das Matas. O infrator estava sujeito aos rigores da lei portuguesa. Tal rigor, com tom de intransigência, está bem caracterizada em uma correspondência oficial de José Luís de Castro, Conde de Resende, ViceRei do Brasil, à Câmara Municipal de Desterro. Esse documento, datado de 4 de Novembro de 1793, demonstra rigor até quanto ao corte de uma das árvores mais imprestáveis do ponto de vista comercial, que foi a madeira de mangue. Esta espécie, que é praticamente um arbusto que só servia para a lenha, mas também foi proibida de ser cortada. A carta informa que libera o corte do mangue tão somente para lenha ou para os pescadores tingirem suas redes com a sua casca. Diz o texto:

Ainda que eu determinei já a Vossas Mercês mandassem suspender o Corte dos Mangues no Destricto da sua jurisdiçáo por serem necessarios para o curtimento dos Couros de atanado, como agora me consta que hâ duaz qualidadez de Mangues, huns de casca muito fina, que só servem para lenhaz, e outros de casca grossa, que hê a propria para o mesmo curtimento doz ditos Couros: Me pareceo dizer a Vossas Mercês que a Ordem que lhez dirigi para mandar suspender o Corte doz ditos Manguez, só se deve entender a respeito destes, e não daquelles, que como náo servem para o sobredito curtimento se poderáo livremente cortar para lenhaz, e para as tintaz, que se fazem sumamente precizas para a comservaçáo daz redez de pezcaria. Deosguarde a Vossas Mercês.18

A ocupação do litoral catarinense, patrocinada pela Coroa Portuguesa, intensificou-se após as ameaças dos espanhóis em ocupá-lo e anexá-lo ao ViceReinado do Rio do Prata. Não havia dúvida de que era necessário povoar a nossa 18

Cartas do Vice-Rei para Câmara Municipal do Desterro -1760/1801- p.73

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região e provar a posse portuguesa. Essa necessidade governamental de povoar o litoral catarinense, contudo, esbarrava no rigor das leis de coibir o desmatamento. E daí, como fariam para assentar os colonos diante dessa contradição de propósitos? Veremos! Nem mesmo um proprietário com domínio legal sobre suas terras podia extrair madeira ou nela cavar à procura de minerais por qualquer motivo. Esse preceito básico a Coroa fazia questão de fazer constar em todos os títulos de domínio de terra, concedidos aos cidadãos vivendo no Brasil, pois eram atividades estritamente reservadas à Coroa ou aos seus concessionários. Não se podendo desmatar nem cavar na terra à procura de minerais, a propriedade servia para quê? A terra virou peso morto na vida de muitos desses proprietários. O governo fazia campanhas mirabolantes, promovendo a região, tentando atrair incautos e sonhadores. Chegando às novas colônias, era comum o arrependimento, mas era tarde demais! Alguns eventos nacionais vão desencadear fatos que muito têm a ver com a nossa história regional. O maior deles, evidentemente, é a Independência do Brasil. Veremos mais adiante que houve uma grande correria, a partir de 1820, para se requerer terras em nossa região. A expectativa, causada pelos rumores da independência, criou um ânimo exagerado nas pessoas. A certeza de que as duas principais riquezas, madeira e metais preciosos, passariam a integrar o patrimônio nacional após a independência, promovia uma grande expectativa naqueles que vislumbravam explorar essas commodities assim que fossem liberadas. Parece óbvio que o Império iria precisar de muito dinheiro para se suster por conta própria sem o auxílio de Portugal. Não era necessário ser economista para perceber que as imensas riquezas naturais do País alavancariam a precária economia do início do Império Brasileiro. Mas, para frustração desses investidores, após a Independência mantiveram-se as mesmas restrições, baseadas na vigência das antigas leis portuguesas. No que diz respeito à questão da madeira, o Decreto 1318, de 1854 que mesmo sendo do Segundo Império, ainda continua restringindo o corte. Nos tempos coloniais, essas duas riquezas naturais eram de propriedade de Sua Majestade e a exploração ilegal caracterizava uma desobediência que poderia ser punida com a morte. Vide exemplo do nosso colonizador Arzão que por conta de suas descobertas de ouro em Itajaí, foi preso, levado para Lisboa, e acabou por morrer na prisão. Ao se desvencilhar do jugo de Portugal, a comunidade brasileira ansiava libertar-se dessas leis engessantes. José Bonifácio deixa transparecer essa ansiedade no texto da Resolução 76, de 17 de julho de 1822, quando suspende o sistema sesmarial. Ele escreveu no texto da lei: [...]até a convocação da Assembléia

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Geral Constituinte e Legislativa. Se escrevesse uma coisa dessa poucos anos antes, na certa seria severamente punido. Que o diga Tiradentes! Mais à frente, vamos entender porque essa suspensão tem alguma coisa a ver com as concessões de sesmaria em Santa Catarina. Apesar da independência, algumas dessas leis repressoras foram mantidas pela tradição, até que novos regulamentos fossem emitidos. Quem lê a Coletânea de Leis do Império do Brasil, de 1822, percebe a genialidade do patriota José Bonifácio, atacando com decretos e outros expedientes de rápida execução, contra as principais deficiências jurídicas do novo império. No Século XVII, ainda saboreando as conquistas das grandes navegações, Portugal contava com uma poderosa frota naval e precisava mantê-la assim. Contudo, lá não havia madeiras tão boas como aquelas existentes no Brasil. Então formatou-se uma lei muito severa, denominada de Carta Régia, publicada em 15 de outubro de 1795, que vai balizar toda a questão legal envolvendo o extrativismo da madeira. Por volta do final Século XIX ainda se falava em autorização para o corte da madeira no Brasil. Os ‘progressistas’ da República afrouxaram a fiscalização e então conhecemos um forte surto de desmatamento. Foi tão voraz esse desmatamento que obrigou o governo a endurecer novamente a legislação. Quem conheceu o Porto de Itajaí, no início do Século XX até os anos 70, pode testemunhar o quanto de madeira foi retirada das matas catarinenses, em especial o pinheiro brasileiro. Foi tanto pinho extraído das terras do Sul que o governo criou o Instituto Nacional do Pinho, extinto em 1967. Esse instituto foi transformado na autarquia IBDF e, depois, transformado em Ministério do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis, já no final dos anos 80.

Barra de Camboriú 1948

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MADEIRA PARA CONSTRUÇÃO NAVAL Uma das razões para a proibição do uso das madeiras de qualidade na colônia era seu emprego no feitio de navios de guerra. O temor da Coroa era que a Colônia fizesse uso indevido desse material para a construção de navios de guerra. Já vimos que era impensável permitir que um instrumento como esse pudesse estar sob posse de uma Colônia. Não era à toa que a lei designava a pasta da Intendência da Marinha como a responsável pelo corte da madeira. Por isso era estocada nos arsenais da Marinha. Além da madeira, a Intendência da Marinha era responsável também, pela fiscalização dos estaleiros e das armações de pesca da baleia. Essa instituição também tinha participação nas ações governamentais, visando ao povoamento do nosso litoral. Por isso, geralmente os portugueses chamavam a nossa madeira de “paus reais para embarcação”. Não estranhe o leitor, a insistência do uso dessa designação para a madeira durante todo o texto.

CAMBORIÚ - 1909

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A SEGURANÇA DA PROVÍNCIA E O CORTE DA MADEIRA Tudo que pudesse ameaçar a segurança de Portugal era contido com mãos de ferro. A Coroa via o corte da madeira no Brasil como uma ameaça. No entanto, a pretensão espanhola sobre o Sul do Brasil, acabou obrigando Portugal a ocupar o território. Devido a esse dilema vivido por Portugal, o território do Brasil meridional acabou sendo alvo para uma colonização urgente. Esse fato então, propiciou o surgimento para um esquema de desmatamento. Na disputa contra a Espanha pela posse do território, Portugal aapelou para o direito do uti possidetis. O termo significa que quem ocupava a terra tem direito sobre ela. Portugal tratou de colocar o máximo de gente possível nessa imensidão territorial que ia até o Rio da Prata. Começou pela fundação da Colônia do Santíssimo Sacramento em 1680, chegando até a Colônia Nova Ericeira, na Enseada das Garoupas em 1818. Para prover vilas de ocupação e assentar colonos, era imprescindível desmatar as glebas a serem ocupadas. As melhores terras para assentar colonos eram justamente as que mais produziam madeira. Tratamos esse tipo de terreno de “tabuleiros”, que eram terrenos altos, porém planos, ideais para assentamentos, pois davam excelentes chãos de casa e ótimas roças. Mas, para isso, era preciso extrair a madeira. Caso o governo quisesse e precisasse ocupar essas terras, teria que desmatá-las. Surgia então a oportunidade que alguns ladinos precisavam para burlar a lei, beneficiando-se das lacunas criadas por ela. O escritor Rogério Lenzi, no livro Itajaí - Outras Histórias, escreve um artigo em que relata que a riqueza da madeira disponível, mais a abundância da pesca e a fertilidade das terras, motivaram verdadeira corrida especulatória. Altos funcionários públicos, militares, eclesiásticos e comerciantes da Sede da Capitania de Santa Catarina requeriam sucessivas sesmarias. Assim, no começo do Século XIX, as terras da Foz do Rio Itajaí estavam todas tomadas por diversos sesmeeiros.19 A Coroa Portuguesa não mediu esforços para reprimir a devastação das florestas que eles chamavam de lassidão das florestas. Nos títulos de terra sempre vinha expressa essa recomendação.20 Sucessivas leis e alvarás foram editados, visando a regulamentação das ocupações e, em todos, a Coroa lembra o cuidado que o proprietário de terra deve ter com relação à madeira. 19

Lenzi, Colonização e Expansão - Op Cit, p. 31

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Veja a tradução da Carta de Sesmaria de Baltazhar Pinto Corrêa na página 143.

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De qualquer forma, a famosa Lei das Terras (nº 601/1850) contém um texto mais brando, se considerado todo o arcabouço jurídico anterior sobre a questão do corte da madeira. Parece ser o “começo do fim” do controle estatal da exploração das imensas florestas do País.

CAMBORIÚ – Década de 40

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A ABUNDÂNCIA DA MADEIRA E A DIFICULDADE EM EXPLORÁ-LA É verdade que a madeira era abundante no Brasil e isso a própria Carta Régia de 1795 reconhece. Porém, as dificuldades de se extrair as madeiras do interior das matas eram fenomenais. Reportamo-nos a duas principais dificuldades: a simples falta de tecnologia aplicada ao corte e o ataque dos índios ferozes. Faltavam para eles instrumentos de corte rápidos e meios de transporte eficientes, capazes de extrair com facilidade e rapidez as toras do interior das matas. Por isso, o legislador proveu reservá-las principalmente as de fácil acesso. Cortar madeira a machado e retirá-la da floresta por tração animal, convenhamos, não era nada fácil. Em terrenos acidentados, pantanosos e distantes, muito pior. As terras mais interioranas, longe do litoral, ainda apresentavam o inconveniente da presença indígena. Mesmo depois da Independência do Brasil, o governo central manteve o rigor sobre o corte da madeira. A Lei nº 317, de 21 de outubro de 1843, vem pesar a mão do soberano sobre o contrabandista de madeira, estabelecendo uma multa de 30$000 Réis por tonelada de madeira contrabandeada. Além disso, previa a apreensão da mercadoria e da embarcação utilizada para o contrabando. Posteriormente, a Lei nº 601, de 1850, também previa multa e pena de prisão a quem se apossasse de terras devolutas ou alheias, derrubasse a mata ou lhe ateasse fogo. Fica claro que todo esse aparato legal vai criar no litoral de Santa Catarina um esquema paralelo à estrutura governamental, de sorte a facilitar a vida de muitos empreendedores junto à administração pública. A necessidade de povoamento das terras do Sul vai abrir uma via segura, dentro e fora do governo, para os interessados na madeira. O governo central não tinha escolha: ou fazia vista grossa aos deslizes de muitos ou a colonização do Sul não teria força econômica para viabilizar o povoamento. E é justamente por este caminho que chegaremos à fundação da Colônia de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Camboriú. Uma colonização que também teve boa parte de sua sustentação econômica na exploração da madeira de qualidade. Chegaremos lá, trilhando suavemente as pedras escorregadias desse longo e tortuoso caminho.

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A CARTA RÉGIA A Carta Régia, de 15 de outubro de 1795, é a mais dura das legislações pertinentes à proibição do corte da madeira. Ela tem muito conteúdo, todavia queremos apresentar pelo menos os artigos mais específicos para nossa reflexão. Calçado no fato de que a Província precisa povoar-se, políticos e empresários vão se arriscar na atividade do corte da madeira para formação de assentamentos coloniais, mas sem correr muito risco de cair na malha fina dessa lei. Por estarmos todo esse tempo citando a Carta Régia, vamos conhecê-la mais de perto e tentar entender o processo. O Art. IX desta lei, entre outras coisas, ordena que se reservem todas as matas das encostas, principalmente. Diz o texto: As de melhor comodidade que se possam cortar, e extrair as precisas Madeiras,

para o Meu Real Serviço, ficando vedados, e proibidos ao futuro todos aqueles mesmos distritos, em cujos Lugares, ou Matas, se possam comodamente verificar os cortes das sobreditas madeiras, proibindo que eles, e elas no todo, ou em parte se possam mais dar de Sesmaria. Traduzindo: não se pode conceder sesmaria em terras

onde se possa extrair madeira com melhor comodidade. Além de a madeira servir para fazer embarcação, especialmente as de guerra, mais tarde vai aparecer outra atividade estratégica, a qual demandaria muita madeira, que são as estradas de ferro. Isso vai fazer prolongar um pouco mais o estanco. Para qualquer uma dessas atividades, exigia-se madeira boa, forte, de qualidade. Além de seu uso na construção civil, toda essa demanda fazia valorizar muito esse produto. Apesar da abundância do produto, a Coroa Portuguesa expressa sua preocupação com a lassidão da floresta. Parece exagero, mas haveria aí um fio de razão para o controle do desmatamento. As comunidades indígenas ateavam fogo indiscriminadamente nas florestas. Quanto mais terras queimavam, mais vantagens obtinham nessa ocupação, pois mais tempo poderiam ficar por ali. No entanto, os índios também foram enquadrados na lei. Para os portugueses não tinha nada desse negócio de politicamente correto, que eles eram os verdadeiros donos das terras... A Carta não poupava ninguém. O mito do bom selvagem acabou ali e a severidade da lei alcançou também os “ingênuos” selvagens. A Coroa estava preocupada com o extermínio da floresta, vitimada pelas coivaras indígenas. Portanto quem ateasse fogo, fosse índio ou europeu, a lei não fazia distinção para executar o infrator. Ainda no Artigo IX, dessa lei, esses fatos são expostos claramente:

Art IX – Sendo pública a lassidão, e toleram os cortes das Madeiras nas Matas de todo o Estado do Brasil, e tão irregulares, e nocivos, que em poucos anos nenhuma haverá em sítios cômodos, e tais, que facilitem os seus transportes aos 48


lugares do seu destino, antes pelo contrário que será necessário ir buscar as ditas Madeiras a outros muito mais remotos, que dificultem a sua condução, ou talvez façam impossível que ela se pratique, cujos prejuízos, sendo como são de gravíssimas conseqüências, ainda que ao fim de evitá-las por diversas Ordens (que deverão ficar subsistindo) se achem determinadas as cláusulas, e reservas, com que se costumam passar as Cartas de Sesmarias, e que já nas ditas reservas se compreendam os Paus Reais para Embarcações; contudo merecendo este Assunto outras Providências, que firmem mais segura cautela, para que se não abuse da liberdade até agora permitida. Nota-se mais uma vez que a expressão “paus reais para embarcação”deixa claro o interesse na proteção específica da madeira para a construção naval, sempre dissimulada pela preocupação com a lassidão nos “terrenos cômodos”. Vimos nesse capítulo que a coroa impõe a restrição aos sesmeeiros de explorar as madeiras de sua terras. E é pelas beiradas desse nó jurídico que os atores protagonistas das fundações das nossas freguesias vão se equilibrar para passar por ele sem muito risco. Nelma Baldin constatou esse fato em sua dissertação de mestrado A Intendência da Marinha de Santa Catarina e seu papel na ocupação da Província Cisplatina:

Esta posição dos proprietários particulares ameaçava impossibilitar o corte. Numa tentativa de resolver a questão, Rodrigues de Carvalho, Presidente da Província, em 1826 recebeu determinação Imperial para que procedesse na conformidade da Lei, obrigando os proprietários a cumprirem as determinações com que lhes haviam sido concedidas as sesmarias e que reservava à Coroa toda a madeira de construção.21

As leis brasileiras pós-independência, regulamentando o setor madereiro, mantiveram esses mesmos interesses e, praticamente, os mesmos rigores das leis portuguesas. A Lei 601/1850 dá uma afrouxada no processo, mas quatro anos depois, o Decreto nº 1318/1854 que regulamentou a lei 601, volta a endurecer o sistema. Essa foi a mais importante lei de cunho fundiário, editada durante o Império. Ela dispunha sobre as terras devolutas. É uma lei relativamente branda e já não faz tanta restrição ao desmatamento. O Decreto nº 1318, datado de 30 de Janeiro de 1854, manda executar a lei, exortando que o governo deveria manter o con21

Nelma Baldin - A Intendência da Marinha de Santa Catarina e seu papel na ocupação da Província Cisplatina, 1817-1832 - Dissertação de Mestrado - 1979, p 59.

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trole sobre as terras devolutas, reservadas apenas para colonização e fundação de povoações. Também fala em fornecer à Marinha informações sobre a existência de madeiras e se “convém reservar para o dito fim”. Na data desse decreto, as nossas principais cidades já estavam bem estruturadas, mesmo assim, o legislador não se esqueceu de reservar a madeira especificamente para a Marinha. Ao final do Século XIX ainda se falava em autorização para o corte. O governo monopolizava também o serviço de desdobramento ou entaboamento. Mas isso o governo vê como uma atividade secundária, portanto não atua nesse setor diretamente. Ele abre concessões públicas a quem quisesse explorar o serviço de entaboamento.

Praça Flávio Vieira – Centro de Camboriú – Nesta foto vê-se ainda o histórico prédio da Prefeitura Municipal, demolido para se construir um prédio moderno.

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AS CONCESSÕES DE SERRARIAS Jean-Baptist Debret, na pintura, “Os Serradores”, mostra escravos desdobrando tábuas manualmente, usando uma ferramenta denominada traçador. José Mendes fala que esse serviço, em Itajaí, era “feito a braços”. Em larga escala esse processo seria muito pouco producente. Nesse tempo, países avançados possuíam engenhos de serra movidos a energia hidráulica. Na Colônia Brasileira ter uma ferramenta dessa era impossível. Para otimizar esse tipo de serviço, o governo abriu concessões para empresários que quisessem desdobrar toras em tábuas. Como isso demandava tecnologia um pouco mais elaborada, o governo teve que importar o serviço. Geralmente os detentores dessas tecnologias estavam na Inglaterra, França ou Alemanha. Os engenhos de serra eram tão significativos que, onde tinha um deles, virava referência geográfica. O termo acabava virando topônimo. Temos exemplos ainda hoje de lugares que se chamam Serra ou Serraria no litoral catarinense. (veja no mapa seguinte) Na cidade de Biguaçu, o serviço foi concedido a uma empresa multinacional inglesa, cujo empresário era chamado Cristóvão Bonsfield, súdito inglês, estabelecido em Desterro. A concessão foi do governo de José Mariano Cavalcanti de Alburquerque. O inglês terceirizou o serviço a uma empresa que atendia sob a razão social de Wells, Pedrick & Gonçalves. Eram proprietários os senhores Lemuel Wells, cônsul norte americano; John Pedrick, também norte americano e o português José Gonçalves dos Santos Silva. O historiador Walter Piazza descreve uma enorme serraria com 12 serras verticais, acionadas por uma forte cachoeira e desdobrava de 50 a 60 dúzias de tábuas por dia. 22

Os Serradores. Aquarela de Debret

22

Walter Piazza, Santa Catarina: Sua História, p. 245

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52 a propriedade de Agostinho Alves Ramos e, por fim, a Serraria de Barkere Tucker.

Parte do mapa do Eng Van Lede de 1845, o qual mostra o Morro da Taquarassatiba (Morro do Boi) Rio da Lagoa do Canto e


O MODELO SESMARIAL E AS DIFICULDADES DE ENTRAR NESSE SISTEMA Para que as sesmarias fossem perfeitamente regulares, deveriam obedecer a três condições explícitas no Alvará Régio, quais sejam: 1º: cultura; 2º:medição; 3º: confirmação. Isto significava que o sesmeeiro era obrigado a cultivar as terras por três anos; demarcar e, por fim, obter da autoridade imperial a confirmação das glebas em até um ano após a homologação. A Carta Régia diz: [...]isso com a especial cláusula de confirmar esta Carta

de Sesmaria, pela Meza do Desembargo do Paço no termo de hum ano, sem o que não terá effeito a presente Concessão.

Ao titular de sesmarias era exigido o aproveitamento pleno, medição, demarcação e confirmação, nos termos da legislação portuguesa vigente à época, quais sejam: os alvarás de 3 de março de 1770, o de 5 de janeiro de 1785, o de 5 de outubro de 1795, o de 25 de janeiro de 1809, além de um Decreto datado de 22 de junho de 1808. Os sesmeeiros tinham que satisfazer ainda as seguintes determinações: a) cultivo no prazo determinado; b) registro da Carta de Doação; c) medição e demarcação da área; d) confirmação da concessão. Era burocracia que não acabava mais. Os candidatos tinham de enfrentar uma viagem, pra lá de cansativa, ao Rio de Janeiro em virtude dos meios de transporte precários da época. Lá contratavam um topógrafo demarcador para fazer a planta e um advogado para fazer o requerimento e acompanhar o processo. Para ser ter ideia do quanto era difícil encontrar um advogado em Santa Catarina, o Diário do Senado da República, edição 541, repercutindo uma discussão qualquer de um senador, afirma que em 1827, em Santa Catarina existiam apenas dois advogados: “Um era pedreiro e outro melhor é escrevente de hum cartório”. Também tinha uma opção mais cara que era o cidadão comprar passagem e embarcar em um navio de linha normal para o Rio de Janeiro. Uma viagem dessas era uma efeméride. A saída do porto do Rio de Janeiro para Santa Catarina era anunciada em jornais. Viagens de Santa Catarina para o Rio, eram anunciadas de forma ainda mais espalhafatosa, pois era mesmo um grande evento. Reproduzimos um exemplo recolhido aleatoriamente no jornal Diário do Rio de Janeiro, de nº 0900006 de 1821: “Parte em 16 dias para Santa Catharina a escuna ingleza Hop...” Com um pouco de sorte, poder-se-ia viajar com pessoas importantes. Se você fosse um viajante daquele tempo, poderia ter seu nome

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exposto nas primeiras páginas dos jornais, na charmosa lista dos passageiros que iriam embarcar na “próxima saída”, como o Dr Blumenau, Agostinho Alves Ramos, o Governador Tovar com sua família e seus escravos e até o Governador Adolpho Konder, são alguns exemplos. Poder-se-ia até conhecer o próprio armador Anacleto Pereira e sua charmosa esposa, a dona Anna Francisca da Costa e Silva. Meio nariz empinado a madame, mas quem sabe, na entediante viagem, se rendesse a uma boa conversa. Pagar passagem de navio e estada no Rio de Janeiro não era para qualquer um. Os colonos geralmente eram pobres, gente simples, a maioria constituída de analfabetos ou com pouca instrução. Pelo menos era o que alegavam para conseguir as concessões. As alegações mais comuns é que eram pobres, tinham famílias grandes para sustentar, escravos para empregar na lida e o esgotamento de suas atuais terras.

E como já alertamos, nesse contexto, é importante ressaltar que, caso o sesmeeiro deixasse de cumprir tais obrigações, suas terras “cairiam em comisso”. Significa dizer que as terras seriam reintegradas ao patrimônio público, à luz dos termos expressos no artigo 8º da Lei nº 601/ 1850 e 58 do Decreto de nº 1.318/1854: Art. 8º: Os possuidores que deixarem de proceder á medição nos prazos marcados pelo Governo serão reputados cahidos em commisso, e perderão por isso o direito que tenham a serem preenchidos das terras concedidas por seus titulos, ou por favor da presente Lei, conservando-o sómente para serem mantidos na posse do terreno que occuparem com effectiva cultura, havendo-se por devoluto o que se achar inculto. [...] Art. 58. Findos os prazos, que tiverem sido concedidos, os Presidentes farão declarar pelos Commissarios aos possuidores de Terras, que tiverem deixado de cumprir a obrigação de as fazer medir, que elles tem cahido em commisso, e perdido o direito a serem preenchidos das terras concedidas por seus titulos, ou por favor da Lei Nº 601 de 18 de Setembro de 1850, e desta circumstancia farão as convenientes participações ao Delegado do Director Geral das Terras Publicas, e este ao referido Director, a fim de dar as providencias para a medição das terras devolutas, que ficarem existindo em virtude dos ditos commissos.

Vale ressaltar que apenas os requerentes que cumpriram os requisitos retrocitados tiveram homologados o “domínio pleno” para receberam o registro das suas terras. Só assim o terreno passava a ser incorporado ao patrimônio particular, por título legítimo ao requerente, através do recibo. Uma carta de sesmaria, concedida e não confirmada, equivalia a uma mera posse. Por imperativo lógico, não era documento representativo de domínio, uma vez que não foi legitimado dentro do prazo e condições estipulados em

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lei. Por isso, muitos que requereram não obtiveram o êxito pleno de receber a tal “imperial confirmação”. A maioria deles não foi além do processo de requerimento. O fato de ser dispendiosa uma viagem ao Rio de Janeiro afastava muita gente de continuar o processo, mas quem estivesse no grupo do Anacleto José Pereira, viajava tranquilamente em seus barcos, pois explorava a navegação de cabotagem entre Porto Alegre e Rio de Janeiro.

Praia de Camboriú -1952

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O ESQUEMA DA FUNDAÇÃO DA COLÔNIA E SEUS PRINCIPAIS ATORES A carta de concessão de sesmaria, recebida pelo sesmeeiro Baltazhar Pinto Corrêa, é um exemplo perfeito e bem acabado desse processo. Ele cumpriu rigorosamente todas as fases do processo, desde a ocupação até o registro. No texto da carta está explícito que o concessionário tinha autorização para ocupar a terra e fundar uma vila, contudo não poderia explorar os paus reais e as minas do interior da terra. Convenhamos, não deixava de ser uma situação bem desconfortável, ir para um lugar de mata fechada e não ter a autorização de derrubá-la ou dela se aproveitar economicamente. Mas como sempre ocorreu no Brasil, nas lacunas deixadas pela administração pública, apresentam-se as dificuldades para se vender facilidades. Funcionários públicos se aliam a empreendedores particulares e formam grupos que atuam nesse nicho propiciado pelo próprio Estado. O processo da colonização deixa bem evidente uma contradição: o interesse estratégico do Estado em parceria com a iniciativa privada. Entre o Estado e o empresário ou sesmeeiro, ligando tudo, estava o funcionário público. Nesse nicho, formou-se uma poderosa organização que estava disposta a auxiliar os colonizadores, todos de olho na madeira de qualidade. Justamente um produto que o colonizador não podia explorar sozinho. Esse grupo organizado a partir de Desterro, sob a liderança de Anacleto Pereira, compunha-se de políticos, militares, comerciantes e gente do alto escalão de governo. Formaram uma máfia muito poderosa, a qual conseguia extrair a madeira, dando a essa atividade um caráter de legalidade, mediante assentamentos. Entre os rios Itajaí e Tijucas, o grupo tem na figura de Agostinho Alves Ramos sua principal liderança. O grupo tinha quatro objetivos básicos: promover assentamentos, driblar o estanco da madeira, formar currais eleitorais, criar condições objetivas para relações de trocas comerciais – criação de uma economia de mercado. Esses senhores detinham o conhecimento e informações privilegiadas de dentro do governo. Sabiam, por exemplo, com muita antecedência que a Independência do Brasil era uma questão de tempo e que muitas oportunidades iriam surgir nesse campo. Antônio de Meneses Vasconcelos de Drummond é um exemplo de colonizador com influência na Corte. Sabendo muito, veio aplicar seus conhecimentos em Santa Catarina. Para tudo funcionar a contento, o grupo precisava de poder político. Daí a necessidade de cooptar governadores, intendentes, deputados, milicianos, eleitores e eleitos. Por fim, colonos sedentos por um lugar ao sol, eram peças funda-

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mentais nesse tabuleiro, sem os quais o jogo não operava. Fáceis de serem cooptados, os colonos foram inocentes úteis usados nas mãos dos mafiosos. Nesse afã de colonizar, ocupar a qualquer custo as terras dos vales dos rios Tijucas, Camboriú e Itajaí, valia tudo: até requerer a vinda de presidiários e soldados dispensados de seus batalhões. Vasconcelos de Drummond sugeriu ao Ministro Tomás da Villanova trazer prisioneiros para cá, para trabalharem nas terras da região de Tabuleiro às margens do Itajaí-Mirim. A alegação é de que seria mais leve para a fazenda pública.23 Para esses grandes empreendimentos de risco, o capital privado era de vital importância. Nesse ponto do processo de colonização do nosso litoral aparece, de forma destacada, Anacleto José Pereira da Silva, tido como o homem mais rico de Santa Catarina. À época da colonização do nosso litoral, tornou-se patrão/sócio de Agostinho Alves Ramos. Vamos observar durante todo esse processo de colonização da nossa região a proximidade desse empresário com os demais autores da fundação da nossa Freguesia.

Canto da Praia. Vê-se ao fundo, o “Caminho do Corrêa” (atual Estrada da Rainha)

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Correspondência de Antônio de Meneses Vasconcelos de Drummond ao ministro Villanova Portugal acerca do uso de presidiários para compor a massa campesina na colônia que ele estava montando às margens do Rio Itajaí-Mirim.

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O FIM DA COLÔNIA NOVA ERICEIRA Depois da falência da Colônia Nova Ericeira, o Distrito de Enseada das Garoupas, onde ela estava instalada, passou a se chamar Porto Belo. É a partir daí que a região ao Sul do Rio Itajaí passa a integrar esta Vila. Todos os núcleos eminentemente portugueses passaram a sofrer, depois da independência, forte discriminação e retaliações do governo brasileiro, até seu total enfraquecimento. No ano de 2018, o Historiador Rogério Pinheiro promoveu um extenso seminário em comemoração ao bicentenário da criação dessa colônia, denominado “Ericeira 200 anos - Roda de Conversa”. A tônica era sempre a influência da diáspora ericeirense no complemento do contingente populacional do litoral do Vale do Itajaí. Acredita-se que os colonos remanescentes foram pulverizados pelo litoral e seus descendentes fortaleceram localidades como Tijucas, Itapema, Camboriú, Navegantes e Itajaí. Esse pensamento, em parte, é compartilhado também pelos colegas historiadores Magru Floriano de Itajaí e Dieter Bruno Kohl, de Porto Belo. Não há provas suficientes que os 101 casais de ericeiros pioneiros e seus agregados, influíram tanto assim na população do litoral norte catarinense. Logo em seguida, entre 1820 e 1821, 75 pessoas requereram terras para a Enseada das Garoupas. Desse contingente, oito requisitaram terras para Camboriú e sete para Itajaí. Só aí já temos um número muito superior aos dois casais ericeirenses que a história registrou que receberam terras em Camboriú. Costumamos dizer que a falência da Colônia Nova Ericeira provocou um insight nas suas lideranças, despertando-os para um negócio muito lucrativo: formar colônias com os próprios brasileiros e extrair madeiras para fazer os assentamentos. Para povoar a terra, era necessário desmatar algumas áreas. Que Sua Majestade nos perdoe, mas não dá para fazer a omelete sem quebrar os ovos: se quiser povoar, vai ter que desmatar. Desmatando-se, aproveitariam a madeira, um produto muito valorizado. Nessa manobra, a participação do ex-administrador da Colônia Ericeirense vai ser fundamental. O homem tinha excelente know how em madeiras, florestas, colônia, administração pública. Quem quisesse entrar nesse negócio, tinha que se sujeitar ao conhecimento e à experiência política do intendente Miguel de Souza Mello e Alvim. Naquele momento, ele tinha as duas pontas desse negócio. Experiência em administrar e formar colônias e dirigir o órgão fiscalizador da madeira. Não foi difícil para um homem inteligente como ele, oportunista de plantão, ligar essas duas coisas e empreender um lucrativo negócio: explorar madeiras, assentando colonos.

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A CRIAÇÃO DE PORTO BELO O Rio Camboriú foi por muito tempo limite entre os mais antigos municípios catarinenses. Em princípio foi divisa entre a Capital Desterro e São Francisco, depois São Miguel e São Francisco. O território de Porto Belo e antes, Enseada das Garoupas, pertenciam ao Município de São Miguel. Nesse Arraial é que foi estabelecer-se a segunda maior colônia de portugueses de Santa Catarina, a Colônia Nova Ericeira, criada por interesse do Ministro Tomaz Villanova, em 25 de março de 1818, no governo provincial do Brigadeiro João Tovar de Albuquerque Mello. A tal colônia não durou muito tempo. Por causa do movimento separatista do Brasil, essas colônias de portugueses continentais foram sendo desconstruídas. Para dirigir a Colônia Nova Ericeira foi nomeado Miguel de Mello e Alvim. Com a falência dessa colônia, foi proposta pelo Conselho Geral da Província de Santa Catarina e aprovada por decisão do Senado Imperial Brasileiro, a criação da Vila de Porto Belo.24 O projeto foi levado à sanção do Imperador D. Pedro II e transformado em Decreto Imperial na data de 13 de outubro de 1832. O decreto não tem número, apenas a data. Por esse decreto, a nova freguesia tem seus limites ao norte com a Vila de São Francisco através do Rio Itajaí. Com a criação da Vila de Porto Belo, em 1832, foram instituídos em seguida os distritos de Tijucas Grande, Itajaí e Cambriú. É o que relata o primeiro da Câmara dessa cidade, chamado de Livro de Registro Geral da Câmara de Porto Belo. Em princípio, por causa da grandeza da Praia Brava e por ela estar dentro dos limites do Distrito de Cambriú, tínhamos uma população maior que a de Itajaí. Veremos na lista de eleitores de Porto Belo de 1933/34 (pág 110) que o Distrito de Cambriú tem mais que o dobro de eleitores que todas os demais distritos pertencentes a Porto Belo. Éramos maior número em moradores, em quantidade de casas, de eleitores e de jurados. Tudo em Cambriú era maior que nos demais distritos, especialmente o porto. Contudo, em 13 de julho de 1836, o Vice Presidente da Província, Francisco Luis do Livramento recomenda à Câmara Municipal de Porto Belo que suprima desse município, os distritos de Paz de Tijucas Grande e Cambriú. Diz o texto: Na forma da lei, devem ser suprimidos nesse Município os Distritos de Paz de Tijucas Grande e Camburiú, Desterro, 13 de julho de 1836.25 24

Aprovado na 108ª sessão no dia 06 de outubro de 1832.

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Comunicação do Presidente da Câmara de Porto Belo, 13 jul 1836, p. 62v

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Como pode o maior distrito de uma cidade ser rebaixado dessa forma e passar a pertencer a outro menor? O Distrito de Cambriú estava muito forte, “mandando” na cidade de Porto Belo, elegendo os presidentes da Câmara, pela força de seu contigente eleitoral. Como na monarquia não existia a figura do prefeito, o Presidente da Câmara assumia as funções do executivo, e os primeiros presidentes da Câmara de Porto Belo, eram do Distrito de Cambriú. A Praia Brava, que ficava dentro dos limites do Cambriú, tornava o nosso distrito maior que a Sede. A primeira estratégia foi tentar inserir a Praia Brava dentro dos limites de Itajaí e assim equilibrar as forças. Quando Cambriú voltou a ser distrito, em 1842, a Praia Brava ficou fora dos nossos limites. Apesar de muita gente da Praia Brava mudar para a banda sul do Rio Camboriú e para a região da atual Canhanduba, mesmo assim a Praia Brava continuou grande. E por ocasião da emancipação de Itajaí, fomos definitivamente incorporados a ele em 1859. E Camboriú vai se emancipar de Itajaí em 15/01/1885.

Camboriú - Década de 1940

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QUEM FOI O INTENDENTE MIGUEL DE MELO E ALVIM Entre os principais membros que compunham o grupo dos interessados na fundação das nossas colônias, um dos personagens de maior proeminência foi o Intendente Miguel de Souza Mello e Alvim. Seu conhecimento, seu poder político e sua influência, são atributos muito especiais que não podiam ser ignorados. Ele foi um dos vultos mais importantes na história política de Santa Catarina. O próprio cargo de Intendente da Marinha já o coloca em uma boa ascendência sobre qualquer um que quisesse explorar madeira das nossas florestas. Ninguém na Província tinha mais conhecimento que ele no assunto. Miguel era o principal executivo que administrava a madeira das florestas das terras devolutas, destinadas ao assentamento de povoações. É o Art. 81 do decreto 1318 de 1854 que lhe confere esse poder.

As terras reservadas para o dito fim [à fundação de povoações- (Art 78)] ficarão sob a administração da Marinha, por cuja Repartição se nomearão os Guardas, que devem vigiar na conservação de suas matas, e denunciar aos Juizes Conservadores do Art. 87, aquelles que, sem legitima autorisação, cortarem madeiras, a fim de serem punidos com as penas do Art. 2º da Lei nº 601 de 18 de Setembro de 1850.

O Intendente da Marinha era um dos mais elevados representantes do governo imperial na Província. Estavam sob a sua administração, as terras devolutas destinadas às novas povoações, portanto ele tinha a chave desse negócio nas mãos. Mas como este capítulo se propõe a dar mais conhecimento sobre este personagem, digamos que consta do seu notável currículo que Miguel Alvim foi Governador do Estado de São Paulo. Se o leitor achar isso pouco, acrescente também o fato de ter sido ele o primeiro governador de Santa Catarina no período regencial de 1830 a 1831. E por fim ocupou a chefatura da Colônia Nova Ericeira. No cargo de Intendente da Marinha em Santa Catarina, dedicou-se à construção de estaleiros navais e à fundação da Colônia Nova Ericeira, em 1817. Como Capitão de Mar e Guerra fez construir em Santa Catarina as canhoneiras Anhatomirim, Araçatuba e São Francisco de Paula. Foi também encarregado da Defesa Marítima de Santa Catarina por designação do Presidente João Carlos Pardal, em 1839. Elegeu-se Deputado Provincial na primeira Legislatura (18351837), e foi Vice-Presidente da Assembleia (até 10/04/1835) e depois Presidente da Casa (1835 e 1836). Elegeu-se novamente Deputado Provincial na segunda Legislatura (1838-1839). Presidente da Assembleia (1839); Deputado Provincial também na terceira Legislatura (1840-1841). Presidente da Assembleia (1840), Deputado da Província outra vez na 4ª Legislatura (1842-1843).

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Na época dos episódios que estamos relatando, ocupou também o cargo de capitão-tenente. Foi ajudante de ordens do Presidente da Província de Santa Catarina, o Coronel João Vieira Tovar e Albuquerque. Mas foi o cargo de Intendente da Marinha que o aproximou de Anacleto José Pereira da Silva. Alvim recebeu as seguintes condecorações: Hábito da Ordem de Aviz (1812), Cavaleiro da Ordem de N. Sra. da Conceição de Vila Viçosa (1819), Comendador da Ordem de S. Bento de Aviz (1828), Dignitário da Ordem da Rosa (1829), Grande Dignitário da Ordem da Rosa (1841), Comendador da Ordem da Torre e Espada (1850). 26 Por esse tempo de pré-independência, como já vimos, havia necessidade de enfraquecer qualquer organização portuguesa, pois temia-se um ataque de Portugal. Daí nasce a nossa suspeita do porquê do enfraquecimento das colônias de portugueses como a de Ericeira. No dizer popular, não podíamos ficar criando cobras para nos morder. Seria melhor dissolvê-las. Tudo indica que Mello e Alvim estava aderindo à Independência, sem nenhuma suspeita aparente. Ele nos parece também ser desse tipo de político que não importa a ideologia, queria estar no poder. Entra governo, sai governo, muda governo e os Mello e Alvim estão lá, ocupando os melhores cargos. Certamente, com a emancipação do Brasil, suas chances poderiam melhorar, afinal ele já tinha até filhos brasileiros. Queremos crer que, na direção da Colônia Nova Ericeira, Mello e Alvim teve um insigth de que esse negócio de formar núcleos coloniais era bem rentável. Com a experiência obtida na formação da Nova Ericeira, o homem ficou diplomado no assunto. Era um expert em formação de núcleos coloniais e expert em exploração de madeira. Ambas expertises formam um conjunto a ser unido, colocando-se em prática o maior e mais ambicioso esquema de poder político no início do Século XIX em Santa Catarina. Para botar em prática um projeto audacioso como esse, ninguém melhor para liderá-lo que Mello e Alvim. Já vimos que ele detinha as duas pontas do processo necessário à implantação do esquema: conhecimento em administração colonial e exploração de madeira. Duas atividades que além de conferir prestígio e experiência ao senhor Melo Alvim, envolvia grande movimento financeiro. Miguel Alvim - Fonte: site do IHGSC

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FONTE: (http://fortalezas.org/index.php?ct=personagem&idpessoa=1840)


O ENGENHEIRO JOÃO DE MELO E ALVIM E SEU PROJETO DE MUDANÇA Enquadramos nesse grupo articulador, que vai influir nas organizações colonias da nossa região, o filho de Miguel, João de Souza Melo e Alvim. Só o fato de ser filho do Intendente Miguel Alvim e diante de seu envolvimento com as neo-colônias, isso já o torna naturalmente suspeito. Não subestimemos esse grupo. João de Souza Mello e Alvim foi, entre outras coisas, Presidente da Província do Ceará de 1866 a 1867. Ele é catarinense e iniciou a carreira militar na Academia Militar do Rio de Janeiro, em 1839 e foi deputado à Assembleia Legislativa Provincial de Santa Catarina, na sétima legislatura (1848 — 1849); depois na 12ª legislatura (1864 — 1866), na 13ª legislatura (1867 — 1869), e na 17ª legislatura (1878 — 1881). Foi engenheiro nas colônias Piedade e Santa Teresa, onde também foi diretor, de 17 de fevereiro a 11 de julho de 1854, sendo diretor interino em 1855. Foi cavaleiro da Imperial Ordem da Rosa e comendador da Imperial Ordem de Cristo. Nesse grupo só tem gente boa, gente forte, poderosa. Com esse currículo invejável, João Melo abocanhou uma das melhores pastas, no governo de João José Coutinho, de 1850 a 1859. Nessa gestão, João Alvim vai ocupar o invejável cargo de Capitão de Engenheiros do Estado. Na função de encarregado de reurbanizar as cidades catarinenses, vai fazer uma sugestão que vai para sempre mudar a história de Camboriú. Foi ele em carne e osso que esteve em nossa Freguesia em março de 1851, com uma proposta inusitada e suspeita: transferir a Sede do município de Camboriú para o interior. Ora, isso era um recurso muito pouco utilizado. Veremos mais adiante que o natural seria tranformar o Arraial do Garcia em distrito e emancipá-lo. Destacamos o nome do engenheiro João de Melo e Alvim, para advertir que ele não botaria prego sem estopa, ao sugerir a mudança da Sede na foz do Rio para o Garcia, sendo o Capitão Costa, seu correligionário e membro da organização como veremos mais à frente. Esse engenheiro, na sua missão de reorganizar as cidades catarinenses, alega que a atual freguesia (Barra) estava espremida entre o morro e o rio, portanto não teria futuro. Não era local adequado para se fazer uma grande cidade e nisso tinha razão. Na verdade ele estava sugerindo criar outro núcleo. Como a freguesia ali já estava formada e o grupo sentia necessidade de criar outros núcleos, foi quando surgiu a ideia de transferir a Sede. Era uma forma de se criar um novo núcleo, dentro de uma freguesia preexistente, usando sua infraestrutura. Nesse contexto e com esse pretexto era mais fácil se utilizar de comunidades já existentes para comandar a formação de uma nova freguesia. Além disso, os riscos financeiros baixavam consideravelmente.

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O decreto nº 1318 nos dá embasamentos para tudo que expusemos sobre a proteção da madeira e o consequente surgimento de atividade com objetivos de contornar as objeções da lei. Citamos a seguir alguns artigos do decreto para ilustrar como eles adaptavam a letra da lei aos seus interesses. Art. 3º diz:

Compete á Repartição Geral das Terras Publicas: § 1º Dirigir a medição, divisão, e descripção das terras devolutas, e prover sobre a sua conservação. § 2º [...] § 3º Propor ao Governo as terras devolutas, que deverem ser reservadas: 1º para a colonisação dos indigenas: 2º para a fundação de Povoações, abertura de estradas, e quaesquer outras servidões, e assento de Estabelecimentos Publicos. § 4º Fornecer ao Ministro da Marinha todas as informações, que tiver á cerca das terras devolutas, que em razão de sua situação, e abundancia de madeiras proprias para a construcção naval, convenha reservar para o dito fim. § 5º [...] § 6º Fiscalisar a distribuição das terras devolutas, § 7º Promover a colonisação nacional, e estrangeira. § 8º Promover o registro das terras possuídas. Muitas vezes, palavras aparentemente inocentes dentro de uma lei, em mãos erradas, podem se transformar em instrumentos eficazes para seus intentos. Foi por isso que João de Melo e Alvim teve a ideia de compor uma nova colônia, aproveitando uma estrutura preexistente dentro de uma freguesia já formada.

Camboriú Década de 1930

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O GOVERNADOR TOVAR DE ALBUQUERQUE O Brigadeiro João Vieira Tovar e Albuquerque governou a Província de Santa Catarina entre os anos de 1817 e 1821. Ele perdeu um dos braços em uma batalha e por isso apelidaram-no de “João Sem Braço”. Na verdade uma piadinha de duplo sentido, considerando que o Governador fazia uso de “laranjas” em seus negócios, utilizando-se de prepostos em suas empreitadas de tomar a terra alheia. É possível que a expressão “dar uma de joão-sem-braço” tenha sido criada em Santa Catarina daqueles tempos. Assim, o Governador poderia ficar para si com alguns terrenos espalhados em diversos locais da Província, sem comprometer seu nome. O seu envolvimento com terras alheias era público e notório e, sua fama de ladrão de terras, entre outras coisas, corria na boca do povo sem a menor cerimônia. Foi denunciado na Câmara dos Deputados, na sessão de 11 de junho de 1830, por fazer “tramoias”, visando amealhar terras em Cubatão. Na sessão do dia 30, falou-se, baseado em denúncias contidas no requerimento de Bernardino José Bitencourt, que o ex-presidente “extorquiu suas terras”. No documento Avisos do Ministério do Império para o Governador Santa Catarina de 1821, lê-se na íntegra a ementa do requerimento em que o Governador Tovar é acusado de pertencer a uma facção criminosa.

N.°25/ N.° 141 // Manda Sua Alteza Real o Principe Regente, pela Secretaria de Estado dos Negocios do Reino, participar ao Governador da Provincia de Santa Catharina o Requerimento incluso de Bernardino José Betencourt, e outros, que pedem restituição de posse, e dominio das Terras, de que por titulos antigos de Sesmaria, e compra se dizem senhores; accusando ao ex Governador da mesma Provincia, João Vieira Tovar de Albuquerque, de os ter violentamente esbulhado das ditas Terras, para as conceder a pessoas da sua facção criminosa[...]27 Os jornais denunciam suas grilagens e os livros dos tribunais informam as decisões judiciais do produto de suas demandas por terras. Tovar tem seu nome associado aos piores adjetivos em documentos oficiais, até nos documentos da Igreja. O Padre José Rodrigues Malheiro, da freguesia de Santo Antônio

de Lisboa, escreve para Junta Governativa Provisória de Santa Catarina em 7 de abril de 1823, relatando a situação da sua igreja. No tocante às madeiras expostas ao tempo no quintal da igreja, diz que foram mandadas cortar pelo Tovar “[...] em dias que veio aqui fazer estripolias”, escreveu o padre. Continuando, diz que

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Avisos do Ministério do Império para o Governador Santa Catarina de 1821, p 29.

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Tovar “não tinha tantas mezuras como a dita Junta [governativa] e que nunca o apoyou”.28

Ainda com relação às terras de Cubatão, o Diário Fluminense do Governo do Império do Brasil, Edição nº 06 de 7 de julho 1831, na seção de “Decretos”, publica cinco denúncias provenientes da Câmara dos deputados, com várias datas, em que o reclamante Bernardino José Bittencourt, e outros, queixam-se ao Ministério do Império contra as arbitrariedades “que fez o ex-governador de Santa Catharina, das terras, que dizem possuir no Rio Cubatão.” No dia 15 de dezembro de 1831, no mesmo Diário, o Governador Feliciano Nunes Pires, faz um contundente apelo ao Ministro do Império, invocando até os “respeitos humanos” [grifo nosso] solicitando a devolução das terras nas Caldas do Cubatão, retiradas pelo então governador Tovar.29 Essas informações nos dão uma ideia do caráter do nosso ex-governador, seu gosto pelo roubo de terras e, consequentemente, as madeiras nelas contidas. Por esse currículo, mais para grileiro que para uma autoridade do seu nível, é que achamos ter sido ele uma presa fácil aos interesses escusos do Anacleto José Pereira da Silva, principal financiador de um grande esquema de ocupação. Por fim, como malandro demais se atrapalha e dois bicudos não se beijam, pelos livros dos tribunais também ficamos sabendo que ele acabou se desentendendo com o próprio Anacleto Pereira. A briga dos dois foi parar nas barras dos tribunais. Apresento a ementa do processo que diz tudo: Defesa que faz João Vieira Tovar e Albuquerque das invectivas que o capitão Francisco Samuel da Paz Furtado e os seus consócios Manuel Gomes Pereira e Anacleto José Pereira da Silva fizeram contra a sua reputação na qualidade de governador que foi da Ilha de Santa Catarina.30 Vasconcelos de Drummond em suas anotações, na página 12, faz constar o seguinte sobre Tovar e Miguel: A Tovar, porque era incapaz, se lhe ajuntou a Miguel de Souza, intendente da Marinha e ajudante-de-ordens do governo, e deu-se instruções a Tovar para que nada fizesse sem o conselho e a aprovação de Miguel de Sousa. Tovar era limpo de mãos, no exercício do governo alguns despropósitos praticou, mas Miguel de Sousa evitou muitos outros e deu uma forma regular ao governo da província. 28

Correspondências dos Arciprestes e Vigários para Governador da Capitania ao Presidente da Província. 1785 A 1830 12 de Abril de 1823 - Doc.75, fl.97- 99.

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Op cit nº 139 – 15 de dezembro de 1831

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Impressão Nacional, s.d. (1821), p 2

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Drummond sabia muito bem do que estava falando porque andava para cima e para baixo com a trinca: Anacleto, Miguel e Tovar. O próprio governador Tovar diz que andava com Drummond. Isso denuncia que o negócio de um, está ligado ao do outro. Diga-me com quem andas que te direi quem és. Tovar escreveu: Estou a partir com êle [Drummond] e com Miguel de Sousa para Itajahy. 31 Nas suas anotações, Drummond elogia Alvim e chama Tovar de estouvado: Tão ignorante, estouvado e brutal era o governador como inteligente, circunspeto e polido o intendente da marinha.32 Essa é uma pequena síntese do cidadão Tovar, para o leitor saber com quem estamos lidando e perceber que tem tudo a ver com a tese de comando sobre as terras e as matas de Santa Catarina, que eles usaram para implantar núcleos coloniais.

Croqui da Sesmaria de Antônio de Vasconcelos de Drummond

31

Gil Theodoro Miranda. Jornal do Povo de 31 de julho de 1971

32

ANOTAÇÕES DE DRUMMOND p 11

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A QUESTÃO SESMARIAL E A OCUPAÇÃO EM CAMBORIÚ Já vimos reiteradas vezes que, para se levantar uma colônia, há necessidade de se desmatar. Esta é a forma necessária, praticamente obrigatória, de se fazer um chão de morada, roças e pastos para sobrevivência dos colonos. Daí nasce uma boa justificativa para se extrair a madeira. Muitos tentaram conseguir sesmaria em nossa região na época pré-independência, por dois motivos: primeiro por causa dos boatos de que José Bonifácio acabaria com o sistema sesmarial; e o segundo, pela falta de ambientação a que os portugueses estavam sendo submetidos na capital catarinense em virtude da campanha pela Independência do Brasil. A campanha pró Independência estava deixando os brasileiros muito hostis e os portugueses em situação pouco confortável na Capital da Província. Os lusitanos precisavam sair urgentemente do foco de intrigas e construir um gueto menos opressivo. Vimos anteriormente e confirmamos que, entre 1820 a 1821, foram 99 pedidos de concessão de sesmarias para Santa Catarina. Desse montante, 75 foram para Enseada das Garoupas, onde até poucos meses funcionava a colônia portuguesa de Nova Ericeira. Destes, 15 requerentes se candidataram a receber uma sesmaria para a região de Itajahy/Cambriú. Dos 15, oito pessoas se candidataram a receber uma sesmaria em Cambriú e sete para Itajaí, incluindo a margem sul do Itajaí-Mirim, por vezes chamada também de Cambriú. Todos os 15 pretendentes a ocupar um chão de terra eram de Desterro, dentre eles Baltazhar Pinto Corrêa, que já vinha há mais tempo que os outros tentando regularizar suas terras no Canto da Praia. Pelo menos desde 1817, data do seu procedimento de topografia do terreno. Convém lembrar ainda, que em vários documentos, algumas pessoas denominavam o Rio Itajaí Mirim de CambiriúMirim. Talvez porque o sentido do Rio Camboriú-Açu deriva para o norte em direção do Itajaí-Mirim e esse fato levava o homem antigo a acreditar que a nascente do Itajaí-Mirim, provinha de um braço do Rio Camboriú. Também porque, nessa época, a região da Canhanduba estava inteiramente inserida dentro dos limites do Distrito de Cambriú. Moradores da margem sul do Itajaí-Mirim e Conceição, com terras de 1.500 braças de fundos, tranquilamente atingiam hoje os territórios atuais de Monte Alegre ou Canhanduba, o que deixa de fato esses moradores dentro de Camboriú. E a saída para o litoral pela Praia Brava era mais fácil do que contornar todo o Rio Itajaí. Vários moradores dessa região, como José Antônio de Borba, Felício de Borba Coelho, Antônio Correa de Negreiros, Antônio Leal Correa, Manoel Ignácio Borges, Felício Luis da Silva, Vicente Coelho da Rocha, João da Cunha, Manoel Fernandes Vieira, Manoel José da Costa, Pedro Paulo Moraes, Antônio Luís Pereira, Marcelino José Bernardes e

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José Francisco Bernardes se declararam moradores de Cambriú. Todos tinham, de alguma forma, terras em Canhanduba. Muito da correria na busca de con-

cessões de sesmaria foi por pura precaução, em função da propaganda que esse sistema iria ser extinto. Essa afobação mostrou-se inútil, pois a interrupção foi por pouco tempo, razão pela qual, muitos não deram continuidade aos seus requerimentos de sesmaria. De fato o sistema não foi extinto, foi apenas suspenso, através da Resolução nº 76 de 17 de julho de 1822, para o susto geral dos pretendentes, cuja ementa dizia: Suspendem-se todas as sesmarias futuras até a convocação da Assembléia Geral Constituinte e Legislativa. Fica estranho suspender concessões de terras, um benefício tão necessário ao desejado projeto de ocupação do País. Mais estranho ainda é a ementa da Resolução nº 141, de 21 de novembro, que revoga essa suspensão. Não pareceria tão estranho para nós se não fosse citado, no corpo da lei que o motivo eram os sesmeeiros de Santa Catarina. Queira ver!

N. 141. IMPERIO.- 21 DE NOVEMBRO DE 1822 - Manda conceder sesmarias na Provincia de Santa Catharina ás pessoas que estiverem nas circumstancias ele fazer estabelecimentos ruraes. Tendo representado o Governo Provisorio da Província de Santa Catharina, que requerera pela Mesa do Desembargo do Paço a faculdade de conceder sesmarias aos casaes que residem na dita Província, e às mais pessoas que estiverem em circunstancias de fazer estabelecimentos ruraes: Jose Bonifacio de Andrada e Silva.33

Nesse vai e vem, creditamos à sorte o fato de que para Baltazhar Pinto Corrêa deu tudo certo e sua sesmaria para Camboriú foi despachada pela Mesa de Desembargo do Paço, exatamente dentro desse conturbado período. O que não aconteceu com os demais pretendentes. O motivo é que pode ter havido uma intervenção daquele tal grupo organizado em favor de Baltazhar, ou o fato de que ele já vinha há mais tempo empenhando-se nesse requerimento. Quem lê alguns resumos históricos de Balneário Camboriú na internet ou panfletos distribuídos pela prefeitura, vai ler lá o nome de três ou quatro sesmeeiros para Camboriú junto com Baltazhar. É uma meia verdade e injustiça com os demais requerentes de terras pelo sistema sesmarial. Vimos acima que foram no mínimo oito concorrentes. Muitos outros tentaram e requereram terras nas proximidades do Rio Camboriguassu e Itajaí-Mirim em várias épocas, antes e depois disso. Porém uma coisa é requerer e outra é receber. Apresentamos duas razões para isso: a primeira foi o açodamento, devido aos rumores da extinção do processo sesmarial; e a segunda, pode ser o 33

Collecção das Decisões do Governo do Império do Brazil de 1822. p 107

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fato de haver inúmeras exigências no pré-requerimento que eram desanimadoras. Sem contar outras tantas exigências após a homologação. Muitos só se inscreveram por precaução e depois desistiram. Alguns deixaram de cumprir as exigências, o que pode ter levado suas terras a comisso. Quem for no Arquivo Nacional vai ver que no período de 1820/21, tão somente a carta de sesmaria Baltazhar Pinto Corrêa foi homologada. Por quê? Suspeita-se que dessa leva de requerentes, só ele pertencesse ao privilegiado grupo dos ilhéus recrutados por Anacleto, Alvim e o Governador Tovar de Albuquerque. Quem estava nesse grupo, contava com o apoio de Vasconcelos de Drummond, Bonifácio de Andrada e sua turma. Para o leitor sentir a intimidade de Baltazhar com os dois chefões, Anacleto e Agostinho Ramos, veja o índice do Livro de Registros de Sesmaria que os três vão juntos no mês de julho de 1821 ao Governo da Capitania fazer seus requerimentos de sesmaria para Camboriú e Itajaí. (veja quadro abaixo ou fac simili na página 91). Fica por esse documento demonstrado o nexo causal que liga Baltazhar Pinto Corrêa ao esquema dos dois empresários. RELAÇÃO DOS REQUERENTES DE SESMARIA PARA CAMBORIÚ NOS ANOS DE 1820/21 Nome do requerente Braças Local Requer Recebe Ano de 1820 Mês e nome do requerente Agosto - José Ignácio Borges pg 21 700 Cambriú sim não #Outubro - Baltazhar Pinto Corrêa pg 29 V 400 Cambriú sim não Outubro - Manoel Rodrigues Silva pg 29 400 Cambriú sim não Outubro - Bernardo Dias da Costa pg 30 450 Cambriú sim * Ano de 1821 Janeiro - Manoel Oliveira Gomes pg 36 750 Cambriú sim não Fevereiro - Felix José da Silva – pg 37 e 38 400 Cambriasu sim não + Julho - Anacleto José Pereira pg 47 750 Itajahy sim * ++ Julho - Ana Maria Pereira pg 48 090 Zimbros sim não + Julho - Agostinho Ramos pg 48 750 Itajahy sim * + Julho - Baltazhar Pinto Corrêa pg 48 600 Cambriassu sim sim Agosto - Aurélio Correa da Roxa pg 51 600 Cambriú sim não Outubro - Victorianno Tavares pg 54 600 Cambriguassu sim não LEGENDAS: # - Veja que Baltazhar tentou em 1820. Só foi conseguir quando associou-se ao Anacleto. * não consta nada no livro + os três maiorais juntos, em seguida, no departamento, requerendo terras. ++ Provavelmente Ana Maria Francisca da Costa Pereira, esposa de Anacleto. Veja no quadro que o único que requereu e completou o ciclo foi Baltazhar Pinto. Bernardo Dias da Costa, que já aparece recebendo o despacho, não consta o requerimento, nem consta seu registro. Possivelmente não levou o processo adiante. Nos registros do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, desses todos, apenas Baltazhar Pinto Corrêa concluiu integralmente as exigências e teve seu processo homologado pela Mesa de Desembargo do Paço, recebendo os papéis após seis anos a partir da data do requerimento.

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A CHEGADA DO CONSELHEIRO VASCONCELOS DE DRUMMOND NA REGIÃO Mais uma vez reforçamos que temos de entender as histórias de Porto Belo e Itajaí para compreender a de Camboriú. Um personagem da maior importância para a História de Itajaí tem tudo a ver com o enredo que estamos dando a essa compilação. Estamos tratando da presença do Diplomata Antônio de Meneses Vasconcelos de Drummond em Itajaí, requerendo terras nas margens do Rio Itajaí-Mirim entre outras coisas. Antônio Vasconcelos de Drummond iniciou sua carreira junto ao governo imperial aos quinze anos de idade. Filho de um amigo do Ministro Tomás Antônio Villa Nova Portugal, logo se destacou na Corte. Ele aprendeu, de forma autodidática, cinco idiomas. Lotado na chancelaria, acabou sendo peça fundamental, ao lado dos Irmãos Bonifácio e a Princesa Leopoldina, no processo que levou o Brasil à independência. Seu sucesso prematuro lhe causou muitos dissabores. Adversários políticos o denunciaram como pedreiro livre, expressão para designar um adepto da maçonaria, entidade que à época estava completamente envolvida no processo de Independência do Brasil. O Ministro Villa Nova Portugal para proteger seu pupilo de perseguições na Corte, propôs-lhe um breve exílio na Europa, mas Drummond rejeitou a proposta. Aceitou, em contrapartida, sair por breve período de seis meses do epicentro dos acontecimentos políticos, vindo para Santa Catarina. Ele não tinha parentes ou amigos na Província. Então, por que essa escolha? Drummond estava muito envolvido com o processo de Independência do Brasil e a Província de Santa Catarina merecia especial atenção. Nossa Província abrigava fortes núcleos de colonização portuguesa, portanto, é factível pensar que Drummond escolheu Santa Catarina justamente porque intencionava observar in loco os possíveis focos de resistência à independência. Por isso, retornou à Santa Catarina em 1820, permanecendo mais um ano por aqui, oportunidade em que anunciou a criação da Colônia São Tomaz de Villanova, às margens do Rio Itajaí-Mirim. Além da questão política, as notícias de ouro em Itajai, empolgavam o jovem diplomata. A questão da sesmaria e a formação de uma colônia às margens do Rio Itajaí-Mirim poderiam ter papel secundário para Drummond. Essa era uma sofisticada desculpa para a confirmação sobre a veracidade da existência de ouro, além de ele fazer a propaganda separatista do Brasil. A extração da madeira poderia ser apenas pretexto para ajudar a bancar os custos da missão. Na pauta do Conselheiro, constava também o mapeamento dos portugueses na Província e sua motivação para aderir ou reagir à Independência do Brasil.

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DRUMMOND E A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL Quem quiser saber dos bastidores da Independência do Brasil deve ler as anotações de Drummond. Elas foram recentemente transformadas em livro, publicado pelo Senado Federal. É dali que alguns roteiristas de filmes e novelas se basearam para escrever esse capítulo da história do Brasil. Tudo indica que Drummond fez boa parte de sua viagem via terrestre, pelo menos dentro do contexto catarinense entre Itajaí e Desterro. Durante o percurso andou conversando com jovens soldados, anotou as atividades dos cortadores de madeira e os simpatizantes da causa da Independência do Brasil. Foi Drummond quem chamou pela primeira vez Dom Pedro de Majestade. No episódio da festa da independência, quando acabaram-se as fitinhas verdes que Dom Pedro distribuiu aos partidários da Independência, dona Leopoldina arrancou a do seu próprio travesseiro e ofereceu ao Conselheiro Drummond. Não admitiu que o seu principal parceiro da luta pela independência ficasse sem aquele enfeite tão representativo. O Conselheiro Drummond fala assim da nossa princesa:

Fui testemunha ocular e posso asseverar aos contemporâneos que a princesa Leopoldina cooperou vivamente dentro e fora do país para a Independência do Brasil. Debaixo desse ponto de vista o Brasil deve à sua memória gratidão eterna.34 A verdade é que a vinda de Drummond à nossa região tem mais mistérios do que revelam as suas anotações. Alguns dos seus interesses, mesmo que velados, somos capazes de captar nas entrelinhas de suas anotações. Como homem de confiança de José Bonifácio de Andrada, não é difícil deduzir que uma de suas intenções nas duas viagens que promoveu à Santa Catarina foi fazer um serviço de inteligência em prol do movimento de Independência do Brasil. Veio sondar os interesses das pessoas, sentir a capacidade armamentista da população e identificar para que lado derivaria o governador Tovar em caso de uma guerra entre Brasil e Portugal. Santa Catarina era um dos mais fortes redutos de colonos portugueses no Brasil e por isso, falar da independência aqui, era como pisar em ovos. Poucos portugueses apoiavam Dom Pedro I em Santa Catarina por volta de 1820. Além disso o litoral de Santa Catarina foi pouco habitado no largo período compreendido entre 1500 e 1820, não havia uma expressiva população nativa. Não fossem as questões que envolviam as disputas fronteiriças com os

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MARIA LEOPOLDINA- Mulher símbolo - Revista Vamos Lêr– edição 485 p 24


espanhóis no Rio da Prata, possivelmente nosso litoral ainda ficaria pouco habitado por mais tempo. Sabemos que o chefe de Drummond, José Bonifácio, bem como a Imperatriz, eram mineralogistas. Impossível que o assunto “ouro” não tenha entrado na pauta da viagem de Drummond à Santa Catarina. Porém a mineração era controlada e uma atividade punida severamente. Drummond tinha ideias liberais para o Brasil e expressa sua absoluta discórdia com essa proibição em suas anotações. A expectativa de que o Brasil independente poderia liberar a prospecção do ouro pode ser um dos motivos que fizeram Drummond investigar se procedia essa história de ouro no Rio Itajaí. Ele não esconde em suas anotações o conhecimento desse mineral na região, nem sua contrariedade pela proibição da extração. Drummond faz emocionada defesa de João Dias de Arzão, o primeiro a prospectar ouro na região de Itajaí. Ele conta que Arzão foi levado preso para Portugal e lá morreu na miséria, e, desabafa dessa forma em suas memórias:

E assim que a pátria de Camões recompensa um colono honesto que teve a desgraça de fazer uma descoberta útil num país dominado pela força, a mais ignorante e a mais bárbara.

A questão da disputa com a Espanha, era um dos motivos para o governo português não permitir alardes quanto à descoberta de ouro, prata e pedras preciosas no território ao sul de São Paulo. A descoberta de minério conferia novo valor estratégico-econômico ao local e aguçaria ainda mais o interesse dos espanhóis. Por isso, o Sul do Brasil ainda carecia de ser ocupado e armado contra esses possíveis invasores. A invasão espanhola, na Ilha de Santa Catarina em 1777, foi uma lição que Portugal não poderia ignorar. Sabendo-se da importância de Drummond no Rio de Janeiro e diante de tamanho interesse em Itajaí, não é difícil adivinhar quem era o nosso representante na Corte que desembaraçava os nossos processos. O todo poderoso José Bonifácio tratava Drummond, em suas cartas, como “meu bom amigo do meu coração”. Uma dessas missivas ele encerra dessa maneira:

“Adeus, meu bom Menezes; receba muitas saudades de todos, e os meus sinceros agradecimentos pela sua generosa offerta. Seu de coração-ANDRADA”. Conhecendo a anatomia moral dos políticos brasileiros, não é difícil adivinhar que uma amizade com tantos poderes, faz confundir os interesses particulares, com interesses políticos. Cremos ser ele o homem que fazia fluir, com mais facilidade nos meandros da burocracia imperial, os processos dos nossos conterrâneos catarinenses. Será que foi assim que Baltazhar Pinto Corrêa teve seu processo abreviado ?

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DRUMMOND - E A SONDAGEM POLÍTICA Não há dúvidas de que o patriota Vasconcelos Drummond veio fazer um trabalho de inteligência em Santa Catarina em prol da Independência. Ele não esconde isso nas suas memórias. Revela que conversou com as pessoas e as aconselhou a guardar munição e energia, caso precisassem lutar contra Portugal pela independência. E completa o pensamento dizendo que foi ouvido por eles. Ele tinha fartos motivos para isso. Nossa região abrigava duas fortes colônias portuguesas e dois destacamentos militares bem treinados, composto também de portugueses continentais. Caso o País tivesse que pegar em armas, era bom conhecer o nosso poder e o do inimigo. Drummond fala disso nas suas anotações. Ele veio também sondar a posição do governador com relação à independência e uma forma de buscar seu apoio. Drummond revela que somente o governador Tovar e Miguel Mello e Alvim são os três que em território catarinense detinham o segredo sobre a Independência do Brasil: Tovar com Miguel de Souza e comigo, únicos que supúnhamos ter conhecimento dela, [INDEPENDÊNCIA] concordamos em manter o segredo. Drummond corria perigo se falasse em independência. Consta nos livros de História que esteve em Pernambuco e Bahia, onde foi publicamente hostilizado pelos portugueses, por ser o “homem de confiança de D. Pedro – o traidor”. Ele viajava às províncias, estudando a situação do movimento separatista, buscando saber quem era a favor e quem era contra. Em Santa Catarina, Drummond investigou que tipo de armas os portugueses organizados em milícias estavam usando. Por isso Drummond teve com o governador uma conversa franca sobre a independência. Ele andou a pé pelos caminhos, investigando os cortadores de madeira, anotando seus engenhos de serrar e conversou com jovens milicianos. Para a Independência do Brasil, era preciso contar com os exércitos de milicianos, pois, como colônia, evidentemente não dispúnhamos de exército. Por causa do nosso precário contingente militar é que, inteligentemente, a princesa Leopoldina pediu que seu pai recrutasse alemães para povoar o Brasil. Preferencialmente que fossem jovens para formar com eles um exército para a defesa da pátria. Porém, impôs uma cláusula que se esses jovens servissem ao exército brasileiro por três anos, pagariam suas terras. Outra estratégia da princesa foi acionar sua irmã, Marie Luise, esposa de Napoleão Bonaparte, pedindo que ela enviasse veteranos do exército do seu marido para ajudar no combate pelo Brasil, em troca de terras. Paulo Rezzuti, autor do livro LEOPOLDINA – A

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HISTÓRIA NÃO CONTADA, afirma que mais de 3.800 soldados podem ter vindo para o Brasil por solicitação da princesa.35 Foi assim que começou a história da colonização alemã em nosso Estado. Leopoldina não tinha muita escolha: ou a independência e a glória de ser uma imperatriz ou teria que arrumar suas trouxinhas e voltar humilhada para Europa. Isso, na melhor das hipóteses, pois os republicanos radicais queriam mesmo era a cabeça dela. A Princesa melhor que ninguém sabia muito bem no que dera a história da queda da bastilha, na qual sua parenta, Maria Antonieta de Habsburgo, perdeu a cabeça na guilhotina. Leopoldina era uma princesa culta e conhecedora da história universal, principalmente a dos Estados Unidos. Foi lendo a história desse país que aprendeu com Abraham Lincoln que os alemães eram os melhores soldados do mundo. Foi graças ao espírito guerreiro e à experiência dos soldados alemães catarinenses que a guerra com o Paraguai ficou bem mais fácil para os brasileiros. O historiador José Ferreira da Silva afirma, sem a menor cerimônia, que Drummond não estava nem um pouco interessado por esse negócio de fundar Itajaí. Já o historiador Magru Floriano dá a entender que ele desse pretexto para investigar a questão do ouro e da independência. De fato, o simples recebimento de uma sesmaria nem sempre significa fundação de uma póvoa. Se a Colônia São Tomaz tivesse alcançado seu objetivo, seria de fato a primeira tentativa organizada de povoamento. Já o trabalho do Agostinho foi muito mais eficaz nesse sentido. O Professor José Ferreira diz que nem o corte de madeira pode-se atribuir ao seu pioneirismo, porque desde 1792 já havia ali alguém no corte oficial.

[...]nem mesmo nessa derrubada e nesse preparo de tábuas, se poderá atribuir qualquer ato de pioneirismo da parte de Vasconcelos Drumond. Quando êste, de ordem do governador, foi às citadas sesmarias, já nestas estava estabelecido um ‘corte oficial de madeiras’.36

Suspeita o referido professor que as madeiras que Drummond mandou para o Rio de Janeiro possam ter sido cortadas pelos senhores cortadores legais, empregados no Real Corte em Itajaí desde 1792. Quer com isso informar, o professor Ferreira, que Drummond se ocupou mais com outras coisas que com a implantação de núcleos de povoamento. 35

Paulo Rezzutti – Op cit pp 246 a 248

36

José Ferreira da Silva. Blumenau em Cadernos, Tomo IV, abril de 1961, nº 4, pp 74-75.

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Praia de Camboriú -1952

O referido professor, em toda sua longa pesquisa sobre Drummond, sempre desconstrói o mito dele como fundador de Itajaí. Tudo que se sabe acerca da presença de Drummond em Itajaí, fora relatado por ele próprio. Se só ele, Drummond, escreveu sobre ele mesmo, com efeito, tudo que ele escreveu sobre suas aventuras em território catarinense fica na aura da suposição.

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DRUMMOND E O OURO Santa Catarina já há muito tempo vinha sendo explorada por faiscadores clandestinos de ouro. Em Itajaí, atribui-se ao bandeirante João Dias de Arzão o pioneirismo nessa atividade. Veio para Itajaí em 1658 à procura de ouro no Monte Tayó e, pelo que afirma Drummond, conseguiu. No entanto, a Coroa Portuguesa não o perdoou e Arzão foi preso, condenado e morreu na prisão. O diplomata Drummond relata que veio conferir de perto essa história de ouro no Monte Tayó. José Ferreira da Silva teve acesso a alguns artigos de Drummond nos quais este expõe a indignação pelo aprisionamento de Arzão só porque achou ouro. Apesar de que Drummond ou quem copiou seu texto, confundiu seu nome com “Aragão”. O artigo diz que o governador remeteu as amostras de Aragão para o Rio de Janeiro, mas em virtude da demora, remeteu-as para Lisboa.

[...] o desgraçado Aragão seria sequestrado em um cárcere a fim de que não pudesse abusar do que sabia, visto que não lhe pertencia o segredo e sim, ao rei muito tempo depois o governo de Lisboa ordenou que Aragão fosse remetido para Portugal a fim de lá fazer suas declarações. Ao chegar em Lisboa o desgraçado foi de novo metido em cárcere. [...] Morreu preso na miséria e moído de desgostos. 37 O próprio Drummond escreveu no “Journal de Voyage”, da França, sobre esse assunto. Nesse jornal escreviam nacionais e estrangeiros, geógrafos viajados e quem tivesse experiência nesses assuntos.

Enquanto estive no exílio na Europa, sendo collaborador do Journal dês Voyages etc, publiquei vários artigos concernentes aos interesses do Brasil e em um ou dois delles fallei do rio Itajahy, do célebre monte tayó, onde há, segundo se supõe, abundantes minas de prata, e da minha viagem e residencia nas margens daquelle rio.38 Antônio Flores, no seu depoimento ao Prefeito Pedro Ferreira, diz que Matias Arzão, enchia garrafinhas de fagulhas de ouro e levava ao Governador Tovar.39

37

Blumenau em Cadernos. Vol. VI nº 04– p. 13.

38

ANOTAÇÕES DE DRUMMOND p. 10.

39

Reminiscências de Pedro Ferreira, Blumenau em Cadernos, Tomo II, n. 12, p. 223.

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DRUMMOND E A MADEIRA Com todo esse poder e influência junto aos áulicos do poder na Corte, não ficou difícil para Drummond conseguir duas glebas no melhor lugar de Santa Catarina para seus desígnios. Já vimos que na opinião de várias pessoas, os propósitos de Drummond pouco ou nada tinham a ver com a fundação de colônias. De fato, nem ele mesmo revela elevado interesse por fundação em seus escritos. E como vimos, só Drummond enaltece a si mesmo. Quando outro fala dele, não fala tão bem assim. O jornal da cidade de Desterro, O Conciliador Catharinense, de setembro de 1849, “desce a ripa” em nosso herói, tecendo duras palavras quanto às suas intenções em Santa Catarina:

No mesmo ano veio da Côrte hum Amtonio Vascolos Dremond [sic]encarregado da fundação de huma nova colônia no Rio Itajahy, que tão bem corre na terra firme 14 legoas ao norte da cidade. Esse politiqueiro gastou hum anno em passear, pintar, enredar e iludir o ministério a bem do seu particular interesse; gostando de vexar aos pobres moradores daquelle lugar, aos quaes dava a tarefa de serrar taboados, de cujos jornaes nunca foram pagos. A pesar de despender-se pela fasenda publica, em 1821, o melhor de cinco mil crusados, não fez mais que huma derrubada, sem deixar mais signal algum da colônia. Ouvio-se-lhe por muitas vezes dizer: aproveitemos o Ministro (era Tomaz de Villanova Portugal) que está velho.40 Quanto à exploração da madeira, fica duvidosa essa questão, pois nem isso Drummond fez em escala comercial. Ele revela ter mandado serrar e enviou tábuas para o Museu Nacional, este mesmo que foi incendiado agora dia 02 de setembro de 2018. Pois é, o tabuado histórico queimado do museu, foram tiradas das matas da Canhanduba. Os contrários a Drummond acham que esse negócio de sesmaria foi só para justificar sua presença aqui, pois já estavam ali residindo e oficialmente empregados no corte legal da madeira, José Correa de Negreiros, Silvestre Nunes Correa e Antônio Correa de Negreiros. Então Drummond deve ter comprado o produto deles e mandado para o Rio de Janeiro. Documentos oficiais demonstram de forma inequívoca que esses três moradores já estavam na atividade do corte da madeira de forma oficial, no território compreendido entre a Canhanduba e a Itaipava. 40

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Edição 35 – p 03


Encontramos em meio às nossas pesquisas três recibos de pagamento do Governo para Antônio Correa de Negreiros, empregado no Corte Real Oficial de Madeiras no Rio Itajahy. O primeiro pagamento foi no dia 04 de junho de 1820 no valor de 9$680; o segundo no valor de 5$280 e o terceiro no valor de 4$40041 Diz lá o primeiro documento: Despendeu com Antonio Correa de Negreiros a Importancia dos Jornaes dos Falquejadores, para falquejarem as Madeiras para a dita Obra como consta do Docomento N.15 - 9$680 Fica por esse fato comprovado que antes de Drummond, já havia o corte legal e oficial de madeira na banda sul do Rio Itajaí-Mirim.

Vista da Barra - 1934. Gent. Marlene Karin Werner

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Avisos do Ministério do Império para o Governador da Capitania, Junta Governativa Provisória e Presidência da Província de Santa Catarina de 1820 a 1824. v.02 CAIXA:38

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OCUPANTES DO ITAJAÍ-MIRIM ANTES DE DRUMMOND Está mais do que demonstrado que o corte da madeira no Itajaí-Mirim já ocorria muito antes de Drummond tentar estabelecer sua Colônia. Seu pioneirismo também cai por terra, pois muito antes dele, vários donatários de sesmarias já se encontravam ali. Inclusive encontramos referências de que dois sesmeeiros abdicaram da posse das glebas, propondo ao governo sua devolução. Há quem afirme que foi justamente sobre essas duas desistências que Drummond delas se apossou. A partir de um breve levantamento, encontramos documentos sob a guarda do Arquivo Nacional nos quais foi possível relacionar os concessionários de sesmarias na região, antes de Drummond. Eis a relação por ordem cronológica: 1792 - Alexandre José de Azevedo Leão Coutinho [Capitão da Fortaleza de Santa Cruz do Anhatomirim], Silvestre Leal Nunes Correa, José Correa de Negreiros, Antônio Correa de Negreiros; 1795 - Pedro Paulo Moraes; 1799 - Joaquim Francisco de Sales Mello [Governador da Fortaleza de Santo Antônio de Ratones, que Pretendia construir uma fábrica de açúcar, mas devolveu as terras ao Ministro Villanova e foi a base da Colônia de Drummond] , Manoel Antônio Tavares [Capitão da Cavalaria de Milícias da Freguesia de N. S. das Necessidades], Manoel Joseph Deniz [Sargento do Regimento de Infantaria de Estremoz da Ilha de SC]; 1800 - Domingo Luis do Livramento [Alferes do Regimento de Milicianos da Ilha], Anna Margarida de Santa Cruz [esposa de Francisco Manoel da Silva e Melo] Essa gleba, segundo consta é a que foi revertida em favor de Drummond. 1802 – Antônia Bernardina da Costa [Filha do Tenente Antônio Lopes (Dias?) da Costa, moradora da Ilha de SC]; 1812 - Silvestre de Borba Coelho, que faleceu durante o andamento do processo. Felício de Borba Coelho e seus três irmãos deram continuidade ao processo. Drummond chegou primeiro que Agostinho Alves Ramos em Itajaí e mesmo assim, os estudiosos da história fazem os dois rivalizarem-se como fundadores da cidade. Na opinião de um desses estudiosos, Magru Floriano, foi Drummond quem deu a dica para Anacleto e Agostinho, quando de sua estada em Desterro. Segundo este historiador, Drummond estava em Desterro articulando os assuntos de seu interesse e deve ter falado para eles das abundantes terras na região do Itajaí-Mirim. Entretanto, como vimos, há uma grande diferença entre um trabalho superficial de colonização, desenvolvida por Drummond em comparação ao

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trabalho bem mais elaborado do Agostinho. Drummond teve uma passagem mais efêmera em Itajaí. Mas tudo indica que indiretamente estava no grupo de Anacleto Pereira. Acredita-se que Drummond deveria ser o agente do grupo deste, atuando na Corte, desembaraçando junto ao Ministro José Bonifácio assuntos ligados às concessões de terras em Santa Catarina. Quanto ao trabalho mais efetivo de Agostinho Ramos, vamos estudá-lo mais adiante. Foi sobre as terras de Drummond no Tabuleiro que Agostinho implantou parte de seu projeto de Colônia, através da Lei nº 11/1835. Para não destruir de todo o mito do Vasconcelos Drummond, o seu biógrafo, A. J. de Mello, dá fé a tudo que ele diz e escreveu em suas memórias. Porém, como eram muito amigos e participavam do mesmo grupo político do Ministro Tomaz Villanova Portugal, fica ainda uma pontinha de desconfiança quanto à veracidade dos fatos relacionados às aventuras de Drummond em Santa Catarina. Também não há de se estranhar esse fato, se viermos a ler em algum lugar que esses senhores estavam em Cambriú. Eles acessavam facilmente a Praia Brava pelo Caminho da Capivara no Ariribá por isso se diziam moradores de Cambriú.

Vista da Barra - 1934. Publicada no Facebook por Ubirajá Píndaro Tasso Jatahy

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QUEM FOI ANACLETO JOSÉ PEREIRA DA SILVA Já nos referimos várias vezes neste texto sobre Anacleto Pereira. Então vamos ver mais de perto como o maior comerciante de Santa Catarina, nesse período, veio interferir em nossa história. Como maior comerciante da Província, era natural que o crescimento populacional da terra em que vivia, fosse de seu particular interesse. Sob sua liderança, toda essa “armação” em torno das ocupações do território catarinense estava pretensamente sob seu controle. Anacleto começou sua vida como miliciano e fortaleceu-se na atividade militar. Posteriormente investiu em outras atividades, tornando-se o homem mais rico da Província de Santa Catarina de seu tempo. Quem lê os jornais do Rio de Janeiro dessa época vai ver que ele é o catarinense mais citado, sempre adjetivado por pomposas patentes militares: ilustríssimo capitão de milícias, senhor sargento-mor, major etc. Anacleto é sempre citado em grandes negociações envolvendo apólices de seguros, compras de bilhetes de loterias, entre outras coisas. Anacleto era português de nascimento, vindo a ocupar no Brasil o posto de Tenente do 3º Regimento de Milícias do Desterro. Depois tornou-se Major da Guarda Nacional. Também foi membro do Conselho Provincial de Santa Catarina. Da atividade na força militar esse homem derivou para o contrabando de produtos, comércio de escravos, de secos e molhados, estaleiro e, finalmente, atuou no transporte marítimo – sua principal atividade. Anacleto enriqueceu de tal forma que se tornou o maior armador e o maior comerciante de gêneros de primeira necessidade na Província de Santa Catarina. Por conseguinte, a colonização do nosso litoral interessava diretamente a Anacleto, que via nisso, uma boa maneira de ganhar dinheiro. Para Anacleto o dinheiro entrava por todos os lados, quer pelo transporte das mercadorias, quer pela compra a preços vantajosos de gêneros produzidos pelos colonizadores, quer pelo fornecimento de equipamentos necessários a esses mesmos colonizadores. Anacleto e seus parceiros, como era o caso de Agostinho Alves Ramos, despontaram nos três pilares da economia colonial: compra, venda e transporte de mercadoria. O historiador José Ferreira da Silva, em um extenso artigo que ocupa boa parte das edições 9 e 10 do Blumenau em Cadernos. Nesse longo artigo esclarece muito bem, como era o comerciante Anacleto e seu comércio:

A casa de Anacleto José Pereira, bem sortida e afreguesada, mantinha largo comércio, não apenas com os agricultores e pescadores da ilha e do continente fronteiro, senão também com a população que se espraiava por quase todo o litoral, da terra firme até São Francisco e Laguna. Seus barcos, que periodicamente visitavam as enseadas onde ensaiavam começos de povoação ou onde já havia agrupamentos 82


com capela, que congregavam pequenos agricultores e serradores espalhados pelas imediações, compravam todos os produtos de lavoura e da acanhadíssima indústria existente, fornecendo mercadorias e gêneros de primeira necessidade aos vendeiros que se iam estabelecendo pela costa.42 Anacleto tinha seu próprio estaleiro para construir seus barcos e promover a manutenção de sua frota. Como uma atividade leva à outra, já se vê que para fazer navios tem que contar com o fornecimento de uma boa quantidade de madeira. E quando a madeira não servia para nada, pelo menos servia para lenha. Até isso ele vendia. O esperto Anacleton não desperdiçava nada e deu um jeito de vender esse sub-produto. O Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, do dia 24 de maio de 1840, anunciava que a Sumaca Maria da Glória, de 73 toneladas de capacidade, de propriedade de Anacleto José Pereira da Silva, chegava de Santos e estava no Porto do Rio de Janeiro com 1.400 alqueires de farinha e lenha.43 Embora fosse proibido cortar madeira, todavia para assentar novos colonos era necessário desmatar. Escancarava-se aí a oportunidade que Anacleto precisava. Mais colonos, demandava mais consumo, mais extração de madeira, mais navios comerciais, mais venda, mais compras, mais dinheiro circulando. Fica assim demonstrada como girava a roda da economia no começo da colonização do nosso litoral. Anacleto, sem muito escrúpulo, ia se dando bem em sua multiatividade comercial. Esse empreendedor ingressou na política elegendo-se vereador em Desterro, depois, deputado em duas legislaturas: na primeira em 1835 e na terceira legislatura em 1840. Mais que isso, foi eleito juntamente com outros membros do grupo, incluindo os seus braços direito e esquerdo: Miguel Alvim e Agostinho Alves Ramos. Juntos, conseguiram ser ainda mais fortes. O governo provincial tinha que se curvar à força política do grupo.

Autógrafo de Anacleto José Pereira da Silva

42

José Ferreira da Silva – A Fundação e o Fundador – tomo VIII, n. 9 e 10 – p. 160.

43

Jornal do Commercio - Ed. 139, p. 4

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QUEM FOI AGOSTINHO RAMOS Como figura histórica de primeira grandeza da nossa “cidade mãe’” é imprescindível conhecer melhor o homem que deu caráter de vila ao nosso arraial. O comerciante Agostinho Alves Ramos informa no ato de seu casamento que é natural de Portugal. No mesmo ato, sonega a informação acerca de sua filiação Um homem com a sua cultura é impossível não conhecer suas origens. A menos que tenha sido enjeitado na roda dos inocentes é inaceitável que não saiba o nome dos próprios pais. Talvez deliberadamente não quisesse informar dados do seu passado. Pelo menos é o que consta na sua certidão de casamento:

[...] se receberam em matrimônio por palavra de presença Agostinho Alves Ramos e Dona Ana Maria Rita, naturais de Portugal e cuja filiação e naturalidade não se acha.44

Agostinho foi um homem rico, culto e poderoso, qualidades estas que definitivamente não combinam com uma pessoa sem passado. Magru Floriano, no seu Livro inédito A Fundação de Itajaí – Historiografia Compilada e Comentada, no capítulo referente a Agostinho, afirma que este não tinha passado e insinua que ele tinha algo a esconder. Que homem teria interesse de esconder seu passado? incita o autor e diz mais: É lícito supor até mesmo que Agostinho Alves Ramos seja um nome inventa-

do para dar guarida a uma nova vida.45

Viúvo e sem herdeiros, assim que faleceu, vieram à sua residência alguns homens do governo e queimaram os seus documentos. Surrupiaram-lhe até as medalhas condecorativas. José Mendes acusa esses incendiários de enriquecimento ilícito depois disso. Agostinho nem teria entrado para a história, caso não fosse o hobby do José Mendes Rodrigues escrever sobre vida de personalidades da sua convivência. Quase que fica sem futuro. No Brasil chegou ao posto de Coronel da Guarda Nacional e, quando o Imperador D. Pedro visitou Santa Catarina, condecorou-o com a comenda de Cavaleiro da Ordem de Cristo. Provavelmente veio encaminhado para Itajaí, durante o tempo de ampliação dos negócios de Anacleto Pereira da Silva de quem era Contador. Anacleto é outro que teve uma vida embaraçosa em Portugal. Teve sua vida pregressa seriamente questionada pela justiça brasileira por ocasião do seu segundo casamento no Brasil. Por causa de uma acusação de bigamia, custou a

44

Pequena História de Itajaí, p. 60.

45

Op cit p. 36.

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escapar de um processo no tribunal da inquisição. Há situações em que polos idênticos se atraem. Parece ser o caso da associação de Agostinho com Anacleto. Agostinho foi o principal parceiro do Anacleto no trabalho de distribuição e fornecimento de provimentos para os colonos que iniciaram o povoamento no Vale do Itajaí. Agostinho começou como guarda-livros de Anacleto, depois foi guindado a sócio ou pelo menos um preposto. O rábula José Mendes sempre atendeu Agostinho Ramos nos afazeres advocatícios até no seu leito de morte. Através de José Mendes, ficamos sabendo que Agostinho veio do Rio de Janeiro para se estabelecer no Rio Grande do Sul e, dali, para Desterro. Nessa capital, alinhou-se com Anacleto Pereira e, por sua influência, passou a residir na foz do Rio Itajaí. Aqui iniciaram um processo muito bem sucedido de colonização e conseguiram, de forma muito exitosa, contribuir para a formação das cidades de Blumenau, Brusque, Gaspar, Ilhota e, principalmente, Camboriú. Agostinho Alves Ramos ganhou muito dinheiro como comerciante de gêneros alimentícios, utensílios e ferramentas. Um tipo de negócio conhecido como venda de secos e molhados. Também implantou uma olaria para fabricar telhas e tijolos. Sua esposa administrava uma padaria. Era homem que não perdia oportunidade nos negócios e investiu em variados ramos da economia. Afinal, ele tinha uma grande região para atender sem praticamente nenhum concorrente. Agostinho foi perfeito para os interesses de seu líder Anacleto Pereira. Comandava bem os assentamentos e o processo de trocas comerciais necessárias ao seu empreendimento colonizador. Como intermediário comercial de Anacleto, Agostinho negociava com os colonos nos dois extremos: compra e venda. Trazia para a região o que os colonos necessitassem e levava para Desterro o que eles produziam. Obviamente que a consolidação das colônias e seu respectivo sucesso econômico iam propiciando a Agostinho Alves Ramos a aproximação com outros empreendedores, multiplicando sempre o seu poder político e econômico. Retiramos um trecho de uma das crônicas de José Mendes, citada por Lucas Boiteux, no Blumenau em Cadernos, que praticamente sintetiza tudo que vimos dizendo até agora. Para que o leitor tenha um conhecimento maior da capacidade desse escriba e convencê-lo da intimidade e conhecimento que José Mendes tinha desse excepcional personagem da nossa história.

[...] estabeleceu-se no território do rio de Itajaí, o coronel da legião da Guarda nacional, Agostinho Alves Ramos, onde edificou um grande prédio e concorreu para a construção da primeira Capela que se fêz de pau a pique, barreada, próxima à casa de residência em a qual tinha negócio, e sua mulher, padaria. Era o 85


único negociante do lugar, e comprador de todos os gêneros e madeiras que o povo serrava a braços. Obtivera do govêrno várias concessões de terras; era o carrregador dos barcos do major Anacleto José Pereira, do Destêrro; diretor das colônias que o govêrno mandou estabelecer, cujas terras tinha autorização de passar títulos; era diretor das obras públicas, pontes e estradas; fornecedor de tudo que era preciso no lugar; administrou a primeira Capela, bem como a segunda, por ter caído a primeira. A pedra da segunda Capela, que presentemente serve de matriz, êle a mandou tirar da sua fazenda no rio da Conceição, onde também tinha olaria, e também boas madeiras, sendo a nova Capela construída pelo material por êle fornecido e bem vendido.46 É ponto pacífico entre os historiadores que Agostinho se estabeleceu em Itajaí logo após a Independência do Brasil, entre os anos de 1822 a 1824. José Ferreira da Silva se esforça para buscar um melhor entendimento sobre essa relação entre Agostinho Alves Ramos e Anacleto José Pereira. Essa relação tão importante para a própria compreensão da gênese das comunidades do litoral centro-norte catarinense. Baseado em informações de José Mendes, José Ferreira escreveu:

[...] êle deve ter aportado ao Dêsterro no milésimo[?] da nossa independência política. Guarda-livros que era e muito hábil, associou-se a Anacleto José Pereira, negociante de grande prestígio na capital da província. E, por conta da firma, deve ter visitado os moradores e os poucos povoados espalhados pela costa norte-catarinense desde Destêrro a S. Francisco, vendendo e comprando gêneros da terra e fazendas, em lanchões que sempre voltavam à procedência carregados de farinha, cereais, madeira serrada. Esta última, era mercadoria abundante nas margens do Itajaí, onde muita gente se empregava no mister de desdobrar em tábuas as toras abatidas nas densas florestas.47 Afonso Luis da Silva, no Livro Itajaí de ontem e de hoje, sintetiza com propriedade a empreitada de Agostinho Alves Ramos:

[...]Como sócio de Anacleto José Pereira, por certo Agostinho Alves Ramos tomou parte em inúmeras dessas viagens, tendo conhecido a região da Fóz do Itajaí e notado ser aqui uma ótima oportunidade de iniciar o seu negócio, não obstante 46

Lucas Boiteux – De Fazenda à Cidade - Blumenau em Cadernos - Tomo I, nº 7, maio de 1958.

47

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O Fundador de Itajaí. José Ferreira da Silva. (Anuário de Itajaí de 1959)


o número dos moradores ser bem pequeno nas margens do Itajaí-Açú, próximo da sua fóz.48

Agostinho foi candidato a deputado em quatro oportunidades. Na primeira legislatura provincial catarinense e, assim que se elegeu, tratou de formatar a Lei Ordinária Provincial nº 11/1835. Essa lei foi aprovada e sancionada pelo presidente da Província de Santa Catarina, Feliciano Nunes Pires, prevendo a formação dos núcleos coloniais em Belchior, Pocinho e Tabuleiro, inaugurando a colonização do Rio Itajaí-Açu. Em seguida vieram as comunidades de Gaspar e Blumenau, ampliando virtualmente sua jurisdição como bem definiu o historiador José Ferreira da Silva. Diz este autor em um artigo intitulado Alves Ramos e os alemães, o seguinte:

Nas suas contínuas idas à capital da província, já no interêsse do seu negócio, já no dos encargos políticos de que fôra investido, Alves Ramos verificou a conveniência de encaminhar para as suas colônias, para as exuberantes terras dos dois Itajaí, os imigrantes alemães, que descontentes com a situação de São Pedro de Alcântara, abandonavam o estabelecimento ali fundado em 1828.49

Transcrevemos essa série de artigos para que o leitor tenha uma ideia dessa sociedade entre Agostinho Ramos, e o negociante Anacleto Pereira. A associação entre eles vai ser fundamental, em termos estratégicos, para a consolidação desse grande projeto colonizador do Vale do Itajaí. Agostinho Alves Ramos acabou se tornando um líder incontestável em toda a região do litoral centro-norte. Com o tempo foi estendendo sua influência sobre os empreendimentos coloniais, na vasta área que compreende os vales do Rio Camboriú, Rio Itajaí-Açu e Itajaí-Mirim. Era médico, conselheiro, orientador de negócios, mediador, militar e cancioneiro popular. Ensaiava tornar-se uma figura típica do que atualmente conhecemos como populista. Agostinho tinha um cuidado paternal com Itajaí e seu povo. Claro que ele não fazia isso porque era bonzinho ou extremado altruísta. Ao organizar e fazer crescer a cidade, ele prosperava junto com ela. Essa era sua principal motivação. Seja como for, bem ou mal intencionado, ele deu a Itajaí um caráter de cidade. Ninguém pode duvidar que Agostinho tinha ânimo de fundador, garra e vontade política para organizar uma cidade. 48

Apud Magru- Itajaí em Busca do seu Fundador p. 153.

49

Jornal do Povo, de 18 de fevereiro de 1962. p. 07.

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Foi ele quem mais de perto se empenhou na organização legal de Itajaí, tanto no aspecto político quanto no eclesiástico. Fortaleceu a freguesia e demais órgãos da administração pública municipal. Construiu a igreja, trouxe um pároco, selecionou alguns espaços públicos e distribuiu colonos por toda a extensão do município. Nesse afã de assentar e distribuir colonos, Agostinho também não era tão inocente assim, pelo contrário, ele tinha nisso o seu grande negócio particular. Vendendo, trocando, intermediando e reservando alguns pedaços de terra para si próprio, ele ia tocando sua vida de empresário bem sucedido. Como Camboriú pertencia a Itajaí, incluímos o nosso Baltazhar Pinto Corrêa no rol dos subordinados de Agostinho Ramos. Quase nada se fazia em Camboriú nesse tempo sem o aval do Agostinho. Por isso, acreditamos que ele tivesse conforme seu posto, ascendência político-administrativa sobre Baltazhar Pinto Corrêa, o gram-promoter das ocupações no vale do Camboriú. Em homenagem a Agostinho Ramos, Baltazhar Corrêa deu à sua filha o nome de Agostinha e muitos outros descendentes de Baltazhar deram o nome de Agostinho a filhos e netos. Agostinho com seu estilo coronel “dono” da cidade, dá para compará-lo à figura bíblica do Rei Melquisedeque. Apareceu de forma misteriosa e repentina. Tornou-se um governante prodigioso e poderoso, mas sem deixar rastro de sua vida pregressa. Agostinho ficou viúvo, contraiu uma melancolia profunda e ainda no leito de morte, seu advogado José Mendes da Costa Rodrigues escreveu que Agostinho teve seus documentos queimados por pessoas que sabiam da sua condição de homem sem conexão com sua família e seus bens caíram nas mãos daqueles delinquentes que se enriqueceram quase que instantaneamente.

Autógrafo de Agostinho Alves Ramos

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BALTAZAR PINTO E SUA PROXIMIDADE COM AGOSTINHO E ANACLETO Por ter sido fruto de um processo completo, bem elaborado do princípio ao fim, usaremos a carta do sesmeeiro Baltazhar Pinto Corrêa para ilustrar o assunto que vamos tratar. Ela é completa e passou por todos os trâmites necessários, desde o requerimento até o recibo, conforme consta no Arquivo Nacional. O livro das consignações das sesmarias disponível no You Tube, [https://www. youtube.com/watch?v=EzKJz82feE0] mostra, na página 29, o último requerimento feito a Dom João VI. No verso, consta o requerimento de Baltazhar Pinto Corrêa, encaminhado a D. Pedro I. Podemos dizer que foi o primeiro ato de concessão do nosso Imperador. Mais tarde, Baltazhar vai requerer a “imperial confirmação” e finalmente vai receber o despacho através da Mesa de Desembargo, em 26 de setembro 1826. Estimamos que o processo começa no final 1812 ou início de 1813, logo depois do seu casamento com dona Ana Custódia do Amorim. Veja como Baltazhar cumpriu todos os itens de exigência da lei: 1º [item 1 Cultivo da terra]. Se Baltazhar fez o mapa no início de 1817 e, se para isso eram necessários três anos de cultivo da terra, significa dizer que ele começou beneficiar a terra antes do ano de 1813. 2º [item 2 - Medição e demarcação da área]. Com o mapa em mãos desde 1817, Baltazhar abre pedido de requerimento em 1820 sem sucesso. Abre requerimento novamente em julho 1821, juntamente com Agostinho e Anacleto. 3º [Item 3 - Registro de confirmação.] Baltazhar recebeu em setembro de 1826, através de seu advogado Felis José Hilarião Barata. (fig. pág. 96) Requerer sesmaria era um processo penoso, caro e demorado. Nisso Baltazhar até que agiu rápido. Um processo desse costumava demorar o dobro. O tempo passa a contar a partir do último requerimento (julho de 1821) exatamente dentro do mandato do Governador Tovar de Albuquerque. Mais um nexo causal que liga Baltazhar ao esquema do grupo liderado por esse governador. Que Baltazhar conseguiu o primeiro despacho de D. Pedro I, isso é fato. O príncipe nem bem tinha esquentado o trono e já estava sobre sua mesa o pedido de concessão da sesmaria do Baltazhar. Por esse tempo, apesar disso ser uma atribuição da Mesa de Desembargo, esses processos estavam sendo analisados pelo Ministro Bonifácio de Andrada. Para se conseguir um trâmite tão rápido, isso denotava certo privilégio. Quem entrava no esquema do governador Tovar de Albuquerque/ Miguel Alvim, claramente pulava estapas, burlava regras e gozava de certas regalias, com os processos tramitando claramente mais céleres. Vimos no quadro de requerimentos que Baltazhar peticionou em 1820 e não conseguiu prosperar, só obtendo êxito, assim que se aliou ao grupo citado.

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Na primeira edição desse livro, incorremos no erro de dizer que os primeiros colonos vieram de Porto Belo. Na verdade reproduzimos o erro de Mário Guedes. Como viriam de Porto Belo se aqui também era Porto Belo? Em princípio, todos vieram diretamente de Desterro, a capital provincial catarinense, recrutados pelo tal grupo, com patrocínio do Anacleto. Inclusive Agostinho Alves Ramos, Tomaz Garcia, Bernardino Dias da Costa, Antônio Dias e todas as demais pessoas que também se candidataram a uma gleba na região do litoral dos vales dos rios Camboriú e Itajaí. Na primeira página do Índice do Livro de Requerimentos de Sesmarias, registraram nas três últimas linhas, os nomes de Anacleto José da Silva, sua mulher, junto com Agostinho Alvares Ramos, e na página seguinte, o primeiro nome é o de Baltazhar Pinto Corrêa. O fato de se encontrar os nomes dos três protagonistas de requerimentos de terras no litoral do Vale do Itajaí juntos, no mesmo dia; (foto a seguir) sugere o “nexo causal” que prova a cumplicidade desses senhores nesse esquema de requerimentos de terras em nossa região. Essa relação mais parece uma lista de portugueses fugindo da pressão a que estavam submetidos na Capital da Província. O escritor Afonso Luiz da Silva relata o seguinte no preâmbulo do seu livro Itajaí de Ontem e de Hoje:

Os terrenos de Tijucas, Porto Belo, Camboriú e do próprio Itajaí Mirim começaram por sua vez a despertar a atenção dos agricultores ilhéus que viviam apinhados na ilha, pela sua extraordinária fertilidade, uma vez que estavam sem condições de expandir seus negócios na agricultura, por escassez de terras.50 Muitos desses requerentes se apossavam do terreno e não se interessavam em fazer os papéis da terra. Uma boa parte deles apenas iniciavam o processo e para obter um protocolo e assumir a posse, depois abandonavam o processo de obtenção do domínio. Tanto que nunca se ouviu dizer que Anacleto tivesse uma sesmaria em Itajaí. Foi pura especulação! Não era todo mundo que estava disposto a legalizar terras. A grande maioria era formada por posseiros que não estavam interessados na legalização. Quando Agostinho Ramos expandiu seus empreendimentos pelo Vale do Itajaí e iniciou por lá alguns núcleos de povoamento, levou consigo seu amigo Baltazhar. Pelo seu esforço, cidades como Blumenau, Brusque, Ilhota, Gaspar e localidades como Belchior, Pedra de Amolar e Pocinho nasceram do empenho e dinamismo do senhor Agostinho Alves Ramos.

50

90

Apud Magru Floriano – Itajaí em Busca de seu Fundador p. 273.


Índice do livro de Registros de Sesmaria 1820-1821. Na sequência os requerentes: Anacleto José Pereira, Anna Maria Pereira, Agostinho Alves Ramos e Baltazhar Pinto Corrêa. A ordem dos nomes corresponde à hierarquia do grupo.

Para o amigo Baltazhar Pinto, Agostinho Ramos providenciou uma das melhores glebas, no lugar atualmente chamado de Pedra de Amolar. Baltazhar foi 91


donatário de uma sesmaria dentro do esquema promovido pela Lei nº 11/1835. Nota-se que, entre as localidades de Gaspar e Belchior, falta a figura de Baltazhar para completar a tríade real que visitou o menino Jesus. Já não faltava mais! Agostinho Ramos intermediou a ida de Baltazhar para lá. Pronto! Estava completo o terno real: Gaspar, Belchior e Baltazar. Não sabemos se isso é verdade ou apenas uma coincidência de nomes, mas o certo é que o “lugar denominado Baltazar” desapareceu. Cada historiador da região aventa uma hipótese para a não mais existência do nome Baltazhar na toponomástica daquela região. O escritor Magru Floriano acredita que foi por puro preconceito. Segundo ele, Baltazar era um rei negro e em uma sociedade formada por maioria de alemães e belgas, entre outros europeus, o nome de um negro, não teria sido bem aceita e mudaram para outro nome. Falta à biografia de Baltazhar Pinto a data e o lugar de seu falecimento. É possível que tenha falecido na localidade de Pedra de Amolar, pois não encontramos por aqui seu registro de falecimento. Baltazhar deve ter falecido na Década de 50 do Século XIX, pois em 1856 já era tratado como finado em algumas escrituras.

CAPA DA CARTA DE SESMARIA Santa Catarina, Rio Cambriassu, Baltazar Pinto Corrêa FONTE: Arquivo Nacional.

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REQUERIMENTO DA SESMARIA DE BALTAZHAR

TRANSCRIÇÃO: Diz Baltazhar Pinto Corrêa que sendo hum dos novos povoadores das margens norte do Rio Cambriassú da Província de S. Catharina, e ahi morador, obteve em taes circunstancia por Sesmaria do Governador dessa mesma província hum terreno devoluto no mencionado lugar com 400 braças de frente e 600 de fundo, a qual se acha medido e demarcado, do qual se lhe passou a competente Carta junta. E por que não pôde obter a Imperial confirmação em tempo competente pela distancia da Corte e ser o suplicante hum rústico camponez, em taes termos recorre e PVMI [Pede a Vossa Majestade Imperial] se digne conceder-lhe a graça de dispensa de lapso de tempo para a Imperial confirmação da solicitada sesmaria. Felis Jose Hilarião Barata. Procurador. EVM [Espera Vossa Mercê] 93


REQUERIMENTO DE DISPENSA DE LAPSO DE TEMPO DE BALTAZHAR CORRÊA PARA EVITAR COMISSO

No alto da folha consta: Entregues-se não havendo inconveniente. Rio, 18 de setembro de 1826:” ASSINAM: Marquez de São João da Palma (Francisco de Assis Mascarenhas) Barão de Cayru (José da Silva Lisboa)

DEFERIMENTO: Stª Catª - Senhor: Diz Baltazhar Pinto Corrêa que tendo

arrequerido dispensa de lapso de tempo para confirmação de hua sesmaria de 400 braças de terras que lhe concede em Santa Catharina por equivo[sic] se entregou o seu requerimento com a carta neste Imperial Tribunal pelo que teve seu despacho em 11 do corrente. Não compete a esta Mesa, por isso. PVMI [Pede Vossa Majestade Imperial] que lhe seja entregue. ERM [Espera Receber Mercê] Felis José Hilarião Barata - Procurador. FONTE: Arquivo Nacional.

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OS SUCESSORES DE BALTAZHAR No final do Século XIX, depois que se abrandou a lei e diminuiu a obsessiva fiscalização sobre as matas, formaram-se vários núcleos de povoamento. De certa forma até se incentivou o desmatamento para novos empreendimentos coloniais no final desse período. Em menor escala, cada um que tivesse uma grande área de terra, desmembrava em lotes menores e com pouca ou nenhuma infraestrutura chamavam de “beneficiamento”. Dependendo do tamanho, já se inventava uma pequena vila. Qualquer picada tortuosa servia de caminho para acesso, pois não havia grandes exigências. Se desse para passar a cavalo ou a pé, já estava bom. Esse tipo de empreendimento tornou-se um negócio lucrativo a quem podia organizar esses loteamentos rudimentares. Muitos lugarejos na região nasceram dessa iniciativa. Com esse objetivo, outros nomes surgiram em busca de novas terras para colonizar. Maurício Pinto Corrêa, filho de Baltazhar Pinto, fez valer o ditado de que “quem puxa aos seus não degenera”. Ele era um dos que desbravava novas terras, beneficiando-as e vendendo-as. Maurício fez muito isso, começando no Tabuleiro, Lagoa Seca, Alegres, Canhanduba, João da Costa, Nova Brasília, Limoeiro e até em Brusque. Um dos primeiros loteadores em terras que foram de Maurício Pinto no Monte Alegre, foi José Martins Damasceno. Ele diz em gravação que, naqueles tempos, beneficiar terras era, no máximo, abrir uma picada, atear fogo no mato, limpar as coivaras e, se o terreno fosse meio alagado, abriam-se algumas valas para drenar o terreno. Feito isso, a terra estava pronta para receber um novo dono. Era o que fazia Maurício Pinto. Foi assim que ele formatou os primeiros assentamentos em Camboriú. Numa entrevista com José Martins, ele relata da seguinte maneira:

Na escritura do meu terreno, dizia que era desse tal Maurício Pinto Corrêa. Meu sogro é que sabia bem dessa história. Foi ele quem me contou que ele degolou o cacique. Foi ali pra banda do Colégio Agrícola, lá pra dentro. A tática dele era derrubar o que podia, esperar secar e tacar fogo pra espantar os bugres. Quanto mais queimasse melhor. Os bugres não davam as caras em terreno limpo, depois se fosse preciso, abria umas valas e pronto! Lá pra cima não tinha terreno banhado, só terreno bom, por isso ele ia lá pra cima, não precisava envalar os terrenos. O que dava mais trabalho era envalar. Tinha que fazer as valas a pá, no braço pra secar os terrenos. Ele entrava nos terrenos, com monte de homens, no tempo da seca, derrubava o mato e tacava fogo. No Monte Alegre, aqui no Tabuleiro eu abri muita vala e sequei a maioria dos terrenos. Eu mais o falecido Zé Clemente, cunhado do meu sogro. Esse era o beneficiamento daquele tempo. Não tinha esse negócio de abrir ruas, botar 95


poste de luz, isso não existia naquele tempo. Desmatava, envalava e vendia, pronto! Esse Muriço vivia disso. Teu avô me disse que depois virou pra banda de Brusque e sumiu-se pra lá. Teu avô conheceu ele, e contava muito isso.51 Outro filho de Baltazhar, Emídio Pinto Corrêa, juntou-se aos Borba da Praia Brava e foram para as margens do Rio Itapocu. Lá formalizaram um núcleo colonial em São João do Itaperiú. Tudo graças ao trabalho pioneiro que começou sob a liderança de Agostinho Alves Ramos, no início, e que se estendeu além de sua morte. Nos primeiros anos após, a saída de Baltazhar e de Maurício do cenário camboriuense, os registros nos livros de escrituras dos cartórios revelam os nomes menos expressivos de seus filhos: José, João e Pedro Pinto Corrêa, no entanto, não tiveram a expressividade dos antecessores.

Recibo de Registro e Confirmação de Sesmaria de Baltazhar Pinto Corrêa Rio de Janeiro - 26 de Setembro de 1826 - Felis José Hilarião Barata. Encerrava-se nessa data o processo, após seis anos de tramitação.

FONTE: Arquivo Nacional.

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Fita nº 01. Gravação feita em março de 1982.


OCUPANDO A FOZ DOS RIOS Agostinho Alves Ramos estando no cargo de deputado propôs uma lei com alguns artigos um tanto suspeitos, através dos quais ele praticamente legislou em causa própria. Com essa lei, de cunho estritamente fundiário, Agostinho inteligentemente escora no governo o seu principal empreendimento. Uma estratégia utilizada pelos membros do grupo político-econômico de Anacleto Pereira era ocupar terras na foz dos rios, mantendo o controle de tudo que entrava e saía nas terras dos vales dos rios Camboriú, Itajaí-Açu, Itajaí-Mirim, e seus mais importantes afluentes. O próprio Agostinho Alves Ramos tinha propriedades nas desembocaduras dos rios Itajaí-Açu, Itajaí-Mirim e Conceição (atual Canhanduba). Agostinho, no dizer de Magru Floriano, meteu porteira nas bocas

dos principais rios de Itajaí e região, pessoalmente ou através de lideranças coligadas.

Baltazhar Pinto Corrêa, principal parceiro de Agostinho Alves Ramos, apossou-se de terras na foz do Rio Camboriú e também na boca da barra do canal de acesso à Lagoa do Canto. Atualmente a Lagoa virou um mero canal de escoamento de esgoto, conhecido como Canal do Marambaia. Porém, à época da colonização era um rio francamente navegável. Na primeira edição dessa obra transcrevemos o testemunho de Antônio Vieira, 90 anos, que morava às margens do Rio Peroba desde que nasceu. Sua família ainda mora no mesmo local e os filhos mais velhos ainda confirmam o fato de que o Rio Peroba dava acesso direto e fluente com a Lagoa do Canto (atrás do Hotel Marambaia) através do Rio Saracura. Diz seu Antônio Vieira que o Rio que passa aos fundos do Hotel Marambaia era tão largo e tão espaçoso que Luís Vieira navegava com uma barcaça carregada com 10 toneladas de cal e ia para Itajaí, passando pela Lagoa do Canto.52 O Canto da Praia era para Baltazhar um lugar estratégico porque ficava próximo do polo microrregional que estava sendo formado em Itajaí e, em particular, com a comunidade da Praia Brava. Algumas escrituras do Cartório de Camboriú relatam que faziam extrema com terras de Baltazar Pinto Corrêa, literalmente na “boca do rio Camboriú”. Em 1856, pelos registros do Livro de Terras dos Vigários, anotou-se que o Capitão Antônio José da Costa declarou que sua nesga de terra, ao norte, confrontava com terras da viúva de Baltazar Pinto Corrêa. Outra escritura do Cartório de Camboriú, datada de 30/01/1865, registra que Luís Joaquim da Silva e sua esposa, Maria Luiza, vendem um terreno no costão da Barra. 52

Antônio Vieira dos Santos concedeu entrevista ao autor, no dia 19 de julho de 1983, em Balneário Camboriú. Entrevista transcrita na primeira edição, p. 80.

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Consta literalmente que o terreno fica na entrada do rio Camboriú e faz limites ao sul com o finado Baltazhar Pinto Corrêa na principal curva do Rio. Muitos dos terrenos dos membros do aludido esquema faziam confrontações entre si, denotando certo compadrio entre eles. Esse tal Capitão Antônio José da Costa passa a ser forte suspeito de pertencer à “organização”, quando o engenheiro Mello e Alvim sugere que a Sede da Freguesia saia da atual Barra e vá para as suas terras. Tudo dentro do esquema que falamos acima: quem tinha uma gleba grande, montava sua própria Vila. A Vila do Garcia é um exemplo disso. E se não fosse com o Garcia, teria sido com o Capitão Antônio Costa. O referido Capitão possuía terras na foz do Rio Camboriú juntamente com Baltazhar. Em 1856, ficou registrado no Livro de Terra dos Vigários este assento, que revela que ambos estavam tomando conta da boca da Barra do Rio Camboriú. Esse é o registro: PORTO BELO: José Antônio de Souza, declara ao Vigário João Batista

da Natividade Nobre, por força da lei 601 de 1850, no dia 01/05/1856, que possui um terreno na FOZ DO RIO CAMBORIÚ, Frente com uma 1 nesga ao sul com a propriedade de Antônio José da Costa e ao norte com a viúva do finado Baltazhar Pinto Correa.53

Croqui da Sesmaria de Baltazhar. Razão pela qual o Bairro se chama Pioneiros. (Arquivo Público de Joinville.)

53

98

Registro nº 44, livro 25, p. 13


Não esqueçamos que o Capitão Antônio possuía muitas terras. Inclusive na boca do Rio Schneider, no Bairro Fazenda em Itajaí, juntamente com Tomaz Garcia e Agostinho Ramos. Os três tomaram conta daquele espaço. Naqueles tempos o Rio Schneider era um belo rio, conforme fotografias antigas. O projeto de transferência da Sede, sugerida por Mello e Alvim para um dos terrenos do Capitão, para aquele momento não deu certo. Já vimos que se o projeto de João Melo e Alvim tivesse dado certo e a transferência se desse para as terras do Capitão, a glória e a lenda do Garcia teria trocado de mãos e a honra teria sido para o Capitão Antônio da Costa ao invés de Tomaz Garcia. Veremos mais adiante que, à época, Capitão Costa tinha mais prestígio e força política que qualquer outro em Camboriú, pois já vinha afamado da Capital onde tinha uma militância efetiva e gozava de certo prestígio entre as autoridades. O Capitão Costa era rico e proprietário de muitas terras. Por ocasião da Lei das Terras ele declarou ao vigário mais de 20 terrenos. Isso não era pouca coisa. Costa era o único que botava anúncios de venda de terras nos jornais da capital.

Foto aérea produzida pela Marinha dos Estados Unidos no ano de 1942.

Nota-se que depois de mais de 100 anos, conservam-se os mesmos contornos e as mesmas características da sesmaria de Baltazhar no Morro do Corrêa no Bairro dos Pioneiros, comparando-se com o croqui na página anterior

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Provavelmente o Capitão Antônio Dias da Costa e Baltazhar Pinto Corrêa foram os primeiros a se instalar ou requerer terrenos na boca do Rio Camboriú, na Barra. Por isso eles figuram como extremantes. Esse tipo de iniciativa, de ocupar a foz dos rios, era uma prerrogativa e determinação do grupo. Logo que a população atravessou o rio e começou a povoar o lado sul, o Tenente Costa assumiu, por conta própria, a liderança da comunidade. O Presidente da Província pede satisfações ao Presidente da Câmara do porquê dessa atitude do Capitão Costa de se arvorar ao cargo de autoridade do local. O Presidente da Câmara de Porto Belo, João da Cunha Bittencourt, comunica ao Presidente da Província, Antero Ferreira de Brito, que o Tenente Costa pertence à 4ª Companhia do 7º Batalhão de Guardas Nacionais e, portanto, é a maior autoridade militar da parte sul do Rio Cambriú. Diz textualmente, João da Cunha Bittencourt, sobre o Tenente Costa ao governador:

[...]hera a maior autoridade que ali se achava figurando, por cujo motivo esta Camara julgou que deveria encarrega-lo.54

O Tenente/Capitão, Antônio Costa, membro da poderosa família Dias da Costa, é a primeira autoridade militar a figurar com veleidades de comando sobre o novo lugar. O ofício segue assinado também por ninguém menos que o seu irmão e ex-presidente da Câmara, Bernardo Dias da Costa, entre outras autoridades de Porto Belo. Vamos ver ainda que um outro irmão deles, Bernardino Dias da Costa, vai pleitear ser o primeiro morador da banda sul do Rio Camboriú, a Barra. Evidentemente que os Dias da Costa eram figuras expoentes do lugar. A família Dias da Costa começa figurando como a primeira família com reais poderes políticos sobre o Distrito de Cambriú. Colonizador que se prezava, e que pertencia ao grupo do Agostinho Ramos, tomava conta da boca dos rios. Foi assim com Tomaz Francisco Garcia que também se apossou da foz do Rio Camboriú-Mirim, também chamado de Rio Pequeno, Rio dos Cedros e por fim e por sua influência, Rio Garcia. Essa forma de ir cercando as bocas dos rios não tinha nada de casual ou inocente, mas sim, proposital e estratégico. O governo imperial sabia do valor estratégico das águas internas para a colonização, por isso declarava textualmente nos documentos de concessões de sesmarias que era para o concessionário deixar livres as bocas dos rios. 54

Ofício de João da Cunha Bittencourt para Antero José Ferreira de Brito, 26 de outubro de 1841. p. 241.

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Considerando que todo acesso às terras do interior era, unicamente, feito por rios, esses senhores postados nas suas embocaduras, mantinham sob controle absoluto os movimentos dos colonizadores no interior dos vales. Agostinho Alves Ramos, Baltazhar Pinto Corrêa, Tomaz Francisco Garcia, Capitão Antônio Costa e Maurício Pinto, sabiam desse valor estratégico das terras localizadas nas embocaduras dos rios e empreendiam esforços políticos e econômicos para mantê-las sob sua guarda. Os primeiros que chegavam iam ocupando a foz dos rios. Maurício Pinto mais uma vez fez aplicar o ditado que “cão de caça puxa raça.” De mesma forma que o pai, ocupou a foz dos outros rios mais modestos como o Peroba e Saracura. Atualmente não demonstram ser de grande importância, porém naquele tempo, todo rio servia para o transporte da madeira, que era lançada na água feito jangada e descia por gravidade até o lugar de embarque. Em nosso caso, o Porto de Camboriú. Todos os rios de Balneário Camboriú de alguma forma, acessavam ao porto de Camboriú através do rio Peroba.

Vista da Barra em 1940 - Gent. Carmem Mendes

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FIM DO GRUPO ARTICULADOR Dos fundadores do grupo, o primeiro a falecer foi o próprio Anacleto, em 1849, após uma vida intensa de negócios nem sempre exemplares. Anacleto tem seu nome exposto nos jornais do Rio de Janeiro, geralmente relacionado a grandes empreendimentos. Sua morte foi anunciada por sua segunda esposa, Dona Ana Francisca da Costa e Silva, no Diário do Rio de Janeiro, Edição 8119, do dia 5 de julho de 1849, página 04, através do qual agradece aos amigos a presença no velório e os convida para a missa de sétimo dia, “quinta feira, 7 do corrente, às 9 horas da manhã, na igreja de São Francisco da Penitência”. No dia 18 de julho de 1849, pelo mesmo jornal e na mesma página dos “negócios particulares”, seu filho, Miguel Pereira da Silva, alerta a todos que não façam negócios envolvendo o espólio de seu pai, através da madrasta. Ele prevene a quem convier, que não façam contrato algum com Dona Ana Francisca da Costa e Silva, acerca dos bens do falecido pai. Três dias depois, no Jornal do Comércio nº 198, Manoel Pereira da Silva, faz o mesmo tipo de anúncio, de igual teor do Miguel. Fácil deduzir que Anacleto pode ter sido feliz no jogo da economia, porém no jogo do amor, nem tanto. Um determinado trabalho de conclusão de curso, publicado na internet sob o título: “Casando em segredo: um estudo sobre os casamentos de consciência, Bispado do Rio de Janeiro, Século XIX”, a autora Alessandra da Silva Silveira, faz um estudo do caso do casamento do Anacleto para sustentar sua tese. Informa que ele pediu casamento em segredo no Rio de Janeiro com dona Anna Francisca, uma jovem catarinense, alegando a morte de sua primeira esposa em Lisboa. Diz a autora: A mulher em Portugal, dona Francisca Matildes da Silva Paiva, foi jul-

gada morta pelo marido, quando se casou em segundas núpcias, em 1831. Pelo menos foi o que ele alegou. O português alegou ter agido com “boa fé”, quando se casou com dona Ana Francisca. Não temos registro de como este caso chegou ao conhecimento das autoridades eclesiásticas. Uma denúncia é a provável resposta. Em todo o caso, a situação terminou de modo favorável para Anacleto. A Igreja considerou o seu delito como adultério. Escapou da acusação de cometer o terrível crime de bigamia, passível de prisão pelo Tribunal do Santo Ofício da Inquisição. Conseguiu que o seu segundo matrimônio fosse revalidado, em 1844, com a presença habitual de duas testemunhas e pôs fim a esta história. Em nota de rodapé, a autora informa:

O casamento de consciência de Anacleto José Pereira da Silva com Dona Ana Francisca da Costa e Silva ocorreu em 2 de novembro de 1844. Foram testemunhas o Ministro Manoel José de Siqueira Rocha e Domingos do Espírito Santo. E nossa 102


hipótese, é que nesta ocasião, Anacleto tenha provado de fato a morte da esposa em Portugal.

Supõe-se, conforme esse comportamento geral, que a família não era lá esse exemplo todo que esperamos de um homem público do nível do Anacleto. Esse senhor era um dos poucos que o Jornal do Comércio do Rio de Janeiro noticiava que importava gêneros do estrangeiro.55 Encerrando a história do Anacleto, os jornais registram ainda inúmeras compras de bilhetes de loteria, por meio dos quais fazia diversas caridades, doando-os para igrejas e hospitais. Depois do Anacleto, o próximo a falecer foi Agostinho Alves Ramos em 1853 e Miguel Alvim em 1855, depois Baltazhar Pinto Corrêa, provavelmente em 1856; Tomaz Garcia em 1871 e Maurício Pinto em 1890. Exceto Maurício Pinto, são todos portugueses de Desterro que fizeram história de pioneirismo em nossa região. Todos os membros deste grupo, foram filiados ao Partido Conservador de Santa Catarina. Por isso eram tão unidos e solidários entre si.

Vista aérea de 1942 - Vê-se bem a extensão e a largura da “Lagoa do Canto”, o único rio que corta a cidade no sentido norte e sul.

55

Jornal do Comércio, RJ, 3 de fevereiro de 1835, p. 3.

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CANTO DA PRAIA E PRAIA BRAVA Houve tempo em que a Praia Brava era o lugar mais povoado de toda região. Veremos a seguir que foi cogitado inclusive formar uma cidade nesse trecho entre o Rio Camboriú e o Rio Itajaí. Como era tudo uma só cidade, a Praia Brava era tida como a Praia Principal do Cambriassu, pois de fato pertencia ao Distrito de Cambriú. Como era a praia mais povoada do Distrito de Cambriú, a ela se atribuía o nome de Praia do Camboriassu. Depois que passou a integrar o Distrito de Itajaí, o adjetivo ‘brava’, foi cada vez mais pronunciado. E a praia grande, passou então cada vez mais a agregar o nome do Rio Camboriú. A atual Praia de Camboriú, assim como o centro de Itajaí, padeciam do mesmo mal e por isso eram menos habitados que a Praia Brava, conforme alguns dados que passaremos mais adiante. Em ambos os territórios, a predominância do solo era considerada “terra podre”. Em um tempo que a agricultura era a principal atividade econômica do País, esse tipo de solo não tinha valor algum. Uma terra que não fosse fértil, não valia nada. No princípio da colonização, o foco de povoamento forte de Itajai era na Barra do Rio Itajaí-Mirim. O centro de Itajaí, como hoje conhecemos, era uma grande área alagada e nela o rio entrava com uma força descomunal destruindo tudo. O estuário do rio alastrava-se por uma extensão muito grande, englobando quase tudo que conhecemos como centro. Para ser mais exato, o atual centro de Itajaí nesta época não passava de uma enorme coroa de areia no meio de um alagado. Da mesma forma era Balneário Camboriú que era praticamente um enorme brejo. Muitas lagoas, mangues, charcos, pântanos e silvados, formavam todo atual centro urbano de Balneário Camboriú, o que fez retardar seu desenvolvimento. Até a era da mecanização, quando técnicas de drenagens mecânicas foram usadas para “secar” as terras e torná-las habitáveis, tanto o centro de Itajaí como o de Balneário Camboriú eram apenas charcos. Corre inclusive um folclore sobre a cidade de Itajaí que foi Marcos Konder quem importou as primeiras mudas de eucalipto com objetivo exclusivo de secar as terras, já que existe essa atribuição ao eucalipto de ser um grande sugador de água. Ainda é dos anos 50/60 do Século XX, outro caso folclórico atribuído ao prefeito Lito Seara, a qual ele muito se empenhou em equacionar esses problemas. Conta-se de forma lúdica, que em seus comícios, Lito Seara prometia aterrar os brejos e sanear a cidade. Foi daí que nasceu a fábula que os sapos, indignados com suas propostas, protestavam do fundo das lagoas, coachando um som onomatopéico que parecia dizer: “E nós, seu Lito? E nós, seu Lito? E nós, seu Lito?” Não obstante o exagero dessa fábula que todo antigo morador itajaiense conhece, porém demonstra que ainda nos anos 50, a cidade lidava com esse tipo

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de terra podre. Essa qualidade de solo que não despertava interesse na população antiga, eminentemente necessitada de terras gordas e férteis, para poder plantar e colher o que precisavam para comer. A principal atividade econômica de Itajaí, atualmente, é o porto. Entretanto, nem sempre foi assim. Itajaí tinha bons berços e atracadores, mas sua foz era muito problemática. Compunha-se de um enorme estuário raso e perigoso, com bancos de areia que se moviam, tornando a entrada inconfiável, para as embarcações maiores. Segundo historiadores, uma enorme pedra preenchia a entrada do rio. Para piorar, relatórios oficiais do governo dão conta que a grande enchente, de 1880, desferiu o golpe de misericórdia sobre a foz do Itajaí, piorando ainda mais sua foz. Esse fato retardou em muito o desenvolvimento do porto daquele município que perdia em tamanho e movimento para Camboriú até 1920. Com a passagem dos itajaienses Lauro Müller, e principalmente a de Adolpho Konder pelo Ministério de Viação e Obras Públicas, esses promoveram intenso trabalho de melhorias da foz, eliminando a pedra e aprofundando a calha do rio. Trabalho esse que vem sendo sistematicamente feito até os dias de hoje. Com a retirada dos embaraços da foz, o Porto de Itajaí foi tomando proporções à medida que o de Camboriú foi decaindo. Mais adiante veremos algumas movimentações do Porto de Camboriú que confirmam isso. No princípio da colonização da cidade de Itajaí, o Rio Mirim tinha mais importância que o Açu. Do Mirim vinham madeiras em grande quantidade das colônias ribeirinhas, Brusque e até do Alto Tijucas. Eram colônias fortes, até maiores que as colônias do Alto Vale, que só vieram a tomar importância depois da vinda do Dr. Blumenau, a partir de 1850. Todavia a parte que de mais perto nos interessa é a Praia Brava. Não podemos esquecer de levar em conta que por longo período da história pertencíamos a São Francisco do Sul. Somente a partir de 1832, esse território abaixo do Rio Itajaí, passou a pertencer a Porto Belo. A época mais florescente da Praia Brava, coincide com a criação do município de Porto Belo. A Praia Brava já foi tão pujante e grande que em 1855 foi cogitado emancipá-la e transformá-la em municipio. O Jornal O Conservador de Desterro, publica cópia da ata da Assembleia Provincial do dia 7 de maio de 1855, através da qual revela a proposta da Comissão de Estatística para a criação de um município entre Itajaí e Camboriú.56 Tanto é verdade que o Presidente da Província de Santa Catarina, Dr. João José Coutinho, criou através da portaria nº 15, de maio de 1855, uma agên56

Jornal O Conservador, 19 de Julho de 1855.

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cia da Colectoria Estadoal. A fala do Presidente Coutinho não deixa dúvidas que essa coletoria, situa-se entre as duas freguesias, para melhor recolher os tributos do movimento dos portos dessas duas cidades. O governador enfatisa suas palavras ao afirmar que a Sede dessa nova coletoria tem por distrito os territórios “entre as freguesias do Itajaí e Camboriú”, desmembrando de Porto Belo. Se fosse um lugar sem importância, isso não seria possível. Corroborando esse assunto, o Jornal Mensageiro do dia 5 de dezembro de 1855, página 02, também trata dessa matéria. Para coroar o novo lugar, o Presidente Coutinho afirma que o governo imperial também “creou no dito districto uma meza de rendas”. Veja o que disse o Presidente da Província:

[...]havendo no Itajahy uma navegação regular, e exportação directa para alguns portos do império, creei em benefício do commercio, e da fiscalização das rendas, uma nova colectoria que tem por districto os territórios pertencentes às freguesias do Santíssimo Sacramento do Itajhay e, da Nossa Senhora do Bom Sucesso de Cambrui [SIC] desmembrando da collectoria de Porto Belo. O governo imperial também creou no dito districto uma meza de rendas.57 Pelo que parece a Praia Brava tinha status de Sede de freguesia. O centro comercial de Itajaí estava deslocado na Praia Brava e já que a Praia de Camboriú à época, não passava de uma enseada lamacenta e desprezível, a tal Praia do Camboriú era mesmo a Praia Brava, conforme vários registros antigos. Diversos indicativos mostram que não existia morador na parte sul do rio Camboriú (atual Barra) antes de 1840. Por conseguinte, os moradores da Praia do Camboriú, registrados na Igreja de Penha, eram moradores do Canto da Praia e Praia Brava. Foi na Barra que começou o município como organização jurídica, política e eclesiástica. Diríamos que, da mesma forma como mudou a Sede da Barra para o Garcia, o núcleo da colonização mudou da Praia Brava para a Barra, por volta de 1839. Os primeiros conglomerados de europeus se estabeleceram na Praia Brava, incluindo aí, o Canto da Praia. O principal motivo para um atraso na ocupação da parte sul do Rio foram os índios. Se a Barra vai perder status de antiguidade com relação à população europeia, recebe esse reforço em sua antiguidade com o povoamento pré-colombiano. Quando foi criado o Município de Itajaí, em 1859, seus limites foram estabelecidos ao sul pelo Rio Camboriú. 57

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FONTE: Falla do Presidente João José Coutinho de março de 1856. p 32


A Freguesia do Santíssimo Sacramento de Itajahy terá por limite ao sul o Rio Cambriguassu. [...] que fica sendo o limite do Termo de Villa de Porto Bello. Diz a lei que cria o Municipio de Itajaí.

Como se explica então: se a Barra ficava para o lado sul do Rio, como desmembrou-se de Itajaí e não de Porto Belo? A resposta é porque a grande massa populacional da então Camboriú, ainda no ano de 1884, concentrava-se na Praia Brava e no Canto da Praia, conforme declararam os vereadores de Porto Belo numa carta que escreveram ao governador. A Barra, em 1884 ainda era pequena e a Praia Brava ainda permanecia grande, considerando-se somente registros oficiais. Para provar que a Barra não tinha moradores até 1833, vamos destacar três motivos. Primeiro: o documento assinado por Bernardino Antônio da Costa afirmando categoricamente que não existiam moradores na margem sul do Rio Camboriú. (p 109) Segundo: os jornais anunciando em 1839, sinais de fumaça próximo à foz do Rio Camboriú, denunciando a presença de índios ferozes que desencorajava qualquer um que quisesse morar nas proximidades. Terceiro: o fato de o Presidente Bernardo Dias Costa, em 1846, oferecer parte da banda sul do Rio Camboriú para se fazer um aldeamento, alegando não haver moradores ali. Se esse aldeamento tivesse se concretizado, toda a banda sul do Rio, incluindo a cidade de Camboriú, seria hoje uma sofisticada reserva indígena. A presença dos índios amedrontava os futuros pretendentes a morador pelo lado sul. Veremos mais detalhadamente, em outros capítulos, a notícia dos tais sinais de fumaça, que denunciavam acampamentos indígenas, a menos de meia légua da foz do Rio Camboriú. Este rio atuava como uma forte barreira, confinando os índios pelo lado sul e os europeus pelo norte, na praia. Quanto ao documento referido acima no item “primeiro” de Bernardino Costa, o encontramos recentemente na pasta de registros de “Comunicação do Presidente de Câmara do Desterro com o Presidentes da Província – 1833”. Trata-se de um pedido de concessão de terras que o senhor Bernardino Antônio da Costa solicita para o lado sul do Rio Camboriú. O autor do pedido, justifica que o lugar é totalmente despovoado e precisa de um primeiro morador para encorajar novos povoadores. Se Bernardino Costa diz que não havia moradores até 1833 e se em 1844, e seu irmão Bernardo Costa, presidente da Câmara, queria fazer ali uma reserva indígena, evidentemente que todo aquele contingente de eleitores que se diziam moradores de Camboriú em 1833/1834, eram da Praia Brava. Não é à toa que Bernardino estava solicitando terras na banda sul do rio. Ele tinha informações privilegiadas do irmão, acerca das terras devolutas na banda sul do Rio Camboriú.

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Nas eleições de 1833/34, mais de 40 eleitores se declaram moradores de Camboriú. Isto é mais que o dobro dos moradores de Itajai. (Vide as tabelas seguintes) E isso só foi possível porque os moradores da Praia Brava se identificaram como moradores de Camboriú. Essa estatística acabou assim que os limites estabelecidos entre Camboriú e Itajaí foram modificados e a Praia Brava ficou pertencendo a Itajaí. Foi assim que cortaram o cordão umbilical da Praia Brava com Camboriú. O povo da Praia Brava até pouco tempo, estava de fato afetivamente ligado a Camboriú, porém , desde 1844, quando inseriram a Praia Brava dentro dos limites de Itajaí. Número de eleitores da Vila de Porto Belo em 1833/34 - por distrito ano

Itajahy

Cambriú

*Sede e demais distritos

total eleitores

1833

20

44

85

149

1834

20

48

92

160

* Os demais distritos eram: Tijucas, Itapema, Bombas, Zimbros, além da Sede. FONTE: Ata das eleições desse ano. Comunicação do Presidente da Câmara ao Presidente da Província 1833 e 1834

Autógrafo de Antônio Pinto Corrêa, filho de Baltazhar Pinto

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PROVA DE QUE NÃO HAVIA MORADOR NA BARRA ANTES DE 1833

TRANSCRIÇÃO:

Dis Bernardino Antônio da Costa, morador da Ilha de Stª Catharina que elle tem varios Escravos e outras familias com os quaes pertende fazer hum estabelecimento agricula na margem do Rio Cambriciasú (sic) pela parte do Sul em terreno inculto, sem prejuízo de naquelle lugar um primeiro Agricultor para animar os Outros a fazerem ahy seos estabelecimento de que podem rezultar grandes Vantagens aos Enteresses do Estado, no entanto se acha dezerto ao norte da ilha grao e meyo de distancia que possue mais ou menos. E como não hé das imperiais intençõens de V.M.I [Vossa Majestade Imperial] que existão terras ociozas havendo quem as cultive. Por isso PVMI [Pede a Vossa Majestade Imperial] se digne conceder ao suplicante que nas ditas margens sul do Rio Cambrissiaçu, sem prejuízo de pessoa alguma em terreno devoluto possa fazer seu estabelecimento de agricultura. ERMce. [Espera Receber Mercê] Obs: No livro de votantes, Bernardino se identifica como morador de Tijucas na eleição de 1834.Vide tabela seguinte.

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Eleitores de Porto Belo que se declararam moradores de Cambriú -nas eleições de 1833/34 Os que estão com o nome do distrito ao lado, mais tarde vieram morar em Camboriú. André Francisco Caldeira

Francisco Ramos

José Maria da Veiga

Antônio da Cunha

Francisco Vieira de Borba

José Martins

Antônio de Xaves

HIPÓLITO COSTA PINHEIRO – Tapera

José Pereira Rodrigues

Antônio José da Costa

Ignácio José Borges

Jose Raimundo Vieira

ANTÔNIO JOSÉ MACHADO -Itajaí

Ignácio José da Silva

José Thomas Maxado

Aurélio Coelho

João Alexandre

José Vieira da Costa

Baltazhar Pinto Corrêa

João Alexandre da Silva

Jozé da Rosa Fernandes

BERNARDINO Ant. COSTA -Tijucas

João Antônio da Silva

Laurindo Santiago

Ceverino José Vieira

João da Cunha

Luis Gonçalves

Claudino José dos Santos

João da Cunha de Souza

Luiz Ignácio

Claudino José Francisco

João Vieira da Costa

Luiz Manoel da Silva

Custódio Francisco da Rosa

Joaquim Antônio da Cunha

Manoel Avelino Coelho

Domingos José da Silva

Joaquim Antônio da Silva

Manoel Ignácio Borges

Faustino Antônio do Nascimento

Joaquim da Cunha

Manoel José da Costa

Felício de Borba

Joaquim José Pereira

Manoel Silvério Coelho

Felicio de Borba Coelho

José Antônio da Silva

Manoel Vieira de Borba

Felício José Borges

José Antônio de Oliveira

Marcelino José da Costa

Fernando Pereira

José da Cunha

Matheus José de Bittencourt

Fernando Pereira da Silva

José da Rosa Fernandes

Matheus João de Borba

FIRMINO Ant. DE BORBA- Itajai

José da Silva Correa

Severino José de Borba

Francisco Antônio de Borba

José Francisco Bernardes

Silvano de Borba

Francisco Antônio dos Santos

José Ignácio Borges

Silvano Pereira

Francisco José Ruiz

José Luis Pereira da Silva

Silvério Francisco

Francisco Mateus Simões

José Luis Simões

Silvério Tarquino

Francisco Monteiro

Jose Machado de Espíndola

Thomaz Francisco Garcia

Francisco Pereira

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Victoriano Jozé Tavares


FIM DA ENSEADA DAS GAROUPAS, NASCE PORTO BELO Com o descomissionamento da Colônia Nova Ericeira, criou-se a Vila de Porto Belo, em 1832 e todo o território abaixo do Rio Itajai-Açu passou a integrar o território da recém criada vila. Até então, pertencíamos ao Distrito de Penha, Comarca de São Francisco. Por estarmos no extremo sul da Vila de São Francisco, divisando com a Enseada das Garoupas, isto induziu muita gente a pensar que pertencíamos a Garoupas. Essa indução errônea, fazia com que pesquisássemos por nossos primitivos moradores nos registros de Porto Belo ou mesmo em São Miguel e quase nada encontrávamos. A Praia Brava do Cambriassu pertencia ao distrito de Penha. Também o fato de a Praia Brava estar a tantos anos pertencendo a Itajaí, isso fez esconder de nós que os primeiros fatos históricos da nossa Camboriú estavam acontecendo na Praia Brava. Desconhecíamos o fato de que a Praia Brava era nosso mais antigo reduto de moradores, porque também não achávamos referências desses moradores nos registros da Igreja de Porto Belo. A partir da divulgação dos trabalhos do eminente genealogista Telmo José Tomio na internet, reparamos uma grande incidência de pessoas declarando-se moradoras na Praia Brava do Camboriguassu. Mudamos o foco de nossas pesquisas para a cidade de Penha e os números de nossa história mudaram radicalmente. Foi o que pretendíamos dizer na introdução: a História não mudou, nós que mudamos o foco das pesquisas. Pensávamos que éramos menores que a realidade, por pura falta de conhecimento da documentação. Nos registros de Penha nota-se que não só os da Praia Brava estão se manifestando moradores de Camboriguassu, mas os das margens do Itajaí–Mirim e da Canhanduba também.

Registro do falecimento de José Morador da ‘Praya Braba’ – falecido em 22/10/1795, o que comprova a antiguidade dos moradores dessa localidade. (Registro da Igreja de Penha)

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A PREFERÊNCIA PELA PRAIA BRAVA Por que a antiga preferência pela Praia Brava ao invés da atual Praia de Camboriú? Já vimos reiteradas vezes que as terras pertencentes ao atual perímetro urbano da Praia de Camboriú eram restingas, terras pantanosas, cheias de arroios, lagoas e imensos brejos e manguesais. A atual Praia de Camboriú é fruto de um grande aterro. Essa parte sedimentar de aluvião, terra boa, fica muito distante do mar (Bairro das Nações). A área da atual Balneário Camboriú não tinha nenhum valor para o homem primitivo, extremamente necessitado de terras boas para o plantio. A Praia Brava por sua vez, não tem esse tipo de terra podre. Entre a montanha e o mar, a distância é mais curta. A terra de aluvião, portanto, chegou mais próxima do mar. O aluvião contaminou a areia e melhorou sua capacidade produtiva. Uma faixa de areia preta, após a restinga, era boa para alguns cultivares, o que lhe fazia agregar valor. Essa areia é relativamente fértil e nela é capaz de vingar algumas variedades de mandioca, abóbora, batata doce, melancia, amendoim. Citamos esses cultivares porque subsistiram até os anos sessenta, quando conhecemos algumas famílias dedicando-se a essas espécies. Mesmo assim, a parte arenosa preta, é mais escassa e é logo interrompida pelo terreno mais argiloso, sedimentado pelo aluvião. A faixa arenosa fica bem restrita, próxima à praia e o resto é o que chamavam de terra boa. A Praia Brava quando se trata de comunidade, tinha um território grande, que vinha desde a encosta do Morro de Cabeçudas, pelo norte, até o Ariribá. Chegamos a conhecer a Praia Brava permeada de pequenas roças de subsistência. Algumas roças de famíliares, iam desde a atual Avenida Osvaldo Reis até a Canhanduba. Algumas fotos aéreas antigas, mostram toda essa imensa área, demarcada por quadras tomadas pela atividade agrícola.

Óbito do patriarca Silvestre de Borba Coelho – Praia Brava - 02/03/1819

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PRAIA BRAVA DENTRO DO CONTEXTO CAMBORIÚ Quando chegou a proposta de emancipação do município de Itajaí, na Câmara Municipal de Porto Belo, seus vereadores não concordaram em perder seus distritos. Eles escreveram uma carta ao governador da Província, explanando os problemas que acarretariam, fazer a divisão das cidades de Itajaí e Porto Belo pelo Rio Camboriú. Os vereadores de Porto Belo apontavam como problema maior o fato de o Rio Camboriú dividir o Distrito de Camboriú ao meio: Dividindo as duas cidades pelo Rio Camboriú é o mesmo que destruir a Freguesia de Camboriú” – disseram os vereadores na carta ao Presidente. Eles sugeriam que a divisa siguisse pelos antigos limites distritais, que era no Morro Cortado. Desta forma, segundo esses vereadores, o Distrito de Cambriú ficaria intacto. A ideia não vingou! Racharam Camboriú ao meio. A parte da atual Barra ficou com Porto Belo e a atual Balneário Camboriú com Itajaí. A tal carta continha cinco “considerandos” e é no terceiro considerando que gerava a ideia da dúbia situação geográfica de Camboriú:

3º- CONSIDERANDO Que creado aquele novo município [Itajaí] pela forma requerida pelos peticionários, isto é, tendo como limites ao sul o Rio Camboriú, é o mesmo que decretar a destruição deste Município[Camboriú], e mesmo complica os interesses públicos e particulares dos habitantes da Freguesia de Camboriú, os quais, por esta divisão, fica a freguesia pertencendo a dois Termos, o que de nenhuma forma convém aos municípios confinantes. Quando, porém, fosse possível a pretensão dos habitantes de Itajaí, nessa hipótese então seria de justiça, que se concedesse por limites ao Sul do dito novo município, o Morro Cortado, limite este que divide a Freguesia de Camboriú da de Itajaí.58 Importante observar que eles estão no ano de 1859. Camboriú vai se emancipar de Itajaí somente em 1884. No entanto, os vereadores de Porto Belo já atribuem um status de município a Camboriú. Foi a grandiosidade da Praia Brava que ajudou a Barra a ter sido desmembrada do município de Itajaí, ao invés de Porto Belo. Não teria lógica a Barra desmembrar-se de Itajaí, estando dentro dos limites de Porto Belo. Vê-se que a Praia Brava não era uma freguesia formal, um distrito, mas apenas um lugar com o nome de seu principal acidente geográfico. Uma das peças de um comple58

Veja nessa frase que a Praia Brava está inserida no Distrito de Cambriú. FONTE: História do Legislativo de Itajaí, p 24.

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xo de quatro praias que formavam a Enseada do Camboriguassu: a Praia Grande ou Praia Mansa, a Prainha ou Praia do Corrêa, a Praia do Buraco e a Praia Brava. Se nos dias de hoje, apesar de toda uma avalanche de informações e mapas, troca-se o nome das praias a todo o momento, imaginem naqueles tempos. Portanto, muito das antigas nomenclaturas de Praia de Camboriguassu se referiam à Praia Brava. Frisamos que nessa época ainda era importante morar na segurança das enseadas. Com a pacificação dos gentios, a importância mudou de lugar. A modernidade fez alterar completamente a feição dos lugares. Com a flexibilização do corte da madeira e das queimadas, além das possibilidades de cultivo intensivo, somadas à expulsão dos gentios, as terras do interior de Camboriú passaram a ficar muito atraentes. Deduzimos que a partir de 1839 começa aumentar o fluxo em direção ao Barranco e ao Morro do Boi, e depois Barra e Rio Pequeno. Alguns relatórios de viajantes estrangeiros, muito tempo depois, ainda falam na “pequenez do lugar”. Faço lembrar o que o Engenheiro Mello e Alvim afirmava que na Freguesia o número de casas não excede a 8 em 1º de abril de 1851.

“O Arraial da Freguesia de Bom Sucesso, há curto tempo criada, tem poucas casas, não excede a 8, e fica junto à estrada e à barra do Rio. [...] O comércio em proporção com a pequenez do logar hé regular e uma prova de que elle prospera, hé o grande preço que alli tem as terras.”

O engenheiro reforça que, em 1851, a Barra tinha apenas oito casas. Veremos no documento na página seguinte, que 10 anos antes, (1841) o Presidente da Câmara informando ao Presidente da Província, alega que o Distrito de Cambriú tinha 160 e tantas casas. Fica a indagação: onde ficavam as 160 e tantas casas? A resposta está no Canto da Praia e na Praia Brava. Evidentemente que esse engenheiro está querendo desmerecer a Barra, e assim justificar a ideia de mudar a Sede para a gleba do Capitão Costa. Um lugar só com 8 casas, o preço das terras não poderia estar “tão grande” como ele mesmo declara naquele paragrafo.

Autógrafo do Rábula José Mendes da Costa Rodrigues

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Parte do ofício do Presidente da Câmara de Porto Belo João da Cunha Bittencourt para o Presidente Antero José Ferreira de Brito acerca da formação de um Districto de Paz em Cambriú, no qual ele afirma que no distrito existem mais de 160 casas.

TRANSCRIÇÃO: Ilmº Exmº Sr Esta Camara acuza a recepção de dous of-

ficios de V.Exª, ambos dactado de 5 do corrente mez de julho, em observância dos quaes tem a informar a V.Exª 1º: Que para a formação de hum Districto de Paz em Cambriú, julgar conveniente que os limites para aquelle Districto sejão ao Sul, desde o morro denominado do Boy athé ao canto do Norte da Praia do mesmo Cambriú, os quais estremos antigamente já servirão de limites, comprhendendo dentro dos mesmos cento e cecenta e tantas Casas habitadas, bem como algumas pessoas aptas para operarem o Cargo de Juizes de Paz. Morro do Boy. Porto Bello, 29 de julho de 184159 59

FONTE: Livro de ofício do Pres. da Câmara de Porto Belo ao Presidente da Província do ano de 1841, p. 234.

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NEM PORTOS, NEM ARMAÇÕES, NEM INDÚSTRIAS PUDERAM CONTER O ÊXODO Vimos que a primeira matriz econômica do Estado foi a exploração da madeira e depois as armações de baleias. Essas armações eram estruturas industriais muito primitivas, mas que davam muitos empregos e rendiam muito dinheiro. Com o desaparecimento dessas duas fontes geradoras de emprego e renda, somados ao esgotamento das terras, o litorâneo acuado teve de enfrentar os índios e adentrar às matas, a fim fazer roças e cultivar a terra. Temos exemplos contundentes desse fenômeno social, no âmbito familiar, desde quando os Borba Coelho abandonaram completamente o litoral da Praia Brava e adentraram ao sertão, espalhando-se pelo interior de Camboriú. Posteriormente se espalharam por Piçarras, Penha e Barra Velha. Nas enseadas permaneceram apenas o pescador sem aptidão para a agricultura. Da mesma forma, ainda no âmbito familiar, os Corrêa ficaram no litoral. Gente mais conformada, da linhagem de antigos pescadores, não arredaram o pé da proteção do mar. A partir de meados do Século XIX até meados do Século XX, as praias perderam totalmente seu valor, servindo muitas vezes para depósito de lixo. A Praia Brava é um exemplo de lugar que foi lixão. Balneário Camboriú depositou lixo na Praia Brava até no final do Governo Meirinho. As praias mais bravas, pouco propícias à pesca, ficaram praticamente desertas. Tanto que as praias mais preservadas atualmente são aquelas mais bravas, abandonadas desde aqueles tempos. Cabe exceção a pouquíssimas praias. Podemos considerar que a “grande Praia Brava” sofreu dois grandes êxodos. O primeiro para o interior, em meados do Século XIX, cujo moradores saíram à procura de terras férteis; e o segundo, em meados do Século XX, quando migraram para os centro industriais. Os da beira da Praia Brava saíram praticamente todos, ficando somente os da beira de estrada geral. Acreditamos que em virtude do trânsito que havia, isso ainda gerava algum movimento ao local. Essa circulação de pessoas manteve poucos moradores nas margens da Estrada Geral, explorando pequenos empreendimento comerciais, que geraram a sustentação básica pouco exigente da época. Foi o que os segurou até meados do Século XX, habitando o que restou da Praia Brava. Depois foram praticamente todos para os centros industriais, deixando a Praia Brava com aspecto de um lugar fantasma. Os referidos comércios citados era pequenos vendas ou botecos, porém a Praia Brava já teve padarias, serrarias, fábricas de cal e até uma fábrica de cordas. Com os últimos sintomas de êxodo, nos anos 50 e 60, resultou que a Praia Brava decaiu de tal forma, que só ficaram os desalentados que já não tinham mais forças para lutar por mais nada. Para a pesca de arrasto a Praia Brava

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não era boa e nesse quesito perdia para a nossa “praia mansa”. Temos o testemunho de Manoel Germano que ele mesmo construiu o primeiro rancho da Praia de Camboriú em 1901, em companhia de seu tio Manoel Pinto no Canto da Praia. Nos anos 50 e 60 , a Praia Brava tinha um aspecto horrível e essa é a imagem que ficou no imaginário geral do povo. Um exemplo clássico da decadência foi a instalação da zona do meretrício que abalou moralmente os habitantes mais conservadores. Foi um dos maiores motivos para que muitas famílias, mais próximas desse local, abandonassem suas propriedades. Finalmente, como a nossa sociedade vive ciclos, a Praia Brava, tal como a cidade de Camboriú se recuperou e se prepara para ser novamente um dos lugares mais valorizados do litoral catarinense. A Praia Brava cresce tanto na orla como na beira da Estrada Geral. Resguardadas as proporções parece igual como era antes. Aqui em Balneário Camboriú temos o exemplo de uma praia que, apesar de pequena, teve sua sobrevida. A Praia do Corrêa ou Prainha do Canto, foi uma dessas exceções. Trata-se de uma praia pequena e tranquila, totalmente protegida à Leste, com profundidade rasoável para receber embarcações. Os marinheiros chamam para lugares com esse aspecto físico de “embate” ou seja, lugar bom para abrigo em tempestades. Foi devido a essas peculiaridades que esse local gerou uma sobrevida aos moradores do Canto da Praia, servindo de porto. Era tão bom porto que a Praia do Corrêa foi cogitada para receber uma armação de baleia nas proximidades. Segundo nota em jornal da época, andaram visitando a Praia de Camboriú, os empresários, Manoel Francisco de Souza Medeiros e Antônio Claudino de Souza Medeiros, sócios da armação de baleia da cidade de Garopaba e Imbituba. Mais à frente, em capítulo específico, abordaremos outros aspectos do portinho do Canto da Praia. O grande empresário Anacleto José Pereira providenciou com seu velho parceiro Baltazhar Pinto Corrêa a vinda da Companhia Baleeira dos irmãos Medeiros para cá. O assunto entre eles é fácil deduzir: Anacleto que tanto ajudou Baltazhar a se instalar em Camboriú, veio cobrar a justa retribuição. O capitalista que o ajudou, estava precisando de ajuda. Ninguém melhor que o favorecido para suprir sua necessidade. Sobretudo se o favorecido tivesse disponível as terras de marinha que ele tanto estava precisando. E sabe quem seria o avalista dos irmãos Medeiros? Ele mesmo, Anacleto José Pereira da Silva, o grande investidor da nossa região. Querem saber o motivo? Os Anais do Parlamento Brasileiro vão nos dar a resposta: houve uma grande tempestade no sul do Estado que afetou seriamente as instalações da empresa dos irmãos Medeiros em Garopaba. As armações de baleias eram concessões do governo, cedidas por arrematação. O fiador dos irmãos Medeiros foi Anacleto Pereira. O milionário teve que se virar para honrar a dívida junto ao go-

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verno e estava imbuído de interesse em sanear e restaurar a empresa. Mediante a situação calamitosa do seu empreendimento, o milionário viu-se obrigado a pedir mais prazos ao governo para quitar o débito. Ao mesmo tempo, buscava salvar a sua indústria. Uma das providências foi tentar tirar os galpões de uma área de risco e reinstalá-la em lugar mais seguro, menos sujeito às ventanias. A Praia de Camboriú seria ideal. Na ata da sessão da Assembleia Geral Legislativa, está registrado que o parlamento autorizou o governo a conceder ao investidor Anacleto Pereira uma prorrogação do prazo maior que os seis meses previstos para o pagamento da arrematação da Armação da Garopaba.60 Os irmãos Medeiros chegaram a deixar morando aqui alguns parentes que iriam administrar o negócio. Alguns deles com esse sobrenome, tiveram forte atuação na política, logo nos primórdios da história do nosso município. Ainda hoje a presença da tradicional família “de Souza Medeiros”, em Camboriú, corrobora essa tese. Porém, ficamos sem saber se os prejuízos causados pela intempérie no Sul do Estado foram os reais motivos para os Medeiros saírem de lá ou se foi por causa dos prejuízos causados pelas intempéries, que não permitiu que investissem numa filial aqui na Praia de Camboriú.

A Prainha e seus três ranchos em 1990

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Sessão de 5 de agosto de 1840.


AS ARMAÇÕES DE BALEIA - ATRAINDO COLONIZADORES. As armações de pesca de baleia eram uma atividade que atraía muitos trabalhadores. Tratava-se de uma concessão pública outorgada pela Coroa, bastante lucrativa e que pagava muito bem. Era uma atividade de risco, insalubre, mas a situação precária do povo daquele tempo, não permitia que as pessoas se dessem ao luxo de questionar problemas relacionados à saúde e segurança no trabalho. Quem pesquisar nos livros de registro das igrejas onde existia uma dessas empresas, pode facilmente observar que há uma intensa movimentação social em torno dessa atividade. As igrejas registram inúmeros casamentos, batizados, óbitos de funcionários empregados nestas empresas. Os padres faziam questão de distinguí-los ao anotar que a pessoa registrada era um “real contratado”, porque eles eram permissionários de uma concessão do Real Império Brasileiro. Chama atenção a quantidade de registros de óbitos causados por acidentes de trabalho desses contratados. Os Livros de Óbitos da igreja da Penha registram acidentes como o da escrava Catharina de 25 anos que caiu dentro de um tanque do azeite fervente, até de pessoas que morrem em alto mar na caça às baleias. Registra, inclusive, o curioso caso do escravo Damião, um real contratado, que fugiu para o mato e foi devorado por uma onça no dia 18 de setembro de 1792, reconhecido apenas pelos retalhos das roupas que sobraram. Não mal comparando, as armações baleeiras estavam para o povo daquele tempo como as empresas petrolíferas estão para nós hoje. O óleo de baleia era o petróleo da época. Walter Piazza, na sua monumental obra Santa Catarina Sua História, aponta números elevados de pessoas trabalhando nessas empresas baleeiras. Só trabalhadores escravos cita 525 nessas armações. Menciona que a empresa movimentou, no ano de 1777, a assombrosa quantia de 1$066.797.486. Estamos aí na casa de um bilhão, sessenta e seis milhões, setecentos e noventa e sete mil e quatrocentos e oitenta e seis Réis.

Autógrafo de Francisco Antônio de Souza Medeiros - proprietário da Armação de Baleia de Garopaba .

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A pesca da baleia foi um dos maiores recursos econômicos naturais que nosso Estado já teve. A Atividade trouxe muita gente para trabalhar e viver por aqui. O óleo de baleia era um recurso estratégico e servia para muita coisa naquela época, desde a iluminação até a argamassa para construção, passando pelo fabrico de sabão, vela, graxa, banha e produtos usados em curtumes e estaleiros. A pesca da baleia movimentou muito a economia do Estado. Ao derredor dessa empresa gravitavam diversas atividades indiretas, servindo para abastecer a população obreira. Isso teve um peso enorme no fluxo da emigração em torno dessa atividade. Abria-se uma armação de baleia e aparecia muita gente para trabalhar; fechava-se a armação e o povo ia embora à procura de novos meios de sobrevivência. Esse fluxo e refluxo contribuía na dispersão do povo, formando novas vilas e povoados. A expansão do litoral catarinense tem um pouco a ver com esse tipo de comportamento social. Por causa da implantação da Armação em Penha do Itaporocorói, este município alinhou-se com São Francisco e São José, formando as três comunidades mais importantes do litoral catarinense. A desativação da Armação da Penha forçou a dispersão de casais pela região à procura de novas oportunidades. Sem dúvida que a emigração ocorrida de Desterro para o Vale do Itajaí, por volta de 1821, foi a procura por terras férteis para empreendimentos agrícolas. Pelo menos era o que argumentavam na hora de fazer a justificativa para requerer sesmaria. A propaganda de que os vales dos rios Camboriú e Itajaí Mirim, possuíam extensas áreas de terras férteis provocava o desejo em muita gente de vir para cá desde 1790. Porém, o boato de que Anacleto Pereira poderia estar implantando uma armação baleeira em Camboriú, é possível que tenha influído para a vinda de alguns colonos procurando terras em Camboriú por volta de 1840. Que a Praia Grande do Camboriguassu era ideal para a implantação de uma indústria desse gênero, é indiscutível. Era uma praia segura, de águas mansas, excelente para movimentação de embarcações e com porto anexo. Sempre quando há uma previsão do surgimento de uma grande empresa para um determinado lugar, abre-se uma considerável demanda para especulação. Foram essas as duas supostas causas para a corrida por terras em Cambiriguassu nos primórdios até meados do Século XIX.

Autógrafo do Presidente Camara de Porto Belo, Bernardo Dias da Costa.

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UM POUCO DE HISTÓRIA DEMOGRÁFICA DA PRAIA BRAVA A descoberta de registros religiosos dos camboriuenses, na Igreja de Penha, vai trazer um novo entendimento sobre detrminados aspectos que estavam obscuros em nossa história. A partir dessa descoberta, tivemos a comprovação de um enorme contingente de pessoas ocupando a Praia Brava no Século XVIII. Já creditamos boa parte dessa descoberta ao do trabalho do Genealogista Telmo José Tomio publicado em seu blog. Reconhecemos membros da família Borba, sabidamente moradores do Canto ou da Praia Brava. Entre os registros de residentes da localidade de Praia Brava, encontramos falecidos, no final do Século XVII e outros que nasceram no início do Século XVIII que demonstra um povoamento surpreendentemente antigo. No ano de 1779, o Governador da Capitania Francisco Barros Morais Araújo Teixeira Homem, escreve ao vice-rei Dom Luís de Vasconcelos Souza, expondo o desamparo espiritual dos povos do litoral catarinense. Na carta ele relata que os moradores da “Enceada do Camboriguassu” se distanciam 15 léguas da sua Sede em São Miguel. Estava equivocado o governador. Os moradores da Praia de Camboriguassu não pertenciam a São Miguel e sim a São Francisco, como ele mesmo afirma no parágrafo seguinte do seu relatório, afirmando que a divisa entre os dois municípios se dá pelo Rio Camboriguassu.61

A Praia Brava em 1969 - Nas áreas circuladas: 1 para o lixão e 2 para a zona do meretrício.

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Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro V. 245 p.132.

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“MAPA CHOROGRÁFICO do Tenente Francisco Manoel da Silva e Mello - 1792, que compreende desde o Rio Guaratuba, até a Guarda da Lagoa da Garopaba. Oferecido ao Ilmº Sr Manoel Soares Coimbra – Coronel de Infantaria da Ilha de St Catarina e Governador do Departamento da mesma Ilha”. Repare que o mapa contempla o Rio Cambori-Guassu, a Lagoa do Centro, a Lagoa do Canto e o Rio Ariribá.

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Uma afirmação tão categórica como esta, partindo de quem deveria saber, nos induziu ao erro. E o governador certamente sabia disso. Por certo, na intenção de convencer o Vice-Rei, ele aumentou um ponto nesse conto. Só na família de 14 filhos de Silvestre Coelho, pelo menos 10 nasceram no Sec. XVIII, todos registrados em Penha. Ele mesmo faleceu em 1819, pelo menos dois ou três anos antes do primeiro grande movimento de sesmeeiros para a região por volta de 1821. Isso prova a antiguidade desse lugar. Vejamos a lista dos filhos de Silvestre Coelho. - Rosa nasceu em 1786; João em 1787; Antônio em 1789; Joana em 1791; Felício em 1792; Manoel Borba em 4 agosto 1793; Miguel Borba em 06 junho 1797; José de Borba Coelho - o indigenista - nasceu em 02 julho 1795; Silvano de Borba Coelho em 15 abril 1799; Luís de Borba Coelho em 05 dezembro 1800; Maria Ignácia de Jesus em 30 setembro 1802; Joaquina Ignácia de Borba Coelho em 20 dezembro 1805, Luiza Mariana em 15 agosto 1808, Anna Ignácia da Paixão em 29 março 1812. Com a morte de Silvestre, seus filhos Felício, Antônio e Francisco deram continuidade ao processo de sesmaria em nome do seu pai. Para requerer uma sesmaria, Silvestre alegou ter no ano de 1813, “11 filhos maxos e femeas para sustentar”. Quem recebeu o recibo de confirmação foi seu filho, Felício de Borba, representando os irmãos. O resultado foi que após a confirmação da sesmaria, foram morar na Canhanduba. Foi ali que José de Borba iniciou a pacificação dos índios. A partir desse ato, muita gente saiu da Praia Brava para morar na Canhanduba, interior de Camboriú e nos demais lugares às margens do Itajaí-Mirim. O memorialista Antônio Flores, em depoimento ao prefeito Pedro Ferreira de Itajaí, diz que se lembra de José Francisco de Borba morando ainda na Canhanduba. Se apenas os Borba já formavam todo esse contingente na Praia Brava, imagine se somarmos a eles as demais famílias. Grandes famílias da Praia Brava revelados nos registros dos cartórios são os Espíndola, os Pacheco, os Machado, os Veiga e os Cabral; sem contar outras famílias populares mais numerosas ainda, como os Santos, os Silva, os Pereira, os Cardoso, etc. Para exemplificar a quantidade populacional, vivendo confinada aqui no Canto da Praia e Praia Brava de outrora, tomo a liberdade de fazer uma resenha genealógica que vai demonstrar a força desse contingente nessa região. Inicio a resenha com o enlace matrimonial de Germano Pinto Corrêa, filho do bandeirante Maurício Pinto Corrêa, portanto neto de Baltazhar. O jovem contraiu núpcias com Ana Maria de Espíndola, natural da Praia Brava, nascida em 1871. A moça era filha legítima de Joaquim Machado de Espíndola e Ignácia Maria de Jesus, ambos da Praia Brava. Era neta paterna de João José Machado de Espíndola, da Praia Brava, casado com Maria Januária Ramos, nascida no Canto da Praia. Agora avançando a escala nessa hie-

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rarquia familiar, o filho de Germano Pinto e Anna Espíndola, Manoel Germano Corrêa, também casou com uma moça do Canto da Praia. Seu filho Germano fez a mesma coisa, casando com uma Borba nativa da Praia Brava. Por minha vez, filho de Germano Corrêa, mesmo vivendo em uma Balneário Camboriú, já cosmopolita, quis o destino manter a tradição: casei-me com uma moça do Canto da Praia. Fizemos esse destaque tão particular para demonstrar que, apesar de atualmente Balneário Camboriú ser uma cidade moderna, cosmopolitana, ainda reserva, timidamente, um elo com esse passado tão marcante. Inserimos esses dados para dizer que, se não fizéssemos parte dessa história, se não conhecêssemos a nosso genealogia, talvez não tivéssemos reparado que na Praia Brava e no Canto da Praia tivesse gente tão antiga. O que pode confundir um pesquisador menos atento é a diversidade de nomes que os vigários estrangeiros de Penha utilizaram para denominar nossos topônimos. Para o termo Camboriú, fizeram os mais váriados tipos de grafia: Canvriu, Canviriú, Canviriguassu, Canviriuguassu, Canvriguassu. Grafias essas escritas com caligrafia ruim, somadas aos demais cacoetes da língua dos padres estrangeiros dificultam a tradução. Se não fosse o conhecimento em paleografia do heraldista Telmo Tomio e sua intimidade com a caligrafia desses padres, a nos ajudar, dificilmente traduziríamos esse termos como Camboriú. Essa ligação entre moradores da Praia Brava com Camboriú não foi rompida peremptoriamente com a implantação dos novos limites geográficos, estabelecidos pelo governo. Em tempos de dificuldade de transportes, parece que o Morro Cortado, no Bairro Fazenda, em Itajaí, tornava-se uma forte barreira, que desestimulava os moradores da Praia Brava a se deslocarem àquele município. Repare em algumas situações de afinidades entre as localidades antigamente: as escrituras eram lavradas no Cartório de Camboriú; os católicos da Praia Brava vinham à missa na Igreja São Sebastião, no Canto da Praia; os crentes do Canto da Praia, congregavam-se na Praia Brava; os eleitores da Brava votavam no Canto; os alunos da Brava também estudavam no Canto da Praia. São reminiscências de um passado em que as comunidades eram ligadas de fato e de direito. E tem mais: como o centro econômico da região era a Praia Brava, os moradores da Canhanduba se declaravam moradores de Cambriú, desde 1792. Para atingir a Praia Brava eles não contornavam o Rio Itajaí. Faziam uso de um acesso direto através do Ariribá. Isso os deixava muito perto da Praia Brava. Olhando o lugar pelas fotos de satélite, repara-se que nem morro tinha para atravessar. Eles contornavam o vale entre as montanhas e chegavam facilmente na Praia Brava em poucos quilômetros. Por isso, alguns moradores da Canhanduba se declaravam moradores da Praia Brava do Cambriassu.

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ATRAVESSANDO PARA A MARGEM SUL Voltando aos assentamentos oficiais, sabemos que a sesmaria de Baltazhar Pinto Corrêa localizava-se na margem norte, no Canto da Praia. Ainda não sabemos com exatidão quando Baltazhar mudou-se do Canto da Praia para a Barra, mas é seguro que ele foi pra lá, conforme comprovam os registros escriturais do Cartório e da Igreja. Em 1879, de acordo com o testamento registrado no Cartório de Camboriú, a sesmaria de Baltazhar, no Canto da Praia, já estava sob posse de seu filho Maurício Pinto.62 A viúva, dona Ana Custódia, e os demais filhos, por esse tempo estão vivendo na Barra, haja vista a intensa movimentação registrada nos livros tanto do Cartório como da Igreja. O Livro de Registro de Terras dos Vigários de Porto Belo e algumas escrituras do cartório de Camboriú, citam que Baltazhar Pinto Corrêa era extremante com o Capitão Antônio Dias, na entrada do Rio Camboriú. Com exceção de Maurício Pinto, dos 14 filhos de Baltazhar, que temos conhecimento, nove negociaram terras na Barra, ainda no Século XIX, e todos, de alguma forma, promoveram algum tipo de registro na igreja. Dona Ana Custódia, esposa do sesmeeiro, com certeza passou os últimos anos de sua vida na Barra. Dizemos isso porque é possível que Baltazhar possa ter ido para a localidade de Pedra de Amolar onde ganhou uma sesmaria do amigo Agostinho Ramos, enquanto ela tenha ficado aqui. Eles já usaram dessa mesma estratégia no começo da vida. Ela ficava lá na Freguesia de Santo Antônio em Desterro e ele aqui, trabalhando para conquistar uma sesmaria. Ter uma sesmaria regulamentada por uma lei provincial não tinha o mesmo rigor daquela regulada pela Carta Régia, por isso não temos conhecimento de que Baltazhar tenha ido morar para lá, pois não consta essa exgência na lei do Agostinho. Reiteramos que não estamos querendo mudar a história. Acontece que o espectro do “Distrito de Cambriú”, era bem mais abrangente e incluía a Praia Brava, fato que desconhecíamos. A Praia Brava pertencendo a Camboriú foi um fato histórico de ultra relevância, que ia passando despercebido pela história. Até pouco tempo, estávamos focados apenas na Barra como princípio da história, excluindo a Praia Brava, ainda mais antiga e que tinha um contingente populacional enorme. A tese do começo da colonização na Barra esteve sempre associada ao início da formação política do município de Camboriú. Todavia não confunda início de povoamento, com início de uma formação jurídica e eclesiástica do município. O Jornal O Conciliador Catharinense, de 12 de janeiro de 1850, 62

Cartório Camboriú, livro 04 p 21 até 22v – 1879.

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comenta a “Fala do Vice-Presidente da Província” daquele ano, na qual pede um corpo de cavalaria para algumas localidades, entre elas Cambriú, devido ao grande aumento da sua população.63 A partir de 1840 é que se pode afirmar com certeza que a margem sul do rio (a atual Barra) recebe algum contingente de moradores. Outro detalhe de que esse fluxo se deu proporcionalmente em grande escala e relativamente rápido, logo após a pacificação dos índios. Quando o Engenheiro João de Mello e Alvim diz em 1851, que o Arraial é pequeno, tem poucas casas, não excede a oito, ele não diz totalmente a verdade. Como pretende convencer o governo da necessidade da mudança da Sede, ele tenta diminuir o tamanho da freguesia. No próprio desenho que mandou fazer, aparecem mais casas do que ele informa no relatório. A menos que esteja se referindo somente às casas da Praça da Barra, mesmo assim, só se excluir as casas de comércio pra fechar essa conta. Nesse tempo, muitos moradores ainda estavam concentrados no Barranco e Morro do Boi. Isso é indiscutível, considerando-se que a porta de entrada para a banda sul do Rio Camboriú se dava pelo lugar que denominado Poço das Pedras. Tanto é verdade que esse lugar, por muito tempo, se chamou “Passagem”. A Passagem é fácil localizar atualmente, porque é exatamente onde está a ponte que liga a Vila Real ao Barranco. Chamavam-no às vezes de “Passagem do Poço das Pedras”, porque ali existia uma balsa que fazia a travessia de uma margem à outra.

Praça de Santo Amaro – Barra 1940

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JORNAL CIT Nº 72, p 01


O PORTINHO DO CANTO DA PRAIA Toda família Corrêa, habitante do Canto da Praia, após mais de quatro gerações do patriarca Balthazar Corrêa, afirma que se beneficiou das condições portuárias da Prainha do Canto. Já diziam nossos ancestrais que, no passado, a Prainha era um lugar disputado para atividade de embarque e desembarque de mercadorias. Temos inclusive o testemunho gravado do pescador José Severiano da Silva, o Loca Cambriú, o qual faz referência à Prainha como o maior e mais movimentado porto que ele conheceu quando era jovem.

- Quando eu era rapaz piqueno, só não era maió que o de Camboriú [o porto]. Muito barco, muita canoa grande aportava aqui, na Prainha do Corrêa, pra carregar coisas que vinha da Praia Braba e ia pra Joinville e até pra Santos. Chegou uma vez imborcá o barco do João Báya,[sic] o Rio Tijuca em 1927. Antes disso imborcou um q’uo nome dele era CASCUDO. Era o barco maió que tinha em Cambriú, do Garcia se eu não me engano. Todo mundo dizia que o “Cascudo de Camboriú” era o maior barco que ingistia por aqui. E imborcô ali, tu vê! Mo pai já contava isso, eu não m’alembro. Diz que foi uma dó.” - E o naufrágio do Barco Rio Tijucas, o senhor lembra? - Ah, sim! do Barco Rio Tijuca eu mi alembro. Ai eu já era moço!64

A PRAINHA DO CORRÊA - 1949 Provável lugar onde morou Baltazhar Pinto Corrêa. Gentileza de Erico Zedron

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Essa gravação foi feita em 1983, quando seu Loca já contava com quase 80 anos à época.

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O pescador mais antigo da atualidade, João Boaventura Caetano - Seu Janga - para provar que ali era um porto, mostrou-nos um monumento que prova a movimentação portuária do local. Em um lugar escondido, nas suas areias, existe uma tora de madeira de um avermelhado vivo, que afirma ser um objeto que foi parte da carga do barco Rio Tijucas que naufragou ali. A lenda oferece dois argumentos para o entendermos o sinistro: um atribui ao excesso de peso e o outro ao leme que quebrou. De qualquer forma, o barco não conseguiu vencer a tempestade e qualquer uma das possibilidades ventiladas, não permitiu que a embarcação chegasse a tempo ao porto. O barco foi tragado pelo mar quando estava quase chegando. Depois a própria maré se encarregou de arrastá-lo até a praia. Além de toras de madeira, o barco estava carregado com caixas de perfumes, pentes e louças. Pelo menos foram produtos que os antigos lembravam de ter encontrado nas areias da nossa praia. Conforme o movimento da maré, às vezes essa tora aparece nas areias da Prainha, porém,na maioria do tempo, fica soterrada.

O PORTO DA PRAINHA em 1957 - Vê-se ao fundo o Bar e Teatro Avenida, no lugar do atual Hotel Marambaia.

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O PORTO DE CAMBORIÚ Antes de 1884, o principal porto do municipio de Itajaí era o Porto de Camboriú. Após a emancipação de Camboriú em 1885, Itajaí passou a investir mais no seu próprio porto. O Rio Itajaí, em si, sempre foi um grande porto e oferecia excelentes berços de atracação, porém sua foz era mais que ruim: uma ameaça, um perigo. Sem nenhum tipo de proteção, o mar avançava muitos metros adentro à terra firme e não oferecia estabilidade alguma às embarcações da época. Uma imensa pedra no meio do rio, próximo à foz, obstruía a passagem de grandes navios. Tratava-se de um estuário raso, com bancos de areia que se movimentavam com grande velocidade conforme as características da maré naquele ponto, dificultando a entrada dos navios. Já o sereno Rio Camboriú, não tinha tantos problemas. Itajaí teve ainda a sorte de “emplacar” dois ministros na pasta de Viação e Obras Públicas. Esses ministros se empenharam em promover a remoção daquele obstáculo de pedra. Também fizeram os molhes e guidaram o porto de Itajaí, a um dos mais movimentados do País. A partir dos anos 20, do Séc XX, o porto de Itajaí só fez prosperar, enquanto o de Camboriú começou decair. O Porto de Camboriú atendia bem aos padrões das embarcações da época. Seu período áureo podemos estabelecer entre 1850 a 1925. Quanto mais melhorava o de Itajaí, mais precário ficava o nosso, a ponto de desaparecer por completo. Considerando a rápida evolução quanto ao tamanho das embarcações, o fim do nosso porto tornou-se um fracasso anunciado.

FOTO DO PORTO DE CAMBORIÚ - in Álbum de Santa Catarina, 1909.

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Sem meios para se implantar uma bacia de evolução no Rio Camboriú, os navios não poderiam manobrar e ficariam entalados na praça de atracação. A cada ano que passava os navios iam crescendo, a foz diminuindo de profundidade e o porto definhando. Tanto José Mendes da Costa Rodrigues como o Engenheiro Van Lede, descrevem do Rio Camboriú como um rio cuja foz se movimenta e modifica sua entrada. Definitivamente isso não era bom para a navegação. Praticamente eram os mesmos defeitos e problemas verificados em vários rios, mormente o Rio Itajaí. Resguardadas as proporções de tamanho entre os rios, o problema daquele era bem mais grave que o nosso. Acerca do Rio Camboriú, vejamos o que relata o Engenheiro Van Lede no seu livro Colonisation Au Brèsil p. 114:

- CAMBURIÚ. Na foz deste rio tem outro porto,1 sem tanta aglomeração e bem pouco conhecido. Dizem que é bom ancoradouro mesmo para os navios de grande calado; mas ele precisa de cuidados com alguns desmoronamentos que prolongam a foz do Camburiu, e que será usado para construir um molhe. Então este porto se tornará muito importante.

O Jornal A Regeneração, publicava, entre 1868 a 1889, o movimento do Porto da Capital, entre varias anotações, verificamos mais de 120 saídas com destino ao Porto de Cambriú. Já os anúncios classificados do Jornal Argos, anuncia uma média de duas saídas por semana do Porto de Florianópolis para o Porto de Camboriú. O Boletim da Sociedade Geográfica do Rio de Janeiro chegou a divulgar a seguinte nota:

O Rio Camboriú é perfeitamente navegável por hiates(sic) desde sua foz por até 13 Km.

Registra também que Camboriú era um grande produtor de café e ainda tinha muitas terras férteis a cultivar (pág. 106). Já esses elogios por parte da redação do Boletim, não são feitos à barra do Itajaí, pelo contrário, divulga apenas as dificuldades de se entrar na perigosa foz do Rio Tajai-Açu. A Revista aponta o Porto de Camboriú como um dos melhores daquele tempo. Nessas publicações, a farinha de mandioca é sempre o produto que mais se destaca. Depois vem a madeira beneficiada, lenha cortada, trigo, milho, couro, aguardente e melado, como os mais cotados. Nos anúncio dos jornais, os nomes das embarcações geralmente vinham acompanhadas do nome do dono da companhia. 1

Van Lede fala em “outro porto”. Acreditamos que, nesse tempo, ele esteja apenas se referindo a um atracadouro. Não é possível que tenha dois portos, de fato, em uma comunidade tão pequena, apesar que relata ver diversas embarcações saíndo e entrando, enquanto posicionava suas bagagens na beira do rio. Nesse ano de 1845, ele mesmo descreve poucas pessoas vivendo na Freguesia e a maioria nas margens do rio.

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Pelas publicações dos jornais, reparamos que as embarcações de Anacleto José Pereira faziam regularmente linha para o Rio de Janeiro, passando por Camboriú. Por meio de informações como estas que ficamos sabendo do grande movimento que tinha o nosso Porto de Camboriú. Apresentamos a seguir um quadro com as embarcações exclusivas de Anacleto Pereira, o que serve para demonstrar o quanto os seus navios eram superiores aos demais. Isso faz denotar o poder que ele tinha e corrobora a tese de que os parceiros do grupo viajavam confortavelmente nesses navios, como afirmam José Mendes e Antônio Costa Flores. Certamente Baltazhar Pinto Corrêa, também fez as suas “correrias”, de Desterro ao Rio de Janeiro, em algumas dessas embarcações do amigo Anacleto, patrocinador-mor de suas atividades. O Porto de Camboriú não recebia somente navios comerciais, mas da Marinha Brasileira também. Foram registradas certas escalas de alguns cruzadores da Armada Nacional em nosso Porto. ALGUMAS EMBARCAÇÕES DO ARMADOR ANACLETO JOSÉ PEREIRA, QUE APORTARAM EM CAMBORIÚ. NOME

TIPO DE EMBARCAÇÃO

CAPACIDADE DE CARGA

FELIZ

Escuna

31 toneladas

MARIA DA GLÓRIA

Brigue

73 toneladas

PAQUETE

Patacho

74 toneladas

ESPERTO

Patacho

74 toneladas

SEGREDO

Patacho

74 toneladas

ANDORINHA

Escuna

117 toneladas

MARIA

Brigue

171 toneladas

MINERVA

Brigue

185 toneladas

MINERVA

Bergantim

189 toneladas

AURORA

sumaca

*

VENCEDORA

sumaca

*

* Antônio Costa Flores diz em depoimento ao Prefeito Pedro Ferreira que seu pai veio do Rio Grande duas vezes nas sumacas Aurora e Vencedora, propriedade de Anacleto Pereira. (Blumenau em Cadernos – nº 09 – 1959)

O Livro de Relatórios da Marinha Brasileira de 1891 a 1930, encontrado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, registra vários navios da Marinha Brasileira que fundeavam em Camboriú.

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Relação de algumas embarcações que mais vezes movimentaram o Porto de Camboriú até 1922* Nome da embarcação

Capacidade em toneladas

Veloz

09 toneladas

Concicção(?)

10 toneladas

Iate Bom Jesus

13 toneladas

6 de Fevereiro

14 toneladas

Santa Rita

15 toneladas

Iate Philantrópico

15 toneladas

Tentador

16 toneladas

Iate Camarão

18 toneladas

Pescadinha

15 toneladas

São João

18 toneladas

Iate Voluntário

16 toneladas

Santo Antônio

16 toneladas

Amizade

18 toneladas

Iate Rozinha

18 toneladas

São Francisco

18 toneladas

São João da Mata

19 toneladas

Nacional

20 toneladas

Iate 5 de Março

20 toneladas

Desterro

24 toneladas

Vencedor

27 toneladas

Maria

28 toneladas

Iate São Miguel

36 toneladas

Glória

52 toneladas

Guilhermina

52 toneladas

Paquete Borges

85 toneladas

* FONTE: anúncios classificados de portos de diversas cidades do Brasil, nos mais variados jornais publicados em todo País.

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O Índice Alfabético e Geográfico dos Agentes de Paquetes e Capitania dos Portos (1857/1891) também registra o fundeamento do Encouraçado Barros, em 1870 e da Canhoneira Ipiranga, em 1874, ambos no porto de Camboriú.65 Na Década de 20, pelo fato de o porto de Camboriú receber navios da Marinha Brasileira, motivava comentários na imprensa estadual sobre as qualidades deste nosso porto. O Almirante Lucas Alexandre Boiteux no seu livro Pequena História Catarinense, coloca o Porto de Camboriú como um dos possíveis lugares aptos a receber grandes embarcações para os anos seguintes.66 Para evidenciar ainda mais a capacidade do Porto de Camboriú, não seria exagero dizer que ele se nivelava com os demais portos de Santa Catarina e concorria com eles em igualdade. Isso se verifica no texto da Lei 677, de 04 de novembro de 1873, que aufere às empresas privadas, o direito de exploração do transporte por meio de navios a vapor. A referida lei contempla os maiores e melhores portos em que os vapores vão atracar e o nosso Porto de Cambriú consta dessa lei como um dos grandes portos de Santa Catarina:

Art 2º: Fica o Presidente da Provincia authorisado a contractar com a Companhia Catharinense, ou com quem melhores vantagens offerecer, a navegação a vapor entre os portos da Laguna a São Francisco, tocando nos portos intermediarios do Desterro, Enseada dos Ganchos, Porto-Bello, Cambriú, Itajahy e Itapocoroy. Esses dados resgatam a história do então Porto de Camboriú que estava praticamente esquecido ao longo dos anos. Tanto que atualmente ninguém sequer onde ficava exatamente o berço de atracação. Há especulações que ficava anexo ao casarão da Ana Garcia, no Bairro Barranco ou na foz do Rio Pequeno o que é bem provável, pois ainda hoje, inúmeras embarcações ficam atracadas nesse local. Ou talvez todo esse trecho da casa de Anna até a foz Rio Pequeno, numa extensão aproximada de 500 metros. Parece que o destino do Rio Camboriú era mesmo para receber um grande porto. Já existem estudos para implantar em sua foz, um dos maiores portos turísticos da América do Sul, denominado de BC PORT. Mais uma vez o turismo fazendo a diferença, resgatando uma atividade na região.

65

Páginas 179 e 247, respectivamente.

66

Op Cit p. 23.

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O SERTÃO INCULTO E OS ENTRAVES COM OS ÍNDIOS Por volta de 1850, com a comunidade indígena aparentemente apaziguada e a opção de ir margeando o rio para chegar ao interior do município, era a opção aparentemente segura. Tudo indica que foi essa opção a segunda investida de Tomaz Garcia e, desta feita, repleta de êxito, o que fez dele um dos sertanistas mais bem sucedido da nossa história. A coragem e obstinação de Garcia foram o combustível necessário para que a nossa região desabrochasse como um dos mais bem sucedidos municípios do litoral norte, pois crescimento habitacional de Camboriú ficou evidente depois disso. Ainda em 1850, Maurício Pinto Corrêa tenta atingir o interior do município pelo atual Monte Alegre, outrora um lugar muito perigoso, intimidador. Em 1856, ele declarou ser dono de 1500 braças de terras no lugar Alegres. E foi por ali que ele começou sua empreitada, rumo ao sertão inculto. Na mesma oportunidade, Maurício Pinto Corrêa também declarou ser dono de uma “vasta nesga de terra no lugar Lagoa Seca.” (banda leste do Rio Peroba).67 Esses dois terrenos juntos poderiam estar nos atuais limites, compreendendo a parte mais ao norte do Bairro dos Municípios, Bacia, Conde Vila Verde, Monte Alegre, Tabuleiro, Bairro dos Estados e parte de Canhanduba. Corajoso como poucos, morando no Canto da Praia, Maurício terminou ocupando as terras onde viveram as vítimas da chacina de 1836. Pelo que consta, ele atingiu o acampamento dos índios, provavelmente onde é hoje a praça central da cidade de Camboriú. Aos poucos, Maurício foi adentrando às localidades atualmente conhecidas por Canhanduba, Itaipava, Limoeiro, Limeira de Baixo, e finalmente Brusque, onde morreu. No capítulo específico que denominamos O Bandeirante do Mal, (página 166) veremos como aconteceram essas batalhas. A história da Cidade de Camboriú começou com guerras e conquistas de brancos contra índios. As ações mais ferozes do Estado se deram aqui em Camboriú, mais precisamente no “Tabuleiro dos Alegre” às margens do Rio 67

Em Balneário Camboriú existia, no Canto da Praia, uma laguna que vinha do Morro do Urubu, chamada Lagoa Seca, onde está atualmente o edificio Internacional (redondão). Porém existia um bairro chamado Lagoa Seca, que atualmente engloba parte do Bairro dos Municípios. O terreno de Maurício adentrava a foz do Rio Peroba, na sua margem leste, englobando o Bairro Tabuleiro. A laguna, chamada de Lagoa Seca, no Canto da Praia, coincidentemente ficava dentro dos limites do terreno de Maurício, na sesmaria herdada de seu pai. Há quem diga que o nome do antigo Bairro Lagoa Seca, foi dado por Maurício Pinto. FONTE: Livro de Registro de Terras de Vigários de Porto Belo p. 60

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Peroba e Saracura. Até que se deu a total pacificação, grandes e pequenas batalhas aconteceram nessa região. Historiadores de Barra Velha e da cidade de São João do Itaperiú publicam, em seus blogs, na internet, fatos acerca do trabalho de pacificação desses nativos em Camboriú. Em capítulo exclusivo sobre esse fato, “O Bandeirante do Bem” na página 160, abordaremos melhor a história do homem que se especializou no oficio da pacificação dos nossos índios. O trabalho de José de Borba Coelho, em Camboriú, foi de tal maneira bem feito, que o governo do Estado propôs fazer a primeira reserva indígena de Santa Catarina justamente em Camboriú, mais precisamente na localidade de Canhanduba. Esse local que outrora fora o mais conflagrado da Província, era agora sugerido pelo Presidente Antero Ferreira de Brito, para fazer o tal aldeamento.

Indígenas do Vale do Itajaí

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O ALDEAMENTO Em 1844, o Presidente da Província, Antero Joze Ferreira de Brito, solicita ao presidente da Câmara de Porto Belo, Bernardo Dias da Costa, a disponibilidade de uma área para se fazer um aldeamento para os índios dessa nossa região. O Presidente Bernardo Costa responde ao Presidente da Província por ofício, em 10 de O de 1844, dizendo que disponibilizaria as melhores terras da Vila de Porto Belo. O terreno que ele ofereceu constava de uma vasta área na localidade de Várzea do Ranchinho (Canhanduba) até as cabeceiras do Rio Conceição ou Rio Canhanduba. Toda essa área, muito bem especificada pelo Presidente Bernardo Costa, naquele ofício, ficaria disponível para se fazer uma reserva indígena. Esclarece Bernardo Dias que se tratava de uma grande área ainda inculta, porém ressalvava que já havia sido requerida por Antônio José Pereira. Bernardo Costa afirmara, entre outras considerações, que o Ribeirão Conceição oferecia franca navegabilidade para canoas e fica distante da Praia de Camboriú apenas 2.800 braças. Também oferecia a margem sul do Rio Camboriú onde dizia haver bastante terras incultas; mas igualmente ressalvava que já teria sido requeridas por Antônio Francisco de Souza. Na continuidade da resposta, ele aproveita o ensejo para fazer duas indicações políticas, sugerindo os nomes do Tenente Luis Rodrigues Pereira Rebelo e Luís Tomaz de Souza e Conceição para a diretoria dessa colônia a ser implantada. O que se pode concluir é que essa reserva não foi levada a efeito. Não sabemos ainda o motivo, mas sabemos que mesmo depois dessa negociação, ainda houve muitas lutas nesse local em disputa contra os índios.

Camboriú - Rua Lauro Müller - Década de 30.

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A PARCERIA DE BALTAZHAR PINTO FOI COM ANTÔNIO ROSA OU ANTÔNIO COSTA? Em seu discurso, por ocasião do lançamento da primeira edição deste livro, o interventor Mário Fernandes Guedes afirmou que foi José Artur Boiteux, jornalista e historiador, no cargo de Secretário de Governo, quem recomendou a cada prefeito de Santa Catarina que fizesse a história do seu município. Disse o Prefeito Guedes que o próprio José Boiteux formulava previamente os resumos e os enviava às prefeituras. Mário Guedes encontrou um desses resumos, com a assinatura de José Boiteux, na gaveta da mesa de prefeito quando assumiu o cargo de interventor em Camboriú. Mário Guedes não só acatou a recomendação do secretário Boiteux, como se empenhou em pesquisar e acrescentar novos dados à História de Camboriú. Segundo esse prefeito, o trabalho datava de 1921 e já ampliava o que já havia sido publicado no Álbum de Santa Catarina Mário Guedes afirmava que ampliou essa história, atualizando-a de 1909.68 com alguns dados que ele mesmo pesquisou. Mandou reproduzir algumas cópias e fez distribuir entre os diretores das escolas para ser estudada pelos alunos. É exatamente nesse texto de Mário Guedes, que trazia a informação que Baltazhar Pinto e Antônio Rosa foram os primeiros moradores de Camboriú. O texto, bastante romanceado, apresenta um Baltazhar Pinto muito rico, dono de barcos e escravos. Nesse texto está relatado que foi Baltazhar Pinto quem batizou o lugar com o nome de Bom Sucesso - “em virtude do êxito que logrou na expedição”. Mas não fica claro se a afirmação é do próprio Guedes ou de José Boiteux. O texto traz um preâmbulo bastante romântico porém pouco convincente, dando conta que Baltazhar chegou em Camboriú com seu grandioso séquito por volta de 1758. Provavelmente Baltazhar nem era nascido nesse tempo e nossos estudos apontam um homem pobre que sequer possuía escravos. O historiador José Ferreira da Silva, um dos mais dedicados estudiosos da nossa História, afirma que a fonte inspiradora desses textos foi José Mendes da Costa Rodrigues. Tanto José Boiteux como José Ferreira, eram naturais de Tijucas e mantiveram a posse dos alfarrábios do seu conterrâneo José Mendes enquanto viveram. Desde a morte do Professor Ferreira, os alfarrábios estão desaparecidos. A investigação permanente da história, estará sempre trazendo novos argumentos que podem de alguma forma, alterar o que estava estabelecido 68

A falecida tabeliã Zélia Saut, aluna nos tempos de Mário Guedes, guardava uma dessas cópias em seu arquivo pessoal, donde obteve as primeiras lições sobre a história de Camboriú nos anos 40/50. Muitas das informações da primeira edição deste livro, foram extraídas desse apanhado histórico.

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Dizer que Baltazhar Pinto e Antônio Rosa foram os primeiros moradores, de Camboriú era uma introdução clássica à história local e que durou muito tempo, pois não havia razão para se contestar, pois nunca houve investigação a respeito. Novos fatos estão dando nova face à nossa história e a descoberta de novos documentos vão ajustando-a, deixando-a cada vez mais próxima à realidade. Veremos em outro capítulo que a ocupação da Barra é mais recente do que a história preconizava. O fato de o município ter começado oficialmente na Barra, levava-nos a pensar que os primeiros povoadores se estabeleceram por lá também. Já vimos que não foi assim, que foi na Praia Brava. De qualquer forma, existe um forte indício de Baltazhar ter sido mesmo o primeiro morador da Barra, mas daí em companhia de Antônio Costa e não Antônio Rosa. Vereamos a seguir que pode se tratar da mesma pessoa. Quem a história relata que comandava as ocupações na região pertencente a Itajaí, com autoridade para fazer distribuições de terras, era o Coronel Agostinho Alves Ramos. Como Baltazhar Pinto já era homem de sua confiança desde os tempos em que moravam na Capital da Província, é possível que a manobra de ocupar a Barra do Rio Camboriú tenha o dedo do Agostinho. Não era recente a relação de cumplicidade entre esses dois e é provável que com apoio do Coronel Agostinho, Baltazhar tenha se apossado de terras na margem sul. Baltazhar Pinto e Antônio Costa aparecem ocupando a “boca do Rio Camboriú”, o que os relaciona com o modus operandi do grupo de Agostinho, no qual Baltazhar Pinto e Antônio Costa estavam inseridos. Se o plano do corajoso Bernardino Dias da Costa de se tornar o primeiro morador da Barra em 1833, ficou frustrado, o mesmo não ocorreu com seu irmão, o Capitão Antônio Dias Costa que se auto outorgou autoridade máxima do novo lugar, como veremos no próximo capítulo. Como o Capitão Antônio Dias e Baltazhar Pinto estão no grupo do Agostinho e os dois aparecem simultaneamente ocupando a boca do Rio Camboriú, é possível então que quem escreveu os nomes, “Baltazar Pinto e Antônio Rosa”, tenha se equivocado com Antônio Costa. Ficaria assim desvendado o mistério desse tal Antônio Rosa. Considerando que oficialmente nunca encontramos ninguém com o nome de Antônio Rosa, nessa época, em Camboriú, é possível que houve apenas uma confusão com o sobrenome do Capitão Costa. O Historiador Rogério Pinheiro, autor do Livro A Nova Ericeira, sugere que o Presidente da Câmara, Bernardino Dias da Costa, irmão do Capitão Antônio Dias da Costa, estivesse morando em Ericeira – Portugal, antes de vir para Desterro. Afirma Rogério Pinheiro que, provavelmente, na cidade de Ericeira, Bernardo Dias atendia por outro nome. Quem sabe Antônio Costa tam-

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bém não estava usando um nome diferente? Isso era muito comum acontecer. O próprio Antônio Dias da Costa usava pelo menos mais três nomes diferentes já identificados. Antônio Dias da Costa, aparece tanto como Antônio José da Costa, José Antônio da Costa e, às vezes, Antônio da Costa Dias. O terceiro irmão, o Bernardino, também costumava usar nomes diferentes: às vezes Bernardino Antônio Dias, outras vezes Bernardino Antônio da Costa, além de Bernardino Dias da Costa. Fortalecer o sobrenome “Dias da Costa” nos parece não ter sido prioridade para a família. Antigamente para uma pessoa mudar seu nome, bastava querer e diversas pessoas fizeram uso desse expediente em Camboriú. Quando muito, procuravam um jornal local, para anunciar que, a partir daquele ato, aquele cidadão estaria atendendo pelo novo nome. Não seria difícil que o Antônio Costa usasse o sobrenome Rosa, uma vez que sua mãe se chamava Eugênia Roza. Outra forte razão também, é o fato de os “Dias da Costa” serem procedentes da Freguesia de Santa Maria Roza. Dois argumentos bastante contundentes para que Antônio Costa usasse o sobrenome Rosa. De qualquer forma, com relação ao Baltazhar, José Boiteux teve a informação certa. Conclui-se, portanto, que Baltazhar Pinto e Antônio Costa foram os dois primeiros moradores da Barra. Qualquer coisa iniciada na Barra tem status de pioneiro de Camboriú, pois é certo que o município de Camboriú ter começado lá. Sendo assim, pode haver uma ponta de verdade no fato de Baltazhar Pinto ter sido o primeiro morador na Barra, juntamente com Antônio Costa. Que Baltazhar veio inicialmente para o Canto da Praia isso está comprovado de várias formas.

PRAÇA DA BARRA - Anos 60

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QUEM FOI ANTÔNIO DIAS DA COSTA Provavelmente Antônio Costa veio de Ericeira - Portugal, segundo informa o Historiador Rogério Pinheiro, estudioso desse assunto. Deve ter vindo juntamente com os outros irmãos, entre eles Bernardo Dias da Costa, o segundo presidente da Câmara de Porto Belo. Também é irmão de Bernardino Dias da Costa que requere ao Imperador o direito de ser o primeiro morador da Barra em 1833. Pelas patentes que lhes são atribuídas e expressas nos textos, como a de Tenente e depois Capitão, nota-se que essas promoções se deram durante o período que Costa esteve morando em Camboriú. Esses militares eram sempre muito visados pela “organização” do Major Mello e Alvim e Coronel Agostinho Ramos. Para conquistar e manter a posse de terras em regiões altamente conflagradas, experiência militar e a intimidade com uso de armas eram relevantes na luta contra a população indígena. Agostinho Ramos dava total preferência a pessoas com esse currículo e recrutou vários deles para a nossa região. Para o leitor ter uma ideia do seu prestígio, o Capitão Costa recepcionou em sua casa, uma das visitas mais importantes que Camboriú já recebeu no Século passado. O Jornal O Mensageiro, um dos maiores jornais de Desterro, noticia a vinda do Presidente da Província, Dr. João José Coutinho, ao Vale do Itajaí. O Presidente Coutinho, por suas ações, é considerado por historiadores como um dos maiores governadores de Santa Catarina de todos os tempos. A visita do Presidente Coutinho foi acompanhada por muitas pessoas importantes, entre elas o próprio Major Miguel de Mello e Alvim. A comitiva do Presidente foi até Itajaí e lá ficou hospedada na casa do Coronel Henrique Flores. Depois a comitiva subiu até Blumenau e, na volta, todos ficaram hospedados na casa do Capitão Antônio Costa. Nas palavras do jornalista, que acompanhou a comitiva do governador, escreveu que a comitiva foi recepcionada com um “esplêndido almoço” na casa do Capitão Antônio Costa. O Jornal dispensa meia página para essa matéria.69 Antônio Costa, nesse tempo, já era um homem rico. Se cabe autenticidade ao fato de ser ele um emigrado da Ericeira, não nos consta que de lá viessem homens ricos. É possível que, pelas suas características de homem empreendedor, tenha ficado rico por aqui, pois tinha personalidade forte o suficiente para alcançar a notoriedade que teve.

69

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Jornal cit – ed. 150, 12 de março de 1857, p. 3.


Por ocasião da declaração da Lei das Terras, o Tenente Antônio Costa declarou ao vigário, possuir mais de 20 glebas de terras e isso não era pouca coisa. Estava muito acima da média dos catarinenses de então. Não é à toa que o Capitão de Engenheiros da Província João de Melo e Alvim, investido de autoridade para implementar reformas nas freguesias do litoral, sugere transferir a Sede da Freguesia de Bom Sucesso da boca do Rio Camboriú, para suas terras no interior do município. Seria o primeiro caso de tirar a sede de um município da segurança do litoral, para o interior. Além de que, para formar uma nova sede com todo o seu complexo administrativo, haveria de ser uma gleba considerável. Se o projeto de João Melo e Alvim tivesse de pronto dado certo, a lenda do Tomaz Garcia recairia para o Capitão Antônio da Costa. Geralmente atribuíam o nome do principal benemerente ao lugar. Ao invés de Tomaz Garcia, o homenageado teria sido Capitão Costa. Seu irmão, Bernardino Costa, já havia requerido ser o primeiro morador da Barra. Veja que esses indícios nos dão dicas da existência de um grupo organizado para a formação de núcleos residenciais. Veremos mais adiante que, à época, Capitão Costa tinha mais prestígio e força política que qualquer outro em Camboriú, pois já vinha afamado da Capital onde desempenhava uma militância efetiva e gozava de extraordinário conceito entre as autoridades. Tudo indica que Capitão Antônio Costa e Baltazhar Pinto Corrêa foram mesmo os primeiros a se instalar ou requerer terrenos na boca do Rio Camboriú na atual Barra. Essa atitude de tomar posse na foz dos rios era bem peculiar ao modus operandi do grupo de Agostinho Ramos, tida como forte demonstração de poder. Assim que abriu a demanda de pessoas para a banda sul do Rio Camboriú através da Passagem do Poço das Pedras, o Capitão Costa se arvorou também do direito de ser a primeira e maior autoridade do local. O ato deve ter chegado aos ouvidos do Presidente da Província, Antero Brito, que pediu por ofício, satisfações ao Presidente da Câmara. O presidente João Cunha Bittencourt que há tempos se submetia às influências da Família Dias da Costa, num gesto de submissão, respondeu ao Presidente da Província que isso era um fato normal, pois a liderança de Antônio Costa era inegável. Já havia até ocupado esse posto quando no comando do 7º Batalhão militar no Distrito, sendo portanto, de fato, a maior autoridade militar da parte sul do Rio Cambriú, como já vimos anteriormente. O ofício de João Cunha segue assinado também pelos demais membros da Câmara, incluindo o próprio irmão de Antônio, o poderoso ex-presidente da Câmara, Bernardo Dias da Costa e Tomaz Garcia.

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Oficio do Presidente da Câmara, João da Cunha Bittencourt, justificando ao Governador Antero Brito, a posição de Comandante do Distrito de Cambriú, pelo Tenente Antônio Costa. TRANSCRIÇÃO

DO

OFÍCIO

PRESIDENTE

BERNARDO

DO AO

PRESIDENTE ANTERO

Imº Exm Sr Em resposta ao Ofício de V.Exª de 5 do corrente, esta Camara tem a informar a V.Exª que o Sr Antônio José da Costa, hé Tenente da 4ª Companhia do 7º batalhão de Guardas Nacionaes, a qual comandava naquele tempo a que foi encarregado pelo Comandante Militar deste Município da Polícia daquele Districto de Cambriú, e de hum Destacamento na margem sul do mesmo Rio: e como hera a maior autoridade que ali se achava figurando por cujo motivo esta Camara julgou o deveria encarregar de mandar assinar o dito Edital. Emquanto a emprego por esta Camara, nenhum tem. Deos guarde a pessoa de V.Exª por dilatados anos. Villa de Porto Bello, 26 de 8bro de 1844. Ilmº Exmº snr Antero José Ferreira de Brito, Marechal de Campo e Presidente da Província. Seguem-se as 70 assinaturas.

Desde o início desta obra vimos falamos que o grupo de Anacleto e Agostinho se apoiava basicamente em militares. Além de eles provocarem 70

Ofício de João da Cunha Bittencourt para Antero José Ferreira de Brito, 26 de outubro de 1841. Correspondência do Pres. Câmara ao Pres. Província p. 241.

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temor nas pessoas, contribuíam para fortalecer o domínio do grupo. Por isso, presumimos que Baltazhar Pinto, que era civil, associou-se a Antônio Costa, nessa ocupação da boca da barra do Rio Camboriú. Trata-se de uma ação altamente estratégica, pois enquanto os demais se ocupavam em achar o primeiro lugar disponível no Barranco e Morro do Boi, os dois foram para a boca do Rio Camboriú. O registro de terra número 44, do livro 25, dos Registros de Vigários de Porto Belo, na data de 01 de maio de 1856, é a prova que ambos os sócios estavam tomando conta da boca da Barra do Rio. O proprietário do registro de número 44 é José Antônio de Souza, porém os seus confrontantes são Baltazhar Pinto Corrêa e Antônio Costa. Apesar de que Baltazhar já havia morrido, o nome da sua viúva consta como extremante e definitivamente une Baltazhar a Antônio Costa ou Rosa. Conheça o registro nº 44:

PORTO BELO: José Antônio de Souza, declara ao Vigário João Batista da Natividade Nobre, por força da lei 601 de 1850, no dia 01/05/1856, que possui um terreno na FOZ DO RIO CAMBORIÚ, frente com uma nesga. Ao sul com a propriedade de ANTÔNIO JOSÉ DA COSTA e ao norte com a viúva do finado BALTAZHAR PINTO CORREA.[grifos nossos]

Bem mais tarde, em 30 de janeiro de 1865, o Capitão Costa compra mais uma gleba de terra do senhor Luís Joaquim da Silva, extamente na boca do rio. Em escritura lavrada no Cartório de Camboriú, a descrição do terreno informa que o terreno de Luís Joaquim da Silva fica situado na “entrada do rio” o qual também faz limites com o finado Baltazhar Pinto Corrêa. Demonstramos através dessa escrituras, o nexo causal que liga Baltazhar a Antônio Costa e ambos em um trabalho muito bem elaborado em equipe, para a ocupação sistemática nas bocas dos rios, uma forma evidente de demarcar território e ocupar os lugares mais nobres e estratégicos de uma vila recém criada. Mais uma vez a família Dias da Costa dando demonstração de poder sobre o Distrito de Camboriú.

Raríssimo autógrafo de Tomaz Francisco Garcia (senior)

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SESMARIA - DIREITOS E DEVERES Que Baltazhar Pinto Corrêa já estava residindo no Distrito de Cambriú, município de Porto Belo, em 1821, é certo. Se mais tarde atravessou o rio e foi para a Barra com Antônio Costa, a dúvida é somente a data. Que Baltazhar e Antônio Costa tinham terras contíguas na foz do Rio Camboriú, está confirmado. Se foi uma coisa orquestrada, proposital para demarcar pioneirismo e policiar território, é provável. Se esses dois foram os primeiros a se instalarem lá depois de 1833/34 é bem possível. Uma das razões para a fama de fundador atribuída a Baltazhar, foi obtida do texto da sua carta de sesmaria que lhe oportuniza a “fundar no distrito uma vila”. (foto ao lado) Pelo texto, a carta está lhe autorizando a fundar uma vila no Rio Camboriú em um terreno de 240.000 braças quadradas. Honestamente me parece muito limitado pra isso, considerando ser um terreno acidentado. A carta obriga o beneficiário, além de cultivar a terra, construir uma estrada na ‘testada’ do terreno. A foto da página 99, apesar de ser do ano de 1942, mais de 100 anos após, nota-se ainda, que esse preceito foi respeitado. A Carta recomenda que havendo rio caudaloso, suas margens deverão ficar reservadas à serventia pública, e isso, Baltazhar cumpriu à risca. A Carta expressa ainda a proibição também para derrubar os paus reais e exploração das minas de metais preciosos. Veja o fac simili e parte da transcrição nas próximas páginas. Esta sesmaria está dentro do contexto Praia Brava/ Canto da Praia, como se verifica pelo croqui, (p.98) esse lugar já era habitado em 1821, portanto esse termo de fundador, estando ele na Canto da Praia, nos parece inadequado. O próprio Silvestre de Borba já estava por ali desde 1786. Como vimos no capítulo anterior, o título de primeiro morador ficaria mais apropriado para a Barra, naquele período que estimamos depois de 1833/34. O fato de o levantamento topográfico da sesmaria de Baltazhar Corrêa ter sido extraviado no Arquivo Nacional, isso nos privou por muito tempo do conhecimento exato do local. Felizmente o Arquivo de Joinville havia feito cópia. O documento está datado de 1817 e, pelo estilo, é obra do mesmo topógrafo que andou trabalhando para gente rica e poderosa, o que demonstra a possibilidade de estar sendo patrocinado, provavelmente por Anacleto ou por Agostinho Ramos. Antes de entrar na seara da exata localização do lugar onde Baltazhar veio morar, queremos provar sua existência por aqui, logo depois do seu casamento em fins de 1812 ou mais provável início de 1813.

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PARTE DA CARTA DE SESMARIA DE BALTAZHAR PINTO CORRÊA (folha nº 2 do Livro de Concessões de Sesmaria - Santa Catarina)

TRANSCRIÇÃO do trecho grifado pelo quadrado sobreposto ao texto:

[...] as Informações dos requerimentos do Supplicante: Vá por bem conceder-lhe por sesmaria em nome de S.M.I [Sua Magestade Imperial] o Senhor Dom Pedro Primeiro, ao supraditto Baltazhar Pinto Corrêa, o contemplado terreno com quatrocentas braças de frente com seis centas de fundo na forma acima especificada; visto que o supplicante está nas circunstancias dos novos Povoadores de que faz menção a Provizão de 9 d’agosto de mil setecentos e quarenta e sete, isso com a especial cláusula de confirmar esta Carta de Sesmaria, pela Meza do Desembargo do Paço no termo de hum ano, sem o que não terá effeito a presente Concessão, que se estenderá sem prejuízos de terras, ou de direito algua pessoa a essa terras tenha e com a condição de que as cultivará e beneficiará e fará os caminhos de suas testadas confrontar onde necessário for e que havendo n’ellas Rio Caudaloso que necessite da barra para se atravessar ficará reservada das ambos as margens d’ela a terra que basta para a serventia publica.

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PARTE DA CARTA DE SESMARIA DE BALTAZHAR PINTO CORRÊA - (Continuação - folha nº 3 do Livro de Concessões de Sesmaria)

TRANSCRIÇÃO do trecho grifado pelo quadrado sobreposto ao texto.[...] como também mandando-se fundar no Districto d’ellas algua Vila se poderá fazer essa fundação, ficando livre sem penção alguma ou Encargo para sesmeeiro, Não se compreenderá nessa data, veeiros ou minas de qualquer metal que nellas se descobrir, reservando-se também os paus reais e faltando a qualquer das ditas cláusulas, por serem conformes as ordens estabelecidas e ao que prescrever a ley e Foral da sesmaria, ficará preservado d’estas. Pelo que manda ao Ministro, ou official ou a quem o conhecimento desta pertencer, mantenha na posse a que se acha o referido Baltazhar Pinto Corrêa das terras mencionadas”

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Se o mapa das terras de Baltazhar data do início de 1817, e retrocedendo os três anos exigidos pela lei, para fazer isso, vamos constatar que ele estava por aqui desde 1813. Se ele casou em fins de 1812, é possível que logo após o casamento, tentou providenciar seu chão de terra; afinal, “quem casa, quer casa” e geralmente quando o rapaz pedia a moça em casamento, tinha onde morar. Como as construções eram singelas, fazer a casa era fácil, difícil era conseguir as terras. Na sequência vimos que Baltazhar foi um dos cooptados pelo empreendedor Agostinho Alves Ramos para iniciar um processo colonizativo no município de Ilhota, onde recebeu uma gleba de 250.000 braças quadradas e tornou-se possivelmente um dos primeiros colonos, com concessão de terras estaduais na localidade de Ilhota-SC, beneficiado pela Lei nº 11, de 1835, de autoria do próprio Agostinho Ramos. Ele organizava essas colônias, utilizando-se de colonizadores experientes como Baltazhar Pinto e Tomaz Garcia. Isto lhe conferia certo prestígio e credibilidade ao contratar gente que de fato sabia trabalhar com a terra. Fica por esses termos, aberta a possibilidade ou não de Baltazhar Pinto Corrêa ter ou não ter saído de Camboriú para a cidade de Ilhota, provável motivo que fez seu nome desaparecer dos livros de registros da Igreja e do Cartório no fim da sua vida.

STRAND HOTEL O primeiro hotel da Praia de Camboriú, construído em 1928, pelo futuro prefeito de Blumenau, o senhor Jacob Alexandre Schimidt.

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PERFIL DE BALTAZHAR PINTO CORRÊA Baltazhar era um homem extremamente discreto. Pessoas com esse perfil dificultam a vida de seus biógrafos. A determinar pela herança genética de seus descendentes mais antigos que conhecemos, arriscamos dizer que era homem enérgico, porém tímido e pouco popular. Seu nome aparece sempre escrito de forma completa: Baltazhar Pinto Corrêa. O historiador Iaponan Soares de Araújo defendia a tese de que essa forma de escrever o nome completo do cidadão, identifica um perfil de pessoa muito reservada, pouco popular ou pouco conhecida. Pessoas extremamente populares ou conhecidas, poderiam ser identificadas facilmente por apelidos ou por apenas um sobrenome. No caso de Baltazhar Pinto Corrêa, o fato de ele ser extremamente tímido, conservador e muito reservado, faz muito sentido. Ele parecia ser o contrário dos seus amigos Tomaz Garcia e Agostinho Ramos, uma vez que José Mendes os descreve como bonachões, alegres, falantes e festeiros. Eles patrocinavam muitas festas, cantavam e tiravam versos. Esse era o tipo de personalidade que levou José Mendes a se inspirar em diversas ocasiões. Baltazhar parece ser um sujeito calado, circunspecto e esse tipo de personalidade não gera controvérsias não inspira ninguém. Como se diz na gíria: “não dá o que falar”. Pessoas com esse perfil não têm muita atividade social, pois não são convidados a participar de eventos tais como casamentos e batizados, donde obtemos as informações. Ao comparar Baltazhar com seus antigos descendentes que conhecemos, não me admiraria se ele, ou seu filho, Maurício Pinto, fosse o tal mal humorado que recepcionou o Engenheiro Van Lede no Canto da Praia em 1845. Definitivamente, hospitalidade não era o forte dos antigos Corrêa do Canto da Praia: gente brava, agressiva, hostil, pouco simpáticas. Antigamente dizia-se que Baltazhar Pinto Corrêa veio de Porto Belo. Baltazhar nasceu em lamego residir em Desterro, mais precisamente da localidade de Santo Antônio de Lisboa, onde nasceram seus quatro primeiros filhos. Baltazhar dedicava-se somente à agricultura e nunca em momento algum se mostrou político ou ocupou cargos. Dedicou-se à terra que ganhou e nela criou toda a sua numerosa família. De todos aqueles que se inscreveram para receber sesmarias, foi o único que caprichosamente cumpriu todo o ritual, levando o processo até o fim e depois permaneceu na terra, deixando uma grande descendência por aqui. Ele pediu e ganhou as suas terras e nelas trabalhou até o fim da sua vida. Não fez politicagem, nem especulação com as terras. Mereceu cada braça que recebeu. Sua numerosa descendência está ainda por aqui, atestando que valeu a pena permanecer e acreditar na generosidade dessa terra. Baltazhar nasceu em Lamego, na localidade de São Tyago de Piães, e batizado na Igreja de São Tiago Maior, contudo não sabemos a data. Inicialmente

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morou na localidade de Santo Antônio de Lisboa, onde casou e permaneceu pelo menos até 1819, ano do nascimento do quarto filho. Provavelmente nesse ano já estivesse morando sozinho por aqui, onde passava alguns dias no preparo das terras e depois voltava para Santo Antônio de Lisboa. Pelos registros da igreja de Porto Belo, já estava residindo aqui em 1821. Consta no livro de batismo sua participação num raro evento, ocasião em que batizou uma menina. Casou em 26 de setembro de 1812, na Igreja de Santo Antônio de Lisboa e desta certidão extraímos alguns de seus dados biográficos. Se analisarmos a lista de eleitores de Porto Belo residindo no Distrito de Cambriú, em 1833/34, veremos que praticamente todos vieram de Desterro e predominantemente da paróquia de Santo Antônio. Por serem todos da mesma freguesia de Baltazhar, acreditamos que ele próprio como o mais antigo postulante, pudesse fazer o papel de recrutador dessas pessoas. Baltazhar, como a maioria, se declarou pobre ao requerer sua sesmaria, e como recém casado, suponhamos que nem tivesse uma boa embarcação para viajar rotineiramente de Santo antônio a Camboriú. Isso nos faz crer que fizesse essas viagens em embarcações do Anacleto Pereira.

Hotel Miramar - Risco do Engenheiro Gehard Schepers - 1940 Gentileza de Cida Bittencourt

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FAC-SIMILLI DA CERTIDÃO DE CASAMENTO DE BALTAZHAR E ANA CUSTÓDIA

TRANSCRIÇÃO DA CERTIDÃO DE CASAMENTO DE BALTAZHAR E ANNA

Stº Antº Lisboa BALTAZHAR PINTO CORRÊA - ANNA CUSTÓDIA DE AMORIM. Aos vinte e seis dias do mês de Setembro de mil oitocentos e doze, nesta Matriz de Nossa Senhora das Necessidades da Ilha de Santa Catarina, feitas as diligências necessárias na forma do Sagrado Concílio Tridentino e Constituição do Bispado, sem haver impedimento algum por Provisão do Reverendo Vigário da Vara Joaquim de Santa Anna Campos e em minha presença e das testemunhas abaixo assinadas, pelas quatro horas da tarde, se recebeu solenemente em matrimônio por palavra do presente Balthazar Pinto Correa, filho legítimo de Custodio Pinto Correa e de Maria Jozefa, natural e batizado na Freguesia de Santiago de Piães do Bispado de Lamego, com Anna Custodia de Amorim, filha legítima de Custodio Antônio de Amorim e de Dona Jacintha Maria da Silva, natural e batizada na Freguesia de Nossa Senhora do Desterro desta Comarca. E receberam as bençãos na forma da Igreja. Do que para constar faço este termo que assino com as testemunhas. Vigário Lourenço Rodrigues de Andrade. Sinal de Antônio T [cruz] de Amorim. Sinal de Manoel T [cruz]*** da Silva Paranhos.71 71

FONTE Livro de Casamentos de Santo Antônio de Lisboa, Freguesia de N. S. das Necessidades - 1806-1846, p 037. *** Os que não sabiam escrever seus nomes desenhavam uma cruz na folha.

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DADOS PESSOAIS DE BALTAZHAR PINTO CORRÊA Passados mais de 33 anos desde que publicamos a primeira edição deste livro, as pesquisas evoluíram bastante sobre diversos aspectos históricos de Camboriú. Quanto ao Baltazhar Pinto, ainda não conseguimos descobrir a data de seu nascimento nem a de sua morte, ficando eventualmente a sua biografia sem começo e sem fim. Na sua certidão de casamento consta que Baltazhar nasceu na cidade de Lamego, em uma localidade chamada de Santiago de Piães, onde a família Pinto Corrêa era muito grande. Mesmo assim não encontramos nenhuma criança com esse nome que se encaixasse nos parâmetros de seu perfil. Baltazhar construiu uma família muito numerosa aqui. Tal qual seu amigo Tomaz Garcia, deixou incontáveis descendentes, não só em Camboriú, mas em toda a região. Baltazhar e seus descendentes, estão inseridos em diversas árvores genealógicas de colegas pesquisadores em nossa região. Foram dessas árvores as quais estão à disposição na internet, que tiramos vários dados de sua genealogia. A esposa, dona Ana Custódia do Amorim, que nasceu no dia 04 de dezembro de 1796, era filha legítima de Silvério Antônio do Amorim, natural e batizado na Matriz de Desterro e de Josepha Antônia, natural e batizada na Freguesia de Nossa Senhora das Necessidades; neta paterna de Ignácio Amorim Pereira, também natural e batizado naquela matriz e de Angélica Maria, natural e batizada na Villa de Santa Hás(?), da Ilha de Uris(?), arcebispado de Angra e pela parte materna de Sebastian Voigas, natural e batizado na Freguesia de Águeda, da Ilha das Flores e Maria Rosa de Jesus, natural e batizada na mesma freguesia. Assim, com as bênçãos do Padre Lourenço Rodrigues de Andrade, no dia 06 de setembro de 1812, casaram-se. Deste consórcio, os primeiros quatro filhos nasceram na Paróquia de Santo Antônio de Lisboa, da Freguesia das Necessidades e os demais na Freguesia de Bom Sucesso de Camboriú. Se levarmos em conta todos os nomes que constam como filho de Baltazhar nas árvores genealógicas de alguns de seus descendentes, passam de 14. Duas árvores diferentes apresentam filhas de Baltazhar com nomes idênticos e sobrenomes diferentes, casadas com maridos diferentes. Caso isso se confirme a conta pode chegar a 15 filhos. No quadro a seguir, relacionamos esses filhos e esse caso em especial de duplicidade de nome, acreditamos que seja a mesma pessoa que enviuvou e adotou os sobrenomes de seus maridos.

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RELAÇÃO DOS FILHOS DE BALTAZHAR E ANNA CUSTÓDIA (DADOS COLHIDOS NA INTERNET DE ÁRVORES GENEALÓGICAS DE DESCENDENTES) 1.

Custódio Pinto Corrêa, nascido a 20 de setembro de 1814;

2.

Leocádia, nascida a 21/01/1816;

3

Maurício Pinto Corrêa, nascido em 15/06/1817, casado com Ana Luiza de Jesus e posteriormente com Joaquina Roza de Jesus. Teve os filhos Germano Pinto Corrêa (14/02/1867), Manoel Pinto Corrêa, Floriana Roza de Jesus, Ignácia Gertrudes de Jesus. Faleceu em Brusque a 24/04/1894 e foi sepultado em 25 abril 1894, Vila de Brusque, Brusque, SC;

4.

José Pinto Corrêa, nascido a 06/05 1819, casado com Cypriana Roza é pai de Antônio Corrêa, nascido em 12 de fevereiro de 1865;

5.

João Pinto Corrêa, nasceu a 06/05/1830, casado com Maria Augusta Conceição e teve 11 filhos;

6.

Pedro Pinto Corrêa, sobre o qual não temos nenhum registro, a menos que seja pai de Pedro Pinto Corrêa Júnior;

7.

Emídio Pinto Corrêa, casou com Maria Clara do Espírito Santo em 1881, e já tinham os filhos José, nascido a 18/05/1864, Cipriana Amara de Amorim, nascida a 15/01/1868 e por fim a Clara.

8.

Cassemiro Pinto Corrêa, casado com Cypriana Maria Corrêa, teve filho o João Pinto Corrêa. Faleceu a 11/08/ 1906.

9.

Antônio Pinto Corrêa ( não há nenhum registro apurado até agora);

10.

72

Perpétua Rosa de Jesus, casada com Jesuíno José Cabral (Encontramos registro do seu

filho Eliseu); 11.

*Perpétua Maria do Espírito Santo, casada com Jacinto da Silva, foi mãe de João Pinto, nascido em 22 de março de 1871.

12.

Maria Custódia do Amorim, casada com José Joaquim de Azevedo que tiveram os seguintes filhos: Rosa Maria de Azevedo, nascida a 11/03/1837; Jacinta de Azevedo, nascida a 15/12/1840; Doroteia, nascida a 05/03/1842; e outra Dorotéia Joaquina de Azevedo, nascida mais tarde em 09/07/1859 e Maria Joaquina de Azevedo;

13.

Bernardina Custódia do Amorim, nascida a 03/12/1829, casada com Joaquim Ferreira de Araújo, e que teve 7 filhos. Faleceu a 24 maio de 1880, na Freguesia de Gaspar-SC (com a idade de 50 anos);

14.

Agostinha Josefa do Amorim, casada Jesuíno Antônio do Nascimento e que teve três

15.

Rita Maria Corrêa, a mais moça, casada com o tabelião Eliseu Faustino do Nascimento.

filhos;

Fonte: informações obtidas das árvores genealógicas de Silvio Montibeller, site da Família Mafra e anotações de Elis de Siste Bernardes, do seu blog Memórias Itaperuenses. 72

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• Possivelmente houve um caso de viuvez com Perpétua, seguido de mudança de nome.


POVOS PRÉ COLONIZAÇÃO EUROPEIA Temos fortes indícios de uma civilização muito antiga em nossa região. Os habitantes do Vale do Rio Camboriú e adjacências nos deixaram sítios arqueológicos e alguns objetos que comprovam isso. O mais importante sítio encontrado até agora, estudado e catalogado por arqueólogo profissional, foi o da Praia das Laranjeiras. No sítio de Laranjeiras foram encontradas peças raras e de grande valor arqueológico, tais como o de uma índia grávida e seu feto, além de outros objetos em excelente estado de conservação, os quais hoje encontram-se em exposição no Museu Arqueológico da Santur. Outro sítio, ainda mais antigos e talvez ainda maior, foi descoberto em 1920. Um enorme sambaqui à beira do Rio Camboriú, confirma a presença de uma atividade intensa de silvícolas por ali. Tão grande era esse sambaqui que a Companhia Votorantim instalou uma fábrica de cal bem em frente a esse lugar e explorou essa matéria prima por quase duas décadas. Toda a estrutura dessa empresa está intacta e serve agora de Sede para uma companhia de britagem de pedra. Para se ter uma ideia do tamanho desse sítio, por duas vezes foi assunto de capa do Jornal O Estado, o maior jornal de Santa Catarina daquele tempo. Na edição nº 1473, de 30 de março de 1920, uma nota de capa dizia: “temos esse tesouro a apenas 1 km do centro em direção à localidade de João da Costa”. No ano seguinte começa a exploração e comércio da cal e do cimento em nossa região. Sabemos que jovens estudantes, nos anos 70, sem nenhum preparo e conhecimento em arqueologia, exploraram o resto do que sobrou deste sítio e levaram as melhores peças arqueológicas dali. Eles encontraram muito material, retiram muita coisa e por fim tudo se perdeu. Por último, um aluno do ensino médio, este um pouco mais consciente, encontrou as últimas peças e as encaminhou para o Museu Antropológico de Itajaí, no Bairro Itaipava. Em seguida, uma imobiliária fez serviços de terraplanagem na área remanescente e praticamente acabou com os últimos vestígios. Este sítio, provou a existência de uma grande população de povos indígenas nessa área, ao sul e ao oeste do Rio Camboriú, expandindo-se até as margens do Itajaí-Mirim. Isso nos faz crer na existência de um caminho fazendo a ligação com Itajaí, que mais tarde foi utilizada por Antônio Vasconcelos de Drummond, denominado por ele de Caminho do Meio. O Jornal Diário do Rio de Janeiro, edição 264 de 22 de novembro de 1839, em uma coluna denominada NOTICIAS DE SANTA CATHARINA, informa, na data de 1º de novembro 1839, com um título em destque dizendo: “Há sinais de fumaça no interior de Cambriú, subindo rio adentro”. Eram esses tais sinais de fumaça que aterrorizavam as pessoas, intimidando-as a atravessar o Rio

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Camboriú para as bandas do sul. Essa é a principal razão pela qual vimos defendendo a tese da ausência de moradores à margem sul do Rio Camboriú antes de 1840.

Machadinha encontrada na Prainha

Relógio solar e seus ponteiros. Encontrado no Picaroto.

Pilão portátil encontrado na Prainha

Pilão Fixo Prainha

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CONHECIMENTO EM ARQUEOASTRONOMIA Atualmente os lugares onde ainda poderemos encontrar algum material arqueológico são no Canto da Praia, na Prainha e no Picaroto. É um local multicomponencial, pois além de ser um sítio histórico, onde se instalaram os primeiros europeus e, é também, arqueológico, pois ali encontram-se vestígios de uma população muito antiga, com conhecimentos em astronomia. Oficinas líticas, fábricas de machadinhas, quebradores de cocos e búzios, pilões fixos e portáteis, mãos de pilão. Outras peças menores como pontas de flechas, instrumentos de pesca e caça ainda podem ser encontradas no costão. Um relógio de sol com 12 pedras em forma de ponteiro, foi encontrado muito próximo ao demarcador do soltício de inverno no Picaroto. No Picaroto temos dois demarcadores de solstícios, sendo um de inverno e outro de verão onde foram encontrados mapas rupestres marcados com furos, representando a posição de astros como se fossem guias astronômicos. No Picaroto existe um grande depósito de cascas de moluscos, muito semelhante a um sambaqui. É lá que existem os dermarcadores de solstício. Sempre os visitamos nos dias aprazados para confirmar o acontecimento desses fenômenos, em 21 de junho para o solstício de inverno e 21 de dezembro para o de verão e conferir a posição dos astros. Os demarcadores são pedras contendo frestas, e nesses dias, o sol entra diretamente nessas fendas, projetando um raio de luz. Junto a um desses demarcadores, já foram encontrados pelo menos três pequenos ídolos de pedras. Um ajuntamento de três peças idênticas juntas é que dão o caráter e a segurança para afirmar o que eram e para que serviam. Confira-os na página seguinte.

Demarcador de Solstício de inverno no Picaroto

Mapa dos astros - Encontrados junto ao demarcador no Picaroto

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A ciência que estuda esse tipo de fenômeno chama-se arqueoastronomia. Temos vários sítios arqueoastronômicos em Santa Catarina os quais vêm sendo estudados há décadas pelo antropólogo Adnir Antônio Ramos. Em 1918, o geólogo General Rosinha escreveu que no litoral catarinense, desde Itajaí até o Farol de Santa Marta, existem pedras sobrepostas que não tem como explicar como foram parar ali. Geralmente estas pedras sobrepostas formam frestas que marcam os solstícios de verão ou de inverno. São pedras enormes, inexplicavelmente sobrepostas, para propositalmente deixar passar a luz por uma pequena fresta, indicando que foram propositalmente colocadas ali por humanos, embora que pelo tamanho gigantesco desses megalitos dependeram de algum esforço sobrenatural. Ídolos de pedra encontrados no altar do Picaroto

O SANTINHO Figura antropomórfica existente no Picaroto, parecendo um frade.

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OUTROS POVOS MAIS RECENTES Habitava o Sul da América a grande nação Guarani. No litoral, é consenso que habitava a etnia Carijó. Dizia-se que o índio Carijó era manso e pacífico o que favoreceu sua domesticação e consequentemente sua extinção. No entanto, já há quem conteste essa versão. No interior de Camboriú, a etnia que ali habitava era genericamente chamada de botocudos e esses eram extremamente ferozes. Esse grupo tinha técnicas muito eficientes de ataque e matavam especialmente crianças e mulheres com requintes de crueldades inacreditáveis. Ao capturarem uma criança, por exemplo, pegavam-nas pelos pés e batiam com suas cabeças em troncos até as dilacerarem. Depois deixavam o cadáver no caminho para intimidar os brancos.

Antônio Dias Flores que chegou em Itajaí 1840, em depoimento ao Prefeito Pedro Ferreira, relata o seguinte: Os bugres só agrediam depois de com o maior cuidado e perseverança, procurarem conhecer as circunstâncias em que se achavam as pessoas a quem queriam agredir e quando julgavam que a ocasião era a mais apropriada para serem bem sucedidos. Aos caçadores não faziam mal porque terem muito medo de armas de fogo.73 Na busca pela conquista do interior, o governo promoveu toda espécie de incentivos à caça e à extinção desses nativos, então chamados por ele de gentios, bugres ou pagãos. Eram considerados povos desprovidos de alma, que poderiam ser mortos sem o menor remorso. Por volta de 1836, mais precisamente no dia 18 do mês de outubro, os índios fizeram uma forte incursão sobre o incipiente povoado camboriuense, na localidade conhecida à época como Alegres. Atualmente podemos localizar esse local como Bairro dos Estados, próximo ao Fórum da comarca de Balneário Camboriú. Foi o maior ataque de índios ocorrido até hoje em nosso Estado. Por muito tempo esse episódio ficou na memória popular. Em sua fala anual, à Assembleia Legislativa Provincial, o Governador José Joaquim Machado denuncia que os índios mataram três pessoas, mas sabemos que foram muito mais. Disse o governador, em sua mensagem à Assembleia:

[...] Cumpre anteciparvos, no caso que decreteis a quantia necessária para a manutenção das Secções de Pedestres, destinarei logo uma dessas seções para o Rio Cambriú em cujo território appareceu o gentio, em outubro do passado com a sua usual ferocidade, deixando mortos três moradores dali, como vereis da cópia nº 10, e nos outros a consternação e o terror, pânico que costumam incutir seme73

Blumenau em Cadernos, 11 outubro de 1959, nº 10.

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lhantes bárbaros, e que bastante tem acanhado a florecente agricultura daquelle território.74 Fica evidente pela fala do Governador Joaquim Machado, que ele quis esconder a gravidade dos fatos, com a intenção de evitar a propaganda negativa da Província, que certamente poderia atrapalhar a imigração alemã que estava começando em nosso Estado. Se fosse mesmo só três pessoas certamente o governador nem se reportaria à Assembleia. Há casos de chacina ainda maiores que três vítimas que nem foram relatadas oficialmente. O senhor Antônio Dias Flores nesse relato ao prefeito Ferreira, fala em até 22 mortos. José Mendes também relata em um dos seus artigos, que foram 20 pessoas. Esses dois escritores falam com conhecimento de causa, pois vivenciaram a tragédia. Os livros de óbitos da Freguesia de Penha, registram pelo menos quatro anotações de mortes no mesmo dia, ocorridos na localidade de Piçarras e nenhuma nota ofical do Governo.

Óbito de Águida, uma das quatro pessoas assassinadas pelos índios.

TRANSCRIÇÃO: Aos quinze dias do mez de febreiro de mil oito centos e

doze, faleceo Agueda, solteira, filha de José da Silva e Maria de Quadros, moradora na Praya das Pissaras, sem salvamento por ser repentinamente morta pelos índios bravos foi sepultada no semiterio daquela Praya das Pissaras, emcomendeya na forma do Ritual Romano para constar fiz este termo que assigney. Padre Antº Martins 74

Fala do Presidente José Joaquim Machado de Oliveira perante à Assembleia Provincial em 1º de março de 1837, pp 14 e 27.

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A causa mortis aponta que foram assassinados pelo bugre bravio. Por esses números, fica provado que a chacina de Camboriú foi mesmo grande e que o governo tentou esconder. Se na versão oficial ele fala em três mortos, quando as estimativas apontam para mais de 20, nessa de Piçarras foram quatro mortos e nem uma linha do governo falando sobre isso. Até então, em nossa história, essa tragédia em Piçarras não tinha sido revelada na literatura catarinense por nenhum meio. A ira do governador José Joaquim Machado levou-o a instituir a COMPANHIA DE PEDESTRES. Essa companhia era composta por paramilitares armados, com a incumbência de dizimar todos os nativos indígenas. Um desses destacamentos veio para cá em 1837, sob o comando de Agostinho Alves Ramos. Ele contratou o Major Enrique Etur, de Porto Belo, encarregado de fazer o policiamento. Nesse tempo comunidade alemã que começava a colonizar a região odiava esses nativos. Doutor Blumenau não esconde seu ódio por eles: Diz o doutor em uma carta ao Presidente da Província.

[...]só uma medida grande e energética, uma desinfecção completa do terreno entre Itajaí Grande e o Mirim, uma destruição e aprisionamento deste bando de rapinas pode restabelecer a tranquilidade e nos tirar deste estado lamentável.75

Praia de Camboriú - 1956

75

Carta de Dr. Hermann Blumenau ao Governador da Província de Santa Catarina (12/02/1856)

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O BANDEIRANTE DO BEM José de Borba Coelho, filho do sesmeeiro Silvestre de Borba Coelho, fez o belo papel de um bom indigenista e deixou uma bonita história como pacificador de índios em Camboriú e Barra Velha. Quem revela boa parte da sua história é o memorialista, Gasino Acácio Coelho, de Barra Velha. Gasino escreveu diversos artigos publicados nos jornais regionais. Diziam, quem o conheceu, que José de Borba era possuidor de uma qualidade raríssima para aqueles tempos: gostava dos índios. Dona Almira de Borba Corrêa, sua bisneta, contava que ele era um homem muito educado, diplomático, sabia falar diversas línguas e conquistava os índios com presentes e comida. Depois de um tempo, os índios se acostumaram e passaram a vir por conta própria lhe pedir certas coisas na porta da sua casa. Contava ela ainda que sempre que seu bisavô fazia farinha, enchia uma gamela com uma certa quantidade e oferecia a eles. Inicialmente deixava presentes o mais próximo possível deles ou na beira do caminho. Assim conseguiu fazer alguma aproximação. Ao vê-los, fazia gestos concretos de que estava deliberadamente deixando tais presentes para eles. Além de farinha, deixava pães, bolos, bananas, batatas, milho. Sempre que era possível, ofertava mudas de roupas usadas. Quanto mais coloridas, mais eles apreciavam. Em casa não deixava ninguém botar nada fora, tudo lhes era ofertado. Qualquer objeto quebrado virava brinquedo. Adoravam qualquer objetos estampados, bem coloridos. Pratos, xícaras, bacias e panelas amassadas ou quebradas, tudo servia de presente. Ficavam horas a fio olhando os desenhos dos objetos. Sentiam verdadeira atração por quinquilharias coloridas e com isso, José de Borba ia granjeando a confiança deles. As crianças indígenas foram as primeiras a dar crédito ao seu Borba. Por fim, já vinham por conta própria pedir alguma coisa, principalmente guloseimas. Elas apareciam no quintal, estendiam a mão e a levavam à boca, gesto característico de pedir comida. Dona Almira dizia que Seu Borba os acariciava antes de lhes atender ao pedido. Elas lhe retribuíam o carinho. Aceitavam colo, cofiavam sua barba e riam daqueles pelos. Por fim, até os adultos gostavam de tocar na sua barba. Após certo tempo de convivência pacífica, José de Borba aprendeu a língua deles e depois ensinou aos filhos e aos netos. Seu neto e meu avô, Nazário Silvano de Borba, sabia várias palavras que repassou aos filhos. Embora tenha falecido muito cedo, minha mãe, Dona Almira, vez em quando as pronunciava alguns termos que ele havia ensinado à família. Por fim, em tom de brincadeira, Dona Almira dizia que os índios ficaram muito confiados e vinham a toda hora pedir coisas e até entravam em casa sem a menor cerimônia e pegavam objetos sem autorização. Mas Seu Borba, sempre muito prudente e atencioso, não

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permitia que lhes fizessem qualquer gesto de hostilidade. Homem muito cortês, qualquer ato fazia com gestos e sinais suaves para não assustá-los e botar a perder suas conquistas. Dona Almira Borba o descrevia como homem extremamente fleumático. Por causa disso, creditava sua ida para Piçarras ao fato de ele não ter pulso firme para conter a “invasão” - mesmo que amigável - dos índios à sua casa. Porém, na região de Barra Velha, conta-se outra versão que parece ser mais convincente. José de Borba foi convocado prea lá, a fim de ajudar na pacificação de uma tribo e por lá ficou residindo. Diz o historiógrafo Acácio Gasino, que onde existiam aldeias de índios, José de Borba era convocado a ir lá conquistá-las. Um dos que publica as memórias de Acácio Gasino é o historiador Juliano Bernardes, de Barra Velha. Este mantém um blog na internet no qual reproduz artigos desse memorialista. A historiadora Elis de Siste Bernardes, de São João do Itaperiú, confirma essa história e também reproduz em seu blog “Memórias Itaperiuenses”, os escritos de Acásio Gasino. Tanto Elis como Juliano, reproduzem os artigos de Gasino nos quais ele afirma que José de Borba construía parcerias entre colonos europeus e indígenas através da sua prática indigenista. Estes historiadores são unânimes em afirmar que, com a morte de José de Borba, seus filhos Francisco José e Silvano de Borba Coelho, deram continuidade ao trabalho do pai. Esses senhores entraram para a história de Barra Velha e região porque conseguiram fazer contato com os índios arredios e os pacificaram, usando as mesmas técnicas do seu pai.

A Barra em 1951

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QUEM FOI JOSÉ DE BORBA COELHO José de Borba Coelho era Filho de Silvestre de Borba Coelho, tetraneto de Gonçalo Pereira Sarmento, que por sua vez era tetraneto de Dom Álvaro Rodrigues Pereira76, trineto do Conde D. Rodrigo Forjaz de Trastâmara, de Portugal. Através dos Trastâmara, o modesto José de Borba Coelho de Camboriú, entra em uma das linhagens mais nobres de toda Europa e lhe garante uma árvore genealógica das maiores que se conhece no site Family Search. Os Trastâmara vem de troncos reais de diversos povos que vão desde os espanhóis, germanos, francos, meronvígeos, godos, visigodos, ostrogodos, hunos, ultrapassando a era cristã em vários séculos antes de Cristo. Silvestre de Borba Coelho, seu pai, um dos mais antigos moradores da Praia Brava e sesmeeiro do Itajai-Mirim, veio de São Miguel, onde nasceu em 1766. Seus familiares foram os primeiros ocupantes de algumas ilhas do Arquipélago dos Açores e daí pra frente a família só fez definhar. Silvestre chegou à Praia Brava antes de 1786, ano em que se casou com Mariana na Igreja de Penha. O supracitado Gonçalo Pereira foi um dos primeiros a receber glebas de terras, oferecidas pelo rei, nos Açores. Lá nasceram seus descendente que se aniquilaram naquelas terras áridas. Em menos de 100 anos, quase todo patrimônio da família foi devorado pela situação calamitosa dos Açores. Seus descendentes mais próximos, longe da abastança de seus antepassados no continente europeu, vieram daquelas ilhas investir na América. Infelizmente aqui também a fortuna não lhes alcançou nem a sorte lhe foi melhor que nos Açores. No Brasil a realidade se mostrou ainda mais cruel. Mesmo assim, Silvestre Coelho é dos poucos, senão o único, que afirma no requerimento da sesmaria, que andou comprando terras na Praia Brava no fim do Século XVII, inclusive cita o nome do vendedor. Confira:

Silvestre de Borba Coelho, morador na Praia Brava, Distrito de Itapocoróya, com 11 filhos maxos e fêmeas para sustentar, que ele suplicante se acha situado em Cambriaçu de terras de frentes, com os fundos que lhes correspondem, as quais proveu por compra feita a Manoel Lourenço da Luz, cujas terras já mal produzem o necessário sustento para tão avultada família.77 76

Dom Álvaro era natural da cidade do Porto. Foi escudeiro e depois alcaide-mor de Elvas, Marechal do Reino (1385). Foi 1º Senhor de Feira, Cambra de Refoios, de Sever e de Avelãs de Cima.

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Texto do requerimento de Carta de Sesmaria de Silvestre Coelho, Arquivo Nacional – caixa 162. Manoel Lourenço da Luz era seu cunhado, casado com sua irmã, Ana Maurícia da Assumpção.

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Mas quem puxa aos seus não degenera e sabemos por tradição oral que desses descendentes mais antigos, que vieram até a Praia Brava, José de Borba Coelho foi o mais proeminente. Foi quem deixou mais herança cultural. Era um homem culto, apesar de ter recebido toda sua educação em casa. Sua preceptora foi a sua avó, Monica Mariana, que era poliglota. Dona Mariana falava pelo menos francês, inglês, espanhol e alemão. Foi dela que herdaram o sobrenome Coelho. Nazário Silvano de Borba, o mais antigo descendente que chegou até nossa geração, contou à sua filha, dona Almira, que José de Borba era um homem muito fino, educado, “falava bonito e contava histórias incríveis”. Autodidata, educou muito bem seus filhos, inclusive os ensinava fundamentos das línguas que sabia falar. Talvez por isso não foi difícil para José de Borba aprender o Guarani. De certa forma, ainda conseguiu passar um pouco de sua cultura aos filhos e netos. Seu filho Francisco Antônio de Borba, foi vereador em Itajaí e seu nome consta em antigos registros da Câmara, lutando por escolas e professores para aquele município. Ele encabeça uma petição ao Presidente da Província para a vinda de um professor para Itajaí nos idos de 1850. Capa da Carta de Sesmaria do falecido Silvestre de Borba Coelho, que recebeu seu filho, o inventariante, Felício de Borba Coelho.

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CARTA DE SESMARIA DE SILVESTRE COELHO

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TRANSCRIÇÃO:

Ilmº Sºr Govºr

[O primeiro DESPACHO] Informe a Camara desta Vila procedendo Editaes e todos os mais termos na forma da Ley- Stª Cthariª, 18 de abril de 1814 [segundo despacho] Haja vista ao Provedor Real da Fazenda – Sta Catharina, 11 de julho de 1814 Silvestre de Borba Coelho78 morador na Praia Brava, Distrito de Itapocoróya, com 11 filhos maxos e fêmeas para sustentar, que ele suplicante se acha situado em Cambriaçu de terras de frentes, com os fundos que lhes correspondem, as quais proveu por compra feita a Manoel Lourenço da Luz, cujas terras já mal produzem o necessário sustento para tão avultada família. E porque é necessário ao suplicante melhorar seu estabelecimento, e no braço do Rio Itajaí denominado de Rio Pequeno, meio dia de viagem para cima, se achão muitas terras devolutas mas pantanosas, na margem do norte dele. Recorre a V. Sª para que se digne conceder ao suplicante por sesmaria no Real Nome de S.A. [Sua Alteza] quinhentas braças de terras de frente, com mil e quinhentas de fundo, com excessão [sic] aos muito pântanos alagados que nelas há, correndo a linha da frente de leste para o oeste e dos fundos norte e sul; confrontando pela parte do norte com terras da viúva Mariana Dias [de Arzão] e pelos mais com o mencionado Rio Pequeno [Itajaí-Mirim]e terras pantanosas devolutas, portanto: PAVS [pede a vossa senhoria] se digne conceder as Sup [suplicante] em Nome de S.A.R [Sua Alteza real] as mencionadas quinhentas braças de terras de frentes, com mil e quinhentas de fundos no lugar com as confrontações e nomes acima declarados e o suplicante nelas servir, aumentando a povoação naquele certão, em Reais Interesses. ERMês [Espera Receber Mercês] 78

Silvestre Coelho é um dos mais antigos moradores da Praia Brava. Inclusive o Historiador Edson D’Ávila sugere que Silvestre Borba seja um dos mais antigos moradores da foz do Itajaí. (pg 35 e 36 da 2a edição). As palavras de Silvestre nessa carta, retratam a exata situação do povo confinado à beira mar, necessitado de terras férteis para cultivar. Silvestre estava morando ali antes de 1786, quando casou. Pelas datas dos despachos, deve ter iniciado o processo de requerimento de sesmaria, no Itajaí-Mirim, por volta de 1812/13, na mesma época de Baltazhar Pinto Corrêa andava por aqui iniciando também o seu processo de requerimento de sesmaria. É até possível que os dois vieram juntos. Observe, no texto da carta, que Silvestre diz morar na “Praia Brava do Cambriaçu”.

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O BANDEIRANTE DO MAL Diferente de meu trisavô materno, José de Borba Coelho, meu trisavô paterno, Maurício Pinto Corrêa, tinha outra relação com os índios. Ele comandou algumas ações muito cruéis contra os indígenas da nossa região. Nossos antepassados contavam que ele eram um homem muito mau, detestava os índios e os tratava com muita truculência. E em uma de suas incursões por terras incultas, no interior de Camboriú, empreendeu diversas lutas contra eles. Numa dessas lutas, ao adentrar no território indígena, foi logo atacado. Antigos relatos dão conta que a luta foi próximo ao antigo Colégio Agrícola. Um dos seus companheiros, por nome Pedro Santana, casado com uma parenta sua, foi alvejado e morreu na hora. Maurício foi atingido, no joelho, por uma flechada envenenada. Segundo diziam os antigos parentes, o ferimento causou uma gangrena que gerou perda parcial dos movimentos de sua perna. Mesmo curado, ficou com a perna enrijecida, passando a ser conhecido como o “Muriço Perna Dura”, ou o “Muriço Encarangado”. Segundo Germano Corrêa, bisneto mais velho de Maurício, a flecha não penetrou muito em sua perna, mas atingiu bem na “tramela do joelho”. E como a flecha continha um veneno poderoso, a ferida logo se “arruinou”, evoluiu para uma “postema” que deixou sua perna parcialmente dura ou “encarangada”, como ele dizia. Contava que o veneno entrou no sangue tão rapidamente, que a perna logo arroxeou, como se fosse veneno de cobra. Maurício teve o flanco direito paralisado. A história registra que ele ficou prestes a morrer e passou vários meses penando numa cama. Às vezes, ardendo em febre, tinha delírios e jurava que se escapasse vivo daquela malignidade, iria se vingar dos bugres. Tão mal ficou para morrer que chamou o tabelião do cartório e fez seu testamento.79 Veremos que ele conseguiu escapar dessa e tratou logo de aplicar a vingança. Outro bisneto, Teodoro Corrêa, contava que Maurício fez uma promessa para ficar curado. Milagrosamente, após meses, talvez anos, amanheceu completamente bom. Ao detalhar as façanhas do seu bisavô, revelou que depois disso ele ainda durou muito anos penando com a perna dura. Recuperado, Maurício não contou tempo: arrumou mais uns camaradas e foi atrás de vingança. Teodoro dizia que o seu bisavô, Muriço Encarangado, recrutou alguns homens corajosos para guerrear. Entre eles um tal de Zé Preto, da Canhanduba. Zé Preto era, provavelmente, o apelido de José Correa de Negreiros Filho, um mateiro da Canhanduba que conhecia os costumes dos índios e sabia o caminho até 79

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Cartório de Camboriú – livro 04 p 21 até 22v - 187


o acampamento deles. Há registros na história de Itajai de um tal José Corrêa de Negreiros que prestava serviços de capitão do mato para alguns senhores. Maurício esperou o inverno chegar. Escolheu um dia bem frio do mês de julho, porque no inverno, contava Teodoro, eles ficavam entocados e mais lerdos. Ficavam em redor de uma fogueira dentro da oca, porém a fumaça denunciava o esconderijo. Teodoro contou que “Vô Muriço” contratou também um tal de Neco Pitiço, um homem pequenino, magrinho, mas dono de uma voz poderosa. Vivia sozinho em um casebre e sobrevivia unicamente de caçar. Sabia arremedar com perfeição as principais aves e bichos das nossas matas. Neco, corajosamente chegou o mais perto possível do acampamento, subiu numa árvore e arremedou o miado de uma onça. O Cacique apareceu na porta pra ver o bicho. Ele era descrito como um velho, feio, cabelo arrepiado e tinha um pedaço de pau atravessado no beiço. Como a “onça” insistia com seus miados, mas ninguém as via, o cacique e mais dois índios armados, vieram para fora da oca para matar o suposto animal. Pitiço arremedava o miado e se afastava, arremedava e se afastava, até trazê-los para perto dos homens de Maurício Pinto que os surpreenderam a bala. A memorialista e escritora Anna Fuchs, autora de um livro sobre suas memórias na Praia de Camboriú, contava que Maurício era um homem muito mau, e nessa guerra contra os índios, bradava para seus homens: “Atirem no ve-

lho, atirem no velho; matem o velho, eu quero o velho morto.”

Sob o comando de Maurício, todos os homens dispararam tiros no Cacique. Os dois índios também ficaram feridos, mas não se sabe o que aconteceu com eles. Teodoro,na sua linguagem simples, dizia que Maurício era um homem muito “endemonhado”. Ao ver o velho caído, foi tomado pelo ódio de tal forma que seus queixos tremiam como um cateto raivoso. Subiu sobre o morto, arrancou de sua espada e degolou o cacique. A decapitação era uma prática usada pelos bugreiros quando conseguiam capturar um cacique. Pelo menos quase todos os casos, sobre os quais tivemos informação, parece ser a degola uma praxe. Maurício trouxe a cabeça do índio, segurando-a pelos cabelos, até sua casa. Ao chegar, botou-a dentro de um pote com cachaça e mandou para o governador. Dizem que o governador ficou tão feliz que lhe escreveu uma carta agradecendo o grande feito, realizado em favor do País. O Prefeito de Itajaí, Dr. Pedro Ferreira, que governou aquela cidade em 1895, escrevia crônicas históricas sobre Itajaí, sob o Título REMINISCÊNCIAS. Pedro Ferreira publicou, em diversos capítulos, uma entrevista que fez com o ancião Antônio Costa Flores. Esse senhor chegou em Itajai em 1840 e, pelo que parece, se lembra bem desse caso da degola do cacique, que ele conta da seguinte forma:

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Em Camboriú, em Alegres, pouco depois da minha chegada a Itajaí massacraram, de uma feita 16 ou 22 pessoas, entre crianças e adultos, os quais foram enterrados no cemitério daqui; também em Camboriú, tendo os bugres assassinado um lavrador, um tal Sant'Ana, conhecido e aparentado em Itajaí, internou-se pelos matos acompanhado de um irmão do assassinado e de outras pessoas, e matou a tiros um dos bugres inculpados que se dizia ser cacique, trazendo-lhe a cabeça que veio para aqui e que eu vi ser de côr clara, sem barba, magníficos dentes e ter cicatrizes pelo rosto e introduzido um páu enfeitado de 15 centímetros de comprimento no lábio inferior do qual pendia; cabeça que mergulhada em vinagre em um pote, foi remetida para o Destêrro. Algum tempo depois de eu morar em Itajaí o govêrno, com o fim de afugentar os bugres, mandou para o Belchior muitos soldados, que formavam uma companhia de Pedestres comandada pelo major Henrique Etur, que era tenente do exército reformado80

Quanto à personalidade forte, ao gênio mau e o caráter rude e grosseiro de Maurício Pinto Corrêa, não temos dúvida, pois essas características foram transmitidas aos seus descendentes, alguns até que chegamos a conhecer. É bem provável que foi esse homem rude e grosseiro quem recepcionou o Engenheiro Belga, Maximiliano Charles Van Lede, em 1845, no Canto da Praia. O engenheiro revela no texto que vinha caminhando de Itapema para Camboriú. Atravessou o Rio e dirigia-se para a casa de seu anfitrião, Agostinho Alves Ramos em Itajaí. Após caminhar toda extensão de nossa praia, ao chegar no Canto Norte, ele reclamou da rudeza com que foi atendido por um homem com características açorianas. Diz o engenheiro Van Lede:

Da parada de Camburiu-Guassu, localizada na margem do rio, continuamos nossa rota para o norte ao Longo da praia procurando um alojamento para passar a noite. Era um rancho e não vimos isso com bons olhos. O habitante do lugar continua a ser lá das Ilhas dos Açores. Não esperávamos pela sua negação de hospitalidade. Daí continuamos por outro caminho a outra habitação que deveria estar perto. Lá também estava ocupado por outro açoriano que se apressou em dispensar tudo que possuía. Assim desfez nosso pressentimento que havíamos estabelecido em nosso espírito sobre seus compatriotas. No dia seguinte voltamos ao rio Camboriú.81 O engenheiro diz ainda, nesse livro, que navegou pelo Rio Camboriú até as terras que ele disse ser de domínio dos índios. José Martins Damasceno dizia que Maurício tinha uma técnica eficiente de enxotar os índios. Ele investia contra os silvícolas sempre no inverno, entre

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Blumenau em Cadernos, Nº 10 – 1959. Van Lede, Colonisation Au Brésil, p. 291.


maio a julho, quando estes quase não saiam de dentro da oca. Derrubava o máximo que podia de árvores, no tempo de sequeiro, de modo que fazia um grande corredor de mato seco e ateava fogo. Contratava homens para fazer a derrubada e ele mesmo ficava de guarda, encostado em uma árvore, com um trabuco na mão, em vigília permanente. O fogo pegava no corredor de mato seco, alastrando-se por toda floresta. Damasceno dizia que, com o terreno limpo, eles não se encorajavam a chegar muito perto da “civilização”. Contava ainda que os índios eram muito covardes e faziam uso de certas estratégias para dificultar o socorro. Os ataques se davam geralmente ao entardecer. “Eles andavam até de noite, já

os brancos não sabiam andar de noite, não tinham como buscar socorro” – dizia Damasceno– “Mas poderia ser na madrugada também, antes dos brancos se acordarem. Pegavam tudo dormindo”. José Martins contava que os índios ata-

cavam principalmente mulheres e crianças, e tinham pavor de espingarda que chamavam de “pou-pou”. “Era só disparar um tiro, que saía tudo correndo pra dentro dos matos gritando: pou-pou... pou-pou!!”. Conta José Martins na gravação. Sobre isso relata também o memorialista Antônio Costa ao Prefeito Pedro Ferreira: “Aos caçadores não faziam mal porque tinham muito medo de armas de

fogo”.82

PRAIA DE CAMBORIÚ - Manoel Germano Corrêa (na fente, ao centro) e seus homens em pescaria no ano de 1937. Foto do Arquivo Histórico.

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Blumenau em Cadernos, 11 outubro de 1959 nº 10

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MAIS BRIGAS, MAIS DEGOLAS. No Jornal O Novidades, de 30 de outubro de 1910, conta-se a história de Manoel Aurélio da Rocha, que foi atacado pelos índios. Veja a semelhança entre os métodos, tanto dos índios quanto dos brancos, na arte da mútua hostilidade. O lavrador Aurélio Coelho e mais três companheiros achavam-se ocupados no amanho da terra, quando foram atacados pelos índios, ao entardecer, como de costume. Estavam encerrando as tarefas diárias, quando apareceu, à beira da mata próxima, diversos índios que atiraram em Aurélio, ferindo-o no peito. Seus colegas correram até o lugar Tabuleiro, onde encontraram Vicente Coelho da Rocha, irmão da vítima, e o avisaram da tragédia. Vicente lançou mão de uma espingarda e, a cavalo, dirigiu-se para o local da tragédia. Ao chegar ainda viu sair do rancho um bugre carregando uma panela. Vicente alvejou o índio, que soltando um grito estridente, internou-se na mata. Em seguida, chegou uma turma de 12 homens em auxilio a Vicente e entraram na floresta onde encontram o índio morto. Cortaram-lhe a cabeça e a enviaram ao Presidente da Província. Esse relato revela dois modos de operar. Da parte do índio por fazer o ataque ao entardecer; da parte do homem branco, o método era a degola e a preservação da cabeça num pote em conservante para, posteriormente, enviar a cabeça ao Presidente da Província. Era um comportamento bastante macabro, e, pelo visto, também fazia parte do costume.

Vista aérea em 1952. Aparecem as regiões de Tabuleiro, Monte Alegre e Bairro dos Municípios, todas ainda pouco habitadas. Já aparece também o traçado da futura BR 101

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OLHO POR OLHO, DENTE POR DENTE Vamos relatar mais duas histórias que ficaram gravadas na memória popular e que são muito parecidas quanto aos métodos usados na vingança contra colonizadores e indígenas. Nelson Antunes, morador do centro de Camboriú, conta que certa vez, os bugres do interior de Camboriú fizeram uma incursão até uma residência na localidade de Rio Pequeno. Atacaram a casa de uma família assim que os homens saíram de casa, conforme o costume. Eles não só invadiram a casa como também mataram duas mulheres adultas, sendo que uma delas foi ferida por uma flechada enquanto lavava roupas em um cocho. Uma moça da casa escondeu-se debaixo da cama e viu toda a movimentação dos bugres. Uma criança que estava dormindo, enrolada no lençol, passou despercebida, sendo salva da tragédia. Já uma mocinha de 11 anos não teve a mesma sorte. Foi capturada e sequestrada por eles. Nessa residência moravam três homens que se empenharam na busca dos índios para fazer a vingança. Com ajuda de vizinhos, partiram para tentar resgatar a menina. Levaram alguém que conhecia o acampamento. A distância era de quase um dia mato adentro. No caminho, encontraram o corpo da menina dilacerado sobre um tronco à margem do caminho. A cena só fez aumentar o ódio dos quatro homens. Ao chegarem perto da aldeia, esperaram a noite cair para invadí-la de surpresa durante a madrugada. A primeira estratégia foi cortar a corda dos arcos, enquanto os índios dormiam profundamente. Depois, sumiram com as lanças e outras armas. Em seguida, iniciaram um processo de degolamento.

Comicio político na praça de Camboriú - 1929

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Foram degolando um por um com facões bem amolados, escolhendo primeiro os homens mais fortes. Não deu nem para ouvir os gemidos. Uma índia velha foi a primeira que acordou e deu o alarme, enquanto a agressão continuava. À medida que acordavam iam em busca de suas armas, porém estavam todas destruídas e a baixa na aldeia foi grande. Alguns índios lutaram bravamente, porém morreram quase todos naquela luta. Segundo Nelson Antunes, a dita velha e uma mocinha foram as que mais lutaram e as que mais resistiram ao ataque. Por fim, mataram a índia velha e trouxeram a mocinha com eles e a trucidaram no mesmo tronco e do mesmo modo que os índios fizeram com a sua filha. “Olho por olho, dente por dente”, essa foi a vingança. Para provar que houve esse episódio, Nelson Antunes me levou até a casa dos descendentes das pessoas envolvidas. Conversamos com os mais velhos da casa que confirmaram a história. Interessante registrar que eles ainda moram no mesmo lugar da tragédia. Outra história dá conta de que, na localidade de Tabuleiro, perto do Distrito de Monte Alegre, um artífice canoeiro resolveu derrubar um pé de garapuvu para fazer uma canoa. Após derrubar o enorme pau, ficou por ali mesmo falquejando a sua embarcação, sempre observando de perto pelos bugres que passavam para lá e para cá, provocando o canoeiro. Chegaram inclusive a atirar algumas flechas que se fincaram no tronco de garapuvu no qual estava trabalhando. Esta foi a razão principal que levou o canoeiro a tomar uma atitude radical. Pensando em assustar os índios, o homem carregou sua espingarda e atirou na cabeça de um deles, matando-o na hora. Assustados, tanto ele como os índios, abandonaram o local. Sabendo das retaliações, o homem passou mais de um ano sem voltar à praça de trabalho. Passado todo esse tempo, o canoeiro voltou ao local para dar continuidade à construção de sua obra, achando que os índios tivessem esquecido o fato. Como o garapuvu é uma árvore que dificilmente morre, mesmo caída ela rebrota e vinga novamente, ao chegar no local de trabalho, o troco estava todo rebrotado. O artífice canoeiro reiniciou o trabalho, começando por quebrar os ramos que rebrotavam viçosos. Na primeira oportunidade que ele deu as costas, os índios que nunca tinham desistido de tocaiá-lo, flecharam o homem pelas costas, que caiu morto sobre o tronco. Naquela noite, como aquele homem não apareceu, a esposa juntou alguns vizinhos que se dirigiram ao local. Lá chegando, constataram a tragédia: o corpo do canoeiro jazia morto sobre o tronco, traspassado por uma flecha infestada com um veneno mortal. A flecha atingiu a região da espinha dorsal, deixou uma enorme mancha arroxeada. Contam os mais antigos que a canoa semi manufaturada permaneceu no local até pouco tempo , quando apodreceu totalmente. “Olho por olho, dente por dente”! Era a Pena de Talião, aplicada sem piedade, numa época em que a rivalidade entre índios e descendentes europeus

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era muito acirrada. O leitor deve ter observado a incidência de fatos ocorridos, especialmente envolvendo índios da localidade de Monte Alegre. Esse lugar, por fim, serviu como ponto de emboscadas. Os índios não atravessavam o rio nos espaços mais largos para fazer seus ataques. O estreito mais próximo era perto do centro de Camboriú, onde havia o tal sambaqui, e isso oportunizava a passagem. Num simples olhar, ainda vê-se que é o primeiro lugar no qual se passa ter uma distância segura, capaz de ser atravessada por sobre um tronco. Dali, para chegar na praia, o caminho mais curto era mesmo pelo Monte Alegre. Ao se fazer o acesso contrário, da praia para o interior de Camboriú, a passagem também era a mesma. Nessa convergência de caminhos, estava a divergência de interesses e o local virou um corredor de morte. As maiores guerras, se deram nessas proximidades. Foi por esse caminho que Maurício Pinto passou com sua expedição. No ano de 1850 ele declarou, à Lei das Terras, ser possuidor dessa. Se o aldeamento sugerido para esse local fosse levado a efeito teria sido a primeira reserva indígena de Santa Catarina. Entretanto o defensor dos índios, José de Borba, foi embora e o projeto do aldeamento ficou somente no papel.

A Praia de Camboriú em 1966. Publicada no Facebook por Gunther Schroeder

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A SAGA DE TOMAZ GARCIA A região que conhecemos hoje como Tabuleiro e Monte Alegre, eram lugares intensamente povoados de índios bravios. Foi perto desse lugar que Tomaz Garcia estava vivendo à época da chacina de 1836. Pelo menos é o que relata José Mendes da Costa Rodrigues em uma de suas crônicas.

Garcia, amedrontado, desamparou o estabelecimento e se refugiou na cidade do Destêrro, confortado pelo seu cunhado Simas83

Em virtude dessa tragédia, Tomaz e muita gente tiveram que desistir do lugar. Ele e seus vizinhos abandonaram o local, todavia a sorte não o abandonou e o trouxe novamente para Cambriú. O lugar sequer tinha nome, no entanto, por sua presença, vai se chamar Garcia. Um lugar sem nome antigamente, podia facilmente ser conhecido pelo nome de seu primeiro morador ou pelo morador mais importante. Por esse método de se denomimar localidades que o primeiro nome da cidade de Camboriú foi Garcia. José Mendes relata que Tomaz retornou para Desterro, mas não informa quando voltou para Camboriú. Sabemos que, em 1844, já está por aqui. Ele subscreve com outras pessoas um ofício endereçado ao Presidente Antero Brito, no episódio em que recomendam Antônio Costa como autoridade na margem sul do Rio Camboriú. (pg 142 e 143) A parte sul do Rio Camboriú estava praticamente toda por explorar. Por esse tempo os novos exploradores estavam entrando pela “Passagem” ou Poço das Pedras e foi por ali que Tomaz entrou também. Ele se estabeleceu não muito longe dali, derivando à direita em direção oeste, por mais alguns metros até encontrar as margens do Rio Pequeno. E por ter ocupado a Foz do Rio Pequeno, indica uma provável orientação de Agostinho Ramos. Porque logo em seguida ele ocupará mais duas glebas sob a orientação de Agostinho: uma nas margens do Itajai-Açu através da lei n 11/1835 e outra na foz do atual Rio Schneider no Bairro Fazenda, extremando com o próprio Agostinho e com o Capitão Costa. Notem que os membro da organização estão sempre juntos nessa estratégia de ocupar as bocas dos rios. Podemos adiantar que o senhor Garcia era aquele tipo de pessoa carismática que conquistava facilmente as outras. José Mendes revela que apesar de gago, era comunicativo, irreverente, festeiro e excelente contador de causos, e que divertia muito, as pessoas, pois narrava seus causos gaguejando. Era simpático, agradável, carismático. Esse conjunto de predicativos estão presentes nas crônicas de José Mendes da Costa Rodrigues. Também podemos dizer 83

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que Garcia foi um homem de sorte, porque várias contingências da vida contribuíram para o seu sucesso. Pessoas com esse perfil são fáceis de conviver e boas de se ajudar. Tomaz teve a sorte de conviver com um memorialista que escrevia crônicas, abordando aspectos históricos de personagens da nossa região. É José Mendes quem nos revela que Garcia, depois de se aventurar no mar e fracassar no comércio no Rio de Janeiro, retornou para Desterro. De volta à nossa Capital, estabeleceu um armazém perto do que hoje é a Praça XV. Foi ser concorrente de ninguém menos que Anacleto José Pereira da Silva. Vê-se que Tomaz não era páreo para concorrer com o comerciante mais bem sucedido de Santa Catarina. Em princípio sua freguesia não afetava consideravelmente o comércio do Anacleto. Mas Garcia não era pessoa que se subestimasse. Anacleto, muito esperto, convenceu seu vizinho Garcia que lhe fazer concorrência não era um bom negócio. Então lhe propôs tornar-se seu fornecedor ao invés de ser seu concorrente. Sugeriu-lhe que fosse para Cambriú cultivar mandioca, que ele garantiria a compra da sua produção. Confiante no talento de Tomaz, Anacleto adiantou o dinheiro da compra da produção, para que ele pudesse comprar um terreno em Camboriú. Mendes afirma que Garcia aceitou a oferta, comprando a prazo, o terreno que lhe ofertou seu Irmão José Francisco Garcia. José Mendes revela que o próprio José Francisco assumiu que não podia trabalhar nessas terras porque os botocudos não permitiam. Animado por seu cunhado Simas84, partiram para Camboriú e aí fizeram de marcar a terra em a qual fez a primeira derrubada, escreveu José Mendes. Este escriba cita que esse lugar é o atual Monte Alegre ou Tabuleiro e dá a entender que Garcia foi uma das pessoas afetadas pela violência dos bugres na incursão de 1836.

Em pequeno rio, Camboriú que anda sempre a mudar a porta de entrada: além dêste pequeno rio e no lugar onde está uma ponte de madeira,86 se dilata uma vargem extensa, formosa e bela que tem, ao norte, uma cordilheira de baixas montanhas que são as divisas do Itajaí. Êsses montes cerrados de árvores e flôres, sendo o lugar tão vistoso e aprazível, mereceu o nome de "Monte Alegre". Depois que Garcia estava situado, se apresentaram nestes morros os botocudos e os coroa85

84

José Antônio da Silva Simas chegou a ser Presidente da Câmara de Porto Belo.

85

Refere-se às constantes mudanças na foz do Rio Camboriú.

86

Pode ter existido uma ponte sobre o Rio Saracura, perto do atual trevo do Monte Alegre. A próxima ponte, somente no Rio Canhanduba, próximo ao atual trevo de Brusque.

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dos e mataram 20 pessoas a flechadas e lançadas. Então daí para cá perdeu o antigo nome essa terra, sendo hoje chamada "Montes Tristes. 87 Se esse cronista estiver certo, Garcia volta para Desterro e só vai retornar para Camboriú mais tarde, quando começou a ocupação da margem sul. Em 1844, já estava de volta, subscrevendo um ofício. O terreno que ele ocupou se estendia em 1500 braças de fundo, desde o lugar Barranco do Rio Camboriú, até o Rio Pequeno conforme declara ao vigário em 1856. José Mendes Rodrigues afirma que Tomaz não andava bem financeiramente devido aos seus diversificados e fracassados investimentos. Seguindo essa linha de raciocínio, induzida pelo autor, podemos dizer que o mau momento transformou-se num ponto de virada para o sucesso de Garcia. De qualquer forma, é nesse exato momento que o universo conspira e concorre para o êxito do seu empreendimento em Camboriú. Está aí a receita para se criar um mito. Para o homem que não desperdiçava oportunidades, a vida lhe concedia mais essa. Teve a honra de ver o seu nome anexado ao arraial em que vivia. Por certo, Tomaz Garcia adquiriu experiência suficiente para então administrar, e muito bem, seu novo empreendimento. Por causa da sua “Organização”, tanto o Major Anacleto como o Coronel Agostinho Ramos, faziam questão de contratar gente com farda para ocupar as terras do seu esquema. Como Tomaz Garcia era um civil, indicaram-no ao Governador Antero Ferreira para o cargo de alferes da Guarda Nacional Brasileira. Não era muita coisa, mas foi um bom começo. Tomaz se fixou como agricultor e apostou na segurança da mais simples das profissões, no mais comum dos negócios do seu tempo. Nenhum marqueteiro, publicitário ou economista, vislumbraria sucesso na atividade de plantar mandioca para transformá-la em farinha. Nessa época, a atividade de fecularia era a atividade comercial mais comum e a mais concorrida em todo o litoral catarinense. Em qualquer canto havia um engenho e qualquer um fazia farinha. Porém, Tomaz não era qualquer um. Os homens notáveis e prósperos se diferenciam dos medíocres e nos mínimos detalhes. Não era uma questão de achar seu nicho, era uma questão de gestão. Os engenhos de Tomaz Garcia tinham status de indústria. Ele fazia plantações intensivas e, além das suas terras, arrendava as de terceiros e comprava a produção dos vizinhos. José Mendes diz que ele produzia mais de três mil alqueires de farinha/ano. Devido ao tino comercial, comprava a produção dos vizinhos e as revendia, principalmente para o Rio de 87

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Janeiro, onde tinha contatos comerciais. Além disso, contava com o atacadista Anacleto Pereira como o grande distribuidor de seus produtos. Tomaz Garcia foi adquirindo, tanto quanto pôde, terras lindeiras às suas e transformou antigas terras incultas em um latifúndio altamente produtivo. A história não registra tudo que acontecia aos pioneiros, porém o pouco que temos é suficiente para revelar que o empreendimento de Garcia foi um “case de sucesso”. Se quantidade de registros de terras e de escravos significam alguma coisa, Tomaz definitivamente é o homem mais próspero de Camboriú em seu tempo. Em quantidade de terras, rivalizava-se com o Capitão Antônio Costa, mas não consta que o Capitão tivesse alguma atividade industrial. Em termos de escravaria, rivalizava com seu xará, o Capitão Tomaz Antônio Pereira, do Estaleiro. Porém não consta que este tivesse atividades industriais, nem tantas terras cultivadas quanto o Tomaz Garcia que, juntada às de seus parentes, formaram o “Arraial dos Garcia”. Tomaz se tornou um dos maiores latifundiários de Camboriú, tanto em extensão como em quantidades de glebas. E se somadas às de Tomas Francisco Garcia Júnior (ele nem sempre era identificado como Júnior), os dois vão ter muito mais terras que quaisquer outro em toda a nossa região. Conta-se facilmente mais de 20 glebas de terras, desde uma ilhota no Rio Camboriú, até extensa área junto ao Rio Itajaí. Arrojado e corajoso, Tomaz Garcia foi além: foi mais para o interior, mais para dentro da mata, teoricamente para mais perto dos índios ferozes. “Quem quer ser o maior tem que ser o melhor”. Afinal, pelo que já vimos, coragem era o que não faltava a esse destemido senhor. Importante informar que depois que Tomaz fez crescer o lugar no qual veio morar, atraiu ainda mais gente, especialmente parentes que se juntaram a ele para formarem juntos a “Vila dos Garcia”. Um Garcia fazia extrema com outro e juntamente com os agregados, formarão um arraial grandioso. Para ilustrar a saga do nosso herói, vamos transcrever como José Mendes da Costa Rodrigues o descreve:

Garcia não era claro nem bonito. Tinha os olhos e os cabelos de côr preta, muito cerrado de barba, baixo, gordo e barrigudo. Houve quem dissesse que se assemelhava ao velho Bertoldo. Sempre foi eleitor da paróquia e juiz de paz afamado pelos seus atos célebres e dignos de memória.”

Para se ter uma ideia do seu clã, reunimos o nome de alguns parentes de seus parentes que adquiriram terras e as documentaram no Cartório de Camboriú, a partir de 1860. Conta-se, além do Tomaz Francisco Garcia Júnior, as seguintes pessoas: Antônio Garcia ou Antônio José Garcia, Bento Fernando Garcia ou talvez Bento Francisco Garcia, Doval Bento Garcia, Eloy Bento Garcia, Francisco José Garcia, Francisco Pedro Garcia, Francisco Victor Garcia, Idelfonso Bento Garcia, Jeremias Garcia, João Francisco Garcia, José Damasceno Garcia, José Francisco Garcia, José Galdino Garcia, José Geraldo Garcia, Ricardo 177


José Garcia, Silvano Bento Garcia, Tibério Garcia, Valter José Garcia, Vicente Francisco Garcia.88 São muitas pessoas com um sobrenome em comum, vivendo em um lugar pequeno, pouco populoso. Difícil haver outros sobrenomes importantes na cidade de Camboriú que também não fossem casados com um ou uma Garcia, o que multiplicou consideravelmente a extensão do nome. Essa foi uma das razões para não se querer mudar o nome do Arraial, de Garcia para Camboriú, após o evento da transferência. Desde a chegada da Família Real e toda corte ao Brasil, que a farinha de mandioca tornou-se um produto rentável, principalmente em Santa Catarina, e isso já fazia quase meio século. Com a instalação da Corte para nosso País, foi necessário comprar grande quantidade de farinha para sustentar toda aquela genta nova que de repente aportou no Rio de Janeiro. É bem provável que o Rei D. João VI tenha comido um pirãozinho com a farinha dos catarinenses. Nesse tempo, a farinha tornou-se um produto de segurança alimentar nacional. Não se podia vender este produto para outro lugar que não fosse à Corte. Como a base da economia do nosso litoral era a mandioca, o comércio da farinha fez melhorar a vida de quem trabalhava no ramo e a nossa região cresceu em virtude disso. A quantidade de farinha aqui alavancou as atividades do Porto de Camboriú, de tal modo, que o fez concorrer em igualdade de movimento com os demais portos da região, especialmente com o de Tijucas e o de Itajaí. A maioria dos barcos que ancoraram no nosso Porto era para carregar farinha de mandioca. Assim, Tomaz Garcia fez história, como o produtor que mais corroborou para isso. A partir daí, Tomaz foi o centro das atenções e os demais produtores começaram a orbitá-lo. As atividades comerciais de Tomaz Garcia foram além dos limites de Camboriú. Por intermédio de Agostinho Ramos, Tomaz Garcia estendeu suas atividades para o Vale do Itajaí. Agostinho ofereceu-lhe terras nas localidades de Ilhota e Fazenda. As confrontações de um terreno de Tomaz Garcia, no Bairro Fazendinha, em Itajaí, extremando com Agostinho Ramos e o Capitão Antônio Costa, tomando conta da foz de um pequeno rio ali existente, hoje conhecido como Ribeirão Schneider. Veja uma declaração de terra de Garcia ao vigário em 1856.

[...}4 Braças de terras de frente com fundos que se acharem até uma lagoa, sitas na Fazenda de Itajahy, fazendo frente no Rio(...) pelo leste com o finado Agostinho Alves e pelo oeste com o Capitam Antônio José Costa.

88 Todos os nomes encontrados em escrituras no Século XIX e começo do Século XX

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Acerca do envolvimento de Garcia com o grupo de Anacleto Pereira da Silva, é José Mendes da Costa Rodrigues quem vai confirmar isso em um episódio que ele conta com bom humor acerca da fidelidade do Garcia ao Anacleto Pereira. Vamos reproduzir ipsis litteris parte de uma crônica de José Mendes que

fica ainda mais interessante: Sendo chamado um fulano Barbudo, mariola português, agente de compras e mantimentos para o major Anacleto José Pereira, do Destêrro, que estava com um armazem de depósito e uma sumaca atracada ao barranco do rio compareceu êle com sua amásia, que era uma cabocla muito feia e querendo Garcia que êle com ela se casasse, Barbudo depositou sôbre a mesa a chave do armazem e os papéis do navio, dizendo que protestava perdas e danos, tendentes ao comércio prejudicado de seu amo, saiu porta a fora Garcia que muito respeitava ao major Anacleto, lançou mão da chave e disparou atrás do marinheiro (êle era muito gago), Vieram até a foz do rio, em cujo lugar, reunindo-se várias pessoas, conseguiram apaziguar a questão. Garcia jurou não mais se meter em calças pardas, fugindo sempre dos palpos de aranha. Notamos, no dizer de José Mendes, que Anacleto tinha total ascendência sobre esses dois comerciantes e ambos o respeitavam muito. Dá para entender claramente que os negócios do Anacleto Pereira estavam acima dos interesses desses dois brigões.

A indústria de farinha do Superintendente Benjamim Vieira, casado com uma Garcia - foto publicada no Álbum de S. Catharina de 1909.

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ALGUNS REGISTROS DE TERRAS DOS GARCIA Tomaz F. Garcia - sênior Declara

282 braças de frente ao Travessão Geral do Rio Pequeno 1.500 de fundos, no Rio Pequeno.89

Compra

No Morro do Boy, 68 braças de frente com 1000 de fundos.

Declara

Uma nesga de terras que fazem frente pela margem do Rio Camboriú.

Declara

540 bçs de frente com rio e 700 de fundos com José Francisco Bernardes.

Declara

9 bç de frente, fundos com a Estrada Pública com terras de Felício José dos Santos.

Declara

20 bçs de frente com a viúva do finado José Joaquim de Azevedo no lugar Rio Pequeno.

Declara

Metade de uma ilhota no Rio Camboriú

Declara

Terras em Itajahy rio acima, no lugar denominado arraial. Fundos com o mesmo Rio90

Declara

4 bças. Frente pro Rio. Leste com Agostinho Alves Ramos e oeste com Antônio José Costa.

Tomaz F. Garcia - Júnior Compra

no lugar Cedro 43/ e 1/2 bç de frente com Manoel Bento Inocêncio.

Compra

128 braças com o rio.

Compra

no Cedro, 43 braças de frente com Vicente Francisco Garcia.

Vende

no Cedro, 43 bça de frente com o caminho e terras de Manoel Bento (Caminho Velho)

Compra

no Cedro, 43 bça de frente com Vicente Garcia, ao oeste com Manoel Coelho da Rocha

Compra

com 123 de frente com 200 Braças de fundo com Estrada Antiga que vai pra Barra.

Compra

um terreno na Sede frente com a Estrada Nova que segue para a Barra

Compra

no lugar Volta Funda do Rio Camboriú uma área de 85X500 Braças.

Vende

123x200 bça com o primeiro (T. Frcº Garcia?)Fundos= Travessão do Letreiro

Vende

Na Sede, um quadrado de terra. Frente com a Estrada que segue para a Barra.

Vende

Na Sede 25 bçs frente, confrontando à Leste com o comprador e oeste com o Vendedor

Declara

103 bças de frente com Felipe Pereira, leste com Joaquim Gonçalves.

Declara

78 de frt com Tomaz Francisco Garcia e 700 de fundos João Francisco Garcia

José Francisco Garcia Compra no dia 22/05/1880, 96,8 metros.

89

Provavelmente este terreno foi a sua primeira e principal aquisição.

90

Tomaz e Baltazhar ganharam terras de Agostinho Ramos nesse lugar. São glebas de terras concedidas pelo instituto da Lei nº 11 de 1835, de autoria de Agostinho Ramos.

FONTE: Livro de Registro de Terras de Vigários e Livro de notas do Cartório de Camboriú.

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O EPÔNIMO GARCIA Já vimos o quanto era comum, em tempos antigos, dar nome a uma localidade, baseado no nome do cidadão mais influente de uma localidades. A própria cidade de Balneário Camboriú sequer tinha nome, era conhecida pelo nome de seu principal acidente geográfico - a PRAIA. Os pequenos logradouros dessa praia eram conhecidos pelo nome de seu principal morador. Até 1968, as ruas desta cidade levavam o nome do morador mais ilustre. Em nossa região ainda existem bairros cujos nomes são de origem antroponômicas, como o Bairro Lídia Duarte, em Camboriú; Fiúza Lima, Cordeiros, Arraial dos Cunha, em Itajaí. Estes são exemplos de referências a pessoas ou a grupos familiares que emprestaram seus nomes aos nossos topônimos. Garcia foi o melhor exemplo. que temos de um cidadão cujo nome foi atribuído à cidade. Em Balneário Camboriú, seu colega, Baltazhar Pinto Corrêa, também andou emprestando seu nome para alguns acidentes geográficos, embora bem menos expressivos. Alguns dos locais, onde morou o velho Corrêa, ganhou seu nome, como a Praia do Corrêa, a Lagoa do Corrêa, o Morro do Corrêa, o Caminho do Corrêa e a Ponta do Corrêa. Todos esses topônimos estão situados no Pontal Norte, Canto da Praia, onde ele morou, citados em mapas e escrituras de terras. (veja Mapa de 1965 na próxima página) O nome Garcia tornou-se tão forte que contagiou todo o espectro municipal. Este topônimo não ficou restrito somente à Sede. Todo o Camboriú passou a ser chamado pelo nome do Garcia. Moradores dos bairros Macacos, Braço, Caetés, quando estavam em outra cidade, diziam que moravam no Garcia. Nem mesmo com a transferência da Sede Municipal de Camboriú para o Garcia, fez esse nome perder força. Com a transferência o Garcia virou Sede, mas também nem o termo “Sede” ofuscou o nome do Garcia. Na boca do povo, nem o topônimo Camboriú suplantava o epônimo Garcia, desde o Século XIX. Cabe exceção quando o nome do lugar era citado em documentos oficiais. Na vida comum as pessoas se diziam morar no Garcia, ao invés de dizer que morava na Sede ou em Camboriú. Se fosse no tempo do Império, talvez o nome laico de Vila do Garcia ficasse menos pronunciado, principalmente com a construção da igreja. No império, provavelmente esse local iria atender como o nome do orago da igreja: Assim a denominação certamente seria “Freguesia do Divino Espírito Santo do Rio Camboriú”. A construção da Capela do Garcia deu-se praticamente na vigência do regime republicano. A Republica já não se importava com a denominação relativa ao padroeiro da igreja. Se não tivesse acontecido a mudança da sede de Camboriú, o Distrito de Garcia se emaciparia e provavelmente Tomaz Garcia seria hoje o patrono da cidade.

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MAPA DA CIDADE DE BALNEÁRIO CAMBORIÚ

Exemplo de nome de pessoa influindo na toponomástica de um município. (epônimo) No local da sesmaria de Baltazhar Pinto Corrêa, os principais acidentes geográficos foram batizados com seu nome: Praia do Corrêa, Morro do Corrêa e Ponta do Corrêa. Mapa da Administração Higino João Pio – 1965. Arquivo da Prefeitura Municipal de Balneário Camboriú

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Observamos que para o nome de uma pessoa se notabilizar dentro do espectro regional, não basta somente o empreendedorismo. No caso do Garcia, a sorte também o ajudou. Dentre uma série de coisas que a destino conspirou a seu favor, uma delas foi o evento da Proclamação da República. Muito embora que, Tomaz Garcia não vivesse até a República, ela corroborou para a manutenção do seu nome associado ao nome da Vila por mais tempo. O termo “vila” substituiu gradativamente o termo “freguesia” e isso facilitou para que o nome Garcia ficasse incorporado àquele termo. Garcia combinava melhor com vila, que com qualquer outra designação. Já se fosse Município de Garcia ou Freguesia do Garcia, não combinariam. O termo vila adaptou-se de tal maneira ao nome Garcia que até hoje tem gente que ainda chama Camboriú de Vila do Garcia. Até o Rio Pequeno, principal afluente do Rio Camboriú-Açu, é citado em escrituras antigas como Rio Garcia. Como vimos, isso é um processo natural e o mesmo fenômeno aconteceu também com a Lagoa do Canto, chamada por vezes de Lagoa do Corrêa, epônimo que evoca Baltazhar Pinto Corrêa. O povo antigo tinha aversão a expressões muito elaboradas, rebuscadas, de construção muito difícil. Foi por isso que o termo Garcia, bem mais simples e sonoro, tomou mais força que Camboriguassu ou mesmo Cambriú. Observamos que até o Bispo Dom José Camargo Barros grafou “Vila do Garcia”. Se fosse grafado por um leigo, não causaria espanto. No entanto como Bispo de uma Diocese, ele admitir um nome laico para uma localidade, não era comum, embora já estivéssemos sob o regime republicano. Assim escreveu Dom José Camargo Barros, em seu diário, no ano de 1894:

As 3 ½ voltamos para Itajahy, passando pela Vila do Garcia. O logar é bonito, mas a egreja não está acabada. Acreditamos que o bispo admitiu o termo de Vila do Garcia porque também a igreja não estava acabada. Nos velhos tempos da monarquia, certamente esse clérigo não admitiria um termo laico. Difícil imaginar o Bispo aceitando tão facilmente as modernidades dos progressistas da República.

Autógrafo de José Florêncio da Silva Secretário da Câmara e oficial do cartório por muitos anos

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A TRANSFERÊNCIA DA SEDE Foi do Engenheiro João de Melo e Alvim, em 1851, a primeira sugestão para transferir a Sede da Vila de Camboriú para a Vila do Garcia. Sua argumentação era boa, porém a intenção nem tanto. O texto desse documento já vimos nas páginas 32 e 33 e o fac similli na p 227. O engenheiro, naquele pequeno parágrafo, fez uso de algumas palavras que endossam a tese que vimos defendendo acerca das intenções daquele grupo organizado desde do começo da nossa história. Na verdade, o engenheiro quis fazer um novo conglomerado social. Em todo o texto, ele só toca em assuntos do seu mais particular interesse econômico: madeira, margem de rios e estaleiros. João de Mello e Alvim plantou no coração dos homens de Bom Sucesso, que aquela freguesia não tinha futuro na foz do Rio Camboriú. Que deveriam mudá-la para o interior do município. Lá havia grandes extensões de terras agricultáveis que fariam toda a diferença na vida deles. Essa argumentação, era de certo ponto de vista, verdadeira. Uma previsão bem futurista. Ao recomendar o terreno do Capitão Antônio José da Costa para se estabelecer a nova Sede, significava dizer que Alvim não tirou essa ideia de subto, na hora! Ele vinha engendrando isso fazia tempo. João Alvim como correligionário do Capitão Costa torna-se altamente suspeito ao sugerir a mudança para terras de um parceiro do seu grupo econômico e político. As principais lideranças da comunidade de Bom Sucesso começaram a remoer o assunto e refletir melhor sobre essa possibilidade. Vimos que isso tinha como objetivo uma expansão colonial deliberada. A ideia da transferência da Sede para o Garcia foi digerida devagar, contudo de forma constante, sempre esbarrando na autoridade do Padre João Rodrigues de Almeida, que entre outras razões, dizia não aceitar a mudança para um lugar pagão. A transferência virou bandeira para os republicanos da Vila do Garcia. Esse acontecimento se deu em um tempo de muita turbulência política no País, que culminou inclusive na Revolução Federalista. Os defensores da mudança da Sede acabaram por se tornar maioria. Os mais prudentes apelaram para a legalidade, porém alguns republicanos não tiveram paciência para esperar. O fato de estarem em maioria na Câmara e com o poder central nas mãos, acharam-se acima da lei. Derrubaram até o imperador e derrubar o poder do Padre João Rodrigues era uma questão de tempo. Transferiram a Sede de uma forma pouco convencional. Os vereadores começaram por se reunir fora da sede da Câmara e do Município. Passaram a se reunir na Vila Garcia numa casa particular. Sobre as poucas informações que

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tínhamos dessa época estavam contidas nos livros da Câmara de Vereadores que sumiram por volta do ano de 1990. A câmara eleita no período Monárquico, teve seu mandato interrompido pelo decreto da dissolução das câmaras municipais do Governo Republicano. A nova câmara nomeada pelo Governador Lauro Müller, agora estava sob a presidência de Manoel Anastácio Pereira, o qual não teve dúvidas em ordenar a busca e apreensão dos livros que os políticos da Barra ainda retinham na antiga Sede. Para não se expor, o chefão republicano ordenou ao Secretário Cândido Gonçalves Chaves, que buscasse o arquivo. É o que consta na ata da sessão do dia 12 de fevereiro de 1890.

[...]Foi deliberado que visto se achar o Archivo desta municipalidade, na Sede desta Vila (Barra) fosse o Intendente Cândido Gonçalves Chaves comigo, secretário, receber de volta o Archivo que fizesse transportar para a nova Sede no Lugar Garcia.91 Vimos nessa transcrição que o Intendente Chaves também não quis se expor e solicitou que o secretário José Florêncio Nunes da Silva fosse com ele. Este secretário foi por muitos anos o tabelião de cartório e gozava de exce-

lente prestígio. Não havia pessoa mais gabaritada que ele para dialogar com o Padre Almeida e os demais monarquistas remanescentes da Barra. Florêncio foi o único homem capaz dessa missão, mas mesmo assim não foi atendido. Restou aos garcienses tomarem os livros na marra. Alguém entrou na casa de Joaquim Rebelo, onde funcionava a Câmara, e subtraiu os livros. No dia seguinte, o Padre Almeida foi até a Vila Garcia tirar satisfações com o intendente Manoel Anastácio. O clima não ficou bom porque o intendente Anastácio não era homem que se deixava intimidar. Por sua parte, Padre Almeida também não fez por menos e foi sozinho na casa do adversário dizer imprecações. O resultado dessa famosa discórdia ficou na memória popular. Pelo menos dois homens ouviram e foram testemunhas oculares a feroz discussão entre o padre e o intendente. Foram eles os senhores Eduviges Bernardes e João Chrisóstomo Pacheco. Esses homens , que a tudo assistiram, contaram às suas filhas e essas nos repassaram essa história. Tivemos a oportunidade de gravar entrevista com as duas filhas de Eduviges e também Dona Mariquinha, filha de João Pacheco. Tivemos o privilégio de ouvi-las contar com riqueza de detalhes essa história que mais adiante revelaremos alguns trechos. Por fim, de nada adiantou os cansativos esforços do Padre Almeida. Venceu a maioria e a Sede ficou mesmo com o Garcia. Mais cedo ou mais tarde

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Livro de Atas das sessões, p. 18 - consta da 1a edição, p. 30.

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Bairro das Nações 1956

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Bairro das Nações - 1956

isso iria acontecer, pois a Vila do Garcia era mais promissora, ao passo que a Barra já tinha esgotado suas terras. A forma de transferir a Sede é que não foi a mais apropriada. Ao se transferir a Sede de uma vila para um arraial, regredia-se, em tese, dois estágios na hierarquia político administrativa. O natural era o arraial ser transformado em distrito e depois elevando-se à categoria de vila. Ao invés de um dos lados descer dois degraus, o outro cresceria esses dois estágios e acresceria mais um municipio à Província.


MUDAR AO INVÉS DE CRIAR O título deste capítulo sugere dizer que se o Garcia fosse emancipado, a Barra não sofreria tantos revezes por mais de um século como sofreu. Mal a Freguesia de Bom Sucesso de Camboriú alcançou seus meteóricos dias de glória, nas décadas de 70 e 80 do Século XIX, lá se vai a Sede para outro lugar. Observamos que muita gente saiu da Barra antevendo sua decadência. O êxodo sempre é cruel, mas para a Barra foi ainda mais contundente. A mudança da Sede para o Garcia agradou uma elite poderosa, composta por políticos, que anteviam na futura Sede uma chance na politica. Quando os políticos querem, o povo pode muito pouco contra as decisões deles. Apesar de a Vila de Bom Sucesso ter uma população maior do que a do Garcia, não teve força política suficiente para segurar sua Sede. A Barra era um lugar relativamente novo, não tinha ainda criado uma identidade cultural capaz de gerar apego à terra. Ela havia crescido muito rapidamente, por aventureiros portugueses vindo de Desterro para a Praia Brava, e nenhuma identidade haviam formado. Portanto, não houve grandes resistências à tese da transferência. No Garcia havia um grande território a ser explorado. Ao contrário da Barra, que além de um minguado território, já estava sentido os estertores da exaustão de suas terras. A mudança da Sede era o fato novo que precisavam alguns para movimentar a política, esquentando as discussões de promoção de riquezas que era o que todos queriam. Há de se reconhecer que a propaganda “pró Garcia” era fascinante pois enchia a alma do povo com esperança de uma nova e promissora terra. Qualquer pessoa, medianamente inteligente, perceberia o futuro saltando aos olhos no novo lugar. Pessoas visionárias seguiram para a Vila do Garcia, lugar que se apresentava muito promissor - principalmente para os políticos. Já não mais havia ameaças dos bugres neste tempo e o Garcia tinha ligação para Brusque pelo Caminho de Cima (Limeira) e um bom acesso a Tijucas e com a forte comunidade do Itajaí-Mirim pelo Caminho do Meio. Contudo, o ideal seria a Vila do Garcia se emancipar, como ocorreu na maioria dos município adjacentes. Mas faltou paciência aos republicanos para esperar. A Vila do Garcia, de certa forma, também se desgastou nessa história, como ainda veremos. Em princípio, afirmamos que todos se machucaram. Foi um erro de cálculo considerável transferir uma Sede ao invés de se criar um novo distrito. Ficaram mágoas e ressentimentos entre pessoas que são pouco visíveis mas que conseguimos captá-los, nas entrelinhas dos comentários em cartas que as pessoas escreviam ao bispo ou ao governador. O fato consumou

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uma situação de dubiedade que não foi previamente calculada. Transferindose a Sede de Camboriú para a Vila do Garcia, implicaria uma coisa fundamental sobre a qual os políticos não pensaram: a obrigatoriedade da mudança dos nomes das localidades permutadas. Por mais incrível que pareça, nenhum dos lados pensou nisso antes e, agora, não estavam mais dispostos a perder os nomes originais da Sede anterior e posterior. A população do Garcia, composta em sua maioria por pessoas com esse sobrenome, com razão, não aceitaram suprimi-lo do nome do arraial que fundaram. Nem os Garcia queriam suprimir esse nome para se chamar de Camboriú, nem muito menos as pessoas da Barra, estavam dispostas abrir mão do um topônimo charmoso como Camboriú, para se chamar por um mísero acidente geográfico: “barra de rio”. À medida que o tempo ia passando, o Garcia ia crescendo e a ideia da mudança recrudescia. Quem ditava as regras desse, processo nesse período, era uma elite política que comandava a atividade agrícola. O interior de Camboriú apresentava um futuro promissor como poucos municípios poderiam oferecer. Detinha um vale fértil, com um rio espetacular, com um porto muito bem avaliado para escoar seus produtos. Contra essa força não havia resistência que segurasse. Do outro lado, quanto mais se falava em mudar a Sede do município, mais o povo da Freguesia (Barra) se indignava com a possibilidade iminente de perder o status de Sede para um arraial. A tradição reza que o município que fica na sua foz, leva o nome do rio. Camboriú tornou-se numa exceção nesse sentido. A transferência da Sede foi trágica para Barra. Morreu gente por causa disso e muitos saíram machucados. Houve muita briga, discórdia e desentendimentos entre parentes e partidários de ambas as correntes que passaram a se odiar. O episódio da morte de Manoel Anastácio, coincidência ou não, foi nessa época. Sua morte foi creditada, por quase toda a população, às imprecações do Padre João Rodrigues de Almeida, por causa da mudança da Sede. O Cabo Henrique Bernardes, que conhecemos em avançada idade, contou-nos em gravação: “Se arrependimento matasse eles tinham morrido tudo!” – Referindo-se ao medo que o povo sentiu após a morte de Manoel Anastácio:

Só não devorveram a Barra com vergonha. Ficaram tudo com medo desse Padre João”.

Mas agora o ato político já estava feito. O senhor Leopoldino Souza, por ocasião das comemorações do Centenário de Camboriú, chegou a escrever várias folhas de caderno acerca da História do município. Sobre a mudança da Sede, assim se expressou:

O Padre João veio pra Camboriú pra buscar os livros - mas Manoel Anastácio não quis devolver. Então ele desceu de seu cavalo encheu o homem de 188


desaforos. Amaldiçoou Manoel Anastácio e a cidade de Camboriú, dizendo que por 100 anos isso aqui não iria crescer. Mas já estava tudo aqui, não tinha mais como voltar pra lá. [para a Barra].

Por causa disso, o povo da Vila do Garcia abrandou um pouco a história de transferência a Sede da igreja por causa do medo das palavras do Padre João Rodrigues. Somente o Padre Peters que não acreditava nisso, insistia em mudar também a Sede da igreja. E obviamente não obteve êxito porque não contou com o comprometimento dos seus paroquianos. Ficou lutando sozinho por esse objetivo. Resumindo, a nova Sede, composta majoritariamente pela enorme Família Garcia e parentes colaterais, não aceitaram desvincular seu nome à da nova Sede. Além dos Garcia, os Bernardes, os Pereira, os Linhares, os Souza, os Vieira, os Bittencourt entre outros, casaram-se com alguém dos Garcia, ampliando a família e assim formando um numeroso contingente que não queria abrir mão do sobrenome do seu genearca, associado ao nome da Vila que fundou. Acerca do êxodo da Barra, em virtude da mudança da Sede, o jornalista Juventino Linhares escreveu que seu pai, de tão entristecido, foi embora sem destino, em busca de outro lugar para estabelecer sua família. Botou tudo dentro de um barco e saiu barra do rio afora, sem destino certo, deixando para decidir-se entre Desterro e Itajaí, depois da foz. Rumou para Itajaí e Juventino ficou aqui perto. Tornou-se jornalista e produziu várias histórias em uma coluna intitulada “O que a Memória Guardou.” Seu pai, Guilherme Ignácio Linhares, fez esse gesto de tirar sua família da Barra e salvá-la de um lugar sem futuro. Acreditamos que sevos políticos tivessem emancipado o distrito, ao invés de transferir a Sede, evitar-se-iam alguns desses incidentes. Padre João Rodrigues quando chegou na Freguesia

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A LENDA DA MALDIÇÃO DO PADRE ALMEIDA O Padre João Rodrigues de Almeida, que tinha pela Barra um carinho paternal, rejeitou em primeira hora a tese da transferência da Sede político-administrativa para o Arraial do Garcia. Se ele enfrentou todo tipo de hostilidade para defender uma causa política, muito mais se empenharia para evitar a transferência da Sede da Igreja. Padre Almeida era um homem culto, politizado e viu a Freguesia crescer. O padre tinha planos maiores para esse lugar, prevendo sua carreira política. Enquanto perdurou a Monarquia, o poder eclesiástico do Padre João se fez valer. Ele assegurou a integridade da Sede na Barra. Porém, depois que os republicanos tomaram o governo central, foi só aguardar esse fato acontecer. As irmãs Maura e Isaura Bernardes, filhas de Eduviges Bernardes, lá pelos anos de 1980, quando iniciamos essa pesquisa, revelaram em depoimento que, quando soube que roubaram os livros da Câmara, Padre João montou em seu cavalo e foi até a casa de Manoel Anastácio dizer-lhe alguns desaforos. Na linguagem eufemística dessas senhoras, o padre foi “entregar-lhe a mensagem de Deus”. Elas disseram que o Padre ao chegar, nem apeou do cavalo. De cima do animal bradou o nome de Manoel Anastácio em alta voz, dizendo: “Não infringiste só a lei dos homens, mas a de Deus também; não afrontasses só a mim, mas também a Deus; porque tirastes o que não te pertencia do lugar que não podias. Portanto, homem, em nome de Deus eu te amaldiçôo a ti e a esse lugar miserável que não há de crescer por 100 anos. Não viverás pra ver nada disso. Cairás em desgraça, hoje mesmo, e morrerás comido de bichos, tu até a tua 3ª geração!”. Definitivamente parece não combinar com um sacerdote esse tipo de comportamento. Mas para o Padre Almeida, política e religião eram coisas que se misturavam sim, sobretudo naqueles tempos em que o Estado não ousava ser laico. As palavras foram ainda mais pesadas mas, na decupação do áudio, fizemos uso de sofismas para não ficar tão lúgubre. Dona Maura chegava a sentir tremores e arrepios ao depor. Benzeu-se e disse: “Só repito o que o João Pacheco contava” - conta ela na gravação, cheia de remorsos. Dona Dolores Rodrigues Pereira, falecida em 2017, aos 99 anos, dizia que seu pai contava que Manoel Anastácio ficou muito abalado e “caiu de cama no mesmo dia!”. Chegou em casa, ordenou que dona Maria esquentasse água, botasse na gamela e lavasse os seus pés. Fechou a janela, deitou-se e só saiu de lá para o cemitério, após padecer por nove meses de uma terrível doença cancerosa. Contava ainda dona Dolores, na sua linguagem de mulher temente e religiosa, que se apoderou um temor tão grande no povo da Vila do Garcia, que seu pai dizia que, por uns 10 anos, deixaram a Barra em paz. O que deu para transferir

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foi transferido e o que ficou pra trás, ninguém se atrevia mexer. Talvez isso justifique a tão demorada transferência da Sede eclesial. Se por causa da mudança da Sede política já houve tanta maldição, imagine se mexessem com a Sede sagrada. Só um outro padre, com poderes idênticos, coragem e determinação, poderia remexer no caso, como fez o Pe João Batista Peters, o qual vamos conhecer logo adiante. Ao ser alertado do que aconteceu, Padre Peters dizia que não acreditava em superstições. Talvez isso justifique seu fracassado intento e o fato de ficar isolado, lutando sozinho contra a Barra. Foi transferido de Camboriú sem ver a Sede da matriz transferida. Dona Dolores Rodrigues Pereira dizia que o Padre João Rodrigues de Almeida tornou-se um homem amado por muitos e temido por todos. A foto do Padre João ainda jovem que apresentamos na página aneritor, foi um presente do Padre João ao seu avô Virgílio Pereira, que tinha pelo Padre Almeida uma grande estima. Mesmo evangélica, dona Dolores guardava essa foto com muito carinho. A fama desse Padre cresceu e correu todo o Estado. Ele soube muito bem aproveitar politicamente sua liderança e fama de homem de Deus. Já havia se elegido deputado provincial e, logo depois desse fato, foi transferido para Itajaí e lá se elegeu vereador e chegou a ser presidente da Câmara. Acredite se quiser, a cidade de Camboriú, nesses 100 anos, sofreu diversos revezes. Primeiro foi o êxodo rural dos anos 60. Logo em seguida perdeu a Praia de Camboriú, depois perdeu o traçado da estrada para Florianópolis. Em seguida perdeu a Sede da Comarca também. O volumoso processo do orçamento de 1964, resumiu-se a uns poucos papéis em 1965. Quando Camboriú fez exatamente 100 anos, um bisneto do Anastácio elegeu-se prefeito e teve a honra de comemorar o centenário da cidade com um grande festejo. A administração de Andrônico Pereira foi um marco histórico, revolucionando a cidade. A partir do centenário, Camboriú tomou um grande impulso e hoje é um município muito populoso que abriga gente de todas as partes do Brasil. Naquele mesmo ano, foi criado o evento Gideões Missionários que projetou o nome de Camboriú internacionalmente. Definitivamente caiu a maldição do Padre João e Camboriú voltou a ser uma das cidades mais vigorosas do litoral catarinense.

Pe. João Rodrigues de Almeida Dias

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QUEM FOI PADRE JOÃO RODRIGUES DE ALMEIDA Padre João Rodrigues de Almeida Dias nasceu em 1830, em São Pedro do Sul, distrito de Viseu, terra de Baltazhar Pinto Corrêa. Naturalizou-se brasileiro em 1871. Filho de José Joaquim de Almeida Dias e de Luísa Maria de Jesus e ordenou-se em 1854. Fixou-se no Brasil em 1857. Muito Jovem assumiu a Paróquia de Penha e, de lá, vinha dar assistência religiosa à nossa freguesia. Foi um líder incontestável, valente e arrojado. Era tão admirado quanto temido. Homem de extraordinário carisma, tinha a admiração da maioria do povo camboriuense. Foi deputado à Assembleia Legislativa Provincial de Santa Catarina na sua 23ª legislatura (1880 — 1881), quando eleger-se naqueles tempos por um município pequeno era mesmo necessário gozar de grande prestígio político regional. Elegeu-se deputado provincial com uma plataforma extremamente conservadora, em defesa das igrejas e da família. A identidade política do padre é que causava medo e ódio dos seus adversários políticos. Era muito difícil combater um político habilidoso sobretudo um padre com tamanho carisma. Tribuno eloquente, seus discursos na Assembleia eram muito contundentes. Intransigente e audacioso, seu foco era mesmo a proteção da família e a defesa da moral e dos bons costumes. Era o grande representante da igreja. Fez vários discursos denunciado a situação de abandono de algumas igrejas da nossa região por parte do governo provincial. Por causa de sua atuação política, foi tranferido para Itajaí. Lá foi candidato a vereador Itajaí e elegeu-se Presidente da Câmara. Permaneceu mais de 30 anos na Barra onde criou laços muito fortes e adotou essa terra como sua de fato. Lutou por ela como ninguém. No episódio da transferência da Barra para a Villa do Garcia foi dele a voz mais forte contra essa iniciativa. Nota-se, por ai, a importância de Camboriú no contexto regional, capaz de eleger um deputado estadual que passou a maior parte de sua vida na barra do Rio de Camboriú. Padre João, quando deixou a Freguesia. Nessa foto pousa como Presidente da Câmara de Itajai.

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A PARÓQUIA DE BOM SUCESSO Sabemos que no Império a Religião Católica era o credo oficial do Estado. A igreja era, por exemplo, um ente público tão importante quanto a Câmara Municipal. Por essa razão, o padre era um funcionário público do Estado e como tal, recebia a côngrua mensal como os demais servidores. Por ser uma entidade pública, para se construir uma igreja era preciso elaborar um projeto de lei, a ser submetido à Assembleia Provincial. Apesar de que inúmeras publicações, inclusive oficiais, estimam aleatoriamente as mais diferentes datas para a idade da igreja de Bom Sucesso. Porém, ela não pode ser mais antiga que a própria lei que propõe sua construção. A primeira lei autorizando a construção de uma igreja em Camboriú, recebeu o número 192, aprovada na Assembléia em 26 de março de 1840. Era a partir da aprovação da lei, que o Estado iniciava o processo de construção do templo. Toda construção dessa natureza era bancada pelo poder público e o processo para tal, obedecia um ritual a ser seguido no tocante à prestação de contas, igual a quaisquer outra obra do governo. E como havia dois poderes paralelos, o do Estado e o da Igreja, duplicava-se a vigilância. A prestação de contas de uma igreja, apareciam em documentos em ambos os poderes. A construção de uma obra pública como essa, gerava correspondências, relatórios, orçamento e muitos outros papéis que circulavam na contabilidade do governo. O fabriqueiro, pessoa responsável pela obra, prestava contas, simultaneamente, ao governo do Estado e à Diocese. Os expedientes usados na prestação dessas contas nos dão informações sobre o andamento da construção das igrejas. Por esse motivo, estranhamos a falta desses documentos relativos à construção desta igreja autorizada pela Lei nº 129 de março 1840. Pelos termos dessa lei, esta paróquia estaria subordinada à matriz de Porto Belo. Porém, o fato de não haver nenhum movimento burocrático, nenhum papel, depoimento ou comentário acerca do desenvolvimento da construção dessa igreja é algo intrigante. Aventamos, portanto, duas hipóteses para o caso: a primeira é que possa ter sido construída por iniciativa privada; e a segunda, é que além de ser construída pela iniciativa privada, vai ter seu nome mudado para Santo Amaro, pela simples razão de este santo ser o preferido dos portugueses do litoral catarinense. Somente o fato de ter sido construída pela iniciativa privada, poderia explicar a ausência de documentos circulando na administração pública provincial. Vamos ver no capítulo a seguir um arrazoado acerca da existência da Capela de Santo Amaro e a possibilidade de essa igreja ser a mesma autorizada pela Lei 129 de março de 1840, apesar de a lei já denominá-la de Nossa Senhora do Bom Sucesso.

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CAPELA DE SANTO AMARO Existe possibilidade de não haver nenhuma igreja criada pelo governo em cumprimento à lei número 129 de março de 1840. Por isso vamos apresentar algumas hipóteses, face à ausência de documentos comprobatórios sobre a execução dessa obra. Já alertamos para a hipótese de que essa igreja tenha sido construída pela iniciativa privada. Dessa forma fica eliminada a obrigação formal de documentação para a prestação de contas. Sem documentação oficial tramitando no governo, a vida desse empreendimento público passa de certa forma invisível pela história. Vamos ajudar a compor esse quebra-cabeças, começando por admitir que a tal igreja seja mesmo a de Santo Amaro e que foi construída por particulares e não pelo governo. Que o leitor não se admire das nossas dúvidas sobre a história desta igreja, pois elas também atingiram inclusive o Padre Geraldo Spettmann que foi pároco da Igreja de Camboriú em 1910. Nem o Padre Peters, que foi terceiro pároco dessa igreja, soube responder à Cúria sobre a data da sua criação. Ao responder uma pergunta acerca da história da igreja, este último padre a faz com bastante hesitação. Veja sua resposta à pergunta: “Quando foi erecta a paróchia?”

[...] Não havendo livro do tombo, nem constando a alguns paroquianos, o ano de erecção desta parochia, há de se presumir que foi fundado entre 1830 a 1840, porque essas são as datas mais antigas dos documentos do archivo parochial.[...]

Mais curioso ainda é o fato da própria Diocese não saber nada sobre a fundação de uma de suas capelas mais importantes. Mais um forte indicativo que a igreja fora construída pela iniciativa privada como sugere o rábula José Mendes Rodrigues. De qualquer forma, Padre Peters mostra-se bastante impreciso ao estimar uma data aproximada com intervalo de 10 anos. Caso ele tivesse feito uma investigação mais aprofundada, certamente haveria de encontrar um antigo morador que lhe daria essa informação. Levemos em consideração que na gestão do Padre Peters, a igreja já contava com aproximadamente 50 anos, mas é impossível que não existisse alguém com 70 anos ou mais, de idade, que não pudesse informá-lo. Esse padre nem toca no assunto da capela filial de Santo Amaro. Só relata a capela do Garcia. É possível que na época do Pe Peters a capela de Santo Amaro, já não mais existisse nesse tempo. O memorialista José Mendes da Costa Rodrigues afirma sem nenhuma sombra de dúvida que a construção da Capela Santo Amaro foi iniciativa de particulares:

A Capela de Santo Amaro que estava edificada em frente ao cemitério, no mesmo logar Barra, foi feita as expensas do velho lavrador Marcelino José da Silva, 194


do Rio do Encano, que não tendo filhos gastou parte de sua fortuna na construcção da mesma.92 Não se sabe ao certo em que época ela deixou de existir. José Mendes escreveu que fora demolida há 10 anos, mas não se sabe quando escreveu esse artigo que foi publicado em 1907, em um jornal de Tijucas, logo após a morte do autor. O jornalista João Crisóstomo Pacheco apenas caprichosamente o transcreveu ipsis litteris no seu Jornal O Democrata em 1916.

Essa dita capela foi reconstruída anos depois pelo hábil carpinteiro, nosso correligionário e amigo o Gabriel Dutra e Silva, sendo a mesmo, há dez annos, mais ou menos, que foi demolida, por não oferecer mais vantagens o seu conserto, retirando-se a venerada inmagem para a matriz, onde actualmente se acha collocada sobre uma simples meza.93

Festa na Igreja da Barra

92

Marcelino José da Silva era do Ribeirão da Laguna. Ao que parece, é filho de Manoel Soares da Silva, dono do oratório que o Frei Agote cita em sua carta em 1823. A citação no texto é de José Mendes – Apud - João Crisóstomo Pacheco, “Homens e Factos” Jornal O Democrata – nº 12 – 07/07/1919

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Idem ibdem

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Por algum tempo as duas igrejas permaneceram concomitantemente como filial e matriz na Barra. Os livros da igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso, logo no seu primeiro assento, registra que o batismo se deu na capela pública de Santo Amaro, filial da Matriz de Bom Sucesso. Vejamos: “Aos vinte e cinco do mês de outubro de oitocentos e sessenta e um, nessa capela pública de Santo Amaro, filial da matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Camboriú.” O Historiador Walter Piazza, argumentava que o nome da padroeira possa ter sido escolhido pelo então Presidente da Província, Francisco José de Sousa Soares de Andrea, Barão de Caçapava, devoto de N. S. do Bom Sucesso. Se um presidente de província pudesse eleger um santo de sua predileção, jamais perderia a oportunidade. O Álbum de Santa Catarina de 1909, dá a entender que foi Soares de Andrea quem sugeriu o nome de Bom Sucesso ao lugar. O carpinteiro Saturnino Caldeira revelou-nos, em entrevista gravada para a primeira edição desta obra, ter conhecimento da existência de uma igrejinha em frente ao cemitério. Ele tinha informação privilegiada, pois foi aprendiz de Gabriel Dutra, o carpinteiro que construiu as igrejas de Santo Amaro e Nossa Senhora do Bom Sucesso. Esse dado dá fé às palavras de José Mendes que informa que a capela era em frente ao cemitério. Se existia uma igreja na frente do cemitério, fica evidente a existência de duas igrejas muito próximas. O Padre João Antônio Carvalho, de Porto Belo, em uma nota no livro de óbitos, de 1846, admite estar pertencendo à igreja de Camboriú. Por esse ano, não há como não afirmar que essa igreja não seja a de Santo Amaro, se a construção Matriz de Bom Sucesso nem havia sido autorizada ainda. Veja a nota:

[...] Estamos pertencentes a Cambrihú dessa Freguesia desde primeiro de Abril de 1846 athé 31 de dezembro do mesmo ano.

Nota do Padre João Antônio de Carvalho, dizendo que a Matriz de Porto Belo está pertencendo à de Camboriú.

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A MATRIZ DE BOM SUCESSO Nove anos depois de o Presidente da Província de Santa Catarina sancionar a lei que autorizava a construção de uma paróquia em Camboriú, a Assembleia Provincial aprovou a sua elevação à categoria de Freguesia. Estamos tratando agora da publicação da Lei nº 292 de maio de 1849. Diz o artigo primeiro dessa lei:

Art 1º - O Arraial de Camboriú, no termo de Vila de Porto Belo fica elevado à Freguesia, com a invocação de Nossa Senhora do Bom Sucesso, procedendo a licenças do ordinário exigido pela constituição do Bispado. Depois que se promulgou essa lei é que as obras da construção da Matriz começaram. O engenheiro João de Mello e Alvim relata, em 1851, que igreja está em construção e no desenho encomendado por ele, a igreja parece estar mais adiantada que a realidade. A impressão que se tem é que o pintor quis mostrar ao Presidente da Província como ela ficaria depois de pronta. De qualquer forma, o desenho está praticamente de acordo com os relatórios feito pelo fabriqueiro da igreja em sua primeira prestação de conta, em fevereiro de 1860. Ele revela que o corpo da igreja já está levantado, portas assentadas e até telhado colocado.

“Axoce com o corpo da Igreja levantada com paredes de pedra de cal. A parede da frente com 26 palmos de alto e com a porta central assentada dos lados com 19 palmos. E as portas todas assentadas.” O fabriqueiro dá a entender que a obra começou logo em 1849 e quando estava pronta para receber o telhado, desabou. Por diversas vezes os relatórios acusam a “parada da obra”. E em 1859, o Presidente Coutinho ainda diz que “a

matriz de Cambriú tem algum princípio de começo”.

Para aqueles que achavam que a igreja de Bom Sucesso é antiquíssima, saiba que no ano de 1849, ano em que o local foi elevada à freguesia, nem Porto Belo, muito menos Itajaí, estão com seus templos inteiramente construídos. O discurso do Presidente Severo Amorim do Vale, de 1º de março de 1849, revela que nem a de Porto Belo está pronta e que a de Itajaí está em tão precário estado, que o vigário atende em casa. Vamos transcrever o relatório do fabriqueiro Marcos José de Castro, datado de 27 de fevereiro de 1860, ao Padre José Gnecco de Tijucas. Diz ele:

Acuzo recepção do Offício de V. Rvmª me dirigio Com data de 16 do cor rente Em o qual me pede hum relatório do Estado Em que se Acha a Matris desta Freguesia.94 94

Prova que já é matriz de freguesia

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Mencionando Alfaias e paramentos das mesmas o que s’tou a Comunicarlhe que Só Existe A padroeira como invocação de N. Sa. Do Bom Sucesso de Cambriu hum nixo da mesma. São seis castiçais, huma imagem de Christo e hum Sino Cuja Imagem e mais objetos estão na Capella de Santo Amaro95 o que tudo foi Removido de huma caza particular onde se axava junto ao Reverendo Vigario de Porto Belo: Tendente as esmolas dos fieis para coadjuvar A Obra que se axava dezanimadas pelos motivos que ocorreram. Em 1849 na parada da Obra porque axando o Vigamento e madeiramento para receber o Telhado prompto do carpinteiro e recolhido Em huma caza pertencente a mesma Matris.96 A Caza Abatendo toda a madeira oje forma hum Montão de ruínas o que se axa Em frente A mesma Matriz a Sim Como de 10 a 12 moios de cal97 que tudo seprando.[SIC] Contudo Nutro Esperança que Avendo prestação por parte do governo para dar Andamento a Obra que todos os moradores do povoamento Concorrerão com suas Esmolas afim de chegarmos a Normalização relativo ao Culto deVido Encluzo axava V REVma o Relatório que mencionava o Estado em que se axa a Matris desta freguesia e orçamento para seu acabamento que tão neceçario se torna com tudo dentro de seus limites 2.00 almas. Deos Guarde V. Rvma. Rio de Cambriu, 27 de fevereiro de 1860. Ilmº REVmº Sr Padre José Gnecco Vigario da Mattris de SanceBastião da Foz do Tijucas Grandes. Do fabriqueiro da Matriz de Cambriu.98 Em 1860, no discurso do Presidente Araújo Brusque, apresentando seu relatório anual, ele diz que a igreja ainda “pena pela conclusão da construção da capela-mor” e estima um orçamento de 8$000, para finalizá-la. Sobre alfaias e paramentos é taxativo: “tem necessidade de todos os ornamentos.” Em 1861, a igreja ainda não estava pronta, porém já consta que tenha livros e eles revelam que estão utilizando a capela de Santo Amaro como templo. O texto é claro, na abertura desses livros onde consta: “Capela de Santo Amaro,

filial da Matriz de Bom Sucesso”.

Se alguma dúvida restasse sobre as duas igrejas e suas hierarquias, ficam aqui totalmente dirimidas: capela e matriz funcionando concomitantemente.

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Prova a existência da Capela de Santo Amaro em lugar próximo.

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Dá a entender que o desmoronamento ocorreu em 1849.

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O moio era a carga de uma ceva de carro de boi, mais ou menos 1m³.

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FONTE: Corresp. dos Vigários com o Presidente da Província - 1858 a 1860.

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O primeiro registro do livro da matriz de Bom Sucesso, foi redigido na Capela de Santo Amaro. Trata-se da certidão de nascimento do inocente Zeferino. Vejamos:

Aos vinte e cinco dias do mês de outubro do anno de mil oitocentos e sessenta e um, nessa capela publica de Santo Amaro filial da matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Camboriú Província de Santa Catharina, baptisei sollenemente pus os santos óleos no innocente Zeferino

No final do ano de 1863, a igreja ainda não estava pronta. Este fato ficou registrado no discurso de transmissão de cargo do vice-governador em exercício, o Comendador Francisco José de Oliveira ao titular João Leitão da Cunha. Vejamos:

Em 28 de outubro nomeei uma comissão composta dos cidadãos Ricardo José Garcia, Faustino Antônio do Nascimento e José Florêncio da Silva, encarregando-os de prosseguir nas obras da Matris da freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Cambriu e mandei entregar para Ella a quantia de cem mil reis e o produto das esmolas pertencentes a padroeira e que existiam em poder do fabriqueiro.

Comício político em frente à igreja de Bom Sucesso na Barra em 1928

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E continua discorrendo:

Em 25 de novembro mandei entregar ao reverendíssimo Arcypreste da Província a importância de 65$000 por elle sollicitado em officio da mesma data, para a compra de objetos ao serviço do Culto Divino na Matris de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Cambriu.99 No dia 1º de março do ano de 1866, no discurso anual do Presidente da província, Dr Adolpho Barros Cavalcanti d’ Albuquerque Lacerda, foi a última vez que se falou algo acerca da construção dessa igreja:

As circunstancias do cofre não tem permitido que eu faça o effectivo auxílio votado para a construcção da Matriz de Cambriu e outros misteres do culto.

Até essa data, passados portanto mais de 16 anos, a igreja não estava totalmente pronta e o povo se reunia na capela de Santo Amaro, que durou ainda por um bom tempo. A estima do povo por essa capela foi tão grande, que até nos dias de hoje, a Matriz de Bom Sucesso por vezes é denominada de Santo Amaro.

MAPA DE ITAJAI DE 1938 - (relativamente recente) Ainda contempla as duas localidades: Barra e Garcia

99

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Transmissão ocorrida em 19 de dezembro de 1863


OS ORATÓRIOS DO CANTO DA PRAIA Atualmente, no Canto da Praia, temos a segunda igreja mais antiga da cidade. A Paróquia de São Sebastião existe desde 1925. Corria na oralidade do povo do Canto da Praia a existência de alguns oratórios e o mais famoso deles, estava na casa do Cirurgião Claudino José Francisco Pacheco. No dia 22 de junho de 2018, recorremos à prestigiosa memória da mais antiga moradora desse lugar, a senhora Agostinha Pacheco Cardoso, de 88 anos, descendente de Claudino Pacheco, para ouvir seu depoimento sobre esse assunto. Dona Agostinha disse lembrar-se bem desse oratório, dedicado a Santo Antônio. Mas afirma que não conheceu Claudino Pacheco, somente seu avô, José Nicolau Pacheco, mas não sabe dizer se Nicolau era filho ou neto de Claudino. Este era exator estadual, já Claudino Pacheco, foi um médico muito afamado, uma das pessoas mais notáveis de antigamente, aqui na região. Sobre ele, escreveram os senhores Pedro Ferreira e Silva, Prefeito de Itajaí, o jornalista Juventino Linhares e até mesmo o escriba José Mendes da Costa Rodrigues. Este, conta em suas memórias, que estava assistindo aos últimos momentos da vida de Agostinho Ramos, na tarde de 16 de julho de 1853, quando o Cirurgião Claudino Pacheco chegou para fazer os primeiros socorros, até que chegasse o médico belga Pedro Jamar Pletink de Porto Belo.100 Dona Agostinha lembra-se bem da casa de Claudino onde existia o oratório de Santo Antônio. Afirma ser a mesma na qual ela, sua mãe e seu avô nasceram. Descreve-a como sendo de madeira, bonita, com muitos cômodos e circundada por um extenso alpendre. Situava-se na curva da estrada, atualmente frente ao Centro Espírita Bezerra de Menezes, onde também existe uma creche municipal. O local confere com a descrição dos senhores Antônio Flores e Juventino Linhares. Ambos comentam sobre o local da casa do Cirurgião Pacheco “bem na curva principal da estrada” no Canto da Praia.

Autógrafo do Cirurgião Claudino José Francisco Pacheco

100

Pequena História de Itajaí p. 78.

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Dona Agostinha lembra que, no tempo da sua mãe, muita gente parava ali pedindo hospedagem e que ela abrigava a todos com muito despreendimento, fornecendo pouso e comida. Seus conhecidos, das praias do Estaleiro, das Laranjeiras, do Garcia e da Barra que iam para Itajaí, paravam nessa casa para no dia seguinte, vencer o segundo trecho da extensa estrada. Dona Agostinha discorre que a casa tinha uma ampla varanda e ao lado, um belíssimo oratório, com várias cadeiras e bancos. Muitas pessoas compareciam para as orações, novenas, etc

O CANTO DA PRAIA EM 1962. Na seta, local da antiga casa do cirurgião Claudino Pacheco 01- Atual Rua Miguel matte 02- Atual Rua Osmar Nunes 03- Atual Rua Antônio Bittencourt

O oratório, por fim, ficou sob poder do avô de dona Agostinha, o Nicolau Pacheco, que por sua vez, transferiu para a casa de um tio de Dona Agostinha, o

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senhor Manoel Agostinho Cardoso, o Neca Agostinho. O último paradeiro desse oratório foi no Bairro Ariribá, onde está situada atualmente a empresa de Água Mineral Rio do Ouro. Prova disso, no rótulo das garrafas está escrito que a água mineral vem da Fonte Agostinho, uma homenagem ao proprietário daquelas terras, local onde ficava o oratório. Atualmente este lugar situa-se na Av. das Arapongas, porém, no tempo de Seu Neca Agostinho, era apenas uma trilha chamada de “Caminho da Capivara”. O cirurgião Claudino Pacheco foi um homem cujo nome era conhecido em toda região. Além de seus predicativos como médico, era um político extremamente popular. Possuía essa casa à beira da Estrada Geral, na qual hospedava muitas pessoas. Não sabemos se o Cirurgião hospedava comercialmente ou por caridade. Ja época de dona Ana Pacheco Cardoso, mãe de dona Agostinha, ela atendia por caridade. A descrição que a casa desse médico era uma casa grande, com muitos cômodos, que hospedava muita gente e possuía uma capela, nos faz supor que a casa funcionasse como um hospital. Isso pode explicar o fato de Claudino Pacheco ser tão popular e eleger-se vereador tantas vezes quantas quisesse, no começo da fundação de Itajaí, freguesia a qual pertencíamos. Claudino Pacheco foi o primeiro vereador eleito em Itajaí representando o Distrito de Camboriú. Elegeu-se para a primeira, segunda e terceira legislaturas (de 1860 a 1869) e quando não quis mais concorrer, indicou e elegeu Agostinho José Francisco Pacheco. Sabemos, através de pesquisas do Professor José Ferreira, da existência de um oratório na casa de Aurélio Coelho da Rocha. Também sabemos que o pai de Aurélio, Manoel Coelho da Rocha, foi quem doou ou vendeu o terreno para a construção da Matriz do Santíssimo Sacramento em Itajaí. Manoel Coelho vendeu a casa para Agostinho Alves Ramos e foi o primeiro anfitrião do Frei Agote em Itajaí. A historiadora Elis de Siste Bernardes informa em seu blog que Aurélio Coelho da Rocha era morador do Canto da Praia, onde está registrado seu falecimento a 14 de março de 1873 aos 90 anos de idade. Falando de Frei Pedro Antônio de Agote, que tornou-se famoso por ter sido o primeiro religioso de Itajaí, veio primeiramente para Camboriú e atendia o povo em um oratório no Canto da Praia, de propriedade de Manoel Soares da Silva.101 Esta afirmação é do próprio frei, que em carta escrita de próprio punho ao seu superior, o Bispo Coutinho no Rio de Janeiro, declara que começou a tra101

Provavelmente pai de Marcelino José da Silva, que construiu a igreja de Santo Amaro. O site Family Serch informa que são naturais do Ribeirão da Laguna, que por engano José Mendes escreveu que eram do Ribeirão da Ilha. O próprio site relaciona esse parentesco entre eles.

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balhar nesse lugar, nessa casa. “Principiei a fazer uso no dia cinco neste oratório

de Manoel Soares da Silva”.

Em seguida, ele revela que acertou com o povo de Itajaí e que ia morar para lá. A tal missiva foi publicada na íntegra pelo Professor Edson d’Ávila na segunda edição do livro Pequena História de Itajaí. O religioso encerra o texto desta forma:

“ssim o implora e pede sua paternal Bênção. Casa do Oratório em Camboriú - Distrito de Itajaí - 21 de dezembro de 1823- Seu mui obediente súdito, Frei Pedro Antônio de Agote.102 Essa quantidade significativa de oratórios encontrados em um lugar tão pequeno, revela mais uma vez uma população adensada vivendo no Canto da Praia nesse tempo.

Antiga Igreja São Sebastião do Canto da Praia - edificada em 1925

102

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Edson d’Ávila - Pequena História de Itajaí, 2ª Ed p 77


A VISITA DO MISSIONÁRIO PAULO BIOLCHINE Em 1868, a Freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso recebeu a visita pastoral do missionário Padre Paulo Biolchini. Ele escreve uma crônica no Jornal Mercantil de Desterro, dizendo do seu desejo ardente de ir com a voz da pregação divina, despertar do pesado sono do pecado e desleixo religioso dos povos abandonados dessa Província. Ainda faz uma referência intrigante sobre a idade da igreja: [...] há 24 anos que o Senhor trouxe os profetas que podiam dar bons

conselhos ao nosso lugar [...].

Se Padre Paulo escreve que está ano de 1868, menos 24 anos nos remete rá a 1844. Evidentemente ele estava falando da Igreja Santo Amaro, pois o templo dedicado à Nossa Senhora do Bom Sucesso teria menos de oito anos nesse tempo. Por meio de suas palavras podemos observar que ele está falando de duas igrejas distintas. Padre Biolchini ainda relata que chegou a Camboriú no dia 16 de agosto e, na mesma tarde, deu início à missão. Inicialmente mostrou-se desanimado com a baixa frequência de fiéis nas suas reuniões e por isso culpa as distâncias dizendo que alguns moram tão longe que só souberam da missão sete dias após o aviso da sua chegada. Paradoxalmente, afirma que no primeiro dia foi tanta gente que a igreja, “posto que é grande, mal dava lugar a todos.” Ele está falando da Igreja de Bom Sucesso, evidentemente, informando ao mesmo tempo que as pessoas, mesmo tendo de pagar oito vinténs para a passagem da balsa, a igreja lotou nos dias de missão. Relata que todos os dias foram distribuídos de 40 a 60 “pão dos anjos”. Informa ainda que, em nove dias, mais de 700 pessoas sacramentaram-se. O que causa estranheza na declaração desse Padre é o fato dele falar que o padroeiro da freguesia é Santo Amaro. Vamos transcrever esse trecho para se ter melhor ideia do que ele quis dizer:

As três horas da tarde fez-se solemnemente a benção de uma grande cruz e sahiu da igreja numa procissão de penitencia para a capela de S. Amaro, padroeiro da Freguesia, carregando a alguns irmão a cruz, outros uma rica imagem de Nossa Senhora do Bom Sucesso e o missionário a relíquia do santo lenho. Na Praça de S. Amaro foi arvorada a cruz, que todos logo adoraram e beijaram affectuosamente.103 O padre encerrou sua missão no dia 30 de agosto 1868.

103

Jornal O Mercantil , 15 de outubro de 1868, ed. 775, pp 2 e 3.

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COMPARAÇAO ENTRE FOTOS Ao se comparar as fotos, vê-se o quanto a Barra entrou em decadência. A foto de cima é um desenho de Lothar Fischer, encomendado pelo Engenheiro João de Mello e Alvim em 1851; a de baixo, 110 anos após. Veja que algumas das construções ainda subsistiam no ano de 1961

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PADRES COM OPINIÕES DIFERENTES A história da Igreja de Bom Sucesso vai ser marcada pelo comportamento muito distinto de dois de seus mais importantes padres que ali atuaram no final do Século XIX. O Padre João Rodrigues Almeida veio da Freguesia de Penha e foi o primeiro a assistir a Freguesia de Bom Sucesso. Chegou muito jovem na Freguesia e acompanhou seu crescimento. Foram mais de 30 anos de ministério. Portanto, Padre João entrou jovem e saiu velho. Ele amava esse lugar mais que muitas pessoas daqui. Muitas crianças que batizou, estavam adultas no episódio da mudança da Sede, por isso elas lhe prestavam muito respeito. O Padre monarquista vai ficar para ver a república se instalar e ainda permanecer por mais de quatro anos na Barra, a pugnar com oposição política. Estamos falando de uma época em que ainda pertencíamos a Itajaí e o Padre João vai se eleger deputado estadual por Camboriú. Será o primeiro deputado estadual eleito por Camboriú, apesar de que nesse tempo pertencíamos a Itajai. (1880-1881) Por causa de suas discórdia com o grupo político dominante na cidade foi transferido para Itajai. Nesta cidade se elegerá vereador para o período de 1892 a 1894 e se tornará Presidente da Câmara. Esse padre vai encerrar seu mandato de vereador praticamente junto com seu ministério sacerdotal. Enquanto esteve à testa da Igreja na Barra, manteve a honra de ter segurado a Sede da igreja na sua amada Freguesia de Bom Sucesso, enquanto cumpriu sua provisão ministerial em Camboriú. Com sua mudança para Itajai, Padre Almeida vai desaparecer do cenário camboriuense, a partir de 1894, aos 64 anos de idade com mais da metade desse tempo consagrado à Freguesia de Bom Sucesso. Há quem diga que ele faleceu em Itajai mesmo. Já vimos nos capítulos anteriores que o Padre João Rodrigues de Almeida era radicalmente contra a mudança da Sede da Casa de Deus para um lugar que ele chamava de pagão. Ele era um homem muito politizado. Como deputado provincial, adquiriu muita experiência política e isso nos parece ter facilitado eleger-se vereador e Presidente da Câmara Municipal de Itajaí. Padre Almeida também era extremamente radical quanto à permanência da Monarquia no País. Ele chamava os republicanos de urubus, rangalhos e bando de farrapos incompetentes. Enquanto perdurou a Monarquia, o Padre João pôde manter a Sede na Barra. Com a assunção dos “rangalhos” ao poder, em menos de dois meses esses políticos levaram a Sede da administração pública para a Vila do Garcia. Conseguiram transferir a parte civil e política do município, porém a Sede da Igreja, o Padre Rodrigues negou sua transferência.

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A nova Constituição Republicana, em seu Art. 72, rompeu a aliança do Estado com a Igreja, retirando da carta alguns privilégios, tais como, o corte de subvenção à igreja e o reconhecimento somente do casamento civil. A Igreja magoada com os republicanos, através das lideranças, colocou-se em oposição ao Estado, obtendo grande apoio da maioria dos bons católicos que viram nesse golpe político uma enorme ofensa a Deus. Padre Almeida soube usar bem essa argumentação em favor da tese da permanência da Sede eclesial da igreja na Barra. A decisão do Padre João Rodrigues em não permitir a transferência da Sede da igreja, foi apoiada pelas camadas superiores do clero que demoraram muito a tolerar a “traição” dos republicanos. Tanto que por mais que os políticos se empenhassem para transferir a Sede da igreja da Barra para Vila do Garcia, a Diocese nunca os apoiou, pelo contrário, jamais demonstrou qualquer manifestação favorável. Dois anos após a saída do Padre João Rodrigues, chega para assistir a comunidade de Camboriú, o Padre João Batista Peters. Entretanto os dois padres diferem muito acerca de suas preferências pela cidade. Começa pela cultura geral de ambos: um era português e o outro alemão. Muito alheio aos problemas da Freguesia e dos seus paroquianos, o Padre Petters, logo entrou em atrito com o povo da Barra. Como alemão, fazia ácidas críticas à cultura do povo de origem portuguesa. Diferentemente do Padre Almeida que sempre esteve envolvido com os problemas da população, Padre Peters era pra lá de indiferente. Enquanto Padre Almeida desenvolveu um amor paternal pela comunidade, Padre Peters cultivava hostilidades para com o povo. Padre João Rodrigues era austero, mas tratava bem seu povo; Padre João Batista era mais contido, porém relatos dão conta que era um homem estúpido, grosseiro e muito preconceituoso. Quando Peters falou em mudar a Sede da Matriz para o Garcia e que alguém lhe alertou sobre as maldições de seu colega, ele ignorou a proposta e disse que não acreditar em superstições e que seu colega não era melhor que ele. Saiu aquele que amava a Barra e entrou outro que a detestava. Saiu um que odiava a Vila Garcia e vai entrar outro que adorava aquele lugar. Por esse spoiller, já podemos adiantar que a Barra vai viver dias ruins na administração do Padre Peters. Foi lendo algumas cartas do Padre Batista Peters aos seus superiores, especialmente as endereçadas ao Monsenhor Francisco Topp, é que iremos descobrir sua aversão `a Barra. Com a chegada do Padre João Baptista Peters, a situação da Barra que já estava ruim pela transferência da sede, vai piorar ainda mais. Padre Peters não poupava insultos públicos ao lugar e ao povo, da mesma forma que tecia elogios públicos à Vila do Garcia e seu povo. Diríamos que ele tripudiou sobre o povo da Barra, tão sofrido com as decisões políticas que se re-

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fletiram profundamente na sua já abalada economia local. Por isso, de fato, a comunidade estava mesmo tão decadente como ele costumava acusar. Nos questionários anuais, emitidos pela Diocese, ele chega ao cúmulo de dar respostas que não foram perguntadas, só para passar uma mensagem subliminar de que a Barra estava muito decadente. Tudo isso para dar a entender que esse lugar moralmente, não era mais digno de manter a Sede da igreja. Na tentativa de influir para que ocorresse a mudança, ele força defeitos e qualidades de forma muito desproporcional para as respectivas localidades. Como exemplo de sua parcialidade, vamos expor o caso do sacristão Estanislau Campos. Ele informa nos autos que esse senhor lhe é um peso morto por ser epiléptico e dado ao vício da embriaguez. O Bispo D. José Camargo Barros, passando os livros em correição no ano de 1894, anota uma censura, em virtude das intromissões deste sacristão nos registros. Apesar que ambos os defeitos do sacristão, mesmo fossem verdadeiros, acrescenta, de forma injusta, que é obrigado a aturá-lo, alegando não existir no lugar outra pessoa capaz de realizar tal serviço. Isto absolutamente não era verdade, pois sabemos que a Barra detinha em seu quadro social muitas pessoas de bem. Padre Peters vai sempre exagerar, tanto nas acusações contra a Barra, como nos elogios ao Garcia.

Encerramento de uma das cartas do Padre J. B. Peters - 1898

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OS RELATÓRIOS DO PADRE PETERS As Dioceses pedem anualmente relatórios aos seus vigários sobre a situação das igrejas e dos lugares onde estão sediadas. Nos questionários endereçados ao Padre Peters ele força críticas à Barra e elogios ao Garcia de forma desproporcional. Vejamos este exemplo: para a pergunta “Quais as principais necessidades da paróquia?” O Padre assim respondeu: A principal necessidade desta paróchia é a trans-

ferencia da Sede de Camboriú a Villa do Garcia. A matriz actual é situada em um canto da parochia ficando as distancias para muito maior parte dos parochianos demasiadamente grandes. Eis um pequeno mapa da situação. [ele fez um mapa] Acrescenta que a Vila do Garcia é Sede do município e tem uma povoação muito maior, comercio desenvolvido, e o que é principal: a Vila do Garcia também está bem encaminhada, quando na actual Sede barra perpetua discórdia uma violência total e o lugar parece achar sem moral e materialmente numa evidente decadência. Deixando por mais tempo a Sede da parochia no actual lugar, isso é, Barra do Camboriú. O vigário fica naturalmente obrigado a passar mais tempo na Sede e isso com grande prejuízo da Vila do Garcia e de toda a parochia. Reunindo-se os parochianos com muito mais facilidade e quase exclusivamente na Vila do Garcia. Itajahy aos 7 de novembro de 1898. Ferrenho defensor da transferência da Sede eclesial, tinha quase a obrigação de tecer elogios ao Garcia e natural que acentuasse os deméritos da Barra para conseguir seus intentos. Quando lhe foi perguntado quantas capelas públicas esta matriz possuía, responde assim:

Há nessa paróchia uma linda Capella, edificada ao largo da Sede municipal, no lugar chamado Villa do Garcia, á seis quilômetros da Matriz. Continuando com as reespostas do Padre João Batista nos questionários, numa delas diz, em determinado trecho, que na Freguesia de Bom Sucesso há dois líderes poderosos que brigam muito, não só por política, mas por inimizade pessoal muito antiga, que chega a impedir o crescimento do local. Até na questão espiritual Padre Petters demonstra parcialidade, elogiando o povo do Garcia e desmerecendo o povo da Barra. Segue outra pergunta: “Quanto à recepção dos sacramentos, há progressos ou regressos?

No Camboriú, não obstante as contínuas admoestações do vigário, não se vê progresso real nenhum. Parece que começam abrir os olhos, porque algumas vezes foi o vigário chamado para sacramento dos doentes, o que antes, durante umas três dezenas de anos nunca se praticou. Na Villa do Garcia parecem muitos já apreciar os sacramentos.

Padre Peters não esconde seu contentamento quando recebe a provisão episcopal para a igreja do Garcia e faz circular na cidade um documento diri210


gindo-se ao povo de Camboriú sob este título: Documento Histórico - meio século servindo a fecunda seara do Senhor. O documento exalta essa conquista pessoal. Ele trata da autorização para o funcionamento da Capela do Garcia. Mas exagera quando escreve no folheto que a igreja tem meio século. Essa idade tinha justamente a Igreja Santo Amaro. A Capela do Garcia tinha apenas 10 de anos se contados a partir aprovação da lei que é de 18 de maio 1883. Ele está em 1894. e nesse mesmo ano, o próprio Bispo Dom José Camargo Barros, já vimos na página 33, que ele escreveu em seu diário que a “igreja do Garcia ainda não está pronta”. Padre Peters nomina as duas localidades com os verdadeiros nomes originais: Camboriú ou Sede, onde está a Igreja de N. S. do Bom Sucesso; e a Vila do Garcia, para onde quer levar a Matriz. Confira:

“No Camboriú, não obstante as contínuas admoestações do Vigário, não se vê progresso algum. Na Vila do Garcia, eles parecem muito apreciar os sacramentos.”

Importante registrar a revelação de que o povo da Barra não prima pela data de festejo de Nossa Senhora do Bom Sucesso. Diz o Padre João Batista num desses relatórios: Nunca fazem comemorações [de N.S. do Bom Sucesso] na data certa, que é no segundo domingo de novembro, e é sempre adiada; já a de Santo Amaro é sempre no dia 15 de janeiro, nunca falha. Isso confirma a tese da preferência do povo pela figura de Santo Amaro que dissertamos lá no começo. Dona Dolores Rodrigues, aos 99 anos afirmou não ter lembrança de uma festa de Bom Sucesso, mas que a de Santo Amaro era incrivelmente grande todos os anos. A Sede do Município não detinha a Sede da Igreja. Por causa da mudança da Sede municipal, a Sede da igreja de Camboriú ficou em um bairro, de forma que isso se tornou algo muito estranho. Um templo de igreja matriz, em tese, estabelece formalmente o indicativo de Sede de um município. Quem pesquisar os livros da igreja vai notar que, até perto de 1930, o Padre José Locks, ainda considerava a Igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso como Sede.

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Este ĂŠ o documento que o Padre Peters fez circular em 1898

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Apesar dos muitos elogios do Padre João Batista Peters ao Garcia, as estatísticas não confirmam. Mesmo com a Barra em processo de decadência, todos os números são melhores que os do Garcia. Consultamos os livros dessa igreja, disponíveis na internet, e tomamos o de batismo de 1920 a 1926 que é o mais recente e formamos uma estatísticas com os dados colhidos nesse livro. Computamos todos os nascimentos anotados. Depois os relacionamos por localidade para termos uma estatística segura e determinar se a Capela do Garcia tinha mais movimento que a Barra e opinar se o Garcia tinha motivos para pleitear o status de Sede. Constatamos, surpresos, que a Barra, mesmo em tempos tão recentes, ainda se mantinha mais populosa que o Garcia. Com a desativação do Porto de Camboriú, houve um sensível decréscimo geral na economia do município e o lugar mais atingido foi a Barra. Tudo em função das melhorias do Porto de Itajaí, que fizeram cair o movimento portuário de Camboriú, de forma que o nosso porto nunca mais se recuperou até sua extinção total. Despois da transferência da Sede, esse foi o fator que mais contribuiu para a decadência da economia localidade de Barra, que ainda mantinha uma tênue movimentação em função do Porto até 1925. Nascimentos da Igreja entre 1920 a 1926 localidade

Ano 1921

1922

1923

1924

1925

1926

total

10

3

13

106

71

58

451

37

27

77

200

35

08

71

284

Camboriú (Garcia ?) Barra de

38

80

43

16

44

56

98

Camboriú Matriz - Bom Sucesso Garcia Canto da Praia

105

08

08

No Livro de Registros de Nascimento da Paróquia de Camboriú, foi utilizado, pela última vez, o termo “Capela do Garcia” em 25 de abril de 1925, quando se deu o registro de batismo do menino Braz Hermínio, filho de Benjamim Garcia. A partir desse ano, o Padre Paulo Condlá, por sua conta, passa a denominar de Matriz a Capela do Garcia, de forma oficiosa.

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VISÕES DIVERGENTES SOBRE O MESMO LUGAR As acusações do Padre Peters contra a Barra são bravatas que ele faz para o convencimento de seus superiores. A Barra, nesse tempo, ainda não estava tão decadente, nem o Garcia tão próspero como sugeria esse padre. O últimoquadro de estatística que apresentamos demonstra que a Barra ainda era o lugar mais populoso de toda a Camboriú, mesmo depois da administração de Padre Peters. Contra a tese do Padre Peters, temos o testemunho do Padre Carlos Keilmann que veio pela Missão Dehoniana, evangelizar a Vila do Garcia em 1910, juntamente com o Padre Geraldo Spettmann. Padre Carlos Keilmann, ao descrever suas memórias em Camboriú, 12 anos após a presença de Padre Peters, reproduz uma Vila Garcia muito pobre, bem diferente do que alegava Peters. Consideremos o direito que ambos os padres tinham, em dar diferentes visões dessas comunidades, conforme seus interesses. Keilmann precisava mostrar um lugar ruim, pobre, pois quanto mais pobre o lugar, mais valor tem o trabalho de um missionário. Ao contrário, um padre diocesano tentava passar a imagem de lugar grande e desenvolvido. Já vimos Camboriú sob o ponto de vista do Padre Peters, mas veremos Camboriú sob a ótica do Padre Keilmann. Carlos Keilmann, começa dizendo em suas cartas aos seus superioresque Camboriú se localiza em um pequeno vale, ao longo de alguns caminhos tomados de capim e detém alguns sítios que surgiram com a derrubada da mata. Estima entre 20 a 30 casas de madeira, todas construídas grosseiramente e sem janelas de vidro. No meio delas, 10 são de barro e caiadas. Ele relata que a maioria das casas são ranchos de pau a pique, cobertos com folhas de palmeiras. Sua visão da igreja está muito aquém daquela que descreve Peters:

E nossa igreja é apenas uma capela. É de material em estilo de celeiro e caiada de branco.[...]a capela tem de uns 15 a 20 metros de comprimento por 10 de largura. Sob o telhado há pequenas janelas, do contrário entraria muito sol. Bancos ruins e um velho altar e nada mais. Isto é o povoado e a igreja de Camboriú.

De fato, nem parece que esses dois padres estavam falando do mesmo lugar. Eles têm as suas próprias razões. Enquanto Padre Peters precisa exaltar o lugar, Padre Carlos Keilmann o deprecia. Pelo que se vê nas fotos da época, honestamentente, não parece nem uma coisa, nem outra. Para o autor afirmar seu espírito altruísta de missionário vindo do primeiro mundo para evangelizar, melhor que fosse em um lugar pobre. Isso sensibiliza mais quem o envia. Se estivesse em um lugar muito avançado não teria

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sua atividade missionária tão bem avaliada. Depois de muito descrever a miséria do lugar, Padre Keilmann conclui:

Esta é a imagem de Camboriú, onde nós dois, o Pe Spettmann e eu, exercemos o ministério.104

Padre Keilmann tece elogios à cidade de Itajaí, tratando aquele lugar como cidade muito bonita. Saiba o leitor que Itajaí e Camboriú se pareciam bastante nessa época. A partir de 1920 é que Itajaí vai se distanciar de Camboriú em termos de progresso.

Vista da Barra. Gentileza de Úrsula Wachs

104

Valberto Dirksen – Presença e Missão Dehoniana no Sul do Brasil [1903 -1913] p 452

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A VISITA DE SANTA PAULINA A CAMBORIÚ Em 1898, o Padre Peters conseguiu a provisão para oficiar provisoriamente cultos na Capela do Garcia. Em 1899 , ele promoveu uma grande festa, trazendo inclusive uma banda de música de Nova Trento para abrilhantar esse grande evento. Mandou imprimir folhetos e convites e os distribuiu em outras cidades. Todo esse esforço para fortalecer as suas pretensões de mudar a Sede da igreja da Barra para o Garcia. Junto com a banda veio uma grande comitiva de Nova Trento, São João Batista e Tijucas. Foi uma viagem longa e difícil para esses visitantes. Liderados pelo Padre Alfredo Russel, a comitiva estava composta além de alguns membros da Banda Padre Sabatinni, outros padres e religiosos da região. Por exemplo, as três jovens irmãs da recém criada Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, sendo uma delas hoje canonizada e mundialmente famosa, a Santa Paulina. Na viagem de Nova Trento para Camboriú, toda a comitiva entra em Camboriú pela localidade de Caetés, através do Caminho do Meio, num lugar chamado atualmente de Campo Novo. Hoje em dia essa estrada é denominada de Estrada Geral de Campo Novo.

Na foto Madre Paulina (ao centro) esconde o rosto. O quinto homem à sua esquerda é o Padre Russel. Essa foto foi cedida ao Estado para compor o Álbum de Santa Catarina pelo senhor Eduwiges Bernardes, cuja esposa emprestou o vestido para a Madre.

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No meio do caminho, no morro da localidade de Campo Novo, hoje conhecido como Morro do Compra-Tudo, a caravana apanhou forte tempestade que destruiu parte dos instrumentos musicais que vinham em dois carros de bois. O Padre Peters chama o carro de boi de “engenho”, que ele diz na ata ter quebrado ao fazer um grande esforço após cair em uma vala. O acidente com o carro feriu um dos animais e algumas pessoas também. Os visitantes chegaram, no dizer do Padre Peters, “enlameados e ensopados”. O Padre anfitrião emprestou suas vestes ao Padre Russel e as freiras tiveram que passar pelo constrangimento de fazer uso de vestes civis, emprestadas das “senhôras camborianas”. Madre Paulina, segundo dona Maura, não queria deixar-se fotografar vestida à paisana. Na foto, com personalidades da cidade e parte dos componentes da Banda de Música, a então Madre Paulina, visivelmente constrangida, abaixa o rosto para não aparecer na foto com roupas emprestadas pela esposa do senhor Eduviges Bernardes. Dona Maura Bernardes contava com orgulho que Madre Paulina estava usando o vestido arranjado de sua mamãe. Em virtude desse acontecimento, o poder público criou a Rota Turística Caminho Sagrado de Santa Paulina, aprovado na Assembléia Legislativa. Todos os dias, dezenas de romeiros fazem o percurso que a Santa Paulina fez, desde Camboriú até o Santuário em Nova Trento. O Caminho Sagrado é lindo, oferece boa estutyra de alimentação e hospedagem e está plenamente sinalizado.

Romeiros fazendo o Caminho de Santa Paulina

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BENJAMIM VIEIRA E A CAUSA DA EMANCIPAÇÃO DA IGREJA Até que se firmasse a atual Igreja do Divino Espírito Santo, ocorreram muitos desentendimentos. Quem conhece a história de Camboriú já ouviu falar do Coronel Benjamim de Souza Vieira que por longos anos esteve à testa do Município. Ocupou todos os cargos possíveis na chefia da administração municipal. Inclusive foi eleito o segundo deputado estadual da nossa história. Há quem diga que o Governador Hercílio Luz esteve em Camboriú no dia anterior à morte de Benjamim Vieira, tratando de sua sucessão ao governo. Dizia-se que o Governador Hercílio Luz queria Benjamim Vieira como seu sucessor. Com o poder político adquirido, Benjamim Vieira não aceitava o fato de a Capela do Garcia não ter autonomia. Ele não aceitava também que um padre de Itajaí viesse prestar uma assistência precária à igreja da sua cidade. O Superintendente queria um padre com provisão e autonomia, morando aqui. Como a Capela do Garcia era subordinada à paróquia de Bom Sucesso, isso não era possível, mas Benjamim Vieira, não aceitava essa condição. Ele morava na Sede do município e queria um padre exclusivo para o município. O Superintendente Benjamim Vieira literalmente fechou as portas de Camboriú para os padres que vinham assistir esse lugar. Padre Locks denunciara que Benjamim postou um batalhão de pessoas na ponte para que ele não passasse, até que fosse decidida a sua provisão e que a capela do Garcia fosse transformada em Matriz ao invés da Igreja da Barra. O Padre José Locks, conta numa carta ao Monsenhor Francisco Topp, que Camboriú parecia com uma “estrebaria de Áugias” e reclamava que Benjamim Vieira é um homem muito ruim. Já os defensores de Benjamim diziam que ele tinha razão, pois apenas queria um padre provisionado e sua capela transformada em Matriz. O Padre Carlos Keilmann, em suas memórias (op.cit.) comentou o seguinte:

Camboriú tem uma escola - aliás um casebre - mas os padres não podem botar os pés lá, porque Benjamim não deixa.

Benjamim era um homem polêmico. Alcançou muito poder e tornou-se uma pessoa arrogante e prepotente. Suas encrencas foram registradas publicamente pelo Jornalista João Crisóstomo Pacheco e pelo Padre José Locks. Pacheco menos discreto, publicava tudo no jornal; já o padre, sem mídia, só restava lamentar-se nas missas e aos seus superiores. Ele escrevia às vezes para o Bispo Domingos Paiva, outras vezes ao Monsenhor Francisco Topp. Através de suas constantes cartas de reclamação, ficamos sabendo que as brigas e discórdias

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com Benjamim, se arrastaram por vários anos, até a morte do superintendente em 1920. É mais um grande líder na história do Município que faleceu sem receber as exéquias por discórdias com o padre local. Benjamim também não se dava com o Padre Carlos, nem com Padre Geraldo, muito menos com José Locks. Não sabemos quem fez suas cerimônias fúnebres. Seu próprio jornal anunciou que foram feitas exéquias em grande estilo na Capital do Estado, realizada pelo Monsenhor Francisco Topp. Na verdade, Benjamim Vieira usou da desculpa que queria um padre provisionado para não deixar o Padre José Locks entrar na cidade, pelo simples fato de não gostar dele. Essas brigas resultaram em uma enxurrada de cartas para o Governador e para o Bispo, oriundas de populares, apoiando um ou outro lado. Padre José Locks relata, em uma de suas cartas ao Monsenhor Francisco Topp, que Benjamim era um homem muito cruel. Já o popular Joaquim Hipólito da Rocha diz, em outra carta ao monsenhor, que Benjamim era um homem muito “falço”. [sic] Benjamim Vieira, envolvido em um dos episódios mais insólitos de sua administração, sequestrou todo o dinheiro do salário e alguns bens do Padre Locks, alegando que só entregaria o pagamento a “um padre que fosse de Camboriú”. Em carta ao Coronel Marcos Konder, Benjamim confessa que impediu mais de 50 batizados e 10 casamentos, só naquele ano, enquanto aguardava o novo vigário para fazer tais cerimônias. Por essa e outras razões é que Benjamim vinha perdendo apoio popular, pois o povo estava sendo muito prejudicado. Por exemplo, as pessoas que quisessem se casar, tinham que ir a Itajaí e isso era muito dispendioso. A prepotência de Benjamim não tinha limites. Reiterando a acusação do padre, o senhor Joaquim Hipólito da Rocha confirma que Benjamim andava frequentando a Igreja Presbiteriana:

Na festa de natal, visitou o templo dos protestantes, acompanhado de musica e de alguns de seus escravos.105 Mas em outros tempos, para provar a necessidade de

um vigário próprio, fala dos perigos do protestantismo. E disse mais: Creia V. Rvmª que o povo desse município está deveras revol-

tado contra o infame proceder do snr Benjamim e seu genro Heitor. Frequenta com sua famª as conferencias dos evangélicos neste Municipio no Rio Pequeno,* o que venho alegar a sua rvmª e pura verdade, tanto que se quer V. rvmª certificar-se se 105

Uma forma pejorativa de se referir aos empregados e capangas de Benjamim Vieira.

*

A título de curiosidade, a Igreja Presbiteriana do Rio Pequeno é uma das mais antigas do Estado, fundada aproximadamente em 1905.

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não é verdade, pode mandar ouvir a opinião publica desse lugar. Com respeito – V. Rvmª Camboriú 16/01/1915 – Joaquim Hipólito da Rocha.

Antes de terminar a carta que estava escrevendo ao Monsenhor Topp, chega uma visita ao Padre Locks e ele redige um post scriptum ao texto, para relatar ao monsenhor que estava recebendo essa visita e que essa pessoa tinha o intuito de lhe prestar solidariedade. Nesse “P.S.” Padre Locks pede sigilo acerca da pessoa que o visita. Diz ele a sua reverendíssima: “Póstscriptum: A visita pede para não contar nada de sua visita ao senhor Benjamim, porque ele pode me botar novos impostos, insultos e até cadeia” - completa o padre em sua missiva.

Benjamim de Sousa Vieira - o maior político da História de Camboriú*

*Em 1886 foi nomeado procurador-tesoureiro da Câmara Municipal, em 1890 e 1894 foi indicado para Comissário de Polícia, em 1895 é eleito para o Conselho Municipal, em 1899 foi eleito Superintendente Municipal pela primeira vez, em 1903 foi eleito Superintendente Municipal pela segunda vez, em 1907 é novamente conselheiro, em 1911 foi eleito Superintendente Municipal pela terceira vez, em 1912 foi eleito deputado estadual, em 1915 foi eleito Superintendente Municipal pela quarta vez, em 1919 foi eleito Superintendente Municipal pela quinta vez, falecendo em exercício do cargo.

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FINALMENTE A MATRIZ DO ESPÍRITO SANTO Apesar de boa parte da história a Paróquia de Camboriú ser tratada apenas de Capela do Garcia, a Igreja Matriz do Divino Espírito Santo de Camboriú, já recebeu esse nome desde a promulgação da Lei Nº 1024, sancionada pelo Presidente da Província, Doutor Theodoreto Carlos de Faria Souto. O Artigo primeiro diz o seguinte:

Fica autorisado o cidadão Manoel Anastácio Pereira e outros para a e r e ção de uma capella sobre a invocação do Divino Espírito Santo e um cemitério em terrenos doado pelo cidadão Marcelino José Bernardo, na Freguesia de N. S. do Bom Sucesso de Camboriú no lugar Garcia, precedendo ás licenças do ordenário na forma da Constituição do Bispado.

A Capela do Garcia não havia sido provisionada e o Padre Peters não desistia de lutar para que ela fosse transformada em paróquia. A Diocese prudentemente conduziu o processo com relativa moderação, não obstante a ansiedade do povo do Garcia. Apesar de os esforços do Padre Peters não terem dado em nada, a Vila do Garcia deve muito à luta desse homem, sempre em defesa da Paróquia do Divino Espírito Santo. No final dos anos 30, o Garcia começava evoluir, ao passo que a Barra iniciava seu declínio, portanto estava passando da hora dessa igreja ser emancipada. No entanto, precisou-se substituir de vez a velha e acanhada capelinha e construir uma igreja nova, grande e moderna, para que recebesse a provisão de Paróquia, isso já na Década de 1940. Com o passar dos anos, novos membros foram se inserindo na sociedade. Nativos e estrangeiros, que não fizeram parte dessa controversa secessão, encarregaram-se de serenar as contrariedades. Esses novos cidadãos foram desarmando seus espíritos e aceitando a situação. Consta no site da Arquidiocese que, em 26 de setembro de 1931, o Pe. José Locks tomou posse como Vigário Encarregado das Paróquias de Camboriú e Porto Belo. Em 22 de dezembro de 1931, uma carta de Padre José Locks, dirigida ao Senhor Arcebispo Metropolitano, pedia aprovação de uma planta para a construção da nova Igreja Matriz da Paróquia. Em 11 de julho de 1938, Padre José Locks passa a residir na Paróquia do Santíssimo Sacramento de Itajaí, de onde continua a paroquiar Camboriú e Porto Belo.

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CAMBORIÚ - BERÇO DA REPÚBLICA EM SANTA CATARINA Consideramos Camboriú como berço da República em Santa Catarina, porque foi aqui, entre bravos e intrépidos políticos, que o grande propagandista do novo regime, o Deputado Federal Paranaense Manoel Correia de Freitas, encontrou as pessoas mais dispostas a enfrentar o Governo de Pedro II em toda Santa Catarina. Certamente o fato da prepotência do Padre João Rodrigues e sua intransigência sobre a questão da transferência, tenha contribuído para que houvesse um grande número de adeptos ao novo regime na Vila Garcia. O tal propagandista do novo Regime encontrou aqui um grupo disposto a fundar um clube republicano. No dia 1º de maio de 1887, na casa de Manoel Ayrozo, fundou-se o primeiro Clube Republicano de Santa Catarina. O ideal republicano reuniu quase todas as principais lideranças políticas de Camboriú, independentemente de partidos políticos. O novo propósito político fez sentar à mesma mesa e comungar os mesmos ideais, opositores como Manoel Anastácio Pereira e Marcelino Bernardes, Benjamim Vieira e João Crisóstomo Pacheco. A famosa reunião dos republicanos deu-se em um lugar que conhecemos como “Encruzo do Braço”. Trata-se da bifurcação que leva ao interior do município. Um lugar estratégico, na confluência das duas principais rotas que levavam aos principais bairros do interior de Camboriú. Na época, essas localidades eram bastante povoadas e ficavam bem longe da Praia e da Barra, notórios redutos monarquistas comandados pelo Padre João Rodrigues de Almeida. O evento deu-se no comércio de Manoel Anastácio Pereira Airoso, que ficava num ponto comercial muito movimentado. Manoel Ayrozo tinha um poder de mobilização muito grande e morava em um lugar estratégico onde todos os interioranos tinham que passar. Sua casa foi alvo de grandes eventos políticos e lugar muito desejado para se fazer comícios no passado. O Jornal O DEMOCRATA do João Pacheco, relembra a campanha republicana com a seguinte manchete:

O TRADICIONAL MUNICÍPIO DE CAMBORIÚ ADHERINDO A FORMA REPUBLICANA FEDERATIVA- Cabe ao nosso querido Camboriú a glória de ser o primeiro município do Estado que ainda sobre o jugo do antigo regimem monarchico, soube expandir-se glorioso e forte. Tendo a sua frente um grupo de heroes e como presidente o saudozo e innesquecivel morto Manoel Anastacio Pereira, dando seu alto brado a causa santa da liberdade, fundou no dia 1º de maio de 1887 seu Club Republicano Federativo.

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No final do Século XIX as notícias andavam mais devagar, e essa da Proclamação da República não foi diferente, também demorou um pouquinho a chegar. Apesar de Joaquim José Rebelo, Presidente da Câmara, não ser republicano, não teve outra opção senão aderir ao regime. Logo na primeira reunião que dirigiu sob o regime de governo, ordenou ao secretário José Florêncio da Silva que proclamasse adesão e lealdade da Câmara à República. José Florêncio da Silva alcançou a porta principal do edifício e deu vivas ao povo brasileiro, viva à República Federal Brasileira, ao Estado Federal de Santa Catarina, ao Exército, à Armada, ao Governo Provisório do Rio de Janeiro e ao Governo Provisório de Santa Catarina; vivas aos políticos, aos presentes e a todos os vereadores. O povo compartilhou as loas ao novo regime jogando seus chapéus para alto ao estrugir de foguetes. Com a República, a Igreja perdeu poder, as províncias mudaram para Estado, as câmaras mudaram para intendência e as pessoas que estavam no poder também mudaram. A Câmara foi dissolvida por força de uma resolução do Governador Lauro Müller. A denominação de Presidente de Província, mudou para Governador do Estado.

A CASA COMERCIAL DE MANOEL AYROZO. Nela foi proclamada a República pela primeira vez em Santa Catarina no dia 01 de maio de 1887 e ainda se mantém intacta e original. Uma bela relíquia da história republicana em terras camboriuense.

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Dia 7 de janeiro de 1890, o Governador Lauro Müller baixa uma resolução, dissolvendo todas as câmaras municipais em Santa Catarina. No dia 10 de janeiro chegava a comunicação à nossa Câmara e o Presidente Joaquim José Rebelo, obrigou-se a ler o seu próprio afastamento e os demais colegas e funcionários, pelo novo regime. Foram os mesmos que dias antes, estavam proclamando na porta da câmara “vivas” pra todos, mas especialmente para o novo governador republicano que os demitiu. Revelou-nos dona Izaura Linhares, moradora antiga da Barra, que seu pai contava que o Padre Almeida, presente à sessão, divertia-se às pamparras com as trapalhadas do novo regime. Dona Izaura confirma que o Padre Almeida era muito respeitado pela sua cultura política. Dizem que quando Joaquim Rebelo leu o telegrama relativo à sua própria demissão, o padre soltou uma sonora gargalhada e bradou: “Bem feito - puxa-saco de incrédulos!” E ria-se a valer, divertindo-se com as confusões do novo governo que penava para se entender com a burocracia implantada. Foram demitidos o Presidente Joaquim José Rebelo; o Vice-presidente Joaquim Anastácio Pereira e os membros Cândido Gonsalves Chaves, Silvano Bento Garcia, Marcos Rodrigues Pereira e Felipe Francisco Ramos, que deram lugar aos novos intendentes: Manoel Anastácio Pereira- que se tornou Presidente da Intendência, Marcelino José Bernardes - vice-presidente e os membros: Manoel Ignácio Linhares, Luís Anastácio Pereira e Cândido Gonsalves Chaves que permaneceu.

Uma reunião política na casa de Manoel Ayrozo. Na frente da turma, ao centro, ostentando a ata histórica o Coronel Benjamim Vieira.

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PRIMITIVOS CAMINHOS E AS PRIMEIRAS ESTRADAS Hoje sabemos que a América pré-colombiana era servida por uma malha viária de caminhos seculares, que afluíam a um tronco principal chamado Peabiru. Esse caminho imêmore pode ter sido uma construção de antigos povos peruanos que, segundo uma lenda quíchua, seus antepassados adoradores do Sol, resolveram abrir um caminho para atingir a nascente do astro rei, acreditando que lá estivesse o paraíso. Desviando do Pantanal, esse caminho desce pelo Paraguai, atingindo praticamente todo o Estado do Paraná, vindo dar na cidade de São Francisco do Sul. Até final do Século XIX, qualquer um que quisesse adentrar ao interior da América, era necessário trafegar por essa via. Esse era o eixo leste-oeste, mas ainda existe outro geral que corta o País de norte a sul, geralmente se utilizando das praias como leito. Desse último, há resquícios, aqui em Balneário Camboriú e logo tornaremos a falar disso. Os jesuítas perguntaram aos indígenas quem construiu esse caminho tão espetacular. Os índios responderam que fora um tal de Tomé, um homem barbudo, que veio da banda do mar e que pregava um Deus único e invisível. Fez diversos milagres e que deixou diversos recados escritos nas pedras aos seus sucessores. Imediatamente os jesuítas identificaram esse pregador como sendo São Tomé, discípulo de Jesus, que houvera chegado antes deles, aqui na América. Ao todo foram mais de 20 jesuítas que escreveram acerca da presença do Santo e, como de costume, rebatizaram o nome do Caminho Peabiru, para Caminho de São Tomé. Por volta de 1518, no retorno da malfadada expedição de Juan Diaz Pedro de Solis, o navio naufraga na Ilha de Santa Catarina. Um dos náufragos, o português Aleixo Garcia, em companhia de alguns índios, empreendeu uma viagem até o Peru, por esse caminho e teve a honra de ser o primeiro europeu a conquistar os Andes. Sabendo dessa fantástica aventura de Aleixo Garcia, Dom Alvar Nunes Cabeza de Vaca, primeiro governador do Paraguai, fez esse trajeto até Assunción e descreveu a viagem em um livro chamado “Comentários”. No livro São Tomé - A Lenda do Apóstolo na América - tratamos desse assunto com mais detalhes. Vindo do sul, esse ramal é bem visível ainda em Balneário Camboriú. O caminho passa pelo nosso litoral e ainda está intacto na Praia do Corrêa, a Prainha. Atravessa o Morro do Corrêa e chega à Praia do Buraco. Sempre que possível, os antigos se utilizavam das areias das praias como caminho, pois já era uma trilha natural, o que economizava esforços para mantê-la limpa. Por

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causa da construção de um deck , contornando o morro pelo costão até a Praia do Buraco, o povo desprezou a trilha do antigo Peabiru. Relatos antigos dão conta da existência desse caminho há muito tempo. Um desses relatos dão conta de que durante a Revolução Federalista, os jovens que não queriam se alistar escondiam-se no alto do Morro do Corrêa, no Canto da Praia, onde tinham uma ampla visão da marcha das tropas, em especial as que vinham do Sul. Eles recrutavam crianças para ficar à espreita e também para levar comida aos moços. Faziam uso de crianças espertas, bem instruídas, denominadas “pinante”. Caso o pinante fosse flagrado, esperava contar com a complacência dos soldados por ser criança. Quanto menor fosse a criança, mais convicção passaria de sua inocência. Uma dessas crianças usadas como pinante, na Revolução Federalista, foi Manoel Germano Corrêa, filho de Germano Pinto Corrêa, morador na boca desse caminho, no Canto da Praia. O pinante ‘Manequinha’, muito esperto e vigilante, adorava o serviço que fazia. Ele mesmo contava suas proezas nesta função, juntamente com seu inseparável amigo José Nicolau Pacheco. O fato de seu pai, Germano Pinto Corrêa, estar agonizante, acometido por uma doença que meses mais tarde o levou à morte, pode tê-lo livrado de uma dessas abordagens. O interrogatório do chefe dos guerrilheiros era severo e intolerante. Se os soldados descobrissem que era um pinante, faziam uso de tortura até delatar e mostrar o esconderijo. O menino José Nicolau foi flagrado na vigia e foi interrogado. Alegou ser morador no local e que estava a cuidar do colega menor pois seu pai estava muito doente em casa. O soldados foram conferir o estado de saúde do seu Germano Pinto Corrêa. Assim que os revoltosos constataram a veracidade do fato, pediram desculpas à dona Ana Maria de Espíndola, esposa do enfermo. Desculpados, os revoltosos seguiram rumo a Itajaí, onde promoveram até degola de políticos itajaienses. Em 1930, já homem feito, Mané Germano comandou a mesma logística, escondendo nossos jovens das tropas do General Izidoro Dias Lopes. Dessa vez quem fez o papel de pinante foi o seu filho, Germano Corrêa. Ele também narrava suas peripécias no cargo. Contava que seu pai instalou um “telefone”, que denunciava aos jovens no esconderijo, da presença de pessoas andando no caminho. O tal telefone consistia de uma lata com pedras, amarrada a um discreto fio que atravessa esse caminho. Ao pisarem na linha, os transeuntes derrubavam a lata com as pedras que alertava os jovens no interior da mata. Mas dessa vez, Germano não precisou passar por nenhum interrogatório. Tudo isso aconteceu aqui no Canto da Praia, na “Boca do Caminho”, passagem obrigatória para Itajaí. Atualmente podemos dizer que ficava no início da atual Estrada da Rainha, que deveria ser “Estrada da Prainha”, pois era o caminho que dava acesso ao Portinho da Prainha, aonde morava seu Germano Pinto Corrêa.

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É compromisso explícito, na carta da sesmaria de Baltazhar, a abertura, ampliação e manutenção dos caminhos. Como essa estrada estava dentro dos limites de uma das suas sesmarias, ficou conhecido por Caminho do Corrêa, conforme relatam antigas escrituras. Esse caminho unia a Praia Mansa à Praia Brava, passando pela Praia do Buraco, ligando essas localidades entre si. Manoel Germano Corrêa, em entrevista ao jornalista Norberto Cândido da Silveira Júnior, em 1952, para a compilação do livreto Álbum Descritivo Fotográfico da Praia de Camboriú, revela que “pro Itajaí a gente ia por um picadão de cargueiro”. A região de Camboriú era recortada por esses caminhos de primitivos que os colonos europeus denominaram de travessões. Nas escrituras de terras é mais utilizado esse termo “travessão”. Os dois mais citados em escrituras do cartório de Camboriú eram os travessões do Leiteiro ou do Letreiro e o da Goiabeira, que serviu em boa parte ao traçado da BR 101. As primeiras estradas estaduais se originaram desses primitivos caminhos. O mais famoso deles foi CAMINHO DO MORRO DO BOI, para o qual vamos dedicar o resto desse capítulo.

Parte do relatório do Engenheiro João de Melo e Alvim, onde fala do Caminho do Morro do Boi. Livro de Engenheiros do Estado- 1851, APESC.

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Vindo de Porto Belo, logo que descia o Morro do Boi, o caminho passava pela Barra, e depois, contornando o rio, subia até a localidade do Garcia. De Tijucas vinha outro caminho que adentrava a Camboriú pelo Caetés por onde Madre Paulina passou caminhando em 1899. Esses dois caminhos se uniam na Vila do Garcia. Como os caminhos dificilmente atravessavam os rios, do centro de Camboriú, para alcançar Itajaí, subiam mais um pouco em direção oeste. Somente na localidade de Alemães, onde o rio diminuía sua largura e oferecia uma vau, e se podia atravessar. (veja foto do mapa p.232) Do outro lado, descia-se margeando o rio até na localidade denominada João da Costa, onde o caminho bifurcava. Um ramal se dirigia para a Praia e outro seguia para Itajaí até a Itaipava, onde encontrava nas terras de Antônio Drummond. Foi nesse trecho que este arauto da Independência andou apregoando a emancipação do País por volta de 1820. O leito desse tortuoso caminho feito pelos indígenas, contornando os principais acidentes geográficos, vai se tornar a primeira estrada estadual. O projeto foi elaborado no mandato do Presidente da Província, Feliciano Nunes Pires (18311835) e aprovado pelo Conselho Geral da Província, quase no final de seu governo.

BAIRRO DA NAÇÕES. Vê-se o traçado das ruas 1901 saindo da praia e na continuação adentrando ao bairro, as ruas Portugal e Síria

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No seu pronunciamento anual à Assembleia Provincial, o Presidente da Província Feliciano Nunes Pires assim se expressou:

Pelo que toca a estradas, limitar-me-ia as que guião de huns a outros Municípios; e della He a principal a que á beira mar segue de S. Francisco por Porto Bello, S Miguel, e S. José até a Laguna, e que serve de communicação com as Províncias de São Paulo, e Rio Grande do Sul; esta estrada atravessando grandes morros, multiplicados rios, e também algumas várzeas alagadiças apresenta por isso hum transito incommodo e mal seguro: o seu melhoramento deve ser assaz dispendioso, como dependente de calçadas, estivas, pontes e melhores embarcações do que as em uso para passagem.106 Freme do levantamento aerofotogramétrico de 1969. Na subida do Morro do Boi, já se vê as obras do traçado da BR e o antigo Caminho do Morro do Boi quase intacto.

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Correio Official Tomo VII Nº 70 30 de Março de 1835 p 278

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CAMINHO DO MORRO DO BOI Pelas suas particularidades o Caminho do Morro do Boi foi o que mais movimentou a história. As dificuldades que ele oferecia de transponibilidade, fez diversas pessoas escreverem sobre ele. Por exemplo, em virtude das dificuldades que teve em transpô-lo, o Engenheiro Van Lede comparou-o aos Andes chilenos. Exageros à parte, a serra do Morro do Boi, que Van Lede chama de Taquara-Satuba, deu muito trabalho aos governos. As dificuldades para transpô-lo faziam o povo reclamar e por isso rendeu muitos documentos. Se deu mais trabalho, gerou mais informação documental e marcou mais a história que qualquer outro. O Caminho do Morro do Boi é basicamente o mesmo trecho que hoje conhecemos da BR 101 com suaves retificações. Já citamos bastante o relatório do Engenheiro João de Mello e Alvim. O trecho que ele relata o caminho é este:

Atravessa depois a estrada, na extensão de 1 e ½ legoa, os môrros da Tapéra, da Pedra, e do Boi. Os dois primeiros são de custosas subidas, e descidas; mas não são extensos, e infelizmente só com grandes despezas se poderá melhorar o transito por elles: o ultimo, he na verdade, alem de mui longo, do mais difficil accésso, especialmente aos tempos chuvosos. Com tudo he susceptivel de melhoramento, sendo minha fraca opinião hé que deve ser abandonada a estrada actual, desde o ponto da subida,107 e mudada para a banda do mar, (direita) por onde a simples vista se reconhece muito melhor localidade. Na baixada do môrro, junto a ponta das Laranjeiras, corre o Rio Cambriú, com a largura de 35 braças, e fundo de 7 palmos, termo medio. O seo curso navegavel limita-se a uma legoa. A barra não hé bôa, e só hé franca nas altas marés a embarcações que não demandão mais do que 4 pés d’agua. O Arraial da Freguezia de Nossa Senhora do Bom Successo, há curto tempo creada, tem poucas casas. [...] Conheça o fac-similli deste documento na página 227. A conclusão desse trecho já conhecemos em outros capítulos.

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Nesse ponto o engenheiro sugere seguir para a banda do mar, à direita. O Engenheiro estava certo e mais tarde isso vai acontecer. Posicione-se o leitor bem em cima do Morro do Boi, olhando do Sul para o Norte. À direita, onde desce para o Estaleiro, direção esta que o engenheiro sugere modificar. Nesse tempo, o caminho descia à esquerda e atingia o antigo Bairro do Morro do Boi, até a estrada que hoje tem o nome José Alves Cabral e Hermógenes de Assis Feijó. Esta estrada Camboriú em direção ao Garcia.

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contornava toda a Barra e seguia o Rio


MAPA ESTILIZANDO ANTIGOS CAMINHOS Baseado em mapas e relatórios antigos. Essa era a situação dos caminhos antes de 1920

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Esse caminho é perfeitamente visível no primoroso mapa do Charles Maximilien Louis Van Lede, Engenheiro tido como fundador das atuais cidades de Gaspar e Ilhota. Van Lede registrou que, ao deixar a Praia de Itapema, teve de subir por caminhos terríveis no Morro do Boi, que ele e outros franceses chamam de Taquara-satuba. Porém, revela que escalou o Taquarassatuba sem sofrer acidentes, apesar de ser um lugar de floresta virgem de aparência imponente.

Finalmente nós descemos o morro e saindo do desfiladeiro da Taquarasatuba e descortinou-se o litoral e descobrimos o belo vale do Cambriu-Guassu regado pelo rio com mesmo nome. (Van Lede)

O Engenheiro Van Lede fala da quantidade exagerada de várias espécies de cobras, nas florestas do Morro do Boi como a jararacuçu e a surucucu. O historiador Dieter Hans Bruno Kohl, defende a tese de que o nome Morro do Boi possa advir de “M’boi”, que significa cobra em Guarani. A tese de Bruno Kohl faz sentido porque os índios davam, preferencialmente, nomes aos lugares, levando sempre em conta a relação de tamanho ou quantidade de objetos da fauna e flora existentes em um determinado local.

Esse Mapa, “Karte von Santa Catharina und Paraná ”, de Robert Jannasch, (18451919 ) retrata um caminho contornando o Rio Camboriú em direção às sesmarias de Vasconcelos de Drummond, no Itajaí Mirim.

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A PRAIA QUE NEM PARA ESTRADA SERVIA Uma coisa que fazia uma praia ser importante antigamente era o fato de ela representar um excelente traçado para ser usado como caminho. Exceto a Praia de Camboriú, pelo fato de que boa parte de sua extensão continha pelo menos sete grandes lagoas. A Lagoa da Ponta, onde fica atual Praça Tamandaré era totalmente intransponível em “tempo de cheias”. No Pontal Sul, uma enorme ruptura da margem do Rio Camboriú, onde existia o antigo Hotel Fischer, era tão grande, senão maior que a atual foz. Chamavam essa abertura de “Furado” ou “Varadouro” e foi consertada no Governo de Benjamim Vieira. Isso explica o fato de a antiga travessia do rio ser no “Poço das Pedras” e não perto da foz, como seria natural. Sempre que podiam, os antigos usavam as praias como caminho e até hoje algumas delas ainda são usadas como estradas. A nossa praia também era usada como estrada, porém somente entre o Centro e o Canto da Praia onde não existe arroios. Era muito complicado andar sob um leito repleto de lagoas ou arroios, especialmente com veículos de tração animal. No princípio do Século XX, o superintendente Joaquim da Silva Santos autorizou o senhor Pedro Guerreiro a botar uns pranchões sobre a Lagoa para dar acessar à praia. Escolheram um estreito, hoje rua 1001, para botar esse pontilhão. Por volta de 1947, Marciano Silva construiu a primeira estrada com uma ponte de verdade, capaz de passar até caminhão e ônibus, na Rua 1201. A estrada foi encomendada pela senhora Alice Schereep para dar acesso ao seu hotel.

A Lagoa da Ponta - (atualmente Praça Tamandaré).

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A ESTRADA EM 1835 Encontramos um documento no Arquivo Público do Estado, enviado pelo Presidente da Câmara de Porto Belo, ao Presidente da Província de Santa Catarina, José Mariano de Albuquerque Cavalcanti, com data de 1835, descrevendo a situação da estrada a partir de Porto Belo em direção a Itajaí. Por meio desse documento, iremos identificar certos lugares para que o leitor saiba o que o autor deste documento está querendo dizer no seu relatório:

Há na Estrada que vai para S. Francisco, no Morro no Canto da Praia de Camboriú, há um caminho que está muito mau. Ele e vai passar por dentro de um Rio o qual muitas vezes incomoda os viajantes108 Em cujo morro e Rio nem é preciso passar porque tem uma muda por uma baixada, para quem entra por Camboriú. A saber, na Praia Brava na Estrada, indo pelo interior um desvio para a praia, mas é caminho ruim por ser a areia da praia mole. Por este desvio se servem vários moradores. E para se servir ao publico, será preciso fazer endireitar o Caminho e não sabe a Câmara o quanto vai ser preciso para mudar, por duvidar se alguns moradores não se oporão e daí será preciso indenizá-los dos terrenos, só sabe que é de utilidade e por não passar morro nenhum, nem rio e nem a praia ruim.109 Há na mesma estrada, uma ponte entre Itajahy e Praia Brava que necessita fazer de novo para sua feitura há de ser preciso 90$000(noventa mil Réis) pouco mais ou menos. Consta haver uma muda no lugar da tapera a qual ser grande e tem pouco morro. E não sabe a câmara o quanto será de preciso para sua feitura e por não ter as informações precisas do dito caminho. [...]

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Para identificar esse traçado, considere o lugar onde está hoje o Hotel Marambaia. Ali era tudo um grande estuário. A foz era relativamente rasa e formava um baixio por onde os veículos atravessavam na maré baixa. Ficar refém da maré baixa era fator de”incômodo aos viajantes” que o autor se refere. Atravessando por esse “passador”, o trilho seguia a atual Estrada da Rainha até a Praia Brava.

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O autor está sugerindo a construção de um novo caminho. Para não fazer o caminho transpor “nem rio nem praia ruim”, ele está sugerindo uma passagem pelo antigo bairro Ariribá. (Caminho da Capivara) Do Ariribá, acessava-se a praia sem pegar nem rio nem praia ruim, como diz o autor.

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Mapa de Gilberto Meirinho de 1975

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TRANSFORMANDO O CAMINHO EM ESTRADA A solução para aliviar as dificuldades do Caminho do Morro do Boi foi fazer uma via alternativa ligando Porto Belo a Camboriú, chamada Estrada do Encano. Apesar de a Serra do Encano ser a mesma do Morro do Boi, seu desenho foi bem mais suavizado, com ângulo de inclinação mais baixo, facilitando a subida. A última vez que vimos falar do Caminho do Morro do Boi foi em uma carta do Coronel Benjamim Vieira ao Governador Hercílio Luz, cuja data é 16 de outubro de 1894.110 O Coronel escreveu na carta ao Governador que o Congresso Estadual aprovou o valor de 12$000,00 (doze contos de Réis) para obras em Camboriú, sendo 10 contos para a construção de uma estrada de rodagem para Itajaí, dois contos para o conserto do varadouro do Rio Camboriú e quinhentos mil Réis para a reconstrução do Caminho do Morro do Boi. Em visita a Camboriú, o Bispo Dom José Camargo Barros, em 1894, reclama dos caminhos ligando a Barra a Itajaí, passando pelo Garcia, como vimos no capítulo que trata dos ilustres visitantes. Mais tarde o missionário alemão, Padre Carlos Keilmann, que morou em Camboriú entre 1903 a 1913, retrata assim os nossos caminhos:

Tudo é montanhoso e horrivelmente selvagem. Às vezes se tem a impressão de que o caminho termina mas continua por valos de água e capoeira. Às vezes uma clareira quase imperceptível denota que ali mora gente, pois os brasileiros moram afastado dos caminhos, bem escondidos, geralmente em pequenos ranchos de pau-a-pique cobertos de folhas de palmeiras. Calcula-se em 15.000 o números de moradores da nossa região. Os caminhos são uma grande dificuldade no “abençoado Brasil”. As principais vias de comunicação já representam, em tempo de chuva, um perigo de vida, e os caminhos secundários se encontram em péssimo estado. Passase por riachos e lamaçais, por íngremes subidas e então novamente morro abaixo. Às vezes o cavaleiro precisa levantar bem as pernas, pois a água respinga até a cabeça. Outras vezes é preciso curvar-se bem para a frente sobre o cavalo, outras vezes para trás. Os cavalos andam bem seguros e também prestam bastante atenção aos muitos buracos do caminho. Não obstante, cai em um e dei uma cambalhota.111

Voltando ao assunto do orçamento de dez contos de Réis para a construção da estrada, ligando Camboriú a Itajaí, estimava-se um prazo de oito anos para seu término. No entanto como os responsáveis pelas obras públicas no Brasil, desde aqueles tempos não cumprem os cronogramas, aestrada levou mais de 20 anos para ser concluída. Indispensável dizer que aditivos sobrevie110

Livro da Câmara Municipal de Camboriú. Fac-símile na 1ª edição p. 126.

111

Valberto Dirksen – Presença e Missão Dehoniana no Sul do Brasil (1903 -1913) p 452

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ram ao orçamento, encarecendo a obra em percentuais não estimados, muito além do orçado. A preocupação do Coronel Benjamim Vieira quanto a essas estradas foi a tônica de seus vários e consecutivos mandatos à frente do executivo municipal. O Coronel Benjamim deixou praticamente equacionada a questão dessas vicinais, ligando Camboriú aos seus vizinhos. Ele foi tão focado e travou uma luta tão intensa pela abertura dessas estradas, que acabou falecendo no dia da inauguração de uma delas. Benjamim conseguiu trazer o Governador Hercílio Luz para a inauguração da obra. O Coronel foi acompanhar o retorno do Governador até o alto do Morro do Encano e, na volta, o motorista quis aproveitar o piso novinho da estrada, desenvolvendo alta velocidade no veículo. Então desgovernou-se e bateu na cabeceira de uma das pontes e o Coronel veio a falecer dias depois em virtude de um forte traumatismo craniano. Com a abertura da Estrada do Encano, o Caminho do Morro do Boi foi sendo abandonado, até que passou o traçado da BR 101. A estrada Camboriú-Itajaí, segundo documentos apresentados pelos governadores, começou no centro de Camboriú.

Em 6 de janeiro do anno corrente, com Luiz Anastacio Pereira para a construcção de uma estrada de rodagem, entre a Villa de Camboriú e a cidade de Itajahy. Os trabalhos dessa estrada vão muito adiantados, tendo sido já recebidos os 2 primeiros kilometros a partir da vila de Camboriú.112

Pelas mensagens que os governadores apresentavam à Assembleía Legislativa, ficou bem claro que o trecho Camboriú-Itajaí iniciou bem antes que o trecho Porto Belo-Camboriú (Estrada do Encano) e mais tarde ainda foi iniciada a ligação Camboriú-Brusque pela Limeira. A polêmica em relação à construção da estrada Camboriú-Itajai, ganhou repercussão nos principais jornais de Itajaí. Os jornais O PHAROL e o NOVIDADES, iniciaram um grande debate acerca do traçado. Um defendia que fosse pela Canhanduba e outro pelo Canto da Praia. Na verdade esses jornais tão somente refletiam a opinião dos seus melhores patrocinadores. Um queria que o traçado passasse pela Canhanduba, terra dos Müller; o outro pela praia, terras dos Konder, do qual Benjamim Vieira era correligionário, portanto, foi o traçado para agradar os Konder que Benjamim optou. Longe dessa história e desse tempo, verdade seja dita, o traçado da Praia era o mais sensato e atendia a maioria da população. Tanto foi sensato que até hoje, mais de 100 anos depois, 112

Mensagem apresentada ao Congresso Representativo do Estado, pelo Coronel Antônio Pereira da Silva e Oliveira, em 18 de setembro de 1906, p. 35.

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salvo a retificação da “Variante pro Itajaí,” no Canto da Praia, a estrada permanece com o mesmo traçado. A verba foi liberada em 1894 e a obra foi concluída somente em 1920. Nesse período, morreu o contratador Luis Anastácio Pereira, em 1915 e o Superintendente Municipal Benjamim Vieira em 1920. Depois da construção de uma estrada geral, havia necessidade de um acesso direto à praia. Foi aí que o velho Caminho do Arame deu lugar à atual Avenida Central. Dizia-se Caminho do Arame porque foi uma servidão entre duas cercas de arame que dividia dois grandes latifúndios: um de propriedade dos senhores Antônio Bittencourt ao Sul e José Bernardes ao norte. Somente por volta de 1940, o prefeito Flávio Vieira iniciou de fato a primeira ligação entre a Estrada Geral e a praia. A estrada acabou se chamando “Rua do Flavinho”. Atualmente se chama Miguel Matte. O contratado para fazer a estrada foi Marciano Francisco Silva, que se especializou nessa função. As primeiras ligações entre a Estrada Geral e a Praia foram construídas por Marciano Silva.

Lagoa da Ponta. (Praça Tamandaré). Vê-se o Restaurante e Bar San Remo (ex- terraço Boa Vista). Atualmente Edifício San Remo.

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A ESCRAVIDÃO EM CAMBORIÚ A comunidade cativa de Camboriú variava em mais ou menos em 10% da população que oscilava entre duas a três mil almas nos primórdios do povoamento até no final da escravatura. Estimamos a média de uma população flutuante em torno de 200 a 300 escravos na cidade de Camboriú. Não há registros formais de maus tratos contra negros em Camboriú, além do caso da Alexandrina, cujo senhor descascava as solas dos pés, porque ela era muito fujona. Pelo menos é o que nos informou o senhor Idalício Caetano, o mais antigo descendente de escravos que conhecemos nos anos 80. Seu Idalício foi nosso principal informante para a pesquisa que resultou na publicação do Livro A Escravatura em Camboriú de 1998. Como exemplo de bons relacionamentos entre senhores e escravos, temos o testemunho do próprio senhor Idalício, cujos pais serviram ao senhor Joaquim Anastácio Pereira. Seu Idalício fala com emoção da sua generosidade. Mostrou-nos a área em que ele mora e garante que foi doada aos seus ancestrais como indenização depois que foram libertados. O caso mais curioso do período escravagístico nos parece ser o fato de a escrava Francisca, de propriedade da viúva Vicência Roza de Jesus, que deu luz a duas meninas gêmeas, Gregória e Felisbina, no dia 12 de março de 1870. Oito dias depois nasceu o terceiro filho, o Balbino. Nenhum dos trigêmeos sobreviveu ao ano seguinte. Por sinal, o óbito da menina Gregória ocorreu no último dia do ano seguinte, ou seja, 31 de dezembro de 1871. No dizer do seu Idalício, a menina “se finou no derradeiro de ano”. A causa mortis foi febre intermitente. Os registros da igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso informam o batizado de um menino chamado Domingos, no dia 09 de novembro de 1870, na localidade de Bicheira, filho da escrava Romana, propriedade de Jeremias Francisco Garcia. A criança faleceu de uma moléstia que chamavam de gastrozes, exatamente no dia de seu primeiro aniversário, em 09 de novembro de 1871. Compilamos diversos relatórios com dados retirados dos livros da igreja e eles informam que as vermes foram a principal causa-mortis das crianças escravas. Pelo menos 10% delas foram declaradas mortas por esta doença tão banal. Já entre os adultos a febre amarela ceifou a maioria deles. Apenas uma morte foi por assassinato e uma mulher que morreu no parto. No período em que a igreja iniciou seus trabalhos, até o final da escravidão, o capitão Tomás foi o senhor que mais perdeu escravos por morte, chegando a nove. A escrava de nome Afra, de Tomás Garcia, e a Emiliana, do Capitão Tomás, foram as mães que mais tiveram filhos.

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O escravo mais caro na história de Camboriú foi Izidoro, de 24 anos, cujo comprador, Guerino Francisco Bernardes, pagou a bagatela de um conto e duzentos mil Réis (1$200.00) para o vendedor, o Capitão Tomás Antônio Pereira, do Estaleiro. A história não está bem clara no texto da escritura. Fala-se em fuga do escravos, mas não dá pra entender o que aconteceu. Com um conto e duzentos mil Réis o cidadão compraria, à época, as melhores glebas de terras em Camboriú. Depois disso, a mais cara foi a escrava Felipa. Por ela, o comprador pagou 1$000.00 (um conto de Réis) e foi vendida para Manoel Vieira Fernandes de Porto Belo, junto com suas três filhas: Maria, Magda e Cândida. A média de preço de um escravo podia variar entre 300 a 700 mil réis. Os mais baratinhos podiam sair por menos de 50 mil Réis, geralmente muito velhos, doentes, deficientes ou muito criança. O bairro de Camboriú que tinha a maior população de escravos foi o “Macacos”, na época também chamado de Sertão e às vezes Sertão dos Macacos. Por sinal, esse nome é um pejorativo, justamente relacionado à quantidade de escravos que ali residiam. Mais tarde mudaram o nome do lugar para Vila Conceição. Em segundo lugar, aparece o Canto da Praia, o único que ainda restam alguns remanescentes. Contou-nos, certa vez o senhor Antônio Manerik, conhecido como Antônio Alemão, recém falecido, nativo da localidade de Caetés, que o escravo Vitálio, de propriedade do senhor Cypriano José Bernardes, amanhecia muito “estragado”. Estragado era uma gíria antiga que significava, cansado, fatigado. Dizia Antônio Alemão que Vitálio vivia o tempo todo se espreguiçando e com uma “abriceira de boca” muito grande. Mas por que, se ele tinha o mesmo período de descanso dos demais? O seu senhor resolveu espioná-lo para certificar-se do que se tratava e acabou descobrindo que ele fugia todas as noites para namorar. Seu Cypriano decidiu algemá-lo a um pilão. O castigo não deu resultado, aliás, parecia pior ainda. Todos os dias o escravo Vitálio acordava ainda mais “estragado” e bocejando. Com a consciência pesada que poderia ter cometido uma injustiça, outra vez seu Cypriano obrigou-se a espioná-lo. Para sua surpresa, flagrou o escravo fugindo de dentro da senzala com o pilão nas costas, para namorar durante a noite. O maior proprietário de escravos foi Tomás Francisco Garcia. Nos relatórios constam pouco mais de 10 escravos. Seu biógrafo, José Mendes, diz que sua escravaria compunha-se de mais de 40 indivíduos. A nossa pesquisa se baseia em dados oficiais. Alguns escravos que não foram negociados em nosso cartório, nem tiveram nenhuma atividade religiosa em nossa capela, evidentemente, não foram computados. É muito provável que a estimativa de José Mendes esteja pelo menos próxima disso. O segundo maior proprietário foi o Capitão Tomás

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Antônio Pereira, do Estaleiro. O maior traficante por esta região foi Porfírio Ignácio dos Santos. Mas é bem provável que Anacleto Pereira trouxesse alguns deles, mesmo que tenha sido comércio interno. O memorialista Antônio Costa Flores, revela, na entrevista a Pedro Ferreira que veio do Rio Grande do Sul em 1840, na Sumaca Aurora, de propriedade de Anacleto Pereira, “carregada de ne-

gros africanos, guardados no porão, tendo uma tábua atravessada na altura dos peitos.”113

O cartório de Camboriú iniciou suas atividades em 1860, portanto é o mais antigo do Brasil que se tem conhecimento. Em seus livros estão registrados mais de 100 proprietários e 22 alforrias. Desde a criação da Freguesia de Bom Sucesso, até a abolição, nos registros da Matriz constam 119 nascimentos, 121 óbitos e 2 casamentos. Parece pouco, dois casamentos, e de fato era, pois os enlaces entre escravos era mesmo muito raro. No nosso caso, um desses casamentos não era totalmente entre escravos. O noivo era um escravo alforriado e ela uma senhora branca. Jean Louis Odolphe Agassiz foi um biólogo suíço que veio para o Brasil, em 1865, a fim de colher acervo para o museu de Cambridge, escreveu o livro “Viagem ao Brasil 1865-1866”. No livro ele discorre sobre um casamento entre escravos, que achamos interessante transcrevê-lo:

Tive ocasião de assistir, faz alguns dias, nas cercanias do Rio de Janeiro, ao casamento de dois negros. O senhor tornara obrigatória a cerimônia religiosa, antes irreligiosa, penso eu. A noiva, preta como piche, estava vestidas de musselina branca e trazia um véu dessa renda grosseira que as próprias negras fazem. O noivo vinha vestido de tecido branco. A jovem parecia, e realmente estava, penso eu, muito pouco à vontade, porque havia muitos estranhos, e a sua posição não deixava de ser embaraçosa. O padre, um português de ar arrogante, olhar ousado, interpelou os noivos, e, com precipitação menos respeitosa, lhes dirigiu algumas rudes palavras, sobre os deveres do matrimônio, interrompendo-as várias vezes para censurar a ambos, e principalmente a ela, porque praticava os ritos com tanta rudeza e brutalidade quanto ele. Mais em tom de imprecação de que de prece, ordenou-lhes que se ajoelhassem diante do altar; depois, tendo dado a bênção, ruiu um amém. Jogou ruidosamente o livro de orações sobre o altar, apagou os círios e despediu os recém-casados da mesma forma que teria expulsado um cão para fora da capela. A moça saiu sorrindo através de lágrimas.[...]Se essas pobres criaturas refletissem, que estranha confusão não se faria em seu espírito![...] Que monstruosa mentira lhes deve parecer todo esse sistema, se alguma vez for objeto de sua meditação.114 113

114

Pequena História de Itajaí – 2ª Ed. p 112. Jean Louis Odolphe Agassiz “Viagem ao Brasil 1865-1866”.

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Através das crônicas de Juventino Linhares nos jornais de Itajaí, conhecemos a história da ex-escrava Tereza. Juventino Linhares tornou-se jornalista e escreveu dezenas de crônicas relatando a história de Itajaí, onde se criou e recebeu toda a sua identificação cultural. Uma das suas crônicas mais extensas e talvez a mais emocionante, trata da história da Tereza, ex-escrava de seu avô Augusto Feijó e Silva, antigos moradores da Freguesia de Bom Sucesso de Camboriú. Por isso, era conhecida como Tereza Feijó, porém seu verdadeiro nome era Tereza Romana de Jesus. O Jornalista conta que Tereza e a família de seu avô conviviam harmoniosamente. Por ocasião da Revolta Federalista que sangrou o Estado de Santa Catarina no final do Século XIX, seu avô, herói da Guerra com o Paraguai, alcovitado por delatores do regime como sendo um federalista, teve sua vida investigada pelos legalistas. Ao saber da chegada das tropas do governo na Barra, Feijó teve que esconder-se no mato. As tropas legalistas deram um “plantão” na cidade e flagraram Tereza com comida que iria levar ao patrão que estava escondido nos matos. Ao sofrer questionamentos das tropas sobre o tal esconderijo, Tereza se negou terminantemente a delatar o ex-patrão. Por isso foi torturada e abandonada no caminho. Sentindo a falta da ex-escrava e já imaginando o pior, foram procurar Tereza e a encontraram moribunda. Com muita sorte Tereza sobreviveu. O PELOURINHO. Desenhado pelo memorialista José Mendes da Costa Rodrigues

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O fim de Tereza não foi o melhor que pudesse acontecer aos negros forros. Mais tarde ela mudou-se para Itajaí e abriu um prostíbulo, ficando conhecida na cidade como Tereza Pança, porque no dizer de Juventino Linhares, Tereza era bastante gorda e avantajada.115 A maioria dos escravos da nossa região foram trazidos da Costa Leste da África, em especial Moçambique, pelo traficante Porfírio Ignácio dos Santos. Alega-se que os escravos da Costa Leste eram mais baratos, menos valorizados em virtude do frete ser mais caro. Existem diversos testemunhos de que este homem era extremamente malvado. Diziam até que ele navegava contra o vento para maltratar os escravos pelo esforço no remo. O senhor Nelson Santos, da localidade de Zimbros, em testemunho gravado para o livro A Escravatura em Camboriú, afirma que quando jovem morou na casa que foi de Porfírio. Ele conta que Porfírio não usava bois no arado, cangava seus próprios escravos. Cansado de tanto sofrimento, um de seus escravos, de nome Julião Lama, amolou um arco de barrica e destripou o facínora. Temos informação que a família de Julião Lama, veio morar em Itajaí, no Bairro Fazenda. Na época do depoimento de Nelson dos Santos, ele ainda morava nas terras que foram de Porfírio, na Praia do Cardoso. Diz Nelson dos Santos que ele se casou com uma milionária de nome Maria, em Portugal e logo a trouxe a moça para o Brasil. No meio do Atlântico ele a matou e lançou seu corpo ao mar, só para ficar com o seu tesouro. Evidentemente que o ato foi testemunhado por alguns escravos que serviam na tripulação. Quando estava perto da costa, conta Seu Nelson que matou os escravos também para que ninguém testemunhasse, ficando apenas com o capataz que era seu cúmplice. Quando recebia cartas do pai da moça, ele as respondia dizendo que ela estava bem e muito feliz. Passado algum tempo, revelou aos pais que Maria falecera. Se isso foi verdade, aconteceu depois do seu casamento com Francisca Rosa. Porfírio casou com Francisca no dia 7 de maio de 1827.116 Este casamento foi realizado pelo capelão de Canasvieiras, Bernardino José do Espírito Santo e a cerimônia foi realizada às 11 horas da manhã. Porfírio era filho de Ignácio Francisco dos Santos e de Bárbara Maria e foi batizado na Freguesia de Santa Ingrácia na cidade de Lisboa. Essa esposa era filha do Capitão José de Andrade e dona Roza Joaquina, natural e batizada na Matriz de Desterro. Por volta de 1865 ele cometeu um estupro contra uma moça solteira cujo nome era Maria Germana das Neves de Camboriú. A moça gerou o filho mas não pôde criar. Ela então “enjeitou” o bebê na porta da casa de um tal José Ignácio Fiel, morador do Tabuleiro, capataz de Maurício Pinto Corrêa. O garoto foi adotado 115

Juventino Linhares – O que a Memória Guardou pp 305 a 310

116

Livro nº 1 da Freguesia de Nossa Senhora das Necessidades e Santo Antônio.

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por Maurício Pinto e foi batizado em 14 de fevereiro de 1867, e recebeu o nome de Germano Pinto Corrêa , em homenagem à sua mãe Maria Germana.117 Um dos casos de maior repercursão, no período da escravidão em Camboriú, foi o crime do escravo Paulo. O casal José Francisco Garcia e dona Anna Garcia mantinha em casa um escravo por nome Paulo, de 17 anos. No dia 28 de janeiro de 1885, dona Anna acordou cedo como de costume, por volta das 5h. Ela deu uma volta perto da casa em busca de gravetos para iniciar o fogo. É possível também que ela tivesse a intenção de encher a chaleira de água, junto a um ribeirão que passava nos fundos de sua casa. Nesse momento, o jovem Paulo, sem nenhum motivo aparente, deu-lhe uma cacetada na cabeça e perfurou seu peito com um “varão de chapéu-de-sol” (cabo de guarda chuva) atingindo-lhe o coração. O caso foi notícia em todos jornais da Província. Seu José declarou à polícia que deu pela falta da esposa, que não o chamou para o café, levantou-se e foi até a cozinha. Lá estava Paulo sentado à beira do fogão, com as duas mãos no queixo, dizendo estar com dor de dente. O proprietário perguntou onde estava a esposa e ele disse que não sabia. José Francisco disse ao delegado que pressentindo algo de ruim no ar, nem mandou o escravo atrás dela, ele mesmo saiu à procura da esposa e a encontrou morta, com uma perfuração na cabeça e espetada por um varão. Desesperado, voltou à casa para pedir socorro ao próprio Paulo. Como Paulo houvera desaparecido também, José Francisco logo suspeitou do escravo. Paulo fugiu, mas foi capturado rapidamente. No seu depoimento à polícia, contou em detalhes a ação do crime e o Promotor Manoel dos Santos Lisboa, sentenciou: “Paulo é um perverso! Tudo esqueceu só para dar expres-

são aos seus instintos de fera. À vista do exposto, vem a promotoria pública oferecer esta denúncia para ser o réu punido com as penas do Artigo 1º, da Lei de 10 de junho de 1835”.118

Passado um tempo, Paulo não recebeu nenhuma ajuda nem visita de ninguém na cadeia, em Itajaí. Como escravo não poderia ir direto ao delegado se não estivesse acompanhado de um branco. Paulo chamou o carcereiro e disse que tinha algo novo para contar. O delegado resolveu ouvi-lo e Paulo “abriu o bico”. Contou que foi José Francisco quem mandou matar a esposa em troca de sua liberdade. O motivo que Paulo alegou foi convincente. Ele disse que o senhor José Francisco estava de caso com a nora, Isabel, e que a moça estava grávida do próprio sogro. A esposa estava suspeitando e ele precisava dar fim à mulher. A descoberta do caso provocou um alvoroço sem precedentes na cidade! O juiz rea-

117

Livro de registro de nascimentos nº 01, p. 81.

118

Arquivo da 1a. Vara Criminal do Fórum de Itajaí. Processo n. 453. Tribunal do Júri. Caixa n. 19, ano de 1885,p.06. Arquivo Histórico Municipal de Itajaí.

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briu o processo e intimou Isabel, mas ela negou tudo. A testemunha, Maximiano Pereira Rodrigues, confirmou, dizendo que, dias antes, Paulo havia contado no roçado que flagrou os dois em situação suspeita dentro do mato. Era tudo verdade, mas Paulo continuou preso pelo fato de ser escravo. A palavra do patrão valia mais. Mesmo assim, o filho não quis mais a esposa e o casal separou-se. Paulo foi condenado à pena máxima, porém seu advogado Carlos Frederico Seara conseguiu comutar a pena para galé perpétua, grau médio, alegando ser o condenado menor de 18 anos à época do crime. O processo seguiu para o Tribunal de Relação, em Porto Alegre. O réu acabou sendo beneficiado pela República, que anistiou todos os condenados pelo Estatuto Penal do Escravo, de 10 de junho de 1835 e daí pra frente não tivemos mais notícias de Paulo. Era 1885, já não havia mais nenhum movimento escravagístico anotado no cartório. Não houve mais compra, nem venda, nem troca de escravo. O crime do escravo Paulo comoveu o Estado de Santa Catarina. Foi notícia nos principais jornais do Estado, justo em um momento em que as forças abolicionistas estavam mais vivas. Paulo, na sua frieza, dava a entender no seu depoimento que não tinha nada contra seus patrões, aceitou o serviço mais pelo protesto contra o instituto do escravagismo que por qualquer outra coisa. Precipitou-se o jovem, pois, pouco mais de três anos depois, oficiou-se a abolição.119

Família Boaventura, uma das mais antigas de orla da Praia de Camboriú. Gentileza de Marlene Karin Werner - foto de 1935

119

Fonte: Isaque de Borba Corrêa - A Escravatura em Camboriú - 199 - Grafica Editora Elf.

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CONSTRUÇÃO CIVIL EM BALNEÁRIO CAMBORIÚ A extensa faixa que compreende a nossa praia ficou deserta por muito tempo, quando a prioridade dos investimentos no País era a agricultura. Portanto agricultura e praia são coisas que definitivamente não combinam. Foram os sócios Marcos Konder e Alois Fleschman de Itajaí, os primeiros a investir em terras com o objetivo de fazer loteamentos em Balneário Camboriú, depois que tiveram o seu latifúndio devastado pela praga do gafanhoto de 1913. Eles adquiriram extensa faixa de terra na praia para fazer o cultivo da piteira (Agave americana e Agave rigida) para servir de matéria prima à sua fábrica de cordas, instalada na Praia Brava. O terreno era tão grande que foi loteado em grandes áreas. Depois, outros investidores o dividiram em menor escala, ao adquirirem partes dessas áreas para loteamentos residenciais. Os primeiros loteadores da Praia de Camboriú foram Marciano Silva (Loteamento Praiano), Orlando Todeschini (Loteamento Alvorada); Leopoldo Zarling, Leonardo Tetto entre outros. Manoel Germano Corrêa em depoimento ao Jornalista Norberto Cândido da Silveira Júnior, cita apenas quatro moradores estabelecidos em suas palhoças na orla por volta de 1910.

A Praia de Camboriú ainda sem prédios

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Foram os teuto-brasileiros do Vale do Itajaí os primeiros a construírem casas com algum estilo arquitetônico mais sofisticado e cobertas de telhas. Manoel Germano contava que a primeira casa de turista alemão, o madeiramento veio pelo mar, por meio de uma embarcação chamada “gasolina”. A madeira foi lançada nas águas e ele e seus pescadores puxaram para terra. Estimase que foi em 1921/22. O primeiro “não alemão” a construir casa de veraneio aqui foi o prefeito Flávio de Souza Vieira, mas por uma razão muito pouco convencional. Conta o historiador José Ângelo Rebelo em seu Livro Camboriú- Sem História não dá, que o prefeito Flávio de Souza Vieira foi afastado da prefeitura pelo interventor Nereu Ramos, acusado de desviar cinco sacos de cimento de uma ponte para a Igreja. Flávio era um homem correto. Ao tirar o cimento da ponte para a igreja, o fez pensando em agradar a Deus. Porém a justiça dos homens não pensa assim. O Governador Nereu Ramos afastou Flávio do cargo e ele não resistiu a humilhação. Relata o historiador que esse fato abalou suas faculdades mentais e então, ele se postava frente à prefeitura e dizia: “Ah minha prefeiturinha, Ah minha prefeiturinha!!”120

A Praia de Camboriú em 1962. Começa a construção do primeiro prédio da orla, o Edifício Punta del Leste

120

Ângelo Rebelo, Camboriú sem História não dá – pg 108

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Consta que o prefeito foi atacado pela doença da “melancolia”. Não suportando a vergonha e se sentindo injustiçado, quis sair da cidade e veio se auto exilar na Praia. Ele construiu a sua casa no costão da Prainha, a qual ainda permanece, sendo a casa de veraneio mais antiga de Balneário Camboriú. O lugar era tão inóspito que Flávio teve que construir acesso para chegar até a casa. Foi a primeira rua efetivamente construída ligando a estrada geral à praia. O construtor da casa foi o carpinteiro Pedro Florentino Serafim e o da estrada foi Marciano Francisco Silva. Antes das nomenclaturas oficiais, este acesso chamava-se “Rua do Flavinho”, atual Rua Miguel Matte e parte da rua Julieta Lins. Depois Marciano construiu as demais ruas ligando a praia à Estrada Geral. No contexto do recém Distrito da Praia de Camboriú é consenso que o primeiro nativo a constituir uma empresa empreiteira e contratar funcionários para construir edifícios foi José Martins Damasceno. Ao empreitar o Hotel Fischer, ainda nos anos 50, ficou conhecido como o primeiro empreiteiro nativo a prestar esse tipo de serviço. Outras grandes obras suas foram construídas ainda nos anos 60, como os Hotéis Pio e Walter.

A Praia de Camboriú em 1963 - inicia o segundo prédio na orla, o Edifício Itapoã.

Alguns de seus funcionários mais velhos e que ainda vivem, afirmam que ele aprendeu o ofício com Paulo Breckaimann(?)

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A alvenaria era um artigo de muito luxo na construção. O material mais abundante e mais barato era mesmo a madeira. Nessa cidade, primorosos carpinteiros se destacaram, desde o mais antigo deles, Gabriel Dutra e Silva, morador do Canto da Praia que fez a antiga capela de Santo Amaro. Foi ele quem ensinou a profissão ao senhor Saturnino Caldeira, o seu Tula, um dos nossos principais informantes desde a primeira edição. Dos nativos da Praia ele foi o mais antigo carpinteiro que conhecemos. O Senhor Tula, como era mais conhecido, nasceu em 1894 e faleceu no ano de 1988 e nos deixou extenso depoimento gravado. Foi seu Tula quem fez o primeiro hotel da cidade, o Strand Hotel, em 1928. Esta foi a maior edificação da Praia de Camboriú nos anos 30. Mais tarde, esse empreendimento passou a se chamar Miramar Hotel. No início da Década de 40, o prédio foi reconstruído em novo formato (2ª fase) com um desenho arquitetônico digno de nota (pag 149). Seu projeto moderno para a época, conta com forma abaulada leva a assinatura do Engenheiro Gerd Schepers e tenho a informação que a execução foi do carpinteiro Pedro Flor. A terceira fase já é o prédio atual. Em 1934, o farmacêutico Paulo Onckem construiu o segundo hotel, que se chamou Balneário Hotel. Foi a primeira construção de alvenaria. A beleza da praia, desde muito cedo, atraiu um morador ilustre: o exPresidente João Goulart, desde quando ele ainda nem era presidente. Dizem que foi por sua influência que aproximaram o traçado da BR 101 à praia. A implantação da BR 101 foi definitivamente o fator mais decisivo para o crescimento quase repentino da nossa cidade. O futuro Presidente era um grande incentivador da nossa praia. Consta que ele tinha ideia de trazer grandes investimentos para a cidade. É creditado a ele o patrocínio de uma extensa reportagem na Revista do Sul, sobre o tema “Praia Presidencial”. A emancipação do município coincide com o ano da deposição do presidente e esse fato não serviu de óbice para o desenvolvimento do lugar. A perda do garoto propaganda de luxo, não afetou o nosso crescimento e a campanha propagandista da então “Copacabana do Sul” prosseguiu. Depois da alcunha Copacabana do Sul, foi instituído formalmente o epíteto Maravilha do Atlântico. Finalmente, nesse ano, por causa de uma reportagem sobre a qualidade dos nossos prédios no Programa Fantástico, da Rede Globo, passou-se a utilizar o epíteto a “Dubay da América do Sul”. Já foram feitas outras comparações com diversas cidades, inclusive Mônaco, mas a nossa cidade segue firme e forte, com identidade própria e original que a tornou famosa, a Praia de Camboriú. O primeiro prédio da cidade foi construído fora da orla. Foi uma incorporação do investidor Césare Barontini que adquiriu extensa área de terra, em 1959, na Avenida Brasil e construiu o Edifício Eliane, inaugurado em 1963.

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Com a chegada dos Irmãos Hildo e Eduardo Dellatorre, o centro da cidade, foi dominado por eles em termos de construção civil. O primeiro empreendimento de Eduardo Dellatorre foi o Edifício Arlene, em 1963. Em seguida, o Edifício Atlântico, com nove pisos, na esquina da Av. Central. Através de uma série de fotos antigas da parte central da cidade, pode-se identificar a sequência cronológica da construção dos edifícios. Em uma ordem aproximada, os mais antigos, situados na Avenida Brasil são: Eliane, Santa Inês, Arlene, Trude, Camboriú Palace e Atlântico. Na Central, o Ed. Maríndia e depois o Ed. Miramar. Tudo isso nos primeiros anos da Década de 60. Por esse tempo o País passava por uma grande crise econômica. Desde sempre que investir em imóvel é um bom negócio. Talvez como o Presidente da República estivesse investindo aqui, isso induziu muita gente a investir também. Se um presidente está investindo em determinado lugar, não há indicativo melhor do que esse lugar para se fazer um investimento. De fato, quem assim procedeu, acertou. Praticamente todos os investidores daquele tempo, se deram bem e por aqui se estabeleceram definitivamente.

A Praia de Camboriú agora com o terceiro prédio, o Edifiício Albatroz

No dia 08 de abril de 1961, o senhor Arnoldo Schiphorst adquiriu, do relojoeiro Alfred Lhoor, uma casa de morada de frente para as marinhas oceânicas e logo em seguida inicia a construção do Edifício Punta Del Este - o primeiro edi-

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fício da orla. Este prédio permanece até hoje e vê-se que é uma construção modesta, de estilo simples, volumetria pobre, sem muitos recursos arquitetônicos. Com o extraordinário resultado das vendas do Edifício Eliane, Barontini resolveu então investir de frente para o mar, logo no ano seguinte. Para este empreendimento, Barontini procurou, na orla da praia, um lugar para seu novo e arrojado prédio e iniciou a construção do Edifício Albatroz. Logo depois, Washington Nicolau inicia o terceiro edifício da orla - o Edifício Itapoã - ainda com a Construtora Atlântica. Nesse tempo, negocia a metade da empresa com o empresário Antônio Naschenweng, de Rio do Sul. Durante o andamento da construção do Itapoã, os sócios resolveram dissolver a sociedade. Com a separação, Nico Naschenweng, fica com a Construtora Atlântica e finaliza a construção do Itapoã. Washington Nicolau abre a Construtora Embraco e inicia o Edifício Londrina. Era um projeto arrojado, que começa a priorizar uma linha mais vertical, longilínea, que privilegia mais a altura que a largura. O Bloco II desse edifício ruiu em 1967 e matou algumas pessoas, mas o construtor levantou novamente a obra sem prejuízo para os proprietários. Com a Embraco, Nicolau dá início a uma das construtoras mais sólidas e duradouras da nossa história e só fechou dado à precariedade da saúde de seu dono. Foi a primeira construtora a contratar um engenheiro próprio. Jurandir Knabben foi o primeiro engenheiro contratado por uma construtora em Balneário Camboriú. Vários funcionários, assessores, prestadores de serviço da Embraco fundaram suas próprias construtoras. Entre elas, a única sobrevivente é a “Construtora J. Knabben” do engenheiro Jurandir Knabben, uma empresa muito sólida e bastante conceituada no mercado. Por falar em vitalidade e sobrevivência, a única construtora pioneira dos anos sessenta e que sobreviveu a todas as décadas e crises, permanecendo no mercado com solidez, é a Construtora Cechinel, que comemora esse ano o seu cinquentenário. Após concluir o Punta del’Este, Arnoldo Schiphorst lança o Edifício Presidente Kennedy. Este empreendimento não faz parte só da História de Balneário Camboriú, mas também de Santa Catarina, pois quando apontou sua 15ª laje, foi considerado o edifício mais alto e mais luxuoso do Estado, embora ainda não dispusesse de garagens. No final dos anos 60, Antônio Naschenweng lança o Edifício Itamaraty, o maior de Santa Catarina em metragem quadrada e com garagens para todos apartamentos. Edifício Itamaraty de Antônio Naschenweng e o Ed. Presidente Kennedy de Arnoldo Schiphorst, completam a sequência dos que compõem o centro histórico da orla marítima. O final dos anos 60 foram anos difíceis para a venda de apartamentos em Balneário Camboriú, pois a propaganda negativa, gerada pelo desmoronamento do Edifício Mirador, dificultava as vendas. Balneário

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Camboriú passou por duas fases ruins. A primeira foi essa, pós-desmoronamento do Mirador e a segunda foi durante a gestão do Prefeito Gilberto Meirinho em virtude da austeridade que ele impôs na legislação pertinente à construção civil. Meirinho até hoje é tido como o melhor prefeito da cidade. Austero e legalista o prefeito trouxe inúmeros benefícios para o município. Chegou a quebrar os muros das casas da orla marítima, só para retificar e ampliar a Avenida Atlântica. Previdente, o prefeito primeiro fez aprovar o Código de Normas e Instalações, (antigo Código de Posturas), o Plano Diretor Físico e Territorial e o Código de Obras e Edificações. Essas normatizações impediram reconstruir os muros fora da lei. Ao reconstruir seus muros, os proprietários tiveram que obedecer ao recuo legal, o que facilitou a retificação e ampliação da Avenida Atlântica. Os prédios foram recuados consideravelmente durante sua gestão. Por isso podemos desfrutar de mais espaço nas calçadas. Nota-se que na faixa dos prédios históricos, as edificações avançam sobre a avenida. O rigor foi tão grande que apenas o Edifício Morada do Sol foi inaugurado durante a gestão de Gilberto Meirinho.

A Praia de Camboriú com o centro histórico da orla e seus quatro primeiros edifícios

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Gentileza de João Carlos Pereira (Kako)

AVENIDA ATLÂNTICA - ATUAL PRAÇA TAMANDARÉ - 1963


MAPA DE Silveira Júnior- 1951. O escritor Norberto Cândido da Silveira Júnior, nosso prefaciante, autor desse mapa, nasceu no Distrito de Bananal – Município de Guaramirim - em 1917. É autor de diversos livros e membro da Academia Catarinense de Letras, patrono da cadeira nº 01. Foi funcionário do extinto Banco Inco em Itajaí. Veranista da Praia de Camboriú, desde os anos 50, escreveu um pequeno livreto de divulgação turística intitulado Álbum Descritivo Fotográfico da Praia de Camboriú, publicado em abril de 1952. Nas páginas iniciais Manoel Germano Corrêa dá um depoimento sobre a história da cidade. As demais páginas divulgam a infra-estrutura da época, inclusive esse mapa. No verso do mapa, conta que viajou para os Estados Unidos e ficou encarregado por alguém de entregar uma encomenda em um endereço qualquer de New York. No dia seguinte, pegou a encomenda e saiu preocupadíssimo em achar o endereço do destinatário numa cidade daquele tamanho. Ao ir explorando a cidade, ficou surpreso ao ver que as ruas eram numeradas e seguiam a uma ordem crescente. Caminhou confiante pelas ruas de New York e, sem perguntar nada a ninguém, entregou direitinho a sua encomenda. Voltou empolgado para o Brasil com aquele sistema tão eficiente de organizar as ruas de uma cidade. 254


Por esse tempo a Praia de Camboríú dava os primeiros passos na sua urbanização. Procurou então Prefeito Pio e lhe mostrou o método nova-iorquinho de denominar suas ruas. O Prefeito Pio gostou do sistema e ordenou que implantasse aqui em nossa cidade a mesma metodologia. Silveira Júnior foi também o primeiro Secretário de Administração de Balneário Camboriú e no exercício do cargo organizou o sistema de ruas de Balneário Camboriú que ficou dessa forma: da Avenida Central para o Sul as ruas são pares e as que terminam em 00 iniciam-se na praia; da Avenida Central para o Norte as ruas são ímpares. O Bairro das Nações se compõe de nome de países e do sul para o norte, as ruas seguem em ordem alfabética da Rua Áustria até a Rua Venezuela. A mesma metodologia para o Bairro dos Estados e dos Municípios. Permaneceu o antigo Bairro da Vila Real que recebeu nome de personagens da monarquia portuguesa. O Canto da Praia passou a se chamar Vila dos Pioneiros em virtude dos primeiros povoadores se instalarem aqui e recebeu nomes de pessoas do conhecimento e do círculo de amizade do organizador, não necessariamente a pessoa homenageada era um pioneiro. Alguns nem eram moradores da cidade.

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Camboriú & Balneário a história de duas cidades


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Camboriú & Balneário - A História das Duas Cidades - Isaque de Borba Corrêa  

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