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EXPRESSÃO REVISTA-LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO DA UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL – 2019/2

COMUNIDADE PERSISTE EM MANTER A CULTURA KAINGANG P. 20


EDITORIAL

EXPEDIENTE

O RESGATE DO JORNALISMO

REPÓRTERES

A função primordial do jornalismo é inserir-se em contextos e expor realidades. É dedicar atenção microscópica a um problema macro. Nesta edição do Expressão, expomos a não efetivação de um progresso prometido por personagens supostamente messiânicos de um sistema político conturbado, em todas as suas esferas, do macro federal, ao micromunicipal, cujo efeito dominó impacta — como sempre — na ponta mais vulnerável da sociedade.

Alison Patrick Oliveira Machado Bernardo da Silva de Barcellos Caroline Santi Pegoraro Cláudia Rossatto Cristina Simonetto Giebelmeier Gabriella Borges de Paula Isabella Silocchi de Amorim Mateus Frazão da Silva Regina de Fátima Lain

Governos que se dedicam convictamente a posicionamentos e decisões capengas destroem um passado de conquistas e projetam futuro calamitoso. É nesse cenário macro que o jornalismo brasileiro, inevitavelmente, está inserido atualmente: a falta de perspectiva de avanços em diferentes campos já contamina o quebracabeça social. Não há recursos para uma educação adequada. A infraestrutura precária não contempla uma população que precisa mover-se rapidamente e, por isso, opta pelo transporte individual. O trabalhador se rende à informalidade ou se submete ao leilão corporativo para sobreviver, mesmo que não obtenha renda sequer para suprir o consumo básico. A cultura — da arte aos povos — está definhando, enquanto a violência contra a mulher se consolida.

REITOR Dr. Evaldo Antonio Kuiava

DIRETOR DA ÁREA DO CONHECIMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS Me. Fábio Eberhardt Teixeira

Há pouco a exaltar e celebrar atualmente, embora assim quiséssemos. Mas, eis que desperta a tal função primordial do jornalismo: mesmo incapaz de compensar a ineficácia de forças institucionais, pelo menos expor uma política inerte que gera desenvolvimento e se torna combustível para retrocessos.

COORDENADOR DO CURSO DE JORNALISMO Me. Marcell Bocchese

Laryane Barbosa

DISCIPLINA Projeto Experimental II - Revista

PROFESSORA Dra. Marlene Branca Sólio

Universidade de Caxias do Sul -UCS Campus-Sede: Rua Francisco Getúlio Vargas, 1130 CEP 95070-560 - Caxias do Sul Fone: +55 54 3218-2100 www.ucs.br

Da esquerda para direita: Cristina, Alison, Cláudia, Bernardo, Caroline, Mateus, Isabella, Regina e Gabriela


Aumento da frota de veículos para a manutenção das estradas de Caxias

Combate à corrupção vira catapulta

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Terceirizar é precarizar

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06 O monstro da crise sobrevive

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Geografia da fome

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comunidade persiste em manter a cultura kaingang

20 Falta asfalto, sobram buracos

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Como vivem os imigrantes venezuelanos em Caxias do Sul

32 PROCON - conheça seus direitos

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Faraós do século XXI

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Ilegalidade do comércio ambulante

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Igualdade apenas no papel

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Estação Férrea recebe alterações

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36 CRÔNICA: Regra de Três

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COMBATE À CORRUPÇÃO VIRA CATAPULTA OPERAÇÃO LAVA JATO DISCRETA E POUCA PRÁTICA NO DISCURSO ANTICORRUPÇÃO MARCAM PRIMEIROS SEIS MESES DE GOVERNO BOLSONARO MATEUS FRAZÃO

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m março de 2019, a Operação Lava Jato completou cinco anos. Nesse tempo, processos que revelaram o suposto maior esquema de corrupção da história do Brasil tiveram, também, primordial impacto em transformações políticas. Embora Poderes e especialistas reafirmem, cons­tan­temente, as supostas autonomia e isenção dos órgãos encarregados das investigações, alguns elementos sinalizam o contrário. Como exemplo, Sérgio Moro, juiz de episódios marcantes da operação, foi alçado de sua ocupação judiciária a herói simbólico de parte da população, até assumir o cargo de Ministro da Justiça de um governo que utilizou a própria Lava Jato como alavanca para se eleger. E dos discursos que renderam a promoção de um, então, pouco produtivo deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) à presidência da República, o que mais se distinguia, como uma suposta proposta, era o combate à corrupção. Passados seis meses desse governo, surge em perspectiva a reflexão: a prometida “limpa” de fato se efetivou? No contexto midiático, dos cinco anos da operação, 2019 teve, até agora, o menor número de manchetes. Na opinião do cientista político João Ignácio Pires Lucas, a redução de notícias relacionadas ao avanço da operação pode ser indicativo de uma diminuição do quadro de atuação da força-tarefa envolvida na Lava Jato. “O que se percebeu é que nesse período (de seis meses do governo Bolsonaro) houve uma diminuição de pessoas envolvidas na operação (Lava Jato) por parte do governo. Agora, a Lava Jato era uma forçatarefa que envolvia outros órgãos, por isso, se não há diminuição e pouca divulgação dos avanços também, é responsabilidade desses órgãos”. Apesar de se referir à operação no passado (“era”) Pires Lucas reforça que os principais órgãos envolvidos na

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investigação têm, sim, autonomia para conduzir os trabalhos sem interferência política e dar prosseguimento à operação. Por outro lado, o cientista político avalia que o governo de Jair Bolsonaro não impõe a ênfase prometida de combate à corrupção em esfera institucional. “As medidas anticorrupção, encaminhadas pelo ministro Sérgio Moro, já apontaram algumas relativizações no que se referia ao Caixa 2, que inclusive foram retiradas do conjunto de ações penais do combate à corrupção proposto pelo governo, o que, portanto, já minimizou esse ‘combate’.” E acrescenta: “O próprio governo já se mostrou arrolado em outros tipos de escândalos, como as atuações de “laranjas” no período em que Bolsonaro ainda não tinha sido eleito. Portanto, o combate à corrupção, na verdade, não aumentou diante da ênfase dada no período eleitoral”. Já na opinião do cientista político Marcos Paulo dos Reis, tudo que se refere à Lava Jato deve ser atribuído e restrito à Polícia Federal. Para ele, inclusive, a atua­ ção de Sérgio Moro, no cargo de ministro da Justiça ,simboliza o comprometimento com a continuidade da operação, por parte do governo: “Quanto mais autônoma a Lava Jato for, melhor. Se não está havendo intervenção política, melhor. Além disso, considerando que Sérgio Moro faz parte do governo, sendo ele o grande nome da Lava Jato, acredito que a ação possa ser continuada”, afirma. Por outro lado, ressalta preocupação com outro aspecto: “A decisão do Supremo Tribunal Federal de atribuir o julgamento de crimes eleitorais à Justiça Eleitoral acaba sendo um problema para a operação. Mas, novamente, essa é uma questão de preocupação da Polícia Federal e não do governo”, acredita Reis.


Marcos Corrêa / Divulgação

Símbolos de um suposto governo de combate à corrupção ainda não corresponderam a expectativas do eleitorado

A PACIFICAÇÃO QUE NÃO OCORREU Quando a Lava Jato engatinhava, em março de 2014, um empolgado Brasil, às vésperas de uma Copa do Mundo, estava praticamente à parte de qualquer debate político. Meia década depois, desse País sobram as ruínas de um cenário de consolidada animosidade política. E a cada dia, a polarização se agrava. A eleição de Jair Bolsonaro à presidência da República era considerada por alguns cientistas políticos como possível alento para o hostil debate político diante do repasse do comando do País da esquerda para a direita. Não ocorreu. O que poderia representar um repouso do estresse acumulado de uma parcela insatisfeita da ala conservadora do eleitorado brasileiro tornou-se ingrediente para uma guerra ideológica. O ambiente, no entanto, já era esperado, de acordo com o cientista político, João Ignácio Pires Lucas: “Sabíamos que seria um governo polêmico. Até porque ele próprio (governo) tem dificuldade de criar maioria (no Congresso) e conseguir apoio de outros partidos. Fora os discursos e falas inadequados que têm aumentado o tensionamento”. *A matéria foi produzida antes da série de reportagens do site Intercept e de reportagem de O GLobo acerca do nepotismo teoricamente posto em prática pela família do presidente.

E atesta: “Em primeiro momento, o governo demonstra incapacidade de gestão que aumenta o tensionamento político-ideológico, natural numa sociedade plural como a brasileira”. Para o cientista político Marcos Paulo dos Reis, a rivalidade ideológica instaurada, em nível social, pode ser vista como positiva: “Considero natural e sintoma de uma politização maior da sociedade, o que vem para o bem. Grupos se dividem de acordo com diferen­ tes concepções de mundo. Isso é próprio da democra­ cia. Nos EUA, há uma divisão entre Republicanos e Democratas, por exemplo”. Apesar de reconhecer um ambiente hostil, ele acredita que o debate se concentra apenas no discurso: “Talvez a hostilidade seja exacerbada, mas está muito no ambiente das redes sociais. A sociedade vive sua vida e tem concepções políticas distintas, sem que isso atrapalhe o convívio”.

O que poderia representar um repouso do estresse acumulado de uma parcela insatisfeita da ala conservadora do eleitorado brasileiro tornou-se ingrediente para uma guerra ideológica. 5


TERCEIRIZAR É PRECARIZAR

AUMENTO DE TERCEIRIZAÇÕES PÕE EM RISCO SERVIÇOS PÚBLICOS E VÍNCULOS EMPREGATÍCIOS

Mateus Argenta/ Divulgação

MATEUS FRAZÃO

Serviços de saúde em Caxias do Sul passam para modelo de gestão compartilhada, questionado por entidades representativas

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terceirização de serviços básicos se tornou tendência para perfis modernos de gestão pública. Ao repassar recursos para empresas administrarem setores de atendimento direto à população, como saúde e educação, o Estado estabelece uma relação nos moldes de parcerias público-privadas. O principal argumento é que a medida barateia os custos da máquina pública. Entretanto, o movimento crescente das chamadas gestões compartilhadas preo­ cupa entidades que fiscalizam serviços básicos e representam o funcionalismo público. O contraponto de defesa alega que o sistema de terceirização desvalo­ riza vínculos empregatícios e, em médio e longo prazos, precariza os serviços. Para piorar, mudanças realizadas nos últimos anos na legislação facilitaram a contratação de serviços terceirizados em todas as áreas. “Não é solução porque o serviço público precisa ser continuado por meio de políticas públicas que possam ser avaliadas constantemente e readequadas conforme necessidades de cada região. Não é a venda de serviço, é a prestação de forma continuada que precisa ser melhorada constantemente, não é política de um só governo”, avalia a presidente do Sindicato dos Servidores (Sindiserv) de Caxias do Sul, Silvana Piroli.

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Uma pesquisa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), divulgada em 2017, apontou crescimento de cerca de 46% no número de contratados em serviços terceirizados de 2007 a 2014. O índice representa quase 20% a mais do que o aumento de vínculos formais no mesmo período, de aproximada­mente 28%. Ao todo, na época, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) contabilizava em torno de 12,5 milhões de empregados de terceirizadas no País. A estabilidade do vínculo também é contestada. De acordo com o mesmo estudo, a taxa de rotatividade de trabalhadores em 2014 era de cerca de 57%, enquanto a de empregos formais tradicionais era de 28%. A própria alegação de barateamento dos custos é questionada. Na perspectiva de Silvana, as responsabilidades que o Poder Público se vê obrigado a assumir ao longo do contrato com terceirizadas, revelam que não há vantagens econômicas no convênio. “É preciso pagar à empresa: encargos sociais, impostos referentes, e tudo o que cobra para executar o serviço e sua manutenção. Se há problema trabalhista


Regina Lain

ou de descontinuidade, o Poder Público também é obrigado a ser solidário. Então, com o tempo, o serviço terceirizado não é mais econômico”, acredita. Ela, no entanto, concorda com contratos entre Poder Público e terceirizadas que atuam em projetos específicos, como obras e construções. Ainda assim, considera uma especificidade. “(A terceirização) estimula corrupção, cabide de emprego e, eventualmente, gera prejuízo, quer seja nos serviços, no pagamento de ações judiciais ou na baixa remuneração que esses trabalhadores recebem”, acrescenta. A faixa salarial, segundo o Dieese, é, de fato, inferior em vínculos com prestadoras de serviços terceirizados (ver infográfico).

FUTURO TERCEIRIZADO Em Caxias do Sul, o setor da saúde passa por reformulações para adequar-se ao sistema de terceirização dos serviços. Em setembro de 2017, a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Zona Norte, no bairro Centenário, foi inaugurada no modelo de gestão compartilhada. À época, afirmou o prefeito Daniel Guerra (PRB): “Vamos bancar a UPA com o corte de 50% dos cargos em comissão e penduricalhos de salários, que totalizam cerca de R$ 20 milhões ao ano. A saúde pública de qualidade é compromisso do nosso governo”.

que o Poder Público alegue ter sobre a terceirizada, quem define e executa é ela e o Poder Público só recebe relatórios”, critica a presidente do Sindicato dos Servidores (Sindiserv) de Caxias do Sul, Silvana Piroli.

A NOVA POLÍTICA... DE LAVAR AS MÃOS Embora o sistema de gestão compartilhada na área da saúde funcione há pouco tempo em Caxias, o controle por parte da prefeitura com empresas terceirizadas já demonstra indícios de descaso por parte do Poder Público em outras áreas. É o caso de empregados da rede de educação.

Durante o governo de Daniel Guerra, pelo menos duas cateNo ano seguinte à abertura da unidade, gorias já se mobilizaram após serem prejudicadas pelo sistema: o Executivo municipal anunciou que o merendeiras e cuidadores de crianças especiais. Pronto-Atendimento 24 Horas (P.A. / Postão) seria privatizado. A medida, no Enquanto cuidadores protestaram diante da redução de 20% entanto, foi barrada pelo no salário, merendeiras reivinConselho Municipal de dicam benefícios cortados pela Saúde, órgão que tem prer­ terceirizada contratante. Para rogativa de deliberar em ambas as situações, a Secretaria “Terceirizar é abrir mão decisões que envolvem a Municipal da Educação (SMED) saúde pública. A prefeitura se limitou a afirmar, em nota, do controle público com insistiu e readequou a forque mediaria as negociações, relação ao serviço” matação do projeto para o embo­r a reiterasse que a gestão modelo UPA, o que perdos vínculos empregatícios seja mitiu estabelecer contrato responsabilidade da terceirizada. de gestão compartilhada. De acordo com a presidente do Sindiserv, a postura de isenção, Com a mesma argumentação, o município por parte do Poder Público, é comum em sistemas de gestão informou que a nova forma de funcionacompartilhada. “Quando a sociedade cobra, o Poder Público mento otimizaria os investimentos no setor diz: “não é comigo, cobra da empresa”. Para terceirizar dize da saúde. que tem participação, que é gestão compartilhada;para cobrar os problemas não é da gestão compartilhada, é só das empre“Terceirizar é abrir mão do controle público sas. A população não tem para quem reclamar”, observa. com relação ao serviço. Por mais controle

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O “MONSTRO” DA CRISE SOBREVIVE

O CENÁRIO DE 2019 DEVE SER ACOMPANHADO COM CAUTELA E CONSCIENTIZAÇÃO FINANCEIRA CAROLINE PEGORARO | ISABELLA DE AMORIM

Luiz Guilherme Gerbelli e Luísa Melo

Variação do consumo das famílias, de acordo com o IBGE e Santander

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poder de compra das famílias brasi­leiras teve forte retração em 2015 e 2016. Segundo estimativas do IBGE e Banco Santander, em dois anos a queda real foi de 7,1%. Uma análise em conjunto da dinâmica da renda real, do emprego e do crédito – vistos como os principais condicionan­ tes do consumo das famílias – mostra que o poder de compra cresceu entre 2004 e 2014. Em 2015, as novas concessões de empréstimos para pessoa física com recursos livres caíram 10,7%, descontada a inflação. “No período de 2004 a 2011, houve expansão do crédito no País, principalmente financiamento imobiliá­rio e de veículos, além de subsídios go­vernamentais para que as famílias fizessem suas aquisições, fortes fatores favoráveis ao aumento de consumo”, explica o consultor especialista em finanças Fábio Nepomoceno. “Na época, as famílias se endividaram, uma vez que tinham fonte de renda. Com esse ambiente favorável, mas ao mesmo tempo descontrolado, houve um acréscimo no consumo”, continua o consultor. “O fácil acesso

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a novos objetos de consumo gerou alto nível de endividamento das famílias e a recessão da economia – acompanhada do desemprego – que veio na sequência, reduziu drasticamente o poder de consumo”, complementa Carlos Vanderlei Porfírio, contador. A inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), no acumulado de 2015, foi de 10,67%. No final de 2015, o governo regulamentou o salário mínimo de 2016 ao valor de R$ 880 – 11,68% de aumento. Aumentar o valor do salário-mínimo eleva o rendimento das pessoas e esse dinheiro circulando tem impacto no consumo e na arrecadação tributária. Entretanto, tal reajuste tem efeitos na Previdência Social. O impacto para as contas do governo foi de R$ 30,2 bi­lhões. O Decreto, n. 8.618, foi assinado pela então presidente Dilma Rousseff e o pagamento, em fevereiro de 2016, repre­sentou o incremento de R$ 51,5 bilhões na renda dos trabalhadores, informou o Ministério do Trabalho.


Em 2002, o valor do salário-mínimo era de R$ 200. Em 2016 esse valor chegou a R$ 880. O ganho real nesse período, descontada a inflação, foi de de 77%. De acordo com especialistas em mercado de trabalho, do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o aumento conferiu dignidade ao trabalhador, ajudando a retirar mi­lhões de pessoas da linha da pobreza. O mínimo para 2019 é de R$ 998. Apesar disso, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), que começou a ser realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2012, regis­trou que a taxa de desocupação no Brasil – levando em conta o primeiro trimestre do ano – era de 7,9% no primeiro ano da pesquisa; o número se manteve em 2015; em 2016 a taxa subiu para 10,9%; o crescimento se manteve em 2017, com 13,7%; o ano seguinte, teve 13,1% e em 2019 o índice continua a aumentar. Uma combinação de fatores tem provocado debates no que diz respeito ao cenário do consumo para o segundo semestre do ano. De acordo com os especialistas, após o período de crise, os brasileiros passaram a organizar com mais cautela o orçamento pessoal, o que contribui para a melhora do panorama. Além disso, o movimento do mercado de trabalho, ainda que tímido e focado no emprego informal; a inflação controlada e os juros baixos têm colaborado para um pequeno avanço da confiança na economia. Apesar disso, Nepomoceno explica que “o processo de retomada de consumo é lento. As empresas precisam de um ambiente favorável para investimento, de forma a aumentar a oferta de emprego. Após esse aumento, as pessoas terão de cessar suas dívidas e, só então, retomar o consumo”. Apresenta, também, o contraponto: “outra questão é que muitas pessoas estão sem crédito, uma barreira para o aumento do consumo”. Projeções econômicas sempre são baseadas em números, criados a partir de uma perspectiva determinada. No início do ano, o cenário econômico positivo previsto – que vem perdendo força – levava­ em conta que o atual governo endereçasse as principais reformas, para a área fiscal e para a legislação previdenciária. “Reformas são necessárias, chegouse a um ponto em que é insustentável para o País manter o atual regime tributário e de previdência [tema controverso]. A aprovação das reformas retomaria a confiança de investir no Brasil e investimentos em empresas promovem o aumento do emprego, que por sua vez proporciona aumento do poder de consumo”, afirma Nepomoceno. Porfírio é menos otimista com relação às mudanças. “Sem mexer no Judiciário, no Legislativo e nas Forças Armadas, não será possível recuperar o atual deficit da previdência. A reforma que está no

Congresso atingirá apenas a base da pirâmide, trazendo ainda mais dificuldades e, por consequência, redução no poder de consumo”, explica o contador. Apesar de ter iniciado o ano com expectativas positivas, a mediana das projeções do mercado para o crescimento do PIB vem caindo. No final de março, o Banco Central (BC) estimou expansão de 2% para a economia brasileira neste ano e o Ministério da Economia projetou um crescimento de 2,2%. No entanto, o boletim do mercado Focus, divulgado em 20 de maio, reduziu sua previsão, que anteriormente era de 1,45%, para 1,24%. Tratava-se da 12ª queda consecutiva desde a divulgação do desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) de 2018 e outras seguiram-se, apontandoa perspectiva de crescimento negativo para 2019. De acordo com alguns especialistas, em meio a esse cenário de instabilidade, é importante que as pessoas se conscientizem e organizem o orçamento familiar. “Quem recebe salário tem a possibilidade de identificar com maior clareza qual seu orçamento familiar. Quem é pequeno empresário ou autônomo precisa de controles que indiquem qual sua geração de caixa e a disponibilidade para um salário fixo mensal”, explica Porfírio. “Nesse orçamento familiar, é importante não esquecer de incluir as dívidas contraídas e de reservar um espaço para poupança, no sentido de reservar valores, não no sentido de tipo de aplicação” complementa, Nepomoceno. Devemos considerar, porém, o fato de que a renda domiciliar per capita no Brasil, em 2018, foi de R$ 1.373, de acordo com o IBGE. O valor é 8,2% maior que a média nacional em 2017 (sem considerar a inflação). No entanto, 13 estados tiveram renda abaixo do salário-mínimo, o que representa dificuldade de investimento em poupança de boa parte da população.

IMPACTO NO DIA A DIA A gaúcha Mirian Schuster Tartarotti é quem faz a maior parte das compras da família. Para ela a insegurança política reflete diretamente no consumo. Mas uma coisa é clara “planejamento é tudo! Eu e meu esposo temos uma planilha e conversamos sobre finanças. Ter reserva de valores sempre foi essencial para darmos conta de tudo”, completa. Por mais que o acesso às informações seja facilitado, ainda é grande o número de famílias que não controlam a renda e os gastos. Além disso, a cultura do receio em conversar sobre o tema finanças entre os membros da família se faz presente em muitos casos. O consultor especialista em finanças finaliza: “É importante que o orçamento não seja só uma anotação, mas uma ferramenta que disciplina os gastos”.

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GEOGRAFIA DA FOME CINCO ANOS APÓS SAIR DO MAPA DA FOME, BRASIL ESTÁ EM RISCO NOVAMENTE ISABELLA DE AMORIM

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ois mil e dezenove, o ano em que o Brasil pode voltar oficialmente ao mapa da fome da Organização das Nações Uni­d as (ONU). Dois mil e dezenove, o ano em que o presidente Jair Bolsonaro esvaziou as funções do Conselho de Segurança Alimentar (Consea), formado por representantes do governo e da sociedade civil, para formular diretrizes e prioridades para o combate à fome e à me­l horia da alimentação das pessoas. A MP 870, que reestruturou os ministérios, colocou entre as competências do Ministério da Cidadania a responsabilidade pela política nacional de segurança alimentar e nutricional.

destacou-se pelo combate à miséria e à fome e pela luta por ética e cidadania. Esteve à frente da criação do conceito de segurança alimentar enquanto combate à fome e foi membro do Comitê Permanente de Nutrição da ONU.

O Consea foi criado durante o governo Itamar Franco, em 1993, quando 32 milhões de pessoas se encontravam em situação de insegurança alimentar no País. Os principais articuladores da criação do conselho foram o sociólogo Betinho – o irmão do Henfil citado na música “O Bêbado e o Equilibrista”, de João Bosco – e o bispo católico Mauro Morelli, presidente do Consea de 1993 a 1994. O bispo

O Brasil saiu do mapa da fome em 2014. Apesar disso, dados divulgados pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) reve­ laram, em setembro de 2018, que o combate à fome no País se estagnou. Ainda de acordo com a entidade, em 1999 o número de brasi­leiros considerados desnutridos era de 20,9 milhões. Em 2004, esse número havia caído para 12,6 milhões. Em 2007, eram 7,4

Em janeiro deste ano, Dom Mauro Morelli usou o Twitter para criticar a decisão do presidente. “Mr. President, salário decretado e extinção do Consea dedicado à defesa e promoção do direito humano básico ao alimento e à nutrição afrontam o ensinamento bíblico (Mateus 25 e Dt 24). Governantes católicos e evangélicos dizem colocar Deus acima de tudo, mas ignoram Sua Palavra”, afirmou o bispo.


Isabella de Amorim

Número de pessoas consideradas famintas no Brasil (Dados FAO)

AGRAVANTES Em entrevista ao Estadão, o ex-ministro do governo Lula – e criador do Fome Zero – atual chefe da FAO, José Graziano da Silva, afirma que “o que está acontecendo no Brasil, infelizmente, é uma crise prolon­gada”. “Não é de hoje que vem aumentando o desemprego, mas a situação dos últimos anos é ainda mais preocupante. Isso porque, segun­do mostra a última pesquisa do IBGE, há um contínuo crescimento da informalidade e do número de desempregados desde 2016”. De acordo com o agrônomo, mais pessoas sem carteira assinada, em geral tendo rendimentos baixos, provocam um forte impacto no poder aquisitivo e, consequentemente, na segurança alimentar. Na avaliação da FAO, os resultados na América do Sul podem ser reflexo da redução da capacidade dos governos de investir na economia e consequente redução da receita fiscal, necessária para proteger os mais vulneráveis contra o aumento de preços e perda de renda. Além disso, as mudanças climáticas são apontadas como fator importante à volta da fome. Temperaturas e eventos extremos, como secas que atingem o Nordeste e inundações no Sul, simultaneamente, contribuem para a propa­gação do problema. No período de 2011 a 2016, o Brasil foi um dos países mais prejudicados por anomalias no campo.

A inclusão do direito à alimentação na Constituição, a aprovação da Lei Orgânica, do Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, da Política Nacional de Agroecologia milhões de brasileir­os. No ano de 2010, o e Produção Orgânica e o Programa de Aquisição de Alimentos número era “menor do que 4,9 milhões”. são apenas algumas das propostas que surgiram em debates no Nos anos seguintes, 2012, 2014 e 2017, Consea e se tornaram políticas públicas para a garantia de uma respectivamente, alimentação saudável. A Articulação se manteve em 5 Semiárido Brasileiro (ASA) afirma que milhões, “menos a experiência do Consea “espalha-se de 5,1 milhões” por vários países da América Latina e “O que está acontecendo e “menos de 5,2 é estudada em várias universidades do milhões”. no Brasil, infelizmente, é Brasil e do mundo, inclusive na ONU”. A entidade lembra que a região reúne uma crise prolon­ g ada” Os números, uma população de mais de 23 milhões di­v ulgados pela de pessoas, das quais 9 milhões no meio entidade em rural. re­­­latório apresentado em Roma, apontam para uma elevação Graziano da Silva destaca que os números evidenciados no da fome no mundo, de modo geral. Nesse informe da FAO referem-se a anos anteriores – mais precisacontexto, uma das regiões mais afetadas por mente até 2017 –, não tratando da aceleração do desemprego essa realidade é a América do Sul. Ainda de e do crescimento das pessoas em desalento. “Não capta o segacordo com a FAO, a população com fome undo e terceiro anos em que a economia tem apresentado passou de 19,3 milhões de sul-americanos, índices bem baixos de crescimento. Chamo a atenção para em 2014, para 21,4 milhões, em 2017. A o fato de que o Brasil, assim como outros países da América Síntese de Indicadores Sociais (SIS), do Latina em situação similar, precisa crescer ao menos 2% ao IBGE, mostra que, entre 2016 e 2017, a ano para garantir a possibilidade de melhor distribuição da pobreza da população brasileira passou de renda, para que parte desse crescimento da produção chegue 25,7% para 26,5%. Enquanto isso, a parcela aos mais pobres.” Em 2018, o crescimento do PIB nacional de pessoas consideradas extremamente foi de 1,1%, repetindo o resultado do ano anterior. A previsão pobres – que vivem com menos de R$ 140 de crescimento da economia para 2019 foi reduzida de 1,45% mensais (pela definição do Banco Mundial) para 0,82%, em pesquisa divulgada pelo Boletim Focus, em 5 – saltou de 6,6%, em 2016, para 7,4%, em de agosto. 2017.

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OS PRÓS E CONTRAS DO EAD

MODALIDADE JÁ ALCANÇA MAIS DE SETE MILHÕES DE ALUNOS, MAS DIVIDE OPINIÕES EM RELAÇÃO À QUALIDADE EFETIVA DO ENSINO

Regina Lain

MATEUS FRAZÃO | REGINA LAIN

Embora reconheça ser restritivo em alguns aspectos, a estudante Milena Signorelli aprova o modelo de Educação a Distância

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studar a distância nunca foi novidade no Brasil. Não desde o início do século XX, pelo menos. Conforme estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), há registros de publicidade de cursos profissionalizantes por correspondência em jornais brasileiros, desde antes de 1900. A modalidade viria a se expandir em 1940, com a difusão da propaganda em mídias eletrônicas, cuja expansão prosseguiria até meados de 1990. Desde então, a adesão a “cursos por carta” foi reduzindo até se retrair quase completamente, no início dos anos 2000. No entanto, a capacitação profissional passou a ser uma necessidade contínua de mercado e o poder econômico elemento para o “investimento pessoal” na educação. Com essas mudanças, o sistema de ensino a distância ressurgiu e, gradativamente,

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ganhou­força devida ao aumento da demanda por vagas no Ensino Superior. Desde 2007, a Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação valoriza a oferta de estudos a distância, ao regulamentar os cursos de pós-graduação EAD. Dez anos depois, em 2017, já havia mais de 7,7 milhões­de estudantes matriculados em EADs no Brasil, de acordo com dados divulgados pela Associação Brasileira de Educação a Distância (Abved) em 2018. Estudante de Biblioteconomia, Milena Hoffmann Signorelli, 21 anos, cursa EAD na UCS. Ela avalia como funciona o modelo para sua graduação, embora reconheça ser restritivo em alguns aspectos. “O


Regina Lain

meu curso é totalmente teórico, então acho que funciona. A parte da prática pegamos no estágio, que é obrigatório. Ainda assim, tem gente que desiste, porque não se adapta. Meu curso, por exemplo, tem bastante pessoas com idade mais avançada que não se adaptam ao sistema de informática”, revela. Apesar da privação da vivência acadêmica, Milena acredita que, dependendo da forma como é ministrado, o processo pedagógico pode até ser mais eficiente em sistemas Ead. “Tem de ter muita força de vontade. Temos exigências bem rigorosas. Há toda organização e cumprimento de cronograma, precisamos ver vídeos, ler livros, participar em fóruns para registrar presença e criar projetos complexos”, explica. Desde a popularização dessa modalidade, principalmente a partir de 2012, proporcional ao crescimento, acirrou-se o debate quanto aos prós e contras do sistema de Ead.

MIGRAÇÃO PARA O ENSINO BÁSICO Com a popularização da modalidade no Ensino Superior, o Ensino a Distância também alcança outros patamares da educação. Uma das principais mudanças foi o Decreto n. 9.057/2017, que regulamenta a Educação a Distância, permitindo, inclusive, a prática na Educação Básica. Inicialmente, como uma proposta de complementação dos conteúdos ou de aplicação em situações emergenciais, o movimento para a descentralização da educação ganhou força com o chamado “Novo Ensino Médio”. Com a alteração da Lei n. 3.415, em novembro de 2018, as instituições de ensino podem flexibilizar suas grades curriculares, permitindo a realização de disciplinas na modalidade a distância. A regra permite que até 20% da carga horária dos cursos diurnos, 30% dos cursos noturnos e 80% da modalidade EJA seja ofertada a distância. A implementação dessas medidas, no entanto, ainda depende de decisão dos estados para ocorrer, e pode levar até dois anos para as alterações serem aprovadas na Base Nacional Comum Curricular.

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Dados fornecidos pela Associação Brasileira de Educação a Distância


Coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara foi um dos principais envolvidos na elaboração do Plano Nacional de Educação (PNE), instituído pela Lei n. 13.005/2014, e que determina metas na área até 2024. Um dos especialistas que sempre se posicionou contrário à modalidade de Ensino a Distância, Cara explica à Expressão por que considera inadequado o sistema não presencial de educação.

Cesar Nakashima/Divulgação

“EAD É SUBPRODUTO DE UMA PRECARIZAÇÃO”

Para Daniel Cara, o sistema EaD deve apenas ser adotado em casos especiais

Expressão: Já observamos universidades que há pouco tempo mostravam resistência a esse mode­ lo e que hoje estão aderindo de forma convicta como opção. Daniel Cara: É que educação a distância gera resultados econômicos: massifica o processo, reduz custos e gera interesse econômico baseado no próprio sistema, em termos de hardware e software. É uma modalidade que gera interesse empresarial muito grande. O problema é que todas essas preocupações são alheias à qualidade da Educação.

Expressão: Hoje a modalidade consolidada de ensino, a Educação a Distância, é um sistema controverso. Na opinião do senhor, quais os prós e contras desse sistema? Daniel Cara: A Educação a Distância obrigatoria­ mente deve ser uma exceção. É uma legalidade da Educação, mas que não substitui educação presencial, que é sempre mais vantajosa, porque parte significativa do processo cognitivo se dá Expressão: Há cursos EaD que têm avaliação na relação entre professor e aluno. A Educação muito boa, até maior que a Distância é importan­ presenciais. Como isso é te quando não há possível? con­ dição de garantir Daniel Cara: Primeiro de nenhuma educação A educação a distância tudo, numa avaliação EaD, pre­sen­cial, como em nunca a avaliação é muito suáreas remotas ou em deve ser obrigatoriamente perior à de modelos presencondições muito difíuma exceção ciais. Normalmente, quando ceis. Nesse sentido é isso acontece, é que o curso que ela se dá como alpresencial era tão ruim que ternativa. Estratégias de não faria nenhuma diferença EaD também podem a presença ou EaD. A questão concreta é que para ser utilizadas quando você tem alunos com cursos a qualidade da educação é necessária a relação entre muito específicos com autonomia de pensamenprofessor e aluno. EaD pode ter resultados positivos, to, como pós-graduação, especialização, quando só quando é complemento educacional. se tem a base na área em que se atua. Esses são os dois casos: nas absolutas exceções ou como comExpressão: Ainda assim, o senhor reconhece que plemento. EaD acaba sendo uma opção em alguns casos... Daniel Cara: A Educação a Distância é um subproduExpressão: O senhor não acredita que a mo­ to de uma precarização. Por exemplo, uma região que dalidade poderia ser aplicada em algum curso eu conheço bem, a Amazônia profunda: é uma região específico de graduação? inóspita onde não se tem acesso; é difícil construir Daniel Cara: Considerando a realidade da gradua­ escola; a mobilidade da obra é muito difícil, etc. Aí, ção brasileira, creio que não existe essa possibilicurso de formação de professores se dá por Educação dade. Diria até mais: graduação no mundo todo a Distância, mas, infelizmente, os resultados não são não deveria ser por Educação a Distância. Embons. É a educação possível, não aquela que a gente bora seja Educação Superior, muitas vezes alunos tem de se pautar pela qualidade, mas é em situações chegam na universidade sem a autonomia cognimuito excepcionais que cabe (EaD). tiva que se esperava.

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IGUALDADE APENAS NO PAPEL MESMO COM NOVAS LEIS E AUMENTO DE MOVIMENTOS SOCIAIS, VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER AUMENTOU EM CAXIAS REGINA LAIN

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umento de leis específicas, uma rede fortale­ cida e um movimento cada vez mais popular de combate à violência contra a mulher. Nada disso basta para impedir o crescimento dos números de violência em Caxias do Sul. Somente no primeiro trimestre de 2019, conforme a Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio Grande do Sul, a cidade registrou 201 casos de lesão corporal, 328 ameaças e três estupros. Os dados representam um aumento de 50% em comparação às estatísticas de 2018.

Mônica Montanari é estudiosa das causas femininas e representante do Movimento Feminista na cidade. A revista Expressão conversou com a advogada em entrevista exclusiva para entender a situação da mulher­ em Caxias do Sul, e como os movimentos procuram diminuir a desigualdade entre gêneros.

Expressão: Como o trabalho com as famílias contribui para o entendimento da violência de gênero? Mônica Montanari: Indiretamente, a violência ainda O problema se repete em âmbito nacional. Segundo está ligada à família. A estrutura familiar ainda se o 12º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o dá de uma forma muito patriarcal e, muitas vezes, número de mulheres assassinadas cresceu 6,1% em a mulher acaba saindo do emprego, ou quando casa relação ao ano anterior; foram 1.133 femi­nicídio; já ou quando nascem os filhos, tornando-se submissa de violência doméstica do período foram 221.238 em um âmbito financeiro, porque é o homem quem registros (606 casos por coloca o dinheiro em casa. dia). E essa submissão dificulta a atuação. Às vezes a violência é confundida; a mulher acha No entanto, a violênA mulher acha que só existe a que só existe violência física, cia não se dá apenas e desconsidera a desigualviolência física e desconsidera no âmbito sexual. Em dade dentro de casa, o conCaxias do Sul, no últia desigualdade dentro de casa trole financeiro e até mesmo mo ano, conforme o a violência sexual, quando Boletim Anual Mulhe­ realizada por um parceiro. res e Mercado de TraAlém disso, a questão da balho, produzido pelo vio­lência é emocional, porque a mulher não vai ter Observatório do Trabalho da UCS, as mulheres forças para sair daquela situação, mesmo que seja ocuparam 45% dos trabalhos formais na cidade, 5% uma relação que não esteja sendo saudável. mais do que os dados da última década. No entanto, isso não simboliza aumento de contratações femininas: na realidade apresenta apenas uma retração das Expressão: Qual é a realidade da dependência fi­ vagas formais desde 2014. A presença feminina em nanceira em Caxias? mais postos de trabalho também não representa auMônica Montanari: A maioria das mulheres caxiensmento nos salários. Em 2017, a defasagem entre os es ainda se encontra em alguma situação de dependsalários de homens e mulheres era de 16% na cidade, ência financeira. O problema começa quando as valor que já chegou a 27% há cerca de uma década, mulheres no Brasil ganham, em média, 25% menos mesmo que 61% das profissionais apresentem Ensino do que os homens. Dessa forma, mesmo que ambos Superior. trabalhem, a mulher acaba tendo uma renda menor. Outro agravante é que todo trabalho doméstico A advogada especialista em Direito de Família, costuma ficar a cargo das mulheres, pois é o que a

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Regina Lain

sociedade espera que aconteça. O homem dispende, em média, 11 horas semanais nas funções da casa, enquanto a mulher costuma dispender 48 horas semanais nesses encargos. Esse trabalho é desconsiderado mas afeta diretamente o desempenho da mulher na profissão e na vida, fazendo com que muitas considerem deixar o espaço profissional em diversas situações, durante a vida. Expressão: Você acha que a chamada geração Y (nascidos entre 1990 e 2000) está mudando essa realidade? Mônica Montanari: Em algumas situações, é possível uma evolução, em outras nem tanto. Uma das coisas que vimos bastante nas últimas eleições foi muitas mulheres jovens dizendo “eu não preciso do feminismo”, quando, na realidade, o feminismo foi um grande avanço na sociedade, principalmente em questão de direitos. Mas ainda existe muita gente que não entende a importância da igualdade. O bom é que o estereótipo da feminista já foi por terra. No início era uma visão mais combatente, dura, para romper com estruturas sociais, mas depois a feminista também pôde mostrar que não precisa ser sempre a inimiga, e é nesse momento do feminismo que estamos: sendo duras quando necessário, sendo amigáveis em outros momentos, mas sempre afirmando quem nós somos e queremos ser. Expressão: De que forma, Caxias do Sul tem agido no combate à violência con­ tra as mulheres? Mônica Montanari: Caxias tem uma rede de atendimento muito boa, muito consistente. São 24 instituições que formam a Rede de Proteção à Mulher. No entanto, qualquer serviço público necessita de uma equipe que esteja preparada, já que as mulheres chegam muito fragilizadas e, muitas vezes, acabam passando por novas situações de violência, repetindo suas histórias de forma sucessiva e sem alcançar um objetivo concreto. Ainda é preciso preparar os policiais e oferecer plantões especializados, já que a Delegacia da Mulher atua apenas de segunda a sexta. Expressão: Como você vê o trabalho dos movimentos para o combate efe­

Mônica: ativista no movimento feminista caxiense há mais de 20 anos

tivo dessas violências? Mônica Montanari: No momento, precisamos lutar para não perder os direitos que já foram conquistados, principalmente com o atual governo. Também precisamos fazer com que a população conheça todos os serviços que já são oferecidos e que são gratuitos, de fácil acesso. Infelizmente, no atual momento, o feminismo não é o tipo de movimento que vai bater de frente com a política, porque nas próprias eleições a questão de gênero foi usada de forma a transformar esse e outros movimentos em inimigos da sociedade, prejudiciais. No entanto, devemos continuar com um trabalho “de formiguinha”, apresentando as situações em comunidades, apresentando os serviços e fazendo com que as mulheres, principalmente as que possuem menos formação, entendam o que é violência e de que forma podem combatê-la.

Em caso de violência, como denunciar Coordenadoria da Mulher: (54) 3218.6026 Centro de Referência para a Mulher: (54) 3218.6112 Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam): (54) 3220.9280 Patrulha Maria da Penha: (54) 9 8423.2154 Central de Atendimento à Mulher: telefone 180

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CAMINHOS DA FÉ MUNICÍPIOS DA SERRA INAUGURAM ROTA TURÍSTICA DE CERCA DE 200 KM INSPIRADA EM SANTIAGO DE COMPOSTELA

Adroir Silva

ALISON OLIVEIRA

Rota liga os santuários de Nossa Senhora de Caravaggio de Farroupilha e de Canela

A

Serra gaúcha oferece mais uma opção de turismo. Baseada na fé e no legado dos imigrantes italianos, a trilha de peregrinação “Caminhos de Caravaggio” foi lançada oficialmente, no início de maio, em uma cerimônia solene no Santuário de Nossa Senhora de Caravaggio, em Farroupilha. O evento contou com a presença de autoridades das cinco cidades que fazem parte do roteiro. Na cerimônia, foi apresentado o guia oficial do peregrino, com fôlder, passaporte e certificados, além da placa-símbolo do roteiro, que liga os santuários de Nossa Senhora de Caravaggio de Farroupilha ao de Canela. Ao todo, o percurso tem cerca de 200 quilômetros e cruza por estradas nas zonas rural e urbana dos municípios de Farroupilha, Caxias do Sul, Nova Petrópolis, Gramado e Canela. O roteiro oferece uma experiência de reflexão, espiritualidade e superação. O peregrino pode percorrer o trajeto a pé ou de bicicleta, opções que permitem a contemplação das paisagens e construções dos séculos XIX e XX, além de atrações que remetem à memória dos imigrantes italianos. Ao todo, a comissão intermunicipal criadora do trajeto

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prevê que o peregrino cumpra o trajeto completo em até 12 dias, com percursos diários sugeridos de 15 a 28 quilômetros até o final da rota.

DESENVOLVIMENTO DO INTERIOR Além de oferecer um novo atrativo turístico para a região, “Caminhos de Caravaggio” tem um viés de desenvolvimento do interior. Ao estabelecer um fluxo constante de visitantes, o intuito dos municípios é fomentar novos empreendimentos ao longo do percurso e engajar a população para que faça parte da iniciativa. “O roteiro vai contribuir consideravelmente para o desenvolvimento econômico, uma vez que o intuito dele é fomentar o turismo nessas comunidades ao integrar a região da uva e do vinho à região das hortênsias. Além disso, queremos atrair um novo público para a região, que é o público peregrino”, explica Francis Casali, secretário do Turismo de Farroupilha. Para estimular esse desenvolvimento, em 2018 cada cidade participante realizou oficinas de turismo


Adroir Silva

Santuário de Nossa Senhora de Caravaggio em Farroupilha marca o fim da rota

rural voltadas para a comunidade e empreendedores presentes na rota, focando principalmente as oportunidades de negócio, e o incremento de atividades nas propriedades nos estabelecimentos que já estejam instalados no percurso. Segundo Casali, essas ações são necessárias para o desenvolvimento e a consolidação da rota.

A INSPIRAÇÃO “A ideia é que esse seja um roteiro perene e que cresça com o passar do tempo, já que a nossa principal inspiração é Santiago de Compostela, que é um roteiro de mais de mil anos”, argumenta o secretário de Turismo.

da Europa medieval, suplantada apenas pelas de Via Francigena (com destino a Roma) e Jerusalém, que concedia indulgência plena a quem a cumprisse. Segundo a pesquisadora e orientadora do Mestrado e do Bacharelado em Turismo da Universidade de Caxias do Sul, doutora Susana Gastal, a roteirização religiosa, a partir do caminho de Santiago, tem crescido muito nas últimas décadas. Sobre os Caminhos de Caravaggio, a percepção de Susana é a mesma dos organizadores: um fluxo mais constante de peregrinos, o que pode ser benéfico para as comunidades.

“Ao criar o caminho, se­ cria toda uma in­fra­es­ trutura ao redor dele, o “Queremos atrair um novo que, com certeza, soma Utilizados desde o século IX, pa­ra a comunidade de­ público para a região, que os Caminhos de Santiago Ca­ravaggio e, prin­ é o público peregrino” espalham-se por toda a Europa c i­­­­p a l m e n t e , p a r a a e passam principalmente por re­gião”, expli­ca Su­sana. Portugal, Inglaterra, França e Segundo a pesquisadora, Itália, encontrando,no final, os é muito cedo para ava­ trajetos espanhóis que levam liar o caminho, mas a a Santiago de Compostela. O percurso é geralmente iniciativa pode render frutos positivos. feito a pé, mas bicicletas, cavalos e burros também são bastante utilizados. “O turismo religioso é muito forte aqui na região. Se as comunidades estiverem dispostas a apoiar A tradição vem dos percursos realizados pelos o peregrino em acolhimento e infraestrutura peregrinos do século IX, para venerar as relíquias do ao longo do ano, o impacto com certeza será apóstolo Santiago Maior, cujo suposto sepulcro se positivo”, calcula. encontra na catedral de Santiago de Compostela, na Espanha. A peregrinação era uma das mais concorridas

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Isabella de Amorim

COMUNIDADE PERSISTE EM MANTER A CULTURA KAINGANG

FESTAS TÍPICAS E O ENSINO DA LÍNGUA SÃO FORMAS DE SUSTENTAR A TRADIÇÃO CAROLINE SANTI PEGORARO E ISABELLA DE AMORIM

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ilvana Kaingang foi a primeira cacica (termo ainda não dicionarizado) mulher da aldeia Kaingang localizada no interior de Farroupilha. A terceira liderança que a comunidade teve desde que se estabeleceu no local. Decidiu passar o cacicado para seu filho, que era vice-cacique, em outubro de 2018, para se dedicar à escola da comunidade. As crianças da aldeia frequentam a Escola Estadual Indígena de Ensino Fundamental Nĩvo, a partir de quatro anos de idade. Silvana tem se empenhado em ensinar a língua kaingang, que está na grade curricular, a partir do segundo ano. O ensino da língua é uma das formas de manter a cultura de um povo. Para ela, uma das principais mudanças na comunidade, nos últimos anos, foi a chegada da tecnologia. E a maior preocupação são os jovens. “Os jovens, hoje, estão mais voltados para a cultura de vocês, mas nós tentamos manter a cultura. Tentamos manter a língua Kaingang”, explica. Ainda assim, as aulas na comunidade chegam somente ao quinto ano do Ensino Fundamental. Depois disso, os jovens vão para escolas fora da aldeia. Além disso, a escolarização, mesmo dentro da aldeia, é dada na língua portuguesa.

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Silvana Kaingang passou o cacicado ao seu filho, para se dedicar a lecionar na escola da aldeia, localizada em Farroupilha

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Caroline Santi Pegoraro

Outra alternativa para resgatar a cultura são as festas típicas. Na comunidade de Farroupilha, a principal é cele­ brada no dia 19 de abril, o Dia do Índio. “A gente convida as outras aldeias e eles vêm pra cá. Tem danças e comidas típicas. É uma maneira dos jovens se conhecerem, se encontrarem”, explica Silvana.

“CHAMAM NÓS DE ÍNDIOS URBANOS” A linguagem e a distância dos mais jovens, em relação à cultura da comunidade, são algumas das dificuldades que os “índios urbanos” enfrentam na região. “Eles chamam nós de índios urbanos e muitos dos mais jovens vão para a cidade”, diz Silvana. “Essa mata aqui foi reflorestada, não tem muita coisa de erva medicinal. Quando precisamos temos que buscar em Tenente Portela. Também não há cipó ou taquara. A gente tem que buscar fora”, explica Silvana ao apontar dificuldades enfrentadas pela tribo, que vive em condições características de uma tribo urbana. Apesar das dificuldades em manter algumas tradições, a comunidade de cerca de 80 pessoas está estabelecida em Farroupilha desde 2006, sempre sob a liderança de um cacique. A aldeia, hoje, tem também três famílias que vivem em Forqueta, bairro de Caxias do Sul, cidade vizinha de Farroupilha. O espaço foi cedido após a construção da BR 386, como compensação. É nessa comunidade menor que vive o atual cacique, filho de Silvana. A liderança das tribos é responsável por participar de reuniões em outras comunidades, cuidar do bemestar da tribo e aconselhar seus integrantes, tanto individualmente quanto com casais.

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Cerca de 80 pessoas vivem na comunidade Kaingang, estabelecida em Farroupilha desde 2006

UMA TRIBO METADE KAIRU E METADE KAMÉ Os casais das tribos são tradicionalmente formados por uma pessoa da metade Kairu e outra pessoa Kamé. É assim que os Kaingangs se dividem. As duas metades exogâmicas, se opõem e se completam. Silvana explica como a dualidade funciona nos casamentos na comunidade: “Kairu e Kamé são muito respeitadas nas aldeias. Não podem casar entre si. Não pode uma pessoa Kairu casar com outra Kairu, porque são parentes. Os antigos nos contavam que foi por causa da Lua e do Sol. Teve uma briga e então teve uma divisão. A lua disse que ia cuidar da noite, o sol disse que ia cuidar do dia”. O mito, que explica a origem dos Kaingangs, conta que os primeiros saíram do chão e, assim, têm cor de terra. Tudo foi criado pelos irmãos gêmeos que representam as metades Kairu e Kamé. Sol é Kamé, Lua é Kairu. Kamé é mais forte e vagaroso, Kairu é mais fraco e ligeiro. Aqueles que não respeitam a divisão Kairu e Kamé nos casamentos na comunidade Kaingang são isolados. “Se os jovens casarem entre a mesma metade podem continuar aqui na aldeia, mas a liderança não se responsabiliza mais por eles. Eles ficam isolados. Não recebem apoio da liderança”, completa Silvana.

A CULTURA PERSISTE Com todas as dificuldades, entre elas a perda de pessoas e a falta de espaço e de produtos de sua tradição, a cultura Kaingang persiste. Na escola, com o ensino da língua típica, ela persiste; no estilo de vida, que resiste à adequação ao comportamento do homem branco; nas festas tradicionais, que remontam tempos distantes. Persiste com Silvana que, acima de tudo, acredita no seu povo.


Foto: Pref. Mun. de Pinto Bandeira

ERS-448 está em péssimas condições de conservação

FALTA ASFALTO, SOBRAM BURACOS CIDADES DA SERRA SOFREM COM VIAS DE ACESSO ESBURACADAS E FALTA DE RECURSOS PARA RECAPEAMENTO ALISON OLIVEIRA

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nquanto iniciativas para alavancar o turismo na região impulsionam o interior da Serra gaúcha, as vias utilizadas no dia a dia pela população e no escoamento da produção sofrem com o descaso. O abandono afeta, principalmente, pequenas cidades com apenas uma estrada de acesso. Esse é o caso de Nova Roma do Sul, onde a população reclama há cerca de dois anos do mato alto que invade a pista da ERS-448, que liga o município a Farroupilha. A situação se agrava ainda mais quando a ponte sobre o rio das Antas, datada da década de 30 do século passado, é interrompida para consertos cada vez mais frequentes, sendo o último em janeiro. O impacto da péssima conservação dos cerca de 50 quilômetros de estrada entre os dois municípios é grave. Segundo o prefeito de Nova Roma do Sul, Douglas Pasuch, “aumenta o tempo de deslocando do visitante e traz prejuízos, como corte de pneus por causa dos buracos e galhos que invadem a pista e danificam os vidros dos carros”, afirma o prefeito. Em contatos com o Departamento Autônomo de Estradas e Rodagem (Daer), órgão estadual responsável pela conservação da via, as respostas recebidas pela prefeitura são de que a autarquia estadual não dispõe de massa asfáltica para o recapeamento da via. Já a limpeza da vegetação estaria apenas na promessa.

PINTO BANDEIRA Situação semelhante vive a comunidade de Pinto Bandeira, município com 2,8 mil habitantes, vizi­ nho de Bento Gonçalves. A única via de acesso asfaltada do município, a VRS-855, encontra-se em péssimas condições de conservação.

Além de importante rota turística, a rodovia é essencial para o escoamento da produção de pêssego, principal atividade econômica do município. Pinto Bandeira, juntamente com Bento Gonçalves, é responsável por 14,7 % da produção de pêssegos do País. Ao contrário de Nova Roma do Sul, o município iniciou uma campanha em empresas privadas para comprar massa asfáltica e realizar uma operação tapa-buracos. O intuito é que cada empresa colabore com uma tone­lada. A ação é a segunda realizada somente em 2019. Em fevereiro, o município já havia realizada uma opera­ção tapa-buracos com a autorização do governo estadual, mas com viés paliativo. Conforme o prefeito de Pinto Bandeira, Hadair Ferrari, o problema persiste há quase oito anos e não pode mais ser resolvido com ações temporárias. “Todas as cidades da região têm problemas e, infelizmente, quem pode resolver, resolve. Mas nós temos trechos que não adianta mais”, reitera. Atualmente, o prefeito tenta reunir-se novamente com representantes do estado para conversar sobre as condições da via de acesso. Em janeiro, uma comitiva do município esteve em Porto Alegre conversando com o governador Eduardo Leite e com o secretário de Logística e Transportes, Juvir Costella. Na ocasião, foi solicitada a recuperação total da VRS-855, por meio de recapeamento. Pedido que continua sem resposta.

CONTRAPONTO Por meio de nota, o Daer afirma que “está buscando no governo do estado recursos para retomar a manutenção das rodovias estaduais”. Quanto à data para que as ações sejam implantadas nas duas rodovias, o órgão nada define, mas declara que “o assunto está sendo tratado com prioridade”.

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Foto: Bernardo Barcellos

Vindos de Caracas, imigrantes encontram abrigo em Caxias do Sul

COMO VIVEM OS IMIGRANTES VENEZUELANOS EM CAXIAS DO SUL ENTRE ERROS E ACERTOS, DIFICULDADES E OPORTUNIDADES, VENEZUELANOS RECOMEÇAM A VIDA NA CIDADE BERNARDO BARCELLOS

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ergulhada numa crise política e humanitária, a Venezuela, um dos países com maior potencial econômico da América Latina, graças a seu polo petrolífero, vê muitos de seus cidadãos partirem em busca de um recomeço e melhores condições de vida. A presidência de Nicolás Maduro é questionada pelo opositor Juan Guaidó, autoproclamado presidente interino. Segundo dados da Organização dos Estados Americanos (OEA), 5 milhões de venezuelanos deverão deixar o país em 2019, um fluxo migratório comparado à guerra no Afeganistão e na Síria. Os imigrantes da Venezuela estão na Colômbia (1,2 milhão), no Chile (265.800), no Equador (250.000), na Argentina (130.000) e no Brasil (100.000). O Brasil chegou a ser o segundo maior lugar de

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procura por refúgio. Grande parte dos venezuelanos entra no País pela fronteira com Roraima. Em Boa Vista, os refugiados solicitam entrada na condição de refugiados, alegando perseguição política ou crise humanitária. Dessa forma, têm direito a documentos no Brasil. Em abril, o governo brasileiro liberou aproximadamente R$ 224 milhões de reais em favor do Ministério da Defesa para a assistência aos venezuelanos no País. Um dos principais programas e meio de ajuda aos imigrantes é o chamado Programa de Interiorização, lançado em abril de 2018, em conjunto entre o gover­no e a Agência da ONU para refugiados (Acnur). O programa ajuda a garantir os direitos dos imigrantes a documentos e serviços básicos. O Rio Grande do Sul, segundo levantamento do governo federal, é o estado com maior número de imigrantes interiorizados.


CHEGADA DOS IMIGRANTES NA CIDADE

trabalhan­do em regime quase escravo, com a esposa. Entre contatos e fotos, enviadas pelo grupo de amigos daqui, os dois deslocaram-se para Caxias do Sul ,onde encontraram um lugar com banho quente, roupa limpa, comida nos armários e geladeira.

Diversas são as formas da chegada dos imigrantes. Algumas Igrejas, como Testemunhas de Jeová e Mórmons, se articulam com seus integrantes e organizam a vinda dos venezuelanos. Alguns ficam em casa de famílias, outros na Igreja. Eles são vincu“Nós recebemos fotos de tudo aqui. Eu disse pra lados a essas instituições e vêm para fazer parte delas. Laura, vamos aceitar o destino. De tanta coisa Há um grupo de amigos residentes em Caxias sem que já passamos, vamos tentar mudar nossa vida. nome descritivo e sem fins lucrativos, que promoveu Chegamos aqui pensando positivo”, relembra ele. a vinda de mais de 20 pessoas e famíli­as para a cidade. O casal Ir­ving Mendoza Laura comenta o iníe Lau­ra Medina e os cio da caminhada em amigos Dainer Lemo, Roraima. “Foi forte. Eu Ana Ma­ria Medina e chorava todas as noites “Foi forte. Eu chorava Luiz Basanta integram porque não acreditava esse gru­po. no que estava vivendo todas as noites porque no momento. Tinha não acreditava no que estava O caminho para a uma casa na Venezuela. vivendo no momento” ­r e­g u­l arização e para Em Roraima encona ob­tenção de docutrei um ambiente mentos, na maioria muito diferente. Tive das vezes, é a Central que dormir na rua. de Atendimento ao Foi complicado. Uma Migrante (CAM), onde experiência horrível”, é possível obter auxílio e direcionamento para alguns conta ela. problemas. À frente dos serviços jurídicos da CAM, o advogado Adriano Pistorello comenta os serviços No fechamento desta matéria, Dainer, Ana Maria e oferecidos: “As pessoas acabam nos buscando pelo Luiz Basanta, que estavam há nove meses no Brasil reconhecimento e pelo trabalho feito durante os e há apenas um na cidade, dividiam a moradia com anos. Nós temos um pouco da expertise do negócio Irving e Laura e procuravam emprego. de regularização. Somos demandados por diversas entidades públicas como Ministério Público Federal, Ministério do Trabalho e Defensoria Pública da União”, exemplifica Pistorelo. Residente do Bairro Nossa Senhora das Graças, na 8º Légua, o casal Irving e Laura fez parte do grupo de imigrantes que contrariam o senso comum. Ele é graduado em Engenharia Elétrica e ela em Administração. Segundo dados obtidos pela Fundação Getúlio Vargas na Polícia Federal, cerca de 32% dos imigrantes têm Ensino Superior e 60% estavam empregados em alguma atividade remunerada na Venezuela. Em Caxias, o casal mora há três meses e, no Brasil, há um ano. Irving chegou numa sexta e na segunda começou a trabalhar, já Laura demorou alguns dias, mas logo conseguiu emprego. O casal acessou o Brasil pela cidade de Pacaraima e seguiu na direção de Boa Vista. Inicialmente, moraram na rua, vivendo do que ganhavam. Decorridos 15 dias, instalaram-se em uma obra abandonada.

SERVIÇO Para ajudar os imigrantes venezuelanos a encontrarem emprego e apoiar a causa humanitária do grupo de amigos de Caxias do Sul, qualquer pessoa pode doar roupas, cestas básicas, móveis, utensílios domésticos, brinquedos e dinheiro. Mais informações pelo telefone: 054- 98111-3733.

Irving conseguiu emprego em uma fazenda, no interior de Boa Vista. O salário era de R$ 900

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ILEGALIDADE DO COMÉRCIO AMBULANTE PRESENÇA DOS AMBULANTES PREJUDICA COMÉRCIO LOCAL E DIVIDE OPINIÕES NO CENTRO DE CAXIAS

Crédito da foto Cristina Giebelmeier

CRISTINA GIEBELMEIER

Ambulantes ocupam calçadas na Avenida Júlio de Castilhos

uem percorre ruas de Caxias do Sul deparase com intensa presença de vendedores ambulantes e grande variedade de objetos comercializados. Mercadorias como óculos, relógios, roupas, carteiras, panos de prato, DVDs, entre outros itens, disputam espaço principalmente com pedestres que percorrem a Avenida Júlio de Castilhos e a Rua Sinimbu, no centro da cidade. Essa movimentação, que se intensifica principalmente entre as semanas de pagamento e datas comemorativas, atrapalha a circulação das pessoas nas calçadas e obstrui vitrines de lojas. A ocupação das calçadas é proibida de modo geral, conforme

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explica a secretária do Urbanismo, Mirangela Rossi. “Mesmo que existisse uma política pública, teria que modificar talvez a legislação; o espaço do quadrilátero central, que a gente chama de centro histórico, não permite ambulantes nas calçadas; então, esse é o primeiro ponto. Não é só o produto ilegal ou coisas do gênero. É a questão da não permissão do uso das calçadas no trecho entre a Avenida Júlio e a Rua Sinimbu”, justifica Mirangela. A secretária do Urbanismo ressalta que após a inauguração do espaço físico do camelódromo, foi extinta a lei do camelô, que permitia esse comércio de ambulantes. “A gente até entende que muito


Crédito da foto Cristina Giebelmeier

Mercadorias são expostas em plena calçada, pelos ambulantes

provavelmente os produtos sejam semelhantes, mas no momento que eles têm uma loja, pagam aluguel, tem um alvará, existe uma estrutura de comércio.” O volume de oferta e produtos é condizente com o volume de procura. Em poucos minutos, é possível notar muitos consumidores conversando com diversos ambulantes, pesquisando preços, na tentativa de negociar o valor da mercadoria.

adquirir produtos de uma loja é questão de segurança e garantia. “Eu tenho para quem reclamar ou pedir ajuda. Na rua, fica difícil conseguir garantia. Sem falar que sabemos que é ilegal esse comércio de rua sem autorização. Então, se for preciso pagar um pouco mais, não vejo problema”, diz ela.

Segundo dados da secretaria de Urbanismo, em 2018 foram apreendidos cerca de 15 mil itens, número A semelhança entre os produtos comercializados por consideravelmente pequeno, quando comparado ambulantes e lojistas é mínima. Para Andersson Brito à quantidade de mercadorias comercializadas por Castilhos, 28 anos, o que distingue a compra é, realcerca de 30 ambulantes entre as Avenidas Júlio e a mente, o preço entre um Sinimbu. Quanto à produto e outro. “Na rua apreensão, a secretu consegue comprar por tária de Urbanismo um valor bem mais em salienta: “Não conconta e ainda consegue seguimos eliminar O comércio ilegal invade negociar. essa situação porque as ruas e atrapalha eles vão retornar circulação de pedestres, “A semelhança na mercacom mercadorias. doria leva o consumidor E por serem muitos no centro de a comparar valores entre focos, a gente não Caxias do Sul lojistas e ambulantes. consegue resolver Matilde Pizarro Vergara, da forma que se presidente da Associação deseja essa situação”, dos Camelôs de Caxias explica Mirangela. do Sul, explica que a regularidade quanto ao cumA mercadoria apreendida pode ser retirada na primento do pagamento dos impostos influencia secre­taria de Urbanismo mediante apresentação diretamente o preço do produto, encarecendo-o de nota fiscal. e abrindo margem para ambulantes que agem de forma ilegal. Segundo Vergara, o número de produA mercadoria que não é retirada é selecionada e tos comercializados no camelódromo diminui a cada destinada a entidades pré-cadastradas, por meio de ano. Para a consumidora Jocelaine Holkem, 38 anos, ofício dirigido à secretaria.

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ESTAÇÃO FÉRREA RECEBE ALTERAÇÕES PROCESSO ATINGIRÁ, TAMBÉM, A RUA CORONEL FLORES BERNARDO BARCELLOS

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atrimônio histórico e um dos principais pontos turísticos da cidade, a Estação Férrea de Caxias do Sul já deixou de ser apenas via de acesso ferroviário e território turístico. Com a aber­ tura de bares, pubs e casas noturnas nas proximidades, o número de frequentadores aumentou. Do blues ao rock, do sertanejo ao funk, as tribos se misturaram e passaram a ocupar a estação. A aglome­ração de pessoas e carros, aliada ao volume do som, causa alguns atritos e desentendimentos.

ou os pontos de comércio. Trazem bebida alcoólica e som automotivo. Os frequentadores do comércio, na maioria, chegam de motoristas por aplicativo. “A Coronel Flores estará integrada à proibição também”, afirma a secretária Mirangela Rossi.

GRUPO ORGANIZADO DE PROPRIETÁRIOS As adversidades vividas na estação levaram os proprietários­ a se organizarem e criarem um grupo que pensa de maneira estratégica a área, tanto do ponto de vista estrutural, quanto de segurança e produção.

Com isso, o Poder Público passou a reprimir as mani­festações, em operações conjuntas com a BM, Há quase uma década na área, dois dos proprietários dos com multas e com apreensão de equipamentos, além bares mais procurados comentaram a situação atual por lá. de proibir o estacionamento na parte interior “Eu acho a ocupação do espaço da estação, na tentativa público importante, porém deve de diminuir a inseguser de forma ordenada. Era uma A ocupação do rança. terra sem lei. Isso acarreta proble­ espaço público é mas para moradores, donos de Grande parte do públinegócios e, principalmente, para importante, porém co que ocupa a área é as pessoas que frequentam aqui, deve ser ordenada” jovens. O consumo de em busca de diversão, e ficam à bebida alcóolica e drogas mercê de alguns marginais,” diz é um dos principais enGustavo Gazzola, um dos proprifrentamentos da Secreetários do bar Zero54. taria Municipal de Arquitetura e Urbanis­mo, que desenvolve o­pe­ração “De outra forma, as pessoas estão mais nervosas na rua. conjunta com órgãos, como Secre­taria de Trânsito, Não saem mais com o intuito de se divertir, conversar. e Guarda Municipal. Mirangela Rossi, secretária Coisa que no passado a gente não fazia: chega lá quedo Urbanismo, comenta: “A Adminis­tração enbra tudo, não está preocupado em limpar o seu lugar. O tende que essa área foi definida como de incentivo Largo da Estação Férrea, atualmente, é um dos principais ao comércio, ao entretenimento e à cultura, e teve pontos de encontro da juventude de Caxias do Sul; entrecrescimento gradativo. Os problemas de segurança tanto, nem sempre foi assim”. agravaram-se ao longo do tempo, com a desmobilização de outros pontos da cidade.” O início dos bares e casas noturnas foi conturbado. Toyo Bagoso tem seu bar há 13 anos no local. Por vezes pensou A proibição de estacionamento no Largo da Estação em desistir em função de brigas e incomodações. “Já penFérrea foi umas das mudanças mais significativas sei em ir embora de lá umas 50 vezes por causa das brigas e já feitas. A novidade é que ela será ampliada a ruas tumultos. Hoje, junto com um grupo de colegas de todos próximas, o que pode causar algum impacto. os bares envolvidos, vejo que não. Juntos nós queremos ver o moinho crescer, que venha mais gente pra perto” “As vagas de estacionamento passaram a ser usadas ,comenta. por grupos que frequentam as ruas e não o comércio

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Bernardo Barcellos

Frequentadores do local utilizam estacionamentos como ponto de encontro

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Cristina Simonetto Giebelmeier

Caxias do Sul estima que há cerca de 306.029 veículos, desses 203.142 são carros

AUMENTO DA FROTA DE VEÍCULOS PARA A MANUTENÇÃO DAS ESTRADAS DE CAXIAS C A X I A S D O S U L T E M, E M M É D I A, 1,6 H A B ITA NT E S P O R AUTOMÓVEL. O DESAFIO DA PREFEITURA É REDUZIR DIFICULDADES DE MOBILIDADE CLAUDIA ROSSATTO

O

número de veículos cresce sistematicamente no País. Esse aumento exige alguns investimentos, para que todos possam transitar com tranquilidade. Caxias do Sul segue o ritmo de diversas cidades brasileiras: não tem estrutura adequada. O município tem, hoje, uma população estimada em pouco mais de 500 mil habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O mesmo órgão avaliou o poder aquisitivo dos trabalhadores da cidade, em cerca de 3,1 saláriosmínimos por pessoa, o que pode ser fator favorável para o aumento de veículos.

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Dados da Secretaria de Trânsito, Transporte e Mobilidade (SMTTM) estimam que há cerca de 306.029 veículos, sendo, desses, 203.142 automóveis, o que representaria 65.36% da frota. Os ônibus e micros somam 3.114, os quais são de propriedade da empresa concessionária do transporte público na cidade. Motocicletas de duas ou três rodas correspondem a 11.69% da frota. Para Joelson Queiroz, gerente municipal de Educação e Trânsito, um dos desafios que a prefeitura de Caxias do Sul enfrenta é o aumento de veículos nas vias, está ligado principalmente à topografia, que dificultaria a cons­trução de ciclovias, uma alternativa para a di-


minuição do tráfego de automóveis. Queiroz afirma que estão previstos investimentos na mobilidade de veículos e pedestres no centro da cidade e no bairro Ana Rech. A “SMTTM tem trabalha­do na implementação de semáforos em pontos críticos, além de contadores digitais regressivos, que informam o tempo disponível para a travessia”, ressalta ele. Outras melhorias importantes para a cidade referem-se à RST 453, aos bairros Santa Fé e à Avenida São Leopoldo. Segundo o prefeito Daniel Guerra, elas im­plicariam facilitações, com a redução do engarrafamento. Ele menciona, também, o­ aumento no número semáforos, o que signi­ ficaria redução de acidentes.

para o deslocamento ainda é o carro. Marcos Araldi, caminhoneiro, enfatiza que não deixaria seu carro em casa para utilizar o transporte público. Allan de Andrade afirma que seu veículo já sofreu danos. “Já tive dano, sim: pneus estourados e rodas tortas, em função dos buracos e da má-sinalização, e ninguém arca com os prejuízos. É do nosso bolso que sai”, ressalta ele. Andrade considera que as rodovias estão relativamente melho­res, em relação a tempos atrás, porém pensa que a melhor solução “Está muito preocupante. para evitar, principalmente, a­cidentes, O governo deveria dar mais ainda é investimenatenção a esta área, tos na du­plicação das o transporte rodoviário rodovias.

abastece o País’’

O transporte público também pode ser uilizado para reduzir os congestiona­ mentos. Queiroz afirma que a “atual administração está empenhada na licitação do transporte coletivo, que ocorrerá no próximo ano. O edital exigirá mais qualidade no serviço”, finaliza ele. Com as rodovias deficitárias e uma série de trans­tornos para a locomoção das pessoas, a melhor alternativa

“Quando analisamos as estatísticas, vemos que um dos principais motivos de acidente no trânsito está relacionado com as ultrapassagens. Com a duplicação das rodovias, provavelmente esse índice diminuiria”, explica ele. Araldi é caminho­neiro e, por estar diariamente na estrada, sente na pele a dura reali­ dade. A situação das estradas é preocupante, diz ele, lembrando que “o governo deveria dar mais atenção a esta área, pois o transporte rodoviário abastece o País’’.

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CEU É OPÇÃO DE LAZER PARA COMUNIDADES EM CAXIAS DO SUL CENTRO DE ARTES E ESPORTES UNIFICADOS ATENDE 15 COMUNIDADES DO MUNICÍPIO

Caroline Santi Pegoraro

CAROLINE SANTI PEGORARO

CEU oferece opções de lazer, artes e esporte, em um espaço de 14 mil metros quadrados

O

s Centros de Artes e Esportes Unificados (CEU) são espaços que integram programas e ações culturais, práticas esportivas e de lazer, além de serviços socioassistenciais e inclusão digital. Em Caxias do Sul, o CEU está localizado no bairro Cidade Nova e recebe, diariamente, cerca de 200 pessoas que circulam por ali. O centro oferece estrutura que o Município não tinha. O local atende todo bairro Cidade Nova, além de outras 15 comunidades próximas da Zona Oeste, as mais beneficiadas. Para a moradora do bairro Cidade Nova, Camila Mezzomo, 26 anos, “o CEU é muito importante pros caxienses, porque a gente ficou muito tempo sem um espaço assim, de lazer e esporte. Um espaço para a comunidade mesmo”. Ela complementa: “Nesses 22 anos que eu e minha

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família moramos aqui no bairro, nunca teve um espaço, uma praça que a gente tivesse acesso. Desde que teve o acesso do CEU, a gente frequenta. Vamos brincar com os cachorros, andar de bicicleta. Sempre tem guardas, é bem iluminado, seguro, muito bacana”. O CEU abriga, em seus 14 mil metros quadrados, quadras poliesportivas, de vôlei, parque infantil, academia da melhor idade, salas multiuso, pista de caminhada, biblioteca, pista de skate e cineteatro com capacidade para 125 pessoas. Além da estrutura oferecida, o CEU abriga o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS oeste)), proporcionando, assim, serviços de Proteção e Aten­dimento Integral às Famílias (Paif) e serviços de Convivência e Fortalecimento de vínculos (SCFV).


Crédito da foto Cristina Giebelmeier e Cláudia Rossatto.

Educadores, assistentes sociais e psicólogos atendem à população que necessita de orientação e encaminhamento para acesso a direitos, além de acompanharem situações de dificuldades ou conflitos familiares.

PLANOS PARA O CENTRO Atualmente, o CEU está na fase final de organização, faltando apenas mobília no cineteatro, para entrar em funcionamento. Segundo o secretário municipal da Cultura, Joelmir da Silva Neto, o cineteatro será inau­ gurado no segundo semestre deste ano, mas ainda não há data definida. Ainda sobre o futuro do espaço, ele afirma que “além de terminar de mobiliar e inaugurar, precisamos criar uma agenda intensa de atividades para a comunidade do entorno e geral e implantar melhorias que já foram verificadas, como o fechamento da área de exposição com vidro, hoje aberta, para um melhor aproveitamento do espaço”. O CEU fica localizado nas esquinas das ruas Raimundo Magnabosco e Abel Postali, no bairro Cidade Nova e abre para o público, das 6h às 22h. O horário poderá ser alterado na estação do frio, fechando assim, às 21h. O atendimento é realizado das 8h às 12h e das 13h às 17h.

Infográfico atendimentos Procon

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FARAÓS DO SÉCULO XXI AS PIRÂMIDES ATUAIS NÃO SÃO MAIS FEITAS DE PEDRA, E CAEM MUITO MAIS FACILMENTE GABRIELLA DE PAULA

Começou quando eu recém tinha enfermagem Amanda Roncarelli Branchieri ter entrado na produtora de vídeo, em que aceitado investir na Unick Forex, uma empresa eu trabalhava. Eu tinha, acho, 16 para de aplicações em criptomoedas, como a famosa 17 anos. Eu cheguei para o meu chefe e bitcoin. Com medo de perder dinheiro como eu soube de uma uma tal de mandala, que tava acontecera anteriormente, a estudante investiu fazendo muito sucesso e tal. Minha mãe quis me no pacote básico, com o valor de R$ 99,00. Isso colocar, enfim… E eu cheguei pra ele e disse: deu a ela a chave de acesso para diversas pales­ ‘bah, vamos fazer essa mandala e tal, vai te trazer tras e aulas sobre o mercado de criptomoedas: dinheiro… E ele disse assim: ‘Amanda, isso daí é o conhecimento de que seu chefe tinha falado. pirâmide. Por que assim, tudo que tu faz doação E o melhor: ela estava lucrando diariamente de dinheiro sendo que tu não vai ter nada em uma porcentagem de juros sob seu investimento troca e tal, é pirâmide, uma hora cai.’ Ok, inicial. nunca mais ofereci nada. Também saí da mandala. Não deu certo. A Unick promete Perdi dinheiro. Daí, lucros diários de eu fui demitida, mas 1,5% a 3% sobre a depois de quase dois aplicação feita (e os Não é pirâmide anos eu voltei para próprios­ investidores porque eles estão a produtora, por se responsabilizam que eu recebi uma pela divulgação da te vendendo mensagem. empresa). Então, conhecimento não deveria ter Ele me disse que ele si­d o surpresa para tinha duas proposAmanda quando seu tas de negócio para trabalho de secreme falar. Uma das tária se restringiu propostas era entrar na Unick Forex. Então, eu ao recrutamento de mais pessoas para a Unick. cheguei, sentei lá, ele foi me explicando, expli“Tu tem que ser criativo, né. Como tu quiser ou cando, explicando… E na minha cabeça vinha conseguir divulgar, tu faz. A gente fazia tanto quando eu fui explicar pra ele, sabe? E daí eu reuniões, como divulgação por facebook, insbem assim: ‘tá, mas isso não é pirâmide?’ Daí, tagram… A gente utilizava alguns aplicativos ele: ‘Não. Porque não funciona assim. É comde interação automática, que enviavam todas as pletamente diferente. É assim: tu vai investir um informações por e-mail, messenger ou whatdinheiro. Daí tu vai indicar duas pessoas, essas sapp ”, explica a estudante. Amanda esperou duas pessoas vão indicar quatro pessoas. Mas completar seis meses antes de sair da produtora não é pirâmide, por que eles estão te vendendo e pedir a retirada de seu dinheiro. Ela diz que conhecimento.’” somando os juros e bônus, teria direito a retirar cerca de R$ 500,00, que nunca recebeu. E isso A segunda proposta era um emprego como não é algo que aconteceu apenas com Amanda na secretária na produtora de vídeo. Essa oferta, Unick Forex, mas com muitas pessoas nas várias porém, somente foi feita após a estudante de empresas do mesmo tipo, em Novo Hamburgo.

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Desde fevereiro deste ano (2019), o Ministério Público está investigando diversas empresas com sede no Vale dos Sinos, por suspeita de fraude financeira. Entre elas estão a Unick Forex e a InDeal , que funciona de modo semelhante à primeira. Em entrevista à Gaúcha+, o procurador da República, Celso Tres, diz que essa é uma pirâmide financeira clássica. “Oferece lá 15% de rendimento ao mês, mais 5% a cada novo investidor que a pessoa leva para o siste­ma, ou seja: é um exemplo clássico de pirâmide. Evidentemente, os primeiros acabam recebendo, até para atrair outros, mas o passivo obviamente se avoluma e, depois, simplesmente as pessoas não recebem mais nada”, explica o procurador.

Desde fevereiro deste ano, o ministério público está investigando diversas empresas Celso Tres compara a operação dessas empresas com a Telexfree , um esquema de pirâmide financeira global desmantelado em 2014. Em vez de investimentos em criptomoedas, a Telexfree vendia pacotes de telefonia via internet. Mas o que levou o MP a categorizar a operação como pirâmide foi o fato de que o foco não estava na venda dos produtos, mas no recrutamento de novos vendedores. Esses eram chamados dentro da empresa de “divulgadores”, e precisavam pagar uma taxa de adesão à empresa e comprar os próprios pacotes que iriam vender. Para os procuradores da época, o sistema era insustentável e iria ruir assim que as pessoas parassem de entrar, enquanto a empresa dizia praticar marketing multinível. No final, a fraude foi descoberta, os bens da empresa foram bloqueados e cerca de 1 milhão de pessoas ao redor do mundo ficaram no prejuízo.

Gabriella de Paula

INVESTIGAÇÃO

MAS VAI CAIR OU NÃO? Algo destacado tanto pelos repórteres da Gaúcha+ quanto pelo procurador Celso Tres, é que grande parte dos investidores das empresas do Vale dos Sinos duvidam das alegações de que elas são fraude pelo fato de estarem recebendo seu dinheiro em dia. Mesmo a InDeal, que teve suas contas bloqueadas pela Justiça Federal, ao longo da produção desta matéria, continua sendo defendida por seus investidores. Amanda Roncarelli Branchieri não se surpreende. “Ali na Unick, as pessoas fazem assim: investem primeiro pouco dinhei­­ro pra ver se funciona. Quando eles tiram esse dinheiro e veem que sai esse dinheiro, eles pensam ‘opa! Funciona! Funciona!’ Daí eles investem mais dinheiro. Só que esse mais dinheiro é R$ 600,00, R$ 700,00. Eles recebem isso de volta e pensam: ‘realmente funciona’ e colocam tudo lá. Só que enquanto tem gente botando R$ 100,00, tem gente colocando R$ 49.000,00!”, explica a estudante, que acredita que se a Unick realmente se trata de um esquema de pirâmide, vai demorar a cair. Já o procurador acredita que a queda é inevitável e aconselha a todos que investiram nas empresas do Vale dos Sinos: “retirem o dinheiro o quanto antes”.

“Eles recebem isso de volta e pensam: ‘realmente funciona’ e colocam tudo lá” 35


Arte: Rodolfo Guimarães

Caxias do Sul produz cerca de 450 toneladas de lixo doméstico, das quais apenas 90 toneladas são recicláveis.

VIVER DE LIXO O VALOR SOCIAL DAQUILO QUE JOGAMOS FORA GABRIELLA DE PAULA

A

história do lixo em Caxias do Sul não termina nos conhecidos containers verde e amarelo. Na realidade, ela apenas começa ali. Todos os dias, os caminhões da Codeca recolhem as 450 toneladas descartadas na cidade diariamente. Apenas 90 toneladas disso (correspondente a 20% do total) é reciclável. O resíduo seletivo recolhido é carregado para uma das 13 associações de catadores conveniadas com o município. O trabalho de separação dos materiais para reciclagem é efetuado pelos funcionários dessas associações. Primeiro, os resíduos passam por um processo de tria­gem, em que uma parte do material é selecionada para reciclagem, e, depois, separada por tipo de resíduo – metal, papel, plástico ou vidro – antes de ser vendida para as empresas que reaproveitam os materiais. Apenas 35% das 90 toneladas de resíduos seletivos coletadas diariamente são enviadas para reciclagem. Os 65% descartados pelos catadores são enviados para o aterro municipal em Vila Seca, juntamente com o lixo orgânico.

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Os caminhões recolhem o lixo e o levam até o destino apropriado, dependendo do tipo de resíduo: orgânico ou seletivo.

Os resíduos seletivos são entregues nas Associações de Recicladores. Nesses locais, o lixo passa por um processo de triagem, em que primeiro é determinada a viabilidade do material para reciclagem.

Cerca de 65% dos resíduos recolhidos não podem ser reaproveitados, normalmente por terem sido descartados de forma incorreta.

Apenas 35% dos materiais são aprovados pela triagem. Eles são então separados por tipo (metal, papel, plástico e vidro), classificados e pesados, antes de serem vendidos às indústrias para reaproveitamento.

O dinheiro da venda dos resíduos recicláveis para as empresas é a fonte de renda dos catadores que trabalham nas Associações.

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LIXO RENTÁVEL

TEMPO DE VACAS MAGRAS

Alison Oliveira

O que mais influencia, na hora de determinar Estela afirma que, até 2017, os catadores associados conquais materiais são mantidos ou descartados seguiam sustentar a família com a renda provinda da ,é seu valor comercial para as empresas de venda dos materiais recicláveis, mas que, desde então, isso reciclagem. Os catadores das associações de está cada vez mais difícil. “Só se tiver pelo menos duas Caxias do Sul são trabalhadores informais que pessoas da mesma família, senão não vive.” dependem da venda desses materiais para ter sua renda, por isso procuram por qualquer Para ela, o motivo é a falta de material. Nos últimos anos, material que interesse às empresas recicladoo número de associações aumentou de 5 para 13 em ras, como metal, papel, plástico, vidro e até Caxias do Sul, o que dilui dramaticamente o volume de mesmo lâmpadas e baterias. Valdete Leal resíduos que cada associação recebe. O que antigamente Sodré e Estela Mari Marcondes, catadoras era a carga de um dia, hoje é a carga de uma semana. da Associação de Além disso, os catadores Catadores Serrano, ambulantes representam dizem que apesar de outro problema. “Tem receberem muitos os catadores que já têm “Tem gente que separa resíduos, nem tudo os próprios carros, os pode ser aproveitado. próprios­ caminhões, e bem, mas tem pessoas “Vem muito material eles vão levan­do o que é que colocam tudo junto” orgânico. Tem gente melhor­. Eles levam pet , que separa bem, mas eles levam a lati­n ha, eles tem pessoas que cololevam papelão, que é o cam tudo junto, sabe. que daria uma renda maior O lixo do banheiro, para nós”, explica Estela. de cozinha, resto de comida… Aí vem misturado junto com pet, Um esforço maior da população na separação evitaria que com caixinha de leite”, explica Valdete. boa parte dos materiais seletivos fosse parar no aterro. No entanto, Estela acredita que isso somente facilitaria o traO descaso com a separação correta dos balho dos catadores ambulantes, piorando a situação das resíduos traz muito prejuízo aos catadores das associações. associações. Desde o tempo perdido na seleção dos materiais, até a qualidade do que pode ser vendido. Se o material não estiver bem limpo e separado, o valor comercial por quilo, que Estela diz já ser baixo, diminui ainda mais. “O pet tá R$ 2,20, que é um dos melhores preços que já teve até hoje, e o papel tá R$ 0,20, o vidro é R$ 0,08 o quilo… É tudo centavos”, explica ela. Cada empresa recicladora trabalha com um tipo específico de material (pet branco, papel arquivo, etc.), mas nem sempre as associações têm o volume necessário ou os meios para fazer a separação exata dos resíduos seletivos. É aí que entram os “atravessadores”: empresas ou indivíduos que compram os materiais de todas as associações e fazem esse trabalho de divisão dos materiais e a venda para os consumidores. São os atravessadores que decidem o preço dos materiais e, normalmente, são os que mais lucram em cima do material vendido.

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Encontra-se de tudo em meio ao resíduos


Alison Oliveira

Os catadores da Associação de Catadores Serrano escolhem os resíduos que serão enviados para reciclagem

AMBULANTES VERSUS ASSOCIADOS Os catadores ambulantes sofriam com perseguição policial e multas severas até que o projeto Catador Legal foi aprovado no final de 2016, regularizando a profissão. Enquanto isso melhorou a situação dos ambulantes, criou problemas para as associações. Estela compara o quadro com a briga entre taxistas e motoristas de uber. As associações devem prestar contas para a prefeitura, enquanto os catadores ambulantes não têm o mesmo dever com o município. Em 2013, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) publicou uma análise da “Situação Social das Catadoras e dos Catadores de Material Reciclável e Reutilizável”, com base nos dados levantados pelo censo de 2010. A análise traça o perfil do catador brasileiro como majoritariamente masculino, entre 30 e 40 anos e, predominantemente, negro (com exceção da Região Sul). De acordo com a mesma análise, para cada pessoa que declara trabalhar com a coleta de materiais recicláveis, existem outras quatro direta ou indiretamente dependentes dessa renda que, em 2010, equivalia à média de R$ 571,56 (em comparação com o salário-mínimo da época, que era de R$ 510,00). Outra informação relevante dessa análise é a de que dois a cada três catadores trabalham autonomamente. Enquanto para Estela e Valdete os catadores ambulantes escolhem trabalhar dessa forma, para não ter que dividir seus lucros, a análise oferece outros motivos,

como a preferência para gerir seu próprio horário de trabalho e o desconhecimento técnico e geral do funcionamento interno de uma associação e sua gestão. Qualquer que seja a razão para a falta de coopera­ ção entre catadores ambulantes e associados, o fato é que 65% dos materiais seletivos está indo para o aterro, onde demorará anos para se decompor. Em uma guerra sem vencedor, o único que realmente sai perdendo é o meio ambiente.

“Tem os catadores que já têm os próprios carros, os próprios caminhões, e eles vão levando o que é melhor. Eles levam pet, eles levam a latinha, eles levam papelão, que é o que daria uma renda maior para nós”

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REGRA DE TRÊS GABRIEL DE AGUIAR IZIDORO | JORNALISTA

I

magina que já aconteceu o Apocalipse. E tu estás aqui. Olha que boa notícia. Esse já passou – só terás de lidar com o interlúdio até o próximo. Haverá outro, não te iludas. Outros. Mas cada qual a seu tempo. Nesse entreato de destruição, vexames e glória é que o novo sempre vem. Sempre. Tu és prova disso.

No nosso caso, somos tanto a praga que pode arrasar o horizonte, até onde os olhos enxergam, no que estamos sendo majestosamente bem-sucedidos, quanto a luz do conhecimento capaz de multiplicar a vida. E isso é tudo o que nos diferencia dos outros animais. A possibilidade de escolha.

Agora, por que te jogaram aqui?

Regra número 1: faça sempre as perguntas difíceis. Sempre. Não porque esperas chegar a alguma resposta. Mas porque há, no centro da galáxia, um buraco negro do tamanho dos teus dias mais longos, que atrai e devora a existência, feito de certezas cegas. Só vais repeli-lo com as indagações que te maravilham além.

O que significa a consciência de existir e, consequentemente, de terminar. Não é uma ideia confortável e verificável em todos os indivíduos da espécie. Muitos animaizinhos lutam ferozmente para abrir mão dele, mas te garanto: é um privilégio. Lidar com as consequências do que sabemos e decidimos e queremos e não conseguimos pode nos atormentar tanto que nos torna capazes de criar arte. Que é o instantâneo da nossa perplexidade diante do incompreensível.

Para encontrar as respostas fáceis, basta vasculhares o perímetro em busca de rastros de dinheiro, sexo e terra. Atrás deles, encontrarás os campeões das menores causas pelas quais se valeria abrir – ou fechar – uma garganta. Tantas, que não se pode contar. Os senhores do sangue do mundo, que te contarão lindas estórias de tradição, família e propriedade em roupa de festa.

Contudo, desenvolvemos, também, o dom de cometer blefes – que têm meramente a finalidade de manter um doce véu entorpecente sobre teus olhos. Não é fácil diferenciar um do outro. Mas tu aprenderás. Blefe é transformar uma montanha em uma pilha de pedras no meio do caminho, com um troféu no topo. Arte é traduzir em língua de gente a mística que ela guarda.

Entre eles, fingindo que não é um deles, haverá um líder, um guru, um grande sábio comportando-se como um falo que fala, inclusive quando desprovido dele, pois toda forma de dominação é masculina, a fim de te possuir. Seus lábios desconhecem hesitação. E a cabeça leva algum adorno. Porque nós somos mamíferos e ficamos fascinados na presença de uma boca cheia de dentes enfeitada por uma juba.

O que leva, finalmente, à regra número 3: encontra um mistério para chamar de teu. Aquilo que te salvará quando tudo o mais perder o encanto (são as certezas te devorando). A tua lembrança de que não é pelas respostas do que alguém já sabe, mas pelas desco­b ertas do infinito, que não conheces, que emana a vida.

Pergunta difícil.

Regra número 2: a natureza manda. Somos bichos, sujeitos às suas leis sagradas (que são universais e implacáveis – coisa mais linda).

Sim, tenho o meu particular, em um canto sagrado e protegido do maremoto da cachola. Óbvio que não o revelarei aqui. É meu. Mas só para ti, eu dou uma ideia. Afinal, faz todo o sentido, Celeste.

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Expressão 2019/4  

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