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P

O FUTU RO

É AMAN HÃ

arece que foi ontem que entrei na Universidade, no entanto, parece que o mundo já não é o mesmo. Os telemóveis mudaram todos para a 3ª geração, os tablets apareceram, a Internet possui todo o tipo de ficheiros e o mundo é cada vez mais digitalizado. A Universidade serve para nos preparar para o mercado de trabalho e abre-nos portas para o mundo da investigação, mas o mundo corre a tal velocidade que parece que dificilmente o conseguimos acompanhar. A Resistance Magazine está a tentar acompanhar as evoluções tecnológicas dos dias de hoje que serão a normalidade de amanhã. Somente cidadãos informados é que têm a possibilidade de perceber o mercado e estar preparados para o dia de amanhã. Pretendemos, portanto, ser a revista que fornece este conhecimento aos leitores. No mês passado, o “Washinton Post” foi comprado pelo Jezz Bezos, diretor da Amazon e empreendedor da Silicon Valley, depois deste importante jornal norte-americano ter reduzido as receitas em 44% nos últimos seis anos. Todos sabemos que o mercado da impressão escrita está a reduzir de ano para ano, mas esta compra é um indício que o mercado em questão não vai mudar. É um mercado que tem a obrigação, não só de se modificar, como de se adaptar ao que aí vem e a Resistance Magazine tem o dever de acompanhar esta mudança. Os tablets e os computadores possibilitam a leitura desta revista em qualquer lugar, no entanto, acreditamos que a versão impressa não vai ser substituída pelo formato digital. Em vez disso, o formato digital vai complementar apenas o formato impresso, atingindo diferentes leitores e é por estas razões que vamos continuar a apostar nela. Temos que inovar para manter o interesse dos nossos leitores atuais, tendo também de arranjar formas de cativar novos leitores. Podem apostar que a Resistance Magazine não vai a lado nenhum. Vemo-nos em Dezembro, malta!

A Edição: Andreia Fernandes, Frederico Borges O Design: Heloísa Sobral, Pedro Silva, Filipe Trenk A Revisão: Andreia Fernandes, Magda Silva, Adriana Correia, Sara Gemelgo A Capa: Francisco Carvalho *Por decisão editorial, cada artigo nesta revista foi mantido na sua ortografia .original.

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GLOBAL

MANAGEMENT

CHALLENGE O

por Fre

der ic

Global Management Challenge (GMC) é uma competição internacional de gestão que permite aos participantes controlar uma empresa fictícia através da análise de um relatório de gestão. O primeiro simulador do GMC foi desenvolvido por investigadores de gestão na Universidade de Strathclyde, na Escócia. No entanto, foi em Portugal que foi implementado o simulador numa competição a que hoje chamamos GMC. O jornal semanal Expresso decidiu então criar a competição que permitisse aos participantes perceber alguns dos princípios da gestão de uma Empresa. E assim foi. O objectivo do GMC é atrair participantes de quadros empresariais, tal como de estudantes de gestão, economia e engenharia. Com o objectivo de participar nesta importante competição internacional, associado ao interesse e curiosidade pela gestão e pelo mundo empresarial, a Resistance formou uma equipa dentro dos próprios quadros e começou imediata e arduamente a trabalhar para tentar perceber o simulador. Depois de muitas páginas de leitura e releitura, arregaçámos as mangas para a fase Trainee, que é uma fase preparatória de teste do simulador. Nesta fase, além de recebermos o historial de cinco relatórios, temos três decisões para tomar durante o período de uma semana e meia. Na competição deste ano houve duas fases Trainee devido ao update do simulador. Ainda na primeira

o

r Bo

s ge

fase, testámos o nosso simulador geral, previmos as vendas do Marketing e os custos de produção, bem como dos recursos humanos. Na segunda fase Trainee ficámos em segundo lugar do grupo devido a um número que a equipa se esqueceu de verificar na primeira decisão tomada. Digo isto para mostrar e evidenciar a dificuldade e o trabalho que é necessário dedicar a cada relatório de gestão. Quando entrámos na primeira fase ficámos muito satisfeitos por saber que seríamos patrocinados pela ACCENTURE, o que fez crescer alguma confiança e inspiração na equipa. Mas, quando vimos o nosso grupo, tenho de ser sincero e dizer que fiquei assustado com o mesmo, pois só o primeiro lugar passaria à segunda fase. Tínhamos uma equipa do quadro da GALP, outra da Siemens e uma da CP como adversários diretos. Além disto, éramos a única equipa do grupo que tinha uma Queima das Fitas no meio das decisões, e as prioridades dos estudantes estão muito bem definidas. É necessário esclarecer e salientar que nesta fase temos 5 decisões e não apenas 3 (como nas fases Trainee), cada uma delas a ser tomada numa semana. As reuniões não são fáceis nem rápidas. São muitas opiniões, discussões e desacordos, é muito trabalho de casa para fazer e principalmente é muito tempo que não existe de todo, mas com vontade, interesse e união também não há nada que se revele impossível. Agarrámos então o primeiro lugar ao fim da terceira decisão e seguimos sempre nervosos, mas orgulhosos até ao fim. Ninguém nos podia parar. Pois bem, depois de tudo o que já revelei penso que devem saber que enquanto escrevo este artigo devia estar a analisar todo o historial porque a primeira decisão da segunda fase é para entregar na próxima terça-feira. Pois, parecendo impossível, nós passámos mesmo a primeira fase! Desejem-nos sorte para o que se segue agora! Se estiverem interessados em participar nesta competição só vos posso prometer sangue, suor e lágrimas… Ah, e algumas cadeiras de gestão tornam-se insignificantes porque o que aprendem aqui é bem mais complexo. Até para o ano. |2|

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CENTROS INVESTIGAÇÃO

CEMDRX Centro de Estudos de Materiais por Difracção de Raios-X

RESEARCH ON LANTHANIDE-BASED ORGANIC LIGHTEMITTING DIODE TECHNOLOGY AT THE CEMDRX

por Pablo Martín-Ramos

W

e live in an electronic world. Economic, health, and national security rely on and are positively impacted by electronic technology. However, the resources and methodologies used to manufacture electronic devices raise urgent questions about the negative environmental impacts of the manufacture, use and disposal of electronic devices. The use of organic materials to build electronic devices may offer a more eco-friendly - and affordable - approach to growing our electronic world. Unlike the conventional inorganic semiconductor technology which is made of silicon, organic electronics mainly consist of plastics (polymers) with different levels of conductivity. The basis of organic electronics is predicated on the ability of a class of functional organic molecules known as organic semiconductors to actively transport charge, emit light or absorb light under appropriate conditions. Devices comprising these organic semiconducting materials include transistors, light-emitting diodes and photovoltaic cells. These organic electronic devices, such as smartphones built with organic light emitting

diode (OLED) displays, are already being used by today's consumers. The Samsung Galaxy line of OLED-based smartphones occupies a major share of the current global smartphone market. LG's and Samsung's curved 55’’ OLED TVs, featuring "infinite" contrast ratio and only 4 mm thick, are already being sold in the US and South Korea. High-efficiency rigid and flexible OLED lighting panels will start massive production in Q4 2013. Flexible displays (e.g. Samsung’s YOUM technology, which enables bendable displays that can be rolled down to a 2 cm radius), transparent panels (e.g. 4D Systems’) and high-res near-eye lightfield microdisplays (e.g. Sony’s, Hymax’s or Nvidia’s), although still at a prototype stage, are a reality. However, the potential for future applications of organic electronics extends far beyond today's display technology. Organic small molecules, polymers, and other materials afford

Figure 1. Examples of OLED technology applications, ranging from the well-known screens for portable devices right column, (top) to foldable displays (left), transparent panels (center) or ultra-thin and light-weight TVs (right).

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electronic structures unique properties impossible to obtain with silicon alone, creating untold potential for novel functionality, with a tremendous potential impact (e.g. devices that can interface with biological systems, promising future healthcare applications). In spite of the fact that market reports predict that the AMOLED market will reach $11.3 billion in 2013, that OLED materials revenues will grow to over $3.4 billion in 2017, or that the global OLED displays market will reach $25.9 billion by 2018, we should keep in mind that the field of organic electronics is in its infancy with respect to devices on the market. Realizing the vision of organic electronics as a more innovative, accessible, and sustainable approach to growing our electronic world will require overcoming key research challenges. In this scaleup phase, where primary concerns now deal with processing yields, fundamental science issues still remain to be resolved. Chemists, physicists and other scientists and engineers are synthesizing and manipulating a wealth of new organic materials that will transform the way society interacts with electronic technologies, as well as promising sustainable methods for their manufacture.

Figure 2. Examples of the novel Eu(III) dimers developed at CEMDRX: tetra(1-(4-Chlorophenyl)-4,4,4-triluoro-1,3-butanedionate) di(5-chloro-1,10-phenanthroline) di-methanol di-Europium(III) (top) and 1,4-dioxane solvated octa(dibenzoylmethanate) di(1,4-dioxane) di-potassium di-Europium(III) (bottom). [Courtesy of João Pedro Martins].

Research on OLED technology at CEMDRX The interdisciplinary research currently under way at CEMDRX, leaded by Prof. Manuela Ramos Marques da Silva and Prof. Jose António Paixão, has components of Chemistry, Physics, Materials Science and Electronics. It focuses on the development of highly efficient molecular luminescent edifices based on Lanthanides, provided that these rare-earth elements have advantageous luminescent properties, such as their very narrow-band emission or their high internal efficiencies (which can be as high as 100%). Through the design of convenient chemical environments for the Ln3+ ions, it is possible to attain control over the chemical, structural and thermodynamical properties of the complexes, which in the end govern their functionality. Amongst the different synthetic strategies that have been developed during the last decades (which include linear polydentate and multifunctional ligands, macrocyclic receptors, podates and self-assembled structures), CEMDRX group has chosen β-diketonates as the preferred sensitizing ligands. Regarding the choice of the Ln3+ ions,

Figure 3. Green (top left) and red (bottom left) emission arising from solution-processed thin layers of some novel Tb3+ and Eu3+ complexes, respectively. Prototype of a passive-matrix red OLED manufactured in-house (right).

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CEMDRX research lines include not only lanthanide complexes based on visible emitters such as Eu3+ (red light), Tb3+ (green light) and Tm3+ (blue light), but also near-infrared emitters based on Er3+ (1540 nm) and Yb3+ (980 nm), which have not received adequate attention to date. The aforementioned visible emitters are homodinuclear complexes, particularly wellsuited for being used as high-color rendering index (CRI) phosphors or for applications in which the efficiency plays a major role, such as solid state lighting or more particular (niche) lighting technologies (e.g., for greenhouse illumination, in which blue and red emission bands essential for plant growth). Conversely, the NIR emitters -either in solid state, in solution or dispersed in matrices (vitreous and non-vitreous)- efficiently emit at wavelengths that make them suitable for the manufacturing of active (lasers and optical amplifiers) and passive (waveguides) optical architectures, in addition to NIR-OLEDs.

Other applications of these multifunctional materials Apart from the use of these highly coordinated Ln3+ complexes as chromophores, their properties have also been shown to be promising for other fields of study: their NLO properties make them suitable for optical switching, optical limiters and other ultrafast applications, while their single-ion magnetic behavior could find use in information storage, quantum computation and spintronics. Health care applications (e.g. skin cancer and acne treatment), up- and down - conversion for enhancing the efficiency of solar cells or sensing applications can also be envisaged.

PL, �exc = 980 nm

Emission (a.u.)

PL, �exc = 337 nm

1400

EL

1450

1500

1550

1600

1650

1700

Wavelength (nm)

Figure 4.Chemical structure, structural diagram, low-cost solution-processed OLED structure and luminescence spectra of Tris(1,1,1--triluoro-5,5-dimethyl-2,4-hexanedionate) mono(5-nitro-1,10--phenanthroline)erbium(III) complex (from top to bottom).”

Figure 5. OLED structure, aimed at optimizing the photosynthesis process, which makes use of several of the novel complexes developed at CEMDRX.

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pi =

3 

αij Ej +

3 

βijk Ej Ek +

3 

γijkl Ej Ek El + ...

(1)

ESTUDO DE MATERIAIS COM PROPRIEDADES ÓTICAS NÃO-LINEARES j=1

pi =

3 

j,k=1

αij Ej +

j=1

A

3 

j,k=1

j,k,l=1

(Ei ∝ cos(ωt)) 3 

βijk Ej Ek +

(2) γijkl Ej Ek El + ...

j,k,l=1

irradiação de uma dada molécula por2 luz induz cos(2ωt) + 1 cos (ωt) = 2 nela um momento dipolar elétrico que, em (Ei ∝ cos(ωt)) primeira aproximação, é proporcional ao campo elétrico. Esta aproximação é válida, em geral, sempre que o  E campo elétrico associado à radiação incidente é fraco. cos(2ωt) + 1 2 (ωt) = cos Para campos mais fortes, como os gerados por um2 LASER, pode já não se aplicar a aproximação linear. A componente i do momento dipolar induzido, p , relaciona-se com o campo elétrico incidente, E , da seguinte forma: pi =

3 

αij Ej +

j=1

3 

3 

βijk Ej Ek +

j,k=1 3 

A

3 

r + + σ 2(1) = V0 ... γijklVE(r) j Ek El + r p

j,k,l=1 3 

βijk Ej Ek + γijkl Ej Ek El + ... em j=1 queαijαEéj +a j,k=1 polarizabilidade do β,γ,… (1)  material e  j,k,l=1 + β E E + γ E E E + ... (2) p = (Eiα∝Ecos(ωt)) são a primeira, segunda, etc. hiperpolarizabilidades A V (r) = V0 + + σ 2 r r desse material. Se assumirmos que o campo elétrico é (2) monocromático (Ei ∝ cos(ωt)) , facilmente verificamos (E ∝ cos(ωt)) cos(2ωt) + 1 que o termo quadrático (3) = campo elétrico leva a cos2 (ωt)no 2 oscilações do momento dipolar induzido com o dobro +1 cos(2ωt) + 2 da frequênciacosincidente, pois cos1 (ωt) = cos(2ωt) (3) (ωt) = 2 2  produção de luz com o Esta oscilação e consequente E (4) dobro da frequência da da radiação incidente designa-se  E por geração de segunda  harmónica. E (4) Muitos dos dispositivos eletro-ópticos que nos rodeiam (5) p têm na sua base materiais com propriedades óticas p não-lineares. De entre pos muitos fenómenos óticos (5) Aé a geração de segunda não-lineares, o maisV explorado (r) = V0 + + σ 2 r (6) A (r) = V + + σ r 1 r harmónica, isto é, a capacidaderV que alguns materiais possuem de fazer conversão da frequência da radiação. A V (r) = V0 + + σ 2 r (6) r Este é o caso de muitos dispositivos que dependem de radiação coerente na região azul do espetro visível 1 ou no ultravioleta próximo, usualmente produzida por excitação com um LASER infravermelho de materiais onde há forte geração de segunda harmónica. Sendo estes LASERs ubíquos, esta é uma forma simples e de baixo custo de obter radiação LASER azul/ ultravioleta. Para obter um material interessante para estas aplicações, o ideal é partir de uma molécula com uma resposta de segunda harmónica elevada e cristalizá-la. Infelizmente, caso a molécula cristalize 1 numa estrutura que possua um centro de inversão, a primeira hiperpolarizabilidade macroscópica será nula 1 mesmo que a hiperpolarizabilidade microscópica (i.e., a hiperpolarizabilidade da molécula isolada) não o seja. Ao requisito de elevada1 geração de segunda harmónica

pi =

3

i

ij

j=1

j

3

3

ijk

j

j,k=1

k

ijkl

j,k,l=1

i

2

0

(1)

2

j

k

l

é preciso por isso acrescentar o (3) requisito de cristalização numa (2) estrutura não-centrosimétrica. Como as moléculas que (4) possuem um momento (3) dipolar não nulo no seu estado fundamental tendem (5) a cristalizar em estruturas centrosimétricas,(4)um bom ponto de partida na busca por novos materiais com propriedades óticas(6) não-lineares são as moléculas octopolares, visto (5)estas terem um momento dipolar nulo. Um exemplo de moléculas orgânicas que possuem esta simetria são as moléculas com a forma de uma (1) hélice como a da Fig. 1. (6) Uma das áreas de investigação do grupo de Física da(2)Matéria Condensada do Centro de Física Computacional é precisamente a busca de novas moléculas octopolares que possuam uma elevada (3) resposta ótica não-linear. Este trabalho consiste no estudo, por simulação computacional, de várias moléculas com esta propriedade de modo a identificar (4) as características da molécula que estão na origem do seu comportamento não-linear. Com esta informação é possível depois desenhar, in silico, novas moléculas que (5) levem a mais eficiente geração de segunda harmónica. Este projeto tem decorrido, desde há vários anos, em (6) colaboração com o Centro de Estudos de Materiais por Difração de Raios-X, onde é feita a síntese dos cristais, a sua caracterização estrutural e a medida da hiperpolarizabilidade, validando assim (ou não) as simulações computacionais. A resposta de um sistema quântico a uma perturbação externa é descrita pela equação de Schrödinger dependente do tempo. No entanto, dado que, para sistemas de várias partículas, esta é computacionalmente intratável, recorremos no CFC a uma teoria formalmente equivalente mas computacionalmente muito mais simples: a teoria dos funcionais da densidade dependente do tempo. Para efetuar as simulações utilizamos um programa co-desenvolvido no nosso grupo (octopus) e os meios computacionais do CFC (sistemas “milipeia” e “centaurus”) visto que cada cálculo requer dezenas de milhar de horas de processamento (tipicamente 128 processadores, em paralelo, durante 8 dias). por

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Fernando Nogueira R E S I S TA N C E

figura 1_ A molécula 1,2,3-trifenil-guanidina (C19N3H17).

CFC

Centro de Física Computacional


LIP

Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas por Filipe Veloso e Rita Coimbra (pós docs)

R E S I S TA N C E

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1

Laboratório de Instrumentação e Física Experimental É de realçar que a estratégia, iniciada pelo LIP de Coimbra de Partículas (LIP) foi criado em 1986 aquando da há bastantes anos e entretanto adoptada por outros grupos adesão de Portugal ao CERN, o laboratório europeu de do LHC, de trabalhar em estreita colaboração com físicos Física de Partículas. Presentemente o LIP tem cerca de teóricos permitiu já alcançar resultados bastante importantes 170 colaboradores nas seus pólos de Coimbra, Lisboa e por exemplo na identificação dos observáveis físicos mais Minho, dos quais aproximadamente 70 são doutorados. relevantes, na interpretação de resultados experimentais e Os principais domínios de investigação do LIP são a física da sua relação com previsões do SM e de modelos de física experimental de partículas e astropartículas, alternativa. Um dos trabalhos mais desenvolvimento de detectores e recentes do grupo materializou-se instrumentação associada, física no METOP, um novo gerador de médica e computação avançada. acontecimentos Monte Carlo, já O Large Hadron Collider (LHC) hoje utilizado por outros grupos de é o maior acelerador de partículas física do LHC. “ e ainda o programa construído pelo Homem e ScannerS que permite varrer o localiza-se no CERN. Ali se espaço de parâmetros dum potencial produzem e aceleram dois feixes de Higgs genérico com extensão para de protões até energias de 3,5 além do SM, incluindo os limites figura1_Vista geral do detector ATLAS © 2008 CERN TeV (durante 2010 e 2011) e 4 impostos pela teoria e por dados TeV1 (em 2012) que são feitos colidir em quatro pontos de experimentais atualizados de LHC e de experiências de interacção, que correspondem às quatro grandes experiências matéria escura.”. do LHC: ATLAS, CMS, LHCb e ALICE. Em cada colisão são produzidas centenas de partículas subatómicas, cujas propriedades são medidas por detectores de partículas. Os objectivos principais do LHC são testar o Modelo Padrão da Física de Partículas (SM), nomeadamente a existência do bosão de Higgs, as propriedades dos quarks bottom e top, a violação de conjugação de carga e paridade (CP), e também pesquisar nova física, como por exemplo, partículas supersimétricas, dimensões extra, etc... No pólo de Coimbra, a investigação em física de partículas em aceleradores é feita predominantemente em colaboração figura2_Vista geral do LHC e das suas quatro grandes experiências (ALICE, ATLAS, com a experiência ATLAS do LHC e os estudos centramCMS e LHCb). © 1999 CERN se nas propriedades do quark top e do bosão de Higgs. O f quark top é a partícula elementar mais pesada que se conhece e é um excelente objecto para testar o SM. A sua massa, equivalente à de um átomo de tungsténio, é próxima da escala de energia da quebra de simetria electrofraca e pode elucidar os mecanismos de quebra de simetria e de Higgs. Está em curso um importante esforço para estudar as propriedades do quark top, nomeadamente, a sua massa, mecanismos e secções eficazes de produção, carga eléctrica, spin, assimetrias nos seus decaimentos, decaimentos raros, entre outras. A produção do bosão de Higgs, cuja descoberta foi anunciada a 4 de Julho de 2013 pelas colaborações ATLAS e CMS, juntamente com pares de quarks top também é objecto de estudo no LIP em Coimbra. O grupo dedica-se ainda ao melhoramento do calorímetro hadrónico do detector figura3_Reconstrução de um acontecimento ATLAS, nomeadamente na descrição do ruído electrónico e observado pelo detector ATLAS. © 2012 CERN no desenvolvimento do novo sistema de calibração por laser.

Um electrão-volt corresponde à energia fornecida a um electrão quando ele atravessa uma diferença de potencial de um volt, e equivale a cerca de 1,6×10-19 J

O


Interface gráfica do eye-tracker desenvolvido no GEI para monitorização de crianças com implantes cocleares em processo de reabilitação. Para além da imagem em tempo real (canto superior esquerdo) e da escolha da imagem de estímulo visual (neste caso um boneco familiar às crianças) é possivel visualizar os quadrantes do gaze vector (canto inferior esquerdo), com o historial das últimas posições detectadas.

GEI

Group of Electronics and Instrumentation por João

Cardoso

SEGUIR O OLHAR

O

processo de percepção visual consiste na capacidade de interpretar o ambiente que nos rodeia por via da captação da radiação electromagnética visível. É um processo complexo para que concorrem diversos mecanismos cuja compreensão, no caso do corpo humano, engloba áreas como a óptica, a electroquímica ou a neurofisiologia. Sendo um dos canais de "aquisição de dados" do cérebro humano com maior relevânia pela quantidade de informação que proporciona, o mecanismo da visão tem recorrentemente sido considerado como alvo de estudo no sentido de proporcionar informação sobre outros mecanismos sensitivos e neurológicos. Uma das abordagens frequentemente adoptadas, consiste na utilização de técnicas de seguimento da direcção de fixação ocular (eye tracking). Esta técnica tem a vantagem de não ser invasiva e actualmente é completamente inócua para o objecto de estudo, não requerendo interface de contacto mecânico directo. Seguir a direcção de fixação por via exclusivamente óptica (ou seja, a direcção para onde se olha com base numa imagem), pode fornecer informação sobre os níveis de atenção fornecidos a uma determinada cena, mas, para além disso, pode fornecer informação sobre outros mecanismos de percepção a um nível neurológico. No primeiro caso encontramos aplicações como as actualmente adoptadas por fabricantes da indústria automóvel, no sentido de melhorar a segurança rodoviária e que usam técnicas de eyetracking para quantificar o grau de vigília, identificando desvios por cansaço ou desatenção. Existem já alguns protótipos de automóveis com sistemas que literalmente monitorizam o condutor e o seu grau de atenção à estrada e à envolvente. Contudo, outras áreas de aplicação de técnicas de eye-tracking têm vindo a ser exploradas como instrumento para avaliar processos

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biológicos de quantificação muito complexa. Esta tem sido também uma das áreas de investigação do Grupo de Electrónica e Instrumentação (do Centro de Instrumentação), nomeadamente na aplicação ao programa de reabilitação de implantados cocleares (i.e. pacientes cujo grau de surdez impõe a necessidade de realização de implante de um dispositivo electrónico na cóclea para estímulo electrico-neurológico). O sistema que tem vindo a ser desenvolvido visa a utilização como complemento da versão digital do protocolo comportamental de reabilitação, através da aferição sistemática do ponto de fixação (gaze vector), durante os testes audiométricos, e da sua correlação temporal com as características (temporais e de frequência) do estímulo sonoro. Através desta abordagem é possível compreender o mecanismo de percepção auditiva mesmo antes de haver uma resposta consciente voluntária. Aumenta-se assim a eficiência e a precisão na determinação dos níveis de sensibilidade e do mapa de balanceamento dos electródos implantados, por forma a melhorar a programação do processador da fala (i.e. do elemento que controla externamente os estímulos a fornecer ao implante). Os resultados preliminares de determinação do vector de gaze em tempo real, obtidos em ambiente laboratorial, permitem antever uma aplicação clínica na forma de um instrumento auxiliar dedicado para utilização nos protocolos de audiometria de reabilitação. Existem ainda importantes desafios a resolver como sejam a optimização de alguns dos algoritmos de processamento de imagem ou a integração com outra instrumentação de audiometria e estímulo visual. No entanto, os testes já realizados em ambiente clínico permitiram antever um bom desempenho para esta abordagem e foram bastante encorajadores em relação aos objectivos que se pretendem alcançar.

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GIAN

Grupo de Investigação Atómica e Nuclear

ELEMENTOS DE DETEÇÃO PARA CALORIMETRIA DE HADRÕES por Hugo Natal da Luz

A

experiência adquirida pelo Gian no desenvolvimento de Detetores Gasosos Baseados em Microestruturas (MPGD), tem sido usada para o desenvolvimento de elementos de deteção para calorimetria de hadrões, em colaboração internacional. Os calorímetros absorvem a energia das partículas altamente energéticas geradas em colisões em aceleradores/ colisionadores como o LHC (Large Hadron Collider), no CERN ou os futuros ILC (International Linear Collider) e CLIC (Compact Linear Collider). A figura 1 mostra um dos detetores, previstos para o ILC, onde é possível identificar as várias partes. O calorímetro de hadrões está a rosa. O calorímetro permitirá determinar em cada instante a posição de cada partícula com uma precisão de poucos centímetros. Para absorver toda a energia dos hadrões gerados numa colisão, determinando também a sua trajetória, será necessário intercalar camadas de deteção onde pouca energia será depositada, com camadas de absorção que serão placas de aço inoxidável com 20 mm de espessura (fig. 2). Esta mega-sanduíche de 40 camadas de aço e detetores, pesará várias toneladas e tem restrições de volume severas, havendo apenas 8 mm disponíveis entre cada placa de aço para colocar os detetores. A área total de deteção da ordem dos milhares de m², com elétrodos de recolha de sinais de 1 cm², terá cerca de meio milhão de canais de eletrónica. Os detetores a utilizar e o sistema de aquisição de dados baseado em ASICs são um grande desafio tecnológico. É aqui que os MPGD ganham

importância, pois têm-se mostrado à altura de desafios que exigem grandes áreas de deteção. No Gian, está em estudo o uso dos Thick Gas Electron Multipliers (THGEM) para este tipo de detetor. Os THGEM são placas finas (tipicamente 0.4 mm) de FR4 ou G10 (materiais usados no fabrico de circuitos impressos) cobertos de cobre dos dois lados, com furos de 0.4 mm, numa grelha de 1 mm (fig.3). Imergindo esta estrutura num gás adequado e aplicando a diferença de potencial correta entre as duas camadas de metal, o campo elétrico no interior dos furos serve como multiplicador de eletrões. Isto resulta num detetor de partículas simples, eficiente e robusto. O princípio de funcionamento é semelhante ao do GEM, mas com as dimensões dos orifícios, distância entre eles e espessura tipicamente 10 vezes maiores. Têm sido testados protótipos em várias geometrias. O objetivo é determinar qual a configuração que, cabendo num espaço de 8 mm, poderá operar de forma estável, com sinais separados do ruído eletrónico. Neste processo, o sistema de recolha dos sinais tem uma grande importância, já que deverá ser compacto, com uma densidade de canais elevada, para ler todos os elétrodos com uma taxa de amostragem adequada. Estão em estudo vários ASIC como o KPiX, desenvolvido no SLAC (Stanford, EUA), o APV, desenvolvido no CERN, especificamente para operar neste tipo de detetores e o MICROROC, desenvolvido no IN2P3 (França). Os resultados de testes aos nossos detetores no CERN são muito encorajadores. Já se conseguiu uma configuração estável com apenas 5 mm de espessura. Os dados estão em análise e está para breve a construção de protótipos com áreas de 30x30 cm².

figura 1_ O futuro detector SiD a ser instalado no ILC. O calorímetro de Hadrões (HCAL) й a coroa cilíndrica que ocupa um volume entre 1.5 e 2.5 m de diâmetro.

figura 2_ Esquema das camadas do calorímetro de hadrões, que alternam placas de aço inoxidável de 20 mm de espessura, com espaços de 8 mm para inserir os elementos de deteзгo.

figura 3_O THGEM. Na vista de perfil estão desenhadas as linhas de campo. Aplicando uma diferença de potencial através dos furos do THGEM, gera-se um campo elétrico no interior destes, capaz de multiplicar os eletrões.

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CEFITEC Centro de Física e Investigação Tecnológica

por

O

Centro de Física e Investigação Tecnológica, criado em 1994, (http://www.cefitec.fct.unl.pt/) tem estado fortemente empenhado na qualidade e relevância do trabalho técnico e científico desenvolvido na investigação fundamental e aplicada com cariz marcadamente experimental nas áreas da Física, Física Aplicada e da Engenharia Física, bem como mais recentemente da Engenharia Biomédica. O CEFITEC orgulha-se da classificação 'Muito Bom' obtida durante os últimos processos de avaliação o que tem sido possível graças ao trabalho e dedicação de todos os seus membros. O CEFITEC encontra-se dividido em cinco Linhas de Investigação, Linha 1 “Ciência e Engenharia das Superfícies e de Tecnologia de vácuo”; Linha 2 “Física Molecular, Plasma e Aplicações”; Linha 3 “Instrumentação”; Linha 4 “Engenharia Biomédica” e Linha 5 “Sistemas Moleculares Funcionais”. Os 32 membros integrados do CEFITEC asseguram todas as actividades dos grupos de investigação decorrentes dos projectos de I&D, prestação de serviços e contratos com entidades extra-universitárias, orientando os Mestrados Integrados e Doutoramentos dos diversos estudantes que frequentam o centro.

As áreas de actuação dos grupos de investigação encontram-se assim centradas em: Linha 1 - caracterização e análise a nível atómico e molecular de superficies, recorrendo a diversas técnicas e possuindo, actualmente, dois aparelhos equiparados ao que de melhor existe a nível internacional. Acresce ainda que esta linha de I&D possui também um Laboratório de Metrologia de Vácuo acreditado pela ISO17025 realizando regularmente prestação de serviços para o exterior, nomeadamente, calibrações, ensaios e análises para a comunidade”; Linha 2 - está dividida em dois grupos, o de Plasmas e Aplicações, que estuda e optimiza técnicas de obtenção de Filmes Finos para diversas aplicações tecnológicas e industriais, como por exemplo, para revestimentos de próteses médicas. Do ponto de vista fundamental, existe uma colaboração muito estreita com o CERN, na tecnologia de metalização de fibras ópticas para a grande experiência ATLAS. O outro subgrupo está relacionado com o Laboratório de Colisões Atómicas e Moleculares, liderada pelo coordenador do Centro, que desenvolve investigação na área dos compostos emitidos de forma natural e antropogénica para a atmosfera terrestre que possam

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Paulo Limão Vieira

contribuir para o aquecimento global e para a destruição da camada de ozono e também o efeito da radiação em sistemas moleculares biológicos e os processos de transferência de electrão nomeadamente nos constituintes do DNA/RNA. A Linha 2 possui um microscópio de forças atómicas para estudar materiais à escala nanoscópica, colaborando em diversas actividades, nomeadamente ligadas ao estudo de superfícies de objectos para conservação e restauro; Linha 3 – é constituída por dois laboratórios, um ligado à Criogenia para desenvolvimento de criorrefrigeradores especiais que permitam baixar a temperatura através de ciclos de arrefecimento, para diversos tipos de aplicações, desde a electrónica quântica, até à medicina. Outras aplicações passam também pelos dispositivos de detecção de partículas instalados em satélites que necessitam ser arrefecidos para que possam ter uma resposta mais eficiente, reduzindo assim quaisquer vibrações mecânicas e ruído electromagnético. Desta linha de I&D faz ainda parte um laboratório que tem desenvolvido optimizado os processos de aproveitamento da luz solar para solar-pumped-lasers. Linha 4 – tem dedicado as suas actividades ao estudo da imagem

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O Coordenador do CEFITEC Professor Doutor Paulo Manuel Limão-Vieira Professor Associado com Agregação do Departamento de Física

médica em doenças neurológicas por Ressonância Magnética, crescimento de compostos substitutos de pele, dinâmica dos fluidos cerebrospinais, bem como desenvolvimento de equipamento para estudo de perfusão vascular de cadáveres para optimização das técnicas de embalsamento e estudo da evolução da curvatura da coluna vertebral em grávidas. O CEFITEC mantém ainda outros projectos, nomeadamente, com a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa de modo a direccionar as suas actividades de I&D para áreas e aplicações específicas da Medicina. A Linha 5 – dedica os seus estudos à caracterização físico-química de superfícies e interfaces de macromoléculas que possam ser utilizadas na formação de estruturas moleculares orgânicas auto-organizadas, susceptíveis de serem aplicadas na criação de electrónica, fotónica e sensores moleculares. Presentemente o CEFITEC conta com várias dezenas de estudantes de 2˚ e 3˚ ciclos, e com 32 membros (académicos e investigadores) integrados. O CEFITEC tem mantido assim um cariz vocacionado para a inovação científica, e as actividades devem-se em parte ao contributo dos nossos estudantes de pós-graduação e de graduação. Temos ainda ajudado no desenvolvimento de capacidades e valências que possam ser aplicadas à realidade académica e não académica, o que se tem traduzido por diversos cursos e programas interdisciplinares de formação científica R E S I S TA N C E

multidisciplinares em áreas do CEFITEC ou de outros Centros de reconhecido mérito internacional com quem mantemos colaboração. Adicionalmente o CEFITEC tem mantido uma ligação muito forte com a indústria e, na sua génese, já contemplava o intercâmbio de conhecimento e o desenvolvimento de aplicações. Destas parcerias destacamos elementos para electrónica de precisão (filmes resistivos), metalizações para a indústria automóvel e superfícies reflectivas e para absorção em colectores solares, entre muitas outras. Acresce ainda que o CEFITEC em parceria com o Centro de Biotecnologia e Química Fina (CQFB/ REQUIMTE), centros de I&D da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, obtiveram recentemente aprovação pela FCT/MEC de um programa de doutoramento internacional em “Radiation Biology and Biophysics Doctoral Trainning Programme – RaBBiT” (http://sites.fct.unl.pt/rabbit/), contribuindo assim para a formação avançada nas áreas da Engenharia Física, Engenharia Biomédica, Física, Química, Engenharia Química e Bioquímica, e Bioquímica e Biofísica, entre outras. Finalmente, o CEFITEC defende uma política de “portas abertas” e convidamos todos a visitarem o nosso centro quer nas nossas instalações no Campus da FCT/UNL ou então no sítio da internet. |11|


figura 1_ Uma sessão de treino visual com um atleta de alta competição.

OCV Ótica e Ciências da Visão

A

atividade académica e científica em ótica aplicada às ciências da visão iniciou-se na Universidade do Minho nos anos oitenta com o lançamento de um curso de optometria e de um programa de formação pós-graduada de docentes. Hoje, a Universidade do Minho oferece uma Licenciatura em Optometria e Ciências da Visão, um Mestrado em Optometria Avançada e um Programa de Doutoramento em Optometria e Ciências da Visão. Tem um corpo docente de dez doutorados, que constituem o grupo de investigação em Ótica e Ciências da Visão, que desenvolve investigação integrada no Centro de Física, classificado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) como Excelente. A captação de fundos através da FCT é considerável mas o grupo tem uma grande capacidade de relacionamento com o tecido empresarial do sector que se traduz em financiamento privado de projetos e laboratórios, quer de ensino quer de investigação. Assim, um dos laboratórios pedagógicos é financiado a 100% pela Essilor Portugal, e dois dos laboratórios científicos são financiados diretamente pela Ciba Vision e pela Shamir Portugal. Nos últimos 5 anos o grupo publicou mais de 100 artigos em revistas científicas

internacionais com arbitragem e, de acordo com Thomson Reuters Web of Knowledge, é o grupo em Portugal com mais publicações e citações nesta área. A investigação desenvolvida pelo grupo é, em grande parte, feita em colaboração com grupos internacionais. Abrange as áreas da optometria clínica, caracterização da miopia e sua evolução, optometria desportiva, instrumentação oftálmica, contactologia, baixa visão, visão das cores e colorimetria. A seguir dão-se alguns exemplos concretos da investigação que o grupo desenvolve. A mais importante anomalia ótica do olho humano é a miopia. Consiste num excesso de potência ótica relativamente ao tamanho do olho e faz com que se formem imagens desfocadas no fundo do olho, na retina. A miopia afeta uma fração muito significativa e crescente da população ocidental e oriental. Nos últimos anos tem havido evidências de que o desenvolvimento da miopia está correlacionado com o que se passa do ponto de vista ótico na periferia da retina. Neste sentido, o grupo tem feito vários estudos em que se pretende saber como é que diferentes tipos de lentes de contacto e procedimentos de cirurgia refrativa afetam a visão na periferia e influenciam

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a progressão da miopia. A investigação do grupo tem mostrado que a ortoqueratologia – consiste na alteração da forma da córnea com lentes de contacto especiais - é a técnica que apresenta maior potencial na retenção da progressão da miopia. Caracterizar e melhorar o desempenho visual em desportistas de alta competição é uma área de investigação relativamente nova que o grupo está a começar a desenvolver com bastante sucesso. Novas técnicas de treino visual, equipamentos e aplicações informáticas são testados em atletas de alta competição. Em particular, desenvolveram-se equipamentos relacionados com a medida e treino do tempo de reação visual sensorial e motora e aplicaram-se com eficácia na melhoria da performance dos atletas. A Figura 1 ilustra uma sessão de treino visual com um atleta de alta competição. O estudo da visão das cores dos daltónicos é outro exemplo da investigação do grupo. As patologias, como a diabetes e o glaucoma, entre muitas outras, alteram a visão das cores. Alguns medicamentos e venenos também. Lesões no cérebro podem ter consequências dramáticas na capacidade de ver e distinguir cores. Mas, em rigor, o daltonismo é uma condição de origem genética em que há alteração no

figura 2_ O daltonismo pode ser diagnosticado só com base em testes visuais como, por exemplo com o anomaloscópio, ilustrado na figura.

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código genético que possibilita o desenvolvimento normal dos fotorreceptores sensíveis ao vermelho, ao verde e ao azul. O daltonismo pode ser diagnosticado com testes genéticos ou com testes visuais como ilustrado na Figura 2. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, os daltónicos vêm cores (exceto em condições muito raras) mas menos que os normais. Uma das conclusões da investigação do grupo nesta área consiste na quantificação pela primeira vez da fração relativa de cores que cada tipo de daltónico pode ver. Na Figura 3 ilustra-se este resultado. O desenvolvimento de instrumentação oftálmica para a caracterização dos meios oculares, córnea, cristalino e retina, é também uma das áreas fortes do grupo. Um dos instrumentos desenvolvidos recentemente produz imagens tridimensionais da córnea (figura 4A) e está agora a ser aplicado para o cristalino e lentes intra-oculares (figura 4B). As aplicações deste equipamento vão desde a caracterização da córnea para a preparação da cirurgia refrativa até à visualização da localização precisa das lentes intra-oculares. Um outro instrumento desenvolvido recentemente é um oftalmoscópio que permite compensar as imperfeições óticas de cada pessoa com uma técnica

figura 3_ Volumes cromáticos de indivíduos com visão das cores normal correspondente a cerca de 2 milhões de cores (topo esquerdo), daltónicos com alteração num dos pigmentos correspondente a 57% e 68% das cores dos normais (topo centro e topo esquerdo) e só com dois pigmentos correspondente a menos de 1% das cores (diagramas em baixo).

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chamada de ótica adaptativa. As imagens do fundo do olho obtidas são assim de grande resolução e permitem distinguir fotorrecetores individuais e determinar o grau de integridade destas células. A Figura 5 mostra imagens obtidas de uma retina em que o mosaico dos fotorrecetores é claramente observado. O grupo estuda também os efeitos do uso de lentes de contacto na constituição da lágrima, na superfície ocular e nas próprias lentes de contacto, como depósitos de proteínas. Um dos aspetos em estudo com aplicações muito práticas é o efeito de diferentes líquidos de manutenção na superfície de lentes de contacto. Cada solução desinfetante tem vários componentes químicos e a sua composição influencia o conforto do utilizador e as reações da superfície ocular e das lentes de contacto. Um dos resultados deste estudo é que a composição dos líquidos tem uma influência considerável nas alterações da rugosidade das lentes de contacto e logo influencia o conforto e a apetência para criação de depósitos nas lentes. A Figura 6 ilustra este efeito com imagens de microscópio de lentes de contacto tratadas com vários líquidos. por Sérgio

Nascimento

figura 4_ Instrumento desenvolvido pelo grupo e reconstrução 3D da córnea e do cristalino (A) e da córnea e lentes intra-oculares (B).

figura 5. Oftalmoscópio com ótica adaptativa (esquerda) e quatro imagens (direita) de uma retina normal em que o mosaico dos fotorrecetores é observado claramente. As imagens correspondem a uma área na retina de cerca de 210 µm× 160µm.

figura 6. Imagens de microscópio de força atómica de lentes de silicone-hydrogel tratadas com diferentes soluções.

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I

n 2011 there were five dedicated students studying “European Energy” together at the Fachhochschule Kufstein, Tyrol when they realised that only taking courses was not enough for them. They were not satisfied enough by the usual „theoretical standards“ seen at universities, causing them to think of anything additional to university. They were hit by the idea of creating a platform where engaged students are able to develop their individual potential to a maximum extent. The willingness and desire of those students to give other motivated students the opportunity to develop their individual skills as well as to get experienced in the business world, led to the student run consulting company Junior Enterprise “Genefy e.V.”. A Junior Enterprise is perfect for making experiences in the competitive world beyond academics, which helps to continue the learning process outside of the classroom. Currently our team skills are wide spread throughout different study courses. Starting from European Energy and Business Management over Facility and Real Estate Management to Industrial Engineering and Management the large scale of our member’s strength and knowledge gives us a ginormous advantage over other companies. Thanks to that we are able to work on a great variety of topic connecting all those study courses. Our Portfolio is divided into three departments: Marketing, Energy and Business Consulting.

With our founders and most of our members being students of the “European Energy” our focus is set on the energy industry which makes us a pioneer in the field of consulting by students in western Europe. “Our knowledge is your efficiency” is our priority guideline. We as the young interdisciplinary team we are, work as efficient as possible in order to improve the customers efficiency as well. Since Genefy is a voluntary organization we are all extremely passionate about the work we do. We set ourselves high quality standards to access our state-of-the-art knowledge. We are a flexible and strong team with a unusually high motivation and dedication. For our members working at a Junior Enterprise means a full use of their own unique skills as well as to get experience in the business world. The goal is to give motivated and creative students the opportunity to think out of the box and to develop ideas outside of class. Moreover students have the opportunity to take over high responsibilities where they learn how to manage their time and focus. Subsequently a Junior Enterprise provides a first taste of entrepreneurship. The combination of an ambitious student with first high quality experience, connecting those to responsibiliy as well lays the foundation for an unforseenable and promising future entrepreneurial journey. por Larissa Frank, CEO Genefy e.V.

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CERN O LHC E OS

MUNDO por Ricardo

LIMITES

Gonçalo

CONHECIDO

DO

E

stávamos em 10 de Setembro de 2008, por volta das nove horas da manhã. A tensão era palpável no anfiteatro principal do CERN, o Laboratório Europeu de Física de Partículas, onde já não restavam cadeiras vazias nem sequer espaço no chão. Grupos de físicos discutiam excitadamente em várias línguas diferentes. O grande ecrã que domina o anfiteatro mostrava imagens da sala de controlo do Large Hadron Collider ou LHC, o novo acelerador de protões do CERN. Um monstro de complexidade que acabava de ser construído. O que todos esperávamos com impaciência era a injecção dos primeiros protões que circulariam neste fabuloso instrumento científico. Não se tratava ainda de fazer colidir protões, mas apenas de pôr em funcionamento o acelerador. A primeira etapa seria a de criar feixes de protões, injectá-los no acelerador e fazê-los viajar numa órbita estável ao longo dos 27 km de circunferência do LHC. O LHC é actualmente o mais poderoso acelerador de partículas do mundo e a máquina de todos os superlativos. No seu coração circulam dois feixes de protões em dois tubos onde se produz o vácuo. Um vácuo dez vezes mais perfeito do que o existente à superfícia da Lua. O centro do LHC é um dos sítios mais frios do Universo, estando à temperatura de 1.9 graus acima do zero absoluto, ou seja abaixo da temperatura da radiação cósmica de fundo. Isto permite que os feixes de protões sejam mantidos na sua órbita por campos magnéticos elevadíssimos, com a a ajuda de electroímanes supercondutores. De súbito, no meio de um enorme aplauso, surgia um diagrama projectado no ecrã onde um pequeno ponto vermelho representava a trajectória do feixe de protões no LHC. Em cerca de meia hora foi possível fazê-los circular ao longo de todos os sectores do acelerador; em várias etapas que permitiram ajustar os campos magnéticos de todos os electroímanes. Foi um enorme sucesso! Um dia importante na história do CERN e o princípio de uma nova fase da história da física de partículas. O LHC foi construído para colidir protões (ou alternativamente iões de chumbo) às energias mais elevadas que foi possível atingir em laboratório. Não só com a maior energia, mas também no maior número possível. Porquê? Porque nestas colisões procuramos muitos tipos de reacções extremamente raras entre as partículas fundamentais que constituem os protões: quarks e gluões. Para produzir o maior número de colisões possível, os feixes do LHC contêm cerca de 1014 protões. Todos a viajar praticamente à velocidade da luz (apenas uns 20 km/h mais lentamente do que a luz) num feixe mais fino do que um cabelo humano e que dá a volta ao acelerador

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figure 1_ Ricardo Gonçalo completou a lincenciatura e mestrado no Departamento de Física da FCTUC e obteve o Doutoramento em Física Experimental de Partículas na Universidade de Londres. É membro da experiência ATLAS onde coordenou um grupo de trabalho dedicado à procura do bosão de Higgs a decaír em quarks b. Trabalha actualmente na Universidade de Londres e será proximamente membro do LIP Lisboa.

figure 2_ Peter Higgs no auditório principal do CERN durante o anúncio público da descoberta do bosão com o seu nome.

onze mil vezes por segundo. No fim de algumas contas simples, vemos que isto equivale a dizer que os feixes do LHC contêm aproximadamente a mesma energia do que o TGV a viajar a 200 km/h! Depois de muito trabalho e de alguns acidentes de percurso que levaram ao encerramento durante um ano, o LHC começou a produzir as primeiras colisões. No final de 2009 colidiram-se protões à “baixa” energia de 900 GeV. Os dados recolhidos serviram essencialmente para alinhar e calibrar as quatro gigantescas experiências dispostas ao longo do anel do LHC: ATLAS, CMS, ALICE e LHCb. Em Março de 2010 já se produziam colisões à energia de 7 TeV, nunca antes atingida em laboratório! O LHC passou a ser o mais energético acelerador de partículas do mundo, ultrapassando o seu rival mais próximo, o veterano Tevatron, do laboratório Fermilab perto de Chicago, onde foi descoberto em 1995 o último quark previsto pelo Modelo Padrão, o quark top. Desde aí o LHC funcionou espectacularmente bem! Os dados recolhidos em 2010, apesar de insignificantes quando comparados com o volume de dados recolhidos desde então, resultaram em centenas de artigos científicos. Os constituíntes fundamentais da matéria e as forças que regem o seu comportamento, excluíndo a gravidade, são descritas pelo Modelo Padrão da Física de Partículas. Segundo este conjunto de teorias quânticas de campo, as interacções nuclear forte, nuclear fraca e electromagnética (ou a força electrofraca unificada) são transmitidas pela troca de bosões mensageiros com spin 1, entre partículas de matéria, todas com spin meio inteiro (fermiões). O Modelo Padrão foi de certa forma re-descoberto com as colisões registadas em 2010. Os dados recolhidos em 2011 à energia de 7 TeV e em 2012 a 8 TeV, multiplicaram por mais de 500 o volume de dados existentes. Isto permitiu inúmeras medidas de precisão de processos previstos pelo Modelo Padrão, buscas (até agora infrutíferas) de sinais de física nova, desde a existência de novas partículas previstas por extensões do Modelo Padrão até a buracos negros microscópicos, passando pela procura de sinais da existência de dimensões para além do espaço tridimensional compreendido pelos nossos sentidos. A descoberta mais significativa até ao momento foi sem dúvida a do bosão de Higgs, anunciada a 4 de Julho de 2012. O mecanimo de Higgs foi proposto no princípio dos anos 60 por Peter Higgs e outros1 como forma de resolver um problema fundamental da construção do Modelo Padrão: a unificação das interacções electromagnética e nuclear fraca encontrava como obstáculo as massas muito diferentes dos bosões fracos, W e Z (cuja elevada massa explica o alcance limitado da força fraca) e dos fotões, γ, que têm massa zero. Em termos técnicos, ao introduzir “à mão” no Lagrangiano da teoria termos correspondentes à massa de partículas fundamentais obtemos teorias que não respeitam a invariância de gauge local. No mecanismo de Higgs postula-se a existência de um dubleto de campos complexos Φ com potencial em forma de “sombrero” mexicano, tendo um ponto instável em Φ=0 e um mínimo degenerado num círculo em torno deste ponto. A forma do potencial leva a que a descrição da interacção electrofraca unificada, transmitida por

Englert, Brout, Guralnik, e Kibble, baseando-se em trabalhos de Anderson, e Nambu.

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figure 3_ potêncial do campo complexo de Higgs, com um ponto instável em Φ=0 e mínimo degenerado em torno de Φ =0.

figure 4_ Na caverna onde está instalada a experiência ATLAS. Na imagem vê-se uma parte do espectrómetro de muões, atravessado pelo tubo do LHC onde circulam os feixes de protões.

figure 5_ Poster encontrado no gabinete de um colega. Não precisa de comentários...

bosões mensageiros sem massa e válida acima de uma certa escala de energia, se transforme através da quebra espontânea da simetria de gauge nas interacções electromagnética e fraca, visíveis a escalas de energia mais baixas, transmitidas pelos familiares W, Z e γ. A magia do mecanismo de Higgs é que, como resultado, os bosões W e Z adquirem massa, enquanto o fotão mantém massa zero. Além disso, a massa das restantes partículas fundamentais2 torna-se também explicável pela sua interacção com o campo de Higgs. Uma interacção mais intensa quer dizer uma massa maior. Finalmente, resta um subproduto desta quebra espontânea de simetria: a única partícula de spin zero prevista pelo Modelo Padrão, e que corresponde a vibrações do campo de Higgs… esta partícula é o famoso bosão de Higgs! Assim, a descoberta anunciada no verão passado pelas experiências ATLAS e CMS indica a existência do bosão de Higgs; a prova experimental do mecanismo de Higgs! Ou será que não? Aqui a história complica-se. O que é de alguma forma natural. Afinal de contas estamos a testar o limite do que se conhece experimentalmente sobre a física de partículas! Mais além temos terra incógnita, onde as explorações são guiadas apenas pelos mapas difusos de várias teorias possíveis. O que era sabido no verão passado não passava da observação de uma partícula com a massa de cerca de 125 GeV em alguns canais onde era esperado o bosão de Higgs do Modelo Padrão. No ano que passou desde a descoberta foi acumulado um conjunto enorme de dados e muito trabalho de análise. O quadro actual é muito mais claro, e mostra um bosão de Higgs teimosamente perto do que era esperado pelo Modelo Padrão. Várias hipóteses de spin e paridade da nova partícula foram eliminadas, sendo o spin zero e paridade positiva consistentes com os dados. A observação do novo bosão em decaimentos para quarks b, leptões τ, ou produzido juntamente com quarks top é crucial para medir alguns números quânticos fundamentais que caracterizam a nova partícula. Mais tarde virá a observação de um par de bosões de bosões de Higgs produzidos simultaneamente, que dará indicações preciosas sobre a forma do “sombrero” do campo de Higgs. Mas há mais mistérios no céu e na terra do que o que é explicado por este modelo mínimo do mecanismo de Higgs: as extensões “supersimétricas” do Modelo Padrão, por exemplo, indicam a existência de vários bosões de Higgs. Ao mesmo tempo estas teorias propõem explicações para outros mistérios como a existência de matéria escura, que é evidente em muitas observações astrofísicas mas cuja natureza permanece desconhecida. E há mais, muito mais, que só saberemos com mais dados, mais experiências, mais trabalho teórico. O LHC está neste momento parado para efectuar melhoramentos que permitirão chegar à sua energia final de cerca de 14 TeV, a partir de 2015. Com esta energia e os enormes volumes de dados que se esperam das quatro experiências, saberemos respostas a algumas perguntas fundamentais e, provavelmente, teremos muitas outras perguntas a fazer. Este fantástico instrumento vai continuar a ajudar-nos a explorar para lá da fronteira do mundo conhecido.

2 Convêm dizer que se trata aqui da massa de partículas fundamentais, i.e. sem subestrutura. A massa de partículas não fundamentais, como os protões por exemplo, vem sobretudo da energia de ligação entre os seus quarks constituintes.

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UM PROBLEMA DE

DIMENSÕES

CÓSMICAS por Frederico

N

a década de 20, os astrónomos observaram que as galáxias se estavam a afastar umas das outras com velocidades diferentes, e que quanto mais afastadas as galáxias estivessem, mais rápido era o seu afastamento. Logicamente, isto implicava que tudo esteve comprimido numa determinada altura, o que permitiu chegar à conclusão de que o Universo estava em expansão. Esta descoberta conduziu ao que conhecemos hoje como teoria do Big Bang. No entanto, em 1998, uma nova geração de astrónomos verificou que não só o Universo se estava a expandir, como a sua expansão se estava a verificar a um ritmo mais rápido que o previsto. Ninguém sabe o que causa esta aceleração na expansão mas foi-lhe dado o nome de energia escura. Apesar da natureza misteriosa da energia escura, o efeito é tal que a quantidade pode ser medida. Tanto quanto é possível determinar, a energia escura compõe cerca de dois terços da massa do Universo. É, portanto, literalmente, um estudo de grande importância. Se não conseguirmos compreender a energia escura, nunca conseguiremos perceber a realidade. Assim sendo, os cosmologistas estão focados em compreender a energia escura através de três novas experiências – duas sediadas no Chile e uma no Havai. Quando estes estudos estiverem terminados a natureza da energia escura poderá continuar misteriosa, mas acredita-se que a sua existência se revele um pouco mais clara. Isto é, claro, se a energia escura realmente existir, já que existem grupos de cosmologistas que optam pelo cepticismo e continuam a apostar em outras teorias. Estes não negam as observações que levaram à criação da hipótese acerca da existência de energia escura, mas negam a conclusão. Para eles, estas experiências são a oportunidade de testar os novos resultados e chegar a novas conclusões. A mais avançada das novas experiências consiste numa Dark Energy Camera, de 570 megapixels e cinco toneladas, que foi instalada em 2012 no observatório Cerro Tololo Inter-American no Chile, a 2200 metros acima do nível do mar no deserto de Atacama. Esta câmara está prestes a entrar em funcionamento e vai tirar 400 fotos de um gigabyte em cada noite, durante 525 noites ao longo de 5 anos. Esta maratona fotográfica faz parte do Dark Energy Survey (DES) [1] [2], um projecto liderado por Joshua Frieman, da

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Borges

universidade de Chicago. O plano é examinar 100 mil clusters de galáxias e medir as distâncias de 300 milhões de galáxias dentro desses clusters. A principal razão para todo este esforço reside na tentativa de compreender a variação temporal do tamanho e da forma dos clusters de galáxias, onde se estuda a batalha entre a gravidade e a energia escura em detalhe. A gravidade tende a abrandar a expansão do universo, mantendo o cluster de galáxias mais compactas. A energia escura, que tende a acelerar a expansão, provoca consequentemente a expansão dos clusters de galáxias. O rácio da contracção com a expansão mostra a força relativa destas duas forças. Frieman e os seus colegas não conseguiam visualizar as alterações num cluster de galáxias porque só existiam alguns “snapshots” de cada cluster ao longo da história. Através deste estudo poderão observar as variações dos clusters de galáxias, cada um deles com uma idade diferente. Observações anteriores sugerem que durante mais de metade dos 13.7 mil milhões de anos de vida do Universo a gravidade tem prevalecido nesta batalha. No entanto, há cerca de 6 mil milhões de anos a energia escura ultrapassou a gravidade. O DES espera encontrar o período de transição através do estudo de clusters de galáxias à distância de 10 mil milhões de anos luz. A segunda destas novas experiências é a Subaru Measurement of Images and Redshifts (SUMIRE) [3] [4], liderada por Hitoshi Murayama do Instituto Kalvi para a Física e Matemática da Universidade de Tóquio, montada no Havai. Esta experiência irá começar a recolher dados no próximo ano, de uma forma semelhante à DES. Apesar de observar apenas um décimo do Universo, em vez de um oitavo, como o DES, irá observar galáxias a 13 mil milhões de anos-luz, ao invés de 10 mil milhões. A câmara irá possuir um espectrómetro incorporado para trabalhar nos “redshifts”. Os “redshifts” são uma das mais importantes fontes de informação dos astrónomos, já que lhes permite determinar a distância da galáxia. Eles são causados devido ao efeito de Doppler, uma vez que a luz emitida por um objecto que se afasta do observador é detectada pelo observador com um comprimento de onda maior do que o seu comprimento de onda na fonte. Quanto mais rápido se afasta o objecto maior será o comprimento de onda da luz detectado pelo observador.

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figura 1_ Observatório Cerro Tololo no Chile, onde irá ser realizada a experiências DES.

Aliás, foi isto que permitiu aos astrónomos da década de 20, liderados por Edwin Hubble, perceber que o Universo está em expansão. O DES não possui um espectrómetro, pelo que necessitará de outros telescópios para medir os “redshifts”. O SUMIRE, por ter um espectrómetro incorporado, terá vantagens no estudo. A terceira experiência, a Atacama Cosmology Telescope Polarisation sensitive receiver (ACTPol) [5] [6], liderada por o Lyman Page da Universidade de Princeton, tem uma abordagem diferente. Em vez de observar a luz proveniente das galáxias, irá observar a radiação do comprimento de onda de microondas proveniente da radoação cósmica de fundo (cosmic microwave background, CMB). Esta provêm do desacoplamento dos fotões cerca de 380 mil anos depois do Big Bang, e portanto, possuem uma natureza que permite prever o início do Universo. A ACTPol também se situa na montanha de Cerro Toco no Chile. Os testes começaram no dia 19 de Julho de 2013. Neste estudo pretende-se observar a polarização do CMB. A microondas da CMB sofrem uma distorção significativa pela sua passagem por clusters de galáxias até à sua chegada à Terra. Analisando esta polarização, e depois de muita estatística à mistura, pretende-se prever o efeito da gravidade e da matéria escura nos clusters de galáxias. Se estas três experiências funcionarem e possuírem resultados concordantes, será um grande passo para a compreensão da evolução do Universo a partir de algo mais pequeno que um electrão até ao Universo como o conhecemos hoje. Os teóricos poderão introduzir novos dados nos seus modelos de energia escura e conseguir resultados inesperados. À medida que os astrónomos tentam explicar o mistério da expansão do universo, alguns teóricos procuram outras explicações. A mais recente foi publicada [7] por Christof Wetterich, da Universidade de Heidelberg na Alemanha. Nesta publicação o autor não só defende que a energia escura não existe, como questiona a ideia da expansão do Universo. Isto, no contexto da cosmologia moderna, é uma grave heresia, mas a publicação de Wetterich, publicada no arXiv, tenta explicar esta heresia. Na visão de Wetterich, o “redshift” que outros atribuem à expansão do Universo pode ser explicado pelo facto de o

Universo estar a ganhar peso à medida que os anos passam. Se um átomo pesasse menos no passado, raciocina, a luz emitida por si seria também menos energética, de acordo com as teorias quânticas, do que a luz emitida hoje em dia. Como luz menos energética possui um maior comprimento de onda, os astrónomos entendem as observações como “redshifts”. Deste modo Wetterich consegue facilmente explicar como é que um ponto de densidade infinita, chamada singularidade, deu início à origem do Universo. Até agora, a teoria do Big Bang não conseguiu explicar o ponto de densidade infinita. No entanto, o modelo de Wetterich não consegue explicar as mudanças na forma dos clusters de galáxias que a DES, a SUMIRE e a ACTPol procuram esclarecer. Wetterich é um físico respeitado mundialmente e a sua matemática está obviamente correta. Além disso, esta teoria consegue explicar um curto período de rápida expansão, conhecido como “inflation”, e sabe-se também que algumas evidências já foram observadas no CMB. No entanto o Wetterich pensa que a “inflation” não aconteceu apenas depois do início do Universo (a opinião consensual), mas acredita que o Universo não teve um começo. Em vez disso, um pequeno Universo estático que sempre existiu tornou-se num grande Universo estático que sempre irá existir - ficando cada vez mais pesado à medida que o tempo passa. Assim, no seu entender, não existiu singularidade. Provavelmente esta teoria está errada. Como corrobora Cliff Burgess do Perimeter Institute, um centro de física teórica canadiano: “A teoria da energia escura rapidamente se transformou num grupo de pessoas que reivindicam ser Napoleão, enquanto afirmam que todas as outras ideias são loucas”. Mas as teorias só duram enquanto as suas ideias são suportadas pelos dados, e quando as novas experiências tiverem resultados para apresentar irão existir imensos dados que todos terão de enfrentar e explicar, e, então, revelar-se-á quem é o verdadeiro Napoleão. Talvez a última palavra deva ir para Niels Bohr, um dos fundadores da teoria quântica que certa vez disse para um colega, Wolfgang Pauli: “Todos concordamos que a tua teoria é louca. A questão que nos divide é se a teoria é louca o suficiente para ter uma hipótese de estar correcta”.

[1] http://astro.uchicago.edu/~frieman/DESpec/Frieman_DES_DESpec_March_2011.pdf; 2] http://www.darkenergysurvey.org/; [3] http://astro.dur.ac.uk/ripples/Day45/Murayama.pdf; [4] http://sumire.ipmu.jp/pfs/index.html; [5] http://www.physics.rutgers.edu/~jackph/2010Nov_actpol_niemack.pdf; [6] http://arxiv.org/abs/1006.5049; [7] http://arxiv.org/a/wetterich_c_1

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AS

CIÊNCIAS

EO

A

PATRIMÓNIO

identificação dos materiais constituintes ou aplicados num objecto de valor patrimonial revela-se muito importante quando, por exemplo, se pretende caracterizar a obra de um artista, analisar os processos de degradação e a evolução temporal e estética do objecto a partir da eventual existência de várias camadas de revestimentos. Este tipo de estudo também pode ser aplicado a monumentos ou sítios de relevância arquitectónica ou histórica. Este tipo de investigação é útil, não apenas para um conhecimento histórico-artístico do(s) objecto(s) em estudo, mas também para se avançar para processos posteriores de conservação e/ou restauro, incluindo a proposta de novas abordagens na sua ‘reabilitação’. Várias técnicas analíticas têm sido usadas para este fim, tais como microscopia óptica, análise química, espectroscopias de absorção e emissão no ultra-violeta, visível e infravermelho, espectroscopia de reflectância, imagiologia híper-espectral, espectroscopia Raman, difracção de raios-X, fluorescência de raios-X, microscopia electrónica de varrimento e granulometria. Estes estudos são inerentemente interdisciplinares, envolvendo especialistas de vários Unidades da FCTUC (DCT, DCV, DEC, DQ) e da Universidade (História, História da Arte, Arqueologia, Museologia, BGUC, Arquivo da UC, CES – Sociologia e Arquitectura) e de outras Instituições como UBI, IPT, ENIDH, UL e U.Aberta, LNEC, IGESPAR, CMC, DRCC, Sta Casa da Misericórdia, Confraria da Rainha Santa Isabel, Museu Nacional de Machado de Castro e Mosteiro de Santa Clara-a-Velha.

por Francisco

Gil

No âmbito deste tema, foram analisados painéis de madeira pintados a óleo da autoria dos Mestres de Ferreirim (Cristóvão de Figueiredo, Gregório Lopes e Garcia Fernandes), pertencentes ao Mosteiro de Ferreirim, e de esculturas policromadas atribuídas à escola de João de Ruão, pertencentes ao Museu Nacional de Machado de Castro, todos artistas do século XVI. Verificou-se que os painéis e a primeira camada das esculturas apresentam pigmentos muito diferentes, servindo este resultado para lançar alguma luz sobre as opções dos artistas e caracterização da sua obra. Procedeu-se também à análise de algumas obras atribuídas a João Fernandes (século XV) e de mestre Pero (século XIV), possível autor ou chefe de oficina responsável pela execução dos túmulos da Rainha Santa Isabel e de sua neta Isabel). Encontra-se em curso o estudo de revestimentos de edifícios habitacionais e monumentais do Centro Histórico de Coimbra, elaborando uma base de dados sobre as várias épocas de construção, sua modas e, sobretudo, a elaboração de protótipos de revestimentos usando materiais actuais respeitando as técnicas tradicionais com materiais compatíveis com o tipo de estrutura em alvenaria dos edifícios. Neste contexto, procede-se, além da identificação dos materiais constituintes das argamassas, rebocos e pinturas das várias camadas de revestimentos existentes em muitos edifícios, à caracterização dos pigmentos usados, de modo a estudar a cor da cidade e, através de estudos espectrocolorimétricos, apresentar uma base de dados e propor soluções para uma futura reabilitação.

Centro histórico de Coimbra, vista geral.

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PHYSICS A

s leis da Física são intrínsecas à natureza e podem ser observadas em qualquer objeto que nos rodeie. Partindo deste ponto, tentarei nos próximos parágrafos expor, embora de uma forma muito simplista, os conceitos da física por detrás do funcionamento de um telemóvel, mais concretamente da comunicação sem fios.

por Marcos

maioritariamente atravessa a matéria sem ser refletido ou absorvido. Esta característica permite que feixes de ondas rádio se propaguem por maiores distâncias que ondas de maior frequência. Outro fator que influencia altamente o alcance da comunicação é a potência radiada pela antena. Sendo o telemóvel um equipamento portátil

figura 1_ Opacidade da atmosfera em função do comprimento de onda

Desde o aparecimento deste equipamento até aos dias de hoje muita foi a evolução quer ao nível das funcionalidades quer da tecnologia envolvida. No entanto, o conceito físico base utilizado por este equipamento continua a ser o mesmo, comunicação por radiofrequência. A comunicação por radiofrequência consiste na transmissão de informação sobre ondas rádio . A escolha de ondas rádio para transmissão de informação pelo ar deve-se ao maior alcance desta radiação para a mesma potência dissipada em radiação... Vejamos, a energia da radiação eletromagnética pode ser calculada através de: E=h×f Logo, as ondas rádio são radiação de baixa energia o que lhes permite tornarem-se “invisíveis” à matéria. Isto é, um feixe de ondas rádio

e alimentado a bateria a potência radiada por este não pode ser demasiado elevada para garantir uma ergonomia convidativa à utilização. Surgem duas questões: 1.Então como se consegue com um dispositivo deste género realizar chamadas para qualquer ponto do mundo? 2.Porque é que não perdemos sinal quando viajamos de carro apesar de nos afastarmos da estação telefónica a que estamos ligados? A resposta à primeira pergunta é

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Cordeiro

simples, o telemóvel estabelece ligação com a torre telefónica mais perto, que por sua vez encaminha para a estação telefónica que encaminha a ligação até ao destinatário pretendido. A segunda questão implica entrar no mundo de gestão de redes e não é esse o âmbito desde texto. No entanto deixovos uma imagem que ilustra o que acontece . Se quiserem estudar melhor o funcionamento de um telemóvel do ponto de vista da tecnologia, sugiro que visitem o seguinte site: http:// electronics.howstuffworks.com/cellphone.htm. Para finalizar, as frequências de onda rádio em que os dispositivos com comunicação móvel operam chamam-se bandas GSM – Global System for Mobile Communications (originalmente Groupe Special Mobile). Estas bandas de frequência estão compreendidas entre os 380 MHz e os 1900MHz e ao todo existem 14 bandas diferentes. No entanto 4 são as mais utilizadas, 850MHz, 900MHz, 1800MHz e 1900 MHz.

figura 2_ Telemóvel ligado à central via torre 2

EVERYWHERE

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RELAÇÕES INTERNACIONAIS

DÉFICE DE DEMOCRACIA A EUROPA TEM

por José

Manuel Pureza

A

opinião pública é frequentemente brindada com um discurso que faz a apologia da União Europeia como constituindo, em si mesma, uma forma de garantia da paz entre os seus Estados membros. Ora, esse discurso escamoteia o essencial: o que fez da União Europeia um projeto de paz não foi a integração de economias nem a livre circulação dos fatores de produção. O que realmente fez da União Europeia uma experiência associada a um tempo de paz de duração inédita neste continente foi a capacidade de gerar níveis de paz social assinaláveis. Quer dizer, foi o reconhecimento e a garantia de direitos sociais através da oferta de serviços públicos universais de qualidade que, ao assumir a inclusão e a coesão sociais como objetivos indeclináveis da Europa, gerou condições para o arrefecimento de velhas tensões e para a mobilização das sociedades para objetivos de crescimento e de qualificação que se sabiam virem a ter benefícios minimamente repartidos. A última década e meia do século passado e o tempo que levamos deste século assistiram à destruição desse projeto. A União Económica e Monetária criada com o Tratado de Maastricht em 1992 selou o fim a prazo desse modelo social e substituiu-o por uma prioridade absoluta conferida a uma disciplina orçamental impeditiva de formas de financiamento das economias nacionais que garantam a sustentação dos serviços públicos, acossados ao mesmo tempo pelo frenesim privatizador que transforma potencialmente todos os bens públicos em áreas de negócio e fonte de lucro. O que hoje se joga na arquitetura regulatória da Europa é a perda definitiva ou a reconquista da democracia política e social como horizonte essencial da vida dos europeus. Os poderes nacionais democraticamente controláveis foram esvaziados em nome de uma Europa a quem nunca foram dadas as atribuições que pudessem compensar aquele vazio. O resultado é o que conhecemos: os défices crónicos das economias periféricas alimentam os superavits e os juros negativos das economias centrais. E, com isso, é a massificação inédita do desemprego que cresce sem parar tendo como única alternativa aparente a também crescente precarização das relações laborais. Ao que se soma um inevitável regresso a velhos desenhos dos fluxos migratórios que subtraem aos países mais

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frágeis – como Portugal – as gerações academicamente mais qualificadas que alguma vez tiveram e as atiram de novo para onde elas fazem menos falta e onde dificilmente ocuparão postos de trabalho realmente correspondentes à sua formação. É de reganhar a democracia que se trata quando cada vez mais gente é atirada para posições de angústia e deixa de ter voz nas decisões sociais. Fazê-lo na escala nacional, desde logo, repudiando a receita empobrecedora e as estratégias de prevalência do estado de exceção sobre o Estado Social. E fazê-lo também em escala europeia, refundando democraticamente a União Europeia e repudiando as concentrações de poder que roubam poder de orientação, de legitimação e de fiscalização aos cidadãos. Habituámo-nos a olhar para a União e a ver cifrões sem ver atrás deles exigências de outra natureza. Sendo económico, o contemporâneo mal europeu é a mais política das realidades. Porque não é o défice das contas públicas que verdadeiramente põe em causa o futuro da Europa. É o défice democrático.

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PSICOLOGIA

“HYPOTHESES NON FINGO” por Pedro Urbano, Professor auxiliar da FPCEUC

É

conhecido o fascínio que a Física exerce, desde há mais de dois séculos, sobre as demais ciências; e em especial sobre as chamadas ciências sociais e humanas. São motivos de admiração e de emulação, o seu estado de desenvolvimento, desde logo; o rigor dos seus métodos e resultados; a sua consistência ou coerência epistemológica; a sua (relativa) integração interna e a sua articulação com outras ciências (em particular, a Química); ou mesmo os seus triunfos e a sua invejável representação social. Utilizando uma terminologia psicanalítica, a Física constitui (ainda hoje) um “ideal de Ego” para muitos praticantes de outras ciências. Mas se a imagem que projecta é admirada, a sua voz nem sempre é escutada; em especial (e paradoxalmente) por aqueles que, ocupados em edificar outros ramos do saber científico à sua semelhança, não ouvem o que ela tem para dizer. É certo que muitas das “lições” da Física, apenas à Física dizem respeito. No entanto, algumas dizem respeito a questões do conhecimento científico, de um modo geral. Não lhe são específicas; pelo contrário, traduzem dificuldades, escolhos ou mesmo armadilhas na construção do saber, que ela teve que enfrentar durante o seu processo de crescimento e desenvolvimento; e que outras ciências, mais atrasadas nesse processo, acabarão, mais tarde ou mais cedo, por ter que enfrentar igualmente. Uma dessas “lições”, pequena mas de modo nenhum insignificante, é dada inesperadamente por Einstein, na Introdução a uma re-edição de Opticks, de Newton. Escrevendo de forma precisa e concisa, num estilo exemplarmente directo e despido de pretensões, Einstein afirma que a Ciência não se pode desenvolver unicamente a partir do empirismo; que nas construções da Ciência é preciso a invenção livre, que só a posteriori pode ser confrontada com a experiência quanto à sua utilidade. Este facto, acrescenta, pode ter escapado às gerações anteriores, para as quais a criação teórica parecia desenvolver-se indutivamente a partir do empirismo sem a criativa influência de uma livre construção de conceitos. Este facto, poder-se-ia de igual modo acrescentar, continua a escapar às ciências ditas sociais e humanas. Tal como lhes parece escapar que “quanto mais primitivo for o estado da Ciência, mais rapidamente

pode o cientista viver na ilusão de que é um empirista puro. No século XIX muitos julgavam ainda que a regra fundamental de Newton, ‘hypotheses non fingo’, devia constituir a base de toda a ciência natural saudável” (ibidem). Não se trata de condenar o passado. O próprio Einstein dirá, mais tarde, de forma singela: “Newton perdoa-me; descobriste o único caminho que na tua época era precisamente o possível para um homem com os mais elevados padrões de pensamento e criatividade. Os conceitos que criaste guiam ainda hoje o nosso pensamento em Física, embora saibamos que têm de ser substituídos por outros mais afastados da esfera da experiência imediata se aspirarmos a uma compreensão mais profunda das relações.” Trata-se de, parafraseando George Santayana, de conseguir recordar o passado; para evitar ter que o repetir. Obcecados em acumular observações quantificáveis, vivendo ainda parcialmente na ilusão do empirismo puro (e na ilusão de que é essa a base da Ciência), muitos praticantes das ciências sociais e humanas deveriam parar um pouco e escutar aquilo que a Física tem para lhes contar; nem que seja acerca da sua própria história.

Nota: ambas as citações de Einstein apud Pais, 1982, pp. 30 e 31. A primeira reimpressa em Eman. Libman Anniversary Volumes, vol. 1, p. 363; e a segunda em P.A. Schilpp (Ed.), «Albert Einstein, Philosopher-Scientist», Nova Iorque: Tudor, 1949, p. 31. |24|

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Projeto

a r r e t a h n Na mi o mundo. Este serviço tem como público-alvo essencialmente as comunidades de emigrantes, os residentes locais e os turistas e potenciais turistas.

N

um país com uma forte cultura de emigração, onde o sangue conquistador dos seus antepassados ainda hoje se mantém vivo e distribuído em pequenos pontos do planeta, torna-se urgente reavivar e inovar no “Mercado da Saudade”. No sentido de fazer face à crescente necessidade deste mercado e acompanhar a vasta onda de emigração nos dias que correm surgiu o Canal www.naminhaterra. com. Trata-se de uma plataforma web com funcionalidade de canal de TV e que desfruta da forte tendência das novas tecnologias, onde a interatividade na palma da mão é um imperativo, encurtar a distância entre comunidades Portuguesas na diáspora e a sua terra natal. A missão do Canal Naminhaterra.com é exatamente esta, “aproximar pessoas” procurando a excelência na difusão, em direto e em tempo real, de conteúdos para TV – Online, direcionando-os para um público específico. Ou seja, a plataforma visa transmitir eventos de cariz cultural, social, profissional e religioso, de uma determinada região, em direto e em tempo real para todo

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Ao Canal de TV estarão também associados, num futuro próximo, serviços que visão proporcionar ao público-alvo uma maior proximidade e valor sentimental, como é o caso da loja de produtos regionais, um pouco da história e tradições da região e o aconselhamento e reserva de diversos serviços puramente tradicionais (atrações turísticas, zonas históricas, hotéis, restaurantes, veículos de transporte típicos, entre outros). O grau de inovação deste projeto assenta em três pilares fundamentais, o potencial de aproximar as pessoas às suas raízes, a preservação e promoção do património material e cultural de uma dada região e a globalidade e a facilidade de acesso ao serviço. Este é um projeto que requereu um investimento inicial, com capitais próprios, considerável quer em recursos materiais quer em recursos

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Alguns números do Canal: 1 ano e 2 meses de existência 161 transmissões em direto Cerca de 537 000 acessos uzem em numero de que os acessos não se trad ao Canal. De salientar pre uma ou mais pessoas. ero de seguidores assíduos sem r núm esta or mai pode dor com es ** País cada computa to, visto que por trás de pessoas a assistir ao even

humanos e um constante investimento em inovação e formação. Espera-se que após o investimento inicial o projeto comece a gerar lucros ao fim de 3 anos, através de patrocínios à realização da transmissão dos eventos em direto, conceção e venda de spots e anúncios publicitários e venda de serviços turísticos. Como principais pontos fortes do projeto conta-se a própria inovação do serviço, a ausência de custo na utilização do serviço, por parte do público-alvo, a elevada qualificação dos recursos humanos nas áreas de tecnologias de informação, audiovisuais e design e multimédia. Por outro lado é um projeto que embora recente, tem vido a recolher um excelente feeback por parte de múltiplos stakeholders, entre os quais, algumas entidades governamentais da região, as comunidades madeirenses e empresas e respetivos empresários do setor privado.

fevereiro do presente ano o Canal foi convidado pela Secretaria do Turismo, Cultura e Transportes do Governo Regional a ser a TV Oficial do Stand do Turismo da Madeira na BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa. Em março foi convidado a integrar uma comitiva de empresários que se deslocaram à Ilha Britânica de Jersey para promover o Canal e realizar a transmissão de alguns eventos em direto. Viagem que, de imediato, gerou excelentes sinergias dando origem a um convite por parte da Comunidade Madeirense radicada naquela ilha para realizar a transmissão em direto de um dos maiores eventos da Ilha, o Portuguese Food Festival, em Agosto do presente ano, batendo contra todas as expetativas, o recorde de acessos ao Canal, cerca de 130 000 acessos. A outra transmissão além-fronteiras foi realizada a partir de Caracas, Venezuela, onde se encontra radicada a maior Comunidade Madeirense, desta feita no âmbito de mais uma missão empresarial, ficando também no ar vários convites para lá voltar. por

Com um ano de existência a realização do serviço (transmissão de eventos em direto) não se esgota na Ilha da Madeira, em

Ricardo Oliveira

Ricardo Miguel Ornelas Oliveira – Licenciado e Mestre em Gestão pela FEUC, concluindo em outubro de 2012. No mesmo ano realizou um estágio profissional numa Associação sem fins lucrativos reconhecida como ONGD (Sentido), onde foi responsável por diversas atividades destacando-se: elaboração de planos estratégicos, planos de negócios e comerciais. A seu cargo esteve a implementação da ISO 26000 de Responsabilidade Social na Estratégia de Gestão da Associação referida. Duarte Ornelas Oliveira – Formação na área da Informática e Programação, é MCSE – Microsoft Certified Systems Engineer e desenvolve a sua atividade de forma independente desde 1995. Neste ramo foi parceiro de empresas de renome nacional, como o grupo PT. Isidro Toni Ornelas Oliveira – Formação na área dos audiovisuais, fotografia profissional (eventos culturais e recreativos há 20 anos). Na última década destaca-se a sua posição no mercado regional e nacional, como fotógrafo oficial de vários eventos organizados por grupos empresariais nacionais. |26|

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10Anos?

Sei lá!

"Estamos sempre a ser surpreendidos por coisas de que estávamos à espera". A frase não é minha, é de um político (e diz-me a experiência que o facto de lermos a um político uma frase que faça sentido já é, por si só, um facto espantoso). Foi exactamente isto que pensei quando me pediram um artigo de opinião sobre o futuro da tecnologia daqui por dez anos. Em primeiro lugar, se o acaso fizesse com que eu soubesse o que é que vai ser "trendy" na tecnologia daqui por dez anos, não estaria aqui sentado a escrever artigos de opinião. (Este é o momento em que o leitor exclama "Este tipo já disse duas coisas acertadas!) e continua a procurar verdades irrefutáveis neste texto, o que me parece bastante mais difícil a partir de um momento. Qual? Deste. O futuro chama-se velocidade (chama-se muito mais coisas, velocidade é apenas uma). Neste momento os departamentos

de R&D estão centrados em substituir tecnologia por outra tecnologia. Tendente a tornar mais veloz a comunicação entre interfaces. É possível que dentro de dez anos a actual tecnologia USB esteja morta e enterrada (no mesmo cemitério onde repousam as últimas maravilhas que todos temos utilizado). A mais promissora chama-se LightPeak, tem um programa de crescimento a dez anos e ameaça copiar Terabytes em segundos. Chame-se LightPeak ou outra coisa qualquer, o aumento de velocidade de transferência fora de um bus é a previsão menos falível que eu sou capaz de fazer hoje. O futuro chama-se Web x.0. Uma Web semântica como lhe chamam os mais puristas. Capaz de começar a interpretar as nossas interacções sociais e a servir informação a partir desse ponto. Há quem afirme que já lá estamos, eu não concordo pela simples razão de que a Web 2.0 ainda não terminou o seu ciclo de vida. Isto se assumirmos que já definimos de uma vez por todas o que é realmente a Web 2.0 e estabelecermos uma fronteira. Haverá Paz no mundo antes disto acontecer. Três, três e meia, quatro, o que quer que aí venha será padrão durante muitos anos. O que quer que "padrão" possa significar ainda nesta indústria... O papel morreu, viva o e-Papel. Enquanto escrevo isto, tomo notas num caderno. Não sei se continue ou se me chicoteie até não aguentar mais. Apesar de ter construído toda uma vida em cima de fibras vegetais e ter assistido ao dealbar do papel electrónico, não estou certo de que a forma actual de epublishing tenha já escolhido o seu standard .epub e PDF reinam actualmente, mas um misto de media digital e físico pode muito bem acontecer. Daqui a três gerações já ninguém se lembrará do que literalmente significou "virar páginas". A verdade é que acredito (wishful thinking, anyone?) que um meio físico manuseável cujo peso seja irrelevante possa ser utilizado dentro de alguns anos, tal como o fazemos com o papel. Se isto será verdade, não sei? Quando o papel standard foi inventado, alguém deve ter dito "Isto pode enrolar-se como fazíamos com o papiro...". O futuro vai ser Wearable. Falo de Hardware. As máquinas de produção tal como as conhecemos, voltarão aos seus locais de eleição: escritórios e residências tenderão a possuir capacidade de processamento cujo push será feito para terminais "wearable", sejam eles relógios, óculos (nos quais não acredito - e isto está a ser dito pela mesma pessoa que previu o eclipse dos U2 em 1982 ) ou outro qualquer hardware/acessório. O futuro chama-se Dados. Começaremos (?) a depender de dados como hoje dependemos de oxigénio. As operadoras de telecomunicações serão as novas petrolíferas. Não acredito em liberalização de acesso universal Web. É demasiado optimista pensar a dez anos neste cenário. Mas não duvido de que lá chegaremos. Daqui a dez anos os operadores vão oferecer-nos TODO o hardware Smart/Data Phone que lhes permitam ter-nos como clientes. Até já. Guardem isto e se eu cá andar daqui a dez anos, mandem-me um email. Ou um Tweet. Ou uma Private Message no Facebook. Ou nada disso. Sei lá. por Pedro

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Aniceto


assinatura

Olá

resumo

conteúdo cifrado

Privada

Eu, abaixo assinado...

Bob

Privada

Olá

Canal Pública

Alice

Pública

TRANSPORT LAYER

SECURITY Eu, abaixo assinado...

conteúdo em claro

É

comum utilizarmos sites na web que requerem comunicações seguras: basta pensar em web banking ou em web mail. Isto não é particularmente fácil de fazer, porque a Internet é fortemente descentralizada: o tráfego entre um browser e um banco poderá passar por muitos intermediários potencialmente inseguros. Uma boa solução de segurança deverá funcionar de extremo a extremo, sem possibilidade de leitura ou adulteração por terceiros. A camada de transporte de dados segura, TLS, oferece precisamente estas propriedades. A combinação entre o popular HTTP e o TLS é o HTTPS, que permite transferir páginas web de forma segura: todo o tráfego que circula entre o browser (um dos extremos) e o servidor web (o outro extremo) passa a ser cifrado e autenticado. O browser indica que está a usar HTTPS quando mostra um cadeado. A variedade do software e hardware que utiliza TLS requer uma fase inicial de negociação dos métodos de segurança a utilizar nos passos seguintes. O browser indica quais são as combinações criptográficas que suporta, por ordem de prioridade. O servidor responde com a sua escolha. Quando o cliente oferece apenas combinações não suportadas pelo servidor, a ligação falha. Durante esta negociação, o servidor também envia ao cliente a sua identificação, autenticada por uma autoridade de certificação. A compreensão do mecanismo de certificação requer um prelúdio sobre pares de “chaves assimétricas”, uma privada e uma pública, recíprocas uma da outra. Se a Alice quiser enviar um texto confidencial ao Bob, cifra-o com a chave pública que este lhe indicar. Por sua vez, o Bob utilizará

a parte privada para decifrar o mesmo texto. A operação no sentido inverso também é possível para assinar com a chave privada e confirmar com a pública. É precisamente assim que as autoridades de certificação associam a identificação dum banco com a sua chave pública: assinam um certificado com essa associação, cabendo ao browser confirmar esta assinatura. Os browsers têm acesso às chaves públicas das autoridades de certificação mais conhecidas. No caso da Figura 1, a autoridade de certificação chama-se TERENA. Ao longo da sua história de duas décadas, o TLS sofreu vários ataques. Por exemplo, avanços na factorização de números inteiros resultaram na obsolescência de certificados com chaves RSA de 512 e 768 bits; avanços na procura de colisões em funções de hash como o MD5 resultaram na geração de certificados falsos. Noutros casos, como o da cifra RC4 ou hash SHA-1 são conhecidas fraquezas, que, apesar de ainda não serem críticas, sugerem a sua substituição. Outros ataques são mais subtis, e geralmente advêm de falhas na implementação do protocolo. Uma das mais famosas foi descoberta em 1996, quando investigadores descobriram que as chaves secretas, derivadas a partir da hora de relógio do servidor, eram facilmente recuperáveis por um atacante que soubesse as horas. Apesar de não ter um cadastro perfeito, o TLS reflecte o estado actual do conhecimento em segurança aplicada e encontra-se por baixo dos protocolos mais populares de comunicação segura, incluindo transferências bancárias, serviços governamentais e pesquisas. por

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Samuel Neves e Filipe Araújo R E S I S TA N C E


O MUNDO DAS

IMPRESSORAS T

erry Gou, o diretor da Foxconn, a maior produtora de objetos eletrónicos do mundo (que produz grande parte dos produtos da Apple), afirmou que as impressões 3D não passam de um “truque” sem qualquer valor comercial nos produtos finalizados e prometeu começar a dizer o nome ao contrário no caso de estar errado. Esta é a visão que os cépticos tendem a ter sobre as impressoras 3D. No entanto, apesar do hype inicial das impressoras 3D estar focado nos hobbyistas e nos consumidores privados, são as impressoras 3D de grandes dimensões, usadas no meio industrial, que estão a ter mais trabalho devido ao aumento da procura para impressão de objectos de grandes dimensões. Espreitando através das janelas de inspecção de quase cem impressoras 3D na RedEye, sediada em Minnesota, temos uma visão da forma como as fábricas vão trabalhar no futuro. Não é o facto das impressoras, algumas tão grandes como carrinhas, serem operadas somente por uma mão cheia de funcionários que impressiona mas sim a revolução do seu processo de produção atual. As impressoras 3D criam os objetos construindo-os por camadas, tal como uma casa, ao invés de cortar, furar e maquinar como no método convencional. Esta é a razão pela qual se chama manufatura aditiva a este processo de construção. Existem diversas formas de realizar estas impressões. Por outro lado, com uma simples alteração no software original todos os objetos podem ser diferentes,

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o que permitiu a popularização das impressoras 3D na produção de objetos únicos, como protótipos, por exemplo. É extremamente improvável que a manufação aditiva venha a substituir a produção em massa, uma vez que as impressoras 3D não irão conseguir produzir infinitas peças idênticas a baixo custo como as linhas de produção em massa conseguem. O mercado para as impressoras 3D e serviços é pequeno mas está a crescer rapidamente. O valor do mercado em 2012 foi de 1,6 biliões de euros, tendo crescido 29 % desde 2011, de acordo com a Wohlers Associates, uma consultora. À medida que os produtores ficam mais familiarizados com a tecnologia, estão também a passar de simples protótipos para o produto final. Os trabalhadores da linha de montagem da BMW desenham e imprimem ferramentas customizadas em 3D para facilitar a colocação de peças nos carros. No caso dos aviões McDonnell Douglas MD-80, que tinham problemas nas tubagens sanitárias resolveram-nos através da impressão de peças raras ou já extintas do mercado. Como a produção destes aviões há muito que terminou, a companhia tinha imensas dificuldades para encontrar peças suplentes ou até para consertar certo tipo de avarias. À medida que as impressoras 3D vão melhorando e a qualidade dos materiais impressos também, a qualidade do produto final está a aproximar-se do produto montado de forma tradicional. A 3D Systems, sediada na Carolina do Sul, outra empresa de impressoras 3D possui muitos exemplos de como

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3D

as impressoras 3D podem ser usadas para produtos finais, já prontos para o mercado. Um mercado que adoptou as impressoras 3D desde cedo foi também a indústria Health Care, onde a customização do produto é importante porque cada paciente é diferente. Utilizando como exemplo os aparelhos auditivos, foram impressos milhões de exemplares em 3D através do scan dos canais auditivos do paciente, diz Cathy Louis, diretora de marketing da 3D Systems. A indústria aeroespacial também abraçou as impressoras 3D. Hoje um típico caça F-18 é provável possuir 90 componentes impressos em 3D, ainda que os F-18 estejam em serviço desde há duas décadas antes da invenção da impressora 3D. Bons exemplos são a substituição de peças do cockpit ou condutas de ventilação. Já foram identificadas novecentas peças que podem ser impressas em 3D no novo caça F-35, diz a 3D Systems. A maior manufactora do mundo, General Electrics (GE) não tem dúvidas da importância que a manufação aditiva vai ter em grande parte das suas divisões, desde a energética à Health Care, e pretende acompanhar esta tecnologia dentro da própria GE de forma a ter uma vantagem sobre a concorrência. O que atrai a GE para esta tecnologia é o potencial de fazer componentes complexos e leves, que a manufactura tradicional só consegue produzir através de materiais exóticos. Em 2020 a GE espera imprimir dezenas de milhares de componentes, só para os seus caças.


Não é só o continente americano que utiliza esta tecnologia. Os políticos chineses vêm na manufação aditiva uma forma de melhorar as suas próprias fábricas, à medida que o custo dos recursos humanos vai aumentando e algumas das empresas externas voltam à América e à Europa. Portanto, algumas das maiores impressoras 3D do mundo podem ser encontradas na China. Temos como exemplo os astronautas que se sentam em assentos impressos em 3D que são construídos especificamente para cada corpo. O valor da impressão 3D como ferramenta de produção vai aumentar à medida que os circuitos eléctricos possam ser incorporados dentro ou sobre os componentes impressos. A Disney e a Xerox estão a investigar estes processos, como a GKN Aerospace, uma empresa britânica que juntamente com a universidade de Warwick desenvolveu um material de impressão chamado “carbomorph” que possui propriedades piezoresistivas, isto é, a resistência eléctrica sofre alterações quando o material é pressionado. Com este material poderão imprimir-se, por exemplo, interruptores, botões e sensores. A Optomec, sediada em Albuquerque desenvolveu uma maneira de imprimir ligações eléctricas a que chamou Aerosol Jet e que pode produzir fios, resistências, condensadores e semicondutores com uma espessura tão pequena como 10 µm. Esta companhia também trabalha com manufactores de telemóveis para imprimir circuitos elétricos nos “handsets”.

O recente desenvolvimento da indústria das impressoras 3D está relacionado com o aumento da concorrência dos manufactores das impressoras depois das patentes de construção terem expirado em 2009. Isto permitiu que os preços tenham decaído e algumas impressoras possam ser compradas por menos de 750 €. Entretanto a impressão em 3D está a tornar-se aberta a consumidores individuais através de impressões “on demand”. São impressos implantes médicos para cirurgiões, protótipos de edifícios para arquitectos, abajures para design de interiores, maçanetas para carpinteiros e componentes leves para robôs industriais. Se Terry Gou da Foxconn alguma vez tiver problemas na linha de produção, as empresas fornecem serviços de manufação aditiva que poderão ajudar, como aconteceu numa linha de montagem na China, onde foi descoberto que faltavam pequenas peças plásticas que deveriam ter sido encomendadas previamente a uma companhia de fundição de plástico. Deparados com semanas de atraso, recorreram a uma empresa de impressão 3D que enviou uma primeira remessa de cinco mil unidades dentro de dias. Este é somente um exemplo de como a impressão 3D não está a competir com as técnicas de manufactura tradicionais, mas, ao invés, está a complementar e a hibridizar com elas para tornar novas coisas possíveis. Quando as impressoras 3D já conseguem auxiliar a produção em massa, o lugar na fábrica do futuro está assegurado.

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por Frederico

Borges

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24frames/s Brokeback Mountain

Ana Garcia

Estamos em Wyoming em 1963, é este o ano que marca a história que Ang Lee trouxe para o grande ecrã em 2005. Nomeado para oito óscares (dos quais ganhou três) e vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, é o filme que conta a história dramática, das mais emocionantes e profundas, que dificilmente deixa alguém indiferente, combinada com paisagens magníficas do Canadá e uma banda sonora perfeitamente escolhida. Tudo se passa entre dois jovens cowboys protagonizados por Heath Ledger e Jake Gyllenhaal. Engane-se quem acha que pode partir para este filme sem se despir de preconceitos e, perante esta recomendação, basta referirmos que parte ou totalidade do filme foi sendo censurado pelo mundo fora, sendo a Itália, provávelmente, o caso mais surpreendente. A desmistificação do homossexual como promíscuo, que procura envolver-se sexualmente mas nunca emocionalmente, fica mais perto nesta que

é uma história de amor que nasce com uma profunda amizade que teria, porventura, um final feliz se fosse entre um homem e uma mulher, não fosse a triste condição humana, mergulhada no preconceito, intolerância e exclusão. Retrata-se então a vida desperdiçada pela negação do mais elementar desejo humano que levou ao drama em que vivem as duas personagens, cientes de que nunca poderão ficar juntos, de uma perspectiva contida e que recusa exibicionismo gratuito. Quando acaba, há um desejo de o rever tantas vezes até anestesiar a dor que deixa. É isso que o distingue e é por isso que não merece ser relembrado como “o filme que fala de gays” de Ang Lee. Na verdade nunca o cinema falou tão claramente de amor, do “lado errado” do amor, que vive de vulnerabilidade e resistência. Não podiamos deixar, porém, de reflectir que tantos anos passados desde 1963 e parece que pouco mudou.

Blue Jasmine Neste novo filme de Woody Allen, Jasmine (Cate Blanchett) é uma mulher que abdicou de uma vida planeada para casar com Hal (Alec Baldwin), escolhendo uma vida luxuosa, até ao dia em que este foi apanhado por ser um vigarista. O filme começa com Jasmine a ir viver com a irmã Ginger (Sally Hawkins), a única pessoa que a tenta ajudar depois de um esgotamento nervoso. A relação entre Ginger e Jasmine é o cerne do filme pois ambas estão perdidas nas encruzilhadas da vida. A baixa auto-estima de Ginger e o sentimento de superioridade de Jasmine marcam esta relação, onde as personagens se agarram às escolhas por mais uma oportunidade de felicidade.

R E S I S TA N C E

Depois de vários anos como realizador de comédias, Woody Allen, volta a realizar um drama que explora o facto de todos estarmos perdidos e de não sabermos nunca o que fazer. A interpretação de Cate Blanchett é soberba a encarar uma personagem que não se consegue adaptar a uma nova realidade. Blue Jasmine fica aquém dos melhores dramas de Woody Allen, como Manhattan ou Intimidade. Afigura-se mais à descrição de personagens perdidas e não conseguiu navegar nos dilemas das personagens. Mesmo assim, nesta altura do ano, Blue Jasmine, deverá ser dos melhores filmes a ver nas salas de cinema portuguesas.

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rico Frede s Borge


A Rede Social A Rede Social narra a história sobre a origem do Facebook e uma parte da vida dos seus fundadores, com o atual CEO da empresa como protagonista, Mark Zuckerberg (interpretado por Jesse Eisenberg). O argumento está dividido em três planos temporais, mas a trama principal do filme passa-se quando o protagonista era ainda o universitário que ambicionava pertencer a uma fraternidade (ou em inglês: final club), o que nas mãos erradas se poderia tornar num comum filme sobre universitários. Isso não acontece com David Fincher. O realizador faz aqui um trabalho ao nível dos seus anteriores filmes, como Fight Club ou Zodiac, e cria um filme inovador. Um dos aspetos que torna este filme tão especial é a excelente banda sonora de Trent Reznor (vencederor do óscar nesse ano). O facto de ser baseada em música eletrónica podia chegar para

surpreender, mas a banda sonora transcende-se aqui por toda a dinâmica que dá ao filme, marcando todo o seu ritmo do inicio ao fim, e faz uma simples leitura de provas parecer uma cena de ação. No entanto, o que nos entusiasma mais neste filme é a maneira como retrataram a personagem principal. Mark Zuckerberg é transformado aqui num anti-herói. Um menino sobredotado, sem qualidades sociais, ou como lhe chamam várias vezes no filme, “um idiota”. A personagem dá ao filme um teor moral e complexo, principalmente quando são exploradas as suas fraquezas. Sem dúvida um excelente trabalho de Jesse Eisenberg. Não é inspirado numa biografia oficial, por isso o filme não nos conta tudo o que temos de saber, o que o torna mais complexo. É um filme que quando saímos do cinema nos faz sentir que vimos algo de novo.

David s Gome

In Bruges

el Manu o Garrid

In Bruges é um filme de 2008, realizado por Martin Mcdonaugh, uma comédia negra (grande acentuação no negra) misturada com drama sincero e com um pouco de violência javarda por cima. Depois de um trabalho mal efetuado, os dois hitmans Ray (Colin Farrel) e Ken (Brendon Gleeson) são mandados pelo patrão para Bruges (na Bélgica) para se esconderem. A cidade de Bruges (cidade medieval melhor preservada da Bélgica) permeia todo o filme com um ar de irrealidade. O diálogo destaca-se neste filme, nunca deixando o interesse fugir, mesmo nas partes mais lentas. Com óbvia inspiração em Tarantino, cada linha é realista e quando por acaso calha uma que não o é assim tanto, o resultado é nada menos

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que hilariante. As actuações estão excelentes, Colin Farrel mostrando-se finalmente capaz de desempenhar um papel com profundidade e Ralph Fiennes a deixar uma forte impressão cada vez que aparece no ecrã. In Bruges é um filme que claramente não quer saber de quaisquer pré-concepções ideológicas de toda a gente, tem um guião espectacular, performances espectaculares, banda sonora, adivinhem, espectacular e tem os tomates para ser um filme que se esforça (e que talvez mesmo lá chegue) para sacar uma lágrima às audiências poucas cenas depois de ter um anão a snifar coca do rabo de uma pêga. Acho que só por aqui merece ser visto.

R E S I S TA N C E


78

n i m / s e õ ç rota

Right Thoughts, Right Words, Right Action

Paradise Valley

Franz Ferdinand

John Mayer

Os Franz Ferdinand marcaram regresso ao mercado musical para Agosto de 2013 e o seu quarto álbum de originais assinala uma nova etapa na vida deste grupo. Se há quatro anos, Tonight era o reflexo da necessidade de reinvenção sonora do quarteto de Glasgow, Right Thoughts, Right Words, Right Action personaliza o momento de uma banda que procura redescobrir o prazer que os levou a começar toda a sua aventura. Sem rodeios, Right Action é a música certa para começar a acção, com um refrão de fazer inveja a qualquer hit pop e a energia das suas guitarras a relembrar o seu primeiro LP. Segue-se o baixo gingante de Evil Eye a pedir um passo de dança, e Love Illumination com um riff de guitarra que a torna inconfundível e um marco deste trabalho. Fresh Strawberries junta o melhor do art rock dos Franz Ferdinand com a sublime alma dos Beatles, Bullet é a nova descarga energética de guitarras, tendo pelo meio passado Stand on the Horizon, polvilhada com pequenos toques de retro disco. Há ainda espaço para Alex Kapranos se proclamar rei dos animais em Treason! Animals, e contar um romance cósmico em The Universe Expanded, sempre bem acompanhado pelos seus fiéis companheiros. O álbum termina com uma despedida em Goodbye Lovers & Friends, quem sabe se numa referência aos momentos em que, segundo Kapranos, o grupo esteve prestes a separar-se. Felizmente não passou da ideia. Este é sem dúvida um trabalho bem desenhado, bem executado por artistas que de novatos já não têm nada mas que apresentam um sentido de estética moderna assinalável. Com quatro álbuns, o grupo oriundo de Glasgow continua a demonstrar uma criatividade notável no que toca a cumprir o seu objectivo inicial: deixar todos a dançar.

Passado apenas cerca de um ano desde a edição do seu anterior trabalho, e após recuperar de um granuloma que esteve perto de acabar com a sua carreira, John Mayer volta à estrada e com mais um novo trabalho a dar sequência ao bem sucedido Born and Raised. Paradise Valley, de certa forma, começa onde Born and Raised acabou: com John Mayer em busca da sua identidade. John Mayer parece não conseguir abdicar das influências mais acústicas e relaxadas enquanto leva o ouvinte a viajar pelas mais diversas ocorrências da sua vida. “Wildfire” abre de forma auspiciosa, um sing-along bem conseguido, com cara de single. “Dear Marie”, “Waitin’ On The Day” e “Paper Doll” guardam muitos vestígios da intimidade de Born and Raised, com dedicatórias especiais de John Mayer a paixões de outrora. “Call Me The Breeze” é um dos momentos mais altos do álbum, uma versão de J. J. Cale que conserva a sua essência blues e adiciona alguma irreverência. “Who You Love” é um dueto com Katy Perry, e é uma forma bastante original de escrever uma carta de amor de um para o outro. Sim, eles namoram. Destaco ainda “I Will Be Found (Lost At Sea)”, possivelmente o melhor momento do álbum. Um clássico instantâneo! É ainda notória uma forte influência country em grande parte do álbum, mas principalmente após o interlúdio de “Wildfire” com a participação especial de Frank Ocean. “You’re No One ‘Till Someone Lets you Down” e “On The Way Home” são os melhores exemplos disso.

Por João Borba

Por Gonçalo Louzada R E S I S TA N C E

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The Smiths

Altered State TesseracT

Quando Steven Morrissey e Johnny Marr se conheceram em 1982, deu-se o primeiro passo para a criação de uma das bandas mais influentes de todos os tempos, The Smiths. Tendo como principal característica a parceria de Morrissey (voz) e Johnny Marr (guitarra), a banda também incluía Andy Rourke no baixo e Mike Joyce na bateria. O quarteto Inglês, mais conhecido por músicas como “Please, Please, Please Let Me Get What I Want” e “ There Is A Light That Never Goes Out” veio para definir o som da década de 80, com o delicado cantar de Morrissey e o exuberante som da guitarra de Marr; os críticos consideram-nos a mais importante banda de rock alternativo que surgiu nessa década. As introvertidas e hipersensíveis letras chamaram a atenção de uma geração que estava trancada em espaços escuros, uma geração que se identificou com o mundo desolado e com a vida solitária de Morrissey. The Smiths, não só foram um farol como ainda lançaram discos memoráveis sem nunca se renderem ao mainstream. Num cenário onde as bandas nascem como cogumelos e caem ao fim de um hit ou dois, estes foram os “outsiders” que criaram música para pessoas como eles; o fato de eles permanecerem populares e relevantes mostra que, mais do que isso, criaram arte. A banda terminou a sua carreira com a perfeição formal do álbum The Queen Is Dead (1986) e singles como Girlfriend in a Coma (1987). Definiram o termo “pós-punk” melhor do que ninguém: eles não tinham absolutamente nada em comum com a civilização punk. Na verdade, eles foram para o punk-rock o antídoto. The Smiths: eles duraram apenas cinco anos, eles fizeram apenas quatro álbuns próprios, eles foram ignorados pelo Rock & Roll Hall of Fame, mas o seu legado permanece e a lenda ascende por entre gerações.

Por Liliana Rebelo

A palavra “Djent” foi utilizada pela primeira vez por Fredrik Thordendal, quando descrevia um acorde cheio de distorção, pouco ganho e “palm-mute” (técnica guitarrística que consiste em pressionar as cordas com a palma da mão enquanto se palheta). Mas o termo não ficou por aqui… baptizou a nova onda de Metal Progressivo criada pelos grupos de nova geração, claramente com Meshuggah e Sikth no seu ADN. Estas bandas são conhecidas pelos seus acordes pesados, afinações graves, riffs de guitarra complexos, uso de polirritmias, compassos “incomuns” e groove. O destaque vai para os TesseracT, cuja tradução literal é hipercubo, com o seu mais recente álbum “Altered State”. Formados em 2003, antes de entrarem novamente em gravações, declararam que apenas fora sua intenção possuir vocais com “growls” (mais conhecidos por berros) para se introduzirem na indústria e ganharem autoridade suficiente para criar a sua verdadeira identidade, anunciando Ashe O’Hara como novo vocalista. Apesar de já conhecidos pelas suas passagens bastante melódicas, Ashe intensificou esta característica com vozes super limpas, cheias de delays e chorus, atingindo notas bastante agudas, levando a um maior número de secções com guitarras sem distorção. Estas mudanças fizeram com que o álbum fosse bastante mais atmosférico e melódico que o anterior, digno de ser ouvido e levado como uma experiência. Apesar da mudança, o essencial ficou: peso, complexidade e músicas de longa duração, que continua a ser o suficiente para que esta seja uma Prog Metal Band de eleição. O álbum divide-se em 4 partes “of Matter”, “of Mind”, “of Reality” e “of Energy”, sendo elas, na verdade, as 4 músicas do álbum, que para não serem extremamente longas, foram divididas em várias faixas. “Altered State” é uma demonstração da dedicação e trabalho de músicos sérios que afirmam não compor com a palavra “dificuldade” em mente, mas apenas deixando-se levar pelo que sentem.

Por Ivan Laranjeiro |34|

R E S I S TA N C E


ESTRELAS COMPACTAS

NEWCOMPSTAR EXPLORAR FÍSICA FUNDAMENTAL COM

Estrelas compactas é a designação dada a um conjunto de astros muito densos com massas que poderão ser cerca de duas massas solares e raios inferiores a 15 km. Os seus constituintes poderão incluir, além das partículas mais comuns que formam a matéria que nos rodeia - eletrões, protões e neutrões - outras partículas mais exóticas, nomeadamente hiperões, condensados de kaões ou matéria de quarks desconfinada. Os campos magnéticos na superfícies de algumas dessas esrtrelas, conhecidas por magnetares, podem atingir 1015 G! Estas estrelas são laboratórios únicos para estudar os constituintes da matéria e suas interações em regimes de temperatura, densidade e campos magnéticos dos mais extremos do universo. A observação destes objetos excecionais constituirão testes únicos da física nuclear, da cromodinâmica quântica a baixas energias e das interações entre

partículas elementares inacessíveis em experiências laboratoriais terrestres. Um grupo de físicos europeus, incluindo membros do Centro de Física Computacional, das áreas de física nuclear, física das partículas elementares, astrofísica e relatividade geral teve recentemente uma ação COST aprovada, "NewCompstar: exploring fundamental physics with compact stars", que tem como principal objetivo estudar estes objetos fascinantes num ambiente interdisciplinar. Paralelamente, a rede formará uma nova geração de físicos especializados nesta área multi-disciplinar. A nova geração de observatórios e detetores de ondas gravitacionais que brevemente estará disponível irá, certamente, dar origem a novas descobertas e complementar as medições realizadas nos laboratórios terrestres, justificando a importância da existência de uma rede como a NewCompstar.

SOBRE

QUARKS, GLUÕES E A INTERAÇÃO DE COR

por

A Cromodinâmica Quântica (QCD) descreve    p = α Eentre + βquarks E E + e gluões. γ E E EA+ teoria ... (1) a interação foi proposta nos anos 70 por Politzer, Wilczek e Gross, que lhes garantiu o prémio Nobel da Física em (2) (E ∝ cos(ωt)) 2004. Nunca se observaram quarks livres, o que levou cos(2ωt) + 1 à formulação cos da(ωt) hipótese do confinamento: (3) na = 2 Natureza não há quarks livres, mas apenas em certas combinações. Não temos uma resposta clara E (4) a esta pergunta. O cálculo da energia entre um quark e um antiquark infinitamente pesados em p  (5) função da sua distância dá-nos a energia potencial de Cornell: 3

3

ij

i

j=1

j

3

ijk

j

j,k=1

k

ijkl

j

k

l

j,k,l=1

i

2

V (r) = V0 +

A + σ2 r r

(6)

onde r é a distância entre quark e antiquark. O potencial V(r) oferece uma explicação intuitiva para o confinamento de quarks pesados, mas o espectro associado, decaimentos e transições entre mesões pesados, envolvendo quarks c e b, mostra algumas discrepâncias fundamentais com os dados experimentais. Estas diferenças vêm da natureza

Constança Providência

das aproximações necessárias para conseguir resolver as equações do movimento e, também, da natureza da descrição adoptada. As limitações deste tipo de descrição são bem mais evidentes quando consideramos quarks mais leves como os quarks u, d e s. Os gluões interagem fortemente e podem formar estados ligados com múltiplos gluões, as glueballs. Como os gluões interagem com quarks, a sua presença leva à geração de quarks que se materializam em mesões e bariões. Esta propriedade dificulta a identificação de glueballs, já que devem surgir em combinações ou dar origem a outras partículas. Apesar dos 40 anos da QCD, do conhecimento acumulado, o estudo da interação forte continua a ser um problema fundamental em Física. As questões que mencionei são alguns dos problemas em aberto, mas podíamos falar de muitas outras. Por exemplo, qual é o diagrama de fases associado à interação forte? Como mudam as propriedades dos quarks e gluões com o meio em que estão inseridos? por

1

R E S I S TA N C E

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Orlando Oliveira


OFENDIDO

Eu gosto de usar o humor. É com ele que vencemos os nossos receios e lidamos com o mundo triste que nos rodeia. Por exemplo, o racismo atualmente continua a ser um problema prevalente na nossa sociedade. O que é triste, absurdo; todos nós somos seres humanos que ocupamos o mesmo espaço e caminhamos para o mesmo fim. E é exatamente isso que torna piadas sobre pretos; ou ciganos; ou chineses; ou que seja tão engraçadas: o saber que são exageros da realidade; que o que está a ser dito é ridículo, mas também que existem pessoas burras o suficiente para acreditarem nisso. E quando falo sobre piadas racistas também falo de piadas sobre mulheres, homens, morte, pessoas com cancro, crianças com SIDA, etc. Os últimos três pontos podem parecer demasiado maus, o tipo de assuntos com que não se brinca, mas é ai que reside a beleza da comédia: o fazer as pessoas rirem-se de algo que sentem que é errado rir. Mas, infelizmente, a maioria das vezes que uso este humor (negro) fora de um seleto grupo

de amigos sou automaticamente repudiado. Porquê? Porque as pessoas ficam muito extremamente ofendidas. As feministas ficam ofendidas quando gozo com mulheres, os cristãos quando gozo com deus, os comunistas quando gozo, bem, com comunistas, toda a gente quando brinco com cancro. Fogo, provavelmente já houve alguém a ficar ofendido por no início ter dito pretos e não negros ou pessoas de cor. E é por essas mesmas pessoas que eu não posso usar a forma curta de prostituta ou a longa de pénis, porque é linguagem ofensiva. Mas há algo que todas essas pessoas se esquecem: ninguém quer saber! Não é por ficarem ofendidos com cada coisinha na nossa sociedade que podem ter o direito de mudála. Antes pelo contrário. Porque se estão num meio em que algo pode ser dito que as ofende, quer dizer que também estão num meio em que podem dizer algo que ofende outra pessoa. E isso, no fundo, é liberdade. E todos nós a merecemos… menos os rabetas. E isto foi uma piada.

FÉRIAS

por

Odeio férias! Como não podia odiá-las? Passo o ano inteiro à espera das férias e, quando finalmente chegam, enfrento uma tremenda seca, causada não só pela temperatura, que me faz parecer um atleta sem físico, mas essencialmente pela lenta passagem do tempo, mergulhado na pasmaceira! É com alguma vergonha que admito, mas há alturas em que acho que tenho saudades do tempo de aulas, de trabalho! Inicio o meu ritual de férias sempre enclausurado em casa, mas ao fim de alguns dias de horários já completamente desregulados e com as séries interessantes já todas vistas começo a debruçar-me sobre as questões existenciais. É nessa fase que decido que tenho de tentar estabelecer contato com o mundo exterior que não seja apenas através de um ecrã. Embora combinar coisas seja uma boa ideia, nem sempre é fácil, e se ambiciono combinar algo “maior” que uma saída esporádica, como um jogo de futebol, uma sessão de cinema, etc., então enfrento sérias dificuldades. O problema é que as pessoas ou não estão por cá, ou já fizeram planos. Devido à dificuldade de fazer bons planos de férias com os meus amigos, interroguei-me se devia estudar, de modo a estar mais “culto” no próximo ano escolar. Respondendo à questão do leitor: não, não sou masoquista, porque, embora estes dez segundos tenham sido de grande indecisão, férias são férias, e para estudar tem-se o resto do ano, aquela altura em que estamos à espera das férias. Decidi improvisar um plano B com maiúscula, não de “Bom”, mas sim de “Grande Barraca”: férias com a família!

Bernardo Fabrica

Na minha perfeita inocência (que não é muita) achei que seria boa ideia realizar uma viagem de carro com os meus pais Europa fora. Sendo filho único, “socializo” sempre muito com eles nas grandes viagens de carro. E nem é mau, tirando os longos inquéritos a que sou sujeito. Geralmente, em todas as viagens de carro há três discussões, que vão escalando de intensidade. Saímos de casa e a viagem até segue bem, chegamos a fazer 5km sem problemas, até que, finalmente, o meu pai avisa que vai ouvir notícias pela rádio. A minha mãe não aprova, quer ouvir música - 1ª discussão! As coisas lá acalmam, até que alguns quilómetros mais à frente a minha mãe quer abrir uma janela para entrar ar fresco no carro. Nisto, o meu pai chateia-se porque prefere que o ar condicionado vá ligado - 2ª discussão - providenciada pelo fantástico avanço tecnológico que supostamente visa a nossa harmonia, certo?! Entretanto, e já perto do destino, começamos uma “conversa civilizada” sobre o que vamos fazer e por onde vamos passear. Enquanto a minha mãe quer poder desfrutar das coisas e ao mesmo tempo descansar um pouco numa esplanada, por exemplo, o meu pai quer ver tudo o que puder, numa aflição que parece que o mundo está a 24h de se desintegrar. Começa então a 3ª e última discussão. Ainda assim, lá me divirto com a minha família disfuncional. Como disse alguém sábio: “O importante não é o destino, mas sim a viagem”, e sei que um dia vou ter saudades disto. Boas férias! Ed. por

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Eduardo Pereira R E S I S TA N C E


UM

NARCOESTADO À PORTUGUESA

R

por

ecentemente, o Expresso publicou uma reportagem “Guerra à Droga” iniciada em 2006 no México. Os resultados estão à vista. O número de cartéis no país aumentou e o número de vítimas mortais relacionadas com o narcotráfico subiu de forma assustadora. Suponham agora que Portugal, em 2001,ao invés de ter descriminalizado a posse de drogas, tivesse optado por uma estratégia semelhante à do México, com resultados semelhantes. Fica então a seguinte pergunta: e se Portugal fosse um país controlado pelo tráfico de droga? Estamos em 2015. Portugal é maioritariamente controlado pelo cartel de Sobral de Monte Agraço, liderado pelo camaleão político Paulo Portas. Este indivíduo, devido à sua total ausência de lealdade e decência humana, é capaz de negociar simultaneamente a heroína com jihadistas afegãos enquanto ordena uma purga à região de Trás-os-Montes. E se algo correr mal, tem sempre uma peruca loira debaixo da cama. Apenas é ameaçado por Cavaco Silva, que lidera um pequeno grupo de resistência a partir da sua casa de praia em Boliqueime. Envergando um camuflado dos tempos do Ultramar, é temido pela comunidade internacional, não pelo seu poderio balístico, mas sim por ser demasiado aborrecido. O Governo Português não é mais que um fantoche nas mãos dos narcotraficantes. Nas palavras de António José Seguro, líder do Governo, “enquanto não nos comprometermos, não ficaremos comprometidos”. Isto torna-o no homem de confiança para os barões da droga, cuja permanência no país é facilitada pelo regime económico especial instaurado por Vítor Constâncio,

R E S I S TA N C E

Filipe Vicente

uma vez que estes se podem colectar nas Finanças como “empregadores de criminosos em reabilitação social” ou “importadores de produtos químicos para fins educativos”. A própria União Europeia faz vista grossa à situação, com Angela Merkel a afirmar que “há violência, mas pelo menos o dinheiro circula no país, seja ele sujo ou limpo”. Miguel Relvas refugiou-se em Idanha-a-Nova, onde supostamente gere uma ampla rede de tráfico de heroína. Na realidade, o máximo que consegue fazer é encomendar umas bolotas de haxixe de Marrocos e vendê-las a reformados e funcionários da Câmara. Da única vez que experimentou, julgou-se de novo a ser vaiado em pleno ISCTE. No fundo, continua a ser um poser. A única esperança recai no conselheiro governamental e auto-proclamado guru espiritual da nação, o professor Marcelo Rebelo de Sousa. No entanto, sempre que é chamado a intervir, encontra-se demasiado ocupado a partilhar uma linha de cocaína ao som de Pixies num T0 do Bairro Alto com José Sócrates, professor da cadeira de Inglês Teatral na escola de Belas Artes de Lisboa. E essa carismática figura que dá pelo nome de Jorge Jesus? Aparentemente, mantém a sua característica teimosia e noção de superioridade intelectual em relação aos outros. Como tal, compra toneladas de rebuçados Dr. Bayard e tenta revendê-los como se fossem metanfetaminas. Obviamente, não é levado a sério, talvez por causa do seu aspecto de estrela de glam rock dos anos 80, que o torna semelhante a um agarrado de esquina. Ou talvez porque julga que um quadrado tem apenas três vértices.

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BRANCA DE NEVE

A E OS

A

40LADRÕES

Branca de Neve, a Rainha Má, o Tinkiwinki, o Sapo Cocas e o Power Ranger Amarelo eram 5 amigos que se encontravam quase todas as noites numa esplanada. Mesmo quando chovia. Há lá coisa mais incómoda do que estar numa esplanada numa noite de verão e começar a chover, obrigando toda a gente a entrar dentro do café? Muitas vezes já está tão cheio lá dentro que alguns têm de ficar do lado de fora espalmados de encontro à parede com a ponta dos sapatos molhados pelas pingas que caem do telhado. Ok, esta não foi bem conseguida porque geralmente existem caleiras na beira dos telhados para a água não escorrer. Sabem que é bastante útil aproveitar a água que corre pelos tubos de caleira, quanto mais não seja para regar plantas. "Quanto mais não seja" quer dizer, não a usem para muito mais. Não se ponham a beber dela. Cada vez mais se fala nas chuvas ácidas... Eu lembro-me que quando era mais novo pensava que as chuvas ácidas eram responsáveis por aquelas estátuas antigas não terem pila. Agora já sei, graças a um livro do Dan Brown, que foram destruídas a mando de um Papa qualquer. O que é que terão feito a tanta pila? Não seria estranho que provavelmente se desse bastante importância se fosse descoberto um caixote cheio de pilas de pedra? De certeza que ia parar a um museu. Eu só fui uma vez a um museu. Não gosto de museus. E sinceramente acho que a maioria das pessoas que lá vão são uma cambada de pretenciosos. E para descrever uma peça usam três vezes o número total de adjectivos que conhecem. O que não é dizer grande coisa porque se formos a ver bem inventaram-se para aí quatro ou cinco adjectivos para cada definição. A sério, qual é a diferença entre bonito, lindo, giro e belo?! Ah, já agora, eu não escrevo segundo o acordo ortográfico. Só quando me começarem a bater. Há pessoas que só aprendem assim! A minha mãe conta-me que havia uma pessoa na escola dela que era canhota e a professora batia-lhe para a desabituar de escrever à esquerda. Eu acho interessante isso de escrever com a esquerda, mas faz- me confusão como

por

João Pedro Ferreira

conseguem escrever com a mão a passar por cima do texto recém escrito. Pessoalmente não aconselho canetas daquelas que deslizam bem porque se é para estar a passar com a mão por cima vai ficar tudo sujo. Eu até que gosto dessas canetas mas bolas, deitam tanta tinta! Às vezes as folhas de baixo ficam todas manchadas e se for um trabalho para apresentar temos de passar tudo a limpo. Uma vez, na primária, tive de passar o caderno todo a limpo. E porquê? Porque no fim de fazer os TPC achei que era engraçado fazer uma surpresa à professora e decidi meter uma joaninha a seguir à tabuada. Uma joaninha verdadeira. Assim o fiz e de seguida fechei o caderno e coloquei o dicionário por cima para espalmar bem o bicho.. No dia a seguir, e com o caderno já nas mãos da professora, descobri que o sangue das joaninhas não só era amarelo como colava as páginas melhor do que os tubos de cola batom que nós usávamos. E sobre os tubos de cola batom: se já tínhamos aqueles Safel qual era a utilidade desses de batom que não colavam nada? Quer dizer, se tiveres em tua casa um serviço de internet wireless, rápido e barato porque é que haverias de comprar um modem de 56k? Ok, até era engraçado os ruídos que ele fazia quando estava a marcar. Alguns de vós talvez já não saibam do que falo. Eu sabia imitar o meu. Agora já não me lembro. Também sabia falar francês quando era mais novo. Agora já não me lembro. Mas também não gosto. É tão irritante no verão quando os primos mais novos já nem português falam. E os que falam preferem falar francês.. O verão irrita-me um bocado. Só gosto por causa dos gelados. Cornettos preferencialmente! Ou Calippos.. Mas têm de ser mesmo Calippos, não gosto dos das outras marcas. E irrita-me quando chamam Calippos aos das outras marcas também! São coisas diferentes! É como chamarem esplanadas ou esplanada indoor àquelas salas envidraçadas que mais parecem marquises. É por isso que os 5 amigos se encontravam numa esplanada mesmo quando chovia. O café onde eles iam tinha uma dessas.

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R E S I S TA N C E


Resistance Magazine 10  

Physics and Tecnology Magazine

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