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sangue. Ela se mostra como prostituta e vampira. Tudo isso é reproduzido como imagem e por imagem. Essas são postas no mundo de modo reiterativo pela proliferação vinda da mídia e da Internet, que fazem o shopping vir até você ou mesmo criam para você a falsa ideia de que tem um shopping na sua mão, via celular. Assim, a mídia não faz nenhuma dominação intencional, de “maquinação” ou de “manipulação” (quando faz, isso é secundário nesse quadro), ela apenas funciona dentro da lógica impessoal da sociedade de mercado segundo o capitalismo (a contrapartida dessa impessoalidade, segundo Weber, é a criação de uma burocracia estatal para fazer política, e que eu digo que é também para dar continuidade ao mercado impessoal). Ela, a mídia, produz imagens, quase todas elas ligadas ao fetichismo em diversos níveis. Todo o aparato do entretenimento é regrado direta ou indiretamente por essa lógica. Seu próprio conteúdo se faz assim. A certa altura dos acontecimentos a mercadoria perde seus escrúpulos e começa a revelar seu segredo abertamente: ela coloca sua marca em cada jogador de futebol, na camisa dele, e com isso ela avisa a todos que já vinha fazendo isso há algum tempo com jornalistas e políticos – inclusive com jornalistas críticos e políticos de oposição. Quando você olha para você mesmo, vê que também este é o seu papel à medida que está fazendo parte de algum espetáculo. Ou produzindo-os no seu celular de modo mais volumoso que a chamada “grande mídia”, gerando o que é aproveitado pela grande mídia, pelo marketing e pelo jornalismo. Uma sociedade do espetáculo é uma sociedade que se diverte com o fetichismo e, então, em determinado momento, não pode fazer outra coisa senão curti-lo. Vicia-se na operação fetichista de ver o morto substituir o vivo. Vive o mundo em que um clips é um soldado, o mundo da brincadeira e da fantasia. Essa sociedade retorna fácil ao brinquedo e ao jogo. Infantiliza-se. Tudo deve ser do campo da ideia lúdica em que o pedaço de pau cria vida e se transforma num cavalo, depois, esse cavalo se transforma no Pepe Legal, o cavalo cowboy, ou seja, aquele cavalo que dispensa o cavaleiro e faz o filme sozinho. Nesse espaço infantil não cabe adultos. Só crianças. No entanto, o mundo continua contendo adultos. Assim, o mundo adulto vira um mundo de crianças. As crianças se tornam mais crianças (mesmo as que trabalham!) uma vez que os adultos se tornam crianças. Nesse mundo, os adultos se tornam amiguinhos dos filhos. Os professores viram “tias” e “tios” e depois coleguinhas, “facilitadores”. A aula vira jogo e brincadeira e a escola, desse

Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VI, nº 2, 2015

Revista Redescricoes, Ano VI, n.2  

Revista Redescrições é uma publicação quadrimestral do GT-Pragmatismo e Filosofia Americana da Anpof. O conteúdo dos artigos publicados tra...

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