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responsabilizam pelas relações, eis que se estabelece o fetichismo. São seres mortos que ganham vida. São objetos que se fazem sujeitos. E mais: se mostram assim, aos homens, como exercendo uma atividade natural, e não como social, como de fato é. Adquirem tal capacidade porque vão ao mercado não ostentando valor de uso, mas valor de troca – essa é a própria condição do mercado. Como isso foi possível? Ora, o valor é dado pelo aspecto exclusivamente quantitativo. Cada mercadoria pode ser trocada por outras por encontrar um equivalente universal que é o trabalho contido em cada uma. Trata-se do trabalho mensurado por meio da quantidade de tempo. Trata-se do trabalho abstrato que gera, então, o valor abstrato que é carregado por cada mercadoria. A operação ganha ainda um aspecto mais bem acabado, dando total autonomia às mercadorias, quando o próprio valor já nem precisa se referir ao trabalho medido quantitativamente, mas a uma abstração tornada palpável, o dinheiro. O dinheiro como equivalente universal dá vida completamente autônoma ao mercado, à mercadoria, e isso de uma vez por todas põe os produtores, os homens, como apenas coadjuvantes do processo todo, depois como simples coisas e, por fim, expectadores. Essa forma de organização da vida social, regida pela sociedade de mercado, se mostra como aquela que produz em larga escala e, ao dominar o mundo, oferece a todos a própria mercadoria em um ambiente chamado sociedade do consumo. A mercadoria reaparece como mais viva ainda, pois manda nas relações que antes eram humanas e passa, agora, também a induzir desejos de seus espectadores. Atua na própria psicologia de cada trabalhador já transformado em consumidor. Essa sociedade do consumo, para funcionar, não pode ser outra coisa senão uma sociedade de proliferação de imagens. Mas são imagens feitas para conquistar, para serem vistas e obedecidas. Nasce aí o espetáculo de modo específico e especial, como elemento da sociedade do espetáculo. Explico brevemente.

IV Dá-se o espetáculo. Nesse espetáculo cada homem não se vê como produtor de mercadoria, mas como admirador, ou seja, como consumidor. Sendo consumidor pode consumir a própria mercadoria ou, então, simplesmente sua imagem ou talvez apenas se embevecer. Pode entrar no mundo criado por ela. Esse mundo criado pela mercadoria é o mundo de seu espetáculo, da dança de suas marcas, e dos espetáculos adjacentes que envolvem shows esportivos, shows macabros de desastres, espetáculos de guerra e tudo

Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VI, nº 2, 2015

Revista Redescricoes, Ano VI, n.2  

Revista Redescrições é uma publicação quadrimestral do GT-Pragmatismo e Filosofia Americana da Anpof. O conteúdo dos artigos publicados tra...

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