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modo que lembra a “história de um erro” de Nietzsche, contida no Crepúsculo dos Ídolos. Vai-se da dicotomia entre imagem e cópia para a indistinção entre imagem e cópia até a indistinção entre quaisquer imagens.12 Mas, em certo sentido, também se pode tirar uma tese assim de leitores de Marx. Debord chegou à ideia de que vivemos em uma sociedade de espetáculos, onde ‘o que é bom aparece e o que aparece é bom’, e fez isso a partir do marxismo, especialmente das noções de alienação (separação) e de fetichismo. Ora, se lemos Debord sob o clima de Nietzsche, que é o clima de hoje, ou com o clima de Bataille, então sua história sobre a “sociedade do espetáculo” se torna uma narrativa boa a respeito do que estamos vivendo. Não vamos aqui chamá-la de “mais representativa do real”, o que nos faria acriticamente voltar passos, mas simplesmente podemos dizer: essa narrativa “nos pegou”.

III O que quero dizer com “nos pegou”? Ora, que é difícil não sentir algo do que vivemos se lemos em Debord isso: “toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação”.13 O que se quer dizer, aqui, com “uma representação”? Representação no sentido de uma especial re-apresentação; de apresentação que se faz de novo e de novo incessantemente. Algo que requisita, agora, não o chão vivido de modo exclusivo, particular, mas do chão vivido como palco, um palco que mostra a todos como é a vida, mas a partir de uma ótica que não é a do homem (portanto, não mais a modernidade vista como “a época das imagens de mundo”, de Heidegger no Holzwege), mas da nova ordem das coisas. Trata-se da ordem das “modernas condições de produção”. Nesse palco, como explicou Marx no célebre “O fetichismo da mercadoria: seu segredo” no livro I de O capital, a mercadoria se apresenta comandando relações que antes, na troca de produtos, eram relações entre homens. Explico resumidamente. Diferente de mercados pré-capitalistas, no mercado capitalista o produtor de soja não se encontra com o produtor de celulares, mas celulares e soja são trocados; Dona Soja se encontra com Senhor Celular. À medida que os produtores (humanos) deixam de se relacionar diretamente e são substituídos por coisas (mercadorias) que, então, se

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BATAILLE, G. Simulacros e simulações. Lisboa: Relógio D’água, 1991, p. 13. DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2015, p. 13.

Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VI, nº 2, 2015

Revista Redescricoes, Ano VI, n.2  

Revista Redescrições é uma publicação quadrimestral do GT-Pragmatismo e Filosofia Americana da Anpof. O conteúdo dos artigos publicados tra...

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