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passado esse contexto muito específico, a aventura típica do pensamento precisará ser revitalizada sob pena de burocratizarmos excessivamente a filosofia além do próprio sentimento de pesar consequente com o século XX. Nesse momento específico, nossa memória ainda deve se ocupar com o passado imediato em função daquilo que ele significa. Mas é natural que ela se distenda lentamente, permitindo-nos uma visão mais alongada da própria história humana e de modo a incluir nela eventos menos negativos e mais otimistas. Não creio que isso signifique propor uma reavaliação do nosso passado imediato. Antes disso, essa atitude indica a lógica interna da própria constituição de uma narrativa em função de eventos dolorosos. Em um primeiro momento a vivacidade do trauma se impõe e, com o passar dos anos, uma narrativa menos focada torna-se necessária, de tal forma que uma visão panorâmica permita uma compreensão histórica mais desengajada dos eventos. Enfim, uma perspectiva que seja feita a partir de certo distanciamento e que, ao mesmo tempo, promova esse distanciamento. Isso significa que o estilo do exercício da filosofia do século XXI está intimamente relacionado à forma como elaboramos o sofrimento histórico recente da humanidade. Sendo assim, podemos ter a esperança de que em um futuro próximo poderemos eliminar alguns limites que, de uma forma ou de outra, tem aproximado a filosofia mais do espírito de funcionário do que do espírito de Buzz Lightyear.

REFERÊNCIAS AREDNT, H. As origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. AZEVEDO, F. A cultura brasileira. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1963. BUARQUE DE HOLANDA, S. Visão do paraíso. São Paulo: Brasiliense e Publifolha, 2000. FAORO, R. Os donos do poder. Porto Alegre/São Paulo: Globo/EDUSP, 1975. FELINTO, E. & SANTAELLA, L. O explorador de abismos. São Paulo: Paulus, 2012. HUME, D. Tratado da natureza humana. São Paulo: UNESP e Imprensa Oficial do Estado, 2000. KANT, I. Crítica da razão pura. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1989. KATEB, G. The inner ocean. Ithaca: Cornell University, 1992. Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VI, nº 2, 2015

Revista Redescricoes, Ano VI, n.2  

Revista Redescrições é uma publicação quadrimestral do GT-Pragmatismo e Filosofia Americana da Anpof. O conteúdo dos artigos publicados tra...

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