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demais. A delimitação de áreas e a profissionalização são dois aspectos da mesma postura de restrição do pensamento a certa territorialidade. Não há melhor maneira de finalizar uma discussão da qual você não queira participar do que a conhecida afirmação de que “isso não é da minha área”. A conotação geográfica não é estranha, ela define o tipo de postura que tem se tornado prevalente na atividade filosófica: o pensamento deve se acomodar a alguma dimensão conhecida, identificável e restritiva. O ponto de vista que está sendo afirmado hoje, com a adoção de tal padrão de comportamento, é que devemos, sim, restringir nosso espírito de aventura. O pensamento filosófico deve ser efetuado dentro de limites e não pode se apresentar como uma viagem perigosa em direção a novos mundos e horizontes ainda desconhecidos. Aquilo que parece estar se tornando predominante nos últimos anos na filosofia não corresponde ao espírito afirmado pela figura de Buzz Lightyear. De certa forma, essa é uma tendência esperada que deveria impactar a filosofia mais cedo ou mais tarde. A divisão social do trabalho, típica dos processos produtivos inaugurados com a Revolução Industrial, não poderia preservar o exercício filosófico como se ele fosse uma dimensão sagrada da cultura. Como um processo social de produção de conhecimento seria estranho que ele preservasse sua autonomia em um mundo cada vez mais intensamente caracterizado por relações instrumentais. Tudo indica, seja em função da situação social, seja em função dos comportamentos de classe profissional que estamos adotando, que já fizemos uma opção por sacrificar o espírito de aventura em benefício da adoção de um ponto de vista interno, mais prudente, conformista e menos radical. Minha avaliação com relação a esse tipo de postura é que fomos levados a adotála justamente em função de um cálculo com relação ao que foram os resultados políticos negativos do século XX. Isto é, o Nazismo, o Fascismo e o Marxismo soviético marcaram profundamente nossa experiência histórica, de tal forma que nos parece impossível, nesse momento, abstrair os seus resultados perversos no desempenho da atividade filosófica. Assim, propor que nós desconsideremos os resultados dessas formas radicais de pensar e de agir, como se fossem meros acidentes de percurso, certamente seria entendido pela parte não filosófica da humanidade como um gesto de crueldade. Isso significa que nossa avaliação do espírito de aventura não pode ser feita de uma perspectiva histórica que avalie tudo o que a civilização ocidental produziu, desde

Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VI, nº 2, 2015

Revista Redescricoes, Ano VI, n.2  

Revista Redescrições é uma publicação quadrimestral do GT-Pragmatismo e Filosofia Americana da Anpof. O conteúdo dos artigos publicados tra...

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