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O que Sloterdijk mostra no volume I da trilogia das Esferas, agora traduzido para o português com o título Bolhas (Estação Liberdade, 95 reais), é também uma inovadora forma de conceituar a modernidade e a entrada em cena do liberalismo. Os tempos prémodernos são os que as civilizações, de certo modo, sabiam da biunidade e de como a placenta era um primeiro companheiro a ser perdido, que deveria ser substituído na esfera inicial. Substituído pelo som exterior, voz da mãe, depois outras presenças, e também transformado em daimon, anjo da guarda e coisa do tipo. Os tempos modernos são os do higienismo e do liberalismo. Nesse âmbito, a placenta se torna uma carne morta a ser jogada fora. O feto no útero é visto como individualizado. Ele até tem nome no útero. Vai nascer sozinho, ou visto assim, e tudo isso dará origem a um ser humano pronto para entrar num mundo criado pela ficção liberal. O mundo dos indivíduos típicos da teoria do jusnaturalismo. Sloterdijk põe sua originalidade de escritor e pesquisador para exibir as práticas de ressonância da esfera, em vários modelos, todas contribuintes de uma subjetividade que nunca foi a de um indivíduo no sentido da unidade isolada eu autossuficiente. Nesse sentido, recupera inúmeras práticas de bolhas sucessivas, de formação na base da ressonância. A primeira ressonância desfeita e que é necessário ser reposta imediatamente é a do momento em que o feto vai para um lado e parte de si e da mãe, a placenta, vai para o outro. Nas culturas antigas, sabe-se bem disso, e tudo é feito para que um substituto venha se colocar no lugar. Nesse caso, práticas antigas vistas pela antropologia confirmam o retrato do que se passa no âmbito psicológico: os egípcios usaram a placenta como bandeira (de onde vieram nossas bandeiras atuais), vários povos comeram placentas, outros plantaram placentas junto de árvores que passaram a acompanhar a vida da criança, vários faraós foram enterrados com as suas placentas servindo de travesseiro. O mundo pré-moderno deu um retrato “comunitarista”, digamos assim, para a formação chamada intimidade ou subjetividade. O mundo moderno, diferentemente, deu para tal um retrato individualista, o do “clube liberal”: somos socializados à medida que ganhamos uma carteirinha de sócio de práticas como o trabalho, a vida urbana ou a linguagem. Ou somos vistos na solidão e autossuficiência cartesiana, ou somos vistos como socializados em situação tardia, pela linguagem, como o modelo de Habermas e outros.

Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VII, nº 1, 2016

Revista Redescricoes ano VII, n2, 2016  
Revista Redescricoes ano VII, n2, 2016  
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