Issuu on Google+

1 PELO BRASIL DESCONHECIDO (3)

O BRASIL IGNORADO

De Matto Grosso ao Pará, de Cuyabá a Belém, explorando o Xingú desconhecido “A Tribuna” Rio de Janeiro-08/01/1914

O Sr. Octavio de Gusmão Fontoura falla-nos da sua missão, levada a cabo com êxito brilhante

A EXPEDIÇÃO AO RIO XINGU 1914 O Sr. Octavio Gusmão Fontoura, esforçado chefe da commissão expedicionária , fala a “O Diario”(RJ) Informações sobre a “exploração” de Savage Landor Acha-se nesta capital ha alguns dias, de volta da importante expedição que fez, atravessando o Xingu, de Cuyabá a Belém do Pará, commissionado pela Defeza da Borracha, para estudar o projecto de uma Estrada de penetração naquella zona, o Sr. Octavio de Gusmão Fontoura A 27 de agosto, descobri o rio Firmo, afluente do Ronuro, visitado em 1884 pela expedição de Von den Steinen, de que faziam parte o capitão do Exercito Francisco de Paula Castro e vinte e cinco praças. Constatei que o verdadeiro Xingú é o Ronuro e não o Kuluene, como o afirmou o Sr. Karl Von den Steinen. Partimos de Cuyabá levando viveres para seis mezes, abundantes munições, uma ubá, uma canoa de casca e três montarias. Uma vez em Belém, fomos informados de que o Sr. Firmo Dutra havia encarregado o engenheiro-chefe da fiscalização da Defesa da


2

borracha no Pará de dar todas as providencias para que, com a maior urgência possível, nos fossem enviados os soccorros de que , naturalmente, careciamos, para nos salvar e verificamos que s. ex., de facto, estava preparando uma turma de soccorro, para ir ao nosso encontro. "- Não, nem fiz a viagem com tal fito. Como funccionario do governo cumpri meu dever, e só desejo que meu serviço seja aproveitado para domínio publico, sendo que para o próprio povo do Pará, o Xingú é um rio quasi desconhecido. Ouvi Von denStein, hoje director do Museu Ethnographico de Berlim, chamal-o “enteado do Amazonas”. Eu o chamo um engeitado, pois de todos os rios da grande bacia amazônica, é elle o menos conhecido, embora tenha sido um dos primeiros por cuja foz entraram exploradores."

O BRASIL IGNORADO

De Matto Grosso ao Pará, de Cuyabá a Belém, explorando o Xingú desconhecido “A Tribuna” Rio de Janeiro-08/01/1914

O Sr. Octavio de Gusmão Fontoura falla-nos da sua missão, levada a cabo com êxito brilhante A chegada ao Rio do Sr.Octavio Gusmão Fontoura, que chefiou a commissão encarregada de esplorar o Xingú, partindo de Matto Grosso, com destino ao Pará, deu-nos ensejo de ouvir alguns detalhes interessantes a respeito dessa arriscada empreza, nunca tentada por compatriotas nossos. O Sr. Fontoura, mal lhe dissemos a que íamos, immediatamente se poz ao nosso dispor.


3

Pergunte o que interessar possa aos leitores do seu sympathico jornal. No Xingú -O padre Roque Hunderfundi em meados do século 17 subiu o Xingu até ponto ignorado. -Em 1695 os holandeses se estabeleceram no Xingú, do qual foram expulsos por Pedro Teixeira. -Andaram jesuítas no Xingú, morreram muitos assassinados pelo gentio. -O príncipe Adalberto da Prussia e os condes Oriolla e Bismarck subiram até piranhaquara no 40 parallelo. -Em 1872 o engenheiro Xavier da Silveira Pimentel até o 30 30’, commissionado pelo governo do Pará. -Karl Von den Steinen, Otto Clauss e Francisco de Paula Castro, desceram o Xingu em 1884 desde suas cabeceiras pelo rio Tamsbatoale. Foi a primeira viagem de resultados conhecidos, que se fez no Xingu inteiramente. - O mesmo Sr. Steinen em 1887 fez exploração pelo Colyseo e pelo Rubunne, cabeceiras do Xingú. -O coronel Silva Rondon chefiou uma desastrosa viagem para a nascente do rio Xingú em 1887. Houve porem vantagem para a geographia. -O coronel Paula Castro em 1898 chefiou igualmente uma expedição infeliz, a qual levava o fim de explorar um traçado para estrada de rodagem entre Belém e Cuyabá. -Hermann Meyer em 1896-1897-1898-1899, fez diversas excursões pela cabeceiras do rio Xingú. -Em 1806 uma expedição de americanos foi trucidada “in totum” pelos índios Chuiás.


4

-Em 1896 Henri Coudran, por encargo do dr. Lauro Sodré, então governador do Pará, subiu o Xingú até Pedra Secca, onde se acham hoje, os ultmos seringueiros do Pará. -Viriato Martins Jorge em 1894, saindo de Conceição do Araguaia, encontrou o rio Fresco e desceu por elle para o Xingú. -Fortunato Ludovico abriu uma estrada ligando Conceição ao rio Fresco. -No Xingú estiveram Baena e Ferreira Penna. -A Dra Emilia Snethlage em 1903(?) subiu o Xingú, depois o Iriri, depois o Curuá, entrou terra a dentro o Pananchim (?) e foi ao Tapajós. -Em 1910 Alfredo Olympio subiram o Itacirapé (?) e desceram o Liberdade para o Xingú. - José Clemente em 1910 fez abrir uma estrada de 40 legoas entre os rios Itacayuna, affluente do Araguaya e Pacajá, affluente do Xingu. -Falla-se numa expedição que foi exterminada pelos christãos do Pará, masmas não se precisa data nem procedência. -Tambem em Diamantina se referem a uma grande expedição que em época remota se dirigiu para a bacia do Xingú. De 300 pessoas se compunha a bandeira. Não há noticia do fim que levaram. A caça é farta? Muito farta em toda a região percorrida, e aconteceu-nos não poucas vezes atirar em logares povoados. Emquanto viajamos por terra, sabíamos estar em logares infestados pelos valentes e perigosos índios Cajabys. Não nos fizeram mal. Todavia, certa noite, espalharam minha tropa, fazendo-me perder dois dias de serviço


5

A EXPEDIÇÃO AO RIO XINGU 1914 O Sr. Octavio Gusmão Fontoura, esforçado chefe da commissão expedicionária , fala a “O Diario”(RJ) Informações sobre a “exploração” de Savage Landor Acha-se nesta capital ha alguns dias, de volta da importante expedição que fez, atravessando o Xingu, de Cuyabá a Belém do Pará, commissionado pela Defeza da Borracha, para estudar o projecto de uma Estrada de penetração naquella zona, o Sr. Octavio de Gusmão Fontoura. A excursão realizada pelo operoso e intrépido viajante, que é conhecedor profundo das regiões amazônicas, onde tem desempenhado commissões de grande importância, resalta como uma das mais notáveis que se têm feito no Brasil, ultimamente. As vantagens decorrentes do bom êxito da expedição Fontoura não precisam de encarecimento, por isso que todos os conhecedores do assumpto podem medir com precisão os resultados que ella pode trazer para os melhoramentos cogitados, no Extremo Norte, e para o reconhecimento de uma parte bem vasta do território nacional ignorada e esquecida. Fomos hontem procurar o Sr.Octavio Fontoura para pedir alguns esclarecimentos relativos á sua expedição e elle de bom grado se promptificou a nos conceder a entrevista que lhe pedíamos, falando não só da excursão como da celebre “exploração” Savage Landor, tão humoristicamente commentada pela nossa imprensa. - Que nos diz de sua viagem de Cuyabá pelo rio Xingú ? -Tenho a dizer que á grande extensão territorial de nosso Paiz corresponde um sertão hospitaleiro. Nem feras nem moléstias: sómente depois de encontrar os seringueiros do Pará nos appareceram doenças. Rijo como um vespertino, dias atraz: “os males andam ao lado da civilização....” - E os casos de enfermidades foram grandes ?


6

- Não. Apenas o Baixo Xingu é doentio. O alto é saudável. Os casos de impaludismo são benignos. Devido á má alimentação, o organismo do homem se depaupera ali, e então é frequente soffrerem de “entope”, espécie de atonia intestinal que ás vezes dura 60 dias. É espantoso como um organismo resiste a um estado tão extraordinário, mas o doente não soffre , pelo menos apparentemente, as conseqüências que seriam de prever. Nas cabeceiras do Xingú e regiões adjacentes, existe a corrupção de que já falei numa entrevista com a “Tribuna”; mais abaixo das cabeceiras há um estado que é a antithese do primeiro. Ali o homem evacua dormindo e sem sentir; aqui passa até 60 dias sem evacuar ! Entre os civilizados do Xingú tambem são muito comuns as doenças cancerosas. Quanto aos selvagens que encontrei, esses não sofrem de nenhum mal, salvo as mulheres que são sujeitas ás suspensões. - Então não acha que seja muito penoso emprehender uma exploração como a que levou a effeito ? - Absolutamente. Attribuo os insucessos á falta de capacidade de administração, e raramente a doenças, e estas em grande parte dependem daquella. Quanto aos perigos enormes, ás situações desesperadoras, etc., tudo são balelas, que servem apenas para realçar o valor dos trabalhos que fazem. Si prestasse atenção á s historias que a maior parte dos exploradores do Brasil nos contam, não teria tido occasião de servir proveitosamente á Nação - Que nos diz do explorador Savage Landor, que tão ingratamente procedeu para com o Brasil? - Não li nada do que se relaciona com esse senhor; elle foi porém injusto, accusando nossos sertanejos de traição, conforme me relatavam. Na nossa terra ninguém lhe dará crédito, mas o estrangeiro ignorante das nossas cousas, poderá pensar mal de nós. São os tais contos de “lobishomem” que contam os exploradores a quem já me referi...


7

O dr. Guilherme Von Linde em conversa comigo em Belém do Pará, disseme ter ouvido de um seringueiro do Tapajós o seguinte: “Viajava elle (seringueiro) em sua montaria, próximo da margem direita do rio, em certo ponto, quando ouviu grito que partiam do matto. Atracou a canoa e seguiu na direção dos gritos, encontrando então um homem deitado por terra, com as roupas em tiras, morrendo á fome. O homem era Savage Landor que pediu para serem socorridos seus companheiros a uma hora de distancia. No caso de ser esta historia do seringueiro ser verdadeira, o Sr. Landor faltou com a verdade, quando affirmou em Londres ter sido abandonado pelos seus companheiros de excursão. Por outro lado, é bem certo que o Sr. Savage Landor não atravessou o Xingu na região habitada, porque doutro modo teria tido occasião de tomar um bom café que não regateiam alli, nem um viajante dispensa. A região habitada pelos Jurunas, também não foi por elle atravessada, e, tanto neste como naquelle caso eu teria sido informado. Resta a hypothese de ter atravessado a região infestada dos Caiapós; mas, é certo ainda que sem uma comitiva numerosa, teria sido victima dos Caiapós que são implacáveis, embora recebam a civilização nas margens do Araguaya. Recapitulando, teremos: Ou Savage Landor não fez a travessia , ou se fez, foi com muita gente, e passou acima da foz do rio Petita, porém abaixo dos aldeamentos dos Jurunas. - E quanto ao caso da canôa do seringueiro ? - Não sei o que diga. O dr. Von Linde é um homem respeitável, porém, o seringueiro póde não ter sido verdadeiro, ou mesmo ter sido tudo preparado para produzir effeito... O que é facto, é que todos no Brasil, em que se fallando de Savage Landor, riem, mas, de um riso de incredulidade sobre sua exploração... - Trouxe artefactos de índios ?


8

- Fiz uma regular collecção que poderá vêr em minha casa. Comtudo, collecionar é fácil, mas, conduzir o collecionado dá algum trabalho. - Os selvagens que viu conhecem o “curaré” ? - Não senhor, em toda a bacia do Xingú, não há indígena que use barbatana, nem que envenene suas armas de caça ou de guerra, que aliás são as mesmas, quase, entre todos que encontrei. - E índios anthropophagos ? - Não os vi, embora os Jurunas com quem convivi, tenham fama de comer carne humana. É inexato, porém, e desconfio bem de que o espirito amendrontado de nossos avós contadores de historias de almas do outro mundo, foi o creador de anthropophagos no Brasil... É certo que quase todos cozinham a cabeça dos inimigos, porém, para retirar os dentes com que se adornam. Também alguns descarnam os ossos maiores do esqueleto humano embora em adiantado estado de putrefação para se servirem delles em artefactos. - Quanto tempo durou sua viagem ? - Durou sete mezes e doze dias, de Cuyaba a Belém; porém, hoje, com os conhecimentos que estou habilitado a fornecer, qualquer pessoa poderá fazer a mesma viajem em 75 dias. - Espera recompensa de seu trabalho por parte do governo ? - Não, nem fiz a viagem com tal fito. Como funccionario do governo cumpri meu dever, e só desejo que meu serviço seja aproveitado para domínio publico, sendo que para o próprio povo do Pará, o Xingú é um rio quasi desconhecido. Ouvi Von denStein, hoje director do Museu Ethnographico de Berlim, chamal-o “enteado do Amazonas”. Eu o chamo um engeitado, pois de todos os rios da grande bacia amazônica, é elle o menos conhecido, embora tenha sido um dos primeiros por cuja foz entraram exploradores. - Quando prossegue em sua viagem para Matto Grosso ?


9

- Logo que receba ordem do Sr. Ministro da Agricultura. Os índios que me acompanharam como trabalhadores, têm de voltar para suas “malocas”, e é daqui que elles seguirão de regresso á sua terra. Voltar pelo Xingú seria uma loucura, e recompensa terrivel para elles que me prestaram, de boa fé, serviço que os civilizados não tem capacidade para o prestar. São morigerados, respeitadores e nunca me deram motivos de desgosto. Deve notar-se ainda que , mais brasileiros que nós, ainda nos auxiliam, elles os espoliados, em excursões de natureza da que fiz, prestando relevantes serviços ao nosso paiz. O Imparcial Pelo Brasil Desconhecido (4)

Ante-hontem, tivemos occasião de entreter ligeira palestra com o chefe dessa commissão, o Sr. Fontoura, a propósito do modo por que s.s. se desobrigou de tão importante compromisso. Encontrámo-lo em sua residência, e s.s. teve a bondade de nos relatar minuciosamente todas as peripécias de sua arriscadissima viagem. Vamos resumi-las, para dar aos nossos leitores uma pallida idéa do valioso serviço que este esforçado auxiliar da Defesa da Borracha acaba de prestar ao nosso paiz. “Parti de Cuyabá, começou o Sr. Octavio Fontoura, em fins de abril do anno passado. Cortei as cabeças dos rios Arinos, Novo, Paranatinga e Ferro. Este ultimo foi descoberto em 1900 pelo explorador nacional Joaquim Ferro, e dista do Paranatinga cerca de dez léguas, em linha sinuosa. Percorri cento e vinte e cinco kilometros desse rio, apezar dos diversos obstáculos que, a todo o momento, se me apresentavam, cada qual mais dificil de debelar. A 27 de agosto, descobri o rio Firmo, afluente do Ronuro, visitado em 1884 pela expedição de Von den Steinen, de que faziam parte o capitão do Exercito Francisco de Paula Castro e vinte e cinco praças.


10

Constatei que o verdadeiro Xingú é o Ronuro e não o Kuluene, como o afirmou o Sr. Karl Von den Steinen. Entrando pelo Xingú, o rio mais encaichoeirado da bacia do amazonas, consegui chegar a Belém, a 26 de novembro, quando o governo já nos considerava completamente perdidos. Desde que deixamos o Ronuro, ninguém mais poude saber do nosso paradeiro; e resistimos a todos os perigos e imprevistos que nos assaltaram porque nos achávamos convenientemente preparados para realizar o nosso objetivo. Partimos de Cuyabá levando viveres para seis mezes, abundantes munições, uma ubá, uma canoa de casca e três montarias. Uma vez em Belém, fomos informados de que o Sr. Firmo Dutra havia encarregado o engenheiro-chefe da fiscalização da Defesa da borracha no Pará de dar todas as providencias para que, com a maior urgência possível, nos fossem enviados os soccorros de que , naturalmente, careciamos, para nos salvar e verificamos que s. ex., de facto, estava preparando uma turma de soccorro, para ir ao nosso encontro. Agora estou trabalhando no relatório que pretendo apresentar, por intermédio do Sr. Firmo Dutra, ao Sr. Ministro da Agricultura. Nesse relatório, apresentarei observações demographicas e “croquis” das cachoeira mais importantes assignalando ao mesmo tempo, os roteiros que devem ser seguidos na navegação fluvial de toda região que percorremos. Esta travessia de Cuyabá a Belém, antes do Sr. Octavio Fontoura, só foi feita em 1884, pelo Sr.von den Steinen, que atravessou o rio Paranatinga, em busca das nascentes do Xingú, e, temendo desaguar no Tapajós, caminhou para oeste, baixando pelo Famitatuale, que denominou Batovi em homenagem ao barão de Batovi, que lhe tinha prestado grandes auxílios na organização da commissão. Dahi continuou até a confluencia do Ronuro e desceu o Xingu.


11

Sobre essa viagem, o Sr Octavio Fontoura fará brevemente , na Sociedade de Geographia, uma conferencia com projeções luminosas.

Pelo Brasil Desconhecido (p.5-6)

O BRASIL IGNORADO

De Matto Grosso ao Pará, de Cuyabá a Belém, explorando o Xingú desconhecido “A Tribuna” Rio de Janeiro-08/01/1914

O Sr. Octavio de Gusmão Fontoura falla-nos da sua missão, levada a cabo com êxito brilhante A chegada ao Rio do Sr.Octavio Gusmão Fontoura, que chefiou a commissão encarregada de esplorar o Xingú, partindo de Matto Grosso, com destino ao Pará, deu-nos ensejo de ouvir alguns detalhes interessantes a respeito dessa arriscada empreza, nunca tentada por compatriotas nossos. O Sr. Fontoura, mal lhe dissemos a que íamos, immediatamente se poz ao nosso dispor. Pergunte o que interessar possa aos leitores do seu sympathico jornal. -Como correu a viagem? Oh ! nas melhores condições. -Partiram de...? Cuyabá, e até ás margens do rio Ferro todo o trabalho foi feito em cerrados, cerradões e campos, raramente em mattas. Carregavamos mantimentos em costas de burros e de bois. Não se admirem de bois serem cargueiros; nos logares alagadiços, é o transporte ideal e, para longas viagens, apresentam vantagens até para montadas. Comem de tudo, e quando fracos, podem ser comidos. A carne de boi


12

magro cançado pode ser muito ruim, mas nos sertões, onde não se encontra uma lista variada de acepipes, um filé de pescoço sabe bem, com sobremesa de casca de “pão doce”. Todavia, declaro que soffri fome somente em explorações parciaes, quando deixava a turma e com um ou dous companheiros me afastava um, dous ou três dias para reconhecimentos. -E as moléstias? Não appareceram para o pessoal e pode affirmar que o Estado de Matto Grosso é o mais saudável do Brasil. Na região seringueira de Nordeste, onde os Srs. Almeida & C., Orlando Irmãos, Alex Addor e outros têm seus grandes seringaes, não se vêem males locaes. Os seringueiros, quando vão para o trabalho, têm aspecto doentio. Quando, porém, voltam para suas casas, levam o ar de quem tem o corpo e a alma em perfeita saúde. Alguns ainda carregam o peso das dívidas, mas é próprio do seringueiro dever... -E o bócio ? Vê-se muito no povo do norte de Matto Grosso, como em Minas, Goyaz, etc. É o mal de Chagas. Alguns attribuem o papo á degenerescência, e, si, por um lado, é certo que o sangue da população alli é o mesmo de seus antepassados paulistas, por outro fico em duvida, porque vi um portuguez papudo com anno de residência na dita região. As nossas gentis patrícias que fazem avenida pela Rio Branco, seriam por lá muito admiradas como pessoas defeituosas. Quem não é papudo tem “pescoço de garrafa”. Diz-se também que o “barbeiro” é o perverso autor do bócio, que ainda é atribuído a águas de buritysaes. Não me conta que na Suissa haja buritysaes e, no entanto, existem cantões de população papuda. -Como curam o bócio por lá ? Um dos modos de cura, pelos que preferem ter o “pescoço de garrafa”, é fazendo massagens com gosma de caramujos! Sei de muitas pessoas que ficaram radicalmente curadas.


13

-Mas há por lá outras moléstias graves.... Das doenças perigosas que existem em Matto Grosso, cita-se com terror a corrupção. É o “El Bicho” dos bolivianos, o “maculo da medicina”. Começa a pessoa atacada por sentir-se mal, com um somno invencível, e morre dormindo. O sphyncter do anus se dilata e o doente evacua sem sentir. Si é molestia mortal, é também muito fácil de curar, e a cura sempre é feita com suppositorios de uma massa de cáusticos. Mistura-se pimenta, sabão, “prompro allivio”etc. e se aplica a “pirula”. Convem com tudo declarar que, durante toda a minha estadia na zona perigosa, nunca vi um só caso de corrupção, o que prova que não é commum, como se afirma. -A caça é farta? Muito farta em toda a região percorrida, e aconteceu-nos não poucas vezes atirar em logares povoados. Emquanto viajamos por terra, sabíamos estar em logares infestados pelos valentes e perigosos índios Cajabys. Não nos fizeram mal. Todavia, certa noite, espalharam minha tropa, fazendo-me perder dois dias de serviço. -Quanto aos civilisados ? A população civilisada de Matto Grosso tem o apanágio da hospitalidade, e, em vendo uma turma de gente que se dirija aos seu sertões desconhecidos, si olham com olhos de comiseração por taes loucos, não negam, de accordo com suas forças, todo o seu apoio material de que necessitem. -Quando começaram a navegar? Já na tarde de 31 de julho, feitas as canoas, comecei a navegar pelo rio Ferro, tendo perdido de vista havia dias a gente civilisada. Apareceram, então, os naufrágios, as perseguições de insectos, os ruins dias, emfim. Si era certo que eu previa tal vida, todavia foi-me bem desagradável soffrela. Mas ninguém pensou em lastimar-se, nem se arrependeu de ter começado a viagem. Animais não os havia ferozes, e as onças fugiam de


14

nós a sete pés. Era preciso correl-as a cães. Para quem não o saiba, declaro aqui que a carne da onça pintada é bem saborosa. -Deixando o Rio Ferro.... No fim de um mez, cheguei a um novo rio, o Firmo. Começou, então, a vida divertida, sempre esperando encontro com selvagens, caçando onças, comendo muito peixe, matando patos, etc. Já havia perdido o material photographico, o que mais lastimei. -Encontrou novas tribus ? No Xingú, a muitos kilometros da barra do Kuluene, avistei um aldeamento de índios n’uma praia. Eram os jurunas, últimos representantes da tribu. Foram reduzidos pelos christões do Pará e por doenças havidas dos mesmos. Escorraçados, fugiram rio acima e estão muito longe do ultimo ponto habitado pelos seringueiros do Pará. Não me queriam deixar passar. Foi preciso avançar até a ubá do chefe, cujo pessoal, armado, esperava ordem de atacar. Eu ia acompanhado de um dos meus índios, tendo deixado o resto da turma para traz, afim de infundir confiança ao gentil. Por fim, ficamos amigos, convivemos durante dias e á despedida deixei-os chorando. Ao amaveis, e grandes auxílios me prestaram com informações e na passagem de duas grandes cachoeiras, a da “Maria” e a do “Pita”. Tive occasião de estudar-lhes a lingua e os costumes. Têm fama de anthropophagos, o que é falso. Digo-lhe mais, se há selvicola interessante é o juruna, trabalhador, hospitaleiro, affavel. Dei-lhes de meus gêneros alimentícios, sal, armas, etc. Não cabiam em si de contentamento, e no dia 18 de setembro, quando me despedi delles, passamos o resto do dia com tristeza, porque já nos fazia falta o seu convívio. Depois de muitos dias de viagem, encontramos os primeiros entes civilisados. Houve lagrimas de alegria de ambas as parte. -Seringueiros, não ?


15

Seringueiros, sim, que estiveram a ponto de atirar-nos, porque donde vínhamos, nunca viera ninguem, além dos índios caiapós, dos quais têm sofrido ataques. -Em que sitio estavam então ? Em Porto Alegre, á barra do rio Petita, o ultimo ponto occupado por seringueiros do Pará, já muito dentro do Estado de Matto Grosso, segundo presumo. Continuei a viagem CE cachoeira em cachoeira até Altamira, uma linda e prospera Villa de 600 almas, população que triplica nos mezes de janeiro a março. É o ponto de partida pelas estradas que ligam o alto ao baixo Xingú. -E o Xingú ? Por este rio é difficillimo transitar e somente a alma afoita do nosso sertanejo faz com se classifique o Xingú como um rio “navegável”. Há, porém, duas cachoeira que no verão são insuperáveis para canoas maiores que 1.000 kilos, as duas primeira que já citei. De qualquer modo, o transporte de Matto grosso para o Pará é muito dispendioso, sendo preferível, comtudo, fazel-o pelo Arinos, Tapajós, etc... do que pelo Xingú. -O ideal seria procurar-se um traçado entre o Tapajós e o Xingú, pelo divisor das águas. -Seria viável o projecto? Viavel e de fácil execução o estudo. Não se precisa de estrada de ferro nem estrada para automoveis. Um simples caminho para tropa, por onde o Estado de Matto Grosso possa fazer a venda de seu gado abundante para o Pará, e teremos resolvida uma das magnas dificuldades de vida neste ultimo Estado. Boi em Matto Grosso não tem valor, e no Pará, de muito menor peso, vale 180$000. Redundaria isso em grande beneficio para ambos os Estados. Para mim constituiria uma ventura ser encarregado de fazer a exploração e não sei que haja expedição mais importante que a que chefiei de Cuyabá a Belém com oito homens apenas. Não necessitaria de


16

mais gente e, com economia, estou certo de que resolveria um dos problemas difíceis a que se propunha a Defesa da Borracha. Não levaria menos de três annos na viagem, mesmo porque necessitava traçar um caminho com pouso de aguada, logares de engorda, etc. Lancem os senhores a idéa, certo de que, acceita, será mais um passo para a benemerência, alvo de todo o verdadeiro patriota. -Trouxe ao Rio alguns selvicolas, não é verdade? Sim ,vieram commigo cinco índios bacahirys, das cabeceiras do Xingú e que nos prestaram relevantes serviços. Visitando o Dr. Simoens da Silva obtive do mesmo permissão para leval-os á sua residência, sede do seu museu ethnographico, afim de ficar resolvido, com certeza, a classe a que pertencem ethnographicamente. Faremos todo o possível para reunir domingo próximo, ás 14 horas, os ethographos residentes nesta capital, com o fim de, por uma commissão scientifica ser resolvido o caso. Foram lembrados os seguintes nomes: Srs. Capistrano de Abreu, José Geraldo Bezerra, Baptista Lacerda, Roquette Pinto, Rodrigues Peixoto, Sylvio Romero, João Coelho Gomes ribeiro e Thaumathurgo de Azevedo.

Pelo Brasil Desconhecido (6-7) De Cuyabá a Belem Cartas Cariocas A T......10/02/1914 É sempre grato ao nosso coração sentir a sympathia que desperta a intrepidez e ao nosso orgulho de brasileiro satisfaz o arrojo dos nossos homens, que além do cumprimento dos deveres inherentes aos cargos que ocupam, levam o seu amor ao trabalho pela grandeza nacional, aos limites do heroísmo.


17

Dando á publicidade hoje esta carta que deveria ser ilustrada com o retrato de um jovem de renome, eu sinto e confesso a fraqueza de minha critica para chegar a egualar-se em maravilha á narrativa de seus feitos na temeroza empreza que tomou aos hombros em prol do conhecimento do giganteo território brasileiro. Não fora esse movimento ascendente para o futuro que vitalisa a nossa pátria, não houvesse denodo para emprezas de tanta relevancia, e permaneceriamos pouco mais adiantados que em 1500, quando calcaram o solo brasileiro os filhos intrépidos do velho Portugal A geographia do Brasil enriquece de quando em vez com os dados preciosos que lhe são fornecidos pela capacidade norteada por um critério seguro e incombativel, as nossas forças naturaes revelam-se, e os segredos do desconhecido desapparecem deante da verdade insophismavel. Se hontem a historia natural nenhuma contribuição recebia dessa regiões onde dibram as tribus aborígenes, senhoras despóticas dos thezouros em terras úberes, em florestas maravilhosas em fauna admirável e variadissima; a phantasia pairava sobranceira a todas as verdades que o conhecimento atual da zona afastou para o domínio da poesia e la para o interior ingognito das muralhas do celeste império; as hypotheses mais absurdas corriam parelhas com os contos mysteriosos do Oriente, na phase de luz que ora atravessamos aos clarões do século dos requintes, quanto se afaste do rigorosamente positivo, da sciencia, é intolerável. -Já se não póde admitir em Matto Grosso a existência dos tatús brancos, nem as lendas das Minas dos Martyrios; nos mattagaes umbrosos os fantasmas não passeiam as suas formas vaporosas, nem os exércitos indígenas evoluem, com seus appetites monstruosos de anthropophagos insaciáveis. -Goyaz, amazonas, Matto Grosso, Acre e outros desertos brasileiros, foram invadidos pela civilisação coetânea, levada ao extremo dos seus limites pelos apóstolos da sciencia e pelos que obedecem ás leis nacionaes, realisando a missão grandiosa e protetora de levar a civilisação


18

e o progresso aos pontos mais remotos, approximando todos os habitante e proporcionando-lhes o bem estar a que attingiram pelo saber e pelo trabalho as populações mais cultas. É nessa obra meritoria que estão empenhados os patriotas, que o meu presado amigo vem de operar verdadeiros prodigipos de resolução e de coragem. Elle abandona os centros cultos e suas commodidades, deixa a família distante e penetra no seio da Amazonia, cheio de sorprezas e perigos. Realisa importantes estudos não só hydrographicos, como no domínio da historia natural elle estuda a botânica na flora riquíssima daquella natureza opulenta, a zoologia, na fauna admirável do immenso Valle, subsidiando ainda com os melhores dados a anthropologia. Os herbários, a colleção de objectos de uso dos Bacahirys como armas, adornos e meios de transporte, tudo é admirável e fala alto não só da competência, mas ainda da sua coragem, da sua Constancia, do seu cuidado sorprehendente. Já não exigia poucos encômios a viagem realizada como simples Sport; mas como a emprehendeu Octavio Fontoura, o heroe destes últimos tempos, sem pessoal, sem munições, verdadeira expedição humanitária através do desconhecido, prenhe de ameaças e reaes perigos, não encontramos adjetivação capaz de desvanecel-o e compensal-o dos sete e meio mezes de luctas na travessia de Matto Grosso, Xingú abaixo até o Pará. Nem sei como, tendo no peito um coração que abriga um sentimento de exagerado affecto pela própria vida, se aventura um homem, sem grandes precauções , pelos caminhos do ignoto.

Cartas Cariocas Conclusão 11/02/1914 (8)


19

DE CUYABA A BELEM

Em 1884 Karl Von den Steinen e Otto Clauss, emprehenderam uma viagem de exploração pelo Rio Xingú, na qual tomou parte o general Francisco de Paula Castro, então capitão do exercito, sob cujo comando seguiam 25 praças e um indígena. Henri Coudran chegou, em suas explorações pelo septentrião do Brasil, até Pedra Secca, hoje ponto avançado da gente culta, que a intrepidez levou até a temeridade de penetrar a densidade das florestas gigantescas dessa região prodigiosa. Além desses, seguidos sempre de regular concurso e auxiliados fortemente pela União, outros tentaram abrir passagem de Matto Grosso até o Pará pelo Rio Xingú, recuando, deante dos óbices que se lhes afiguravam insuperaveis pela Chapada, para Goyaz, onde chegaram horrorisados de empresa tão arriscada, tendo explorado apenas as cabeceiras do famoso curso. Nenhuma dessas expedições offerece resultados práticos, havendo memória sómente de inauditos sacrifícios, de fracassos tenebrosos. O Xingu continuou a ser o que era, a travessia um problema difficil. A expedição chefiada por Octavio Fontoura foi organizada pelo chefe do distrito de fiscalisação da exteinta Superintendencia da Defesa da Borracha, Dr. Firmo Ribeiro Dutra e partiu de Cuyaba a 14 de Abril de 1913. Durante sete e meio mezes a expedição percorreu todo o curso do afluente do Amazonas, tendo dado nome a dous rios desconhecidos, que é hoje o Rio Ferro, descoberta dum proprietário no Rio Novo, Sr. Joaquim Ferro. Descendo durante um mez esse rio, penetraram em outro que denominaram Firmo, em homenagem ao Dr. Dutra, sulcando-o num percurso de 70 e muitos kilometros, nos termos


20

dos quaes desembocaram no Rio Formoso ou Romero, que é, segundo asserções de Hermann Meyer e do próprio Octavio, o verdadeiro Xingú. Numa extensão de perto de 27 kilms. corre sem obstáculos o Romero, que tem como affluente da direita o Batovi e o Kuluene, importante curso dagua, seguindo dahi para a foz do Xingu, enriquecido e avolumado por outros tributários de valor. Fundindo-se o Romero com o Kuluene, dá-se como se percebe, a origem do Xingú, francamente accessivel até a primeira cachoeira, onde estão condensados os índios Jurunas, no seu ultimo acampamento. Aparece ahi a primeira queda, chamada cachoeira da Maria, a maior das conhecidas dos exploradores que lograram ascender aos extremos limites dessa zona. Entretanto, nenhum dos saltos menciona a hydrographia do Brasil. As obras de Henry Coudran e Steinen em nada auxiliam o conhecimento da régio que percorreram. Escriptas para a Europa, não se divulgam entre os nossos as preciosas observações que deveriam ter feito. Dest’arte ninguém conhece pelas indicações por elles dadas, as regiões a que se referem. Neste particular o trabalho de Gusmão Fontoura vem prencher uma sensível lacuna. Tendo descido o Rio Ferro em embarcação por elles improvisada, luctaram com toda sorte de obstáculos naturaes nessas viagens; troncos arrastados pela corrente, cipós entrelaçados de margem a margem, cachoeiras e corredeiras, ao ponto de gastarem-se , exhaurirem-se no penoso trabalho de desobstruccão do rio para conseguirem em 12,20 horas, 500 metros de navegação livre. O desanimo não combalia esses ânimos. As barreiras não impediam que avançassem os trabalhos da civilização, que penetrava o seio da Amazônia pra levar aos centros cultos a sciencia da vasta região que estudaram.


21

A turma de estudos da estrada de penetração para a zona do nordeste, composta apenas de quatro homens civilisados e cinco índios Bacahirys (!), realizou trabalhos admiráveis, levantou croquis das cachoeiras do Xingú, estando com fidelidade e precisão descriptos todos os detalhes da expedição em relatório conciso, elaborado pelo jovem e intrépido patrício que vem de dar o mais eloquente testemunho do seu patriotismo e da sua coragem sem precedentes na história das conquistas nacionaes. De facto conquistamos toda ETA região que elle percorreu, região toda infestada pela tribus nômades e astutas dos Caiapós e pelos Juremas, dignos, segundo Fontoura, da protecção dos poderes públicos. Abaixo das cachoeiras numa média de 6 dias de viagem para a embocadura, encontram-se as primeira habitações de gente dos Estados do Norte, occupada na extracção do látex e no arroteamento das terras destinada a cultura de mandioca, do feijão, et... lavoura que permite offerecer resitencia á crise que leva á fome habitantes imprevidentes de outros rios do Pará e Amazonas. As dificuldades de meios de communicação no systema fluvial da Amazonia cream situações afflictivas. Os que se consagram á extração e preparo da seringa estão sujeitos a toda sorte de vicissitudes. Longe de todo soccorro das gentes cultas, vivem no regimen das leis da astucia e da força, defendendo até o crime os seus interesses contra as investidas dos civilisados e os arremessos hervados dos selvicolas. De modo que o trabalho de Octavio Fontoura vem acompanhar a evolução por que passa o Brasil. Nem se podia dispensar seu concurso nesta época, quando as leis da solidariedade humana requintam o sentimento de fraternidade. A 6 de novembro do anno passado chegavam os expedicionários a Belém, depois deste percurso memorável atravez das umbrosas florestas naturaes, com um cabedal de trabalhos que assombra.


22

Não se limitou á sua missão de reconhecimento e estudo da estrada de penetração: Octavio Fontoura organisou um trabalho digno de encômios com relação á agricultura, indicou caminhos a serem aproveitados desde já, vantagens desconhecidas que contribuirão para mlhorar as condições e o alaamento das relações entre os que vão, longe da civilisação, procurar desenvolver a riqueza da Amazonia, contribuindo para a importância financeira do Paiz. Em summa, o Rio Xingú, um dos poderosos affluentes do Rio-Mar, o portentoso Amazonas, é o que está em melhores condições. A abundancia de hevea e castilloa justifica a opinião corrente de que é o Xingú a sua pátria. Infelizmente a dedicação pela extracção do caucho prejudica os mercados de borracha seringa, a melhor e a que mais lucros offerece nos mercados estrangeiros. Nos terrenos altos a hevea ostenta o esplendor de sua força produtiva e a riqueza de húmus das terras que ensombram, podendo-se avaliar a densidade em 50 pés por hectare. Abaixo do Rio Fresco só se cuida de seringa, mas de modo a anniquillar em pouco os mais ricos seringaes. É o método que falta, é o progresso que alli não chega. Entretanto, basta orientar, facilitar as communicações, despejar na Amazônia um pouco do tonico da civilisação hodierna, e terão resolvido o problema magno da hedemonia do Brasil na America. Graças a Olavo Fontoura, a travessia hoje é de 2 mezes emeio, partindo-se de Cuyabá para Belem. Octavio Fontoura bem merece uma homenagem. Prestemol-a sinceramente.

CONFERENCIAS


23

O Imparcial Rio de Janeiro 15/02/1914 (8)

O Sr. Octavio de Gusmão Fontoura fez hontem, á noite, nosalão da Sociedade de Gegoraphica, a sua annunciada conferencia sobre a viagem de exploração que realizou de Cuyabá a Belem, pelo Rio Xingú. O orador, depois de agradecer o comparecimento dos que o ouviam, fez uma minuciosa relação das expedições anteriores que tem sido feitas no rio Paranatinga ou São Manoel, desde a que foi tentada pelo príncipe Adalberto da Prussia, em 1849, e pelo sábio Von den Steinen, em 1884 e 1887. Em seguida passou a descrever sua viagem , sahindo de Cuyabá com oito homens, apenas, e conseguindo chegar a Belém pelo Rio Xingú, tendo explorado os rios Ferro, Firmo, Romero e Xingú. Durante o trajecto tirou grande numero de interessante photographias, muitas das quais foram aproveitadas para as projecções luminosas que ilustravam a conferencia. Na região habitada pelos Jurunas, explorou duas cachoeiras, dando ‘aprimeira o nome de “Cachoeira de Maria” e á segunda maior e mais bella, o nome de “Cachoeira Barão Homem de Mello”, em homenagem ao venerando presidente da Sociedade de Geographia. Referiu-se o autor, com elogiosas referencia, aos índios Jurunas, aos Bacahirys (presentes á conferencia) e aos habitantes das margens do Xingu. O Sr. Octavio Fontoura expoz durante a conferencia, muitos objectos de uso dos índios, armas, peças de trabalho, ornamentos, etc. Essa interessantíssima colecção foi por elle offerecida á sociedade de Geographia. Ao terminar sua conferencia foi o Sr. Octavio Fontoura vivamento applaudido e muito felicitado pela pessoas presentes.


24

OS ESTUDOS INTERESSANTES

A Classificação ethnologica dos índios “bacahurys” O Diario 12/12/1914 (9)

O ilustre ethnographo patrício, Sr. Dr. Simões da Silva, convidou ha dias vários intellectuaes do nosso meio que se dedicam aos estudos ethnologicos, para uma reunião em sua residência, onde estudariam a classificação de cinco índios “bacahurys” companheiros do dr. Octavio Fontoura na notável expedição que realizou no Xingú, de que se vem ultimamente occupando com vivo e justo interesse quase todos os órgãos de nossa imprensa. A commissão recebida é composta dos srs. General Thaumaturgo de Azevedo e drs. Simoens da Silva, José Rodrigues Peixoto, Capistrano de Abreu, João Coelho, Gomes Ribeiro, Roquette Pinto, Baptista Lacerda, Sylvio Romero, José Geraldo Ribeiro e Octavio Gusmão Fontoura. A classificação dos 5 indios “bacahurys” trazidos do Xingú pelo Sr. Octavio Fontoura, é um estudo scientifico de palpitante interesse para quantos se dedicam ás cousas da sciencia entre nós. Na residência do dr. Simoens da Silva, onde se acha instalado seu esplendido museu ethnographico, reuniram-se hontem os srs. General Thaumaturgo de Azevedo, dr. Simoens da Silva, dr. José Rodrigues Peixoto, deixando de comparecer os srs. Capistrano de Abreu, João Coelho Gomes Ribeiro, Roquette Pinto, Baptista Lacerda, Sylvio Romero e Geraldo José Ribeiro. Devido ao não comparecimento da maioria dos membros da commissão convidada para a interessante e sugestiva classificação, que é de iniciativa do dr. Simoens da Silva, os presentes tomaram os apontamento necessarios para o estudo e aguardam as investigações anthopometricas, a que vão ser submetidos os índios, esta semana, no Laboratorio de Anthropologia do Museu Nacional, a cardo do dr. Roquette Pinto, que nesse sentido já se entendem pessoalmente com o dr. Simoens


25

da silva. Só depois de feito o exame anthropometrico é que a commissào resolverá, com os seus estudos a classificação ethnographica dos cinco índios “bacahurys”. Esses índios que são uma variedade da grande família tupy, tão disseminada pelo paiz, falam, entretanto, um dialecto que se afasta em absoluto dos vários dialectos conhecidos actualmente. O meritório ethnologo allemão Carl Von den Stein, que em uma expedição scientifica tornada celebre, estudou os indígenas brasileiros , dá como carahyba o tronco dos bacahurys. São fortes, musculosos, como grande parte dos nossos aborígenes, como o leitor pode ver pelos nossos clichês, e possuem intelligencia viva e desnvolvida, assimilando o portuguez com muita facilidade. O Sr Octavio Fontoura, o esforçado chefe da vultuosa expedição pelo Xingú, fala enthusiasticamente desses indígenas que em todas as provações e perigos de uma viagem tão ríspida, através regiões ínvias do Brasil desconhecido, deram sempre as maiores provas de resignação tenaz e prodigiosa coragem.

GUSMÃO FONTOURA, NA SOCIEDADE DE GEOGRAPHIA O Diario 15/2/1914(10)

-Realizou-se hontem a annunciada conferência do dr. Octavio de Gusmão Fontoura sobre a sua expedição ao rio Xingú. Numa de nossas edições anteriores, nos referimos áquella expediáão feita pelo nosso intrépido viajante patrício. Ella é uma das mais vultuosas e admiráveis que se tem feito ultimamente e coroada do mais brilhente êxito que foi alcançado mercê de muito esforço e tenacidade. Commissionado pela Defesa da Borracha, para estudar os meios práticos de construção de uma estrada de ferro de penetração pelos sertões amazônicos, o Sr. Octavio de Gusmão Fontoura, lutando com obstaculos de toda ordem, que são fáceis de avaliar numa excursão da natureza da que levou a effeito, conseguiu realizar a travessia a que se


26

havia proposto numa viagem de sete mezes, acompanhado apenas de alguns auxiliares indígenas da raça dos bacahurys, que lhe prestaram concurso inestimável. Daquella expedição muito pôde auferir o paiz de resultados, e sobretudo os nossos os nossos estudiosos que se dedicam ás questões geographicas e a nossa choreografia ainda tão incompleta e deficiente. A conferencia de hontem foi notável. O sr. Octavio de Gusmão Fontoura foi abundante em informações minuciosas e elucidativas, discorrendo com dados precisos e categóricos vários aspectos e condições da região amazônica. Descrevendo seu itinerário, o conferencista referiu-se aos rios Estivado, Preto, Arinos, Novo Verde, Beija Flor, Paranatinga e, por fim,ao rio Ferro onde construiu canoas, descendo aos trambolhões, as cachoeiras que nele existem. Apezar das difficuldades com que se houve, declarou não ter soffrido privações.a uma das cachoeiras que encontrou, a 2a do rio Xingu, denominou cachoeira Homem de Mello, em homenagem ao ilustre presidente da Sociedade Geographica. Em 25 projecções luminosas, o conferencista exibiu muitos artefactos de índios que conduziu para o Rio, e que são interessantíssimos. Numa dessa projecções luminosas vê-se a grande bagagem que transportou, bagagem pesadíssima, composta de machinismos, munições, utensílios diversos. Antes, já o conferencista fizera um resumo histórico de todas as explorações feitas no rio Paranatinga e Xingú por scientistas e simples aventureiros, estrangeiros e nacionaes. O Sr. Octavio Fontoura falou por espaço de duas horas, sendo ao terminar a sua conferencia, muito applaudido. A assistência era numerosa, estando presente a turma de índios que o acompanhou na expedição.


27

A propósito da expedição do rio Xingú, damos aqui uma lista das explorações que se fizeram naquelle rio e no Paranatinga, depois de sua descoberta. No Paranatinga -Expedição João de Souza Azevedo em 1746. -Em 1819, Antonio Peixoto de Azevedo percorreu-o da cabeceira á barra. -O forriel Joaquim Ferreira Ubandio, na mesma época o percorreu. -O capitão Telles Pisco e o d. Oscar Miranda em 1889 desceram por elle, morrendo o capitão Telles, e de 30 pessoas , apenasa 6 se salvaram, isto é, foram salvos pelo capitão Souza Fago, a polícia do Amazonas. -Em 1900 Joaquim de Oliveira Ferro e o fallecido Manoel Velho, baixaram pelo Paranatinga até perto da barra do rio Verde -O Sr. Jorge Bodotin em 1905 fez exploração de pouca monta pela região entre os rios Verde e Paranatinga. -O Sr.João Worbs, fez uma exploração arrojada e cheia de peripecias. Foi em 1905 que o dito allemaão fez a sua viagem pelo Paranatinga, isto é, pelo divisor das águas entre o Arinos e Paranatinga. No Xingú -O padre Roque Hunderfundi em meados do século 17 subiu o Xingu até ponto ignorado. -Em 1695 os holandeses se estabeleceram no Xingú, do qual foram expulsos por Pedro Teixeira. -Andaram jesuítas no Xingú, morreram muitos assassinados pelo gentio. -O príncipe Adalberto da Prussia e os condes Oriolla e Bismarck subiram até piranhaquara no 40 parallelo.


28

-Em 1872 o engenheiro Xavier da Silveira Pimentel até o 30 30’, commissionado pelo governo do Pará. -Karl Von den Steinen, Otto Clauss e Francisco de Paula Castro, desceram o Xingu em 1884 desde suas cabeceiras pelo rio Tamsbatoale. Foi a primeira viagem de resultados conhecidos, que se fez no Xingu inteiramente. - O mesmo Sr. Steinen em 1887 fez exploração pelo Colyseo e pelo Rubunne, cabeceiras do Xingú. -O coronel Silva Rondon chefiou uma desastrosa viagem para a nascente do rio Xingú em 1887. Houve porem vantagem para a geographia. -O coronel Paula Castro em 1898 chefiou igualmente uma expedição infeliz, a qual levava o fim de explorar um traçado para estrada de rodagem entre Belém e Cuyabá. -Hermann Meyer em 1896-1897-1898-1899, fez diversas excursões pela cabeceiras do rio Xingú. -Em 1806 uma expedição de americanos foi trucidada “in totum” pelos índios Chuiás. -Em 1896 Henri Coudran, por encargo do dr. Lauro Sodré, então governador do Pará, subiu o Xingú até Pedra Secca, onde se acham hoje, os ultmos seringueiros do Pará. -Viriato Martins Jorge em 1894, saindo de Conceição do Araguaia, encontrou o rio Fresco e desceu por elle para o Xingú. -Fortunato Ludovico abriu uma estrada ligando Conceição ao rio Fresco. -No Xingú estiveram Baena e Ferreira Penna. -A Dra Emilia Snethlage em 1903(?) subiu o Xingú, depois o Iriri, depois o Curuá, entrou terra a dentro o Pananchim (?) e foi ao Tapajós. -Em 1910 Alfredo Olympio subiram o Itacirapé (?) e desceram o Liberdade para o Xingú.


29

- José Clemente em 1910 fez abrir uma estrada de 40 legoas entre os rios Itacayuna, affluente do Araguaya e Pacajá, affluente do Xingu. -Falla-se numa expedição que foi exterminada pelos christãos do Pará, masmas não se precisa data nem procedência. -Tambem em Diamantina se referem a uma grande expedição que em época remota se dirigiu para a bacia do Xingú. De 300 pessoas se compunha a bandeira. Não há noticia do fim que levaram.


Pelo brasil desconhecido