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SOB O GELO Cristão x Ateu RODOPIO O shopping-center

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BeLuga JUNHO » JULHO 2007 - ANO 1 - Nº 0

CAINDO EM SI

quando o amor, o mundo virtual e os vícios são realidades mais palpáveis


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Não Não sei se é um truque banal Se um invisível cordão Sustenta a vida real Cordas de uma orquestra Sombras de um artista Palcos de um planeta E as dançarinas no grande final Chove tanta flor Que, sem refletir Um ardoroso expectador Vira colibri Qual Não sei se é nova ilusão Se após o salto mortal Existe outra encarnação Membros de um elenco Malas de um destino Partes de uma orquestra Duas meninas no imenso vagão Negro refletor Flores de organdi E o grito do homem voador Ao cair em si Não sei se é vida real Um invisível cordão Após o salto mortal


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Arte sobre letra da mĂşsica O circo MĂ­stico, de Chico Buarque e Edu Lobo

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BeLuga Esta edição da Beluga faz parte do Projeto Experimental de conclusão do Curso de Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal de Minas Gerais, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Trabalho concluído em junho de 2007, sob orientação do professor Bruno Souza Leal.

CONCEPÇÃO, APURAÇÃO, REDAÇÃO, EDIÇÃO Cristina Castro poetamorta@yahoo.com.br Frederico Bottrel fredbottrel@gmail.com Glaucimara Josélia glaucimara@gmail.com Natália Martino natymartino@gmail.com

FOTOGRAFIA

André Rosseti Cristina Castro Glaucimara Josélia Natália Martino Pedro Kirilos

ILUSTRAÇÕES

Frederico Bottrel

PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO

Frederico Bottrel Glaucimara Josélia

ORIENTAÇÃO

Bruno Souza Leal

AGRADECIMENTOS

Ana Clara Pereira, Ana Lúcia Andrade, Cláudio Beato, Rafael Sabri, aos nossos amigos, famílias e fontes.

CAPA: Arte de Frederico Bottrel e Glaucimara Josélia

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Melão, a cabeça da beluga

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SALVE A BELUGA Nasceu a Beluga! Foi um parto difícil, como há de se esperar de uma baleia que já nasce com 20 toneladas e 48 páginas. Tentaram lhe tirar o caviar, mas ela saltou, assobiou e sobreviveu. Com um grande sorriso na cabeça em forma de melão, mostrando seus 34 dentes, a Beluga passeou sobre e sob as águas do ártico até chegar no tórrido inverno de um país tropical. Veio para conhecer a realidade desse mundo tão distante do seu. Aliás, realidades, com plural mais do que bem-vindo. Na pequena vila de Belo Horizonte, a Beluga descobriu que existem mais verdades do que o gelado cotidiano permite ver. A correspondência é quase nula entre a realidade de um apaixonado casal e a de um viciado em trabalho. Aqueles que passam suas tardes de sábado em uma fria lan house também não apresentam larga semelhança com o sujeito que bebe vodca e defende o crack nas mesmas ensolaradas tardes. Esses quatro mundos foram visitados pela Beluga, que usou e abusou dos seus sentidos mais desenvolvidos, a visão e a audição, para conhecer o que se passa neles. Nas páginas deste primeiro número, aqueles personagens desconhecidos tiveram espaço para falar um pouco da sua realidade. Mas a Beluga foi generosa mesmo com Brunel e Léo. Cada um deles teve quatro páginas para falar, falar, falar e cair em contradição. A Beluga se deliciou conhecendo os mundos opostos da religião e do ateísmo. A curiosa baleia quis saber dos extra-terrestres e ainda foi conhecer a "religião da floresta". Ela rodopiou entre escadas rolantes e lojas de doces no templo do consumo, enfim! Depois de tudo, ainda teve o deleite com as fascinantes descrições de diferentes mundos nos versos de renomados poetas – e com a falta de grid proposta pelos diagramadores nesses momentos. Foi assim que nasceu a Beluga, a mais sociável de todas as espécies de baleias. Esperamos que o trópico a receba bem!

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Já não vejo as coisas como são:

vejo-as como eles querem que as veja.

Arte sobre foto de bacno de imagens e trecho da ode Aos óculos, de José Paulo Paes

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Na lan house

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Foto: Cristina Castro

Repórter entra e sai do Second Lif e e conversa com gente de verdade que encarna personagens de mentira, via mouse e teclado.

Foto: Natália Martino

Um baseado despr etensioso, um comprimido milagr oso, toda a sorte (e azar) de dr ogas e uma r epórter aberta a novas experiências.

Índice

Na Praça do Papa e adjascências

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Ilustração: frederico Bottrel

No cinema A fila é longa. O refri é light. O amor é lindo. O repórter está de mau-humor. » Página 30

Foto: André Rosseti

No escritório Dias úteis na vida de quem vive o trabalho - e só. E a repórter (se) pergunta: workaholic? » Página 43

Assobio ....................................... 10 Sob o gelo .................................. 21 34 dentes .................................. 34 Rodopio ...................................... 36 Salto ............................................ 46


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Teu boletim metereológico me diz aqui e agora se chove ou se faz sol. Para que ir lá fora? A comida suculenta que pões à minha frente como-a toda com os olhos. Aposentei os dentes. Nos dramalhões que encenas há tamanho poder de vida que eu próprio nem me canso em viver. Guerra, sexo, esporte - me dás tudo, tudo. Vou pregar minha porta: já não preciso do mundo.


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Arte sobre trecho da ode À televisão, de José Paulo Paes

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“COMECE PELO COMEÇO”

Ilustrações: Frederico Bottrel

Assobio

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Por mais criativa que fosse, Alice, uma inglesinha nascida em 1852, jamais imaginaria que as histórias contadas pelo “tio” Carroll, nos passeios de barco pela bucólica Oxford, a levariam tão longe. Cada qual com uma visão mais ou menos psicodélica do Mundo das Maravilhas, ainda hoje, as aventuras de Alice seduzem crianças e adultos. Alice no País das Maravilhas e Alice através do espelho encantam mais pelo mundo criado por Lewis Carroll do que pela figura da garota. Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dogson, aproveita a experiência como professor para atrair Alice para seus jogos e trocadilhos matemáticos. O nonsense e o absurdo de algumas de suas idéias tornam tudo possível. O País das Maravilhas subverte a relação lógica do real a que estamos convencionalmente submetidos, sem, contudo, deixar de mostrar-se “coerente”. Ele não é apenas resultado da imaginação, mas também uma realidade ao quadrado. Os dois livros também antecipam, em relação às dimensões de tempo e espaço, o incrível horizonte da ciência contemporânea e da filosofia. É possíveis discutir o enigma da identidade pessoal, a relação corpo/mente e disputas sobre linguagem (o problema do sentido das palavras, que aparece na discussão de Alice com a Duquesa, é central na lingüística), apenas para citar alguns exemplos. Por essas e outras razões, não é difícil acreditar que diversos cientistas utilizem o mais refinado nonsense de Carroll para exemplificar suas teorias. Alice no País do Quantum, de Robert Gilmore, é um dos vários livros científicos que utilizam o mundo descoberto pela inglesinha para explicar idéias acadêmicas.


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XÔ, TENTAÇÃO

O caminho é curto, mas o trânsito é complicado no centro de Belo Horizonte. Para passar o tempo, rádio: “e vai rolar o adultério...”, enquanto na outra estação: “fazer amor de madrugada”. Trânsito parado e o pedestre atravessa tranqüilo com ar de ‘deus do sexo’, como anunciava sua camisa. Um pouco a frente, o bem torneado abdômen de um homem sem rosto na propaganda da Ellus. Concentrando os pensamentos no trânsito, Carla consegue, finalmente, chegar ao Salão Paroquial da Igreja São José faltando cinco minutos para a reunião das 19h. Ela se acomoda em uma das cadeiras em frente à placa: “Quem você vê aqui e o que você ouve aqui, deixe que fique aqui”. Reunião iniciada, Carla tem sete minutos para contar as atividades sexuais diárias que a levaram a se afastar da família e perder o emprego. Outros presentes também relatam suas experiências com sexo excessivo ou necessidade exagerada de afeto. Marcelo, ao lado de Carla, incentiva a todos com seu exemplo de superação – ele, que já procurou indigentes para satisfazer suas necessidades físicas, consegue, afinal, manter o controle sobre os seus desejos. Em meio a exaltações ao sexo vindas de toda parte, há quem mereça palmas por lutar contra o que virou, para eles, um vício. E para os que ainda não são viciados, atenção: pode acontecer com qualquer um! Se acontecer, a reunião dos “Dependentes de Amor e Sexo Anônimos” (DASA) acontece todas as segundas-feiras na Igreja São José.

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REALIDADE EM SHOW Um tubo causa várias explosões de elétrons em um vidro. Imagens em movimento iluminam a tela da televisão. O processo, para desentendidos de eletroeletrônica, é até meio mágico. Talvez por isso, muito do que se produza para a TV é assumidamente ficcional. Para evitar problemas judiciais, avisos sobem junto aos créditos: “Essa é uma obra de ficção, qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência”. Tudo muito bom, tudo muito bem, até a invenção dos reality shows. Para evitar problemas judiciais, os “atores” desses programas assinam termos de compromisso abrindo mão de suas privacidades e se transformando em celebridades instantâneas. Embora tenha ancestrais no rádio e na televisão, o primeiro reality show, como os de hoje foi An American Familiy, de 1973. Divórcio dos pais e um filho gay garantiram a audiência. De lá pra cá, sobreviventes em ilhas desertas, sobreviventes em mansões de luxo, sobreviventes de cirurgiões plásticos, aspirantes a passarelas, aspirantes a palcos, aspirantes a noivas e inventores de aspiradores de pó travam batalhas na frente das câmeras. No fim das contas, até espontaneidade é difícil de se achar. Tudo é editado, os “personagens” sabem que estão sob o foco impiedoso de câmeras e jornalistas de fofoca. E no caso específico do Brasil, a coisa é normalmente estruturada como se fosse uma telenovela – afinal de contas, se a fórmula mágica vende, em time que se está ganhando pode até se mexer – mas não muito...

A ARTE DO CAVALO DOIDO Em tempos de Ctrl+C, Ctrl+V, é fácil fazer um poema dadá. A diferença é que hoje podemos protestar contra a irracionalidade da invasão do Iraque, contra a irracionalidade do homem diante do derretimento das calotas polares, contra a irracionalidade de quem escuta funk carioca no talo. Em 1916, quando foi criado por um grupo de jovens que se escondiam na Suíça da convocação para o serviço militar, o Dadaísmo protestava contra a irracionalidade da Primeira Guerra Mundial. Aqueles artistas subversivos defendiam o caos, o absurdo, o acaso – talvez para escancarar aos olhos de todos os bípedes “pensantes” que o mundo já estava afogado nesses três substantivos. Até a escolha de um nome para o movimento surgiu ao acaso, numa busca rápida por um dicionário bilíngüe que esbarrou com o vocábulo francês dada (“cavalinho de pau”). Cavalgando até o começo dos anos 20, aqueles jovens não aboliram o tradicional das artes, mas influenciaram a realidade de vários movimentos artísticos, como o Surrealismo de Magritte e Salvador Dalí, a Pop Art de Andy Warhol e o Expressionismo Abstrato de Pollock.

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PORQUE RESOLVI ME MATAR » Por Airam Writer e/ou Cristina Castro

No Second Life e em Lan Houses, repórter dá um start no mundo dos bits até se render ao game over.

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Foto: Cristina Castro

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Refletido no Ray-Ban de Camilos Barzane, vislumbrei meu rosto negro. Olhei para meus braços e pernas e percebi que eram brancos. Estranho! Era o segundo dia de Camilos naquele lugar e ele parecia tão perdido quanto eu. Mais tarde, outras três pessoas apareceram e a pergunta que não calava era: “O que temos pra fazer neste mundo?”. Subitamente, descobri que posso voar. Fiz acrobacias que arrancaram risadas daquele grupo de pessoas insólitas, mas acabei perdendo o controle: subi alturas incalculáveis, observando as formiguinhas abaixo de mim, num mundo de tons pastéis e azuis, de uma serenidade fora do normal. Quando cansei, despenquei em alto-mar e nadei velozmente até uma ilha estranha à minha frente. Vi uma enorme casa de vidro e algumas pessoas dirigindo carros modernos. Essas, provavelmente mais experientes, já negociavam em Linden Dollars, a moeda local, e podiam fazer tudo o que, do lado de fora, seria impossível ou proibido.


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Foto: Cristina Castro

Naquele momento, eu era uma das 33.774 pessoas online e uma das mais de cinco milhões registradas no Second Life. Num jogo sem objetivos aparentes, minha missão, na pele da recém-criada personagem Airam Writer, era descobrir o que aquela vida virtual tinha a oferecer de mais interessante do que minha vida “real”. Se é que existe uma única vida real, pois, como afirma o publicitário Pedro Cardoso Coutinho, “vivemos várias realidades e o universo online é só mais uma delas”. Durante o mestrado na UFMG, o publicitário de 25 anos reviveu sua adolescência com o jogo Achae – seu favorito – e também percebeu que existem vários domínios de interação: “Você não é a mesma pessoa em cada um deles. Você não é o mesmo em casa e no trabalho, por exemplo. O ambiente em que você lida com os outros influi na maneira como você se porta”. Em jogos como o Achae, o Second Life e o The Syms, a realidade virtual é muito próxima da que vivenciamos no mundo off line. Os avatares, personagens que criamos para nos representar na tela, também têm que trabalhar, se relacionar e construir projetos. Para Pedro Coutinho, a grande diferença é a facilidade que as pessoas têm de moldar a própria vida quando estão num universo virtual: “É uma questão de controle. Quem procura esse espaço tem dificuldades para lidar com o jeito que a própria vida está. Lá, a pessoa tem mais liberdade para definir como quer que suas relações apareçam”. Para Welber Clayton, de 22 anos, quem procura a segunda vida quer tentar fazer o que não pode na vida “real”. Ele dá o exemplo de uma amiga que gosta de jogar o The Syms para fazer sua personagem roubar: “Como não pode fazer isso na vida ‘real’, ela faz com que seus bonequinhos tenham o emprego de batedor de carteira!”. Essa possibilidade atrai pessoas de várias idades. A professora de 34 anos, Maria de Fátima Vilela, por exemplo, jogava The Syms no mínimo três horas por dia. “Ela constrói essa história pra ver se vira real”, acredita seu filho Lucas Vilela, de 14 anos.

Uma droga contra o tédio Conheci o Lucas na Viking Lan House, no Sagrada Família, região Leste de Belo Horizonte. No fim da rua Pitangui, a loja, que dividia o número com uma locadora de vídeos e uma Igreja Batista, estava com todos os 15 computadores ocupados em pleno sábado de verão. Do outro lado da rua, vários homens sem camisa tomavam cerveja num boteco e olhavam curiosos para o movimento naquela loja de porta escura, que escondia telas iluminadas. Em vez de gastarem a tarde de sábado com cerveja, esportes ou cinema, aqueles jovens de quinze a vinte e poucos anos preferiam outra droga. “Esqueço da minha realidade. Gosto porque me distrai, eu fico entretido no jogo. Me sinto como o personagem que está lá dentro e, às vezes, até mais poderoso”, descreve Lucas. Ele joga todo santo dia, no mínimo quatro horas. Isso não é nada se comparado à rotina de seu amigo Anderson Tadeu, um jovem magro de 22 anos. Ele conta que joga normalmente treze horas por dia e, no restante do tempo, assiste a desenhos japoneses que baixa da internet. “O que mais você faz?”, pergunto. “Durmo, no máximo três horas e meia”, ele garante. Quando perguntei se era viciado em jogos, Anderson desmentiu várias vezes, mesmo com a zombaria dos colegas. Encabulado, assumiu o hábito desde os seis anos de idade. Os jogos de histórias fantásticas e cheias de magia do RPG são os preferidos de veteranos do videogame, como Anderson. Atualmente, seu jogo favorito é o Final Fantasy e um dos personagens de que ele mais gosta, Vicent Valentine, merece uma descrição entusiasmada do amigo Welber Clayton: “É um personagem intrigante. Parece que ele tinha morrido antes. Aí um cara fez uma experiência e o reviveu como vampiro, que fica relembrando as coisas do passado, da esposa... é empolgante!”. As lembranças de Anderson giram em torno do mundo dos jogos, mais que de sua vida cotidiana. Ele passa mais da metade do dia na pele do vampiro: “Alguns jogos que têm histórias fenomenais e é como se você fosse o personagem. O mundo dos jogos é muito mais emocionante que o mundo real”. A afirmação parece um consenso entre os três amigos. “No mundo real você tem que sair, procurar emprego... Sem internet e videogame, o jovem não se diverte. Ele precisa desse tipo de droga pra ser mais feliz”, explica Lucas.


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Para chegar a esse estágio do vício, primeiro é preciso passar pelo tédio. É nisso que acredita Welber: “Tem garoto que não tem nada pra fazer, fica entre a escola e a casa, e acaba pedindo um videogame pros pais, para passar o tempo. Mas tem os que não conseguem controlar e acabam viciando. Videogame sempre foi uma espécie de droga”. Quando criança, Welber jogava Sonic como passatempo. Hoje, é funcionário da Viking Lan House. Entre um atendimento e outro, faz uma pausa para jogar Warcraft com os amigos que fez no lugar. Duas equipes de cinco jogadores, conectados a uma mesma rede, que, embora estejam a poucos passos uns dos outros, preferem digitar a conversa no bate-papo do jogo ao invés de falar em voz alta. O cotidiano de Welber é trabalhar na lan house e encontrar os amigos que adoram jogar para fugir de seus cotidianos entediantes.

funeral dentro do jogo: “Todos se logaram na mesma hora. 300 personagens, no mesmo espaço de tela, ajoelhados em frente ao cemitério virtual”, relembra o publicitário. Minha experiência no mundo virtual, ao contrário da dos jovens da Viking Lan House, foi entediante. Não tive tanto tempo, talvez interesse, para fazer tantos amigos no Second Life, e acredito que dificilmente outros avatares compareceriam ao meu enterro virtual. Mas como nesse mundo já é possível programar até mesmo a hora da morte, comunico que nos próximos dias cometerei suicídio.

caviar

Funeral virtual Perda de tempo? Embora tenha passado grande parte da vida jogando, Pedro Coutinho pensa hoje nos jogos com um olhar acadêmico: “A gente parte de uma visão muito pragmática de que tudo o que não é produtivo seria tempo jogado fora, em que você não estaria sendo você mesmo. Eu acho que mesmo os momentos não-produtivos são importantes para o crescimento e para a vivência simbólica que nos tornam mais inseridos na sociedade”. Apesar de haver laços de amizade nos ambientes das lan houses, eles também podem ser construídos no mundo dos jogos. Coutinho conta que, em julho do ano passado, morreu o líder de uma guilda, grupo de amigos do jogo Warcraft com até 300 componentes. “Morreu na ‘vida real’ mesmo!”, frisa. A notícia sensibilizou os participantes da guilda, que se mobilizaram para fazer um

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HOMO LUDENS Johan Huizinga Editora Perspectiva 234 páginas

Por meio do jogo a sociedade exprime sua interpretação da vida e do mundo. Essa idéia é defendida pelo historiador holandês Johan Huizinga nesse clássico livro lançado em 1938. Nas 236 páginas, o autor examina o papel dos jogos na ciência, na guerra, no direito, na poesia, na filosofia e na arte. E a conclusão a que chega talvez tenha mudado o pensar filosófico da primeira metade do século 20: a cultura surge sob a forma de um jogo. Daí porque é possível pensar na espécie humana como a espécie dos Homo ludens, em vez de Homo sapiens.

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Arte sobre trecho da prosa Os loucos, de José Paulo Paes

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Havia o Elétrico, um homenzinho atarracado de cabeça pontuda que dormia à noite no vão das portas mas de dia rondava sem descanso as ruas da cidade. Quando topava com um poste de iluminação, punha-se a dar voltas em torno dele. Ao fim de certo número de voltas, rompia o círculo e seguia seu caminho em linha reta até o poste seguinte. Nós, crianças, não tínhamos dúvida de que se devia aos círculos mágicos do Elétrico a circunstância de jamais faltar luz em Taguaritinga e de os seus postes, por altos que fossem, nunca terem desabado.


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Fotos: Natália Martino

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DO DEPRAX AO PÓ Repórter conhece a maconha da hippie na praça, os anti-depressivos da advogada no escritório e o quase tudo do metaleiro no bar. » Por Natália Martino Os cabelos negros presos no alto da cabeça e as roupas pretas, acompanhadas do cinto prateado, compunham a aparência metaleira de Rafael naquela tarde. Prestativo, o jovem estudante de Belas Artes cedeu algumas horas do seu sábado à jornalista. Na noite de quinta-feira, foi a vez da mesma jornalista tomar algumas horas da estudante de psicologia Marcela. Suas roupas muito coloridas, no melhor estilo indiano, contrastavam com a negritude das vestimentas de Rafael, embora ambos fossem típicos jovens da classe média. Sandra, de cima do seu salto, destoava de Rafael e Marcela pela impecável combinação de branco e vermelho em suas roupas. Os cabelos de um preto muito vivo e o sorriso fácil conferiam a ela uma aparência jovial e a profissão de advogada lhe permitia uma segurança convincente nas opiniões apresentadas. As três conversas partiram da mesma pergunta: Você usa drogas? Entre comprimidos contra a depressão e cocaína, todos se mostraram – ou se descobriram – usuários de drogas, aqui consideradas como substâncias psicoativas, com efeitos diretos no cérebro. Os motivos e as histórias de cada um, entretanto, caminham por trilhas diferentes.

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"Ácidos, álcool, cocaína, crack e outras coisas que não vêm à minha cabeça agora", é o que Rafael, sentado na mesa de um bar degustando um copo de vodca, fala com firmeza sobre suas experiências com substâncias psicoativas. Marcela está na Praça do Papa fumando com tranqüilidade um fino – cigarro de maconha – quando é abordada pela jornalista que pergunta sem discrição se ela usa outras drogas além daquela. Depois do susto: "Não, só cerveja mesmo. Nem cigarro eu gosto". Sandra, no escritório no Barro Preto, é segura ao negar: "Não uso, nunca usei drogas. No máximo uma cervejinha de vez em quando". Pouco tempo de conversa, uma pequena discussão sobre o que seria droga e Sandra muda a resposta: "Na verdade, posso dizer que já tive experiências com drogas, sim. Remédios, anti-depressivos. A vida não é fácil...". Diante do difícil dia-a-dia, ela lançou mão de Deprax, pequenos comprimidos amarelos que atuam na recaptação de serotonina, vendidos por pouco mais de R$70 a cartela com 10 unidades – só com receita. A estratégia de Marcela é diferente: "Nada melhor do que um baseado ou uma cervejinha pra relaxar. Ninguém é de ferro, né?". Quando perguntada sobre a ilegalidade do tal baseado, ela afirma que uma planta que durante milhares de anos foi utilizada para fins medicinais e até religiosos não pode ser tão ruim quanto dizem por aí: "Até os gregos – racionais, civilizados, filósofos – usavam maconha". Rafael faz coro a Marcela – é incisivo, ecológico e contra a proibição: "Já imaginou se conseguem realmente acabar com toda a plantação de maconha do mundo? É o fim de uma espécie vegetal!". Sandra, absolutamente contra a legalização, troca os argumentos pela indignação diante dos relatos da jornalista sobre as experiências de Rafael: "Famílias e carreiras já foram destruídas pelo uso das drogas que esse rapaz usa". O rapaz de 25 anos, porém, vive só o presente: "Só pessoas muito próximas, como o meu pai, vêm falar alguma coisa sobre parar de usar drogas para garantir meu futuro. Aí eu escuto, respeito, mas, sinceramente, não é uma preocupação minha". Quanto à carreira, ele diz que as drogas, inclusive, o ajudam em suas atividades de pintor e es-

critor: "A inteligência se amplia, ganha outra dimensão, o cérebro fica desobstruído". Marcela também vê o mundo de outra forma quando usa drogas: "Ouvir uma música ou observar uma cena podem ser experiências incríveis". Mas Sandra contra-argumenta: "Trata-se de um mundo ilusório que se esvai e você acaba sempre voltando para a realidade". Rafael parecia já estar acostumado com essa visão e, dias antes, afirmara o contrário: "Eu posso te garantir que tudo que eu vivi foi muito real, mas se as pessoas consideram realidade esse mundo de mesmice, então eu desprezo a realidade". Realidade ou não, esse novo mundo é vetado por lei sob a alegação de que os benefícios que tais substâncias trariam não superam seus malefícios. Marcela posiciona-se: "Você já ouviu falar de alguém que, sob o efeito da maconha, brigou ou machucou outra pessoa? Eu duvido! Em compensação, quem consome álcool briga, mata e se envolve em acidente de trânsito”. Marcela não cita o tabaco, mas os malefícios dessa substância, também legalizada, são, de acordo com pes-


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quisas, ainda piores que os da maconha. A droga ilegal tem um potencial viciante menor e, uma vez viciado, é mais fácil largá-la. Um estudo do órgão consultivo sobre drogas do Reino Unido indica uma recuperação de 97% dos viciados em maconha, enquanto menos de 40% dos tabagistas conseguem se afastar da substância. O sistema legal que veta certas substâncias e permite o consumo de outras embasa o discurso pró-legalização de Marcela e Rafael, mas Sandra continua abominando a idéia: "O fato de algumas substâncias ruins serem legais deve servir de desculpa para liberarem as outras? Isso não faz sentido. O melhor seria proibir o que está fazendo mal." E a cervejinha do fim de semana? Ela não hesita: abriria mão. Os anti-depressivos, defendidos por Sandra, também têm, entretanto, suas contrapartidas: podem levar à intoxicação, aumento da freqüência cardíaca ou tremores nas mãos e, em alguns casos, são fatais. Seria justo privar certos doentes de alguns benefícios da maconha, por exemplo, em razão das suas contra-indicações? "Se fossem provados os benefícios poderia ser legalizado para curar doenças, mas só para isso - com receita médica e doses controladas. Para diversão, é uma irresponsabilidade, já que não há o benefício da cura, mas há todas as contraindicações", opina Sandra. Para Marcela, cada um deve ser responsável pelos seus limites. Até Rafael co-

nhece os dele: "Quando morei em Barcelona, cheguei a pegar em uma seringa de heroína, mas achei melhor não. O pessoal dividia a mesma agulha. Para mim não dava. Foi o meu limite aquele dia". A amplitude desses limites, entretanto, continua indignando Sandra: "Gostaria de perguntar para ele porque usar essas drogas". Enquanto Rafael explicava isso à jornalista, imagens que diziam respeito à grandeza das suas sensações não paravam de sair dos lábios e olhos do rapaz: "Elas me levam ao limite, me mostram uma realidade única. É uma experiência de beleza inalcançável de outra forma. É incrível”. Tudo lindo, mas e o vício? Quanto a isso, Rafael diz que não há nada na substância em si que seja determinante para que o usuário se torne um viciado: "Depende das condições psicológicas do sujeito. Fico dias e até semanas sem consumir (drogas), isso significa que não sou viciado em nenhuma delas". Rafael, Marcela e Sandra vivem na mesma cidade e são todos parte de uma mesma classe média: um mundo e três realidades que evitam conviver, têm argumentos na ponta da língua e contradições na ponta do discurso. E o fato: coexistem, a despeito das diferenças.

caviar www.erowid.org Reprodução

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O site está disponível apenas em inglês, mas é uma excelente fonte de pesquisa sobre drogas. A missão da página, na palavra dos criadores é promover o acesso a informações confiáveis e livres de julgamentos sobre plantas e químicos psicoativos e assuntos afins. Também é possível encontrar artigos científicos e médicos ao lado de relatos de usuários de uma infinidade de diferentes substâncias. História das drogas, estatísticas mundiais e belas imagens também estão lá.

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monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia Ser teu pĂŁo, ser tua comida monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia Todo amor que houver nessa vida tonia monotonia monotonia monotonia monotonia E algum veneno antimonotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia E algum veneno antimonotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia E algum veneno antimonotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia E algum veneno antimonotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia E algum veneno antimonotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia E algum veneno antimonotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia E algum veneno antimonotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia E algum veneno antimonotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia E algum veneno antimonotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia E algum veneno antimonotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia E algum veneno antimonotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia E algum veneno antimonotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia E algum veneno antimonotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia E algum veneno antimonotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia E algum remĂŠdio que me dĂŞ alegria monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia Arte sobre trecho da mĂşsica Todo amor que houver nessa vida, de Cazuza e Frejat

monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia monotonia

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"SOU UM CARA AUSENTE DE DEUS"

A mãe dele tem uma “religião híbrida”, que combina, entre outras coisas, o catolicismo e o candomblé. O pai é indeciso, acredita e desacredita em Deus. A única irmã prefere não pensar no assunto. E o estudante Bruno Albertini é ateu. Ele, que nunca estudou em escolas católicas e nem sofreu pressões familiares para seguir uma crença, enfrentou aulas de religião na PUC Minas, onde hoje cursa o oitavo período de Filosofia. De acordo com ele, essas aulas eram povoadas de estudos de

BELUGA: Desde quando você se considera ateu? BRUNO: Nunca tive ligações espirituais. Percebi, principalmente nas minhas investigações no curso de Filosofia, que a religião não é sustentável e não dá conta de responder muitas questões - que só o argumento demonstrável e a Ciência conseguem. Assumir uma religião, uma crença e uma fé para mim seria um absurdo. Qual é o absurdo? É logicamente improvável a gente ter um deus que é perfeito, onisciente, onipresente e que a tudo vê e que não tem correspondência com a realidade. É algo completamente inumano numa realidade completamente humana. Mas a Ciência encontra todas as respostas que a religião procura? Ela tenta. A cosmologia vai estudar o nascimento das estrelas, das nebulosas, das galáxias, e a partir disso, fazer uma dedução que remonte à origem do universo. Mas a Ciência lida com hipóteses, né? Não existe uma verdade absoluta neste sentido. O que demonstra que ela pode ser falha também.

Sobre o gelo

» Por Cristina Castro e Natália Martino

“concepções ateístas” e até contribuíram para reafirmar sua falta de fé. No sofá do seu apartamento, Brunel, como é conhecido pelos amigos, falou sobre o mundo sem Deus. Para a entrevista, ele preferia a cadeira de um bar qualquer, mas limitações do gravador o levaram à sua sala de estar. À vontade, ele coloca os pés no sofá e gesticula durante toda a conversa. Nas mãos, cigarro de palha - na verdade, vários, trocados ao longo das duas horas de entrevista. Nas palavras, respeito a outras visões de mundo e muitas referências a filósofos, livros e teorias para entender os porquês da vida e da morte. O olhar firme, que atravessa os óculos, confere ao rapaz de 24 anos uma segurança digna de quem detém a verdade, e brinca com ela: "Além de ateu, sou à toa". Num dado momento, a pergunta: "vocês estão entendendo o que eu estou falando?". Entender sim, embora suas explicações em vocabulário pouco coloquial nem sempre respondessem ao questionamento. Brunel classifica como absurda a crença em Deus e demonstra nem mesmo pensar nessa possibilidade. Apesar disso, ele se responsabiliza pelo mundo e as pessoas à sua volta. Como os cristãos.

A ciência vai desvendar tudo algum dia? Não, muito místico isso (risos). O ateu acredita que a não existência de um Deus está revelada, assim como a existência se revela na fé? Não, na acepção etimológica que vem do grego, o a sendo ausência, e theós deus, é o sentido estrito do termo: sem deus. Eu sou um cara ausente de deus. Toda demonstração de que deus existe é fala-

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ciosa, subjetiva, com analogias completamente descontextualizadas. O que deus representa? É o impronunciável, não existe uma correspondência direta entre mim e ele. Quem experimenta, experimenta subjetivamente e como eu não sou você, não tem como eu te demonstrar discursivamente que ele existe. É possível provar a existência do extrafísico por meio da Ciência? É algo inatingível e impensável, no presente momento, para mim. Eu acho absurdo pensar nisso, como eu acho absurdo pensar em deus. O transcendental não tem nenhuma dimensão terrestre, é algo que está além da nossa capacidade imaginativa. Se a gente consegue imaginar um centauro, por exemplo, é porque é um híbrido de animal e homem, é uma mistura física que a gente consegue projetar na imaginação. Qual a imagem que cada um tem de deus? Uns o vêem com barba, uma coisa completamente humana. Existe uma correspondência que deve ser física para se conceber essa idéia enquanto uma imagem que tem um conteúdo. Um ateu pode se tornar religioso? É possível. Se algum dia você estiver fodido na vida, não tiver mais nada a fazer e não conseguir lidar com isso, será fácil fazer uma espécie de conversão e virar um religioso. E o contrário, seria possível? Sim, vários colegas meus de sala começaram como seminaristas e se convenceram através de argumentos; tiveram um trabalho espiritual

ferrenho ao longo de muito tempo e não encontraram nada daquilo que foi professado pela fé católica. E através da filosofia, da argumentação e da teoria, descobriram algo mais palpável do que essa promessa que eles mesmos não tinham vivenciado ao longo do seminário. O que é a Bíblia pra você? É um dos maiores livros de literatura que já foram escritos. Os relatos sobre a vida de Jesus são reais? Dizem que quem escreveu a Odisséia foi Homero, só que ela parte de um imaginário, uma compilação de várias épocas que foram retratadas em um livro. Acho que a bíblia também sofre esse mesmo processo: parte do imaginário coletivo, foi compilada e recebe o nome de um autor que é impronunciável, por definição. Mas Jesus existiu? Sim, mas sei lá até que ponto ele fez o que foi dito: sobre isso não existe nenhum dado objetivo. É uma tradição que sobreviveu ao longo dos anos através de fragmentos e virou um livro significativo enquanto conteúdo, e, assim como a poesia, abre margem para várias formas de interpretação. Cada pessoa que lê tem uma forma de enxergar, apesar de existirem estudos teológicos que tentam buscar uma certa objetividade Para você, Jesus fez alguma coisa de grandioso? Pra época deve ter sido, né? Pelo fato de ele ser mencionado por varias

tradições que chegaram até nós, ele deve ter sido alguém ou alguma construção extremamente importante para aquele que o imaginou ou para aqueles que viram ou tiveram algum contato com ele. Como o Papa Bento XVI? Ele é alguém que gostou muito da temática religiosa. Participou, se interessou pelo assunto, ou, sei lá, sente aquilo profundamente ou internamente, coisa que eu nunca vou saber a respeito, porque ele é o Papa. Você acha que o Papa realmente sente esse Deus ou fala isso pelo poder político? Eu acho que pode ser encarado das duas formas: ele acredita e ao mesmo tempo entra no esquema da instituição, que é cada vez mais disseminar essa fé, que pode ter um pretexto religioso de frente e uma questão política de pano de fundo. Não sou muito determinista em relação a isso. Os dogmas criados pelo Papa e o Vaticano são válidos? Para os que crêem, o Papa seria uma espécie de juiz intocável. Se deus pediu para ele fazer isso, ele faz, e os que crêem caem nesses "artigos provisórios" da igreja, que têm completo sentido pra eles. Eu não acredito nisso. Para a nossa sociedade, a religião faz diferença? A importância dela é mais para aqueles que não conseguem encarar a própria vida, e tendem a assumir uma coisa completamente externa a ela - é um processo aceitável e bom. Fotos: Glaucimara Josélia


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Tem uma função social para aqueles que optaram por fazer parte disso e não sou eu quem vai julgá-los nesse sentido. Mas teoricamente, aliena. É uma espécie de papoula. Se Deus não é a explicação, como a humanidade chegou até aqui? A gente poderia acreditar num certo darwinismo, num processo de evolução das espécies, numa contingência animal. Eu penso que seria desnecessário pensar uma causa sempre anterior àquela que a gente vê. Nesse sentido, os gregos présocráticos tentaram marcar um ponto de onde tudo se deriva, mas não era deus, eram alguns princípios naturais. Por exemplo, Thales falou que tudo era água. É preciso estabelecer um ponto de onde se derivam essas coisas, que é o fato. Mas arrumar uma causa sempre anterior a ela mesma é um absurdo infinito. Como você encara a morte? A morte é só não existir, né? Ela tem um grande valor para a humanidade, mas é só uma nãoconsciência mesmo. Não existe nada depois da morte. Existe destino? A existência precede a essência enquanto coisa material, física mesmo - é estar entre as coisas, os objetos, o mundo, a realidade. Cada um tem total autonomia pra responder e assumir as suas escolhas, com todas as conseqüências que derivem delas. Cada homem carrega a responsabilidade de todos os outros, porque todo mundo tem a mesma constituição. Já dizia Sartre: “nós estamos condenados à liberdade”. É nesse sentido que a religião peca, porque ela tende a transferir alguma responsabilidade a uma entidade transcendente. Mas por que teríamos essa responsabilidade? Temos valores, não só o bom e o mal, que vêm através de um construto cultural mesmo.

isso como uma questão culposa. Essa questão tem muito a ver com a moral cristã, que tem, pelo menos dois aspectos – a responsabilização e a culpa. Como você vê a culpa? A culpa, eu acho que é você se furtar - tem uma correspondência com o ressentimento, questão até do ódio e da vingança, e isso é um processo estritamente religioso, porque quando você interioriza uma energia, ela se volta contra si e contra os outros. A religião tende a negar a questão dos prazeres do corpo, dos sentidos e, quando se nega isso, existe uma defasagem de liberação instintiva, física mesmo, o que faz com que o pensamento seja muito internalizado, aí se cria essa concepção da culpa, sofrimento.

A religião é importante para a moral da sociedade? Não, de forma alguma a gente precisa da religião pra estabelecer o que é certo e o que é errado para isso tem o Direito. Apesar de não funcionar tão bem, ele se propõe a isso em seus artigos e é mais funcional, porque parte de uma construção que vem da elaboração da mente humana.

E você, sente culpa? Toda vez que eu internalizo demais eu posso ter o que o pessoal chama de culpa, mas eu não trato

Então a sociedade viveria numa boa sem o cristianismo? Sim.

De acordo com a sua criação, você pensa que a sua moral é cristã? A gente em algum sentido é cristão. É inegável. Eu tento ao máximo me desvencilhar desse tipo de posição: quero pensar para além do bem e do mal.


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sobre o g “ A religião é uma espécie de papoula A bíblia é um dos maiores livros de literatura que já foram escritos Assumir uma crença e uma fé para mim seria um absurdo A religião nega os prazeres do corpo Foto: Glaucimara Josélia

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o gelo “ A Igreja é santa e pecadora O céu está muito mais cheio que o inferno A Igreja é a detentora da verdade Penetração é sexo, sexo oral é sexo, sexo anal é sexo, masturbação é pecado

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Foto: Frederico Bottrel


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"PECAR É MUITO FÁCIL"

» Por Cristina Castro e Frederico Bottrel

Filho mais velho em uma família de católicos muito praticantes, Leonardo Ladeira, 23 anos, já quis ser padre e fez cursos na Opus Dei. Sempre estudou em colégios católicos, mas diz que, quando tiver filhos, vai colocá-los em escolas públicas "por outro tipo de ideologia". Atualmente, dá palestras na Paróquia de Santa Lu-

zia, do bairro Cidade Nova, onde mora, e é ministro da Eucaristia. Como defende sua religião com o maior entusiasmo, deixou o estágio de lado por algumas horas para conceder uma entrevista sobre seu assunto favorito. Com sapato preto bem lustrado, calça social da mesma cor e camisa amarela dobrada até o cotovelo, ele era a figura exata do Administrador Público. Leonardo estuda, há três anos, na Escola de Governo da Fundação João Pinheiro. Fã de Lula e do Papa Bento XVI, não hesita em dizer que o Estado deve permanecer laico, mas que fica feliz com as posições firmes de Ratzinger. Por isso, foi uma das milhares de pessoas a saudar o Papa em sua visita ao Brasil. Num tempo em que a Igreja Universal do Reino de Deus distribui camisinhas aos seus fiéis, Léo defende a postura oficial do Vaticano e se diz virgem, apesar de namorar há três anos e meio. Até sobre esse assunto delicado, ele argumenta com muita franqueza e desembaraço. Eloqüente e de riso fácil, o futuro político tem respostas para todas as questões: não há espaço para a dúvida. Por trás de seus óculos, o olhar era de quem estava seguro em defender a Igreja Católica, "a detentora da verdade".

BELUGA: Você concorda com todos os dogmas do catolicismo? LEONARDO: Concordo plenamente, a doutrina católica é coerente e coesa. Ela forma um todo e, se você a aceita, aceita o todo. Se a pessoa acha que é possível ser católico e ao mesmo tempo fazer sexo fora do matrimônio, ela não está entendendo qual é o valor do sexo para o catolicismo. Que valor é esse? Existem duas finalidades do sexo para a Igreja: a unitiva e a procriativa. Unitiva, porque só há entrega total e união no matrimônio quando há prazer. As pessoas acham que a Igreja fala para só fazerem sexo para procriar. E não é isso, ela reconhece o prazer do sexo e acha isso bom. Mas ela não é contra o planejamento familiar. Como? Abstendo-se de sexo nos momentos de fertilidade. Qualquer tipo de contato sexual é pecado? Cada pessoa tem que achar seu limite. Namoro há três anos e meio e sou virgem. Mas se alguém visse todos os meus momentos com minha namorada poderia falar "ele faz sexo no namoro dele". Como assim? Radicalismo é muito ruim. Se a pessoa deixa de viver momentos de intimidade com sua namorada, o namoro deixa de dar certo. Vai ser uma grande entrega o dia das núpcias. E essa entrega só vai ser grande se pequenas entregas vierem antes. É uma coisa biológica mesmo. Mas a Igreja permite essas pequenas entregas? Existem diretrizes: penetração é sexo, sexo oral é sexo, sexo anal é sexo, masturbação é pecado. Na


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masturbação, o pecado é principalmente de egoísmo. O que a Igreja fala é que não dá pra gente estabelecer limites claros, porque isso é de cada pessoa. Quando eu ultrapasso meus limites é que é pecado. Mas depois você tem que pedir perdão a Deus? Nem sempre. Eu peço perdão quando vejo que excedi um limite. Mas quem vai decidir isso? Eu! Três coisas chegam ao pecado para o Catolicismo: consciência, consentimento e natureza do pecado. A Igreja vai te ajudando a entender o que é ou não é pecado. O que você pensa a respeito da homossexualidade? Quanto a isso, a Igreja é bem resolvida. Ela acha que uma série de fatores - psicológicos, sociais, naturais - causou as tendências homossexuais na pessoa, mas o ser humano não foi criado para isso. Ou seja, ninguém é homossexual, tem tendências. Mas nem por isso a pessoa não é católica, só deve se abster da prática de sexo, porque está fora desses dois sentidos do unitivo e do procriativo e, por isso, não vai atingir a felicidade nessa união. A pessoa não nasceu homossexual e está se desviando do seu caminho. Mas ter essa tendência é pecado? Não é pecado. Mas ela deve aprender a conviver com isso sem praticar. Quando ela só deseja pessoas do mesmo sexo, ela deve viver uma vida de castidade. Virar padre? Não. Inclusive antigamente era mui-

to comum isso. O Ratzinger escreveu para dizer que não é essa a solução. Quando a pessoa não tem vocação e tem esse tipo de tendência, ela não deve ser aceita no seminário. Por que o Vaticano pode estabelecer um dogma? O que a Igreja escreve oficialmente hoje tem o mesmo valor que a palavra bíblica: aí entra a fé. Deus é trino: Deus pai, que criou o mundo, Deus filho, que veio ao mundo, e o Espírito Santo, que Cristo prometeu enviar para a Igreja. Então o Espírito Santo é uma espécie de inspiração que os homens têm. A gente acredita que quando bispos e cardeais se reúnem, o Espírito Santo está presente entre eles para revelar o que a palavra bíblica queria dizer. Esta terceira face de Deus está entre os homens do Vaticano? Está entre todos nós: eu evoco o Espírito Santo para tomar decisões. Mas quando a Igreja se reúne oficialmente, as pessoas com mais conhecimento - portanto capazes de diferenciar melhor se algo é ou não certo - vão poder falar bem inspiradas pelo Espírito Santo. Seria muito perigoso se qualquer pessoa pudesse escrever uma coisa e isso virasse um dogma. Mas às vezes o Vaticano altera um dogma: o Espírito Santo estava equivocado? Aí está a parte boa de ser católico! A Igreja é divina mas também é humana; é santa e pecadora. Ela pode errar em alguns aspectos. Por isso é tão difícil proclamar um dogma: ao fazer isso, diz que não

está errando, né? Mas a parte boa é que ela pode voltar atrás, pode sempre rever as próprias ações, por ser humana. Muitos que se dizem católicos não seguem todos os dogmas da Igreja. Eles são católicos mesmo? Eles têm uma predisposição para aceitar a fé católica. Praticante não é quem faz tudo do jeitinho que a Igreja manda, mas quem procura saber o que ela diz e vive isso. Todas as pessoas são pecadoras, os valores e doutrinas são metas de vida. Eu vou deixar de ser católico praticante se fizer sexo com minha namorada? Não, de forma alguma. Porque isso é pecado e pecado para a Igreja é uma coisa que você faz de errado, se confessa e começa de novo. Mas então não fica muito fácil pecar? Essa é a grande idéia. Pecar é muito fácil e ser perdoado é mais fácil ainda. Cada vez que eu não conseguir me adequar à idéia que eu acredito, há uma chance de voltar e aprender mais com o erro que eu tive. É uma busca mesmo. A pessoa vai para o paraíso porque é boa ou porque é católica? Na minha cabeça, o céu está muito mais cheio que o inferno, porque a maior parte das pessoas não tem consciência do que faz. Quem tem outra cultura religiosa não vai conhecer todos os valores católicos, então não tem jeito de Deus não ter misericórdia. Mas se uma família deu formação religiosa para a pessoa durante a vida inteira e ela negou isso, ela pode ter negado


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Deus. Agora, se uma pessoa mora lá no meio de uma tribo indígena e nunca ouviu falar de Deus, ela não tem culpa. Mas o discurso da Igreja não diz que só os católicos vão para o paraíso? Não. Mas aí a missão do católico é mostrar para o mundo inteiro quem é Deus e qual é sua doutrina, como fazem os missionários. Não é uma aculturação? Você chegar numa tribo indígena e transformá-la em católica? Se eu acredito muito numa verdade, eu vou querer que todo mundo conheça essa verdade. Mas ela não pode ser imposta. As pessoas descobrem a verdade por si só, mas isso não significa sem ajuda dos outros. Como você vê as verdades de outras religiões? Eu acho que existe uma coisa que

se chama Lei Natural, voltada para o bem. O ser humano tende a chegar a esses valores por qualquer via, religiosa ou não: budistas, batistas, umbandistas e até não-religiosos podem chegar muito perto da mesma verdade. No entanto, a Igreja Católica foi a fundada por Cristo e é nela que se revela o Espírito Santo, fonte da verdade divina. Portanto, ela é a detentora da verdade e é papel dela guiar e ajudar os homens. Lula negou a proposta do Papa Bento XVI de favorecer a Igreja Católica no país. O que você acha desse envolvimento da Igreja com a Política? O Estado é laico e a ação estatal também deve ser. Mas um verdadeiro católico deve se interessar por política, afinal o projeto de Jesus é um projeto de mudança social gigante. É impossível que um católico seja profundo se ele acha política uma bobagem.

O Papa veio e canonizou Frei Galvão. O que são os santos para você? Os santos não servem para ser idolatrados. Eles trazem exemplos de histórias que vão ensinar coisas pra gente. Qualquer pessoa que morreu e foi para o céu é santo. Mas para a Igreja reconhecer um santo oficialmente é complicado, porque ela tem uma série de responsabilidades. A canonização é uma jogada política do Vaticano para atrair mais fiéis? Com certeza essa não é causa, mas a conseqüência dessa ação da Igreja. Porque é natural que a pessoa fique mais animada a crescer na fé depois que alguém com quem ela conviveu vira santo. E a Igreja aproveita essas coisas humanas para crescer. Um ateu e um católico podem ter algo em comum, ideologicamente falando? Um ateu, se desenvolver sua racionalidade ao longo da vida, muito provavelmente chegará aos mesmos valores que eu tenho hoje pela minha fé: solidariedade, valor da vida, fraternidade, desprendimento de bens materiais... É possível que um ateu se converta para a religião? Um ateu irá se converter no dia em que descobrir que todos esses valores são criação de Deus e nele se tornam eternos e inabaláveis. No dia em que ele descobrir que religião não é imposição de uma verdade, mas uma série de pessoas unidas em busca do desenvolvimento e esclarecimento do que é a verdade. E o contrário? Um católico pode se desconverter somente quando sua fé está baseada em pessoas ou instituições. Mas aqueles que depositam sua fé em Deus, nunca serão abandonados, decepcionados ou enganados. Estes nunca desacreditaram da sua religião!

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por você, eu dançaria tango no teto


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PIPOCA DO AMOR

A solidão e o mau-humor de um repórter metaforicamente diabético frente a histórias açucaradas no cinema.

» Por Frederico Bottrel

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Ilustrações: Frederico Bottrel


ões: Frederico Bottrel

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A atendente confere, solitária, os bilhetes de ingresso, naquela noite de quarta-feira, em um dos mais movimentados cinemas de Belo Horizonte. Luciana e Felipe, dois estudantes de Direito, desfazem o abraço, passam a roleta um a um, e voltam a se abraçar. Abraçadinhos também estão na fila da pipoca - servidos por outra funcionária solitária, com olhos semicerrados de desprezo. Eles são exatamente o que o repórter, solteiro e malhumorado, precisa para abrir uma matéria sobre o mundo das comédias românticas e a realidade dos casais apaixonados. O nome da promoção das pipocas cai como uma luva - Combo Casal - um romântico e calórico combinado de um baldão de pipoca com dois copões de refrigerante - "Light, por favor", Lu sorri. Lipe pega com a ponta dos dedos no narizinho dela, virando de um lado pro outro e dizendo que ela, obviamente, não precisa emagrecer. Ela tira as mãos dele do nariz, delicamente, e confirma com a funcionária da pipoca: é light mesmo, moça. As sobrancelhas da atendente esboçam um movimento que denota um debochado desprezo, acompanhado de um micro risinho de canto de boca. Com o Combo Casal nas mãos, o par é forçado a desfazer o abraço, novamente, e caminhar lado a lado rumo à entrada da sala. As duas funcionárias - a do ingresso e a do balcão, trocam um olhar cúmplice e observam os pombinhos sumirem no túnel escuro que os conduzirá a uma hora e meia de Letra e Música, comédia romântica estrelada por Hugh Grant e Drew Barrymore.


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Alex Fletcher demoraria 55 minutos para dar o primeiro beijo em Sophie Fisher, na tela grande. Lu e Lipe não perdem tanto tempo: logo que se assentam e acomodam os copos de refrigerante, a troca de carinhos tem início. A princípio o afeto, como o refri, é light. As luzes se apagam para que os trailers sejam projetados e a coisa esquenta na platéia, que, aliás, está cheia. Todas as fileiras têm números pares de assentos: perfeito para a sessão, visto que são poucas as pessoas desacompanhadas. O solitário repórter, além dos pares, se acomoda lado a lado para acompanhar as aventuras amorosas de um casal que precisa escrever a letra e a música de uma canção para uma cantora pop – esse é o mote do filme. Daiane, uma enfermeira de cabelos negros e curtos, com seus 25 anos, está sozinha: "Meu namorado está trabalhando na Inglaterra e no último e-mail que mandou disse que era pra eu assistir a esse filme, que teria uma surpresa". A surpresa vem em forma de uma risadinha acompanhada de um leve balançar de cabeça em um momento em que Alex e Sophie se despedem, depois de um dia inteiro de felicidade. Cada um segue seu caminho, mas, antes de saírem de cena, ambos dão aquela viradinha, se encontrando nos olhos um do outro e suspirando num sorriso. Sorriso, suspiro e brilho de olhos que Daiane explica: "Isso aconteceu com a gente quando ficamos a primeira vez..." Identificação. Mais ou menos o mesmo motivo que levou Lu às lágrimas quando Alex cantou seu amor, pedindo perdão a Sophie, assumindo seus erros e implorando que ela voltasse a amá-lo. A jovem de 22 anos conta, orgulhosa: "A gente reatou o namoro há dois meses. O Felipe fez coisas que não devia, soube reconhecer o erro e voltar atrás". Meio termo não vale e o repórter, além de solitário-mal-amado, também precisa ser indiscreto: "Mas ele te traiu?". "Pois é. Ho-

mem, você sabe como é" é a resposta resignada da moça, enquanto o Felipe conversa no telefone – preferiu não dar entrevista. Homem, você sabe como é... Contudo, um casal de homens não se incomodou em conversar com o repórter. Alan, estilista, óculos de aro grosso, 36 anos e Pedro, designer, óculos de aro grosso, 32 anos, acharam o filme "morno". O estilista não poupa críticas ao galã: "Já deu pra cansar do Hugh Grant com a dancinha ridícula e as caras de pateta que ele faz em todo filme que participa". O designer pondera um pouco e rascunha uma filosofia-de-corredorde-cinema: "Eu até acho bacaninhas esses filmes açucarados. Os casaizinhos sempre vencem os problemas e isso é legal, porque se a vida é feita de desencontros, alguém precisa ter um pouco de esperança!". Esperança é uma jovem senhora, professora. Levantara-se logo ao final do filme. Ao seu lado está Jaime, o marido “músico saxofonista”. Ele, muito falador, não poupa elogios à esposa e ao amor que os une há 27 anos. Também não economiza trocadilhos inacreditáveis com a graça da mulher: "Esperança sempre me dá esperança". Ela é monossilábica. Na verdade, quando o repórter-mal-amado-indiscreto-desesperançoso pergunta se o amor dura tanto tempo mesmo, ela chega a ser grosseira: "Sim. Jaime, vamos?", assunto encerrado. Eles se vão, de braços dados. Dá pra entender a postura de Esperança, afinal, ela ouve aqueles trocadilhos todos os dias, há 27 anos... Na porta do cinema quem está? A mesma moça que recolhera os ingressos na entrada. Dessa vez, é função dela policiar para que ninguém se infiltre em alguma seção de aventura ou drama. O ingresso só valeu a comédia romântica. O mesmo olhar enfadonho torna a figura inconfundível. Ela é Janes, "Janaína, na verdade, mas pode colocar Janes", trabalha como atendente do cinema há três meses e fica por conta da sala dois,


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onde tudo isso aconteceu. Janes não tem namorado. Fica no cinema de 18h à meia noite. Folga um dia na semana. De dia, faz cursinho. Quer estudar Comunicação Social e é taxativa ao justificar a cara de poucos amigos: "Já vi esse filme mais de cem vezes. Acho muito 'pipocão'". Do lado de fora tudo é mais claro. Os anúncios das

lojas de luxo do shopping reluzem. Enquanto algumas pessoas descem as escadas rolantes, outras se detêm antes disso. Está em cartaz, no andar do cinema, uma exposição de fotos de noivas. Painéis de dois metros quadrados ostentam a felicidade nupcial de dúzias de belas mulheres. Algumas são mais arrojadas - têm piercing, alargador nas orelhas e "atitude". Uma delas até toma uma Coca-Cola Light, ao lado do marido, com um balde de pipoca.

caviar Alguns filmes disponíveis em DVD que constróem uma açucarada realidade para assistir com um cobertor de orelha e depois dormir de conchinha...

Divulgação

Levada da breca Bringing Up Baby, EUA, 1938 De Howard Hawnks

Jejum de amor His girl friday, EUA, 1940 De Howard Hawnks Baseado em um espetáculo da Broadway, sobre uma dupla de jornalistas. Na adaptação, um deles virou mulher e pronto! Têm-se uma legítima screwball comedy! Nascida ontem Born Yesterday, EUA, 1950 De George Cuckor Mocinha burrinha dá a volta por cima, se apaixona por um repórter e larga o marido. É claro que ela também aprende a pensar. (Os repórteres estão sempre amando nesses filmes... ) Harry e Sally - Feitos um para o outro When Harry met Sally, EUA, 1989 De Rob Reiner

Um lugar chamado Nothing Hill Nothing Hill, Inglaterra, 1999 De Roger Mitchel Divulgação

Aconteceu naquela noite It Happened One Night, EUA, 1934 De Frank Capra Clark Gable e Claudette Colbert vivem um jornalista desempregado e uma jovem milionária em fuga. O romance é um representante da screwwball comedy: o casal se alfineta mais do que se ama.

Estrela de cinema se envolve com livreiro pobretão. A trama pode ser batida, mas o élan de Julia Roberts e o sotaque britânico charmoso do Hugh Grant garantem boas situações.

Meia noite Midnight, EUA, 1939 De Mitchell Leisen Claudette Colbert é uma dançarina, alugada para distrair um cara suspeito de seduzir uma mulher casada. Com John Barrymore (John e Drew são da mesma família de atores).

Simplesmente amor Love actually, Inglaterra, 2003 De Richard Curtis O longa faz uma espécie de homenagem às comédias românticas, com 10 historietas que se cruzam. O protagonista de uma delas, pamsem! é Hugh Grant.

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Katherine Hepburn é Susan Vance. Ela move o filme, modificando o mocinho bobalhão, David Huxley, um paleontógo vivido por Cary Grant (Não há parentesco com Hugh Grant!)

O diário de Bridget Jones Bridget Jones´s Diary, Inglaterra, 2001 De Sharon Maguire As histerias de uma jornalista balzaquiana-gordinha-contemporânea garantem um dos melhores momentos de Renèe Zellweger. A cena em que ela canta All by myself é antológica. Hugh Grant também está no filme!

Apogeu de Meg Ryan nas comédias românticas, que ganham o apelido de "filmes de Meg Ryan" - e ela ainda tinha o cabelo à la "gosto muito de você, leãozinho".

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ODISSÉIA DE TIAZINHA Tudo se passa como naqueles sonhos extremamente reais, que fazem confundir fantasia e realidade mesmo após acordar. Tiazinha dirige seu carro em uma movimentada avenida de São Paulo, quando avista no céu um enorme objeto luminoso, que parece segui-la do alto. Desesperada, acelera até sua casa e procura sua câmera de vídeo. Tiazinha quer uma prova do “contato”. Na janela de seu apartamento, aponta a filmadora para o objeto flutuante e capta a imagem perturbadora de um OVNI - Objeto Voador Não-Identificado. Susana Alves, a Tiazinha, não foi a primeira, nem a última, a ter o privilégio de um contato com Et´s. "Fotos" de discos voadores, de charutos voadores, de espaçonaves das formas mais diversas aparecem em jornais e revistas de todo o mundo. Milhares de pessoas, quase sempre com histórias semelhantes, afirmam não só terem visto os OVNIS mas também entrado neles. Entretanto, embora jurem que suas experiências realmente aconteceram, as vítimas não fornecem provas concretas. Não há nenhuma lasca, nenhuma foto do interior, nenhuma página furtada do diário de bordo do capitão. Há exemplos de terra remexida, mas eu também posso remexer terra com uma pá! Tudo que há são histórias, que sozinhas não constituem boas evidências. Além disso, por que esses seres extraterrestres, inteligentes para desenvolver uma tecnologia de transporte interestelar, têm de repetir as mesmas experiências (sexuais na maioria dos casos) milhares de vezes? Nossa biologia não é assim tão complicada. Por que eles jamais contatam líderes políticos ou cientistas para trocar informações mais relevantes, preferindo aparecer sorrateiramente na calada da noite ou em lugares remotos do planeta? A Via Láctea tem cerca de 100 mil anos-luz de diâmetro e mais de 10 bilhões de anos de existência. De lá para cá, um raio de luz poderia ter cruzado nossa estimada galáxia umas 100 mil vezes de ponta a ponta. Suponha agora que uma estrela em cada bilhão é cercada por planetas com vida pensante. A Via Láctea teria algumas centenas de civilizações inteligentes. E se já fomos capazes de ir à Lua, não é difícil imaginar que os Et´s também tenham viajado pelo espaço e, por que não, colonizado planetinhas ao longo do caminho. Somos tão insignificantes que fomos esquecidos pelos aliens? É possível, mas improvável. Será que os Et´s existem, mas não têm interesse em colonizar a galáxia? Também possível, mas difícil de confirmar. Quando o assunto é de outro planeta, uma das poucas certezas é a de que existem pessoas dispostas a ludibriar. A cena do primeiro parágrafo não é parte do seriado As aventuras de Tiazinha, mas sim o mico ufológico de 2001 (ano que não significou a odisséia no espaço). O tal OVNI nunca foi nada além de um dirigível da Goodyear. Foto: Pedro Kirilos

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Arte sobre ode Ao shopping-center, de José Paulo Paes

Pelos teus círculos vagamos sem rumo nós almas penadas do mundo do consumo. De elevador ao céu pela escada ao inferno: os extremos se tocam no castigo eterno. Cada loja é um novo prego em nossa cruz. Por mais que compremos estamos sempre nus. Nós que por teus círculos vagamos sem perdão à espera (até quando?) da Grande Liquidação.

OFF SALE PROMOÇÃO AQUI


Rodopio

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NSUMO


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Arte sobre o trecho da música A gravata, de Tom Zé

Um cidadão sem a gravata é a pior degradação é uma coroa de lata é um grande palavrão é uma dama sem pudor striptease moral é falta de documento é como sopa sem sal


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TRABALHO QUE É TRABALHO

Aspirante a workaholic, repórter consegue um horário na agenda de gerente e administradora no fundo do poço do vício do trabalho.

Foto: André Rosseti

» Por Glaucimara Josélia

Antes de dormir, uma breve lida no texto. “Para uma primeira tentativa, acho que fiz um bom trabalho”, pensei. Não me dava por satisfeita, mas já estava cansada. Durante o sono, muitas idéias. Tantas, que foi inevitável a volta ao computador, ainda naquela madrugada. “Trabalho que é trabalho precisa ser bem feito”, parecia que escutava a voz da minha mãe. E escreve, apaga, salva e escreve. Foi assim durante uma sucessão de noites, até que “a” inquietação surgiu. Depois de uma dedicação quase exclusiva, muitas horas mal dormidas e xícaras de café tomadas, de vários amigos esquecidos e apenas um assunto na cabeça, ficava a pergunta: será que eu também sou uma workaholic?

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Foto: Glaucimara Josélia

No elevador cheio de sobriedade, Laura Pascoal, a bem-sucedida administradora de empresas de 32 anos, aguarda com sua pasta de couro marrom. Apesar de ter encerrado o expediente, não parece nem um pouco relaxada. Minhas tentativas para conversar com ela, ali, fora do ambiente profissional parecem em vão. Elegantemente vestida com seu tailleur de microfibra, ela ainda leva o trabalho para qualquer lugar. São 20h e seus olhos fixam-se no número seis quando talvez devessem ansiar o luminoso “P”. Sentindo-se observada e analisada, confirma que o trabalho é a sua segurança: “Lá (olhando para o seis) não há jogo de sentimentos, de incertezas. It’s business. Sair dessas paredes significa ainda ir para uma realidade que não controlo”. Na porta do prédio comercial, localizado em uma rua movimentada do Barro Preto, a caminho de seu Golf prata, um momento de hesitação: “Você se importa se eu der uma olhada no meu planejamento? Sabe como é, né? Me organizo com três agendas, planejo mil coisas e, no fim do dia, não sei se dei conta de tudo”. E remexe, e olha e checa. E sem esboçar qualquer reação, desabafa que tudo o que viu, ao longo de mais um dia, foi “apenas trabalho”. Pelo mundo afora, em outras empresas e escritórios, vários indivíduos enfrentam a mesma situação. Na cultura coorporativa que não estranha alguém que trabalhe até 14 horas por dia, é cada vez maior o número de pessoas que fazem do trabalho a sua principal razão de viver. Para uns, é uma questão de poder. Para outros, uma simples maneira de mascarar ansiedade, baixa auto-estima e problemas afetivos. “Quanto mais caos você tem dentro si, mais você precisa controlar tudo à sua volta. Alguma coisa precisa funcionar na sua vida”, exaspera-se Laura. “Eu sei que sou uma workaholic porque apenas no trabalho consegui encontrar prazer”.

Trabalhar demais Em outro canto da cidade, no bairro Funcionários, Ricardo dos Santos, um gerente executivo de 45 anos, liga para a ex-esposa e avisa que não pode comparecer na reunião de pais da escola do filho. Após alguns minutos de discussão, desliga o telefone irritado: “É difícil demais agradar aos outros. Quando fumava, tudo o que ouvia de minha mulher eram pedidos para que largasse (fazendo aspas com as mãos) ‘o vício’. Já não fumo, não bebo, vivo sempre no escritório e continuo escutando que sou viciado, mas dessa vez, pelo meu trabalho”. “Mas você é viciado?”, pergunto. “Gosto muito e admito que estou em busca de sempre mais”, confessa. “Mas daí a ser chamado de viciado é exagero. Viciado é quem usa drogas, quem se embebeda por aí. Eu não faço nada além de mostrar do que sou capaz”, ressalta. Ricardo parece ser a prova de que o passado é mesmo um fator decisivo na vida de um workaholic. Quando criança, viu os pais colocando o trabalho em primeiro lugar em suas listas de prioridades. “O exemplo foi claro. Minha mãe dizia ‘trabalhe’ e meu pai ‘trabalhe muito’”. Poucas são as lembranças de viagens na adolescência, das festas com os amigos e dos bons momentos em família, pois até a pouca idade não foi empecilho para trabalhar. Ricardo teve seu primeiro emprego aos 15 anos de idade na loja de um tio. Laura Pascoal e Ricardo dos Santos são apenas alguns exemplos de pessoas que trabalham além da conta, para provar que são capazes e para fugir de situações mal resolvidas. “A gente precisa ser o número um em alguma coisa. Precisa ver que não fracassou mais uma vez”, conta o executivo. A administradora também assegura, com muita convicção, que é esse trabalho “que preenche vazios e apaga momentos de fragilidade e desilusão”. No entanto, como a maioria dos viciados, workaholics não conseguem enxergar a diferença entre trabalhar muito e trabalhar demais. De acordo com vários estu-


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diosos, cruzar a tênue linha entre prazer e obsessão e tornar o trabalho um grave vício não é muito difícil. O que no início é caracterizado por euforia e bem-estar, no meio do caminho torna-se uma dependência, tão complicada, que gera confusão entre realidades pessoal e profissional. Laura atingiu esse limite quando a empresa se tornou seu único parâmetro: “Eu passei a comparar todos os tipos de relação com a minha relação com o trabalho”.

Relação recíproca No trânsito calmo de uma noite de terça-feira, alheia às revelações que fazia a caminho de casa, Laura lembra que há alguns anos atrás, depois de sofrer uma decepção amorosa, passou uma semana dormindo no escritório. “Muitos acreditavam ser apenas dedicação, mas na realidade era um subterfúgio. Ninguém imaginava que eu fugia de uma realidade da minha vida”, confessa. Com o fim do relacionamento, debruçou-se sobre o trabalho e o elegeu sua única prioridade de vida. “Foi uma escolha acertada naquele momento. Comecei a ter uma relação recíproca. Eu fazia coisas pelo trabalho e ele fazia coisas por mim”. Ricardo encontra-se numa situação semelhante. As cobranças feitas pela ex-mulher e pelo filho o irritam e são combustíveis para que o envolvimento pelo trabalho continue sendo sua primeira opção: “Aqui na empresa, não há pressão vinda de ninguém, a não ser de mim mesmo”. Um tanto quanto orgulhoso, afirma que prefere se dedicar ao serviço a dar importância a outros aspectos da vida. “Enquanto eu mesmo não me prejudicar, vou continuar assim”, encerra taxativo. Ao contrário do gerente, Laura conseguiu se prejudicar naquilo que tinha como o alicerce de sua vida. Sem saber delegar funções ou trabalhar em grupo e executando cada vez mais as tarefas insatisfatoriamente, foi obrigada a cumprir um pedido de afastamento profissional. Longe do trabalho, a administradora se deu conta da gravidade de sua situação. “Ninguém sabe como te ajudar

se você não sabe como pedir ajuda. E se você não lembra mais os telefones dos seus amigos e nem consegue conversar com sua família, realmente está com um problema”. Perdida, possuía apenas duas certezas: o amor pelo trabalho e a necessidade de uma vida um pouco menos profissional. Chegando ao apartamento de Laura, um lugar frio e impessoal, com as mesmas cores do escritório que deixáramos horas antes, percebi que não era como ela. Parecendo um quarto de hotel, com um belo quadro na parede e alguns poucos móveis distribuídos pelo espaço, aquele lugar não condizia com a convicção de Laura em mudar. Até que a luz intermitente da secretária eletrônica chamou minha atenção. (Beap) “Oi Laurie! Tentei retornar sua ligação mais cedo, mas seu celular estava desligado. Quando puder, me liga para a gente combinar algo. Saudades das suas risadas!” (Beap). Após a mensagem animada da amiga, mudei meu ponto de vista. Talvez o equilíbrio que ela busca em suas realidades seja apenas uma questão de tempo e não de atitude. Quanto a mim, pode me chamar de worklover, uma pessoa que adora o que faz, mas que também ama o mundo além desta sala e deste computador.

caviar SUSHI Marian Keys Editora Bertrand 574 páginas Reprodução

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Foto: André Rosseti

Antes de mais nada, esse não é um livro de receitas para workaholics orientais. Sushi é um romance divertido sobre as vidas de três mulheres em que o trabalho desempenha um importante papel. É divertido, despretensioso e nada filosófico. Não é auto-ajuda, mas mostra que quando as coisas fervem sob a superfície, cedo ou tarde elas transbordam.

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Foto: Reprodução/ Erowid.org

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SALVOS PELO CHÁ » Por Natália Martino

Salto

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Do estreito caminho de terra, avistava-se três pequenas casinhas coloridas entre as árvores. Na última delas, os carros eram estacionados e calorosos cumprimentos trocados. "Tenha um bom trabalho hoje", é o que uns diziam aos outros em meio àquele delicioso cheiro de terra molhada. À medida que a hora marcada se aproximava, todos caminhavam para o quiosque recém-construído que aguardava ansiosamente sua inauguração. O novo ambiente de cerimônias trazia em seu centro uma mesa com a forma da estrela de cinco pontas devidamente enfeitada com flores e velas. Os homens vestiam ternos e sapatos brancos, gravatas azuis e, nas laterais das calças, duas listras verdes. As mulheres exibiam orgulhosas as camisas e saias brancas sob um adereço verde escuro que cobria a cintura e se estendia até o ombro, do qual pendiam as fitas coloridas batizadas de "alegrias". Na cabeça, a coroa simbolizando a rainha da floresta, e nos ombros de todos, pequenos broches da estrela de Davi. Era dia de Hinário do Padrinho Alfredo. Enfim, 10h. Todos devidamente posicionados: homens de um lado, mulheres do outro, divididos em solteiros e casados. Para os desavisados, lá estavam os fiscais, garantindo a posição de cada um. Após as primeiras orações, o presidente da cerimônia grita eufórico: Viva o Mestre Irineu! E todos respondem: Viva! Viva o Padrinho Sebastião! Viva! Viva Jesus Cristo! Viva! É o início oficial do rito. Homens e mulheres bebem o adorado chá. Amargo, mas sagrado. Em seus lugares, portando apenas um livrinho com os hinos, os fardados cantavam e dançavam dois passos para lá, dois para cá. Viva o Padrinho Sebastião! Viva! A sanfona, o violão e o atabaque davam o tom, enquanto uma novata chorava e ria ao mesmo tempo, balançando de um lado para o outro. Ela passou mal: era o chá tirando o que havia de ruim dela. Mas a novata, em sua saia colorida em meio ao branco reinante do dia, não se incomodava: tomava mais um pouco de chá, dançava, ria e chorava. Viva o Mestre Irineu! Viva! O sol, que já percorreu mais da metade do seu percurso diário, evidencia o voar do tempo: já passa de 4h da tarde quando o primeiro intervalo é concedido. Cem hinos depois do início, é hora de comer e descansar. Duas horas de pausa e Viva Jesus Cristo! Viva! De volta ao trabalho, novos hinários, novas lágrimas, novos sorrisos. Os chocalhos nas mãos dos fardados acompanhavam os músicos e os sorrisos nos rostos expressavam o sucesso dos trabalhos do dia. Viva Padrinho Alfredo! Viva! Outros 190 hinos, muitas horas depois e a noite já avançava. Pouco antes do relógio anunciar a chegada da segunda-feira, a cerimônia termina. Todos se abraçavam afetivamente e diziam o quanto havia sido bom bailar um ao lado do outro. Viva o Santo Daime! Viva!


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se tudo começou no big bang, tinha que acabar no big mac

Arte sobre trecho da música Big Bang, de Caetano Veloso e José Miguel Wisnick


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Revista Beluga  

Trabalho de conclusão do Curso de Comunicação Social

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