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Não posso dizer, é segredo...

O Francisco ia fazer anos, cinco, todos feitos na mesma mão, levantada, de dedos bem esticados no ar, a afirmar isso mesmo. O pai estava muito orgulhoso do seu filho, tanto que, às vezes, até se sentia maior e mais forte. O seu rapaz era já um homenzinho. Sabia fazer coisas de gente grande, façanhas que o pai contava, repetidamente, a vizinhos e amigos - sem necessitar de contextos ou pretextos. Todos sabiam que o Francisco já tinha plantado duas árvores: uma figueira, que ele soubera do pai que, no próximo ano, seria bem maior do que ele. E um sobreirinho que levaria muitos anos a crescer, mas que um dia, teria muitas vezes o tamanho de quem agora ali o colocava delicadamente na terra. Dissera-lhe o pai tudo isto enquanto ele, delicadamente, com as suas mãozinhas, esboroava alguns torrões no regaço da ténue arvorezinha. Além de grande plantador de árvores o Francisco sabia também colher ameixas e uvas, e comê-las, ali mesmo, às sapatadas às abelhas e às vespas que o queriam ajudar, e ele não deixava. E dava milho e couves às galinhas e a uns patos que, à saída do ovo, baptizara um a um com verdadeiros nomes: o Patolas, o


Eriçado, o Bruto, o Fugidio e o Cisne; que era um pato todo branco com ares de príncipe encantado... O pato que o pai mais gostava e ele menos! E sabia palavras difíceis, como cintilantes, que era o que ele chamava às borboletas, soletrando a palavra com sons frescos e coloridos. E, tão novo, tinha feito já descobertas extraordinárias; coisas de cientista-investigador já com muita rodagem: no último passeio pelo campo tinha descoberto uma patada de um Dinossáurio, ainda fresca, com as marcas da pele do bicho no lamaçal, enormes, a lembrarem o rodado do pneu de um tractor. Na noite de véspera do seu aniversário o Francisco, perdido nos horizontes celestes, espantado, voltava a interrogar-se porque chamariam Ursa àquele conjunto de estrelas, sem pele nem rosto, que mais pareciam um papagaio de luzes de natal. Depois descobriu uma nuvem grande como uma baleia, que estava enrolada como um cachecol à volta da lua, e pensou - tanto que eu gostava de poder pegar-lhe. O pai que o acompanhava, perguntou-lhe para onde olhava ele com tanta atenção, e depois de ele lhe responder, disse-lhe: – A mim parece-me mais um lençol (talvez o pai estivesse com sono! digo eu...) – e acrescentou – mas a esta distância não se vê lá muito bem.


– Pois é!.. – concordou o Francisco, que não tinha vontade de contrariar o pai àquela hora da noite. E lá ficaram os dois de nariz no ar a olhar para a lua – que bonito! Estas últimas estórias o pai não conta, ou porque se deverá esquecer, ou porque talvez ainda não as saiba contar bem. Com um filho destes qual seria o pai que não estaria a rebentar de orgulho, digam lá!... Foi assim que o senhor António se lembrou de fazer uma grande festa para celebrarem o aniversário do rapaz, uma festa a sério, como ele repetia à senhora Florbela, a mãe do Francisco. Convidaram todos os amigos: dele, da mulher, da filha e do filho, e os vizinhos lá do monte que eram amigos de todos eles; mais de cinquenta pessoas, fora a criançada. No dia da festa, o frenesim foi geral. Levantaram-se todos muito cedo. O Francisco, a irmã e uns primos que tinham vindo para a festa decoraram a sala, a mãe e a avó fizeram bolos e assados no forno, o pai passou a manhã a tirar o pó às garrafas da adega do avô. O avô foi à pesca... sem o Francisco saber; mas não apanhou nada. A festa corria pelo melhor, muita comida, muita alegria, muitas prendas e o pai babado a dizer a toda à gente: – Parece que foi ontem, tão pequenino e agora é o que se vê!... O senhor António estava tão feliz que não resistiu à tentação de saber o que no futuro poderia esperar do seu fantástico menino; e


então, ali mesmo à frente de todos, perguntou ao Francisco o que é que ele queria ser quando fosse grande. Estava-se mesmo a ver que não era a melhor altura para fazer aquela importante pergunta. O rapaz ficou muito envergonhado e não respondeu. Não estaria ainda muito à vontade com o futuro para falar dele assim de qualquer maneira à frente de toda daquela gente. O pai, esperou um pouco mais pela resposta que não veio, e, nesse esperar, viu nos olhos do filho a inquietação e o silêncio; mas não conseguindo conter-se, insistiu: – Queres ser pintor? (o Francisco desenhava casas, pássaros, animais e abóboras fantásticas, com lagartas e tudo), ou engenheiro de gelados como o teu tio, ou arquitecto, como a tua mãe. Sobre ele mesmo, não disse nada, talvez porque todas as pessoas da festa o conhecessem demasiado bem... O Francisco não tinha mesmo vontade nenhuma de responder, mas sabia que o pai não iria desistir facilmente da sua resposta, e ainda por cima com aquela gente toda a olhar para ele, como se o estivessem já a acusar de alguma coisa que ainda nem sequer tinha feito. Então, encheu-se de coragem, levantou os olhitos para o pai e sorrindo-lhe, baixinho, respondeu-lhe: – Não posso dizer, é segredo... e repetiu - é segredo…


O pai, não ficou nada satisfeito com aquela resposta – então o seu filho tão pequeno e já tinha segredos para ele, isso é que não, tudo menos isso – e vai daí, muito vermelho, replicou, provocando-o: – É segredo, porque ainda não sabes? Não é verdade, confessa lá... Confrontado com o grande desconhecimento que o pai revelava dele o Francisco sentiu-se muito triste. Apetecendo-lhe fugir soltou os olhos lá para fora. Do outro lado da grande janela a folhagem do velho sobreiro, tremulando, sorria-lhe. Então, encheu o peito de ar, levantou de novo os olhos para o pai e, mostrando-se um pouco chateado, respondeulhe,: – Sei sim, senhor; quero ser um Índio... – Um Índio!. - exclamou o pai com os olhos muito abertos, parecendo estar com qualquer coisa atravessada na garganta. Os convidados também não ficaram com melhor aspecto. Pelas suas caras de espanto, poder-se-ia pensar que esperavam ser atacados por um enxame de vespas. Um deles, uma senhora muito larga que tinha os bigodes cheios de natas até ao nariz, disse mesmo: – ÓH que ideia, o rapaz não está bom da cabeça, ser índio, meu Deus!...


Quem é que se julgava aquela senhora para dizer uma coisa daquelas, pensou o Francisco, já muito irritado. E antes que se pudessem recompor da surpresa voltou à carga: – Sim, quero ser um índio, para caçar animais ferozes... – disse alto e bom-tom, para que ninguém ficasse com dúvidas sobre o que realmente ele queria ser quando fosse grande. Um Índio, à séria... A mãe, que entretanto tinha chegado à sala já no final da conversa mostrou-se um pouco preocupada, a fingir, claro, porque ela não acreditava bem naquela estória de ele querer ser um índio. Passoulhe então a mão pela cabeça, ternamente, e disse-lhe: – Mas, Francisco, ser Índio é muito difícil, tens de ir viver para longe de nós, para uma floresta no meio de cobras e aranhas venenosas e vais ter de viver numa cabana com frio e sem televisão. – Eu não tenho medo, nenhum... respondeu-lhe ele de imediato, acrescentando - As casas dos índios têm fogueiras e eles têm peles dos animais que caçam e por isso não têm frio... – respondeu-lhe o Francisco, que parecia saber tudo sobre índios, e florestas. A Carolina, a irmã do Francisco que também já era muito grande, e talvez estivesse um pouco chateada por não ter sido ela a ter aquela excelente ideia de ser índio, começou a dizer-lhe que não fosse, porque ser índio era muito mau e, além disso, índio era coisa que hoje já ninguém queria ser.


As outras pessoas que estavam na festa, e também não percebiam nada de querer ser índio, cochichavam, faziam perguntas em surdina umas às outras, e, no final, olhavam sempre para o Francisco como se ele já fosse um verdadeiro índio… Pensando que, deixando-o sozinho naquela sua ideia de querer ser índio, pensariam que ele iria desistir do seu grande sonho de caçador, calcorreador de florestas em busca de animais ferozes. Mas ele, que já sabia muito, e não se deixava enganar de qualquer maneira, saltou da cadeira, saiu voando da sala para a horta e voltou com uma lança - mesmo igual à dos Índios Selvagens, com bico e tudo -, que ele mesmo tinha feito.... E, de arma em riste, disse que se ia chamar “Dente de lobo”. Algumas pessoas fingiram então demonstrar grande interesse pela

lança

do

Francisco

e

ele

fez

questão

de

a

mostrar,

minuciosamente, a toda à gente e de explicar como se fazia para a lançar em voo sobre os animais. E depois disse que a lança também servia para tirar a pele aos ursos e aos leões, e até para mexer as brasas na fogueira. À sua amiga Felícia, que era uma senhora que gostava muito dele, confidenciou, que tinha outras coisas para ser índio: um arco e uma flecha que o pai tinha feito dos ramos de uma árvore do ribeiro, umas penas de um galaró, muito reluzentes, para enfeitar a cabeça em dias de festa e uns fios de uma planta para atar coisas e pendurar


os coelhos à cintura. O avô que também quis ver a lança, pegou nela e mostrando-se muito desolado disse: – Se eu a tivesse levado comigo tinha apanhado pelo menos uma dúzia de peixes, dos grandes… E lá ficou a contar ao neto como o teria feito e a descrever os tais peixes, de contornos e tamanhos nebulosos, porque o avô já via muito mal e os peixes dentro de água pareciam ser sempre bem maiores do que realmente eram. Os amigos do Francisco, que tinham assistido a tudo sem dar grande importância a nada, pararam de correr à volta da mesa e um deles, o Rodrigo, quando viu o Francisco com a lança, gritou – Boa, bora! Vamos todos lá para fora brincar aos índios. Os outros seguiram-no, gritando também: – Bora, bora, bora! – E lá foram todos a gritar como os índios, sincopando ua-uas com palmadas na boca. Rapidamente esquecido o incidente com o índio, e a sua intrigante arma de arremesso, a festa continuou com um senhor a mostrar um golpe num braço, feito por um javali em fúria – numa caçada mal conduzida. Uma senhora a dizer mal do corte de cabelo de uma amiga, duas raparigas a falarem de rapazes e a mostraram fotos deles no telemóvel e umas pessoas a falar do tempo, que não estava nem peixe nem carne, o que lhes provocaria grande transtorno.


De súbito, ouvem-se muitos gritos, uma grande algazarra lá fora, onde as crianças brincavam. As pessoas, assustadas, correram para ver o que teria acontecido. Era o pai do Francisco que, entretanto, tinha saído e comandava agora um comboio de índios que descrevia grandes círculos à volta de uma laranjeira, com quatro cães a ladrar atrás deles. Algumas das crianças apearam-se da marcha e correram a buscar os pais e os amigos e, rapidamente o comboio acolheu todos os participantes na festa, tornando-se numa longa centopeia, ululante e desengonçada. O

Francisco

não

quis

entrar

naquela

tonta

brincadeira,

regressou à sala para ouvir o avô contar histórias de ursos e cavalos selvagens...

Luka

Francisco g  
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