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Ă?mpar

#1/jan2014

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SUMÁRIO 5 cultura _indicações culturais

18 perfil

_aos oitenta _a novela de uma vida

6 entrevista _a identidade no envelhecimento

12 saúde

_aposentadoria: hora de continuar _entre a paz e o repouso forçado

26 social

_a melhor cara da terceira idade _brasileiros, cada vez mais idosos _uma vida mais ativa _eles reinventaram a velhice


40 ciência e tecnologia

58 colunas e crônicas

46 ensaio

65 cartum

_efeito dominó _a melhor idade da internet

_vitória do amor

_as cartas que não receberei _a espiral da vida _os olhos de benjamin button _quem é você?

_por carolina ito


Capa: Waldyr Charetti Foto: Paula Reis Universidade Estadual Paulista Reitor: Dr. Julio Cezar Durigan Vice-reitora: Dra. Marilza Vieira Cunha Rudge Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação Diretor: Dr. Nilson Ghirardello Vice-diretor: Dr. Marcelo Carbone Carneiro Departamento de Comunicação Social Chefe: Dr. Juarez Tadeu de Paula Xavier Vice-chefe: Dr. Angelo Sottovia Aranha Comunicação Social - Jornalismo Coordenador: Dr. Francisco Rolfsen Belda Vice-coordenadora: Dra. Suely Maciel Professores orientadores Francisco Rolfsen Belda Mauro Souza Ventura Tássia Zanini Reportagem Amanda Lima Amanda Tiengo Carolina Ito Isadora de Moura Leonardo Zacarin Lucas Leite Nayara Kobori Paula Reis Ricardo Coslove

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quem somos desta vez ser ímpar é ser único . Em cada edição, um novo mundo se abre em nossas páginas. Nós levamos até você o todo e não apenas uma parte. No primeiro número da revista, vamos falar sobre o tempo. O tempo que ora é nosso amigo, ora nosso inimigo. Não vemos o tempo passar; ele apenas se esvai de nossas mãos. Foi o tempo que nos fez crescer, falar, andar, chorar. Foi o tempo e nada mais. O tempo que nos faz envelhecer. E quantos já se perguntaram o que queriam ser quando crescer? E quantas pessoas já não quiseram atingir logo certa idade? Não discutimos o tempo que nos envelhece, porque acreditamos que somos intocáveis. Mas ele chega e traz rugas, cabelos brancos, novos valores, novos pensamentos e a vontade de viver. Muitas vezes encaramos a velhice como algo consumido pelo tempo, até mesmo esquecido. E não é. Envelhecer é apenas o começo. É algo natural do universo humano e tão distante ao mesmo tempo. Velhos ricos, pobres, gordos, magros, altos, baixos, alegres, tristes, ativos, esportistas, escritores e amantes. Velhos, sim, e nada mais. Sem estigmas, sem preconceitos, sem termos politicamente corretos. Porque todos nós somos velhos naturalmente. E somos únicos. Ímpar é única.

Nayara Kobori

edição_1


CULTURA

indicações culturais isadora de moura

para doer

para valorizar os amigos

para lembrar que tudo passa

AMOR, 2013 (Direção: Michael Haneke) George (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva) são um casal-de-uma-vida-inteira. Anne tem um derrame. Os dois precisam lidar com os obstáculos, os fantasmas e os limites da doença. O filme tem o toque da direção de Michael Haneke, conhecido por filmes com casais pouco convencionais.

O QUARTETO, 2012 (Direção: Yaron Zilberman) Um grupo de músicos prepara sua última apresentação quando descobre que um dos colegas foi diagnosticado com uma doença mortal. Os amores e as dores dos 25 anos de carreira do quarteto de cordas são revelados ao longo do drama de quase duas horas.

TUDO PODE DAR CERTO, 2009 (Direção: Woody Allen) Boris (Larry David) é um velho jogador de xadrez e ex-professor de uma universidade. Rabugento e pedante, é surpreendido por uma jovem que aparece na porta de sua casa pedindo abrigo. Ela se instala por lá, e parece que nunca mais irá embora. Mas ela irá. Como tudo na

para jogar a idade para o alto

para tocar no baile

para sentir

ALGUÉM TEM QUE CEDER, 2003 (Direção: Nancy Meyers) Harry (Jack Nicholson) é um executivo bem-sucedido que namora uma menina com idade para ser sua filha. Ao conhecer a mãe de sua namorada, Harry fica encantado e passa a disputá-la com Julian (Keanu Reeves), um jovem médico.

CHEGA DE SAUDADE, 2008 (Direção: Laís Bondanzky) O filme acompanha a história de cinco grupos diferentes de idosos, que se encontram em um baile de um clube de dança de São Paulo. Amor, solidão, traição e desejo são abordados, em uma mistura de comédia e de drama.

O SIGNO DA CIDADE, 2008 (Direção: Carlos Alberto Riccelli) Quatro personagens estão interligados porque ouvem o mesmo programa de rádio: o da astróloga Teca (Bruna Lombardi). Mostra como diferentes gerações dialogam e interagem com a metrópole, casamento, solidão e sexualidade.

vida.

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ENTREVISTA

O Conceito de Terceira Idade está presente no nosso dia-a-dia. Seja na mídia, na nossa família ou em estudos científicos. Mas será que entendemos quais são as implicações e porque utilizamos hoje terceira idade ao invés do termo velhice? Afinal, o que é ser velho hoje? Andrea Lopes é Antropóloga, formada em Ciências Sociais pela USP, com pós-graduação em Gerontologia. Atualmente, é Professora doutora e leciona no curso de graduação em Gerontologia da EACH- USP. Andrea coordena duas linhas de pesquisa que versam especialmente sobre envelhecimento e engajamento. Ela nos ajuda a entender como o idoso, ator social, tem se construído ao longo dos anos e como deve ser entendido o processo de envelhecimento. 6


a identidade no

amanda tiengo

Amanda Tiengo

envelhecimento

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ÍMPAR: Qual a definição de velhice? ANDREA LOPES: No Brasil, o Estatuto do Idoso definiu que a velhice começa com 60 anos. Então o que a gente tem hoje: a velhice é uma categoria etária, socialmente construída. A gente inventou que as pessoas de 60 anos ou mais podem ser entendidas como parte de uma fase da vida que chamamos de velhice.Esse reconhecimento legal e jurídico trouxe uma série de benefícios, direitos e deveres, para essa população. A definição de velhice é a mesma em qualquer cultura? Essa definição varia. Por exemplo, em países chamados desenvolvidos, essa idade é a partir dos 65 anos. Existem outras sociedades que eles entendem a velhice de uma outra maneira, por exemplo, existe um grupo indígena chamado Suya em que quem é chamado velho ou pertencente a velhice são aqueles que têm filhos e netos. Então, não importa se a pessoa tem 40 anos, já pode ser considerado velho. Neste grupo, a idade não é um critério central na organização das pessoas ao longo da vida. A gente tem também exemplos de sociedades religiosas afrodescendentes em que velho é aquele que tem mais tempo de experiência no terreiro. A velhice também pode ser organizada a partir de critérios subjetivos. Em nossa sociedade, como é definido o envelhecimento? O conceito de envelhecimento é diferente do conceito de velhice. O envelhecimento é um processo que se dá desde a concepção até a morte e esse processo é composto por uma série de determinantes, organizados em um conjunto de perdas e ganhos que vivemos ao longo da vida. Aspectos emocionais e cognitivos, questões bioquímicos, genéticos, socioculturais e ambientais se integram organizando quem nós somos e como nos constituímos ao longo do curso de vida. Nas sociedades ocidentais esse processo é divido especialmente em idades ou períodos etários que compõem nosso curso de vida. Como surgiu o conceito de terceira idade e a que ele remete? Esse conceito é resultado, do que aconteceu no cenário francês do pós-guerra. Na França, pós segunda guerra mundial, os idosos ficaram em condição de marginalidade muito grande, quase indigência social. Não tinham renda, sofreram muitas perdas e se tornaram muito vulneráveis. Então, o governo francês decidiu generalizar a aposentadoria. Toda pessoa idosa passou a ter direito à aposentadoria, independentemente se tinha contribuído ou não. Neste contexto, o vocábulo velhice era associado à marginalidade, decrepitude, denominações negativas. Os aposentados, por sua vez, começaram a circular em 8

outras classes sociais, especialmente a classe média. A classe média não queria se relacionar com esse imaginário negativo que se formou em torno da velhice. Então, nasce esse novo vocábulo que torna-se sinônimo de produtivo, de ativo, de bem-sucedido...e acho que isso se reforça muito com as universidades para terceira idade, que nascem na França também, no mesmo período. Os idosos começaram a frequentar as universidades e de fato, ganharam novos papéis e funções sociais. E aí esse vocábulo terceira idade é exportado para grande parte do mundo e de uma certa maneira passa, então, a reconfigurar a concepção do curso dessa fase da vida. Quais as consequências políticas e sociais da mudança desse conceito “velhice” para o conceito “terceira idade”? Esse conceito é positivo na medida que reúne os idosos em torno de aspectos bons dessa categoria etária. Então eles se vêm como uma categoria, um grupo organizado que tem também coisas boas e recursos diversos a ofertar e trocar socialmente. No Brasil, por exemplo, na década de 60, idoso era sinônimo de asilo, e deveria retirar-se da sociedade. Depois nas décadas de 70 e 80, quando esse conceito de terceira idade chega no Brasil, ele vem carregado de conotação positiva. Isso tudo dialoga também com o cenário político brasileiro. Em 1988 nós temos a promulgação da Constituição Cidadã. É a primeira vez que o idoso entra no cenário como cidadão que deve ser respeitado. Aí, na mesma metade do século XX, a gente tem a Política Nacional do Idoso, a gente tem os conselhos de idosos que organizam diversas ações políticas significativas para reivindicar, se organizar. A gente tem o surgimento da pós-graduação em Gerontologia, na Unicamp, depois na PUC. Nasce o Estatuto do Idoso, que passa a tramitar em Brasília. É nesse cenário que a gente tem as críticas ao conceito de terceira idade. O que acontece? Ao mesmo tempo que você tira o idoso da escuridão social, o que vem para a luz é só coisa boa. Só que o tempo todo, ao longo do processo de envelhecimento, o que inclui também a fase da velhice, nós estamos negociando perdas e ganhos biopsicossociais. A velhice e a vida, em geral, não é só composta de ganhos e aspectos positivos. Vivemos desafios, demandas e necessidades de inúmeras naturezas. Enfim, o conceito de terceira idade é bom porque ele reúne, dá visibilidade e credibilidade, mas ele é ruim, porque ele abafa as perdas, inibindo ações e a disponibilidade e vigor social em propor formas de lidarmos com as perdas, sem escondê-las ou negá-las. Eu não sou contra o conceito de terceira idade, mas desde que ele inclua o reconhecimento e o trato das perdas que vivemos ao longo do caminho de nossas vidas. O que essa mudança do termo “velhice” para o termo


Amanda Tiengo

“terceira idade” acarreta no modo de vida do idoso e em como ele entende sua própria identidade? Atualmente, percebo que os idosos não sabem muito bem se desejam ser eternamente jovens ou admitem que estão em uma nova fase da vida, a velhice. Essa contradição tem causado problemas muito graves. Quer um exemplo? Aumento de AIDS na velhice. Há um número enorme de idosos levando AIDS para dentro de casa, para suas esposas. O número que mais cresce de AIDS, isso pelos menos até o ano passado, era entre velhos. Quer outro problema? Superendividamento na velhice. Muitos idosos se envolvem no chamado crédito consignado. A ideia de superpotência na velhice, muito impulsionada pelos comportamentos associados e esperados das pessoas que compõem a terceira idade, coloca os idosos acima do bem e do mal, e aí começam a gastar ou pedir empréstimo. Eles não têm nenhuma orientação para o consumo. Uma das minhas áreas de pesquisa é a aparência na velhice. A gente faz pesquisa sobre isso e vimos que idosos investem dinheiro e tempo nesta frente. Às vezes, dois terços da renda vão para a aparência, especialmente tentando evitar parecerem velhos. Cremes caríssimos, cirurgias caríssimas, invasivas. Eles não sabem muito bem se eles devem ser jovens eternos para serem aceitos socialmente,

cujo comportamento subsequente deve ser liberado de qualquer responsabilidade, ou ainda se tem que investir naquela coisa dita e defendida por muitos “velho de alma jovem”. A juventude ainda é um valor muito apreciado por nossa sociedade, como um passaporte para as relações sociais entendidas como bem-sucedidas e aceitas como corretas. O modo de vida da “terceira idade” relacionada ao bem-estar, qualidade de vida, atividade e integração é um termo que pode ser aplicado para todas as classes sociais? Ou é um termo que está mais presente na classe média, por exemplo? A terceira idade é um produto, a gente compra. E é caro você se manter na terceira idade, não é um modelo ou estilo de vida barato. Infelizmente, a gente tornou essa proposta um produto de prateleira. Eu tinha essa impressão, que a compra, a aquisição desse produto era típico de classe média alta. Só que a gente fez uma pesquisa sobre aparência em um condomínio de idosos de baixa renda. Como eu disse, a gente foi investigar consumo de aparência, se eles consumiam produtos para manter a aparência. Entrevistamos homens e mulheres idosas. Depois nós comparamos com uma mesma pesquisa realidade 9


Amanda Tiengo

na Universidade Aberta a Terceira Idade da EACH USP, cuja a amostra era composta especialmente por pessoas de classe média. Ambas as amostras apontaram resultados muito semelhantes. Ambos os grupos de idosos gastam dinheiro consomem aparência e de certa maneira, para se manter dentro daquele padrão juvenil que é aceitável hoje. Então eu acho que, respeitando as devidas proporções, esse modelo e expectativa social são generalizados. O fato de o idoso manter-se ativo, que acompanha o conceito de terceira idade, torna ele mais presente na sociedade. Como a identidade do idoso é notada? Estamos preparados para lidar com o idoso ativo? A identidade de velho se sobressai acima de qualquer outra identidade posterior que ele já tenha vivenciado. Eu acho esse preconceito com relação a velhice está muito ancorado no medo que é do humano, que é o medo da finitude. Então, infelizmente o velho encarna esse papel de que vai morrer a qualquer momento. Quando que, nós temos duas únicas certezas, que a gente está neste momento envelhecendo e que a gente vai morrer um dia, não importa a idade. Reforço, em qualquer idade a gente está envelhecendo e em qualquer idade a gente vai morrer. E é horrível a associação de que velho é igual morte. Essa dificuldade que a gente tem de lidar com a morte a gente projeta na pessoa velha e parece que a gente evitando essa pessoa, a gente está evitando a morte. Porque a morte pertence a qualquer ser vivo, a qualquer momento. Então, eu acho que isso continua sim, reforçando todos os preconceitos e dificultando a formação de um leque de possibilidade de ser velho e se identificar com a velhice. O que seremos na velhice, depende da vida que 10

vivemos anteriormente. Somado a morte, associasse a velhice com um conjunto de perdas que devem ser combatidas, mas como fazemos isso tardiamente? Entender e acolher o idoso ativo significa construir um cidadão ativo ao longo de toda a sua vida, sabendo que dificuldades podem acontecer a todo momento e que precisamos, como indivíduos e sociedade, nos prepararmos para os diversos desafios do mundo atual. Existe ainda o conceito de envelhecimento ativo, sendo o seu objetivo melhorar as condições para o envelhecimento. Como surgiu esse conceito e no que ele consiste? A ideia central desse conceito é promover, principalmente prevenção e criar espaços de inclusão da pessoa idosa. Os pilares que organizam esse conceito apresentado pela OMS são Saúde, Segurança e Participação. A Educação vem integrando essas ações. A ideia dos países que se filiaram, aderiram a esse conceito, é que promovessem oportunidades e estratégias para que as pessoas tivessem recursos provenientes desses pilares de ação para que possam ter um envelhecimento mais integrado. No ano passado eu ministrei uma disciplina e nós fizemos um levantamento bibliográfico sobre o conceito de envelhecimento ativo e notamos que esse conceito no campo científico está muito ligado ainda a ideia de atividade física. O que não faz jus ao conceito, porque ele não é só isso. A proposta do conceito é você oferecer uma série de oportunidades para as pessoas coordenarem seu curso de vida de maneira digna e ampla. O conceito é bacana porque avança. Ele dá visibilidade e diversifica as demandas, mas assim como o conceito de terceira idade ele vem sendo usado de qualquer jei-


Amanda Tiengo

to. A gente tem que pensar também nos idosos que não podem ser ativos em nenhuma das frentes. O que fazer? Ignorar esse idoso com demência avançada, por exemplo? Eu acho que a gente tem que olhar para a diversidade na velhice. É a heterogeneidade que vai nos trazer as respostas em termos de atendimento, de atenção aos indivíduos que envelhecem, em qualquer idade desse processo. Quais são as diferenças entre os campos de estudo da Geriatria e da Gerontologia e quais são as contribuições dessas duas áreas para o entendimento do envelhecer? A Gerontologia é uma grande área do saber dedicada ao estudo e atuação junto ao processo do envelhecimento e a velhice. A Geriatria é uma parte da Gerontologia, a atenção clínica, médica. A Gerontologia é um campo mais amplo que abarca o estudo e ações de caráter biopsicossocial. Quem quer ser geriatra precisa se formar em medicina. No caso da Gerontologia, nós temos formação desde a graduação até o doutorado. O graduado em Gerontologia, ou gerontólogo, atua na gestão da atenção da velhice e do envelhecimento, procurando atender e promover a atenção integrada. Quem faz pós-graduação em Gerontologia usualmente tem formações diversas e procura especializar a atuação ou compreensão da velhice e do envelhecimento. E quanto a SBGG, a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia? Qual é o papel dela para o entendimento do envelhecimento? É uma sociedade científica e profissional. Ela promove congressos, divulga a Gerontologia, dando espaço para

produção científica, além de administrar os títulos de Geriatria e especialista em Gerontologia. Ela é um dos principais agentes sociais de promoção do envelhecimento no Brasil desde o início da segunda metade do século XX. É um agente importantíssimo, mas hoje, não é mais o único. Hoje a gente tem as pós graduações, graduações, especializações, cursos de cuidadores, etc. Então hoje, eu acho que a questão do envelhecimento já está em outro patamar, e tem mais gente interessada e disposta a colaborar, inclusive os próprios idosos, que devem sempre se organizar em prol de suas demandas e necessidades. Quais os principais desafios da Gerontologia nesse cenário que discutimos? A Gerontologia tem alguns desafios que a SBGG já tinha na década de 60, mas hoje eles estão reformatados e ganharam mais evidência. Em primeiro lugar, seria contribuir para a desconstrução dos mitos e preconceitos ao redor da velhice e do envelhecimento. Acho que o desconhecimento gera muito preconceito. Um outro desafio é construir uma área de atuação profissional e pesquisa forte e reconhecida. Um próximo desafio nosso é produzir mais conhecimento científico. Nós precisamos que os órgão fomentadores e as universidades nos auxiliem e nos financiem. E, por fim, um outro desafio é pegar essa quantidade de pesquisa que a gente já tem e distribuir conhecimento para a população em geral por meio de ações diversas. Informar a mídia, informar os indivíduos, os governos e criar tecnologias de atendimento ao idoso e aos indivíduos e grupos ao longo da vida, que sejam mais próximas das demandas inerentes à diversidade e desigualdade social que o Brasil ainda enfrenta. 11


SAÚDE

ricardo coslove

uma vida mais ativa A idade vem chegando e, com ela, os problemas de saúde começam a aparecer. Conforme vamos ficando mais velhos, tudo aquilo que fizemos ou deixamos de fazer durante a nossa juventude, vem como uma avalanche de recompensa ou mesmo penitência. A todo momento ouvimos médicos, educadores físicos, nutricionistas, treinadores esportistas defendendo os benefícios do exercício físico em nosso corpo e mente, mas e na terceira idade, quais os seus impactos? Dor nas costas, artrite, artrose são problemas que tem grande incidência em pessoas com idades mais avançadas, e eles podem ser evitados, ou pelo menos, diminuídos. Segundo a fisioterapeuta Karina de Lima Dias, os exercícios físicos são imprescindíveis para quem quer manter uma vida saudável, seja jovem ou idoso. “Os 12

exercícios físicos são muito benéficos para quem têm ou quer evitar problemas de saúde decorrentes da vida sedentária, é claro que o exercício deve ser acompanhado de perto, adaptado à realidade da pessoa, principalmente para quem está na 3ª idade.” Dona Jaci, 84 anos, há alguns anos sofreu uma queda e feriu os joelhos e bacia, depois disso, qualquer atividade que parecia simples, para ela, era uma dificuldade grande. Há 3 anos começou a frequentar aulas de pilates e já sente os benefícios “Não conseguia andar direito depois do acidente, subir escadas, agachar para pegar algo no chão era impossível. Estava me sentindo sozinha e muito dependente. Hoje tenho vontade de sair, cozinhar para meus filhos, viver!” O pilates é uma técnica recente de reeducação e


13 Ricardo Coslove


José Soares

conscientização corporal. Por meio de exercícios com movimentos lentos e fluentes, trabalha o alongamento, tonificação e aumento da força muscular. É indicado para qualquer idade e tem grande aceitação pela população mais velha por ser adaptado e personalizado a cada pessoa individualmente. Os benefícios vão além do físico, trabalhando também a auto estima e concentração. “No pilates nós conseguimos montar uma sequência de exercícios personalizada para cada problema que o idoso tem. Se ele está com problema de articulação, coluna o exercício precisa ser diferenciado. Usamos aparelhos que facilitam a realização das atividades, dando mais confiança e segurança para os mais velhos”. Vôlei na 3ª idade Quando falamos de esportes na 3ª idade, pensamos em exercícios chatos, de repetição, adaptados e sem emoção. Mas a realidade não é bem essa. José Eduardo Goulart Soares é educador físico e trabalha há algum tempo com esportistas de idade mais avançada, especialmente na modalidade vôlei, em que se especializou. O vôlei para terceira idade é adaptado, mas na prática funciona como o vôlei tradicional. Dentre as adaptações, que são em sua maioria téc14

nica, está a possibilidade de o atleta agarrar ou abraçar a bola, está que é um pouco mais murcha, para facilitar a pega dos esportistas. Essa modalidade de esporte é tão difundida e procurada que existem competições para essa categoria em níveis municipais, estaduais e federais. “Não há uma idade para a prática do voleibol adaptado, mas as competições são a partir de 50 anos de idade, em alguns campeonatos, o campeonato estadual é a partir de 60 anos de idade, conforme o Estatuto do Idoso”, afirma José Eduardo. Alguns campeonatos esportivos para a 3ª idade JORI – Jogos Regionais do Idoso - É uma competição realizada pelo Fundo Social de Solidariedade do estado de São Paulo, juntamente com as secretarias de Esporte e da Educação, as cidades são divididas em várias regiões dentro do estado de São Paulo. Os jogos acontecem em uma cidade sede, onde ficamos alojados em escolas, por uma semana. Disputamos as modalidades de Atletismo, Bocha, Buraco, Malha, Damas, Natação, Voleibol, Dança de Salão, Coreografia, Xadrez, Dominó, Tênis, Tênis de Mesa, Truco, algumas são modalidades mista e outras são mas/fem. JEI – Jogos Estaduais do Idoso - Somente os campe-


José Soares

ões e os segundos colocados de cada modalidade estão classificados para o JEI – É o encontro de todos os campeões do JORI de cada região sede, daí saem os campeões do Estado. JOBI – Jogos Bauruense do Idoso - Realizado na semana do Idoso, somente em um dia, também com as mesmas modalidades do JORI. As entidades que trabalham com este público indicam os atletas e faz-se uma grande festa na cidade. José Eduardo afirma que as competições vem como um estímulo natural para os esportistas e não devem ser entendidos como algo negativo. “Nestes jogos, o grande barato não é a competição, e sim o congraçamento (confraternização) de todos os atletas”. Os benefícios vão além do físico Com o tempo, os problemas de saúde começam a aparecer, junto com eles, a dependência e a não aceitação da realidade pesam na cabeça do idoso. É nesta fase que problemas psicológicos surgem, tais como a depressão, que leva a falta de ânimo e sentimento de tristeza profundo. O idoso não consegue mais realizar as mesmas atividades que realizava antes, como dirigir sozinho, se locomover com facilidade ou mesmo levantar de um sofá

mais macio. Essa incapacidade acaba gerando um mal-estar profundo, que se não tratado, pode levar a problemas mais sérios. Segundo a fisioterapeuta, Karina, o idoso precisa de atividades que prendam a sua atenção, sejam elas as mais simples possíveis. “Quando o idoso começa a fazer exercícios físicos, o ânimo, a disposição dele volta a surgir. É neste momento que a família deve participar. Ir ao mercado e dividir as compras em mais de um dia na semana, caminhar em um local que não ofereça risco, visitar familiares, são atividades que somente trarão benefícios”. Dona Jaci confirma que após começar as aulas de pilates, o sorrisão (que não saiu nem por um momento durante esta entrevista) voltou a ficar estampado no rosto. “O pilates foi maravilhoso, agora tenho disposição, não quero mais ficar parada em casa”. A fisioterapeuta lembra ainda que o idoso não deve se sentir incomodado em nenhuma prática de atividade que vá realizar. “Os exercícios devem ser prazerosos. O idoso não pode em hipótese nenhuma sentir-se pior após a atividade física, mas o contrário. Por isso a necessidade de se pesquisar e conhecer os profissionais que irá acompanhar os exercícios. 15


entre a paz e o repouso forçado amanda lima

Luciano Perri era chamado em curtos intervalos pelas idosas enquanto conversávamos ao pé da janela. Dona Dulce, sentada na cadeira de rodas, queixava-se de dores no corpo e pedia que ele a deitasse. Ele atendia ao pedido e a senhora, segurando-lhe as mãos, perguntava-lhe sobre o namoro e o abençoava. Estávamos em um dos quartos da Vila Vicentina, abrigo para idosos localizado em Bauru, no interior de São Paulo. O requisitado rapaz é enfermeiro na instituição, além de atender outros pacientes em domicílio. De sorriso reconfortante estampado no rosto, ele responde aos chamados com urgência.

Lá vivem 48 pessoas entre 74 e 125 anos. O abrigo é uma das chamadas Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) brasileiras, caracterizadas pela Anvisa como instituições governamentais ou não governamentais destinadas ao domicílio de pessoas com idade igual ou superior a 60 anos em condições de liberdade, dignidade e cidadania. Nelas, profissionais como Luciano acompanham idosos com diferentes graus de dependência, definidos de acordo com o nível de autonomia desses moradores. Apesar de o envelhecimento da população apontar para políticas que promovam locais desse gênero

¹ Dados da pesquisa “As instituições de longa permanência para idosos no Brasil”, realizada em 2010 por Ana Amélia Camarano e Solange Kanso e da qual participaram 3295 instituições

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Amanda Lima

Amanda Lima

Hospital Geriátrico e de Convalescentes Dom Pedro II

Instituição de Longa Permanência para Idosos no Jaçanã

e beneficiem a terceira idade — até 2012, havia 24,8 milhões de idosos no país —, a pouca disponibilidade de serviços ainda faz com que as ILPIs sejam vistas de forma negativa pela sociedade. “Infelizmente, o asilo ainda é confundido com exílio. Você tira o idoso da comunidade, da vida social, e impõe a ele uma vida cheia de limites”, aponta Luciano. No Brasil existem mais de 3500 instituições como a Vila Vicentina, das quais 65,2% são de natureza filantrópica e apenas 6,6% são mantidas pelo governo — o correspondente a 218 instituições, suficientes para abrigar menos de 1% da população idosa do país¹. Para se ter uma ideia, a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) de São Paulo mantém apenas nove ILPIs, com capacidade para atender até 360 idosos. No entanto, o número de paulistanos com 60 anos ou mais ultrapassa a faixa de 1,3 milhão, com crescimento de 35% na última década. Silvana Sidney, doutora em Enfermagem e gerontóloga titulada pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), destaca a importância das ILPIs. “Hoje já encontramos nessas instituições pessoas idosas que escolheram morar lá. O que precisamos é disponibilizar ILPIs de qualidade, em que os profissionais sejam realmente qualificados para atuar e atender às necessidades dos institucionalizados”, pontua. Durante a visita à Vila Vicentina, Dona Iracema me responde, a olhos e passos lentos, o que pensa sobre viver em um asilo. “Não gosto, mas o que posso fazer?”, lamenta. Casos de abandono e violência ou a própria ociosidade em que os idosos se encontram nas casas de repouso geram infinitos casos de depressão. “A gente faz o possível para que eles saiam, pratiquem outras atividades, mas é difícil, porque muitos não andam sozinhos”, observa Eduardo Kenji, psicólogo de uma das ILPIs públicas da capital, localizada no bairro do Jaçanã. Nesse sentido, o enfermeiro Luciano reconhece que “o cuidador

[de idosos] precisa ter a sensibilidade para que a pessoa de que cuida não perca seus sonhos e adoeça de vez”. Hospitais geriátricos e iniciativa privada Diante desse cenário, famílias que se veem impossibilitadas de oferecer cuidado a idosos buscam outras alternativas. Para altos graus de dependência, existem os hospitais geriátricos, cujo corpo de profissionais engloba médicos e enfermeiros responsáveis por cuidados nem sempre encontrados em asilos. Um exemplo desse tipo de instituição é o Hospital Geriátrico e de Convalescentes Dom Pedro II, gerido pela Irmandade da Santa Casa de São Paulo e atualmente com disponibilidade para até 500 leitos. Entre a realidade e o ideal, repousa a iniciativa privada, que financia locais como a Agerip, uma associação sem fins lucrativos localizado a 6 km de São José do Rio Preto e a 440 km da capital. É lá que vive o pai de Leticia Affini, paciente com Alzheimer. “Conhecemos os dirigentes de lá, são amigos da família”, comenta. A proposta da Agerip é fornecer atividades culturais, sociais e esportivas a pessoas com 50 anos ou mais. Para usufruir desses serviços, é preciso tornar-se um associado através da compra de um título, cuja aprovação depende da capacidade de se viver em sociedade. Ainda que a disponibilidade de ILPIs públicas e até mesmo privadas seja escassa, muitos idosos continuam a viver em suas casas. Em São Paulo, por exemplo, o número de idosos que moram sozinhos supera 3 milhões. No entanto, para contratar um cuidador que os acompanhem em domicílio, é preciso desembolsar em média R$100,00 por 12 horas do serviço. Em um mês, são mais de R$2000,00, gasto impraticável para muitos. “Ainda existem poucas políticas públicas nesse sentido, mas a população está envelhecendo e, conforme isso acontece, esses serviços devem ser aprimorados”, analisa Eduardo Kenji. 17


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PERFIL

aos oitenta amanda tiengo

Capivari, Distrito de Mombuca, interior de São Paulo, 1941. “Ô seu Ângelo, enterra essa menina que ela já morreu! O que você ta fazendo com esse cadáver?” – disse o parente ao pai da menina que não enxergava, não falava e só podia movimentar um dos braços. “Enquanto ela tiver respirando o último suspiro, ela não morreu”. E foi com a fé e a homeopatia de seu Ângelo, pai de Lydia Dionísia Martins Amgarten, na época com nove anos, que a menina voltou a enxergar, falar e andar depois de ser vítima de uma epidemia de meningite. “O meu pai me levou pra Capivari, no médico. Só tinha um médico naquela cidade. Chegou lá, o médico me deu uma injeção. Deu a injeção, parei de andar, não andava mais. Meu pai que contava, né?! Depois, no dia seguinte eu não falava mais. Em vez de melhorar eu regredia. Como meu pai gostava de cuidar com a homeopatia, ele lia muito, aí ele ligou lá pro médico e o médico falou: então leve sua filha lá pro sítio e cuide dela com a sua homeopatia, porque aqui não tem mais remédio pra ela.” Enquanto o pai de Lydia cuidava da menina, a febre foi espalhando pelo bairro e seu Ângelo ia distribuindo o remédio para quem ficava doente. Chá de folha de la-

ranjeira e homeopatia curaram a menina, passados quarenta dias. “Mas foi depois de tempo que eu comecei a andar de tão magra que eu tava, só tinha pele em cima do osso, eu não tinha força pra ficar de pé. Eu sei que foi uma história aquilo lá.” Passado esse episódio, Lydia voltou a ser a menina sapeca que subia no pé de laranja, no pé de manga e gostava de estar no meio de todo mundo. “Desde criança eu já era atrevida”, conta Dona Lydia. Ela ainda acrescenta que não teve muito estudo, “porque na roça, na fazenda só tinha o primário, né?! Depois do primário tinha que ir pra cidade, completar. Mas eu não pude, porque era muito longe e depois eu casei, com dezoito anos eu já tava me casando”. Dona Lydia conheceu Seu Dito nos bailes da fazenda. “Gostava de me arrumar, eu ía nos bailes no sítio, nas fazendas... e como tinha mais cavalheiro do que dama, então eles brigavam por causa de dama, sabe? E eles sempre tiravam eu primeiro. Se eu não queria dançar com algum, porque era feio ou não sabia dançar, ele ia embora, tirar outra. Mas naquela rodada eu não saía mais pra dançar, se eu saísse dava briga”, ri. Seu Dito tocava 19


eu queria me aparecer”, ri, “me achar bonita, mostrar minha saúde, minha beleza. Se a outra tava bonita, eu queria ser mais bonita ainda,”, brinca. Naquele ano, ela ficou entre as três primeiras colocadas, sendo a Primeira Princesa do concurso. Mas não era o suficiente. Depois de três anos, encontrou uma nova oportunidade e representou o Grupo dos Aposentados. A representante oficial tinha quebrado o pé e precisava de alguém para substituí-la. Dona Lydia conquistou outra vitória, foi a Miss Elegância. Alguém ainda duvida da vaidade dessa senhora? Depois de quase dada como morta, com ela mesma conta, aquela menina fraca que não falava, não se mexia, não enxergava e até mesmo ficou careca, chegou à terceira idade preocupada com a sua beleza, mas antes de tudo com a sua saúde. “Eu vou sempre no médico e to tomando medicamento direto. Tudo que a geriatra fala lá, eu faço. Não esqueço dos meus remédios, nenhum dia.” Para Dona Lydia, estar na terceira idade significa um estado de saúde, lazer e por que não, conhecimento. “No grupo dos idosos tem muita palestra sobre saúde, palestra sobre educação...”. Além de tirar Lydia da solidão, para ela é fisicamente bom participar do grupo “A gente aprende a dar mais valor pra saúde, acompanha...Tem piscina, natação, hidroginástica, tem bastante coisa. Tem atividade pro tempo todo.” Enquanto ainda não pode participar de outro concurso de Miss, porque não é permitido que uma candidata participe de concursos consecutivos, Dona Lydia aguarda o próximo. O que ela quer mesmo é o primeiro lugar.

Amanda Tiengo

clarinete no conjunto e nos intervalos paquerava Dona Lydia. “Quanto a gente se divertia!”, recorda. Foram dois anos de namoro até que se casaram. Dois anos depois de casada, Lydia teve a primeira dos sete filhos. Depois de quatro anos, saíram do sítio para morar em Indaiatuba, também no interior de São Paulo. “Viemos porque meus pais mudaram pra São Paulo e eu fiquei sozinha lá”. Em Indaiatuba, começaram a trabalhar no comércio. “Tivemos um bar, depois tivemos uma mercearia. Ia vendendo uma coisa e comprando outra.”, explica. Como sempre gostou de lidar com o público, depois de vender o segundo bar, Lydia passou a ser vendedora autônoma das lojas do Baú. “Trabalhei pro Silvio Santos vinte e cinco anos!”, brinca. Depois que se aposentou, Lydia passou a cuidar da casa. “Comecei a ficar cansada, aí não quis trabalhar mais. Só trabalhava em casa. E é o que eu to fazendo agora.” Cuida da casa e das plantas. Mas não deixa de falar sobre a limitação física da idade. “As coisas que dependem de movimento, força, carregar peso, alguma coisa aí não dá pra aguentar mais”, explica. Hoje, aos 81 anos, Dona Lydia não quer mais saber de solidão. Há 6 anos participa de grupos da terceira idade. “Fui pra encontrar com os amigos, arrumar amizade, pra conversar bastante. Nessa, eu vou fazer passeios. A cada dois, três meses eles levam a gente pra fazer excursão, levam pras fazenda aí, passear, pra outra cidade e eu gosto.” E foi lá que, em 2009, ficou sabendo do concurso de Miss Terceira Idade e não hesitou em participar. Vaidosa, Lydia conta porque tomou essa decisão. “Porque

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a novela de uma vida Uma família sai de Alagoas para tentar a vida no interior de São Paulo com a certeza de que teria um futuro melhor. É a década de 1940. Pai, mãe e os doze filhos embarcam em um navio em direção à Marília. Bastiãozinho, o filho mais velho, mira o horizonte de um mar que parece não ter fim. Assim que chegam ao destino, começam a trabalhar nas primeiras lavouras de café e algodão. Embaixo do sol quente, as crianças ajudam a mãe a colher os grãos, enquanto ela os aconselha de maneira enfática: “vocês não fiquem gastando dinheiro pra voltar pro Norte, porque o Norte bom é aqui!”. No cultivo da terra ainda virgem começa a história de Sebastião Nascimento que, desde criança, conhece a importância da família e do trabalho. Hoje, com 77 anos, ele conta sobre os tempos de menino. “Não tive infância, comecei a trabalhar direto com meu pai na 22

idade de 6 anos”. Sem dúvida, uma vida cheia de perdas, superação, aventuras, amizades e muito trabalho... A seguir, eu poderia dizer que a próxima novela das 6 está para estrear, mas essa história não foi feita para um canal televisão. Essa é a história contada por um aposentado que, gentilmente, aceitou falar comigo durante uma tarde quente de sábado. Seu Sebastião, como bom contador de causos, tem uma memória que lhe permite fornecer detalhes sobre a vivência na cidade de Marília (centro-oeste de São Paulo), onde cresceu e formou família. Em alguns momentos, sua esposa, Maria Nascimento, o interrompe pedindo que conte a versão resumida de certos episódios, sabendo que o companheiro se alonga em minúcias como datas, apelidos e expressões faciais. “Fala um pedacinho, só!”, diz Maria em tom de brincadeira.


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O que é infância? Sebastião nasceu na cidade de União dos Palmares, em Alagoas, no dia 25 de março de 1936. Quando completou cinco anos de idade, seus pais decidiram se mudar quando souberam das oportunidades na jovem cidade paulistana. Uma viagem sem volta. Logo na infância, ele teve que se habituar à rotina de trabalho na lavoura, onde aprendeu com o pai o ofício pelo qual se dedicaria por muitos anos. Derrubar a mata no território das fazendas também era sua função. “Quando caíam aquelas árvores, parecia que ia cair o mundo em cima da gente!”, conta, relembrando a sensação de espanto e medo. Os estudos começaram tarde, quando tinha 11 anos, mas não tiveram continuidade. As punições físicas da professora da época, os colegas que o zombavam por gaguejar e o acanhamento diante das meninas da escola, o desmotivaram a continuar estudando. Aos 15 anos, Sebastião – ou “Santo”, como os irmãos o chamavam – teve sua primeira grande perda. A mãe falecera por conta de um câncer no estômago que, na época, não tinha tratamento. Depois disso, o pai começou a beber e ter atitudes violentas em casa. “Meu pai começou a ficar muito agitado comigo”, lembra, acrescentando que o pai já era agressivo antes e que a morte da esposa havia piorado seu comportamento. Assustado, decidiu fugir de casa aos 16. “Mas eu ia pra onde, minha filha? Eu não sabia pra onde que eu ia...”. Andou vários quilômetros mata adentro até que ouviu o canto de um galo. Mesmo sozinho e cansado conseguiu raciocinar que “onde canta um galo mora gente”. 24

Passou a morar e trabalhar com uma família que o acolheu. Depois disso, pode rever os irmãos poucas vezes, até que o pai foi preso por conta de uma briga que resultou na morte de outro alagoano. Aos 17 anos, viu-se sozinho novamente, com os irmãos mais novos para cuidar. Com sua considerável experiência de trabalho e a ajuda de pessoas mais velhas, passou a plantar amendoim, algodão e arroz para sustentar a família. O que é velhice? Depois de conhecer a esposa, aos 23 anos, aprendeu a ler. Foi servente de carpinteiro, pedreiro, arrendou terras e, com a intenção de ajudar amigos e parentes, aceitou ser fiador de 8 pessoas que acabaram falindo. Teve que arcar com as dívidas e perdeu quase tudo. Um choque para a família que hoje é composta por sete filhos, dezesseis netos e nove bisnetos. Sebastião e Maria ganham aposentadoria equivalente a um salário mínimo cada, realidade econômica vivida por muitos idosos brasileiros. Para ajudar com as contas da casa e para tentar distrair-se de um problema grave de saúde, ele passou a catar papelão quatro vezes por semana. A venda do material reciclável rende pouco, cerca de 25 centavos por quilo, mas ele não pensa em parar no momento. “Se quiserem que eu fique em casa, vou ficar olhando quem passa pra cima e pra baixo”, argumenta. E Dona Maria, que acompanhou toda a conversa, sintetiza sua história ao lado de Sebastião: “Olha, pra começar e terminar, nossa vida é um romance, uma novela.”


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SOCIAL

a melhor cara da terceira idade leonardo zacarin

volve projetos de marketing, resolveu inovar e lançar um movimento que cria novos ícones e tenta introduzi-los em estacionamentos. Gerenciadora de redes sociais e uma das coordenadoras da Garage, Fernanda Valéria Oliveira acredita que os idosos, atualmente, não podem mais ser representados por ícones tão simplistas: “Os idosos são muito mais ativos e produtivos do que aquela plaquinha demonstra”, afirma. O movimento Nova Cara da Terceira Idade começou há quase dois anos e pensou em propor à AssoReprodução/novaterceiraidade.com.br

Uma pessoa equilibrando seu corpo em uma bengala ou alguém com uma das mãos nas costas, como se estivesse sentindo dor, e a outra apoiada no bastão. Estas são as variedades mais comuns de ícones que indicam as vagas reservadas a idosos nos estacionamentos. Nenhuma das duas, porém, representa fielmente – e sem estereótipos ou generalizações – aqueles com mais de 60 anos. “O idoso de hoje em dia não é mais aquele que a gente vê na placa”. Foi com esse pensamento que a Garage Interactive Marketing, empresa paulistana que desen-

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Divulgação/fb.com/nova3idade

ciação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) um pictograma mais simples e que representasse os idosos de uma maneira mais fiel, abrangente e sem estereótipos. Para isso, reuniu mais de 1.100 desenhos – que poderiam ser enviados por qualquer pessoa –, colocou-os em votação popular e, com mais de 4.000 votos para o vencedor, chegou ao ícone que pode ser visto na imagem acima: um boneco que poderia representar qualquer outra pessoa, mas com os caracteres “60+” ao lado. O novo desenho já foi aprovado nos testes da ABNT e pode ser adotado por qualquer estabelecimento do Brasil. Segundo Fernanda, “isso é importante para mudar o jeito que a sociedade vê o idoso hoje em dia.” E parece que o Nova Cara vem obtendo sucesso. O projeto tem mais de 102.000 “curtidas” no Facebook, que foi a mídia escolhida pelo projeto para divulgar a imagem vencedora no dia 1º de novembro – dia do idoso. Mas o movimento não se utiliza apenas desta rede social. O perfil @nova3idade no Twitter é outra ferramenta explorada pelo Nova Cara, que também tem contas no Pinterest e no Youtube. O canal de vídeos, aliás, é talvez a mídia social que melhor ilustre o movimento. O perfil Nova Cara contém vídeos que tratam de diversos aspectos da vida e dos mais variados estilos de idosos, com entrevistas que contemplam do político Eduardo Suplicy até a simpaticíssima sambista dona Idalina. Diversas personalidades também aderiram ao projeto, como a atriz Cissa Guimarães, o apresentador Ronnie Von, o ator Paulo Goulart, o cartunista Laerte e o ex-atle-

ta Robson Caetano. Os depoimentos e opiniões deles sobre a terceira idade dão impressões também imensamente variadas, o que reforça a ideia de que é impossível generalizar e criar um ícone pictográfico que considere que todo idoso usa bengala e tem dor nas costas. Recentemente, o Nova Cara lançou um sítio na Internet onde é possível fazer download da imagem do novo símbolo para uso pessoal, conferir os lugares que já mudaram o ícone que indica as vagas de idosos e sugerir locais que ainda não adotaram o novo símbolo, mas seriam pontos interessantes para que a mudança acontecesse – tudo isso indicado didaticamente pelo mapa incluído no sítio. Porém, as mudanças não são tão fáceis assim. Fernanda conta que “três lugares já trocaram as placas, mas nós estamos conversando com vários locais e até o ano que vem devemos ter pelo menos mais dez lugares trocando as placas”. Além da substituição dos pictogramas, o Nova Cara da Terceira Idade também realiza outras ações com os idosos. Fernanda conta que “duas semanas atrás, fizemos uma semana inteira de workshop com os idosos, com palestras, conversas, piqueniques e até uma edição especial para a terceira idade do Bike Anjo, um projeto que ensina as pessoas a andarem de bicicleta”. A página do projeto no Facebook também divulga as ações do movimento e diversas outras notícias relacionadas a idosos, tornando o Nova Cara uma ferramenta de manifestação importante e promissora na busca por melhor reconhecimento e qualidade de vida da terceira idade. 27


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brasileiros, cada vez mais idosos carolina ito e paula reis

Como funcionam as principais políticas públicas para uma população que irá aumentar quatro vezes em menos de quatro décadas

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“Somos seres complexos regidos por influências bio-psico-sociais, incluindo as questões existenciais como o sentido da vida. É, portanto, muito difícil dizer qual o maior problema do envelhecimento - eles são múltiplos”, explicam Vera Brandão e Beltrina Côrte, fundadoras do OLHE (Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento) e do Portal do Envelhecimento, site que busca abordar a velhice a partir de uma perspectiva mais humana. As transformações na dinâmica social brasileira indicam uma tendência de aumento da população idosa nas próximas décadas. Com isso, os idosos enfrentam uma multiplicidade de problemas e desafios. Fragilidades físicas e emocionais, falta de segurança financeira e, muitas vezes, dependência de um sistema público limitado são questões recorrentes na vida pessoas com mais de 60 anos. “Há questões como moradia, acessibilidade, cuidados, asilamento, abandono, violência e a que atinge a todos de maneira uniforme – a solidão”, completam Vera e Beltrina. De acordo com dados do Censo de 2010, coletados pelo IBGE, a população idosa será quatro vezes maior em 2060, passando dos atuais 7,4% para 26,7% do total de brasileiros. Até lá, a expectativa de vida deve chegar a 81 anos, 6 a mais do que a idade atual. Por trás dos nú30

meros existe uma realidade: o Brasil passará por profundas mudanças socioeconômicas causadas pelas transformações em sua estrutura etária. Neste contexto, Vera e Beltrina acreditam que “a maior dificuldade é articular os sistemas de saúde e social para que possam atender às demandas objetivas e subjetivas do ser que envelhece”. O que o Brasil tem feito para lidar com uma população que envelhece mais a cada ano? Instituída em 1994, a Política Nacional do Idoso passou a determinar que pessoas a partir de 60 anos são consideradas idosas, assegurando que estas possam exercer plenamente sua cidadania. “No plano nacional se estabelece a política geral e, nos planos estadual e municipal, as especificidades, desde que se respeite as regras e padrões estabelecidos em âmbito nacional. É o caso, por exemplo, da gratuidade do transporte público urbano. A Constituição estabelece a regra a partir dos 65 anos, mas existem municípios que foram além, garantindo a gratuidade a partir dos 60 anos”, comenta Bibiana Graeff, professora de Gerontologia da USP. A criação de políticas públicas nacionais, de acordo com ela, são importantes para “criar um padrão mínimo a ser respeitado em todo o país, apesar das diferenças regionais socioculturais e econômicas”. Outra ferramenta que reafirma os direitos dessa par-


Ilustrações: Carolina Ito

cela da população é o Estatuto do Idoso, aprovado em 2003. Ele atua junto ao PNI para dar mais consistência às ações do governo e para assegurar o direito à qualidade de vida do idoso no ambiente social e familiar. Além disso, propõe ações para que este seja valorizado socialmente e não tratado de forma preconceituosa. Sobre tais medidas, Vera e Beltrina enfatizam que, “se do nascimento ao túmulo, em todas as idades, as estruturas básicas para uma vida digna – alimentação, saúde, educação, moradia, entre outras – fossem contempladas, não seriam necessários tantos planos, estatutos e resoluções segmentadas, como vemos e vivemos hoje”. No entanto, as mudanças e problemas que a atingem os idosos precisam ser refletidas e transformadas em ações efetivas, que melhorem as condições de vida dessa população que cresce no Brasil. Políticas de Saúde: garantia de envelhecimento ativo? Segundo Vera Brandão e Beltrina Côrte, o aumento da longevidade da população deve ser visto como um “triunfo da humanidade”. Porém, países com sua população idosa cada vez maior enfrentam desafios na área da saúde, como a necessidade de desenvolver mecanismos para atender um número maior de pessoas que precisam

de acompanhamento médico. No Brasil, foi instituída, em 2006, a Política Nacional de Saúde do Idoso (PNSPI), que visa a integração dos idosos na sociedade. Esta política norteia todas as ações no setor da saúde e indica as responsabilidades de cada instituição para que sua proposta seja cumprida. Na PNSPI há a definição e readequação de programas e planos ligados à área da saúde, e ela tem como objetivo preservar a capacidade funcional, a autonomia, e a alta qualidade de vida à população idosa, garantindo um envelhecimento saudável. Esta política está em processo contínuo de avaliação, estando sujeita a possíveis ajustes. A Política Nacional de Saúde do Idoso também incorpora o conceito de “envelhecimento ativo”, lançado pela Declaração Sobre Envelhecimento e Saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS). O enfoque desta ideia é reconhecer a pessoa idosa como capaz de participar e conduzir sua própria vida, envolvendo políticas públicas que promovam mais saúde e qualidade de vida na velhice. Maria Teresinha Fernandes e Sônia Maria Soares, membro e diretora do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Cuidado e Desenvolvimento Humano, afirmam em seu artigo “O desenvolvimento de políticas públicas 31


de atenção ao idoso no Brasil” que “aproximadamente 75% dos idosos encontram-se vivendo de forma independente, sem precisar de auxílio para suas atividades cotidianas” mas, por outro lado, “tem-se em torno de 20% a 25% de idosos que já desenvolveram algum grau de dependência”. São casos opostos que necessitam de tratamentos diferenciados: enquanto para alguns é fundamental proporcionar formas para que continuem vivendo de forma independente, para outros é preciso um atendimento especial e eficiente no setor de saúde. Um dos principais objetivos dessa política de envelhecimento ativo é identificar quanto e como cada grupo depende dos serviços públicos de saúde e reorientá-los, possibilitando um atendimento diferenciado para cada situação. “Calcula-se que em torno de 70% a 80% das pessoas idosas são dependentes, única e exclusivamente, dos serviços públicos de saúde, o que leva a refletir que os serviços de saúde da rede pública precisam se adequar ao envelhecimento populacional, principalmente no que se refere à atenção primária”, segundo Maria Teresinha e Sônia. Vera e Beltrina identificam uma problemática na política de envelhecimento ativo: “a proposta, a ser lida, é muito interessante. Mas, é exequível? Se um indivíduo gasta de 3 a 6 meses para conseguir uma consulta médica, no sistema público de saúde, como imaginar que

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terá um envelhecimento ativo, saudável e produtivo?”. Elas sugerem que “devemos procurar soluções simples e efetivas no cotidiano do trabalho com idosos, e suas múltiplas necessidades, sem esquecer que cada indivíduo é um ser único e original. Como generalizar?”. Maria Teresinha e Sônia, ainda em seu artigo afirmam que “a legislação brasileira relativa aos cuidados da população idosa, embora bastante avançada, na prática, ainda é insipiente”, mas ressaltam que a Política Nacional de Saúde do Idoso representou um importante passo para um grupo que representa quase 27% da população total do Brasil: os idosos. Previdência Social: um futuro incerto As mudanças na dinâmica de envelhecimento da população brasileira provocam reflexos em um dos setores que mais atingem os idosos: o da Previdência Social. O benefício da aposentadoria varia entre R$ 678,00 e R$ 4159,00 e pode ser adquirido por tempo de contribuição do trabalhador (30 anos para homens e 35 anos para mulheres) ou a partir de uma idade mínima (65 anos para homens e 60 para mulheres). Mesmo que o sistema previdenciário tenha passado por reformas durante os governos de Fernando Henrique Cardoso e Lula, há sinais de que não irá resistir por muito tempo dessa maneira.


A POLÊMICA DO FATOR PREVIDENCIÁRIO A utilização do fator previdenciário é criticada, pois, com o aumento da expectativa de vida a cada ano, maior é a idade mínima para que o aposentado receba o benefício sem descontos. Pascoal Carneiro, da Secretaria de Previdência, Aposentados e Pensionistas da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) diz que o posicionamento do sindicato é contrário à existência do fator previdenciário. “Defendemos a revogação da reforma da previdência aprovada nos governos de FHC, que reduziram os direitos previdenciários e dificultaram o acesso à aposentadoria”, afirma. Ele acrescenta que é necessário fiscalizar as contas da previdência com mais rigor e punir casos de corrupção. E para compensar o aumento dos gastos da Previdência, o sindicato propõe que seja criado um fundo a ser abatido do lucro de empresas e bancos. “Esse fundo será para cobrir os desvios da Previdência com obras faraônicas que não serviram à nação”, argumenta. Kaizô considera que outras propostas de reforma da Previdência são necessárias, como, por exemplo, estabelecimento de uma idade mínima para aposentadoria (independentemente do tempo de contribuição) e desvinculação do benefício ao salário mínimo. Tais medidas ajudariam a prevenir aposentadorias precoces e possíveis aumentos do benefício que não se adequem à realidade do sistema previdenciário. Para isso, ressalta que “qualquer mudança deve dar um tempo para as pessoas se prepararem, deve existir um período de transição”. O pesquisador também observa que “as pessoas

tem um certo receio das mudanças na legislação” e por isso preferem se aposentar rapidamente, mesmo com valores reduzidos. Ele lembra que, “se o indivíduo for elegível para a aposentadoria, não perde este direito com mudanças que ocorram depois”. Bibiana Graeff, professora de Gerontologia da USP, não considera que um dos maiores problemas da Previdência é a aposentadoria precoce. “Acredito, ao contrário, que seja problema de gestão, como aplicação de recursos da previdência para o financiamento de outras políticas, desvio indevido de recursos, corrupção... Temos que ser muito atentos em relação a direitos conquistados a duras penas, como o da aposentadoria”, pondera. Diante de tantas controvérsias sobre os rumos do sistema previdenciário, Maria e Sônia, do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Cuidado e Desenvolvimento Humano da Universidade Federal de Minas Gerais, consideram que há uma espécie de “terrorismo etário” quando o assunto é aposentadoria. “O envelhecimento da população brasileira, que poderia ser considerado um avanço, é visto como um problema social, um ‘peso’, especialmente em relação ao financiamento de recursos para a Previdência”. Para elas, se o idoso ainda não é valorizado como deveria, resta um objetivo a ser perseguido: “a sociedade pode ser melhorada amplamente quando o ciclo de vida for digno para todos; quando as estruturas materiais, sociais e filosóficas forem implantadas e respeitadas; quando houver solidariedade e generosidade”. E lançam a dúvida: “uma utopia?”. 33


De acordo com pesquisa divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), a razão entre o número de pessoas que contribuem com a Previdência e o número de pessoas que recebem aposentadoria vem caindo drasticamente ao longo dos anos. Na década de 1940, por exemplo, havia cerca de 31 contribuintes para cada beneficiário. Hoje, a razão é de 2 para 1. As previsões para as próximas décadas acompanham esse cenário chegando à relação de 1,2 para 1 em 2030. O professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da FGV, Kaizô Beltrão, aponta que a situação atual do sistema previdenciário é crítica. “Como os gastos com benefícios já superam, desde 1997, as receitas sobre folha, eu diria que já está insustentável. No presente, já se gasta mais do que se arrecada com receita vinculada”. Além do aumento da proporção de idosos em relação à população em idade economicamente ativa, algumas hipóteses são vinculadas ao problema da Previdência Social. Geralmente, os argumentos se referem à inadequação das regras para aposentadoria ao contexto de aumento da expectativa de vida e da ideia de envelhecimento ativo. Além disso, há casos de aposentados que solicitam a chamada “desaposentação”, ou seja, continuam trabalhando e contribuindo para o INSS com o objetivo de aumentar o valor do final do benefício. Para controlar as aposentadorias consideradas precoces, foi criado o fator previdenciário, em 1999, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Ele serve de base de cálculo para o benefício e considera o

tempo de contribuição do trabalhador, sua idade e a expectativa de vida calculada pelo IBGE a cada ano. Idosos, trabalhadores e chefes de família Junto com o aumento da expectativa de vida, também aumenta o número de idosos que atuam como chefes de família. “Mais de sete milhões de idosos brasileiros têm filhos e outros parentes sob sua responsabilidade e vivem com eles na mesma casa”, de acordo com Pascoal Carneiro. Diante desse cenário, é possível que o idoso, mesmo aposentado, pare de trabalhar? Pascoal argumenta que, com o achatamento de salários e o alto custo de vida, o trabalhador, ao se aposentar, não possui autonomia financeira somente com os benefícios da Previdência Social. “Portanto, o idoso brasileiro se aposenta, mas continua trabalhando, formal ou informalmente, para manter o padrão de vida da família”, conclui. Maria e Sônia concordam que existe um aumento da participação dos idosos no mercado de trabalho e que, aparentemente, o benefício da aposentadoria não permitiu o afastamento desses trabalhadores. “É essencial repensar em políticas de emprego que contemplem esse contingente populacional em crescimento significativo e a população de adultos jovens também”, completam. As mudanças que afetam a vida dos idosos no presente, sem dúvida, repercutirão entre os futuros idosos brasileiros. E ainda há muitas lacunas a serem preenchidas sobre como o governo irá planejar as políticas públicas voltadas para essa população. Vera e Beltrina, que desenvolvem o Portal do Enve-

Dados da pesquisa “Os idosos no mercado de trabalho: tendências e consequências”, realizada em 2002 por Ana Maria H. C. de Oliveira, Euzira Lúcia de Oliveira e Simone Wajnman

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lhecimento na internet, declaram: “acreditamos que o fenômeno do envelhecimento e da crescente longevidade estão ligados aos progressos científicos, às melhorias das condições sanitárias e à baixa fertilidade, o que gera impactos na dinâmica social, incluindo a economia”. Assim, o idoso que, muitas vezes, é o único provedor da família extensa, está mais presente no consumo e no mercado de trabalho para complementar a

renda da aposentadoria. Mesmo com todas essas mudanças, elas lembram ideia de envelhecimento ativo ainda esbarra em velhas concepções sobre o papel do idoso na sociedade. “Esta realidade, especialmente no Brasil, torna o ‘lugar e identidade’ do idoso ambíguo: ele é o provedor, ainda trabalha, mas é considerado, amplamente, como um ser improdutivo. Uma ironia”. 35


eles reiventaram a velhice isadora de moura

No decorrer da história do homem, o envelhecimento foi entendido de diversas formas, conforme a sociedade e a época. A identidade do idoso ao longo do tempo se relaciona intimamente com três pilares: o relógio biológico, responsável pelo envelhecimento natural do corpo; o relógio psíquico, relativo à forma como o indivíduo lida com experiências pessoais, mudanças, aprendizados e transições de fases da vida; e o relógio social, que é a maneira como a sociedade entende determinado assunto num dado momento – no caso, como ela valoriza e atribui ou retira significados da pessoa idosa. No Brasil e no mundo, poucas personalidades falam abertamente sobre a maneira como lidam com o envelhecer. Para debater a questão, psicanalistas, pesquisadores e músicos convocam toda a sociedade para repensar o envelhecimento.

“Quando se privilegia a idéia de juventude e se expulsa o tema da morte para um lugar cada vez mais marginal ou banal as pessoas mais idosas são empurradas a abandonar o que parece ser uma lucidez insuportável, são obrigadas a reduzir ao mínimo, e até a anular drasticamente, todas as ligações com um meio especialmente hostil, são compelidas a não querer saber mais de um mundo do qual não podem participar, no qual já não tem mais lugar.” (Delia Goldfarb, psicóloga e autora do livro “Corpo, tempo e envelhecimento”, 2004)

“Existe uma célula em meu cérebro que nunca vai acreditar que estou envelhecendo”. (Paul Maccartney à Rolling Stone, 2012) Ilustrações: Isadora de Moura

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“Envelhecer dá uma sensação de descompromisso, você está pouco se lixando se as pessoas vão aprovar ou não. Seus problemas de aprovação ou não aprovação você já enfrentou muito antes ao longo da vida.” (Caetano Veloso à Revista TPM, 2009)

“O tempo do envelhecimento está ligado à consciência da finitude, que se instaura a partir de diferentes experiências de proximidade com a morte durante a vida toda, mas que na velhice adquire a dimensão do iniludível. Em uma pessoa jovem este tipo de experiências provocam mudanças consideráveis, mas ele sabe que têm a vida toda pela frente para reparar, modificar, construir. Na pessoa mais idosa o elemento mais angustiante é o estreitamento do horizonte de futuro, já não tem mais todo o tempo pela frente, só resta mais um pouco e pode não ser suficiente para abrigar tanto desejo. Este tempo subjetivo é o tempo que interessa à psicanálise.” (Sonia Farber, téologa e autora de “Envelhecimento do corpo: noções díspares nas mídias atuais”, 2012)

“Há uma suposição convencional na cultura de desconsiderar os aspectos emocionais, principalmente a existência de desejo, nas gerações dos mais velhos, uma vez que uma das características para as mulheres, neste período, seria o encerramento do ciclo reprodutivo. Quanto aos homens, a falta de investimento do objetivo de procriar. Tal postura – de pensar a sexualidade a partir de uma concepção de que, biologicamente, ao término da procriação, ocorre um decréscimo da libido sexual – exige ser repensada, porque a pulsão sexual e de autoconservação – vida, quando desinvestida, cede lugar à pulsão de morte e esta silenciosamente mina o erotismo.” (Otto Kernberg, psicanalista austríaco, 2005)

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aposentadoria: hora de continuar

Roney Rodrigues

ricardo coslove

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“Chega uma hora que não conseguimos mais trabalhar, é preciso cuidar da saúde, descansar um pouco, fazer novas atividades.”. Dona Maria dos Santos, 63 anos, é aposentada há dois anos e ainda permanece no mercado de trabalho, e essa realidade é bem mais comum do que se imagina. No Brasil, aproximadamente metade dos contribuintes que requerem a aposentadoria continuam trabalhando mesmo após começarem a receber o benefício. Os motivos são diferentes, mas em sua maioria, o salário vem como complementação necessária da renda familiar, que não é suficiente apenas com a aposentadoria. Segundo a advogada Gisele Vanzela Fernandes, no momento em que volta ao mercado de trabalho, o aposentado tem garantido os mesmos direitos trabalhistas de qualquer outro empregado, podendo, desta forma, ser registrado e gozar de todos os benefícios e, inclusive, do dever de manter a sua contribuição à Previdência Social. O Advogado especialista em Previdência Social, Fabricio Souza Garcia, afirma que é possível requerer a revisão do valor da aposentadoria. “A este procedimento dá-se o nome de desaposentadoria. Para tanto, é necessário o ajuizamento de ação judicial junto ao INSS, já que a Previdência Social não reconhece este direito. Os tribunais brasileiros têm reconhecido o direito à desaposentação. Para o ajuizamento da ação é necessária a contratação de um advogado.” Além disso, o aposentado também continua com direito ao fundo de garantia que poderá ser retirado mensalmente ou também para a aquisição de algum bem, como um imóvel por exemplo. Suely, 58 anos, é funcionária de um Banco há 38 anos, já se aposentou e pretende pedir a desaposentadoria. “Quando me aposentei, há 4 anos, não me deixaram

sair. Mas também não suportaria ficar sem fazer nada o dia todo. Assim que completar 60 anos vou pedir a desaposentadoria e tentar receber por aquilo que contribui durante minha vida toda”. É importante lembrar que os benefícios de retornar à ativa vão muito além do financeiro, já que contribui para a alto estima e a sensação de continuar fazendo parte de um grupo e de contribuir para um objetivo comum. “Eu voltei ao batente pelo dinheiro mesmo, mas também por que não aguentava mais ficar em casa, minha esposa já tava até enjoando de mim. Alguns amigos do trabalho se aposentaram junto comigo e hoje dois deles já se foram. Enquanto eu tiver forças vou seguir na luta”, comenta Ronald Valentim, 65 anos, aposentado e caminhoneiro. “Entrei com o pedido de aposentadoria há 6 anos, e não foi motivo para parar de trabalhar. O que recebo de aposentadoria não é o suficiente para pagar todas as minhas despesas. Hoje mantenho, ainda, dois empregos. Agora estou com 41 anos de contribuição, pedirei a revisão da aposentadoria porque dai aumenta alguma coisa” comenta Antonio Fernandes, 60 anos, aposentado e professor universitário. Para quem quiser pedir a revisão da aposentadoria, a advogada Gisele Vanzela Fernandes informa que existem dois tipos de recursos: Pelo teto (valor máximo que o trabalhador pode recolher ao INSS) ou por incapacidade. Para isso, o aposentado deve procurar um advogado, reunir documentos que comprovem seus gastos elevados, comprovar que não tem outra renda e, dependendo do tipo de revisão, serão necessários alguns outros documentos. “Todos os que se sentirem injustiçados devem entrar com o recurso revisional”, enfatiza ela.

Dados obtidos por Vagas Tecnologia

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C&T

lucas leite

efeito dominó Em um domingo ensolarado, quente e festivo, a família toda se reúne para o primeiro almoço do ano. Enquanto os pais cuidam da carne e da cerveja e comentam sobre o ano encerrado, as tias preparam os outros pratos e compartilham os planos para o futuro. O encontro mais interessante, porém, acontece há alguns passos de distância. Ali, avós e netos compartilham os presentes que ganharam no último Natal, ouvindo dicas dos que já possuíam algo semelhante. Nada de roupas, pijamas ou perfumes, o assunto ali é tecnologia, e notebooks, videogames, tablets e smartphones são apenas alguns dos brinquedos citados. Uma descrição como essa ainda soa como engraçada e até improvável, apesar de já ser uma cena relativamente comum. Da mesma forma como os mais novos aprendem a usar dispositivos cada vez mais cedo, os mais velhos buscam se atualizar, manter a cabeça em atividade e ir cada vez mais longe. O que os difere é que a geração mais nova já nasce 40

imersa na tecnologia, com pré-disposição a compreender como ela funciona, enquanto os idosos viveram boa parte da vida sem ela, encontrando muito mais barreiras quando decidem começar. Obviamente, essa relação vai mudar com o passar do tempo e o envelhecimento das gerações atuais, o que só aumentará a demanda. Segundo o IBGE, em 2030, o grupo de 60 anos ou mais será maior que o grupo de crianças com até 14 anos. Em 2055, ele será maior do que o de crianças e jovens com até 29 anos. Esses dados mostram não só que o Brasil caminha para se tornar um país de população de maioria idosa, mas também como essa faixa-etária deve se tornar público-alvo do mercado. Memória ou ação? Se os mais jovens estão sempre se atualizando em relação à tecnologia – trocando de telefone e reaprendendo a usá-lo a cada ano, por exemplo –, por que com os idosos seria diferente? Na busca por uma eterna juventude,


Lucas Leite

o efeito do dominó e da palavra cruzada continua, mas eles dão lugar aos mais variados dispositivos e objetivos. Aposentada como Diretora de escola estadual, Olynda Bassan dedicou a sua vida à educação, mas hoje, aos 66 anos, é ela quem aprende e compartilha os conhecimentos em seu blog. “Comecei escrevendo experiências de uma viagem e fui colocando no Facebook, sem pretensão alguma. Um dia brinquei que criaria um blog e as amigas me incentivaram, dizendo que daria certo e que os textos ficariam registrados. Venci a preguiça e me lancei”. Ela acredita que o computador é uma “fera a ser domada”, mas tem o apoio da família e já almeja até um tablet, que facilitaria seus registros nas viagens. Benedito Ferrão, também com 66 anos, é piloto de avião e faz vôos privados. Como passou boa parte de sua vida lidando com a tecnologia embarcada nas aeronaves, tem certa facilidade com o assunto, e a aproveita nas suas tarefas diárias. “Eu uso o computador e não vou ao banco, por exemplo. Faço pagamentos,

aplicações, tudo pela internet. Confio plenamente e não preciso ficar em filas”. Mas essa opinião não é unânime. “Leio o jornal todo dia e é golpe atrás de golpe, então ainda não tenho confiança de fornecer a minha senha e usar o banco pelo computador”, relata Uilson de Oliveira, de 69 anos. Mas isso não significa que ele não seja adepto de tecnologias, muito pelo contrário. “Recentemente troquei de televisão, comprei pela internet uma Smart TV e coloquei nela o Netflix pra assistir filmes. A antiga eu vendi no Bom Negócio”. Ele conta que já enfrentou problemas – como um site que não entregou sua encomenda –, mas que não são nada se comparados à maravilha que é a internet. Os três são apenas alguns exemplos dos milhares de idosos que decidiram não se acomodar. Por que viver de memórias quando se pode aproveitar o que a tecnologia oferece e continuar agindo, mantendo-se ativo, envolvido e independente? 41


a melhor idade da internet nayara kobori

“Fui menino brincalhão e guardo muitas lembranças. Eu já fui espertalhão, hoje voltei a ser criança. Que bom, tenho saúde. Já estou com setentinha não penso em ataúde e nem no fim da linha.” Os versos escritos pelas mãos experientes de Uilson Moisés Goés de Oliveira, 69, não estão em um pedaço de papel manchado de tinta azul. Muito menos em uma carta feita artesanalmente com um lápis mal apontado e com marcas de borracha, deixadas pela força do grafite. Não. Uilson não se prendeu aos modelos da escrita antiga, das trovas. Esses e outros versos estão em um mundo muito maior: a internet. Dentro da rede tão 42

grande e vasta, com tamanho imensurável e de forma tão dinâmica, o aposentado se expressa com símbolos e combinações numéricas em um site chamado “Recanto das Letras”, onde várias pessoas possuem a licença poética para publicar textos. A teia cibernética é a companheira fiel de Uilson. “Eu aproveito o meu tempo dessa forma. Quando fico muito sozinho, entro na internet pra não ficar só”, comenta. Durante toda a conversa, Uilson não largou o celular moderno, de tela touchscreen, conectado com a plataforma líquida e tridimensional. “Eu não fico sem internet, eu não sei nem mais como é ficar sem a internet. É como se eu ficasse sem telefone. Ou sozinho no


Lucas Leite

mundo. Eu sinto falta. A internet preenche um espaço do meu tempo de uma forma positiva”. E com um click de sua câmera digital registrou o momento: a entrevista e os jornalistas. Uilson não era apenas a notícia, mas sim, fazia parte, a elaborava, era consumidor, era entrevistado e era repórter, porque compartilhava o conteúdo. Sem nenhuma demora a foto já rodava no universo azul do senhor “F”, o facebook. Solidão. Inclusão. Aceitação. Participação. Talvez essas sejam as palavras que mais definem os dados apontados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): de 2005 a 2011 aumentou 222,3% o contingente de brasileiros com mais de 50 anos de ida-

de que navegam na internet. Além disso, o tempo de acesso também cresceu. Segundo a pesquisa do NetView, da Nielsen IBOPE, em outubro de 2013 os usuários entre 55 e 64 anos passam, em média, 53 horas e 12 minutos na frente do computador. “O interesse social esta ligado, sobretudo, com a necessidade de se sentir incluído em uma sociedade cada vez mais baseada em tecnologias web. O idoso se sente na obrigação de fazer parte deste contexto tornando-se incluído e independente”, reforça Rafael Tezza, professor da área de tecnologia da Universidade do Estado de Santa Cataria (UDESC) e responsável pelo estudo “O idoso e a Internet: uma etnografia sobre interação e aprendizagem”. 43


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Mark Zuckerberg para maiores A foto está lá, acompanhada com uma legenda, a marcação dos seus amigos e o local que vocês estiveram. Vários comentários, curtidas e alguns compartilhamentos. Uma descrição comum de quem conhece o facebook, a grande criação de Mark Zuckerberg. Mas, sempre tem algum parente que vem comentar, usando a tecla CAPS LOCK APERTADA NO COMENTÁRIO INTEIRO DANDO AQUELA IMPRESSÃO QUE A PESSOA ESTÁ FALANDO MUITO ALTO e, perguntando sobre os seus pais, familiares e etc. Quem nunca passou por isso que atire a primeira pedra. Esse cenário comum nas redes sociais está sendo modificado, pois as pessoas estão se aprimorando na arte de usar do facebook, se inserindo em padrões-guias invisíveis que norteiam o uso do filho de Zuckerberg. A pequena foto sorridente de Uilson já é um convite. E no meu perfil uma solicitação: você conhece Uilson Oliveira? Ainda não tinha o conhecido pessoalmente, mas logo iria. Aceitei. O mundo azul do facebook cria uma nova relação social, onde todos podem se conhecer antes mesmos de estarem frente a frente. Isso já acontecia lá atrás, com o concorrente da criação

de Zuckerberg, que hoje respira por aparelhos: o Orkut. “Eu ouvia falar do Orkut, Orkut e Orkut, então abri um e me entusiasmei. Daí eu não parei mais. E fiz muitos amigos. Amigos e amigas de todo os tipos. Mas, acho o facebook melhor que o Orkut porque é mais moderno, mais atualizado, mais no momento”, diz Uilson. O uso do da plataforma do senhor “F” vai muito além de fazer novos amigos ou cultivar os já conhecidos. “As pessoas começaram a perceber que estão envelhecendo e necessitam de se incluir na sociedade por meio da tecnologia. Há uma mudança de comportamento e de perfil do próprio idoso com a necessidade de se conectar com o mundo e podemos ver isso com o uso do facebook pela terceira idade”, afirma Gislaine Aude Fantini, psicóloga e coordenadora da Universidade Aberta à Terceira Idade (UATI) da Universidade do Sagrado Coração (USC), em Bauru. E vai além: utilizar a internet e o facebook ajuda o idoso a “estimular sua parte cognitiva e sua auto-estima”, salienta Rafael Tezza. Segundo uma pesquisa realizada pela Universidade do Arizona (EUA), pessoas com mais de 65 anos que usam as redes sociais têm um desempenho cognitivo superior em comparação com aqueles que não possuem nenhum perfil online. Tarefas que exigem habilidade e rapidez em apagar conteúdos da área de trabalho do computador, também foram executadas mais facilmente pelos idosos que usam o facebook. “Tudo o que você não usa atrofia, inclusive a cabeça. Então eu gosto de palavra cruzada, gosto de ler jornal e gosto de internet. Meu corpo tem 70 anos, mas a minha cabeça não. Eu acho que a gente tem a idade que a gente quer ter”, diz Uilson. “Vivo da melhor forma. Eu nunca me lastimei. Se der, que bom, consegui. Se não der, que bom eu tentei.” Trechos da poesia Vou vivendo, de Uilson Oliveira.

Lucas Leite

Sandra Cecília Tessadri, 61, também não abre mão de navegar na web. A aposentada não imagina mais a sua vida sem a internet e o poder de compartilhar fotos. “Fico desesperada sem internet. Eu tenho pânico. Tanto que eu comprei um SmartPhone, justamente por isso, porque se acabar a energia, ter algum problema no computador eu tenho a internet comigo. Antes eu ficava desesperada porque eu não sabia usar o SmartPhone direito, hoje em qualquer lugar que eu vou já tiro a foto e já posto no facebook. Eu não me vejo sem internet, eu fico doente, histérica”, disse Sandra, que já sentia calafrios só de imaginar a possibilidade de não se conectar.

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ENSAIO

amanda lima

venceu o amor Toda boa história de amor digna de relato começa com encanto gratuito, desses que eliminam consciência sã e pés presos ao chão. É com graça e descuido que se baixa a guarda e se estende os ombros à crepuscular incerteza do mais enigmático dos sentimentos – este bento e bendito amor. No início é graça, peripécia, pele, corpo cheio de sonho e de dança. Tudo o que é externo se mostra um grande amontoado de inutilidades. As mãos são só desejo. Multiplica-se o tempo, criam-se planos e desenganos, até que o prazer dos passos em sincronia subverta os calos doloridos da convivência. Amar às tantas, ainda que doce e terno, é perder-se no inferno do outro, a quem já se conhece bem como a si. É, ao mesmo tempo, ser só a dois, não admitir perda de tempo ou tiros no pé. O amor que envelhece é certeiro, envaidecido. Não se atreve a censurar o pôr do sol. Depois de tudo dito e vivido, repousam discretos sobre a mesa de centro o cuidado e a sutileza dos gestos que não deixam dúvida: o tempo é só detalhe. Por entre os vincos que se põem ao rosto, descansam as memórias do que foi e as marcas do que nunca deixará de ser. É também assim com Lotar Ilário Angeli, 84, e Célia Angeli, 81, que emprestaram a mim e à fotografia o seu amor cheio de rugas, único, inigualável e puro há 60 anos. 46


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C&C paula reis

as cartas que não receberei

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Ilustrações: Carolina Ito


Meus pais, tios e primos estão sentados na sala de jantar, após se esbaldarem com o caldo de abóbora feito pela melhor cozinheira da cidade, também conhecida como minha avó. Mesmo sem prestar muita atenção, consigo perceber que eles estão discutindo o cardápio do Natal. As sugestões são sempre as mesmas: - Pouca comida! Senão a vó tem que ficar a noite inteira enfiada na cozinha, e depois ficamos duas semanas seguidas comendo as sobras. Eu não estou fazendo parte da discussão já que preciso achar um bendito sinal de 3G nessa casa no meio do mato! Não consigo ler o que o meu chefe me mandou no Whatsapp. Andando sem rumo pela casa, concentrada na tela do meu smartphone, de repente me vejo dentro do quarto da minha avó. Um lugar com cheirinho de infância misturado com o talco suave que ela usa pra se perfumar, já que tem alergia a quase todos os cosméticos. Sento na penteadeira de minha avó e me observo no espelho oval, bem na minha frente. Minhas luzes nos cabelos já estão muito amarelas, e meus pelinhos do rosto começando a crescer. Preciso marcar horário no salão. Encosto minhas mãos na penteadeira de madeira antiga e descascada. Aquela madeira lembra a minha avozinha. Ela parece saber muito do mundo. Pego o porta retrato com a fotografia de casamento de minha avó e percebo o quanto vovó e vovô eram novinhos. - Você viu como eu era magrinha? Tinha 50 de cintura! Vejo aquela velhinha baixa e robusta entrando no quarto e enchendo os olhos de orgulho da cinturinha de pilão que tinha. Aqueles olhos azuis saudosos sentam ao meu lado e logo me contam sobre a novidade encontrada no dia de arrumação dos armários. Ela foi abrindo sua caixinha de madeira e tirando de lá de dentro, como se fosse um tesouro, pedaços de papel antigo. - São as cartas do seu avô. Um cheiro de mofo misturado a um sutil perfume ainda presente naquelas folhas tomou conta do quarto e atacou minhas narinas.

Só depois de uns 5 espirros pude olhar com atenção o que minha avó estava me mostrando. Eram cartas escritas com tinta preta e uma letra cursiva uniforme e inclinada. Peço para ler as palavras escritas por meu avô, já puxando os papéis de suas mãos. Mas ela resiste, segurando-os. - Não filha! A vó tem vergonha. Deixo você ver, mas promete que não vai ler? Fazendo sinal de afirmação com a cabeça, pego aqueles frágeis papéis na minha mão e, apesar tentar não ler, identifico os versos de Fernando Pessoa. Leio-os em voz alta:

o amor, quando se revel a, não se sabe revel a r. sabe não bem lholeharsabeprafalelaar., mas quemsabequero dizer o que sente não que há de dizer. falcala:a: parece queesquecer… mente… parece ah,se mas se elouvir a adivinhasse, pudesse obastasse olhar, e se um ol h ar l h e pra saber que a estão a amar!

Quando volto o rosto pra minha avó percebo que ela olha aqueles papéis como se eu carregasse em minhas próprias mãos o seu passado. É um olhar denso, difícil identificar os sentimentos e pensamentos que passam naquela cabecinha branca. Parece-me um misto de saudade e tristeza. - Essas cartas são o meu bem material mais precioso. - Vó, são só palavras. - Não, filha, são lembranças. Olho novamente para o rosto emocionado de minha avó, e me viro para o espelho. Será que algum dia meus olhos terão a emoção genuína que vi nos dela? Meus pensamentos são interrompidos pelo som de alguma notificação no meu smartphone. O 3G resolveu pegar. Com as cartas em uma mão e o celular na outra, olho pra tela do aparelho. Não sinto nada. 59


Todo mundo nasce. Todo mundo cresce - uns mais, outros menos, mas cresce. Nem todo mundo se reproduz. E todo mundo morre. O ciclo da vida é, na verdade, uma espiral tortuosa e variada. Nada tem a ver com o conceito básico e linear que aprendemos na escolinha. E a minha espiral, infelizmente, já vive sua última volta. Estou velho. Não gosto desta palavra – e muito menos do fato de que ela reflete a minha atual situação. Mesmo que seja apenas mais uma etapa da vida, dói saber que é a última. Mas é engraçado perceber que não é só o modo como os outros te veem durante cada uma dessas etapas que muda. Muda também a forma como você mesmo se enxerga, se comporta perante a si mesmo e se aceita. Ou não. Quando somos crianças, somos curiosos. Sentimo-nos descobridores de um universo completamente novo e desconhecido pra nós. Não sabemos nada, mas queremos saber tudo. Nossa memória funciona na capacidade máxima, e nossa atenção também. Não temos responsabilidade alguma; apenas o instinto de querer saber mais e mais. E é assim também que somos vistos pelos outros: o brilhante futuro que, no presente, é isento de qualquer julgamento. A adolescência chega e os gráficos se invertem. A curiosidade começa a ser sanada, as responsabilidades começam a aparecer e o universo não é um lugar tão estranho assim. Sabemos muitas coisas e ignoramos – 60

em todos os sentidos – diversas outras. Mas nunca sabemos o tanto que pensamos saber. Deixamos a atenção e a memória um pouco de lado e somos vistos como o futuro próximo que não é tão promissor quanto parecia. E nos consideramos o futuro mais brilhante que o planeta Terra já ousou planejar. A ficha cai. E só então nos tornamos adultos. Percebemos que a nossa infância e grande parte da adolescência foram baseadas em expectativas utópicas. Tudo o que esperávamos ser quando crescêssemos era pura ilusão. O que resta são responsabilidades. Viramos máquina. Nossa memória, nossa atenção e tudo mais que demanda cérebro, braços, tripas e coração são voltados ao trabalho e a problemas para se resolver. Sabemos muito, mas todo o conhecimento que não é aplicável ao traba-


leonardo zacarin

Carolina Ito

a espiral da vida

lho é supérfluo. Vemo-nos como o presente mais caótico e desastroso que o planeta Terra já temeu: falhamos os planos da infância e nos sentimos envergonhados por, na adolescência, termos tido a audácia de pensar que seríamos a melhor coisa que já existiu. Finalmente, depois de passarmos décadas tentando – sem sucesso – abafar a frustração de não conseguir corresponder às próprias expectativas nem às expectativas alheias, a velhice chega. Chega como um alívio: nossas responsabilidades praticamente somem. Mas o alívio só dura até percebermos que o motivo disso não é o mesmo que isenta as crianças de deveres formais. Não temos responsabilidades porque somos considerados impotentes. Nosso corpo e nossa mente já não são os mesmos de antes, é verdade. Mas é por isso que

a velhice é o momento da vida em que mais se diferem as expectativas próprias das alheias. Internamente, ainda queremos lutar, brigar para sermos, finalmente, o que esperávamos na infância. Porém, além de nós mesmos, ninguém atribui a nós nenhum tipo de responsabilidade. Estamos cercados de auxiliares para as tarefas mais básicas – e chovem comparações entre velhos e bebês por causa disso: “Os dois precisam de ajuda pra tomar banho, pra comer, pra se vestir e pra andar”. E esse tipo de afirmação é o que mais machuca. Os bebês não tem consciência do que está acontecendo, mas nós temos. Nós sabemos o trabalho extra que damos para aqueles de quem um dia cuidamos, e nos sentimos especialmente mal por não podermos evitar esse sentimento de vergonha. A consciência pesa. Sabemos mais coisas do que qualquer outra pessoa em qualquer outro estágio da vida. Algumas delas gostaríamos de esquecer. Mas, mesmo assim, olhamos para trás com saudade. Vivenciamos tantas coisas que no meio disso tudo existem memórias felizes. E é aí que mora a beleza da velhice: podemos estar velhos, cansados, lentos e sermos considerados incapacitados, mas atingiremos a sabedoria necessária para termos a consciência de que fizemos o que tínhamos que fazer. Vivemos. E, assim, quando nossa espiral chegar ao fim, nos tornaremos os melhores moradores que o planeta Terra já esperou abrigar. 61


nayara kobori

os olhos de um samurai O azul do mar confundia-se com a cor dos olhos grandes e brilhantes que olhavam o horizonte. As roupas escuras de veludo contrastavam com a pele branca que fazia referência ao nome: Albina. O ano era 1938 e o navio de imigrantes italianos cruzava o Atlântico rumo às terras prometidas de Santa Cruz. Albina, com apenas quinze anos, havia deixado a sua cidade natal na Sicília para tentar uma nova vida longe dos gritos terríveis da Europa nazista. As mãos pequenas e frágeis estavam ressecadas devido ao aroma salgado dos ventos do leste. Albina apertava os olhos azuis, pensando que era muito nova para deixar sua casa, trabalhar no café, casar e ter filhos. Por outro lado, temia o punho de Mussolini, coberto pelo sangue inocente. Não muito longe dali, a água de outros mares balançava suavemente um navio desgastado pelo tempo e de muitos segredos. Escondido entre as centenas de japoneses estava Massao, um garoto magro e de gênio forte. O oriental também fugia de seu lar, na terra do Sol, mas 62

não era por temer a guerra. Muito pelo contrário, Massao era filho de um general que se recusou a cometer o harakiri para honrar o imperador das terras japonesas. De cara fechada, Massao pensava que era muito velho para deixar o lar de sua cultura e seguir os passos desonrosos do pai. E foi na terra quente descoberta por Cabral que os olhos azuis e os olhos puxados se encontraram. O porto fedia a peixe e a suor. As mulheres que ainda tinham vestidos não tão rasgados da viagem levantavam a barra da saia como se ainda estivesse limpa o bastante. A mistura de cores descia por diversos navios e o mar de gente nova era quase tão grande quanto à praia brasileira. Branco, preto, amarelo, azul, vermelho, tudo. Alguns olhavam torto para as mulatas de saias curtas, que mostravam as pernas torneadas de tanto trabalhar no porto. Elas apenas sorriam com os seus dentes brancos. Albina ainda tinha um longo caminho. Massao franzia o cenho enquanto entrava em uma locomotiva com


Carolina Ito

destino a Ribeirão Preto, a terra roxa do mais próspero ouro: o café. Os olhos pequenos do jovem japonês perceberam os grandes olhos azuis que subiam em direção ao mesmo trem. Dos extremos do mundo, o casal se encontrou na cidade do interior paulista. Logo se apaixonaram. Logo se casaram. Logo tiveram filhos, netos, bisnetos. Envelheceram juntos guardando a recordação de um porto sujo, com gosto de água salgada. Albina, agora, levantava de sua cama, despertando do sonho-lembrança de seu primeiro encontro com o marido. Toda a casa sempre cheirava café. Calçou as pantufas, fechou o roupão e foi até o banheiro. Lá esfregou o rosto com sabão neutro e água gelada. Olhou para as mãos manchadas e murchas. Estou ficando velha, pensou. Os olhos, porém, continuavam vívidos e ainda mais azuis. Albina fechou os olhos. No intervalo escuro de sua visão, cinco anos se passaram e ela estava em uma cama de solteiro, branca, de ferro. Do outro lado, o mari-

do repousava como criança, pequeno e frágil. Um belo dia, Albina se lembrou novamente do primeiro encontro. Mas, Massao não estava mais lá. Nem mesmo sua cama, nem mesmo sua presença. Os olhos azuis não eram joviais, nem mesmo alegres. Olhavam sempre entristecidos e desejavam mergulhar na imensidão azul do mar novamente. Filhos, netos e bisnetos apareciam na porta do quarto e pouco falavam. Pegavam na mão clara e frágil e iam embora. Albina percebeu que tinha ficado realmente velha. Dependia de tudo e todos. Com quase noventa anos, seu corpo pedia coisas básicas para sobreviver, feito uma criança recém-nascida. Pensou na juventude e nos extremos da vida. Dos extremos do mundo tinha encontrado o amor, e dos extremos da vida percebeu que eram iguais: velha e criança ao mesmo tempo. Fechou os olhos. Sonhou que estava viajando pelo oceano Atlântico e encontrava um jovem japonês em um porto com cheiro de peixe... 63


“Eu pedalo! Eu pedalo!”, repetia Mirta Exposito, 65, ao dar voltas em uma praça sobre uma bicicleta dobrável numa manhã de sábado. Ela acabara de aprender a andar de bicicleta por um projeto dedicado a essa prática na terceira idade. Odete Hoffman, 86, usou um antigo revólver calibre 32 carregado há 35 anos para atirar e matar um assaltante que havia entrado em sua casa. “Não me arrependi, mas não queria ter feito”, disse Odete. “Eu adoro isso!”, diz Elza Marques, 91, puxando ar para o próximo exercício, ao som de Rita Lee. Ela é apenas uma das muitas freqüentadoras assíduas de uma academia de luxo focada em clientes acima dos 60.

lucas leite

quem é você? Takezi Motoda, 73, é dono de um escritório de contabilidade, mas isso não importa. Ele também é o mestre do Super Shot, uma máquina na Play Land que simula um jogo de basquete. Em 70 segundos, ele faz 55 arremessos, acerta 50 e ganha 200 tíquetes, que já lhe renderam até uma televisão de 42 polegadas. Já gastou 560 por mês no jogo, mas afirma que “é mais gostoso pegar brincando do que ir lá e comprar, é uma boa terapia”. Conhecido como “Tiozinho”, Mário da Silva, 68, foi autuado em flagrante e indiciado por furto qualificado de veículos. Ele agia desde 1983, e só no ano passado foram sete vítimas. “O Mário confirmou que gosta da marca Fiat, abaixo do ano 96”, disse o delegado. 64

“Não sei onde estava com a cabeça. Eu sei que o que fiz foi errado”, afirma o idoso preso por abusar da enteada desde que ela tinha 10 anos. Hoje com 18, a jovem tem duas filhas – de 4 e 2 anos – e está grávida do terceiro, todos do padrasto. Eliza Carrara, 104, é a motorista mais idosa do estado de São Paulo. “Nestes anos todos que eu trabalhei, nunca fui parar no Detran, nunca tive multa e nunca bati”, afirma orgulhosa a aposentada, que já foi perueira e professora de autoescola. Elisa Gouveia, 64, e Paulo Ricardo, 67, foram eleitos vencedores do 20º Concurso Miss e Mister Melhor Idade de São Paulo. Ele esconde os cabelos grisalhos com tinta preta, ela agradece à maquiadora e comemora, “guardei o sonho no coração durante mais de 40 anos”. Hoje, o número de idosos com mais de 65 anos representa 7,4% da população brasileira. Porém, pela queda nas taxas de mortalidade e fecundidade, em 2060, mais de um quarto da população brasileira estará nessa faixa etária, segundo projeção do IBGE. E você, vai fazer dela a melhor idade ou vai desperdiçar toda a sua experiência? É bom começar a pensar.


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Revista Ímpar