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NUMA DADA SITUAÇÃO IN A GIVEN SITUATION

FRANCIS ALŸS


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ABANDON ABSORPTION ABSURD ACCIDENT ACTION ALEATORY ANARCHY ANGER ANOMIE Apathy ARBITRARY ATROPHY ATTRACTION ATTRITION BARRAGE CALMNESS CATASTROPHE CATHARSIS CHANCE CHAOS COINCIDENCE Collapse COMPULSION CONFUSION

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ABANDONO ABSORÇÃO ABSURDO ACIDENTE AÇÃO ALEATÓRIO ANARQUIA RAIVA ANOMIA APATIA ARBITRÁRIO ATROFIA ATRAÇÃO ATRITO BARRAGEM CALMA CATÁSTROFE CATARSE ACASO CAOS COINCIDÊNCIA COLAPSO COMPULSÃO CONFUSÃO

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CONSTRICTION CONTAGION CONTENTION CONTINGENCY CONTROL CORRUPTION COUNTER INFORMATION CRISIS DECEPTION DEFECTION DEFLAGRATION DESTABILIZATION DESTRUCTION DISARRAY DISARTICULATION DISGRACE DISINTEGRATION DISORDER DISPERSAL DISRUPTION DISSEMINATION DISTORTION ECSTASY ELEMENTS

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CONSTRIÇÃO CONTÁGIO DISPUTA CONTINGÊNCIA CONTROLE CORRUPÇÃO CONTRAINFORMAÇÃO CRISE DECEPÇÃO DESERÇÃO DEFLAGRAÇÃO INSTABILIDADE DESTRUIÇÃO CONFUSÃO DESARTICULAÇÃO DESGRAÇA DESINTEGRAÇÃO DESORDEM DISPERSÃO ROMPIMENTO DISSEMINAÇÃO DISTORÇÃO ÊXTASE ELEMENTOS

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Enlightenment ENTROPY EQUATION EROSION EXCESS EXPLOSION FAILURE FEAR FERMENTATION FISSION FLUX FLUXUS FRICTION FRUSTRATION FUSION GRACE HARMONY HEMORRHAGE IMPASSE IMPLOSION INDETERMINATE INERTIA INTELLIGENCE INTOLERANCE

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ESCLARECIMENTO ENTROPIA EQUAÇÃO EROSÃO EXCESSO EXPLOSÃO FALHA MEDO FERMENTAÇÃO FISSÃO FLUXO FLUXUS FRICÇÃO FRUSTRAÇÃO FUSÃO GRAÇA HARMONIA HEMORRAGIA IMPASSE IMPLOSÃO INDETERMINADO INÉRCIA INTELIGÊNCIA INTOLERÂNCIA

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LAUGHTER LETHARGY LOSS MARASMUS MEDIATION MIMESIS NEGOTIATION NOISE NORM ORDER OUTBURST PATHOS PAUSE POWER PRETENSE PROCRASTINATION QUIESCENCE RANDOM REACTION REBELLION RECOVERY REPRESENTATION REPULSION RESILIENCE

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RISO LETARGIA PERDA MARASMO MEDIAÇÃO MÍMESE NEGOCIAÇÃO BARULHO NORMA ORDEM EXPLOSÃO PATHOS PAUSA PODER PRETENSÃO PROCRASTINAÇÃO QUIETUDE ALEATÓRIO REAÇÃO REBELIÃO RECUPERAÇÃO REPRESENTAÇÃO REPULSÃO RESILIÊNCIA

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RESISTANCE REVERSION REVOLUTION RIDICULE SABOTAGE SCLEROSIS SENSELESSNESS SILENCE SIMULACRUM SIMULTANEITY SPECTACLE STAGNATION STASIS STRATEGY SUBLIME SUSPENSION SYMBIOSIS TACTICS TERROR TIME TOLERANCE TORPOR TRANSFORMATION TRANSGRESSION

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RESISTÊNCIA REVERSÃO REVOLUÇÃO RIDÍCULO SABOTAGEM ESCLEROSE INSENSATEZ SILÊNCIO SIMULACRO SIMULTANEIDADE ESPETÁCULO ESTAGNAÇÃO ESTASE ESTRATÉGIA SUBLIME SUSPENSÃO SIMBIOSE TÁTICA TERROR TEMPO TOLERÂNCIA TORPOR TRANSFORMAÇÃO TRANGRESSÃO

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TRAUMA TRUCE TURBULENCE TURMOIL UNCERTAINTY UNCONTROLLED VIOLENCE WRATH

IN A GIVEN SITUATION

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TRAUMA TRÉGUA TURBULÊNCIA TUMULTO INCERTEZA DESCONTROLE VIOLÊNCIA IRA

NUMA DADA SITUAÇÃO

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Foreword Francis Alÿs

I read somewhere, I don’t know where, that concepts are timeless. Open, thus lasting, continuous. That they can’t be told, that they are only actable. I say: how does one narrate a concept that can only be enacted in time? In the filming of Tornado, the camera’s continuous performance cancels any possible sequence of events. I wonder: how can one arrange the 15 or so hours of existing video footage? In the absence of a linear narrative, a series of words were pinned up on the studio wall, words that had come to mind while filming. The words were dispersed amongst the video footage, but that proved redundant and was abandoned. Back to the studio wall: if the coincidence of the black words on the white surface would sometimes create unlikely axioms, their expansion in all possible directions would also build diagrams. The words were joined, they became lines and the lines drew shapes. The spaces in between the lines were colored and forms began to appear. Or was it that one could start imagining forms? Flat or solid, geometrical or lyrical, abstract or figurative, organized or chaotic: no matter. Autonomous figures; images. Color frames were also placed amongst the video footage. As they were still, they marked pauses. A space to catch your breath. The pauses disrupted the continuum of the camera’s performance and introduced a rhythm. Combined with a random distribution of the action’s four movements – waiting for tornados, chasing, hitting or missing them – a timeline of sorts emerged: the editing process was engaged. Mexico City, August 2010

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APRESENTAÇÃO Francis Alÿs

Li em algum lugar, não me lembro onde, que os conceitos são atemporais. Abertos; portanto duradouros, contínuos. Que não podem ser ditos, que são apenas encenáveis. E penso: como se narra um conceito que só pode ser encenado no tempo? Ao filmar Tornado, notei que a atuação contínua da câmera anula qualquer sequência possível dos eventos. E me pergunto: como montar as quinze ou mais horas de material gravado? Por falta de uma narrativa linear, uma série de palavras foi afixada na parede do estúdio, palavras que me ocorreram durante a filmagem. As palavras foram incluídas inicialmente no vídeo, mas o procedimento se mostrou redundante e desisti. De volta para a parede do estúdio: se o encontro das palavras negras com superfície branca às vezes criava axiomas improváveis, a expansão delas em todas as direções possíveis também construiria diagramas. As palavras foram agrupadas, formaram linhas e as linhas desenharam formas. Os espaços entre as linhas foram coloridos e formas começaram a aparecer. Ou será que alguém poderia começar a imaginar formas? Planas ou sólidas, geométricas ou líricas, abstratas ou figurativas, organizadas ou caóticas: tanto faz. Figuras autônomas; imagens. Frames coloridos também foram incluídos entre o material gravado. Como eram estáticas, marcavam pausas. Um espaço para respirar. As pausas interrompiam o continuum da atuação da câmera e criavam um ritmo. Em combinação com uma distribuição aleatória dos quatro movimentos da ação – esperar os tornados, persegui-los, alcançá-los ou perdê-los – surgiu então uma espécie de linha temporal: o processo de edição estava encaminhado. Cidade do México, agosto de 2010

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Similarly, the exquisite internal structures of turbulent weather phenomena (hurricanes, for example) are instances of order emerging out of chaos. But we are familiar with the destruction that hurricanes can bring about in their surroundings. They are a form of spontaneously emerging order, created at critical points in atmospheric flow, while at the same time they are a source of apparent disorder for other systems. We find a similar situation when we move (by analogy) to other forms of turbulence affecting warfare directly: the demographic turbulence produced by migrations, invasions or crusades, for example. Critical points in the growth of the urban masses are known to have played a role in triggering wars throughout modern history. Whether we consider demographic pressures as having ‘creative’ or ‘destructive’ effects will depend on our point of view. Manuel De Landa, War in the Age of Intelligent Machines, 1991

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Da mesma forma, as delicadas estruturas internas dos fenômenos atmosféricos turbulentos (furacões, por exemplo) são casos de ordem emergindo do caos. Mas conhecemos a destruição que os furacões podem provocar ao redor. São uma forma de ordem que surge espontaneamente, criada em pontos críticos na circulação atmosférica, e ao mesmo tempo dão origem a evidente desordem em outros sistemas. Encontramos uma situação parecida quando passamos (por analogia) para outras formas de turbulência diretamente relacionadas à guerra: a turbulência demográfica provocada por migrações, invasões ou cruzadas, por exemplo. Sabemos que o crescimento das massas urbanas, quando atinge pontos críticos, tem contribuído para desencadear guerras ao longo de toda a história moderna. Consideraremos os efeitos das pressões demográficas como “criativos” ou “destrutivos” dependendo de nosso ponto de vista. Manuel De Landa, Guerra na era das máquinas inteligentes, 1991

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More than once I also said to the Germans and the Poles when they were arguing in my presence about the future forms of government: we are called to destroy and not to build; others better, more intelligent and fresher than we will build.

Mais de uma vez disse aos alemães e poloneses, quando discutiam à minha frente sobre as formas futuras de governo: nossa missão é destruir, não construir; outros, melhores, mais inteligentes e mais puros do que nós, irão construir.

Mikhail Bakunin, Confession to Tsar Nicholas I, 1851

Mikhail Bakunin, Confissão ao Tsar Nicolau I, 1851

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...a deeper meaning lies in the fairy tale of my childhood years than in the truth that we are taught by life.

...há um sentido mais profundo no conto de fadas de minha infância do que na verdade ensinada pela vida.

Friedrich von Schiller, Wallenstein’s Camp, 1798

Friedrich von Schiller, Wallenstein Camp, 1798

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The measure of the disorder in a closed system, and its direction towards increasing disorder, cannot be reversed. Gardens which are extremely ordered are highly susceptible to disorder simply because one tomato bug could do in the whole garden. But when the garden has a multitude of different plants, then there is a greater stability. Less order implies greater stability; more order implies greater instability.

O grau de desordem num sistema fechado e sua tendência para a desordem crescente são irreversíveis. A ação de uma praga de tomates pode transformar uma horta extremamente ordenada em um espaço de desordem. Mas, quando a horta tem uma grande variedade de plantas, a estabilidade é maior. Menos ordem implica maior estabilidade; mais ordem implica maior instabilidade. Entropia (www.holexandria.org)

Entropy (www.holexandria.org)

The [famous red] spot [of planet Jupiter] is a self-organizing system, created and regulated by the same nonlinear twists that create the unpredictable turmoil around it. It is stable chaos. James Gleick, Chaos: Making a New Science, 1987

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A [famosa] mancha [vermelha do planeta Júpiter] é um sistema em auto-organização, criado e regulado pelas mesmas espirais não lineares que criam o distúrbio imprevisível em torno dele. É o caos estável. James Gleick, Caos: A criação de uma nova ciência, 1987

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The beautiful in nature is a question of the form of object, and this consists in limitation, whereas the sublime is to be found in an object even devoid of form, so far as it immediately involves, or else by its presence provokes, a representation of limitlessness, yet with a superadded thought of its totality. Accordingly, the beautiful seems to be regarded as a presentation of an indeterminate concept of understanding, the sublime as a presentation of an indeterminate concept of reason. Hence the delight is in the former case coupled with the representation of quality, but in this case with that of quantity. Moreover, the former delight is very different from the latter in kind. For the beautiful is directly attended with a feeling of the furtherance of life, and is thus compatible with charms and a playful imagination. On the other hand, the feeling of the sublime is a pleasure that only arises indirectly, being brought about by the feeling of a momentary check to the vital forces followed at once by a discharge all the more powerful, and so it is an emotion that seems to be no sport, but dead earnest in the affairs of the imagination.

O belo na natureza é uma questão da forma do objeto, e consiste na limitação, ao passo que o sublime se encontra mesmo num objeto vazio de forma, pois envolve ou com sua presença desperta imediatamente uma representação do ilimitado, mas acrescida do pensamento de sua totalidade. Assim, o belo parece ser visto como apresentação de um conceito indeterminado do entendimento, e o sublime como apresentação de um conceito indeterminado da razão. Portanto, o prazer no primeiro caso vem associado à representação da qualidade, mas neste último caso à representação da quantidade. Além disso, aquele prazer é de espécie muito diferente da deste último. Pois o belo vem diretamente acompanhado por um sentimento de incremento da vida, e assim é compatível com os encantos e jogos da imaginação. Por outro lado, o sentimento do sublime é um prazer que surge apenas indiretamente, brotando pelo sentimento de uma contenção momentânea das forças vitais, logo seguida por uma descarga tanto mais poderosa, e assim é uma emoção que parece ser não uma diversão, mas extremamente séria nas atividades da imaginação.

Immanuel Kant, Critique of Judgment, 1790 (Translated by James Creed Meredith, 1978)

Immanuel Kant, Crítica do juízo, 1790

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They zig and zag as they walk, and when they stop, they shift weight from foot to foot, bobbing their heads. They change the rhythm often, so that when a sniper who might be scoping them thinks they are about to zig, they have zagged.

Eles andam em zigue-zague. Quando param, apoiam-se ora num pé, ora no outro, balançando a cabeça. Mudam sempre o ritmo, e quando o atirador que podia estar mirando pensa que vão para um lado, já foram para o outro. C.J. Chivers, Herald Tribune, 2006

C.J. Chivers, Herald Tribune, 2006

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A Klee painting named Angelus Novus shows an angel looking as though he is about to move away from something he is fixedly contemplating. His eyes are staring, his mouth is open, his wings are spread. This is how one pictures the angel of history. His face is turned towards the past. Where we perceive a chain of events, he sees one single catastrophe, which keeps piling wreckage upon wreckage and hurls it in front of his feet. The angel would like to stay, awaken the dead, and make whole what has been smashed. But a storm is blowing from Paradise; it has got caught in his wings with such violence that the angel can no longer close them. This storm irresistibly propels him into the future to which his back is turned, while the pile of debris before him grows skyward. This storm is what we call progress. Walter Benjamin, Theses on the Philosophy of History, 1939

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Um quadro de Klee chamado Angelus Novus, mostra um anjo que parece prestes a se afastar de algo que contempla fixamente. Os olhos estão arregalados, a boca aberta, as asas estendidas. Este pode ser a representação do anjo na história. Está com o rosto virado para o passado. Onde enxergamos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma única catástrofe, que continua a amontoar destroços e mais destroços, que atira a seus pés. O anjo gostaria de ficar, despertar os mortos, reconstituir o que foi destruído. Mas sopra uma tempestade do Paraíso; ela se prende com tal violência em suas asas que o anjo não consegue mais fechá-las. Essa tempestade o empurra irresistivelmente ao futuro, para o qual está de costas, enquanto a pilha de escombros diante dele se ergue aos céus. Esta tempestade é o que chamamos de progresso. Walter Benjamin, Sobre o conceito da história, 1939

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Nothing we R Nothing will B ICUR I tell U B Nothing 2 C I C U R I tell U C Nothing 2 B 4 nothing we R and nothing will B

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CHAPTER VIII OF THE GOOD SUCCESS WHICH THE VALOROUS DON QUIXOTE HAD IN THE DREADFUL AND NEVER-BEFOREIMAGINED ADVENTURE OF THE WINDMILLS, WITH OTHER EVENTS WORTHY TO BE RECORDED Entertaining themselves thus, they perceived some thirty or forty windmills that are in that plain; and as soon as Don Quixote espied them, he said to his squire, ‘Fortune disposes our affairs better than we ourselves could have desired: look yonder, friend Sancho Panza, where you may discover somewhat more than thirty monstrous giants, with whom I intend to fight and take away all their lives; with whose spoils we will begin to enrich ourselves for it is lawful war and doing God good service, to take away so wicked a generation from off the face of the earth.’ ‘What giants?’ said Sancho Panza. ‘Those you see yonder,’ answered his master, ‘with those long arms; for some of them are wont to have them almost of the length of two leagues.’ ‘Consider, sir,’ answered Sancho, ‘that those which appear yonder, are not giants, but windmills; and what seem to be arms, are the sails, which whirled about by the wind, make the mill-stone go.’ ‘One may easily see,’ answered Don Quixote, ‘that you are not versed in the business of adventures: they are giants, and if you are afraid, get aside and pray, whilst I engage with them in a fierce and unequal combat.’ So saying, he clapped spurs to Rocinante, without minding the cries his squire sent after him, assuring him that those he went

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to assault were without all doubt windmills, and not giants. But he was so fully possessed that they were giants, that he neither heard the outcries of his squire Sancho, nor yet discerned what they were, though he was very near them; but went on, crying out aloud, ‘Fly not, ye cowards and vile caitifs, for it is a single knight who assaults you.’ Now the wind rose a little and the great sails began to move; which Don Quixote perceiving, he said, ‘Well, though you should move more arms than the giant Briareus, you shall pay for it.’ So saying, and recommending himself devoutly to his lady Dulcinea, beseeching her to succour him in the present danger, being well covered with his buckler, and setting his lance in the rest, he rushed on as fast as Rocinante could gallop, and attacked the first mill before him; and running his lance into the sail, the wind whirled it about with so much violence, that it broke the lance to shivers, dragging horse and rider after it, and tumbling them over and over on the plain in very evil plight. Sancho Panza hastened to his assistance as fast as his ass could carry him: and when he came up to him, he found him not able to stir; so violent was the blow he and Rocinante had received in falling. Miguel de Cervantes, Don Quixote de La Mancha, 1605 (Translated by Charles Jarvis, 1837)

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capítulo viii do bom sucesso que o valoroso d. quixote teve na espantosa e jamais imaginada aventura dos moinhos de vento, mais outros acontecimentos dignos de feliz lembrança Nisto, avistaram trinta ou quarenta moinhos de vento dos que há naqueles campos, e assim como D. Quixote os viu, disse ao seu escudeiro: – A ventura vai guiando as nossas coisas melhor do que pudéramos desejar; pois vê lá, amigo Sancho Pança, aqueles trinta ou poucos mais desaforados gigantes, com os quais penso travar batalha e tirar de todos a vida, com cujos despojos começaremos a enriquecer, pois esta é boa guerra, e é grande serviço de Deus varrer tão má semente da face da terra. – Que gigantes? – disse Sancho Pança. – Aqueles que ali vês – respondeu seu amo –, de longos braços, que alguns chegam a tê-los de quase duas léguas. – Veja vossa mercê – respondeu Sancho –que aqueles que ali aparecem não são gigantes, e sim moinhos de vento, e o que neles parecem braços são as asas, que, empurradas pelo vento, fazem rodar a pedra do moinho. – Logo se vê – respondeu D. Quixote –que não és versado em coisas de aventuras: são gigantes, sim, e se tens medo aparta-te daqui, e põe-te a rezar no espaço em que vou com eles me bater em fera e desigual batalha. E, isto dizendo, deu de esporas em seu cavalo Rocinante, sem atentar às vozes que o seu escudeiro Sancho lhe dava, advertindo-lhe que sem dúvida alguma

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eram moinhos de vento, e não gigantes, aqueles que ia acometer. Mas ele ia tão certo de que eram gigantes, que nem ouvia as vozes do seu escudeiro Sancho, nem via o que eram, embora já estivessem bem perto, antes ia dizendo em altas vozes: – Non fuxades, cobardes e vis criaturas, que um só cavaleiro é este que vos acomete. Nisto se levantou um pouco de vento, e as grandes asas começaram a girar, em vista do qual, disse D. Quixote: – Ainda que movais mais braços que os do gigante Briaréu, haveis de pagar-me. E, isto dizendo, e encomendando-se de todo coração à sua senhora Dulcineia, pedindo-lhe que em tal transe o socorresse, bem coberto da sua rodela, com a lança enristada, arremeteu a todo galope de Rocinante e investiu contra o primeiro moinho que tinha à frente; e ao lhe acertar uma lançada na asa, empurrou-a o vento com tanta fúria que fez a lança em pedaços, levando consigo cavalo e cavaleiro, que foi rodando pelo campo muito estropiado. Acudiu Sancho Pança ao seu socorro, a todo o correr do seu asno, e ao chegar viu que não se podia mexer: tamanho fora o tombo que dera com ele Rocinante. Miguel de Cervantes, O engenhoso fidalgo D. Quixote de La Mancha¸ 1605 (Tradução de Sérgio Molina, 2002)

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At transition point, some messages may evolve faster than their medium.

No ponto de transição, algumas mensagens podem evoluir mais rápido do que o meio.

Steven Johnson, Interface Culture, 1997

Steven Johnson, Interface Cultural, 1997

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Whoever reflects on four things, It were better he had never been born: That which is above, That which is below, That which is before, That which is after.

Quem reflete sobre quatro coisas, Seria melhor que nunca tivesse nascido: O que estรก acima, O que estรก abaixo, O que estava antes, O que serรก depois.

Talmud, Hagigah 2.1

Talmude, Hagigah 2.1

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JMS – No, what’s important is to know how to breathe. The whole system of pauses relies entirely on the fact that one has to stop to catch one’s breath! There is a

direction, a rhythm, a line, concepts – and it is all about knowing where, in the formulation of an idea or a rhythm or a line, melodic or not, one has to breathe.

Jean-Marie Straub and Danièle Huillet, ‘Le cinéaste et le parachu­ tiste’, Art Press, n. 117, Sept 1987

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JMS – Não, o que é importante é saber respirar. Todo o sistema de pausas se baseia no fato de ser necessário parar para retomar o fôlego! Tem-se um sentido,

um ritmo, uma linha, conceitos – e toda a questão é saber onde, no enunciado da ideia, do ritmo ou da linha, melódica ou não, é melhor respirar.

Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, ‘Le cinéaste et le parachutiste’, Art Press, n. 117, set. 1987

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A liquid sitting still or moving at low speed is in a relatively disordered state: its component molecules move aimlessly, bumping into each other at random. But when a certain threshold is reached, a flowing liquid undergoes a process of selforganization: its component molecules begin to move in concert to produce highly intricate patterns. Transition points like these, called ‘singularities’, where order spontaneously emerges out of chaos, have been the subject of intensive scientific analysis over the last three decades.

Um líquido estático ou se movendo em baixa velocidade está em estado de relativa desordem: suas moléculas se movem a esmo, colidindo aleatoriamente. Mas, quando se atinge certo patamar, um líquido fluindo passa por um processo de auto-organização: suas moléculas começam a se mover em conjunto e formam padrões altamente complexos. Tais pontos de transição, chamados “singularidades”, onde a ordem surge espontaneamente do caos, têm sido objeto de intensa análise científica nos últimos trinta anos. Manuel De Landa, War in the Age of Intelligent Machines, 1991

Manuel De Landa, War in the Age of Intelligent Machines, 1991

Of course it is understood that T.E. Lawrence can only find his role within the historical conjuncture of the year 1914.

Entende-se, é claro, que T.E. Lawrence só pode encontrar seu papel na conjuntura histórica do ano de 1914.

Jean-Paul Sartre, ‘Preface’ to Portrait de l’aventurier by Roger Stéphane, 1950

Jean-Paul Sartre, ‘Prefácio’ to Portrait de l’aventurier de Roger Stéphane, 1950

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Ever tried. Ever failed. No matter. Nunca ter tentado. Nunca ter falhaTry again. Fail again. Fail better. do. N達o importa. Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor. Samuel Beckett, Worstward Ho, 1983 Samuel Beckett, Worstward Ho, 1983

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And when the Rev. Mr Kingsley told Turner that his mother liked the picture, Turner said, ‘I only painted it because I wished to show what such a scene was like; I got the sailors to lash me to the mast to observe it; I was lashed for four hours and did not expect to escape, but I felt bound to record it if I did. No one has any business to like it.’ Kenneth Clark, Looking at Pictures, 1960

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E quando o reverendo Kingsley disse a Turner que a mãe dele gostava do quadro, Turner respondeu: ‘Só pintei porque queria mostrar como era uma cena dessas; mandei os marinheiros me amarrarem ao mastro para observá-la; fiquei amarrado durante quatro horas e não achei que ia escapar, mas me sentia obrigado a registrá-la, se escapasse. Ninguém tem nada do que gostar nela.’ Kenneth Clark, Olhando pinturas, 1960

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I wanted to catch up quickly, and tried to spur my horse into a half-gallop, but just then he got other ideas: he jumped and shied to the left side of the road, and I came near falling off. What had startled him was a dry flying leaf carried by the wind that was whirling around us that had lodged against the eye and ear. Swirling eddies – you know, winds fighting. When one meets another and they whirl together, it is a crazy sight. The dust rises high, in a dark cloud full of flying leaves and broken twigs, with whistling sounds, spinning and jumping like a top. Diadorim and Caçanje had stopped, waiting for me to catch up. ‘The dust devil’ said Caçanje, cursing. ‘There is a cross wind blowing from the direction of the ocean,’ said Diadorim. But Caçanje would not have it that way: the whirlwind was His, the devil’s. João Guimarães Rosa, The Devil to Pay in the Backlands, 1956 (Translated by James L. Taylor, 1963)

Mas, aí, meu cavalo filosofou: refugou baixo e refugou alto, se puxando para a beira da mão esquerda da estrada, por pouco não deu comigo no chão. E o que era, que estava assombrando o animal, era uma folha seca esvoaçada, que sobre se viu quase nos olhos e nas orelhas dele. Do vento. Do vento que vinha, rodopiado. Redemoinho: o senhor sabe – a briga de ventos. O quando um esbarra com outro, e se enrolam, o doido espetáculo. A poeira subia, a dar que dava escuro, no alto, o ponto às voltas, folharada, e ramaredo quebrado, no estalar de pios assovios, se torcendo turvo, esgarabulhando. Senti meu cavalo como meu corpo. Aquilo passou, embora, o róró. A gente dava graças a Deus. Mas Diadorim e o Caçanje se estavam lá adiante, por me esperar chegar. – “Redemonho!” – o Caçanje falou, esconjurando. – “Vento que enviesa, que vinga da banda do mar...” – Diadorim disse. Mas o Caçanje não entendia que fosse: redemunho era d’Ele – do diabo. João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, 1956

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Palinode of Dust Alfonso Reyes

Is this the region where the air is the clearest? What have you done to my lofty metaphysical valley? Why has it been sullied? Why has it turned yellow? Whirlwinds of dust zigzag across it like arrogant fire. Sepia tones envelope everything, eradicating the sense of depth in the environment and suffusing on a single ghostly plane both the feeling of distance and nearness, which makes its features and colors as unreal as a grotesque decal, an old religious illustration, a prematurely wilted leaf. While we chew the fine sand with repugnance, the dust accumulates in our throats, and we breathe covering our faces with our hands. It wants to asphyxiate and strangle us. Subterranean howling reaches us surreptitiously through the dust clouds that envelop and destroy without mercy. Repeated invisible volleys and cunning attacks are indefensible; deliberate microbial dynamite; atoms in revolt, defiant against anything that is organized; excess energy of resentful creation that feels of no use; revenge and more revenge of the dust, the oldest in the world. The last stage of matter that was born with the blessing of the waters, and through the stickiness of life, is first reduced to the statutory mineral, only to explode and disintegrate into the parts of which it is composed. Microscopy of the elements, road to nothingness, annihilation without glory, the collapse of inertia, entropy, revenge, and revenge of dust, the lowest part of the world. Oh, destroyers of lakes, woods, lungs, and magic mirrors! And you shall see how our own valley will disappear when the mountains come crashing down in the slow landslide of the circus that shelters us, like a gulp from the gyrating, black funnel – a whirlwind of refuse. It flies against the attractive stone flowers, the dwellings and the streets, the gardens and the towers, the terrible cavalry of Attila, the agile, savage troops with grayish-yellow hooves. Revenge and then more revenge of dust. Planet condemned to the desert, the Moorish dust storm threatens to sweep away your faces.

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Palinódia do pó Alfonso Reyes

É esta a região mais transparente do ar? Que fizestes, então, de meu alto vale metafísico? Por que se embaça, por que amarelece? Deslizam sobre ele como fogos-fátuos os pequenos remoinhos de terra. Caem sobre ele mantos de sépia, que roubam profundidade à paisagem e precipitam num só plano espectral distâncias e proximidades, dando a seus traços e cores a irrealidade de uma decalcomania grotesca, de uma velha estampa artificial, de uma folha prematuramente murcha. Mordemos com nojo o areísco. E o pó gruda na garganta, abafa-nos a respiração com as mãos. Quer nos asfixiar e quer nos estrangular. Gritos subterrâneos chegam encobertos na nuvem de pó, que mata o rei debaixo de sua manta. Chegam disparos invisíveis, ataque traiçoeiro e sem defesa; lenta dinamite microbiana; átomos rebelados e que obstam toda forma organizada; a energia supranumerária da criação ressentida por se saber inútil; vingança e vingança do pó, o mais velho do mundo. Último estado da matéria, que nasceu entre a bênção das águas e – através da viscosidade da vida – primeiro se reduz à estatuária mineral, para afinal explodir nesta desagregação diminuta de tudo o que existe. Microscopia das coisas, a caminho do nada; aniquilamento sem glória; desmoronamento de inércias, entropia; vingança e vingança do pó, o mais rasteiro do mundo. Oh, dessecadores de lagos, cortadores de bosques! Cerceadores de pulmões, quebradores de espelhos mágicos! E quando as montanhas de andesina vierem abaixo, no desmoronamento paulatino do circo que nos protege e ampara, vereis como, sorvido no negro funil giratório, tromba de lixo, nosso próprio vale desaparece. O deserto cansado da injúria das cidades; cansado do projeto humano, que urbaniza por onde passa, o pó calcado contra o solo; cansado de esperar por séculos e séculos, e então: arremete contra as graciosas flores de pedra, contra as moradas e as ruas, contra os jardins e as torres, as nefastas cavalarias de Átila, a ligeira tropa selvagem de cinzentos e amarelos cascos. Vingança e vingança do pó. Planeta condenado ao deserto, a onda muçulmana do redemoinho de pó se prepara para varrer teus rastros.

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And when we become ants, living in our anthills – the ideal State – we will scurry up and down the avenues of our anthills made of straw and dust and lint – proud to hoard the sad residue and balls of fluff. Ants are incapable of comprehending the single unit (orphaned parts of a whole), incapable of individuality, incapable of art and spirit (that was achieved only in the most insolent of republics – Renaissance Greece and Italy), perhaps in line with the romantics, their voices barely audible, because their glory is their hardship made up of dust and sun. A less likely future! Dust and inertia! Do not be fooled, those of you who build on a soft foundation, where the houses are sinking, the walls are cracking and the facades are peeling. Pay tribute to each one of your monuments. Your bard, now crumbling to dust, will not be able to blow his horn. Your churches, now landlocked ships, with lost leads, display their tilted crosses. Oh, valley, you are a sea of pendulum swings, and their range has never been estimated by any generation. Oh, celebrity of biblical punishment, you are sinking. ‘One hundred groups stoned this valley,’ said the poet Carlos Pellicer in ‘Retórica del paisaje’ [‘Landscape Rhetoric’]. Come in and make a purchase because everything is carefully wrapped in dust. The geological catastrophe that is playfully waiting is the origin of an art that mocks death. Naples and Mexico City, filth and song, Enrico Caruso used to say. Lands of volcanic disintegration, daughters of fire, mothers of ashes. The cylinder of lava sums it up. This terrain of odyssey is scarred, but its solvent philosophy smolders. Horrified, Stevenson acknowledged one day that all matter produces a powdery contamination and that everything is linked by filth. Oh, John Ruskin, what would be the true ethics of dust? Ashes to ashes, dust to dust. Dust is the alpha and the omega. And if it were a true god? By chance, dust could be time itself, a prop for our consciences. Perhaps the corpuscular matter is but moments in time. From there, the injunctions of Zenón, who ends up negating the movement, a

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E quando já formos formigas –o Estado perfeito–, trilharemos as avenidas de cones feitos de fiapos e de bolas de pó, orgulhosos de acumular os tristes resíduos e novelos de poeira; ineptos para a unidade, parcelas órfãs da soma; ineptos para o indivíduo, ineptos para a arte e o espírito –que só se concretizaram entre as repúblicas mais atrevidas, Grécia e a Itália Renascentista–, repetindo, talvez, com o romântico, cuja voz mal se escuta, que a glória é um cansaço tecido de pó e de sol. Futuro minguado! Pó e sopor! Não te enganes, gente que assenta as bases sobre um subsolo fofo, onde as casas afundam, as paredes racham e as fachadas descascam. Rendem-se um por um teus monumentos. Teu vate, tornado pó, não poderá soar seu clarim. Tuas igrejas, barcos na ressaca, perdido o prumo, mostram as cruzes inclinadas. Oh, vale, és mar de parcimonioso vaivém! A medida de tua onda escapa às gerações. Oh, figura dos castigos bíblicos, afundas e te varres! “Cem povos apedrejaram este vale”, diz o poeta Carlos Pellicer em ‘Retórica del pasaje’. Entrem e comprem: tudo está cuidadosamente envolto em pó. Esperase a catástrofe geológica brincando: origem da arte, que é um ficar de caçoadas com a morte. Nápoles e México: sujeira e canção, dizia Caruso. Terras de desagregação vulcânica, filhas do fogo, mães das cinzas. O cachimbo de lava é o compêndio. Um Odisseu terreno, sulcado de cicatrizes, fuma nele sua filosofia dissolvente. Stevenson reconhece um dia, horrorizado, que toda matéria produz contaminação poeirenta, que tudo se liga pela sujeira. Qual seria, ó Ruskin, a verdadeira “ética do pó”? No pó se nasce, nele se morre. O pó é o alfa e o ômega. E se fosse o verdadeiro deus? Talvez o pó seja o próprio tempo, suporte da consciência. Talvez o corpúsculo material se confunda com o instante. Daí as aporias de Zenão, que acaba negando o movimento, engano do móvel montado numa trajetória, Aquiles de alígeros pés que ofega atrás da tartaruga. Daí a exasperação de Fausto, o pulsar da felicidade lhe escorrendo entre os dedos: “Para. Eras tão belo!”. Pó de instantâneos que

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deception of a mobile trajectory, Achilles of agile plants who pants in pursuit of the tortoise. From there, while happiness slips through his fingers, the exasperation of Faust: ‘Stop! You were so beautiful!’ Momentary dust that our minds weave together in an illusion of continuity, the way the cinematographer devises reality. By the law of the least resistance – the saving of energy, according to Pierre de Fermat – human beings perceive the world in units, creating in itself, so said Charles Henry, a ‘biological arithmetic,’ the notion of cardinal numbers based on the theology of Saint Thomas. The blurring of successive static points leaves the illusion of Bergson’s stream of consciousness in the depths of the soul. Leibniz’s irreducible monads become bound together like hooked atoms. Natural philosophy has been debated around the conflict between the continuous and the discontinuous, and between the physics of undulation, which is partial to its recessive ether, the horse, and corpuscular or radiant physics, which only pays special attention to its dominant-atom, the jockey. And the dust, does it mount the wave or is it the wave itself? Infinitesimal calculations measure the flow of time, those calculations of how many hammer their immobile nails. A synthesis? Continuity, states Albert Einstein, is a special structure; it is a ‘field’ à la Michael Faraday. Unity is energy giving, a phenomenon, and an atom, perhaps a speck of dust. Heraclius, the master of emanation, is measured by a hand span to Democritus, the sand collector. Góngora used to say that rivers are resolved in a rosary of beads. Why not try to imagine Democritus during that time of the morning when, according to the poets, the muses speak? Head in hand while he reclines over his work, he is only momentarily absorbed; this short-lived attention is seized by his inspiration in order to pierce his conscience with particles of the surrounding reality, the shrapnel of worldly dust, a cosmic wound that perhaps nurtures his ideas. A ray of light, warm from the morning sun, crosses the large room like a banner, or like the eerie glow from a ship. A

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a mente tece numa ilusão de continuidade, como a que trama o cinematógrafo. Pela lei do menor esforço – a conservação da energia de Fermat –, o ser percebe por unidades, criando para si aquela “aritmética biológica” de que fala Charles Henry, aquela noção dos números cardinais em que repousa a própria teologia de São Tomás. O borrão de pontos estáticos sucessivos deposita, nos sedimentos da alma, a ilusão do fluir bergsoniano. As mônadas irredutíveis de Leibniz encadeiam-se como átomos ganchudos. A filosofia natural debate-se no conflito do contínuo e do descontínuo, da física ondulatória, apaixonada por seu éter-cavalo, e da física corpuscular ou radiante, atenta apenas ao átomo-cavaleiro. O pó cavalga na onda ou é a onda? O cálculo infinitesimal mede o jorro do tempo, o cálculo dos quanta crava suas tachas imóveis. A síntese? A continuidade, diz Einstein, é uma estrutura do espaço, é um “campo” a la Faraday. A unidade é foco energético, fenômeno, átomo, grão, talvez, de poeira. Heráclito, mestre do fluxo, deixa-se medir palmo a palmo por Demócrito, o captador de areias. O rio, diria Gôngora, resolve-se num rosário de contas. Por que não imaginar Demócrito, àquela hora da manhã, quando as Musas falam, segundo pretendiam os poetas, debruçado nos estudos, a fronte apoiada na mão, transitoriamente absorto, num daqueles bocejos da atenção que o estro aproveita para espicaçar a consciência com partículas da realidade circundante, rajada do pó do mundo, ferimento cósmico que talvez alimente as ideias? Um raio de sol, ainda morno do amanhecer, atravessa a estância como uma bandeira de luz, como a vela fantasmática de um navio. Rede vibratória que capta, em seu curso, a vida invisível do espaço. Deixa ver, aos olhos do filósofo atônito, todo esse enxame de poeira fina que enche o ar. Uma sarabanda de pontos luminosos vai e vem, como cardume atordoado que em vão pretende escapar do lanço de rede da luz. O filósofo mergulha a mão no sol, agita-a levemente e organiza torvelinhos de pó. A intuição explode: nasce em sua mente a figura do átomo material, que não existiria sem o pó. O átomo é o último termo da divisibilidade

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vibrating web that during its course attracts the invisible life of space, leaving only the eyes of the astonished philosopher to see the clusters of fine dust in the air. A stately dance of luminous dots, they come and go like a dizzy swarm that vainly tries to escape from the invasion of light. The philosopher places his hand into the sunlight, swirls it around in the air and produces whirlwinds of dust. His intuition bursts forth, and the shapes of material atoms that would have never come into existence without dust, are conceived in his mind. Atoms are the smallest particles of the division of matter, at least for all intents and purposes, because more and more even smaller units are being discovered. Without atoms, matter could be obliterated and made impossible to split. All totality is an aggregate, an agreement among the elements, the place where unity and atoms and dust become one. According to its provisional manifestations, science has yet to concede the dignity that dust deserves, as has been established for the gaseous, liquid, and solid states. Without a doubt, it possesses its own characteristics, including not only its affinity for disperse or colloidal systems, which is where life is created, but also (because of its proclivity for covering surfaces) its disposition for catalysis, that is, that mysterious influence of matter that so very much looks like the vigilant guard of a systematizing spirit. Could it be that in addition to everything else, dust aspires to become a spirit as well? Could it be the true god?

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Mexico, 1940 Published in Anthology, translated by Dick Gerdes. Fondo de Cultura Econ贸mica, Mexico, 2009.

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na matéria. Ao menos na intenção, porque admite divisores cada vez mais íntimos. Sem o átomo, a matéria seria dispersável e não divisível. Todo conjunto é uma soma, um acordo de unidades. De onde unidade e átomo e pó voltam a ser a mesma coisa. Em seus quadros provisionais, a ciência ainda não concedeu a dignidade que cabe ao estado poeirento, ao lado do gasoso, do líquido e do sólido. Tem, sem dúvida, propriedades características, como sua aptidão para os sistemas dispersos ou coloidais – onde nasce, quem sabe, a vida –, bem como – talvez por desdobramento de superfície – sua disposição para a catálise, essa misteriosa influência da matéria que já se parece tanto com a guarda vigilante de um espírito ordenador. Será que o pó pretende, além do mais, ser espírito? E se fosse o verdadeiro deus? México, 1940 Tradução de Josely Vianna Baptista

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Twist Ton Marar

In the beginning, there was only water and heavens. Everything was empty, until Tupan達 came down in the midst of the great wind... According to an Amazonian Tupi-Guarani legend, the deity embodied a vortex in order to create the universe. Since then, we are in constant rotation, at astronomical speed. The more our knowledge of the universe widens, the more this speed increases, and, paradoxically, our insignificance is confirmed. If one day we deluded ourselves that we occupied the center of the universe, today we confront our condition of cosmic dust. But always in a rotational movement. While the Earth takes 24 hours to complete a rotation around its own axis, and one year to revolve around the Sun, the solar system as a whole takes over 200 million years to revolve around the axis of the Milky Way. The last time the Sun occupied its present position, dinosaurs reigned over our planet. The speeds of such rotating movements are immense. On Earth, the rotation speed varies with latitude: rotation speed next to the Equator is much greater than close to the poles, for the distance to be covered in order to complete the rotation is greater. Thus, Earth revolves around its own axis with the equatorial speed of 1,700 km/h, and around the Sun with much greater velocity, over 100,000 km/h. In turn, the solar system revolves around our galaxy, the Milky Way, and this one around... Well, if we added just the figures we know, and which make of the cosmos a gigantic carousel, we would reach the incredible speed of 700,000 km/h. Tupi or not Tupi, the fact is that the rotation movements are fundamental for us, and they surprise and entertain us. Twisters, for instance, defy us with their unpredictability and strength. Besides, they belong to that class of phenomena in which scientific explanation clashes with our common sense. In such cause-effect processes, it is common to suppose that smooth variations in causes also yield smooth variations in the effects. But it is not quite like that when a twister is born.

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TORNADO Ton Marar

No princípio, havia só água e céu. Tudo era vazio, tudo noite funda, até que Tupanã desceu em meio ao vento grande... Segundo uma lenda tupi-guarani da Amazônia, a divindade baixou em um vórtice para criar o universo. Desde esse acontecimento, estamos em constante rotação, numa velocidade astronômica. Quanto mais cresce o nosso conhecimento sobre o universo, mais aumenta essa velocidade e, paradoxalmente, confirmase a nossa insignificância. Se um dia chegamos a nos iludir de ocupar o centro do universo, hoje nos confrontamos com a condição de poeira cósmica. Porém, sempre em movimento rotacional. Enquanto a Terra leva 24 horas para completar uma rotação em torno de seu eixo, e um ano para dar uma volta em torno do Sol, o sistema solar todo leva mais de 200 milhões de anos para girar em torno do eixo da Via Láctea. Da última vez que o Sol ocupou a posição atual, em nosso planeta reinavam os dinossauros. As velocidades desses movimentos rotacionais são imensas. Na Terra, a velocidade de rotação varia com a latitude: próximo do equador ela é muito maior do que junto aos polos, pois é maior a distância a ser percorrida para completar uma rotação. Assim, a Terra gira em torno de seu eixo com velocidade equatorial de 1 700 quilômetros por hora e, em torno do Sol, com rapidez bem maior, de mais de 100 mil quilômetros por hora. O sistema solar, por sua vez, gira em torno da nossa galáxia, a Via Láctea, e esta em torno de... Bem, se somarmos apenas os números conhecidos, e que fazem do cosmo um gigantesco carrossel, chegaríamos à extraordinária velocidade de mais ou menos 700 mil quilômetros por hora. Tupi or not Tupi, o fato é que os movimentos de rotação são para nós primordiais e nos divertem e surpreendem. Tornados, por exemplo, nos desafiam pela imprevisibilidade e força. Além disso, são daqueles fenômenos cuja explicação científica entra em disputa com o senso comum. Em processos de tipo causa-efeito, é comum supor que variações suaves nas causas provoquem variações também suaves no efeito. Pois não é bem assim que um tornado nasce.

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Twisters, as well as all abruptly manifested phenomena, can be mathematically described by means of the work by Frenchman René Thom. Awarded the Fields Medal in 1958 –which corresponds to the Nobel Prize in mathematics– Thom conceived, around 1965, models to describe the processes of discontinuous dynamics. The work received the accolade of Catastrophe Theory, a term that designated abrupt changes and not disasters. The figure above represents a surface that describes a cause-effect process governed by two quantities. Different values indicated by c1 and c2 yield different effects. And it is at the point where such values cross the bifurcation curve, indicated in the figure, that the abrupt transition takes place in the effect. Wind is caused by the encounter of heat and cold; by a mass of hot and humid air that is continually varying in intensity encountering an appropriate mass of cold and dry air (quantity c2 in the figure), the wind becomes a twister exactly at the point where two such values cross the bifurcation curve. In this moment, a spectacular phenomenon takes place: a vortex tinted by material dragged off the ground that may be enveloped by a dust cloud. Christopher Zeeman, René Thom’s British colleague, has researched many applications of Catastrophe Theory (which could have received the less spectacular name of Transitions Theory). Biological, social and even linguistic phenomena have been objects of mathematical modeling that contribute to qualitative understanding. Even the attack by a stressed dog can be modeled, that is, represented mathematically. If an enraged dog is insistently frightened (quantity c1 in the figure), at a given moment its behavior will abruptly change from attack to retreat; inversely, if the frightened dog is progressively enraged (quantity c2 in the figure), there is a point at which it will cease to retreat, turn and attack. Catastrophes that are not governed by two causes, but by three, correspond to a more complicated diagram. In this case, the bifurcation

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Como todos os fenômenos que se manifestam de maneira abrupta, os tornados também podem ser descritos matematicamente pelo trabalho do francês René Thom. Premiado em 1958 com a Medalha Fields – que corresponde ao prêmio Nobel em matemática –, Thom concebeu, por volta de 1965, modelos que descrevem processos de dinâmicas descontínuas. A obra recebeu o nome de Teoria das Catástrofes, expressão que designaria mudanças abruptas e não desastres. A figura acima representa uma superfície que descreve um processo causa-efeito governado por duas quantidades. Diferentes valores indicados por c1 e c2 provocam diferentes efeitos. É quando esses valores cruzam a curva de bifurcação, indicada na figura, que acontece a transição abrupta no efeito. O vento é provocado pelo encontro entre calor e frio; variando continuamente a intensidade de uma massa de ar quente e úmido (quantidade c1 da figura) e uma apropriada massa de ar frio e seco (quantidade c2 da figura), o vento transforma-se em tornado exatamente no ponto em que esses valores cruzam a curva de bifurcação. Neste momento ocorre um fenômeno espetacular: um vórtice colorido pelo material que do solo é arrebatado e que pode ser envolvido por uma nuvem de poeira. Christopher Zeeman, um colega britânico de René Thom, pesquisou muitas aplicações da Teoria das Catástrofes (que poderia ter recebido o nome, de menor impacto, de Teoria das Transições). Fenômenos biológicos, sociais e até linguísticos foram objeto de modelagens matemáticas que contribuem para um entendimento qualitativo. Até o ataque de um cão estressado pode ser modelado, ou seja, representado em termos matemáticos. Se um cão bravo for insistentemente amedrontado (quantidade c1 da figura), num certo instante seu comportamento mudará abruptamente de ataque para recuo; de modo inverso, se o cão amedrontado for progressivamente enfurecido (quantidade c2 da figura), ele deixará de recuar para atacar. Catástrofes governadas não por duas causas, mas por três, podem ser representadas por um diagrama mais complicado. Neste caso, o

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set will be a surface, represented in the figure above, and is dubbed swallowtail (queue d’aronde), a name given by René Thom. In 1982, Salvador Dalí called on René Thom. Since that meeting and for the rest of his life, Dalí devoted attention to Catastrophe Theory, producing a few works on the theme, including a 29-page text Treaty on Catastropheiform Writing (1982), resulting from a few hallucinations, as well as the canvas Enlevement topologique d’Europe. Hommage à René Thom (1983), which contains references to the swallowtail. Mythologically or scientifically, our world is strange and beautiful. Doubts are many, and the twister, which sometimes appears as an enormous rotating question mark, could be a portal for the world of answers. Who knows?

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August 2010 Translated by Gavin Adams

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conjunto de bifurcação será uma superfície, representada na figura acima, e que recebe o nome de “rabo de andorinha” (queue d’aronde ou swallowtail), dado por René Thom. Em 1982, René Thom recebeu a visita de Salvador Dalí. Desde aquele encontro e até o fim de sua vida, Dalí devotou sua atenção à Teoria das Catástrofes e produziu alguns trabalhos sobre o tema, inclusive um texto de 29 páginas – Treaty on Catastropheiform Writing (1982) –, resultado de algumas alucinações, além da tela Enlevement topologique d’Europe. Hommage à René Thom (1983), que contém referências ao “rabo de andorinha”. Mitológica ou cientificamente, nosso mundo é estranho e belo. São muitas as dúvidas e um tornado, que às vezes até se assemelha a um enorme ponto de interrogação girando, seria um portal para o mundo das respostas. Quem sabe? Agosto de 2010

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Spinning Dust in Spring CuauhtĂŠmoc Medina

No story here. This time the fable only kicks up a dust of theory.

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Dust is not bred: it predates every cultivation. It clogs up the tearducts, the teeth. In darting in and out we don’t look for mirages. There is a doing between images. Transition from turmoil to chaos where the periphery churns and a momentary truce opens up. Repose and center. Vivencia-sobre-vivencia: time after time, survival upon survival. On the edge of the megalopolis we find what once was the country. Hardly a landscape anymore, an expropriated skyline bristling with houses, water tanks, hi-rises, rods and satellite dishes. In the dry season the wind scampers among the parched furrows and the cyclops blindly, playfully, spins. Tornados. Marvels of ecological mischief and disaster. Nothing is rehearsed. Seeking out the flaw. The production is not documented. It is produced from the documentation. Beat the soil with your eyes enter the opencast mine prepare the seared lungs.

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Remoinho-primavera Cuauhtémoc Medina

Aqui não há um relato. Desta vez a fábula eleva apenas pó de teoria. Não se concebe o pó: ele precede todo cultivo. Engasga entre o lacrimal e os dentes. No ir-e-vir não buscamos miragens. Há um fazer entre imagens. Transição do tumulto ao caos onde a periferia se agita e abre um momento de trégua. Repouso e centro. Vivência-sobre-vivência. À margem da megalópole tropeçamos no resíduo do campo. O que resta não é mais paisagem: horizonte expropriado por casas, caixas-d’água, predinhos, barras de aço e parabólicas. Na estação seca o ar corre entre os sulcos crestados e os ciclopes dançam cegos e travessos. Tornados. Prodígio do desastre e jogo ecológico. Nada se ensaia. Procura-se a falha. Não se documenta a produção. Produz-se a partir da documentação. Bater os olhos no chão entrar nas minas da superfície preparar os pulmões pretos.

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Lessons of drift. One: no text without mud. Two: no story without a landscape. Three: no dream without ground.

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Spinning dust in spring. Babel inverted. Cones devouring the sky. In soot-torn air, everything leaves a trace. Mexico was here once. The nopales no longer stick their tongues out at tourists, the magueys are perishing among erections dry of fermenting juice, the worm has died out. Enough stories: time is blowing us away. That is the story, and it has no moral. Understand who may. Artworks are whirlwinds: random wanderings, chasms of signs, black holes of words. If this photo or that text have no business being here, it’s only that they came with the wind. To have clashed and crashed down at last, that is their power of re-turn, their revolt. Seek silence in the lightning bolt/Sow rumors in the earth Stray notes, clippings, words, interruptions, alarms. Dismay and confusion, ordinary havoc of days. Gestures are just the steps of a ritual for trampling and shooting illusions. Up on the hill-brow, an obstinate endeavor: to seize clarity in a turbid, blood-stained era. Summer 2010 Translated by Lorna Scott Fox

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Lições

da deriva. Primeira: sem barro não há texto. Segunda: sem paisagem não há conto. Terceira: sem solo não há sonho.

Remoinho de pó e primavera. Babel invertida. Cones devorando o céu. No ar alvoroçado de fuligem tudo é rastro. Um dia o México foi isto. Os nopales já não mostram a língua para os turistas, os agaves morrem entre ereções estéreis e o gusano se extinguiu. Deixemos de rodeios: o tempo nos varre. A história é esta: não há moral da história. Quem puder que entenda. As obras são remoinhos: deslocamentos sem programa, abismos de signos, esconderijos de palavras. Se esta foto ou este texto não devem estar aqui é porque o ar os arrastou. Estes embates e quedas são por fim seu poder de re-volta.

Procurar o silêncio no relâmpago/ Semear de rumores a terra

Notas, recortes, palavras, interrupções e sobressaltos. Horrores, confusões, destroços do cotidiano. Os gestos são somente os passos de um rito onde as ilusões se pisoteiam/se tapeiam. Ali nos lomeríos um esforço pertinaz: pescar claridade numa idade turva enlameada de vermelho. Verão de 2010 Traduzido por Josely Vianna Baptista

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FRANCIS ALŸS

Francis Alÿs (Antwerp, Belgium, 1959) studied engineering at the Institut d’Architecture de Tournai, Belgium and history of architecture at the Istituto Universitario di Architettura di Venezia, Italy. In 1986 he relocated to Mexico City where he has since lived and worked. In 1990 he moved from architecture to visual arts. From early on walks and urban strolls took a central role in his practice, as with The Collector (1991–92), in which he pulled a dog-like toy made of magnets through the streets of Mexico City until it was completely covered in metal debris. Other such examples are Narcotourism (1996), where Alÿs wandered during seven days through the streets of Copenhagen under the influence of a different drug each day and Paradox of Praxis 1 (Sometimes Doing Something Leads to Nothing) (1997), where he pushed a block of ice until it melted completely. In 2002 Alÿs orchestrated The Modern Procession for the Museum of Modern Art (MoMA) in New York. In the guise of a traditional Catholic procession, 150 volunteers carried a selection of MoMA’s masterpieces on palanquins from Manhattan to Queens, accompanied by horses and a Peruvian brass band. In this same year he produced with Rafael Ortega and Cuauhtémoc Medina When Faith Moves Mountains, which took place on the periphery of Lima, Peru. For this project 500 volunteers moved a 500 meter-long sand dune just a few centimeters. Alÿs’s exhibitions include 5th Havana Biennale (1994); Walks / Paseos, Museo de Arte Moderno, Mexico City (1997); Obra pictórica, Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, Madrid (2003); A pie desde el estudio, Museo de Arte Contemporáneo de Barcelona (2005); The Green Line, Israel Museum, Jerusalem (2005); Seven Walks, in collaboration with Artangel, London (2005); Politics of Rehearsal, Hammer Museum, Los Angeles (2007); 49th and 52nd Venice Biennales (2001 and 2007); Fabiola, Dia Art Foundation, New York, LACMA, Los Angeles, National Portrait Gallery, London (2007–9); 8th Panama Biennale (2008); 16th Sydney Biennale (2008); 7th Gwangju Biennale (2008); A Story of Deception, Tate Modern, London, Wiels, Brussels, MoMA, New York (2010–11); 29th São Paulo Biennale (2010).

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FRANCIS ALŸS

Francis Alÿs (Antuérpia, Bélgica, 1959) estudou engenharia no Institut d’Architecture de Tournai, Bélgica, e história da arquitetura no Istituto Universitario di Architettura di Venezia, Itália. Em 1986, mudou-se para a Cidade do México, onde mora e trabalha desde então. Em 1990, ele passou da arquitetura para as artes visuais. Desde o começo, passeios e percursos urbanos ocuparam um papel central em sua atividade, como em The Collector [O coletor] (1991-92), em que saiu pelas ruas do México puxando como cachorrinho um brinquedo feito de imãs, até ficar totalmente coberto por fragmentos de metal. Outros exemplos são Narcotourism [Narcoturismo] (1996), em que Alÿs andou sete dias pelas ruas de Copenhague, cada dia sob os efeitos de uma droga diferente, e Paradox of Praxis 1 (Sometimes Doing Something Leads to Nothing) [Paradoxo da Práxis 1 (Às vezes fazer algo leva a nada)] (1997), onde ele empurrou um bloco de gelo até derreter completamente. Em 2002, Alÿs organizou The Modern Procession [A procissão moderna] para o Museum of Modern Art (moma) em Nova York. Como numa procissão católica tradicional, 150 voluntários carregaram em palanquins uma seleção de obras-primas do moma de Manhattan até o Queens, acompanhados por cavalos e uma banda peruana. No mesmo ano, com Rafael Ortega e Cuauhtémoc Medina, ele produziu When Faith Moves Mountains [Quando a fé move montanhas], que se realizou na periferia de Lima, Peru. Para este projeto, quinhentos voluntários deslocaram em alguns centímetros uma duna de areia com 500 metros de comprimento. Entre as exposições de Alÿs estão a 5ª. Bienal de Havana, Cuba (1994); Walks/Paseos, Museo de Arte Moderno, Cidade do México (1997); Obra pictórica, Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía (2003); A pie desde el estudio, Museo de Arte Contemporáneo de Barcelona (2005); The Green Line, Israel Museum, Jerusalém (2005); Seven Walks, em colaboração com Artangel, Londres (2005); Politics of Rehearsal, Hammer Museum, Los Angeles (2007); 49ª e 52ª Bienais de Veneza (2001 e 2007), Itália; Fabiola, Dia Art Foundation, Nova York, lacma, Los Angeles, e National Portrait Gallery, Londres (200709); 8ª Bienal do Panamá, Panamá (2008); Bienal de Sydney, Austrália (2008); 7ª Bienal de Gwangju, Coreia do Sul (2008); A Story of Deception, Tate Modern, Londres, Wiels, Bélgica, moma, Nova York (2010-11); Bienal de São Paulo (2010).

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© Cosac Naify, 2010 © Francis Alÿs (imagens & textos/images & texts), 2010 © ‘Palinodia del Polvo’, de la obra Antología, de Alfonso Reyes, Fondo de Cultura Económica, México, 2009 © Ton Marar, 2010 © Cuauhtémoc Medina, 2010 Projeto gráfico/Concept: Francis Alÿs Coordenação editorial/Editorial coordination: Rebecca Wilson & Cassiano Elek Machado Assistência editorial/Editorial assistance: Flavia Lago Composição/Editorial design: S, consultores en diseño Tradução/Translation: Denise Bottmann (Francis Alÿs & Citações/ Quotes), Gavin Adams (Ton Marar), Lorna Scott Fox (Cuauhtémoc Medina), Josely Vianna Baptista (Alfonso Reyes & Cuauhtémoc Medina) Revisão/Text editing: Claudia Cantarin, Rebecca Wilson & Pedro Paulo Da Silva Produção gráfica/Graphic production: Jorge Golem Imagens extraídas do vídeo/Video stills: Tornado Com a colaboração de/In collaboraton with Julien Devaux Edição de som/Sound editing: Felix Blume Agradecimento especial a/Special thanks to Rafael Ortega Milpa Alta, Morelos, México, 2000–10 Vídeo/Video, 40 min As pinturas foram feitas a óleo ou colagem sobre tela e estão reproduzidas com uma escala aproximada de 1:1. Originalmente, os desenhos estão em tamanho A4. The paintings are oil and collage on canvas and are reproduced in the publication at an approximate scale of 1:1. The original drawings are A4 in size.

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Alÿs, Francis [1959-] Numa dada situação: Francis Alÿs Título em inglês: In a given situation Tradução: Vários tradutores São Paulo: Cosac Naify, 2010 152 pp., 87 ils. ISBN 978-85-7503-942-7 1. Alÿs, Francis 2. Artes plásticas I. Título 10-09081

CDD-730

Índices para catálogo sistemático: 1. Artes plásticas 730 2. Artistas plásticos 730

cosac naify Rua General Jardim, 770, 2º andar 01223-010 São Paulo SP Tel [55 11] 3218 1444 www.cosacnaify.com.br Visite também/Also visit: www.francisalys.com Fontes/Typefaces: Monospace 821 BT & Century Gothic Bold Papel/Paper: Eurobulk 135 g Impressão/Printer: Ipsis, São Paulo Tiragem/Print run: 3000

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