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Histórias da Lagoa

A Aranha Gioconda

FRANCESCO SMELZO

Tradução de Elizabeth Lemes Dos Santos


Entre os insetos da lagoa os mais hábeis eram sem dúvida as aranhas. Com suas patinhas teciam, entre os ramos das árvores, teias prateadas que, entre as coisas construídas pelos animais, tinham as formas mais bonitas que se pudesse admirar. De manhã depois, nos dias mais frescos, o orvalho fazia resplandecer aqueles bordados, fazendo quase esquecer a sua natureza de instrumentos de morte. Não se esqueciam porem os outros insetos : moscas, abelhas e borboletas que giravam ao largo das frondes das árvores, para não cair nestas armadilhas. Mesmo se naturalmente, de vez em quando, uma abelha atrasada com a entrega do néctar, a procura de um atalho para a colméia, ou uma mosca cega pelo sol ou ainda uma borboleta distraída, caía nestas armadilhas , tornando-se prêmio pela paciência da aranha que tanto havia esperado a sua refeição. Assim desenvolvia-se a existência da maior parte das aranhas. Porem havia uma, a aranha Gioconda, que não era capaz de tecer teias. Bem, digamos que se empenhava muito! Toda manhã, esperando que fosse desta vez, agarrava-se a um ramo e começava a fiar a seda. Aquilo que saía era, porem, um emaranhado disforme,muitas vezes com ela própria no meio, debatendo-se furiosamente para sair. 1


Logo a aranha Gioconda tornara-se a involuntária atração dos outros insetos que se divertiam bastante, vendo-a balançar no seu galho, presa na sua própria rede. As mais entediadas espectadoras de Gioconda eram as lindas borboletas multicores que caçoavam dela, dizendo às suas amigas: “ Venham, venham! Sobre este galho não há perigo, aqui há somente a aranha Gioconda, no máximo vocês se arriscariam a morrer de tanto rir!” As outras aranhas não viam com bons olhos aquela confusão, raramente lhe dirigiam a palavra e, quando o faziam ,era para reprová-la: “ Você é a vergonha da nossa raça ! se continuar assim todas nós tornaremos por sua causa o chamariz da lagoa!” O que poderia fazer a pobre Gioconda? Não nascera para ser arquiteta de teias , ainda que percebesse o barulho da sua barriga perenemente vazia.Se não fosse porque de vez em quando encontrasse algum inseto morto de velhice, seria mais bonita que um defunto. Porem, infelizmente os insetos raramente morriam de velhice e aqueles que o faziam, tinham ainda mais raramente ,o bom gosto de fazê-lo em lugares onde Gioconda não poderia encontrá-los.

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Porem, um dia em que Gioconda,como de costume, balançavase no galho, emaranhada na sua própria teia, aconteceu um fato estranho. À sua volta havia o habitual grupo de borboletas que zombavam dela, quando... Zac! Desapareceu uma borboleta e depois outra.Assustada, Gioconda conseguiu, neste ínterim, fugir do emaranhado,compreendendo o motivo destes misteriosos desaparecimentos: Uma andorinha avistara aquele belo grupo de borboletas e precipitara-se sobre elas, fazendo uma devastação. “ Ei amiga!”- disse a aranha à andorinha- “ Se hoje você encontrou uma refeição assim abundante é mérito meu tá? Aquelas borboletas estavam ali graças a mim.” “ Aquilo que é justo é justo” –exclamou a andorinha e deixou cair próxima a Gioconda três borboletas mortas. A aranha pôde finalmente matar a fome depois de tanta carestia.Não comeu , porem, todas as borboletas : pensando que logo a fome voltaria, escondeu duas em um buraco no tronco da árvore. A estória se repetiu no dia seguinte. Então as borboletas se reuniram entorno da aranha balouçante no ramo , na sua cômica posição e a andorinha ,que havia chamado uma amiga ,fez uma reserva de borboletas e deixou, ela e sua amiga, desta vez seis borboletas para a aranha.

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E foi assim também nos dias sucessivos. Todos os dias Gioconda encenava seu circo e todos os dias vinham sempre mais borboletas e sempre mais andorinhas. A aranha agora acumulara uma boa quantidade de borboletas no buraco da árvore.As outras aranhas, porém , a olhavam ainda com desprezo : “ Bela maneira era aquela de arranjar comida! “ Uma noite todavia caiu sobre a lagoa uma violenta tempestade, com granizo e água a cântaros.As teias das aranhas tecidas entre os galhos foram todas destruídas pela chuva e pelo vento.Um grande desespero espalhou-se entre as aranhas: para reconstruir as teias seriam necessários muitos dias e neste ínterim como procurariam comida? Então entre as aranhas reunidas em conselho , alguém lembrouse de Gioconda e do seu buraco cheio de borboletas. Uma delegação apresentou-se a ela, sem perguntar a procedência daquela comida. “ Caríssima amiga!” –exortou o chefe da delegação das aranhas“ Somente a sua generosidade poderá salvar a nossa comunidade neste triste apuro.” “ Caríssima?” –pensava Gioconda –“ Generosidade?” “ Certamente você gostaria de dividir conosco, pegos por tal desgraça, alguma migalha da sua comida.” –continuou o chefe. “ Dividir?...alguma migalha?...para eles? 4


“ Não para nós, mas para os pequeninos” –disse choramingando o chefe. “ Ah...se é para os filhotes...” Para abreviar aquela conversa cara a cara, quatro filas de aranhas formaram uma cadeia para fazer a provisão na casa de Gioconda e...de borboletas pouco a pouco não se viu mais nenhuma. Depois de alguns dias as teias foram reconstruídas, as aranhas puderam recomeçar a caçar e a comer , e Gioconda...bem, Gioconda voltara a ser para todas elas novamente o” bufão” que desonrava a categoria. “ Mas por sorte as borboletas têm vida breve” – pensava a aranha Gioconda enquanto construía novamente sua deselegante teia, procurando desenvolver-se bem com o fio para parecer mais divertido – “ deste modo haverá sempre novas borboletas que virão assistir o espetáculo e as andorinhas as caçarão, deixando para mim suas esmolas. E assim, pensando na breve vida das borboletas e na gratidão, continuou a balançar-se do ramo, esperando outras borboletas e outras andorinhas. Tradução de Elizabeth Lemes Dos Santos

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