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Universidade Federal de São João del Rei Arquitetura e urbanismo

CIDADES IMAGINÁRIAS E O DIREITO À CIDADE O CASO BRASILEIRO REPRESENTADO EM O MENINO E O MUNDO GABRIEL GONÇALVES FRANÇA

São João del Rei - MG 2018


Gabriel Gonçalves França

CIDADES IMAGINÁRIAS E O DIREITO À CIDADE: O CASO BRASILEIRO REPRESENTADO EM O MENINO E O MUNDO

Trabalho de conclusão de curso apresentado ao curso de graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ) como requisito à obtenção do título de bacharel em Arquitetura e Urbanismo. Orientador: Prof. Dr. Gedley Belchior Braga

São João del Rei - MG 2018


SUMÁRIO

Introdução

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PARTE I – TEMA E MÉTODO CAPÍTULO 1: A CIDADE E A PROBLEMÁTICA URBANA O habitat do homem 9 A forma das cidades 10 As contradições urbanas 12 O espaço das lutas 12 O direito à cidade (1) 13 CAPÍTULO 2: O REAL E O IMAGINÁRIO Complementaridade 16 A via negativa 17 CAPÍTULO 3: O CINEMA E AS CIDADES IMAGINÁRIAS O cinema 19 As cidades imaginárias 20 O Menino e o Mundo e o caso brasileiro 22 O Menino e o Mundo – Prólogo

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PARTE II – CIDADES IMAGINÁRIAS E DIREITO À CIDADE CAPÍTULO 4: INDUSTRIALIZAÇÂO E URBANIZAÇÃO Processos concomitantes 29 Do habitar ao habitat 32 O urbanismo e a arquitetura 35 CAPÍTULO 5: CAPITAL E TRABALHO O capital e a produção do espaço 39 O trabalho sob o capitalismo 45 Tendência a crises 50 CAPÍTULO 6: DOMÍNIO E CONTROLE O domínio entre nações 51


O controle social e a cotidianidade Realidade suspeita 63

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CAPÍTULO 7: FESTA E LUTA As lutas e seus percalços 68 A festa como meio e objetivo 72 O direito à cidade (2) 74 O Menino e o Mundo – Epílogo 77 PARTE III – CAMINHO E HORIZONTE CAPÍTULO 8: DA SOCIEDADE CATIVA À SOCIEDADE LIVRE Da resistência à alternativa 81 Um novo homem, uma nova sociedade 84

Referências

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Introdução A cidade é constantemente apontada como a obra – ainda que nunca acabada – mais expressiva da ação humana. Nela, que é o meio da ação humana em sua maior concentração, estão contidas, sobrepostas e justapostas, inúmeras camadas de sistemas e estruturas que condicionam a vida urbana. Fruto de uma sociedade dividida em classes, esses processos e elementos que constituem as cidades tendem a provocar desigualdades em diversos âmbitos: social, espacial, temporal etc. Essas disparidades, que se apresentam com maior ou menor grau de intensidade nas diferentes partes de um planeta cada vez mais interconectado, interdependente e urbano, tornaram-se mais profundas quando os processos de industrialização e de urbanização dominaram as cidades. Diversos grupos de pessoas, unidos em torno das mais variadas causas, têm se manifestado pela exigência de melhorias nas condições de vida em todos os seus aspectos. É sobre isso que se trata o presente trabalho. Partindo da premissa de que o imaginário é complementar aos fenômenos tangíveis na constituição da realidade, este trabalho foi desenvolvido recorrendo à pesquisa bibliográfica teórica/factual e ao repertório de representações acerca da vida urbana presentes em obras cinematográficas. Para conduzir o desenvolvimento da argumentação, foram escolhidas duas obras de cada campo: o livro O direito à cidade (primeira publicação: 1968), do filósofo e sociólogo francês Henri Lefebvre e o filme brasileiro O Menino e o Mundo (2013), dirigido e roteirizado por Alê Abreu. Os escritos de Lefebvre, mesmo agora, cerca de meio século depois de suas primeiras publicações, ainda são pertinentes para se discutir os aspectos da cidade e da problemática urbana brevemente relatados no parágrafo anterior. Já o filme de Alê Abreu cumpre seu principal papel ao trazer para o contexto latino-americano (sobretudo da segunda metade do século XX) muitas das questões levantadas por Lefebvre. A escolha desse filme, assim como dos demais que serão mencionados ao longo do trabalho, deve-se, também, à sua representação não naturalizada da realidade observável das nossas cidades, característica que, como se verá, contribui por meio do processo imaginativo para a formação da consciência do indivíduo. Ressaltam-se no texto, com grifo, algumas palavras-chave para toda a discussão. O trabalho está divido em três partes. Na primeira parte, contextualiza-se o tema aqui exposto, a saber, a cidade e a problemática urbana, as obras que serão os fios condutores do trabalho e as bases 5


conceituais que justificam a escolha do método de abordagem proposto. Na segunda parte, o tema é desenvolvido a partir das contribuições teóricocientíficas e fílmicas sobre assuntos essenciais que envolvem o tema: os processos de industrialização e de urbanização, as relações capitalistas no meio social e no trabalho, as relações de domínio e controle entre as nações e dentro destas, os movimentos de luta por direitos. Na terceira parte, como considerações finais, são indicados alguns caminhos possíveis para a solução das principais questões abordadas no trabalho, em direção a uma sociedade em que a liberdade se realize em suas formas mais plenas.

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PARTE I – TEMA E MÉTODO


CAPÍTULO 1: A CIDADE E A PROBLEMÁTICA URBANA Durante longos séculos, a Terra foi o grande laboratório do homem; só há pouco tempo é que a cidade assumiu esse papel (LEFEBVRE, 2001, p. 7). Numa palavra, o espaço da cidade é o espaço da história (ARGAN, 2005, p. 113).

O habitat do homem Vivemos em cidades. Expressão última da vida humana em sociedade, a cidade é apresentada sob diferentes perspectivas de acordo com o contexto e a intenção de seu interlocutor. Seja definida por seu caráter material, funcional ou mesmo considerada “a obra de arte por antonomásia” (ARGAN, 2005, p. 43), muito se perde ao restringir as significações do termo cidade. Henri Lefebvre (2001), para desenvolver sua teoria filosófico-urbana – fundamental para o desenvolvimento deste trabalho –, optou por designar como “cidade” a “base prático-sensível” sobre a qual o urbano, a vida urbana, se sucederia. Apesar de reconhecer a finalidade de Lefebvre ao fazer tal abstração, será adotada uma concepção mais ampla do termo, que abranja também o que Ana Fani Carlos (2009, p. 40) chama de “movimento da vida”. A cidade é, então, acúmulo e concentração de coisas materiais: produtos, alimentos, construções, obras de arte; bem como de pessoas e da imaterialidade de sua ação: trocas, encontros, conhecimentos, lazeres. É centro de prazer, de criação, de riqueza, mas também de violência, de destruição, de pobreza. A cidade é movimento, é a relação dinâmica de seus elementos no tempo e no espaço. É, em resumo, “produto, condição e meio do processo de produção da sociedade em todos os seus aspectos” (CARLOS, 2009, p. 50). Ed Wall e Tim Waterman (2012, p. 8) consideram as cidades “manifestações físicas da ecologia humana” e, como tal, se configuram como o habitat dos seres humanos. Fornecendo “abrigo, proteção, refúgio e a vantagem mútua da força proporcionada pela coletividade”, funcionariam basicamente “como qualquer outro habitat animal”. Mas é mais do que isso. Assim como o desenvolvimento técnico e tecnológico, protagonizado pela indústria, é há muito reconhecido como essencial na saga humana em direção à liberdade, também a formação das cidades assume uma parte importante neste processo – não por acaso esses dois fatores estão 9


intimamente relacionados. Viver em cidades é, pode-se dizer, uma espécie de propensão humana. Se, quantitativamente, apenas há pouco mais de uma década a população mundial rural foi superada pela urbana – que, estima-se, chegará aos 68,4% até 2050 de acordo com o relatório emitido pelas Nações Unidas (UNITED NATIONS, 2018) –, a primazia da cidade em relação ao campo já se efetuava desde os séculos XVI e XVII (LEFEBVRE, 2008, p. 21)1. Apesar da hipótese inicial de Lefebvre, em seu livro A revolução urbana, de uma sociedade completamente urbanizada, servir mais como uma reflexão especulativa do que como uma prospectiva, hoje, a influência das cidades se estende tanto para além de seus limites cada vez mais amplos que, como na Pentesiléia de Italo Calvino (1990, p. 142-143), “frequentamos zonas urbanas quase sem exterior” (LÉVY, 2001, p. 21, grifo do autor). Segundo o mesmo relatório (UNITED NATIONS, 2018), as regiões mais desenvolvidas do globo possuem 78,7% de seus habitantes vivendo em cidades, ao passo que as regiões menos desenvolvidas 50,6%. Os dados parecem, portanto, confirmar os benefícios dessa inclinação do homem a viver em meio urbano. Contudo, é preciso cautela. Visto assim, o Brasil estaria na vanguarda do desenvolvimento humano, afinal, no país, 86,6% da população é urbana. Assumindo de antemão a realidade extremamente desigual do país, sobretudo em suas maiores cidades – e isso é um dos focos deste trabalho –, pode-se concluir que viver em cidades não basta para o projeto libertário da humanidade. Além disso, um alto índice de população urbana pode indicar também uma fragilidade da vida no campo, como ocorre no caso brasileiro. As cidades podem assumir variadas formas, e assim o fazem incessantemente. Partindo da afirmativa de que “a existência da cidade pressupõe uma participação diferenciada dos homens no processo de produção, ou seja, uma sociedade de classes” (CARLOS, 2009, p. 59, grifo meu), é de se esperar que a sua apropriação também seja diferenciada. A forma das cidades Calvino (1990, p. 126) nos alertava: “nos lugares em que as formas exaurem as suas variedades e se desfazem, começa o fim das cidades”. Seguimos esculpindo as nossas cidades. São inúmeros os fatores envolvidos. 1 

Vale ressaltar que esta relação baseia-se numa visão eurocentrista de mundo e que a proporção das populações urbana e rural está bastante vinculada às situações de países não europeus com grandes populações como China e Índia. 10


Técnicas de construção, modos de produção, meios de transporte e comunicação, relações sociais, políticas e econômicas, guerras. Nas grandes cidades, esse processo de transformação é cada vez mais intenso. Como no poema O cisne, de Baudelaire (apud CARLOS, 2009, p. 91), “a forma de uma cidade muda mais depressa do que o coração de um mortal”. “Toda forma urbana conheceu uma ascensão, um apogeu, um declínio. Seus fragmentos e restos serviram em seguida para/em outras formações” (LEFEBVRE, 2001, p. 60). Do medievo à pós-modernidade, sempre houve uma correspondência entre a função e a estrutura que a cidade assume e a forma que as revestem, revelam e ocultam, constituindo um “‘todo’ que é mais que esses aspectos, elementos e partes” (LEFEBVRE, 2001, p. 110). Desse modo, segundo Lefebvre (2001, p. 128-134, grifo do autor), “cada tipo urbano propôs e realizou uma centralidade específica”. A cidade oriental, o “caminho triunfal”; a cidade arcaica, a ágora, o fórum; a cidade medieval desenvolveu o centro comercial; sob o capitalismo a centralidade consistia no “lugar do consumo e consumo do lugar”; e ainda o “centro de decisão” sob o neocapitalismo. O espaço urbano é, portanto, o resultado de uma história que deve ser concebida como a atividade de “agentes” ou “atores” sociais, de “sujeitos” coletivos operando por impulsos sucessivos, projetando e modelando de modo descontínuo (relativamente) extensões do espaço [...] As qualidades e “propriedades” do espaço urbano resultam de suas interações, de suas estratégias, seus êxitos e derrotas. A forma geral do urbano engloba, reunindo-as, essas diferenças múltiplas (LEFEBVRE, 2008, p. 117).

Já era assim com as primeiras aldeias e vilas, mas com as cidades – sobretudo as metrópoles – o fenômeno atinge proporções e complexidade descomunais. Tendemos a nos agrupar em números cada vez maiores. Já nos aglomeramos aos milhões. Em 2015, Tóquio já passava dos 37 milhões de habitantes, Nova Deli já alcançava 26 milhões, Xangai, Cidade do México e São Paulo também já haviam ultrapassado a marca dos 20 milhões de pessoas (UNITED NATIONS, 2018). Entretanto, “o aumento quantitativo já suscita problemas qualificativos” (LEFEBVRE, 2001, p. 126), o que levou Giulio Carlo Argan (2005, p. 73) a reconhecer nessa relação a “base de toda a problemática urbanística ocidental”. Ainda em decorrência dessa relação, Lefebvre (2001, 2008) chega ao que considera o ponto crítico da problemática urbana sob a expressão “implosão-explosão” da cidade, fenômeno induzido pelos processos de industrialização e de urbanização da sociedade. O termo 11


resume o espraiamento e adensamento massivo das cidades assim como uma série de acontecimentos que os provocam e que são por eles provocados. Nisso figuram a debandada do campo por camponeses arruinados, a debandada da população das áreas centrais para as periféricas, a saturação das infraestruturas e a profunda transformação das funções urbanas. As contradições urbanas Fruto de uma produção socializada, o espaço é apropriado de forma privada. Por isso que “a qualidade da vida tornou-se uma mercadoria para os que têm dinheiro” (HARVEY, 2014, p. 46). Logo, “a desigualdade espacial é produto da desigualdade social” (CARLOS, 2009, p. 23). Disso decorre que, mesmo sob o mesmo nome, vivemos em cidades diferentes. O morador do Morumbi vive em uma São Paulo diferente da do morador do Capão Redondo. Da mesma forma, vivem em Nova Iorques diferentes quem reside em Manhattan e quem reside no Bronx. Conforme as respectivas localizações na cidade, as casas são desiguais, assim como o são as escolas, os mercados, os espaços de trabalho, de saúde e de lazer, as infraestruturas. É possível que, se uma linha fosse desenhada seguindo o trajeto das pessoas na cidade, muitos dos traçados resultantes nunca se cruzassem. No entanto, essas contradições não se restringem ao espaço, elas abrangem também o tempo. Portanto, a desigualdade se manifesta na vida cotidiana como um todo. Como visto, a população urbana é segregada. Essas divisões são “constantemente produzidas e impostas economicamente pela renda e pelos valores imobiliários” (HARDT; NEGRI, 2016, p. 285). Enquanto uns são compelidos a viver em bairros isolados carentes de serviços públicos e a mercê de toda a sorte de violência possível, outros se apartam em comunidades muradas e vigiadas bem dotadas de todo o tipo de luxo à disposição, na tentativa de se proteger de todas as adversidades às quais os primeiros estão expostos, e inclusive deles próprios. Mas, como bem resume Milton Santos (2008, p. 11), “a cidade, onde tantas necessidades emergentes não podem ter resposta, está desse modo fadada a ser tanto o teatro de conflitos crescentes como o lugar geográfico e político da possibilidade de soluções”. O espaço das lutas Hardt e Negri (2016) fazem eco ao posicionamento de Lefebvre (2001) ao afirmar que a cidade (os primeiros se referem mais especificamente 12


à metrópole) assumiu o papel que a fábrica tinha na épocas anteriores. Lócus da produção como a fábrica, a metrópole é o lugar da hierarquia e da exploração, da violência e do sofrimento, do medo e da dor. Para muitas gerações de operários, a fábrica é o lugar onde seus corpos são quebrados, onde eles são envenenados por substâncias químicas industriais e mortos por máquinas perigosas. A metrópole é um lugar perigoso e nocivo, especialmente para os pobres. Mas precisamente por este motivo a metrópole também é, como a fábrica, o lugar do antagonismo e da rebelião (HARDT; NEGRI, 2016, p. 286).

Os autores ressaltam que, para que isso ocorra, a metrópole “precisa ser um local não só de encontro, mas também de organização e política” (HARDT; NEGRI, 2016, p. 282). Lefebvre (2001, p. 13) afirma ainda que esses contrastes e conflitos “não impedem nem o apego à Cidade, nem a contribuição ativa para a beleza da obra”. Exacerba, pelo contrário, a sensação de pertencimento dos citadinos ao meio em que vivem. Guy Debord (1997, p. 116), um dos líderes da Internacional Situacionista (IS)2, já afirmava que “até agora, a cidade só pôde ser o terreno de batalha da liberdade histórica, e não o lugar em que essa liberdade se realizou”. Meio século depois de feita a afirmação, ela ainda é verdadeira. O direito à cidade (1) A luta na e pela cidade, é para este ponto que convergimos. O assunto será discutido a partir do conceito “direito à cidade”, cunhado por Henri Lefebvre em seu livro homônimo, que constitui um dos fios condutores deste trabalho. A realização deste direito, segundo o autor, seria a realização da “sociedade urbana” como ele denomina. A (re)tomada da cidade por sua população. Um cenário urbano como lugar de encontro em que o valor uso, de fruição dos bens produzidos – materiais e imateriais – se sobrepusesse ao consumo, ao valor de troca. A realização prático-sensível de um espaço em que o tempo, tido como o “supremo bem entre os bens”, estivesse inscrito 2 

A IS foi um grupo de artistas, pensadores e ativistas que propuseram sob o nome de “urbanismo unitário”, “experiências efêmeras de apreensão do espaço” por meio de novos procedimentos e práticas como a psicogeografia e a deriva (JACQUES, 2003, p. 15). O grupo teve na década de 1960 seu principal período de atuação. Para um resumo da atuação do grupo ver Jacques, 2003, p. 13-29. 13


(LEFEBVRE, 2001, p. 117-118). Tendo a vida cotidiana como eixo de suas críticas, os situacionistas e Lefebvre, mesmo atuando por diferentes meios, estiveram sob o mesmo contexto social e político e chegaram a conclusões muito próximas. E não por acaso, como indica David Harvey (2014), os primeiros tiveram bastante influência sobre os pensamentos do segundo. Ambos constataram que a alienação, a não-participação, em uma palavra, a passividade da sociedade, intencionalmente provocada, estava no cerne das condições que levaram à situação urbana da época e que ainda se estende aos dias atuais (DEBORD, 1997; LEFEBVRE, 2008; ARGAN, 2005; JACQUES, 2003), fazendo eco ao que Mark Horkheimer e Theodor Adorno (2002) já haviam sugerido em A indústria cultural. Logo, instiga-se uma atitude mais ativa por parte dos citadinos diante dos diversos processos que moldam a cidade. Em Cidades rebeldes, Harvey retomando o conceito de direito à cidade, ressalta (e pode-se dizer que atualiza) alguns pontos importantes da obra de Lefebvre. Uma delas é que a “classe trabalhadora”, invocada por Lefebvre como principal agente do movimento revolucionário que se incitava, não deve se referir apenas aos operários fabris, mas aos trabalhadores urbanos de um modo geral. Isto indica, em outras palavras, a substituição do “proletariado” pelo que Harvey denomina como o “precariado”3. Outra é o caráter procedural do direito à cidade, aberto ao futuro e aos embates, portanto algo não definitivo nem pré-formulado. O autor conclui que o direito à cidade é muito mais do que um direito de acesso individual ou grupal aos recursos que a cidade incorpora: é um direito de mudar e reinventar a cidade mais de acordo com nossos mais profundos desejos. Além disso, é um direito mais coletivo que individual, uma vez que reinventar a cidade depende inevitavelmente do exercício de um poder coletivo sobre o processo de urbanização. A liberdade de fazer e refazer a nós mesmos e a nossas cidades [...] é um dos nossos direitos humanos mais preciosos, ainda que um dos mais menosprezados (HARVEY, 2014, p. 28).

Por fim, o reconhecimento desse direito, sua entrada para os códigos e costumes, como Lefebvre (2001, p. 138-139) indica, é de interesse geral da civilização, porém mais significativo para essa classe trabalhadora porquanto 3 

Grupo frequentemente desorganizado de pessoas em condições precárias de trabalho: jornadas de trabalho fracionadas, baixos salários, poucas ou nenhuma garantia social etc. 14


expropriada “dos melhores resultados de sua atividade”. Contudo, vale o alerta de Harvey a respeito do direito à cidade: enquanto significante vazio, “tudo depende de quem lhe vai conferir significado”, podem fazê-lo tanto o empreiteiro quanto o sem-teto; e por isso, “a própria definição de ‘direito’ é um objeto de uma luta, e essa luta deve ser concomitante com a luta por materializá-lo” (HARVEY, 2014, p. 20).

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CAPÍTULO 2: O REAL E O IMAGINÁRIO Por que o imaginário acarretaria fatos apenas fora do real, em lugar de fecundar a realidade? (LEFEBVRE, 2001, p. 127). A consciência quer explorar tudo. Ela literalmente faz explodir o real, ela dilata sem parar a esfera da experiência (LÉVY, 2001, p. 183). Quando iniciei minha atividade literária, o dever de representar nossa época era um imperativo categórico (CALVINO, 2009, p. 15).

Complementaridade Para desenvolver a temática do presente trabalho, até aqui apenas brevemente apresentada, partir-se-á do princípio de complementaridade entre o real e imaginário. Aqui, entende-se por real tanto os fenômenos constatáveis – sejam de cunho cultural, social, econômico ou político – quanto à linha teórico-científica fundamentada nestes. Já por imaginário, entendese a contribuição subjetiva da arte para “a percepção, o pensamento, a linguagem e a memória” (PALLASMAA, 2013, p. 10). O próprio Lefebvre exalta essa postura metodológica: Necessária como a ciência, não suficiente, a arte traz para a realização da sociedade urbana sua longa meditação sobre a vida como drama e fruição. Além do mais, e sobretudo, a arte restitui o sentido da obra; ela oferece múltiplas figuras de tempos e de espaços apropriados: não impostos, não aceitos por uma resignação passiva, mas metamorfoseados em obra” (LEFEBVRE, 2001, p. 116, grifos do autor).

Muitos outros autores possuem posicionamento similar quanto ao papel da arte para a apreensão e para a construção da realidade. Argan relaciona a ação artística à ação histórica, dizendo que ambas possuem um mesmo princípio, uma mesma raiz, a saber, a “consciência do valor da ação humana” (ARGAN, 2005, p. 23); chega a afirmar ainda que “quando se fala em crise da arte, fala-se, na realidade, em crise da cidade” (ARGAN, 2005, p. 255). Harvey ressalta que “mesmo na ausência de uma agenda política explícita, a produção cultural tinha de ter efeitos políticos”, pois, envolvidos pelos eventos e questões da sociedade, “constroem maneiras de ver e 16


representar que têm significados sociais” (HARVEY, 2010, p. 37). Vilém Flusser, que demonstrou ter sido fundamental a leitura de Guimarães Rosa e Euclides da Cunha para apurar seu entendimento a respeito do caboclo brasileiro, destaca que a arte realiza tarefa semelhante da filosofia ao “perspectivar o real – ao forçar o olhar a ver o que não via” (FLUSSER, 1998, p. 17). Isso para citar apenas alguns dos autores que se aproximam da discussão central deste trabalho. Além disso, com a reprodutibilidade técnica, já há muito posta em pauta como no trabalho exemplar de Walter Benjamin (2012), transformou o papel social e político dos artistas (HARVEY, 2010, p. 31-32). A capacidade de disseminação em massa dos produtos artísticos, com a fotografia, o cinema, o rádio, a televisão e, hoje em especial, a internet, atingiu níveis que dificilmente (para não dizer nunca) serão alcançados por trabalhos científicos ou acadêmicos, mesmo que estes alastrem suas influências de outras maneiras à humanidade. Portanto, com o intuito de alcançar uma abordagem mais ampla quanto às questões relativas à cidade e à problemática urbana, serão utilizadas essas duas vias – a teórico-científica e a artística – com bastante enfoque para suas consonâncias. A via negativa A arte pode ser expressa por diversos meios que se expandem e que se alimentam mutuamente. A imagem, o som, a escrita, a construção de formas no espaço, a expressão corporal,... Todos estes e outros mais recursos da arte tornam-se parte da existência e da identidade pessoal daquele que a experiencia. É nesse processo que, para Juhani Pallasmaa (2013, p. 12), “o real dá lugar a uma experiência imaginativa que, finalmente, retorna à vida”. Entretanto, ao longo da história, a arte assumiu papéis ambivalentes. Hardt e Negri (2016, p. 95) fazem menção, por exemplo, a estudos pós-coloniais que ressaltam a influência dos modos de representação na percepção mútua de colonizadores e colonizados quanto às suas relações: “romances, histórias, documentos administrativos e uma infinidade de outros textos”, dizem eles a respeito de um estudo sobre o orientalismo de Edward Said, “não só legitimam a hierarquia colonial aos olhos dos colonizadores como modelam a consciência dos colonizados”. Já Douglas Crimp (1987, p. 85 apud HARVEY, 2010, p. 64), quanto à função da arte no período subsequente ao modernismo, atenta para a “virtual tomada da arte pelos grandes interesses corporativos”. 17


Sem menosprezar os outros tipos de mídia, deve-se reconhecer o papel singular da imagem na sociedade, sobretudo na contemporaneidade visto a intensa exposição a imagens a que estamos submetidos. Muitos são os autores que alertam para este fato; a recorrência do termo “bombardeio de imagens” (ARGAN, 2005, p. 265; CALVINO, 2009, p. 107; PALLASMAA, 2013, p. 14) evidencia isso. Essa ampla concordância se estende também para os efeitos desse bombardeio: a atrofia da imaginação e a consequente alienação das pessoas. E, como lembra Pallasma (2013, p. 31) ainda que depreciadas por parte da “linha hegemônica da filosofia ocidental”, a imagem e a imaginação integram nossos processos mentais e são essas faculdades que “constituem o verdadeiro fundamento da própria humanidade”. Italo Calvino (2009, p. 107) diz ainda que, devido a essa excessiva exposição a imagens, torna-se cada vez mais difícil distinguir entre “a experiência direta daquilo que vimos há poucos segundos na televisão”; e que depositamos, por estratos sucessivos em nossa memória, “mil estilhaços de imagens, semelhantes a um depósito de lixo, onde é cada vez menos provável que uma delas adquira relevo”. Calvino encontra coro nos estudos sobre a velocidade (e a lentidão) de Paul Virilio e Milan Kundera. O primeiro afirma que passamos da “estética da aparição” para a “estética da desaparição” resultante de uma atual “instabilidade” das imagens, que marcam sua presença pela fuga “cinemática ou cinematográfica” (VIRILIO, 1993, p. 19). Já o segundo sugere que “o ato de memorizar está relacionado à lentidão, enquanto a velocidade resulta no esquecer” (KUNDERA, 1996, p. 39 apud PALLASMAA, 2003, p. 79). Esse caráter alienante e quase onipresente da imagem foi o que, dentre outras coisas, levou Debord (1997, p. 14) a declarar que o espetáculo, como o define em seu livro, é “uma relação social [...] mediada por imagens”.

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CAPÍTULO 3: O CINEMA E AS CIDADES IMAGINÁRIAS O que o futuro reserva para nossas cidades? As visões variam da utopia ao apocalipse, mas a realidade provavelmente será um meio-termo (WALL, WATERMAN, 2012, p. 18). A metáfora evoca, orienta, fortalece e mantém nossos pensamentos, emoções e associações (PALLASMAA, 2013, p. 68).

O cinema Confluência das mais variadas formas de arte, o cinema talvez seja a arte com mais recursos à disposição para “tratar de maneira instrutiva de temas entrelaçados do espaço e do tempo” (HARVEY, 2010, p. 277). Esta característica, atrelada à obrigatoriedade de sua difusão em massa (BENJAMIN, 2012, p. 186), fez da obra cinematográfica, desde os primeiros anos de sua invenção, um dos instrumentos mais poderosos para disseminar ideias e induzir comportamentos, seja qual for a orientação. O psicólogo Hugo Munsterberg (apud SENNETT, 2008, p. 16), ainda no início do século XX, temia que o cinema “provocasse a completa alienação da vida real”; seus seguidores defendiam que o ato de assistir apassiva. Também receoso a respeito do cinema, Virilio se vale dos pensamentos de Marcel Pagnol para sustentar seu posicionamento. Este compara a experiência dos espectadores do teatro que, “dispersos na sala”, veem cada um, obrigatoriamente, “uma peça diferente”, com a experiência dos espectadores do cinema que, devido à condição achatada da superfície da tela, veem “exatamente o que a câmera viu, ou seja, o mesmo filme” (apud VIRILIO, 1996, p. 16, grifo do autor). Isso equivale, para Virilio, aos efeitos dos instrumentos de comunicação em massa e à distância, já que, nas palavras do autor, “é mais fácil enganar uma multidão do que um único homem” (VIRILIO, 1996, p. 33). Contudo, é o lado construtivo do cinema que se pretende enfatizar e utilizar neste trabalho. É esta via positiva que levou Pierre Lévy (2001, p. 134), por exemplo, a citar, mesmo que superficialmente, diversos filmes4 como importantes difusores de conhecimento, ou nas palavras dele, de “verdadeira sabedoria”. E muitos são os autores que fazem coisa semelhante. Mas é de 4 

Dentre eles, The Truman Show, dirigido por Peter Weir, Pleasantville, dirigido por Gary Ross e The Red Thin Line, dirigido por Terrence Malick, ambos de 1998. 19


forma similar ao que Harvey (2010, p. 277-288) fez ao utilizar dois filmes pósmodernos5 6 para discutir sobre este mesmo período, que se procederá ao longo da segunda parte deste trabalho. Também é essa a postura que Alexandre Emílio Lipai e Ana Elena Salvi (2008) assumiram ao utilizar a obra cinematográfica de Ugo Giorgetti para discorrer sobre a cidade de São Paulo e o imaginário urbano. Estes autores, além disso, chamam a atenção para a similaridade entre a experiência mental do indivíduo e a experiência cinematográfica “em que espaço e tempo não têm dimensões físicas determinadas”. E que os filmes, “como experiências físico-sensoriais, estimulam e alimentam nossa memória” ao conferir qualidades ao mundo que nos cerca que a nossa percepção comum não capta. Há ainda aqueles que, como Maria da Conceição Francisca Pires e Sergio Luiz Pereira da Silva, defendem o uso do cinema no âmbito escolar. “As imagens veiculadas pelo cinema”, em suas próprias palavras, “através do jogo de ludicidade, podem auxiliar de forma expressiva no aprimoramento da escola, sobretudo na relação com as temáticas culturais, sociais e históricas” (PIRES; SILVA, 2014, p. 609). Para eles, por meio da subjetividade e da propagação de “imagens não canônicas7 em sala de aula”, o cinema funcionaria como “construtor de um novo conhecimento” (PIRES; SILVA, 2014, p. 611-613). As cidades imaginárias Assume-se, com tudo o que foi dito até aqui, a validade da contribuição do cinema (da arte num geral) para a reflexão sobre os fatos da vida e da condição humana. Devido ao fato de o trabalho se deter sobre a cidade e a problemática urbana, faz-se necessário um recorte temático no espectro das obras cinematográficas que se relacionam com o tema. Portanto, a exemplo do que fez José D’Assunção Barros (2011a; 2011b) ao falar das 5 

Blade Runner, de 1982, dirigido por Ridley Scott e Wings of Desire, de 1987, dirigido por Wim Wenders. 6  O termo orgina da tese de David Harvey (2010) que se refere às mudanças culturais, sociais, políticas e econômicas ocorridas principalmente entre a segunda medade da década de 1960 e a primeira metade da década de 1970, tendo o ano de 1972 como marco. 7  Os autores utilizam o conceito de Saliba (2008, p. 88) para definir “imagens canônicas”: são “aquelas imagens padrão ligadas a conceitos-chave de nossa vida social e intelectual” e que “constituem pontos de referência inconscientes, sendo, portanto, decisivas em seus efeitos subliminares de identificação coletiva” (PIRES; SILVA, 2014, p. 613). 20


cidades-cinema expressionista e pós-moderna, serão utilizados filmes que apresentem cidades que sejam essenciais para a estruturação da trama. Busca-se, aqui, cidades cinematográficas que fogem de representações de verossimilhança direta com a realidade; cidades imaginárias, portanto.

Em um filme significativo, nenhuma cidade termina na borda do quadro, pois o espaço se espalha de maneira interminável na consciência do observador, assim como acontece com cidades reais. Na verdade, uma cidade literária ou cinematográfica sequer deixa de existir quando o livro ou filme termina, pois a cidade imaginária foi transferida para a mente e a memória do observador e a vida continua dentro de suas paredes imaginadas (PALLASMAA, 2013, p. 87).

O objetivo de se utilizar esse tipo de representação de cidades é a desnaturalização das imagens. Dessa forma, já desde o princípio, esses filmes estimulam, como ressaltam Pires e Silva ao propor a utilização do cinema nas escolas, “uma subjetividade ativa em relação ao que é assistido” (MAUAD apud PIRES; SILVA, 2014, p. 611, grifo meu). Enfatiza-se, assim, o uso da metáfora “como ferramenta crucial do pensamento e da comunicação”, potencializando a “tensão entre o real e o sugerido” provocada pelas imagens artísticas (PALLASMAA, 2013, p. 63-67). Mesmo Lefebvre (2001, p. 119) já sugeria (com ressalvas) que “ao se desejar uma representação da cidade ‘ideal’ e das suas relações com o universo, não é entre os filósofos que se deve ir procurar essa imagem”, é na ficção científica. Talvez o relato mítico, ontem contado pelo filósofo ou pelo poeta, hoje pelo romancista de ficção científica, reúna os diversos ‘léxicos’ do fenômeno urbano, sem muito ocupar-se em classificálos segundo a origem ou significação. Talvez esse relato seja, assim, menos redutor que as leituras e conhecimentos parcelares que utiliza destacando-os de seu contexto e de seu isolamento [como faz, por exemplo, o economicismo]. Aliás, talvez ele só projete uma imagem da problemática urbana dissimulando suas contradições. O cenário do futuro ainda não se encontra estabelecido (LEFEBVRE, 2008, p. 106, grifo do autor).

Talvez por isso que Italo Calvino (2009, p. 85-86) considere que foi em seu livro As cidades invisíveis onde pensa “ter dito mais coisas” por “concentrar em um único símbolo” todas as suas reflexões, experiências e conjecturas. O 21


autor diz que esse símbolo – a cidade – o permitiu “maiores possibilidades de exprimir a tensão entre racionalidade geométrica e emaranhado das existências humanas”. “As cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos” afirmava Calvino (1990, p. 44). Barros (2011a, p. 162) parte da hipótese de que isso também é válido para as cidades imaginárias, que refletem assim, as “sociedades que as produziram”; e, como em uma das sentenças que abrem este capítulo, “as visões variam da utopia ao apocalipse” (WALL, WATERMAN, 2012, p. 18). Para todos os efeitos, a palavra utopia designa, aqui, aquela sociedade “ideal” em que seus principais problemas foram resolvidos: violência, corrupção, as mais diversas desigualdades etc. E para contrapor este conceito será utilizado o termo distopia, que designa a sociedade em que estes mesmos problemas são levados às últimas e piores consequências8. É significativo e “faz parte da problemática [urbana]”, como salienta Lefebvre (2008, p. 105), que as perspectivas pessimistas sejam muito mais frequentes que as otimistas. O Menino e o Mundo e o caso brasileiro Não se pode dizer que o filme brasileiro O Menino e o Mundo (2013), dirigido e roteirizado por Alê Abreu, se enquadra como utópico nem distópico. Contudo, apesar de não propor de fato um cenário futuro, ele se aproxima mais do pessimismo do que do otimismo. O filme – que se trata de uma animação em longa-metragem – acompanha a saga de um menino, Cuca9, em busca de seu pai, que deixou a casa e a família no campo em busca de melhores condições de trabalho na cidade (numa interpretação comedida). Em seu percurso, tendo a cidade como cenário fantástico dominado por máquinas-animais, ele vivencia e testemunha um mundo de exploração, pobreza e desilusões. O filme tem uma estreita relação com a discussão em torno do direito à cidade e com a realidade brasileira; seu processo de concepção evidencia isso. Em entrevista, Alê Abreu (2016) conta que a ideia para o longametragem “nasceu dentro de outro filme” – um anima-doc (documentário com animação) que se chamaria Canto Latino. Este abordaria a formação 8 

Para um resumo das origens e usos dos termos “utopia” e “distopia”, ver Barros, 2011a, p. 163. 9  Assim como as músicas, todos os poucos diálogos do filme são numa espécie de português invertido. Sabe-se disso e do nome dado personagem por meio de entrevistas concedidas pelo diretor. Ver ABREU, 2016. 22


social, política e econômica da América Latina e de que forma esses países, de histórias tão similares, chegaram às suas respectivas situações atuais num mundo globalizado. O diretor uniu, então, esta realidade a um personagem desenhado em suas anotações, criando o universo onírico onde se passa a história de O Menino e o Mundo (ABREU, 2016). O diretor coloca, assim, aos olhos de uma criança, as adversidades sofridas pela gente pobre, em especial, no meio urbano. O filme tem seu enredo estruturado, principalmente, pelos processos da indústria têxtil – desde o plantio e colheita do algodão até o produto final (importado) exposto em vitrines pela cidade –, e possui ainda linhas temporais entrecruzadas, reforçando a ideia de uma perspectiva infantil sobre os acontecimentos. Sendo a cidade e a problemática urbana – com ênfase na realidade brasileira (e latino-americana por extensão) – o eixo temático deste trabalho, e visto as considerações já feitas anteriormente a respeito da arte, justifica-se, portanto, a escolha desta animação como o outro fio condutor deste trabalho, ao lado do livro O direito à cidade de Lefebvre (2001). Os assuntos tratados na segunda parte concernem a essas duas obras, que serão amparadas por várias outras, tanto no âmbito do real quanto do imaginário.

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O Menino e o Mundo – Prólogo A vida no campo torna-se insustentável, o arrimo da família parte para a cidade. É assim que começa O Menino e o Mundo (2013). Em entrevista (ABREU, 2016), o diretor do filme é perguntado a respeito da ausência do pai na infância do personagem principal, Cuca, e se esse seria um fenômeno sintomático. Alê Abreu responde que, no cinema latino-americano, é recorrente o tema da busca do pai e completa o significado disso: “um pai no sentido de pátria, que nos dê base, sustentação, na imensa construção que compartilhamos” (ABREU, 2016, grifo meu).

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PARTE II – CIDADES IMAGINÁRIAS E DIREITO À CIDADE


CAPÍTULO 4: INDUSTRIALIZAÇÃO E URBANIZAÇÃO

Planificação racional da produção, disposição do território, industrialização e urbanização globais são aspectos essenciais da ‘socialização da sociedade’ [...] Esta formulação insiste nas trocas e nos locais de troca; põe em evidência a quantidade das trocas econômicas e deixa de lado a qualidade, a diferença essencial entre valor de uso e valor de troca (LEFEBVRE, 2001, p. 78-79). “A cidade favorece a arte, é a própria arte”, disse Lewis Mumford. Portanto, ela não é apenas, como outros depois dele explicitaram, um invólucro ou uma concentração de produtos artísticos, mas um produto artístico ela mesma. Não há, assim, por que surpreenderse se, havendo mudado o sistema geral de produção, o que era um produto artístico hoje é um produto industrial (ARGAN, 2005, p. 73).

Processos concomitantes Henri Lefebvre (2001, p. 11) já afirmava que a urbanização e a problemática urbana – inclusos nesta as questões culturais e os lazeres – configuravam-se como fenômenos induzidos do processo de industrialização. A indústria nascente se instala primeiro fora das cidades, perto de fontes de energia e de matéria-prima assim como de mão de obra e dos meios mais eficazes de transporte. Como a reprodução do capital demanda cada vez mais, além da redução dos custos, a redução do seu tempo de giro10, a indústria, quando não cria seus próprios centros urbanos, se aproxima e se apodera das cidades conforme seus interesses (LEFEBVRE, 2001, p. 15-16). Com isso, para não falar da devastação da natureza, altera-se a relação entre a cidade e o campo e entre o urbano e o rural (nos significados que Lefebvre dá para os termos). “Entre as malhas do tecido urbano”, de acordo com Lefebvre (2001, p. 19), “persistem ilhotas e ilhas de ruralidade ‘pura’”, povoados de camponeses despojados da “nobreza” da vida no campo. Configurando outro aspecto do processo, “a cidade em expansão ataca o campo, corrói-o, dissolve-o” (LEFEBVRE, 2001, p. 74). É por isso que Lefebvre (2001, p. 75) afirma que “a oposição ‘urbanidade-ruralidade’ se acentua em lugar de desaparecer, enquanto a oposição cidade-campo se atenua”. Milton 10 

A relação entre tempo de produção e de circulação da troca, do consumo (HARVEY, 2010, p. 209). 29


Santos (2008) também discorre sobre essa mudança no contexto brasileiro. Para ele “as regiões agrícolas (e não rurais) contêm cidades; as regiões urbanas contêm atividades rurais”, sendo que essa relação poderia variar entre os extremos de “uma cidade dependente do espaço agrícola à situação de verdadeira região urbana” (SANTOS, 2008, p. 73-74). A produção em larga escala, característica da indústria, exige o consumo em larga escala; e, antes da acentuada automatização que presenciamos hoje, isso exigia também um grande número de empregados. O intenso fluxo de trabalhadores expulsos do campo – que também se mecanizava [1] [2] – para as cidades, em outras palavras o êxodo rural [3], cumpria esses dois requisitos, fornecendo mão de obra barata e a criação de um mercado interno (CARLOS, p. 65). A propósito, como já anunciado, é este o motor dos eventos narrados em O Menino e o Mundo (2013). No Brasil, a “verdadeira inversão quanto ao lugar de residência”, segundo Milton Santos (2008, p. 30), se dá nas décadas entre 1940 e 1980, quando a taxa de urbanização passa de pouco mais de 26% para os quase 69% no final do período. O “milagre econômico” durante a ditadura militar – implantada pelo golpe de Estado de 1964 – marca o pico do fluxo de migrações no país, que tinham como destinos principais as regiões metropolitanas e cidades intermediárias (SANTOS, 2008, p. 87). São Paulo, a cidade “mais rica de todas”, como afirma Santos (2008, p. 59), “é também a que tem maior poder de atração”. Sobram exemplos similares na América Latina, mas o caso do México, pelo contexto geral, é particularmente parecido. O país se desenvolveu de modo extremamente desigual técnico e socialmente, a Cidade do México (além dos Estados Unidos) foi o destino prioritário dos trabalhadores vindos do sul “atrasado” assim como São Paulo em relação ao interior do nordeste brasileiro. Não por acaso, ambas as regiões, “esquecidas” pelo desenvolvimento, mantiveram, além de níveis muito baixos de desenvolvimento humano e econômico, muitos de seus aspectos culturais (HIERNAUX-NICOLAS, 2005). O crescimento (quantitativo) das cidades, contudo, nem sempre é acompanhado pelo desenvolvimento (qualitativo). “Nessas condições”, para Lefebvre (2001, p. 137) “as transformações na sociedade são mais aparentes que reais”, ocultando sob a ideologia de uma modernidade transformadora a “estagnação das relações sociais”. Dessa forma, para o autor, ao subordinar a vida urbana ao crescimento da indústria, esse duplo processo de industrialização e urbanização “perde todo seu sentido” (LEFEBVRE, 2001, p. 137). 30


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3 A mecanização do trabalho agrícola reduz a demanda de mão de obra e dificulta a sobrevivência no mercado de pequenos produtores sem acesso à “modernização” do campo – “a cada aceleração o número de ‘lentos’ se multiplica” (SILVEIRA, 2005, p. 187). A cidade atrai os trabalhadores que sofrem com a insustentabilidade da vida no campo. [1] Colheita manual de algodão (O Menino e o Mundo [2013]). [2] Colheita mecanizada de algodão (O Menino e o Mundo [2013]). [3] Trabalhadores rurais numa carroceria de caminhão provavelmente se mudando para a cidade (O Menino e o Mundo [2013]). 31


Do habitar ao habitat Nos países fora do grupo “desenvolvido”, essa convergência populacional de gente pobre, como costuma dizer Milton Santos (2008), resultou na formação e expansão de uma periferia frequentemente destituída de infraestrutura e de vasta sorte de outros serviços públicos; seu último caso era a favela. No Brasil, houve também um grande número de cortiços – localizado em regiões mais centrais – que, em péssimas condições de salubridade, abrigou um significativo número de pessoas. Estas foram posteriormente expulsas quando surgiu o interesse imobiliário por essas áreas, fenômeno que vem se repetindo com bastante frequência em todo o mundo11. No contexto europeu, mais precisamente na França a partir da segunda metade do século XIX, Lefebvre (2001, p. 22-28) divide em três atos a estratégia de classe que, como resultado colateral, segundo o autor, destruiu a “urbanidade” ao expulsar o proletariado do centro urbano e da própria cidade. Com seus privilégios ameaçados pela concentração de trabalhadores portadores de uma lógica “democrático-camponesa”, a classe dominante francesa, em resumo, procedeu da seguinte forma: o primeiro ato consiste na desapropriação e demolição de boa parte do centro de Paris para a abertura de amplas avenidas e boulevards para proclamar “alto e forte” com os vazios “a glória e o poder do Estado que os arranja, a violência que neles pode se desenrolar” (LEFEBVRE, 2001, p. 23) – o Plano Haussmann12; o segundo ato é criação dos subúrbios, é quando ocorre, para Lefebvre, a concepção do habitat sob uma ideologia de ascensão à propriedade em prejuízo de uma vida social ativa na cidade, o habitar, dissipando assim, a “consciência urbana” (LEFEBVRE, 2001, p. 25); por fim, o terceiro ato foi a assunção pelo Estado da função de prover moradias que, mais que tornar-se um serviço público, torna-se uma barganha política diante das reivindicações populares. Essa mesma estratégia13 foi replicada sistematicamente ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Temos como resultado disso uma intensa segregação no espaço 11 

David Harvey (2014, p. 53-57), por exemplo, cita casos que ocorreram na Índia, China e Coréia do Sul, além de também mencionar o Brasil. 12  Plano de reforma de Paris seguido de meados do século XIX até as primeiras décadas do século XX que recebeu o nome de seu principal idealizador Georges-Eugène Haussmann (18091891). 13  Também se inscreve nisso a criação de uma “cotidianidade” (assunto abordado no capítulo 6). 32


da cidade. Lefebvre (2001, p. 97) distingue três aspectos desse processo: espontâneo, voluntário e programado, que provêm desde as diferenças de renda e de ideologia à ação planejada sob pretexto de melhorias e progresso. O caso-limite é o gueto (LEFEBVRE, 2001, p. 98), que, apesar do estigma do termo, pode designar tanto os bairros pobres, formados por um grupo “minoritário” e frequentemente vulnerável da população, quanto bairros ricos isolados da cidade, seu exemplo característico são os condomínios fechados de alto padrão econômico. No cerne desta questão, figura a dificuldade – sobretudo financeira – de acesso à terra e sua propriedade privada, além de questões discriminatórias por raça, nacionalidade, padrão de consumo etc. O caso dos menos favorecidos excluídos do “bem cultural que a cidade representa”, é o que, para Argan (2005, p. 258) provoca “impulsos antiurbanos, ou melhor, verdadeiras crises de rejeição que se manifestam na violência, na malandragem, no vandalismo contra o bem comum, na neurose, nas drogas”. Que sentimento da cidade pode ter ou conservar o operário que vive nas “lindas casinhas” da aldeia empresarial ou nos tétricos bairros populares situados na periferia para evitar o atravessamento “pendular” da cidade? E que se diverte jogando bola no campo e talvez no time da fábrica; ou que passa a noite no cinema do subúrbio ou no clube empresarial? “Ir ao centro” será, para ele, uma façanha, como era outrora “ir à cidade” para os habitantes do condado; e é no mínimo curioso que, cada vez que se fala em “sociedade” e em “comunidade”, se exclua, relegando-os aos subúrbios periféricos, justamente os que, além de constituir a parte numericamente maior da população, são os protagonistas mais diretos da chamada “função urbana” (ARGAN, 2005, p. 230-231).

Em meados da década de 1920, “os teóricos soviéticos já julgavam severamente a grande cidade”; eles “viam na metrópolis uma criação do capitalismo, um resultado das manobras da burguesia para melhor dominar a classe operária”, como lembra Lefebvre (2008, p. 86, grifo do autor) apesar de considerar isso uma verdade relativa. Essa visão foi, na mesma época, representada no cinema com o filme Metropolis (1927), do diretor austríaco Fritz Lang, uma produção exemplar do cinema expressionista alemão. O filme, cuja história se passaria dali um século, traz uma grande cidade futurística – Metropolis – extremamente segmentada e dividida por classes. No topo dos gigantescos prédios, reinam os ricos, os grandes 33


empresários e seus filhos. Separados destes pela área administrativa das empresas, seus servidores habitam as partes baixas da cidade. A cidade funciona graças a uma expressiva maquinaria localizada no subsolo, onde trabalham os “proletários”. Estes, continuamente extenuados por uma rotina intensa de trabalho, vivem confinados numa porção ainda mais profunda do subsolo, sem nem mesmo ver a luz do sol. É evidente, portanto, o caráter segregacionista da cidade-cenário da obra, que se constitui a partir de uma urbanização desmedida decorrente do modelo fabril de produção (BARROS, 2011a, p. 165). Em O menino e o mundo (2013), apesar do aspecto fantasioso, a cidade e suas contradições são representadas em bastante conformidade com o tradicional modelo centro-periferia. A cidade em que se passa a maior parte dos eventos possui um centro com prédios altos, onde parecem se concentrar as principais atividades urbanas, cercado por favelas, onde reside em más condições boa parte dos habitantes [4]. Em As cidades invisíveis, Italo Calvino (1990) descreve várias cidades imaginárias a vários aspectos das cidades “reais”. É de um desses relatos que Alê Abreu parece ter se inspirado para compor a cidade de O menino e o mundo (2013): “talvez o mundo inteiro, além dos confins de Leônia, seja recoberto por crateras de imundície, cada uma com uma metrópole no centro em ininterrupta erupção” (CALVINO, 1990, p. 106).

4 As cidades se expandem horizontalmente (espraiamento) e verticalmente (adensamento). Os centros, de localização privilegiada, vão se tornando cada vez mais caros de se morar. Pela condição financeira, e por outros motivos como pressão política, social e cultural, os pobres vão sendo continuamente expulsos para as zonas mais periféricas da cidade. [4] A cidade envolta de favelas e lixo. (O Menino e o Mundo [2013]).

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Snowpiercer (2013), do diretor sul-coreano Joon-ho Bong, assim como Metropolis (1927), traz uma divisão linear da sociedade; mas aqui, diferente da lógica vertical na obra de Lang (METROPOLIS, 1927), segue-se uma lógica horizontal. E não poderia ser diferente, afinal, em Snowpiercer (2013), não se trata de uma cidade no sentido comum do termo, mas de uma locomotiva em movimento ininterrupto que abriga o que se acredita ser o restante da humanidade (como uma releitura da arca de Noé). Cada vagão possui uma função diferente e abriga “classes” diferentes. Enquanto há vagões extremamente luxuosos e desfrutados por poucas pessoas, a última seção possui as piores condições de vida e a maior concentração de pessoas. Também aqui, a classe desprivilegiada é explorada para manter a “máquina” que suporta a sociedade funcionando. Muitos outros filmes representam a segregação de grupos na sociedade, Brave New World (1980) de Burt Brinckerhoff e 1984 (1984) de Michael Radford, ambos baseados nos livros homônimos de Aldous Huxley e George Orwell respectivamente, são exemplos disso. Entretanto, ressalta-se por último, a forma metafórica como isso foi feito e outra obra cinematográfica, District 9 (2009). No filme, dirigido pelo diretor sul-africano Neill Blomkamp, o grupo excluído é formado por uma raça alienígena que fica completamente confinada em uma área controlada pelo governo – o Distrito 9. A história se serve da metáfora para discutir sobre as discriminações sofridas pelos grupos de minoria, sobretudo pela questão racial – crítica que ganha expressão visto que a película foi produzida na África do Sul, país que sofreu quase meio século com um sistema institucionalizado de segregação racista, o apartheid. O urbanismo e a arquitetura Seja na construção de edifícios públicos ou privados, na provisão de moradias e infraestrutura ou na elaboração e execução de planos de ordenamento espacial, o urbanismo e a arquitetura atendem a interesses específicos. Como conhecimento ou como instrumento, assim como em praticamente todas as áreas, as classes dominantes sempre tiveram mais acesso aos seus frutos. É de se esperar, portanto, que o urbanismo e a arquitetura sejam frequentemente utilizados tanto para ganhos econômicos quanto como demonstração de poder e glória; o que, em muitas vezes, ocorre em prejuízo de algum grupo (normalmente pobre) da sociedade. O Plano Haussmann e as obras monumentais realizadas nos países que compunham a extinta União Soviética (1922-1991) são bastante exemplares 35


do favorecimento de uns poucos grupos em detrimento do prejuízo de muitos; no Brasil, temos os exemplos clássicos da construção de Brasília (1965-1960) e da execução de programas habitacionais, entre os quais se destaca o mais recente, o Programa Minha Casa Minha Vida (2009-). E não são poucos os que denunciam essa faceta do urbanismo e da arquitetura: O urbanismo é a realização moderna da tarefa permanente que salvaguarda o poder de classe: a manutenção da atomização de trabalhadores que as condições urbanas de produção tinham perigosamente reunido (DEBORD, 1997, p. 113, grifo do autor). O urbanismo aparece [...] como o veículo de uma racionalidade limitada e tendenciosa da qual o espaço, ilusoriamente neutro e não-político, constitui o objeto (objetivo) (LEFEBVRE, 2008, p. 148). Houve e há arquitetos capazes ou incapazes, comprados pela alta e pela baixa especulação; constroem para o lucro dos proprietários, sem se preocupar com as pessoas que condenam a condições de vida indignas e com a cidade que condenam à morte (ARGAN, 2005, p. 247-248). Ao longo de toda a história, a arquitetura tem glorificado o poder e a dominação por meio de sua linguagem autoritária de ordem e autoridade (PALLASMAA, 2013, p. 115).

Esse aspecto do urbanismo e da arquitetura, além de bastante ressaltado pelos teóricos e críticos, é muito presente no cinema. A cidade de Metropolis (1927), a futurística Los Angeles de Blade Runner (1982) e a Londres de 1984 (1984), por exemplo, são todas caracterizadas por construções que impõem o poder de corporações privadas (no caso dos dois primeiros) e do Estado (no caso do último) sobre a cidade e seus habitantes [5] [6] [7]. Outra prática que vem se utilizando desses meios – o urbanismo e a arquitetura – em proveito do interesse de poucos e constantemente causando o prejuízo de muitos diz respeito ao interesse de cidades e lugares em “criar uma imagem positiva e de alta qualidade de si mesmos”, como afirma Harvey (2010, p. 91-92), competindo entre si, sobretudo, “como centros financeiros, de consumo e de entretenimento”. Voltando ao assunto em outra obra, Harvey (2014) ressalta os efeitos negativos dessa “criação de marca” das cidades, que, como diz o autor, “pode requerer a expulsão ou 36


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7 [5] A “Torre de Babel” (ao centro) – possivelmente inspirada pela pintura homônima (1563) do pintor flamengo Pieter Bruegel (1525-1569), referência aos escritos bíblicos – domina com sua imponência a paisagem urbana de Metropolis (1927). [6] A gigantesca sede da “Tyrell Corporation” – empresa privada dominante na futurista Los Angeles de Blade Runner (1982). [7] O “Ministério da Verdade” em 1984 (1884). Apesar de no filme de Michael Radford a cidade aparecer em planos fragmentados que impedem a apreensão da totalidade do contexto – provavelmente uma escolha compositiva do diretor para transmitir ao espectador a impotência e ignorância do protagonista – na obra de George Orwell que inspirou o filme, é descrita a imponência dos Ministérios estatais. 37


erradicação de todas as pessoas ou coisas que não sejam adequadas à marca” (HARVEY, 2014, p. 200). Isso se caracteriza como um fenômeno ampliado do que Milton Santos (2008) chamava de “urbanização corporativa”. “Nessas condições, cada solução se impõe como um problema”, diz Santos (2008, p. 125), porque na medida em que há o melhoramento de uma área pobre “faz dela o teatro de um conflito de interesses com as classes médias em expansão, para não falar das classes altas”. Apesar das intensas críticas às práticas urbanísticas e arquitetônicas – sobretudo as modernistas –, é importante lembrar, como faz Harvey (2010; 2014), que no período pós-guerra as cidades europeias estavam arrasadas e algo em larga escala e em pouco tempo, além de ainda ser necessário atender aos interesses capitalistas, precisava ser feito. E nisso o modernismo teve algum sucesso, como a reconstrução das cidades e o abrigo de populações “em condições muito melhores do que as do período entre-guerras” (HARVEY, 2010, p. 72). Por fim, Harvey (2010, p. 73) ressalta também que muitas das críticas aos resultados formais e ideológicos do movimento devem-se ao contexto político e econômico sob o qual atuava.

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CAPÍTULO 5: CAPITAL E TRABALHO O crescimento econômico libera as sociedades da pressão natural, que exigia sua luta imediata pela sobrevivência; mas, agora, é do libertador que elas não conseguem se liberar (DEBORD, 1997, p. 29). O capital é um processo, e não uma coisa. É um processo de reprodução da vida social por meio da produção de mercadorias em que todas as pessoas do mundo capitalista avançado estão profundamente implicadas (HARVEY, 2010, p. 207). Em uma crise, sem dúvida, o trabalho pode ser desvalorizado mediante o desemprego em massa (HARVEY, 2014, p. 23).

O capital e a produção do espaço Como já anunciado no capítulo anterior, a urbanização sempre esteve atrelada ao capital e ao seu desenvolvimento. O capitalismo, que produz excedentes incessantemente, encontra na urbanização um de seus principais meios de absorção (HARVEY, 2014, p. 30-33). David Harvey (2010; 2014) aponta dois fenômenos decorrentes dessa relação: a “destruição criativa” e os booms imobiliários. Em Cidades rebeldes, Harvey (2014, p. 67133) demonstra como os booms imobiliários precederam sucessivas crises financeiras, citando, como exemplo, a proliferação de edifícios em Nova Iorque que representam “mais do que um movimento arquitetônico” sendo, em grande parte, “a manifestação de um fenômeno financeiro generalizado” (GOETZMANN; NEWMAN apud HARVEY, 2014, p. 77). Já os processos de destruição criativa, “que implicam a desapropriação das massas urbanas de todo e qualquer direito à cidade” (HARVEY, 2014, p. 59) podem ser elucidados a partir de seu ponto máximo: a guerra. A animação japonesa Akira (1988), dirigida por Katsuhiro Ôtomo, é bastante exemplar quanto ao tema. Produzido num país que sofreu com a explosão de duas bombas nucleares – que fazem parte de um dos ataques mais emblemáticos da Segunda Guerra Mundial e “o maior evento da história da destruição criativa do capitalismo” segundo Harvey (2010, p. 27) –, o filme expressa muito do imaginário japonês do pós-guerra (medos ou receios, vulnerabilidade e, entre outras coisas, certo pessimismo). A história se passa na cidade de Neo-Tokyo [8] – construída após a original ter sido destruída 39


numa terceira Grande Guerra e muito similar às cidades saturadas de prédios gigantescos de Metropolis (1927) e Blade Runner (1982) – e conta a trajetória de um membro de uma gangue de motoqueiros que, envolvido com projetos militares secretos do governo, desenvolve poderes psíquicos ameaçando a destruição da cidade, numa espécie de repetição do evento anterior [9]. Walter Benjamin (2014, p. 209-212), discorrendo sobre o manifesto de Marinetti sobre a guerra colonial da Etiópia, já mostrava a guerra como “utilização antinatural” das forças produtivas, já que sua “utilização natural” é bloqueada pelas relações de propriedade. Paul Virilio (1993, p. 15) demonstrava sua preocupação com a possível substituição da “tradicional política de grandes obras públicas” pela “demolição das grandes cidades”, afirmando que “se este for o caso, não distinguiremos mais a diferença de natureza entre a recessão (econômica, industrial) e a guerra”.

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9 [8] Cidade de Neo-Tokyo (Akira [1988]). [9] Espécie de “explosão” que, contida, oblitera parte da cidade de Neo-Tokyo (Akira [1988]).

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Outro aspecto da relação capital-produção do espaço diz respeito a este como “barreira” para o capital: “a distância que separa a empresa do mercado” (CARLOS, 2009, p. 77). Essas barreiras espaciais são vencidas pela criação de redes de circulação e de consumo; “o progresso implica a conquista do espaço”, explica Harvey (2010, p. 190). São necessárias, para isso, a criação de um mercado mundial e a criação de infraestruturas (sobretudo de transporte e comunicação) – interligadas, ambas resultam no estabelecimento de hierarquias em diferentes níveis e numa espécie de competição entre os lugares – que envolve, entre outros fatores, a isenção de taxas e diversas formas de subsídios – para atrair o capital (HARVEY, 2010). A produção de infraestruturas – ferrovias, rodovias, portos, aeroportos, redes de energia, telefonia e internet etc. – requerem vastos investimentos financeiros, e aqui, mais uma vez, “o Estado se coloca a serviço da reprodução ampliada do capital” (CARLOS, 2009, p. 83). Afinal, assim como tem sido com a provisão de moradias, “o que é que a empresa ‘privada’ deixa para o Estado, para as instituições, para os organismos ‘públicos’ a não ser aquilo que ela não se encarrega por ser demasiadamente oneroso?” (LEFEBVRE, 2001, p. 84). “Na medida em que faz depender do mundo inteiro cada nação civilizada”, nas palavras de Ana Fani Carlos (2009, p. 66), “a grande indústria com seus fluxos cria a história mundial”. Esse processo, amplamente conhecido como globalização, que vinha acontecendo principalmente por meio do imperialismo desde meados do século XIX com a expansão do comércio e do investimento exterior, atingiu maiores proporções com a internacionalização do fordismo (HARVEY, 2010). Esse processo estabeleceu uma divisão internacional do trabalho na qual os Estados Unidos alcançaram e mantiveram por um longo período uma posição de domínio econômico e ideológico, sobretudo na América Latina, onde foi frequentemente acompanhado por alianças militares. Este aspecto específico voltará a ser discutido no próximo capítulo. Cabe, aqui, ressaltar alguns dos resultados sócio-econômico-espaciais desse processo. A criação do “fordismo periférico14”, que consistiu no aproveitamento de mão de obra mal remunerada dos países “não-desenvolvidos” – devido, em especial, ao descostume com o sistema fabril e à inexistência de um movimento trabalhista significativo nesses lugares – se deu, sem muita resistência onde a produção podia ser padronizada (HARVEY, 2014, p. 146). O advento de novos modos de produção e a coexistência com os antigos 14 

Termo criado por Alain Lipietz (1986, apud HARVEY, 2010, p. 146). 41


trazem, contudo, outros efeitos. Considerando que, como afirma Harvey (2010, p. 308), “o grau de fordismo e modernismo, ou de flexibilidade15 e pósmodernismo, varia de época para época e de lugar para lugar, a depender de qual configuração é lucrativa e qual não o é”, e que cada modo de produção corresponde a lógicas temporais e espaciais distintas, o resultado não poderia ser outro que não o acirramento das diferenças entre os lugares, nos mais variados aspectos. Essas diferenças são causas e efeitos de investimentos direcionados no “meio técnico-científico16” desses lugares, resultando no nível de integração dos mesmos e na sua posição hierárquica dentro dessas redes de fluxos. “Na globalização, a América Latina mostra, mais uma vez, que não é homogênea, que as possibilidades e mazelas da história do presente atingem-na diferenciadamente, que a lei de perseguir a mais-valia se faz a partir do uso específico de cada território nacional e que cada sociedade dá um valor próprio às coisas, aos homens, às ações. Mas o período atual revela, também, que há um denominador comum no continente: a desvalorização do trabalho, fundamento da pobreza” (SILVEIRA, 2005, p. 10, grifo meu).

Esse uso específico do território nacional, impulsionado pelo comércio internacional, tem diversos exemplos na América Latina, seja pela existência de recursos naturais e de áreas propensas ao desenvolvimento de determinadas atividades (neste caso, em geral, agrícolas), seja pela viabilização da circulação de seus produtos – a articulação dos espaços em patamares nacional e internacional. No Chile, por exemplo, além da concentração populacional, econômica e de poder político na região metropolitana de Santiago, destacase o caso da mineração de cobre no norte do país, componente fundamental para o investimento estrangeiro e, consequentemente, de suas exportações (PÉREZ, 2005). Outro caso específico da existência de recursos naturais é a Venezuela. O país, que desenvolveu uma economia agroexportadora de café e cacau baseada nos sistema de plantação colonial, viu drásticas mudanças no seu território com o estabelecimento da atividade petrolífera. Efeitos 15 

Este conceito refere-se ao regime de acumulação flexível, nome dado por Harvey (2010), que se sucede e se opõe ao sistema fordista de produção – que se configura como rígido para o autor. 16  Termo utilizado por Milton Santos (2008) para designar o processo de produção do espaço que se dá com inclusão crescente de conteúdo científico, técnicas e de informação. 42


disso foram o intenso translado da população para as áreas petrolíferas e o desenvolvimento desigual do meio técnico-científico (FIGHERA, 2005). México e Colômbia apresentam, ambos, especificidades na sua relação com os Estados Unidos. O primeiro, muito devido à sua proximidade com o país vizinho, viu uma verdadeira “marcha para o norte” decorrente da implantação das indústrias maquiladoras17 e do crescimento das empresas de exportação (HIERNAUX-NICOLAS, 2005). Daniel Hiernaux-Nicolas (2005, p. 37), em seu texto Globalização e exclusão no México, assinala também que a diferença da região norte com o resto do país está, além de na estrutura econômica, na configuração espacial e no modo de vida da população que “embora de migração recente, se integram facilmente ao sonho americano em versão local, na falta de conseguir emigrar e integrar-se nos Estados Unidos”. Já a Colômbia investiu em infraestrutura (com destaque para a construção de rodovias, oleodutos e polidutos) e na indústria manufatureira com os recursos provenientes da exportação de café da indenização pela perda do Panamá – processo que teve início com o tratado em conjunto com os Estados Unidos para a construção e operação da ferrovia no istmo panamense (GÓMEZ, 2005). No texto Globalizações e construção do território colombiano, Gustavo Montañez Gómez (2005, p. 104) acrescenta que o “melhoramento relativo da infraestrutura viária e de transportes não se traduziu em uma diminuição substancial das desigualdades territoriais históricas”. No Brasil, o investimento em infraestruturas físicas e informacionais também ocorrem de forma diferenciada no território. O meio técnicocientífico entendido como “terreno de eleição para a manifestação do capitalismo maduro”, segundo Santos (2008, p. 43), “também dispõe de força para criá-lo”. Isso resulta no fato de que as diferenças no território, antes naturais, são agora, sobretudo, sociais. Estabelecem-se, dessa forma, novas hierarquias nas quais a região sudeste – especialmente a cidade de São Paulo, que se refuncionaliza –, assume posição polar (SANTOS, 2008, p. 4950). A integralização do país, a partir da implantação dessas infraestruturas, segundo Santos (2008), ocorreu em algumas fases. Destas destacam-se: o período pós-Segunda Guerra, como ocorreu em boa parte da América Latina, com o intuito de substituir importações; e o período subsequente ao 17 

Indústrias que funcionavam sob um estatuto de exceção que permitia fluxos de importação e exportação de produtos sem a cobrança de impostos. Em resumo, essas indústrias estrangeiras se instalavam no país, aproveitando seus recursos materiais e humanos como se estivesse locadas em seu próprio país de origem. Essa forma de industrialização teve início na década de 1960 com significativo crescimento a partir dos primeiros anos da década de 1980 (HIERNAUXNICOLAS, 2005, p. 33). 43


golpe militar de 1964 com a expansão da economia para atender tanto a um mercado interno crescente quanto ao mercado externo – principalmente, como de praxe, com bens primários –, incluindo o Brasil num “movimento de internacionalização que aparecia como irresistível” (SANTOS, 2008, p. 39). O Menino e o Mundo (2013) mostra a presença – no território natal de seu protagonista – de algumas dessas indústrias (petrolífera, mineradora, automobilística, além da agropecuária e da indústria madeireira) e dos meios de circulação de seus produtos (portos, aeroportos, rodovias e ferrovias) [10]; expondo, em diversos momentos, a destinação estrangeira – além da própria presença de empresas multi ou transnacionais – dessa produção. Dentre esses meios de escoamento da produção, destaca-se a via marítima. E não sem motivo, visto que é esse meio, no Brasil, o mais escolhido para “facilitar o fluxo internacional de cargas” (ARROYO, 2005, p. 218). A atividade portuária foi também onde houve grande queda na redução de empregos, como lembra Mónica Arroyo (p. 218-220), em Fluidez e porosidade do território brasileiro no contexto da integração continental, com a modernização dos terminais portuários – que inclusive virou lei em 1993 – para “adaptar-se aos requisitos técnicos que o uso do contêiner exige”. No filme, com todo esse processo, fica para o país fictício (que poderia ser tanto o Brasil quanto qualquer outro país “periférico” no mundo), numa mistura de imagens reais e animadas, o ônus da produção: poluição e degradação da natureza e trabalhadores explorados [11] [12].

10 [10] Os portos em O Menino e o Mundo (2013), assim como no Brasil, têm destaque na exportação de produtos básicos e semimanufaturados e na importação de produtos industrializados.

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12 [11] Máquina-animais “consomem” rapidamente os recursos vegetais (O Menino e o Mundo [2013]). [12] Imagens documentais da devastação vegetal pela indústria madeireira e, em muitos casos pela indústria agropecuária (O Menino e o Mundo [2013]).

O trabalho sob o capitalismo Se no processo de absorção dos bens produzidos pela indústria, o capitalismo já encontra tantas formas de se reproduzir, no processo de produção desses bens possui outras tantas. “Em sua face politicamente neutra, o dinheiro é a equivalência universal e o meio de troca”, como afirmam Michael Hardt e Antonio Negri (2016, p. 324), “em outra face, contudo, o dinheiro, como terreno exclusivo da representação do valor, detém o poder de comandar o trabalho”. É reconhecido, pelo menos desde Marx (1967), que a “classe burguesa” encontrou na exploração do trabalho “seu próprio valor como classe dominante” (DEBORD, 1997, p. 98), repetindo com a “classe trabalhadora”, por outros modos, o que os regimes feudais e escravocratas já faziam. É evidente, portanto, que o trabalho passou por 45


transformações; e isso ocorre mesmo dentro do próprio sistema capitalista. A divisão da “grande indústria” em duas grandes fases feita por Negri (2003, p. 60-68) em Cinco lições sobre Império resume algumas dessas mudanças. O autor faz um apanhado sobre o que ele chama de “composição técnica e política do sujeito proletário” nesse período, abarcando as modificações dos “processos laborais”, das “normas de consumo”, dos “modelos de regulação econômica e política” e da “composição política de classe”. Interessam, neste momento, as questões relativas aos processos laborais. Na primeira fase, que vai do início da década de 1870 à segunda metade da década de 1910 – “da Comuna de Paris à Revolução Russa” – constitui-se o “operário profissional”, formado na própria fábrica, “o operário se torna parte da maquinaria, ou melhor, seu apêndice” (NEGRI, 2003, p. 61, grifo meu). Na segunda fase – do fim da Primeira Guerra a 1968 – constitui-se o “operário-massa”, destituído de “qualquer qualidade concreta e anexada, como tal, ao processo industrial, nas formas do taylorismo” (NEGRI, 2003, p. 64, grifo do autor). Neste momento, não se exige mais um conhecimento técnico do operário, que passa a assumir funções de raso e rápido aprendizado, tornando-se facilmente substituível. O trabalhador como “apêndice” da máquina – termo também utilizado por Harvey (2010, p. 102) ao discorrer sobre a “perda do controle sobre os instrumentos de produção” e que diz respeito às duas fases de Negri (2003), mas principalmente à segunda – é tema recorrente no cinema. Metropolis (1927) e O menino e o mundo (2013) representam isso de forma bastante similar ao mostrar operários como parte da engrenagem das máquinas no sistema fabril [13] [14]. Em Metropolis (1927), há ainda um acidente que causa a morte de vários operários que, tendo seus corpos logo descartados, são rapidamente substituídos por outros. Esse evento é assistido pelo protagonista do filme que, numa espécie de delírio, vê a grande máquina como um monstro que engole homens em sacrifício. A repetição do tema nessas duas produções com significativa diferença temporal evidencia a já citada coexistência dos modos de produção, assim com de suas causas e de seus efeitos. Snowpiercer (2013) também traz essa mesma questão, mas de forma mais inusitada. Neste filme, uma criança, por causa de seu tamanho e sempre tirada da desprivilegiada última seção do trem, é necessária para – de fato – substituir um equipamento do motor que parou de funcionar, “selando” o destino da criança [15]. Como lembra Barros (2011a, p. 169), Matrix (1999), dirigido pelas irmãs Lilly e Lana Wachowski, trazem outra metáfora para “a imagem do homem que alimenta a máquina com seu próprio corpo e com sua própria alma”. Neste filme, a energia corporal humana 46


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15 O trabalhador como “apêndice” da máquina é tema recorrente no cinema, muitas vezes como metáfora para toda a sociedade em que os grupos que constituem a base da “pirâmide social” são explorados para manter essa estrutura. [13] Homens trabalhando na grande máquina (Metropolis [1927]). [14] Homens trabalhando numa fábrica têxtil (O Menino e o Mundo [2013]). [15] Criança confinada em meio às engrenagens que mantêm o trem funcionando (Snowpiercer [2013]).

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alimenta, literalmente, as máquinas. Apesar deste trabalho se deter ao uso de obras cinematográficas que apresentam cidades imaginárias relevantes para o enredo (assumindo, para todos os efeitos, que o trem de Snowpiercer [2013] também se configura como uma cidade), vale citar também o clássico Modern Times (1936), de Charlie Chaplin, e suas cenas da linha de montagem da fábrica e do momento em que o protagonista é “engolido” pela máquina. Ainda há outros aspectos importantes dessa “grande indústria” relativos ao trabalho. A própria mecanização, de acordo com G. Lukàcs (apud DEBORD, 1997, p. 27), contribui para a submissão do trabalhador ao tornar sua atividade “contemplativa”. Outro é o controle do tempo no processo de trabalho, que também se estende para outros momentos da vida como será visto no próximo capítulo. Paul Virilio (1996, p. 118), por exemplo, traz o relato de um operário de uma usina têxtil francesa que diz sobre esses dois pontos: “Faço seiscentas vezes o mesmo gesto por hora. Quando tínhamos as velhas máquinas, podíamos parar um pouco. Agora, é um computador que comanda a linha de montagem e estabelece os ritmos”. Harvey (2010, p. 101) lembra ainda, citando Marx (1967, 1: 3), que a conversão para o trabalho assalariado, junto com as outras características da produção fabril, separa o trabalho de seu produto. Todos esses aspectos convergem, portanto, para a alienação do operário. Por outro lado, o espaço da fábrica reúne os operários; esse encontro é base sobre a qual se erige o movimento operário, aumentando o poder da classe trabalhadora, e que pode servir de exemplo para os movimentos urbanos, como será discutido no capítulo 7. Negri (2003, p. 66) cita, também, a constituição do “operário social”, surgido a partir dos processos de “automação das fábricas e de informatização do social”. Esta passagem que acontece nos anos 1970 corresponde ao que Harvey (2010) chama de regime de “acumulação flexível”, um dos pontos que fundamentam sua tese da pós-modernidade. Esse regime, que se apoia na “flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo” (HARVEY, 2010, p. 140), gera o “trabalhador precário”. Em resumo, nas palavras de Harvey (2010, p. 263) “as empresas subcontratam ou recorrem a práticas flexíveis de admissão para compensar os custos potenciais de desemprego provocado por futuras mudanças no mercado”. Neste novo período, constata-se a desvalorização do trabalho que acompanha o desemprego proveniente da automação fabril e de um processo de desindustrialização. Nos países latinos, como lembra María Laura Silveira (2005, p. 201) em Argentina: do desencantamento da modernidade à força dos lugares, surpreende, nas cidades, o “dinamismo dos terciários”. Qualificados ou banais, foi a forma “ainda que precária” de “sobrevivência 48


para boa parte dos trabalhadores” (SILVEIRA, 2005, p. 201). São estes trabalhadores que vão suprir boa parte da demanda pelas “atividades nãohegemônicas”, como dizia Santos (2008, p. 120), que, em geral, são “deixadas à ‘espontaneidade’ do mercado”. As variações dos modos de trabalho são bastante exploradas por Alê Abreu em O Menino e o Mundo (2013). O trabalho no campo antes e depois da mecanização, da fábrica manufatureira à fábrica automatizada, os desempregos causados nesses processos, as atividades “não-hegemônicas” etc. Além de tudo isso fazer parte da estrutura principal do enredo, é especialmente marcante a representação, por meio de panfletos de oferta de emprego, do manejo da força de trabalho pelos interesses capitalistas. São três os momentos mais simbólicos em que isso ocorre. No primeiro, o personagem principal, o menino Cuca – que, para lembrar, está em busca de seu pai que deixou o campo –, agarra um panfleto de oferta de emprego em uma fábrica que cai da carroceria de um caminhão cheio de trabalhadores rurais. Este é o início da trajetória do menino em direção à cidade grande. No segundo, um jovem – que depois se descobre ser o próprio Cuca crescido – logo após ser demitido de uma fábrica têxtil, compara panfletos de oferta de emprego no campo e na indústria. No terceiro, que se trata do clímax do filme, o menino persegue um trem – como o que levou seu pai embora – até a estação; neste momento, sob uma chuva de panfletos com variadas ofertas de emprego (entre as quais se destaca as da construção civil, área que tanto absorveu mãode-obra migrante nas metrópoles brasileiras), um exército de figuras idênticas ao seu pai desembarca do trem [16]. É o fracasso da jornada de Cuca.

16 [16] A chegada de inúmeros trabalhadores rurais na cidade de O Menino e o Mundo (2013) em busca de emprego.

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Tendência a crises David Harvey (2010, p. 164-169), ao reunir, a partir das análises de Marx (1967), as características essenciais do capitalismo, elenca três, aqui resumidas. Primeira: “o capitalismo é orientado para o crescimento”; segunda: “o crescimento em valores reais se apoia na exploração do trabalho vivo na produção”; e terceira: “o capitalismo é, por necessidade, tecnológica e organizacionalmente dinâmico”. Harvey continua a explanação dizendo que Marx já tinha sido capaz de demonstrar que, devido à inconsistência e contraditoriedade dessas condições citadas anteriormente, “a dinâmica do capitalismo era necessariamente propensa a crises” (HARVEY, 2010, p. 169). Tendência que, como Harvey (2010) sustenta, permanece a mesma com as mudanças que o autor esboça na passagem para a lógica pós-modernista de acumulação flexível e que atinge maiores proporções com a emergência do “capitalismo de cassino18”. Por fim, vale destacar o papel do Estado em situações de crise financeira. De forma muito diferente do senso-comum brasileiro, por exemplo – em que se acredita numa configuração dicotômica entre Estado e mercado, como explica Jessé de Souza (2015) em A tolice da inteligência brasileira, na qual o Estado (corrupto) age principalmente como um limitador inconveniente do mercado (benevolente) – com frequência, é pela ação do Estado que o capitalismo se desenvolve e a quem recorre “em caso de necessidade” (NEGRI, 2003, p. 233-234). “A aliança – defensiva e ofensiva – firmada entre essas duas forças”, como já dizia Debord (1997, p. 175), “garantiu-lhes os maiores ganhos comuns em todos os domínios: pode-se dizer que cada uma das duas possui a outra; é absurdo opor uma à outra, ou fazer distinção entre suas razões e desrazões”.

18 

Sistema que tem em suas bases a especulação financeira e a formação de capital fictício, que como Harvey (2010, p. 300) ressalta, surge, em boa parte, “sem o lastro de qualquer crescimento de produção real”. 50


CAPÍTULO 6: DOMÍNIO E CONTROLE A ignorância é produzida para ser explorada (DEBORD, 1997, p. 206). Os bens outrora raros tornam-se abundantes: o pão e os alimentos em geral (ainda raros numa grande parte mal desenvolvida do planeta, mas superabundantes na parte desenvolvida). Ao contrário, os bens outrora abundantes tornam-se raros: o espaço, o tempo, o desejo. E depois a água, a terra, a luz (LEFEBVRE, 2008, p. 34). Abater um adversário é menos capturá-lo do que cativá-lo (VIRILIO, 1996, p. 20).

O domínio entre nações Como anunciado no capítulo anterior, a criação de um mercado mundial veio acompanhada pelo domínio dos países “desenvolvidos” sobre os “não-desenvolvidos”, o que não se dá apenas no âmbito econômico. A partir desses países dominantes, que se constituem como um centro – no sentido que Pierre Lévy (2001, p. 28) dá para o termo: “um nó de fluxos [...] densamente interconectado consigo mesmo e com o mundo” (que se aproxima em alguns pontos da centralidade decisória de Lefebvre [2001]); em contraposição ao conceito de periferia, “uma extremidade de rede [...] mal conectada consigo mesma” que possui suas ligações com o entorno controladas pelo centro –, controla-se pela supremacia militar, poderio econômico e pela irradiação cultural, os fluxos de informações, de conhecimentos, de dinheiro e de mercadorias (LÉVY, 2001, p. 28). Nessa configuração, que determina uma “divisão mundial das tarefas espetaculares”, como denomina Guy Debord (1997, p. 38-39), conserva-se, sobretudo, esses centros como polos dominantes. A dominação – que se constitui na relação entre dominador e dominado –, mesmo quando não imposta por meios militares ou econômicos (e frequentemente a estratégia envolve todos os meios disponíveis simultaneamente), precisa mascarar e convencer ambos os lados da sua suposta legitimidade. Como afirma Souza (2015, p. 9-10), “todos os privilégios e interesses que estão ganhando dependem do sucesso da distorção e do falseamento do mundo social para continuarem a se reproduzir 51


indefinidamente”. Seja em âmbito nacional ou internacional, é por meio de uma sorte de ideologias que isso é feito. “A ideologia é a base do pensamento de uma sociedade de classes, no curso conflitante da história”, dizia Debord (1997, p. 137, grifo do autor), “os fatos ideológicos nunca foram simples quimeras, mas a consciência deformada das realidades, e, como tais, fatores reais que exercem uma real ação deformante”. O conto de uma “modernização progressista” protagoniza o discurso dos países dominantes que direcionaram as políticas econômicas e sociais nos países periféricos (HARVEY, 2010; SANTOS, 2008; SILVEIRA, 2005; SOUZA, 2015; HARDT; NEGRI, 2016). Aliada a isso, há uma crença de que essas sociedades centrais – norte-americanas e europeias – são cognitiva e moralmente superiores; qualidades justificadas pelo “estoque cultural” dessas nações (SOUZA, 2015, p. 25). Como Jessé de Souza (2015) mostra ao longo de todo seu trabalho, não são poucos os meios – como a mídia e a teoria científica – de se transformar em senso-comum ideias como essa. Sobre a corrupção nas sociedades “avançadas”, o autor cita, por exemplo, o trabalho de Niklas Luhmann, para quem “os casos que saem na imprensa seriam algo como ‘deslizes individuais’ inevitáveis [...] um mero ‘ruído’, uma exceção, e não uma forma ‘normal’ de funcionamento do sistema econômico e político” (SOUZA, 2015, p. 149). Alain Badiou (2017), em Em busca do real perdido, demonstra como os escândalos periódicos de corrupção (que afirma serem onipresentes) funcionam não como revelação do real, “mas como encenação de um pedacinho do próprio real no papel de uma exceção ao real” (BADIOU, 2017, p. 17, grifo do autor). Hardt e Negri, ao falar sobre a hegemonia estadunidense, mostram a incoerência desse tipo de discurso que Souza (2015) classifica como “culturalismo racista”: A explicação ideológica da hegemonia americana tem-se baseado no conceito de que os Estados Unidos agem de maneira coerente, seja internamente ou no exterior, na promoção e defesa da liberdade e da democracia. Conhecemos perfeitamente, contudo, a longa história de iniciativas do governo americano para solapar governos democraticamente eleitos e apoiar ditaduras, mediante operações declaradas ou encobertas, da Guatemala e do Chile às Filipinas e à Indonésia (HARDT; NEGRI, 2016, p. 238).

A América Latina, há muito, está sujeita à influência externa, predominantemente por parte dos Estados Unidos. As numerosas ditaduras militares que o continente testemunhou – mesmo em países que não se encaminhavam para este caminho como no caso uruguaio (GALLERO, 2015) 52


– são exemplos disso. Não foi por acaso que, como afirma Milton Santos (2008, p. 109), “no Brasil moderno pós-1964, conjugam-se, como a mão e a luva, as exigências de inserção em nova ordem econômica mundial que se desenha e as necessidades internas de um Estado autoritário” (ressaltase que os termos “exigências” e “necessidades” devem ser interpretados com cautela). Santos (2008) discorre sobre os efeitos que essa aliança, que já vinha ocorrendo em grandes proporções desde o “desenvolvimentismo” dos anos 1950, trouxe para o país: presença cada vez expressiva de empresas internacionais, expansão das grandes empresas em prejuízo das menores e da própria população, rígido controle de manifestações, manipulação da opinião pública acompanhada por uma “despolitização da política”, crescimento da dívida externa, triunfo de um consumo “dirigido e desculturalizante” etc. A submissão latina ainda viria a se estender: Historicamente aberta às modernizações, a América Latina é hoje um continente em chamas cujos territórios foram privatizados e suas economias, alienadas. Esse processo, amparado no fetiche das moedas, ocultou e legitimou um sistema excludente e injusto. Prometendo tirar a América Latina do marasmo, o ideário do Consenso de Washington foi aplicado nos seus rígidos princípios de estabilidade macroeconômica, abertura da economia, redução do papel do Estado e ajuste estrutural. Apresentada como consequência inevitável e indesejável do caminho de recuperação dos países, a pobreza foi, na verdade, uma produção do receituário e, portanto, uma opção política do norte ao sul do continente (SILVEIRA, 2005, p. 17).

Com um processo de produção tão ligado a esta realidade latina, como explicado na primeira parte deste trabalho, O Menino e o Mundo (2013) não poderia deixar de representar essa dominação estrangeira. Foi utilizada, para representar isso, a figura de um pássaro que se assemelha a uma águia – que desde o império dos persas e dos diácodos é símbolo da soberania imperial, tornou-se emblema militar romano e passou a fazer parte do brasão de muitos países e povos (LURKER, 1997, p. 7-8) – numa provável referência à águia norte-americana, um dos símbolos mais difundidos dos Estados Unidos. Por tudo isso, a figura desse pássaro será assim identificada neste trabalho. A águia está presente em vários lugares pertinentes: nas caixas de produtos importados e em seus cartazes de propaganda [17], evidencia a “irradiação cultural” e a posição hierárquica do país estrangeiro na rede de comércio; na entrada de uma fábrica após um processo de 53


modernização (trata-se da automação da mesma fábrica que causou a demissão do protagonista, momento do filme já citado anteriormente) [18]; num confronto de uma força militar com manifestantes em que cada lado é simbolizado por um pássaro diferente, o lado policial, repressor, a águia (este momento do filme será retomado no próximo capítulo); por último e identificando a origem de todas as outras, próxima ao topo de uma redoma que envolve várias cidades flutuantes no ar como naves espaciais [19]. Cabe ressaltar, aqui, alguns aspectos deste último lugar. Essas cidades flutuantes, aparentemente desenvolvidas, são o destino das embarcações que partem dos portos da cidade principal do filme. Estes passam por uma espécie de abdução, sua carga de produtos primários (o foco é o algodão) é transformada em produtos de vestuário finalizados e

17

18 [17] Cartazes publicitários de mercadorias importadas (peças de vestuário) sugerindo a difusão de um padrão estrangeiro de consumo como símbolo de status. (O Menino e o Mundo [2013]). [18] Após o processo de automação da produção, o emblema da águia é colocado na entrada da fábrica têxtil (O Menino e o Mundo [2013]). 54


encaixotados que são devolvidos às embarcações para, então, retornarem à cidade de origem. A suspensão no ar, a presença de uma redoma e a série de elementos de caráter bélico no exterior dessas cidades sugerem um isolamento protetivo contra o que vem de fora. É possível interpretar isso como um indicativo do posicionamento dessas sociedades presentes no filme diante do que Pierre Lévy (2001, p. 32) chama de “nova pulsação da Terra”: a travessia de fronteiras. Enquanto uns Estados impedem, ou pelo menos dificultam, a saída de seus habitantes, “outros Estados trancam suas fronteiras no outro sentido e filtram a imigração para não sentir em seu território o efeito de suas ações e de suas políticas nos países pobres” (LÉVY, 2001, p. 32). Alê Abreu (O MENINO, 2013) parece utilizar esses elementos como uma metáfora para o fechamento de fronteiras que vem ocorrendo ao redor do mundo; os muros entre Estados Unidos e México são paradigmáticos, nos quais poderíamos acrescentar hoje, a recente crise de imigrantes na Europa [20]. Do mesmo diretor de District 9 (2009), Neill Blomkamp, o filme Elysium (2013), de forma similar às “cidades flutuantes” em O Menino e o Mundo (2013), retrata uma forma cidade locada numa estação espacial – denominada Elysium19 – destinada à elite da sociedade. Constituindo-se como uma espécie de “condomínio fechado” paradisíaco, Elysium é, dessa forma, extremamente apartada dos graves problemas sociais e ambientais que assolam a Terra no filme. Para evitar que se construa uma ideia que polarize os países entre dominadores (sempre malfeitores) e dominados (sempre vítimas), vale destacar que não só os países centrais ou “desenvolvidos” se aproveitam da “fragilidade” dos países periféricos; pois estes replicam relações de domínio entre si. Lia Osorio Machado (2005, p. 267-270), em seu texto Estado, territorialidade, redes, demonstra isso no caso brasileiro com seus países limítrofes em diversos aspectos como, por exemplo, a busca por trabalho barato e desorganizado e por padrões ambientais menos rigorosos por parte dos investidores brasileiros. A autora ressalta também que “exceto nos casos das zonas de fronteira com a Argentina e a Colômbia, o lado brasileiro é mais ‘fechado’ à imigração e ao trabalho transfronteira dos países vizinhos do que estes em relação ao Brasil” (MACHADO, 2005, p. 270). É importante salientar a posição defendida no trabalho de Antonio Negri (2005) e em sua parceria com Michael Hardt (2016) de que nessas relações de domínio internacional na pós-modernidade, nenhum país, ou 19 

O nome faz referência aos Campos Elíseos da mitologia grega. Semelhante ao Paraíso cristão, é o lugar de repouso dos indivíduos mortos que foram virtuosos em suas vidas. 55


Estado-nação como os autores preferem, assume uma posição soberana20. Os autores ressaltam, contudo, que os Estados-nação continuam a exercer poder, e de modo diferenciado, numa espécie de sobreposição de forças dentro dessas relações de soberania e de capital (NEGRI, 2005). Com isso, a nova forma que surge não possui um “fora”, é uma rede mundial em que organizações de todo tipo – estatais, interestatais, privadas – exercem influência mútua: os autores a denominam “Império” (NEGRI, 2005; HARDT; NEGRI, 2016).

19

20 O rigoroso controle de fronteiras exercido por muitos países (sobretudo os “desenvolvidos”) é frequentemente sustentado por uma ideologia nacional-patriota. [19] As cidades flutuantes em O Menino e o Mundo (2013). [20] Navios cargueiros chegam às cidades flutantes de O Menino e o Mundo (2013) às sombras de uma intimidante “defesa”.

20 

Entende-se, por soberania, “o controle da reprodução do capital e, portanto, o comando sobre a proporção do relacionamento de forças [...] que o constitui” (NEGRI, 2005, p. 50). 56


Por último, considerando essa nova configuração planetária com uma tendência a dissolução dos limites externos da soberania (NEGRI, 2005), cabe dizer como a guerra muda de caráter em relação aos períodos anteriores. “Hoje [...] a ordem não nasce do fim da guerra, mas através de uma promoção contínua de guerra”, afirma Negri (2005, p. 187-187, grifo do autor), que continua seu argumento no que parece ser uma descrição exata do contexto político em que vivem os personagens de 1984 (1984): “o inimigo, com efeito, deve ser continuamente construído, inventado, paradoxalmente não pode ser vencido ou, se for vencido, é preciso logo que haja outro”. A guerra, portanto, torna-se sempre menos destrutiva, em contradição ao aumento do poderio bélico internacional, porque “efetivamente”, nas palavras de Negri (2005, p. 189), “não é mais guerra, tornou-se uma ação policial”. O controle social e a cotidianidade A estratégia de classe que, pela submissão monetária, reconfigurou a cidade (capítulo 4) e que determinou as formas de trabalho no capitalismo (capítulo 5) se estende para “todo o tempo da vida” (NEGRI, 2005, p. 260). Henri Lefebvre (2008, p. 127) qualifica a cotidianidade, fruto da época industrial, como o “lugar social de uma exploração refinada e de uma passividade cuidadosamente controlada”. São muitos os meios disponíveis e utilizados para se exercer essa exploração e esse controle sobre a sociedade humana – que, apesar de toda a sua totalidade estar sujeita a isso, encontra no pobre seu paradigma (NEGRI, 2005; HARVEY, 2014, HARDT; NEGRI, 2016). Fora do contexto do trabalho, o “tempo livre” serve aos interesses capitalistas de duas maneiras simultâneas: como restauração da força de trabalho e como tempo de consumo (ADORNO, 2002; DEBORD, 1997). Para os pobres, esse cotidiano, vulnerável a todo tipo de risco (violência, insalubridades das habitações e todos seus efeitos) e preenchido de privações e carências – situação que levou Lúcio Kowarick (1983 apud BARREIRA, 2010) a cunhar o termo “espoliação urbana”, reunindo esses elementos que, como diz Irlys Barreira (2010, p. 150) no texto Cidade, atores e processos sociais, pareciam dispersos e casuais –, constitui-se como uma forma de dominação de classe. Segundo Hardt e Negri (2016, p. 62), essa ação ordenada vem atacar o “poder dos pobres”, ameaça direta à ordem social que se baseia na propriedade privada. Lefebvre (2001) já atentava para a miséria21 resultante disso: 21 

O termo se refere, neste caso, não a uma condição de carência extrema que coloca em risco a subsistência do indivíduo, mas, nas palavras de Lefebvre (2001, p. 138) à “miséria do habitat, a miséria do habitante submetido a uma cotidianidade organizada (na e pela sociedade 57


Basta abrir os olhos para compreender a vida cotidiana daquele que corre de sua moradia para a estação próxima ou distante, para o metrô superlotado, para o escritório ou para a fábrica, para retomar as forças para recomeçar tudo no dia seguinte. O quadro dessa miséria generalizada não poderia deixar de se fazer acompanhar pelo quadro das “satisfações” que a dissimulam e que se tornam os meios de eludi-la e de evadir-se dela (LEFEBVRE, 2001, p. 118).

Esse cotidiano árduo e regado a estímulos consumistas é constantemente retratado em O Menino e o Mundo (2013). O longo e fatigante trajeto entre o trabalho e o domicílio, tanto no campo (sofrido pelo personagem que se saberá ser o Cuca em idade avançada) quanto na cidade (pelo Cuca jovem), é marcado por muitos elementos que indicam situações de risco e grandes passagens de tempo [21]. Os numerosos outdoors, cartazes, propagandas televisionadas e vitrines, expõem os produtos dessa sociedade de consumo a que grande parte da população, na qual o protagonista se inclui em todos os períodos de sua vida (o que indica uma difícil ascensão social), não tem acesso.

21 [21] A longa viagem do jovem Cuca, em O Menino e o Mundo (2013), de volta do trabalho para casa, assim como de grande parte dos trabalhadores nas metrópoles latino-americanas, começa num ônibus lotado.

burocrática de consumo dirigido)”. Este tipo de miséria está muito relacionado à “sobrevivência ampliada”, fruto de um mundo estruturado pela economia, da qual Debord (1997) fala em seu trabalho. Vilém Flusser (1998), por exemplo, também utiliza o termo com sentido similar, contrapondo ao significado mais usual da palavra e ressaltando a pertinência e as singularidades de cada um no caso brasileiro. 58


Karl Marx e Friedrich Engels (2013, p. 21) já alertavam n’O Manifesto Comunista que o trabalhador, já explorado no processo de produção, “é atacado pelas outras porções da burguesia, o senhorio, o lojista, o penhorista etc.” assim que recebe em mãos o seu salário. Harvey (2014, p. 117-119) endossa essa perspectiva dizendo que essas incontáveis “práticas predatórias” no âmbito do consumo, que atingem os pobres e tendem a anular conquistas como reajustes salariais, constituem “uma perpétua drenagem de sua capacidade de manter condições minimamente adequadas de reprodução social”. Jessé de Souza (2015, p. 87) mostra que, no Brasil, até as chamadas “classes médias” são exploradas por preços exorbitantes pagos por serviços de baixa qualidade (o autor cita, por exemplo, a telefonia celular), sem falar na alta taxa de juros e de lucros; mas que para o pobre isso se reflete, também, no “roubo” de seu tempo de modo a perpetuar nas próximas gerações as diferenças de classe (entre as quais a renda é apenas um fator). Harvey (2010, p. 207) descreve isso como um ciclo vicioso no qual “o dinheiro pode ser usado para dominar o tempo (o nosso ou o de outras pessoas) e o espaço” enquanto esse domínio “pode ser reconvertido em domínio sobre o dinheiro”. É importante ressaltar que o uso do tempo é tema central nos projetos revolucionários defendidos por Lefebvre (2001; 2008) e Debord (1997), por exemplo. Esse tempo livre do trabalhador (empregado ou não) é preenchido, pelo que Horkheimer e Adorno (2002) chamam de “indústria cultural”, com diversão (ou distração). “Divertir”, segundo os autores, “significa estar de acordo [...] significa que não devemos pensar, que devemos esquecer a dor, mesmo onde ela se mostra” (HORKHEIMER; ADORNO, 2002, p. 41); implanta-se assim, a impotência naqueles que “se sentem felizes nas horas em que folgam da roda-viva” (HORKHEIMER; ADORNO, 2002, p. 28). Ana Fani Carlos (2009, p. 40), décadas depois, também alerta sobre como o cidadão estaria obrigado ao consumo da diversão na medida em que o lazer passava a ser mediado pela mercadoria. Horkheimer e Adorno (2002, p. 53) diziam, ainda, que essa “cultura industrializada” – além de contribuir para “domar os instintos revolucionários bem como os costumes bárbaros” – “ensina e infunde a condição em que a vida humana pode ser tolerada” por meio, por exemplo, do cinema trágico e de desenhos animados. É notório o papel da televisão nesse contexto. A difusão de imagens aliada à ausência de réplica e ao “aspecto enganador de autoridade desinteressada e imparcial” (HORKHEIMER; ADORNO, 2002, p. 28) – estas últimas já eram características do rádio –, tem uma influência direta na produção e manipulação de necessidades e desejos dos espectadores 59


(HARVEY, 2010, p. 64) ao mesmo tempo em que exige deles uma aceitação passiva (DEBORD, 1997, p. 17). Paul Virilio (1996, p. 48) dizia também que “não se tratava mais de ensinar ou simplesmente de informar, mas de distrair, de divertir e de cativar o maior número de pessoas”. Essa “política da distração”, nas palavras de Harvey (2010, p. 64), fazia parte do “impulso para manter nos mercados de consumo uma demanda capaz de conservar a lucratividade da produção capitalista”. O controle do fluxo de informações, assim como na competição capitalista, é fundamental também nos assuntos políticos. Harvey (2010, p. 215) e Virilio (1996, p. 42) lembram, por exemplo, da importância do telégrafo no contexto político francês. O segundo autor chega a afirmar que “desde sua libertação técnica, os meios de comunicação industriais jamais cessaram de destruir regimes ou de traí-los assim que os havia improvisado”. No cinema, as “teletelas” em 1984 (1984) são bastante representativas disso. Auxiliadas por uma vigilância física constante e por uma política de denúncias entre os próprios citadinos, elas não funcionam só como emissoras de imagens e de conteúdo informativo (ainda que falso), mas também como captadora de dados, fazendo jus ao famoso slogan do filme: “Big Brother is watching you22”. Hoje, com as possibilidades que a internet e as tecnologias mobile trouxeram, superou-se em muito a capacidade de manipulação e controle sobre a população. Esta, que muitas vezes contribui voluntariamente para isso, tanto para fins estatais quanto do mercado capitalista, é constantemente monitorada e não possui pleno controle sobre a sua própria privacidade e de suas informações como tem sido evidente com as diversas notícias sobre vazamento e vendas ilegais de dados pessoais ao redor do mundo. Os avanços tecnológicos dos meios de comunicação e de transporte, paradoxalmente, reúnem e afastam as pessoas. Paul Virilio (1993), ao longo de todo seu trabalho, discorre sobre os efeitos disso na sociedade. O autor diz que “a função dos meios de comunicação seria menos deslocar os usuários do que defasá-los em relação a seu ambiente imediato” (VIRILIO, 1993, p. 52), correspondendo, portanto, a aproximação no tempo ao afastamento no espaço. Temos, como resultado, o “declínio do espaço público”, a “desvalorização da presença real” (VIRILIO, 1993, p. 73). Nesta situação, se a cidade assumiu a posição que um dia foi da indústria como espaço de lutas, pode-se perceber que as classes dominantes encontraram nas comunicações tecnológicas mais uma via de solução para o principal problema que a 22 

O slogan provém da obra literária de George Orwell que deu origem ao filme e, em tradução livre, pode significar tanto “O Grande Irmão zela por ti” quanto “O Grande Irmão está te observando” ou ainda “O Grande Irmão está te vigiando” – um jogo de linguagem do autor. 60


indústria apresentava: o encontro das pessoas, premissa básica de uma mobilização de classe. “A separação é o alfa e o ômega do espetáculo”, já dizia Debord (1997, p. 21, grifo do autor), que continua: O sistema econômico fundado no isolamento é uma produção circular do isolamento . O isolamento fundamenta a técnica; reciprocamente, o processo técnico isola. Do automóvel à televisão, todos os bens selecionados pelo sistema espetacular são também suas armas para o reforço constante das condições de isolamento das “multidões solitárias” (DEBORD, 1997, p. 28, grifo do autor).

Essa separação, ou alienação, da sociedade tende a atingir todos os níveis e setores dentro do capitalismo. O próprio sistema de trocas – fundamentado no “dinheiro” – faz isso. Apesar de, como lembra Pierre Lévy (2001, p. 71-72), ser “o lubrificante da vida social” principalmente nas grandes cidades e nas redes internacionais, o dinheiro é “um solvente dos laços sociais”. Marx (1967 apud HARVEY, 2010, p.98) já alegava isso designando a condição como “fetichismo da mercadoria”. “Todos os vestígios de exploração são obliterados no objeto (dinheiro ou mercadoria)”, explica Harvey (2010, p. 98), “não há impressões digitais de exploração no pão de cada dia”. Argan (2005, p. 279-280) utiliza o exemplo da loja de departamentos – “lugar do desejo artificialmente provocado e artificialmente satisfeito” – para ilustrar essa situação mediada pelo dinheiro: “o preço é fixo, pega-se ou deixa-se, e assim desaparece do mercado também o diálogo, a mediação humana do vendedor entre quem produz e quem consome”. Ilustrando o que vem sendo discutindo aqui, o autor continua: “o rito do shopping é o emprego típico do tempo livre, o que compensa a repetitividade e a frustração do trabalho” (ARGAN, 2005, p. 280). Toda essa “decupagem” da vida cotidiana, provocada em grande parte pelo predomínio, na cidade, do valor de troca sobre o valor de uso (LEFEBVRE, 2001) culmina na passividade da sociedade (como já afirmado no primeiro capítulo); condição que, para Horkheimer e Adorno (2002, p. 54), qualifica o indivíduo como “elemento seguro”. Lefebvre (2008, p. 164168) sugere em suas considerações finais, as razões históricas, teóricas e sociológicas para a passividade – que ele considera um dos problemas mais perturbadores para a sociedade urbana. As razões históricas estão relacionadas à transformação de uma atividade ofensiva, produtiva do emprego do tempo, para uma atitude defensiva. A “fragmentação do fenômeno urbano” constituem as razões teóricas. Já as razões sociológicas 61


estariam, para o autor, ligadas à apatia política resultante da ínfima margem de participação que é reservada à população; situação da qual Adorno (2002, p. 110) também falava e que Lefebvre (2008, p. 168) chamou de “ideologia da participação”: “de fato, eles [os diretamente interessados, a população] não têm o longo hábito de delegar os seus interesses a seus representantes? [...] O habitar e o habitante retiram-se desse jogo. Eles deixam aos ‘decisores’ o cuidado e a preocupação de decidir” (LEFEBVRE, 2008, p. 168). Há, ainda, muitas outras áreas em que as ideologias são capazes de moldar a consciência e, por extensão, controlar os atos das pessoas. A religião é quase uma unanimidade entre os autores que tocam no assunto; Marx e Engels (2013, p. 27) acrescentavam os dogmas da lei e da moralidade; Harvey (2010, p. 161), em concordância com o posicionamento de Simmel (1978), elencava a família e o Estado; nessas instituições, Hardt e Negri (2016) incluíam, também, a corporação. Estes últimos autores entendiam as violências surgidas dentro e por causa dessas formas ideológicas – como o preconceito pela diferença, a exemplo de nacionalismos, racismos e sexismos, e que fazem as pessoas lutarem pela própria “servidão” – como “resultado de um amor e de uma comunidade que se desencaminharam, fracassaram e foram distorcidos” (HARDT; NEGRI, 2016, p. 218). Lefebvre (2008), em outro âmbito, falava das condições que permitiam isso: Sabe-se que a lenta maturação do ser humano, que o faz depender da família, da moradia e do “habitar”, da vizinhança e do fenômeno urbano, tem por implicação a educabilidade, e por consequência uma espantosa plasticidade [...] As teses do “meio” familiar, do “meio” do trabalho, do “quadro funcional” ou do “quadro espacial” oferecidas a essas necessidades [humanas] são, simplesmente, monstruosidades dogmáticas, que ameaçam fabricar monstros a partir das larvas humanas que lhes são confiadas (LEFEBVRE, 2008, p. 69).

No Brasil, além do “mito da brasilidade” e do “orgulho brasileiro” que Jessé de Souza (2015) expõe como resultado de uma “ciência” influenciada pelas classes dominantes e por esquemas interpretativos dos países centrais, distinguem-se ainda outros meios de alienação e controle. Destacam-se, aqui, as “fugas” apontadas por Flusser (1998, p. 99-103): o futebol, o carnaval e a loteria. Na perspectiva do autor, ambos, cada um com sua particularidade, dão ritmo e significado à vida; mas uma vida separada da realidade, ou mesmo, outra realidade. Apesar de Flusser (1998) apontar essas fugas também como um possível caminho para o engajamento, por 62


meio de um “salto qualitativo” (FLUSSER, 1998, p. 103), elas são, ainda hoje, como as “pseudofestas vulgarizadas” de que Debord (1997, p. 105) falava: “paródias do diálogo e da doação, incitam a uma despesa econômica excedente, elas só trazem a decepção, sempre compensada pela promessa de uma nova decepção”. Tudo isso se realiza – de forma material ou imaterial – no espaço da cidade. Calvino (1990, p. 16) condensa em poucas e poéticas palavras a situação que vem, aqui, sendo descrita: A cidade aparece como um todo no qual nenhum desejo é desperdiçado e do qual você faz parte, e, uma vez que aqui se goza tudo o que não se goza em outros lugares, não resta nada além de residir nesse desejo e se satisfazer. Anastácia, cidade enganosa, tem um poder, que às vezes se diz maligno e outras vezes benigno: se você trabalha oito horas por dia como minerador de ágatas ônix crisóprasos, a fadiga que dá forma aos seus desejos toma dos desejos a sua forma, e você acha que está se divertindo em Anastácia quando não passa de seu escravo (CALVINO, 1990, p. 16).

Realidade suspeita Jean-Paul Sartre (1948, p. 27 apud PALLASMAA, 2013, p. 33) dizia que “os dois mundos, o real e o imaginário, são compostos dos mesmos objetos, sendo que somente o agrupamento e a interpretação desses objetos variam” e que o que define esses mundos é uma ”atitude de consciência”. Se Sartre está certo, com tudo o que foi dito até aqui a respeito de ideologias, alienações e seus efeitos na consciência humana, toda a sociedade está sujeita, então, a viver iludida numa falsa realidade. E esta é moldada pela classe dominante (ainda que também sofra de seus efeitos), que, para atingir seus objetivos, apela à capacidade das pessoas de distinguir o real do que se crê real, levando a “se crer no que jamais existiu, a acreditar no nada”, como na definição de “ilusionismo” por Virilio (1996, p. 63, grifo do autor). A ciência assume papel fundamental nisso. A ciência, como destacam diversos autores (DEBORD, 1997; LEFEBVRE, 2001; LÉVY, 2001; dentre outros), fragmenta o conhecimento em inúmeras parcelas simplificadoras. Isso impossibilita a apreensão da totalidade do “verdadeiro movimento da realidade” (LÉVY, 200, p. 41-42) – com, por exemplo, toda a “heterogeneidade de jogos de linguagem” (HARVEY, 2010, p. 51) que impedem uma troca efetiva entre as diferentes áreas, para não falar na compreensão destas pelo público – que necessitaria, então, de uma difícil síntese – muito mais que uma 63


simples justaposição de dados, uma “crítica unitária da realidade” (DEBORD, 1997, p. 81). Além disso, como já dizia Debord (1997, p. 197), a ciência sempre esteve submetida aos “imperativos de rentabilidade econômica”. E é pela economia que a retórica científica, baseada na ideia de progresso e crescimento, encontra seu meio mais persuasivo de expressão; “parece até que o saber do real foi confiado à economia”, afirma Alain Badiou (2017, p. 10). Argan (2005, p. 34) já alertava:

E se, além disso, a perspectiva do progresso fosse uma perspectiva artificial e interessada, uma falsa consciência, uma ideologia? Ou seja, se não fosse uma direção que a humanidade devesse necessariamente seguir, como se não tivesse outra forma de ser-no-tempo, mas que lhe fosse imposta por quem, de boa ou má fé, pretendesse dirigi-la? Que mais pode prometer quem, na sociedade, arroga para si a autoridade? Progresso rumo à paz, à liberdade, à felicidade, rumo a tudo o que não está no presente da vida, que é luta e incerteza, significa sacrifício de um bem atual por um bem maior no futuro; como não ver no conceito (ou na miragem) do progresso o argumento fundamental do poder? (ARGAN, 2005, p. 34).

Mais uma vez, diversos são os fatores que concorrem para este fim. Argan (2005, p. 28) fala da substituição, no que ele chama de “cultura tecnocientífica”, da “busca da verdade” pela “oferta da informação exata, incontestável [...] que podendo ser verificada, não é suscetível de crítica e de demonstração”. Isso se relaciona, na obra deste autor, à constatação de que “quanto mais se veio reduzindo o campo das funções dos bens artísticos, tanto mais se estendeu o dos conhecimentos científicos correlatos” (ARGAN, 2005, p. 85), salientando novamente, o potencial papel contributivo da arte para a apreensão da realidade. Por outro ângulo, na situação em que “o observador não tem mais contato imediato com a realidade observada”, afirma Virilio (1993, p. 23, grifo do autor), desenvolve-se um “desequilíbrio perigoso entre o sensível e o inteligível”. O resultado disso é o “risco de um delírio de interpretação resultante de um excesso de mediatização das experiências” (VIRILIO, 1993, p. 36). Já Debord (1997, p. 179) ressalta o papel dos “especialistas” – “midiático-estatais”, que é a condição de seu próprio reconhecimento como especialista – na sociedade: “quando o indivíduo já não consegue reconhecer nada sozinho, ele vai ser formalmente tranquilizado pelo especialista”. A criação de uma “realidade suspeita”, em que uma sociedade é 64


manipulada em prol do benefício de algum grupo, é representada de forma recorrente no cinema. 1984 (1984) e Snowpiercer (2013), por exemplo, apresentam situações mais próximas da nossa experiência de como isso ocorre. No primeiro, as informações e o próprio idioma são constantemente distorcidos ou alterados para fazer com que a população acredite numa espécie de pátria protetora e provedora e para solapar, desde o princípio, qualquer possibilidade de revolta contra o governo. Já no segundo, de modo inverso, o comando do trem incita periodicamente uma rebelião com objetivos diversos: desde permitir, de modo controlado, que os desprivilegiados exteriorizem um ódio acumulado a usar as mortes resultantes da revolta e de sua “justificada” repressão como forma de controle populacional. Já outros filmes, e esse é o caso da trilogia Matrix (1999) e de The Truman Show (1998), elevam o questionamento sobre o que é real para toda a existência de seus personagens. Matrix (1999) conta a história de um hacker, Neo (interpretado por Keanu Reeves), que descobre ter passado toda a sua vida, assim como praticamente toda a humanidade – numa espécie de simulacro controlado por robôs – a Matrix – enquanto a energia de seus corpos é drenada para manter as máquinas funcionando (aspecto já citado anteriormente). A partir e por causa da descoberta, Neo adquire alguns “poderes” [22] dentro do simulacro e se alia a alguns rebeldes para tentar deter o domínio dos robôs ao mesmo tempo em que lutam pela própria sobrevivência. Essa realidade virtualmente simulada, como lembra Barros (2011b), também foi tema de outros filmes lançados na mesma época, como Dark City (1998), dirigido por Alex Proyas, e The Thirteenth Floor (1999), dirigido por Josef Rusnak. Ressalta-se o caso de Matrix (1999) pelo público que o filme alcançou, tornando o nome da produção (e de seu simulacro) bastante difundido como uma metáfora para casos de manipulação e controle da sociedade. Matrix (1999) também faz diversas referências a outras obras teóricas e da ficção. Dentre elas destacam-se a referência ao livro Simulacro e Simulação do filósofo e sociólogo francês Jean Baudrillard – Neo faz do próprio livro um esconderijo – e a menção ao “coelho branco” que, numa situação inversa ao que acontece em Alice no país das maravilhas de Lewis Carrol em que o coelho conduz a um mundo fictício, em Matrix (1999) a “perseguição” ao coelho conduz para fora de uma falsa realidade. The Truman Show (1998), uma obra cinematográfica estadunidense dirigida pelo australiano Peter Weir, é outro caso em que toda a “realidade” acaba por se mostrar falsa. O filme convida, com uma metáfora bastante extrema, à reflexão sobre, entre outras coisas, a presença massiva da mídia 65


(neste caso, em especial, a televisão) e dos diversos efeitos disso na vida cotidiana. O filme conta a história de um homem chamado Truman Burbank (interpretado por Jim Carrey) – de propriedade de uma emissora de televisão –, que passou toda a vida sendo, sem saber, a estrela de um reality show televisionado 24 horas por dia. O cenário é uma cidade fictícia, repleta de câmeras escondidas, localizada dentro de uma redoma em que até o clima é artificialmente controlado. O protagonista, que, para que o programa seja mantido no ar, não pode deixar a cidade, é frequentemente desencorajado de seus sonhos. Desconfiado e angustiado pela vida que leva, Truman entra numa saga para sair da cidade, colocando a própria vida em risco, para descobrir finalmente a saída da grande farsa em que vivia [23].

22

23 [22] Neo vê os códigos da Matrix, desvencilhando-se, assim, da prévia programação desta “realidade” (Matrix [1999]) [23] Truman, confirmando suas suspeitas, finalmente alcança o limite da “realidade” em que viveu durante toda a sua vida (The Truman Show [1998]).

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Todos estes filmes ilustram e contribuem para a compreensão do dilema que Badiou (2017) traz em seu livro. Em resumo: primeiro a situação de “um mundo submetido ao imperativo do real como intimidação” (BADIOU, 2017, p. 15), que se faz acreditar verdadeiro sem dar margens para contestações; por último a dificuldade de desfazer suas máscaras e acessar o “real verdadeiro”, o “ponto de impossível” que precisa se transformar em possibilidade. E, para isso, deve-se agir fora da “formalização” do que é imposto – o domínio da Matrix por Neo (MATRIX, 1999), a fuga de Truman (THE TRUMAN, 1998) –, o ato no sentido de Badiou (2017). “A análise política da situação não se refere ao ‘real’ na acepção trivial”, já dizia Lefebvre (2008, p. 131) “refere-se à relação dialética destes três termos: o real, o possível, o impossível, de maneira a tornar possível o que parecia impossível”. Em nossa sociedade, para Badiou (2017) – e esta é uma de suas principais preocupações em seu livro –, a democracia23 é a máscara contemporânea do capitalismo, a igualdade seu ponto de impossível. Para torná-lo possível, e é sobre isso que muitos dos autores aqui citados vêm discutindo, um ato, que não virá naturalmente, é necessário.

23 

Badiou (2017) ressalta que essa “democracia” não condiz com o que a palavra sugere, “será preciso retomá-la e redefini-la” (BADIOU, 2017, p. 25). Assim, o autor se aproxima do posicionamento de Walt Whitman (apud HARDT; NEGRI, 2016, p. 353): “[Democracia] É uma grande palavra, cuja história, suponho, ainda não foi escrita, pois essa história ainda está por cumprir-se” 67


CAPÍTULO 7: FESTA E LUTA Ninguém tem o direito de dizer “Revolte-se por mim, isto contribuirá para a libertação de toda a humanidade.” Mas não concordo com aqueles que dizem “Não adianta se revoltar, será sempre a mesma coisa” (FOUCAULT, 1994 apud HARDT; NEGRI, 2016, p. 268). A única coisa que temos de nosso é o tempo, do qual gozam até os que não têm morada (GRACIÁN apud DEBORD, 1997, p. 103). A lei jamais tornou os homens mais justos, e, por meio de seu respeito por ela, mesmo os mais bem-intencionados transformamse diariamente em agentes da injustiça (THOREAU, 2014, p. 11).

As lutas e seus percursos A sociedade urbana, o urbano, para Lefebvre (2008, p. 26, grifo do autor), é o possível; e, “para atingi-lo, isto é, para realizá-lo, é preciso em princípio contornar ou romper os obstáculos que atualmente o tornam impossível”. O autor relega ao conhecimento teórico a função de “mostrar o terreno e a base sobre os quais ele [o urbano] se funda” (LEFEBVRE, 2008, p. 26). Se, como visto anteriormente, a “ciência” tem a capacidade de contribuir na mistificação, na alienação, ela também deve ser capaz de auxiliar na libertação. A “reflexão urbanística” – a “ciência da cidade” que muito difere do “urbanismo” nos termos de Lefebvre (2001) – seria a responsável por desenvolver uma necessária “estratégia urbana” visando “ao conhecimento e à reconstituição das capacidades integrativas do urbano, bem como às condições da participação prática” (LEFEBVRE, 2001, p. 112113). Contudo, os principais responsáveis por essa revolução – sem os quais essa estratégia não pode atuar – são os que estão mais sujeitos à estrutura sócio-político-econômica baseada nos moldes do capitalismo, a saber, os pobres, as minorias, o “precariado”, em uma palavra, os excluídos24; e isso suscita alguns obstáculos. Uma dos primeiros desafios provém justamente da efetivação 24 

Em concordância com Pierre Lévy (200, p. 70), utiliza-se o termo “exclusão“ por indicar uma “ruptura ou enfraquecimento do laço social em geral”, abarcando, portanto, mais que a condição econômica ou trabalhista que termos como “pobreza” e “operariado”, por exemplo, sugerem. 68


da teoria crítica nas lutas. A suposta necessidade da teoria – como “entendimento da prática humana” – de ser “reconhecida e vivida pelas massas”, nas palavras de Debord (1997, p. 85-86, grifo do autor), “pede aos homens sem qualidade muito mais do que a revolução burguesa pedia aos homens qualificados”. Nesse caso, é preciso encontrar uma maneira de tornar esse conhecimento amplamente acessível e desejado; e existem caminhos possíveis e promissores (como a arte) para isso. Todavia, há autores que não creditam o posto de uma relevância imprescindível à teoria. Harvey (2014, p. 15) – mesmo reconhecendo a pertinência da obra de Lefebvre e dos situacionistas que antecederam os movimentos de 1968 na França – defende que “a ideia do direito à cidade”, por exemplo, “não surge fundamentalmente de diferentes caprichos e modismos intelectuais”, mas das ruas “como um grito de socorro e amparo de pessoas oprimidas em tempos de desespero”. Outro problema diz respeito à organização desses excluídos “de modo a constituir uma força revolucionária”, como levanta Harvey (2014, p. 18) ao falar sobre as precárias relações trabalhistas contemporâneas. Sucede-se a isso, a necessidade de uma convergência entre as diversas frentes de reivindicações. Os “corporativismos”, de acordo com Milton Santos (2008, p. 121), ”impedem de ver a cidade como um todo” tornando difícil o estabelecimento de uma “ação concertada” e desperdiçando recursos já escassos, além de enfraquecer o “sentimento de comunidade”. Já Hardt e Negri (2016, p. 372), analisando um grupo ainda mais diverso que Santos (2008), afirmam que “apesar da interseção de formas de violência e subordinação sofridas [...] os projetos políticos para enfrentá-las podem entrar em conflito e, segundo algumas análises, necessariamente o fazem”. Há, portanto, pelo menos estes dois níveis de organização a serem superados – um grupal e outro intergrupal – para compor de forma coesa essa força revolucionária. Hardt e Negri (2016) sugerem, na teoria, uma mudança terminológica para que se avance a discussão dialética – superando-a – que separa em dois polos distintos e conflitantes algumas das questões apresentadas. Quanto às diferentes “lutas identitárias”, além dos estigmas de termos como “povo” (vinculados a uma ideia de nação e a ela subordinados) e “massa” (tida como amorfa e descompassada), os autores, influenciados pelos escritos de Spinoza, sugerem o conceito de “multidão”: uma multiplicidade de singularidades que, sem negar as diferenças, atuariam em alguma ordem estabelecida pelo seu interesse comum. Os termos “singularidade” e “comum” executariam, na perspectiva dos autores, “um corte diagonal” nas dicotomias identidade-diferença e público-privado, respectivamente, unindo, 69


sob o mesmo nome, características que antes se anulavam. A proposição de Hardt e Negri (2016) entra em certa consonância com o que Lefebvre (2008, p. 91) (apesar de manter o caráter dialético da situação) parece querer dizer com “aceitar a ambiguidade e as contradições” e com o que Robert Musil (apud CALVINO, 2009, p. 79 e 124-125) pretendia ao sugerir aplicar método semelhante aos utilizados para “problemas matemáticos que não admitem uma solução geral” à vida humana: “soluções particulares que, combinadas, se aproximam da solução geral”. Assim, abrem-se mais possibilidades para a reparação do que Debord (1997, p. 82) chamou de “mal absoluto”: a rejeição desses grupos desprivilegiados para a “margem da vida”. Periodicamente, grupos insatisfeitos e ainda frequentemente sectários se rebelam e lutam por reivindicações que concernem, sobretudo, ao uso do tempo e do espaço. David Harvey (2010) traz exemplos: A batalha em torno de minutos e segundos, do ritmo e da intensidade das escalas de trabalho, da vida de trabalho (e dos direitos de aposentadoria), da semana e do dia de trabalho (com direitos a ‘tempo livre’), do ano de trabalho (e dos direitos a férias pagas), foi, e continua a ser, travada com bastante regularidade (HARVEY, 2010, p. 211). A derrubada de portões, o cruzamento de fossos de castelos, o caminhar ao bel-prazer em lugares onde já fora proibido entrar: a apropriação de um certo espaço, que teve de ser aberto e invadido, foi o primeiro deleite da Revolução [Francesa] (OZOUF, 1988 apud HARVEY, 2010, p. 234).

Guy Debord (1997, p. 99-117) já afirmava que a “classe dos possuidores da economia [...] deve rechaçar como ameaça imediata qualquer outro emprego irreversível do tempo” e que não se tratava mais apenas do âmbito do trabalho, mas da “história total” dos indivíduos. Sendo a “reivindicação de viver o tempo histórico”, portanto, o centro do projeto revolucionário proletário (DEBORD, 1997, p. 100, grifo do autor). Quanto ao espaço, Lefebvre (2001) já mostrava que sua livre apropriação não coincidia com a lógica da propriedade privada da terra. Chega-se, portanto, ao conflito entre liberdade e propriedade. Estes dois temas aos quais “finge aspirar a maioria dos homens”, escreve Robert Filmer (1652 apud HARDT; NEGRI, 2016, p. 17), “são tão contrários quanto o fogo e a água, e não podem permanecer juntos”. Essas revoltas demonstram sua força máxima quando reúne os corpos nas ruas, nas praças, no espaço público (HARVEY, 2014, p. 281; 70


HARDT; NEGRI, 2016, p. 42). Entretanto é aí também que “a organização neocapitalista do consumo mostra sua força”, segundo Lefebvre (2008, p. 29), de forma a “colonizar” o espaço urbano e assumindo uma postura repressiva diante da “verdadeira apropriação, a da ‘manifestação efetiva’”. Quando isso ocorre, mais uma vez o Estado vem em defesa dos interesses capitalistas (quando não de seu próprio) como detentor do “monopólio da violência institucionalizada [...] sendo a vigilância policial e a repressão militar alguns de seus instrumentos” (HARVEY, 2010, p. 104). “Não são raros os exemplos que aparecem diariamente nos jornais”, defende também Ana Fani Carlos (2009, p. 85), “onde a polícia (civil ou militar) age enquanto ‘agente da ordem’ de modo a impedir manifestações que possam vir a colocar em xeque a gestão governamental e a lógica capitalista”. No cinema, as formas de luta e repressão assumem diferentes formas: umas mais dissimuladas e localizadas, como em 1984 (1984) e Blade Runner (1982) em que os indivíduos que representam algum tipo de ameaça ao sistema vigente são pontualmente neutralizados antes mesmo de atingir qualquer objetivo, outras mais abertas em um enfrentamento generalizado, como em Snowpiercer (2013) e em O Menino e o Mundo (2013). Neste último – relembrando: desenvolvido como se o mundo estivesse sob a ótica de uma criança – o confronto entre manifestantes, que tomaram as ruas da cidade, e a força militar é representado por uma briga entre um pássaro colorido (representando os primeiros), e uma espécie de águia negra (que como já mencionado anteriormente, representa os militares) [24]. A águia, com ajuda de elefantes-tanque, peixes-submarino e outros animais-máquina – numa demonstração da supremacia bélica e tecnológica do Estado –, vence o outro

24 [24] O confronto entre os pássaros representando os manifestantes e a força policial (O Menino e o Mundo [2013]). 71


pássaro, que se dissolve nas mesmas bolas coloridas25 que o formaram. Estas, então, escorrem pelos ralos de uma cidade deserta. Alê Abreu (O MENINO, 2013) reconstrói em seu filme a ainda frequente derrota das lutas sociais e de trabalhadores contra a ordem e as regras estabelecidas. Apesar disso, deve-se dizer que são essas lutas, como indica Harvey (2010, p. 208), que “geram boa parte da energia social necessária à mudança dessas regras”. Além disso, a reunião de pessoas, ou de singularidades, em prol de um movimento permite a criação de laços afetivos entre si e a afirmação da necessidade e da possibilidade de suas demandas. Como Marx e Engels (2013, p. 24) já sugeriam, “o verdadeiro fruto de suas batalhas repousa não no resultado imediato, mas na união cada vez mais abrangente dos trabalhadores”. Ressalta-se, por último, que esses laços não se criam e se fortalecem apenas nas lutas, mas também nas festas, que já trazem consigo outros valores de uso do tempo e do espaço.

A festa como meio e objetivo

Assim como nas teorias de Lefebvre (2001) e Debord (1997), por exemplo, em O Menino e o Mundo (2013) há uma estreita ligação entre festa e luta. E é sugestivo que, pelo menos em português, a palavra “manifestar” inclua “festa” em sua morfologia. No filme, os manifestantes são foliões: protegidos por fantasias carnavalescas e armados com instrumentos musicais; o pássaro que os representa no confronto surge nos momentos de festa [25] [26] . Apropriação simultânea e espontânea do tempo e do espaço: os encontros se dão nas ruas ou em terras com as cercas derrubadas. Esta situação, que constitui uma possível referência de Alê Breu (O MENINO E O MUNDO, 2013) aos movimentos pela reforma agrária, parece indicar também que ainda há conservado, se não na cidade em outro lugar, o aspecto festivo que Lefebvre (2001) insiste tanto em restituir no urbano. Lefebvre (2001, p. 128-133) propõe para a possível sociedade urbana uma nova centralidade fundamentada no lúdico (termo que deve ser lido no seu sentido mais “profundo”, conforme avisa o autor). Dessa forma, rompem-se as separações entre cotidianidade e os lazeres, a festa; reúnemse as pessoas e os elementos culturais; e, como na inversão do senso comum efetuada por Calvino (1990, p. 61) em sua cidade invisível Sofrônia, opõese ao eterno o efêmero. Lefebvre (2001, p. 132) indica as implicações da 25 

Cuca, o personagem principal, vê essas bolas coloridas saindo dos instrumentos musicais dos manifestantes e de outros personagens como seu pai e sua mãe ao longo de todo o filme. Os instrumentos aparecem destruídos após a derrota no confronto com a força militar. 72


centralidade lúdica: “restituir o sentido da obra trazido pela arte e pela filosofia - dar ao tempo prioridade sobre o espaço, não sem considerar que o tempo vem se inscrever e se escrever num espaço – pôr a apropriação acima do domínio”. Essa nova centralidade deveria provir da participação ativa das pessoas, promovendo-a, sobrepondo o uso à troca, no sentido que Lefebvre (2001) dá para os termos. Era algo assim que os situacionistas já haviam proposto para que os citadinos “passassem de simples espectadores a construtores, transformadores e ‘vivenciadores’ de seus próprios espaços”, fazendo surgir no cotidiano de onde nasce a alienação, a participação (JACQUES, 2003, p. 2122). Há, também, bastante similaridade com o potencial “homo ludens” que Flusser (1998) vê no brasileiro, mas que depende do já mencionado “salto

25

26 [25] Festejo em acampamento, ao que tudo indica numa ocupação em um terreno privado. Pode-se perceber as inúmeras bolas coloridas que saem dos instrumentos e formam o pássaro que representa os (mani)festantes (O Menino e o Mundo [2013]). [26] Pássaro colorido resultante da união da bolas coloridas acima mencionadas (O Menino e o Mundo [2013]). 73


qualitativo” da alienação ao engajamento. Esses são alguns dos caminhos possíveis para que o tempo livre se transforme na liberdade que Adorno (2002, p. 117) vislumbrava. O direito à cidade (2) Assumindo que a “aspiração à Justiça”, como afirma Alain Supiot (2007, p. IX-XXV), “representa, em todas as situações, um dado antropológico fundamental”, conclui-se que o Direito – tendo ou não ”algo a ver com justiça” – é uma construção humana e como tal deve ser entendido. Isso significa que, para interpretá-lo, devem-se considerar os valores que ele veicula e que estes variam de acordo com a época e o lugar (SUPIOT, 2007, p. XXIV). O que Supiot (2007) alega, contudo, é que, apesar das mudanças, dos fins diversos e dos prováveis desacertos aos quais a obra jurídica está suscetível, sempre permanece a necessidade de uma “representação comum da justiça”, o compartilhar de um mesmo “dever-ser”, que preserve a sociedade da guerra civil. Além disso, Supiot (2007, p. XXX) defende que é tão errado reduzi-lo [o Direito), como se tende a fazê-lo hoje, a uma ‘pura técnica’ vazia de significado como reportá-lo, como se fazia ontem, às regras reputadas imutáveis de um suposto Direito natural [revelado por Deus]. Pois, em cada caso, perde-se o essencial, que é a capacidade do Direito de chamar à razão as mais diversas formas de exercício do poder político ou do poder técnico (SUPIOT, 2007, p. XXX).

Entretanto, o Direito não é neutro e demonstra-se bastante tendencioso num mundo que vem sendo construído sob os preceitos do capitalismo. Hardt e Negri (2016), por exemplo, ressaltam como a ideia da propriedade privada está arraigada na sociedade a ponto de o indivíduo não ser definido pelo “ser, mas pelo ter” (HARDT; NEGRI, 2016, p. 21). Os autores contam que as três grandes revoluções burguesas (a inglesa, a americana e a francesa) – se encaminharam no sentido da emergência e consolidação do que eles chamam de “república da propriedade”: “em cada um dos casos, o estabelecimento da ordem constitucional e do Estado de direito serviu para defender e legitimar a propriedade privada” (HARDT; NEGRI, 2016, p. 24). Além de excluir e subordinar os “destituídos de propriedade” (HARDT; NEGRI, 2016, p. 23), instituir a propriedade privada como base primordial dos direitos os consagra, antes de tudo, como direitos individuais. E, com estes distribuídos “como se distribuem armas” (SUPIOT, 2007 p. XXVI), vence 74


o mais forte, que encontra mais um campo (talvez o principal) para exercer e legitimar seu poder de “domínio e exploração sobre o resto da população” (NEGRI, 2003, p. 125). É por isso que Supiot (2007, p. XVIII) ressalta que a economia e a “lei do mercado” não podem ser hegemônicas na configuração e ordenação de toda a humanidade. É contra isso que se luta sob a bandeira do direito à cidade. Como já mencionado, a organização e orquestração dos movimentos de oposição constitui um obstáculo a ser superado. David Harvey (2014) defende que a luta pelo direito à cidade, ainda que um passo intermediário no processo de libertação das práticas capitalistas, poderia reunir os grupos excluídos e suas demandas. Mas, caso isso se realizasse, o autor questiona quais deveriam ser suas exigências; e neste ponto fica claro o conflito com a “república da propriedade”, porque sua resposta é um “maior controle democrático sobre a produção e o uso do excedente” (HARVEY, 2014, p. 61, grifo meu). Apesar de a resposta ser simples, pelo menos à primeira vista, ela vai de encontro à lógica da propriedade privada porque – além de dizer respeito à liberdade de uso do tempo e do espaço (que, como visto, não faz parte dos interesses capitalistas) – é um direito mais coletivo que individual (também contrário à propriedade privada). O direito à cidade – que se manifesta como “forma superior dos direitos: direito à liberdade, à individualização na socialização, ao habitat e ao habitar”, nas palavras de Lefebvre (2001, p. 134), e que abarca também “o direito à obra (à atividade participante) e o direito à apropriação (bem distinto do direito à propriedade)” – tem, portanto, a difícil tarefa de desbancar “a posição sagrada da propriedade” (HARDT; NEGRI, 2016, p. 25), não só nas Constituições, mas em todo o meio social, determinando, assim, “uma nova forma de vida, um novo ser social” (HARDT; NEGRI, 2016, p. 405).

75


O Menino e o Mundo – Epílogo No desfecho de O Menino e o Mundo (2013), a manifestação não sai vitoriosa, é reprimida, o protagonista não triunfa, termina aparentemente solitário, doente e pobre. A perspectiva não é otimista; e, sendo um retrato da história latino-americana, nem poderia ser. Alê Abreu (O MENINO, 2013) deixa, entretanto, uma esperança. Ao final do filme, da brincadeira de crianças, surge (ou ressurge como uma fênix26) um novo pássaro vivo em cores. É a nova geração sendo formada: estabelecendo seus próprios princípios, suas próprias crenças, seus próprios hábitos; todas as coisas pelas quais – a presença do novo pássaro parece sugerir – essas crianças defenderão no futuro, contribuindo em sua construção.

26 

Pássaro mitológico comumente associado a longevidade e renovação (LURKER, 1997, p. 264265) 77


PARTE III – CAMINHO E HORIZONTE


CAPÍTULO 8: DA SOCIEDADE CATIVA À SOCIEDADE LIVRE Para abrir a via, é preciso romper os modelos (LEFEBVRE, 2008, p. 146). Precisamos olhar o mundo de hoje com os olhos do mundo de amanhã, não com os do mundo de ontem (LÉVY, 2001. p. 33). O progresso será medido por nossa crescente capacidade de realizar a felicidade comum e formar um mundo democrático no qual sejamos todos conjuntamente autorizados a governar, capazes de fazê-lo e dispostos a isso (HARDT; NEGRI, 2016, p. 413).

Da resistência à alternativa “A reforma ou o aperfeiçoamento da república da propriedade jamais levará à igualdade e à liberdade”, afirmam Hardt e Negri (2016, p. 35), “servindo apenas para perpetuar suas estruturas de desigualdade e falta de liberdade”. Os interesses moldados pelo capitalismo fazem com que, por um lado, novas e velhas formas de se conseguir renda e lucro sejam utilizadas onde for possível neste mundo globalizado, e que, por outro lado, as reivindicações e lutas das classes desfavorecidas sejam incorporadas e/ ou anuladas dentro do contexto geral da vida: no cotidiano, no trabalho, no consumo etc. O que grande parte dos autores que têm sido citados ao longo deste trabalho (sobretudo: DEBORD, 1997; LEFEBVRE, 2001; 2008; HARVEY, 2010; 2014; HARDT; NEGRI, 2016) sugerem e propõem, portanto, é uma alternativa ao sistema como está implantado. Como na passagem de Lefebvre (2008) que abre este capítulo, “a questão muitas vezes não é discutir se o copo está meio cheio ou meio vazio, mas quebrá-lo!” (HARDT; NEGRI, 2016, p. 397). E o que esses autores afirmam é que é por meio da luta que isso acontecerá, mas é necessário algo mais do que ela vem realizando. Lefebvre (2001; 2008) deixa claro em sua obra que a reflexão crítica não deve se encarregar de construir modelos para o futuro, mas orientar e abrir um caminho, descortinar um horizonte. Com isso, uma nova forma urbana poderia ser construída e reconstruída constantemente de acordo com os interesses comuns, sempre em atualização, da sociedade humana. Nas palavras do autor: “Um tal discurso [do urbano e sobre o urbano] não pode ser acabado. Ele comporta, por essência, o inacabamento. Ele se define como reflexão sobre o futuro, implicando operações no tempo e 81


não somente no espaço” (LEFEBVRE, 2008, p. 150). No espaço da cidade já há uma multiplicidade de práticas alternativas que podem ser melhor exploradas; Lefebvre (2001; 2008) também não descarta o potencial que a utopia tem para contribuir com novas perspectivas. Em contraposição à “ideologia da participação” – que traz como principal resultado a aquiescência e a passividade das pessoas interessadas, enquanto legitima o poder decisório –, Lefebvre (2001, p. 104) indica a autogestão como prática de participação “real e ativa”, mas ressalta que isso suscita outros problemas a serem resolvidos. Dentre estes, a forma de organização figura entre os principais. Há bastante discordância quanto a isso entre os teóricos, o que demonstra a dificuldade da solução mesmo antes de pô-la em prática. Hardt e Negri (2016, p. 131), por exemplo, sugerem que o meio de coordenar as ações comuns e manter a igualdade da “multiplicidade de singularidades sociais em luta” seria por “estruturas organizacionais horizontais”. David Harvey (2014, p. 137-139), entretanto, discorda desse modelo que ele chama de fetichista e que “quase sempre atravanca o caminho de exploração de soluções apropriadas e eficazes” (HARVEY, 2014, p. 139). O autor defende que “arranjos hierárquicos subordinativos” podem ser necessários em escalas maiores de organização onde a “horizontalidade” se mostra ineficiente (HARVEY, 2014, p. 138). É aceito, apesar disso, que a busca por melhorias passa por uma participação mais efetiva da população nos processos decisórios em todos os níveis. Essa era a forma que Debord (1997) via de o “proletariado” assumir o poder, tornando-se “a classe da consciência”: Ao serem atirados na história, ao terem de participar das tarefas e lutas que a constituem, os homens se veem obrigados a encarar suas relações sem ilusão [...] O sujeito da história só pode ser o ser vivo produzindo a si mesmo, tornando-se mestre e possuidor de seu mundo que é a história, e existindo com consciência de seu jogo (DEBORD, 1997, p. 49-50, grifo do autor).

Outro feito importante a se conquistar se resume em “orientar o crescimento na direção do desenvolvimento” (LEFEBVRE, 2001, p. 124). Isso significa, nas palavras de Hardt e Negri (2016, p. 147), “pôr a racionalidade a serviço da vida; a técnica a serviço das necessidades ecológicas [...] e a acumulação de riqueza a serviço do comum”. Afinal, como ressalta Harvey (2010, p. 25), devem-se reconhecer os avanços que a burguesia logrou em sua jornada, principalmente no que diz respeito à criação das forças produtivas. “O emprego ótimo e máximo das técnicas (de todos os meios 82


técnicos) na solução das questões urbanas, a serviço da vida cotidiana, na sociedade urbana” é, para Lefebvre (2008, p. 129, grifo do autor), um ponto fundamental da estratégia que parte da reflexão urbanística. Por mais que os autores tendam a sintetizar em algumas poucas demandas gerais (muitas vezes em três, como Hardt e Negri [2016, p. 417] e Harvey [2014, p. 228-229]) a serem endereçadas aos poderes dominantes ou a serem resolvidas por um próximo modelo de gestão – para citar algumas: acesso aos meios básicos de vida, saúde, educação, cultura e aos demais bens produzidos pela sociedade, maior igualdade social, liberdade de expressão e no âmbito do trabalho –, o que se percebe de forma mais ou menos transparente é a origem comum da maioria (se não de todos) dos diversos problemas ainda presentes, a saber, os fundamentos do sistema capitalista em todos os seus aspectos: ideológico, de produção, de consumo etc. E, como movimento global que é, o capitalismo exige, portanto, um movimento também global de oposição – ponto que Marx e Engels (2013) já ressaltavam em meados do século XIX e que os teóricos, como Hardt e Negri (2016) e Harvey (2014), continuam a reforçar –, pois, como já afirmado, as alternativas não surgirão do nada. Para Hardt e Negri (2016, p. 327-342), a transição em que se destituirá o modo capitalista de produção já está em curso. Os autores atentam para a similaridade entre as condições atuais e as que fizeram com que o feudalismo fosse substituído pelo capitalismo – em essência, a “incapacidade de mobilizar e desenvolver forças produtivas” (HARDT; NEGRI, 2016, p. 329). Isso poderia indicar, portanto, uma nova passagem: “todo modo de produção, inclusive o capital, inicialmente expande de maneira espetacular as forças produtivas, mas acaba por refreá-las, com isto dando origem à geração do próximo modo de produção” (HARDT; NEGRI, 2016, p. 329). Hardt e Negri (2016), em todo o livro, demonstram como as novas relações culturais, sociais, de trabalho, de trocas etc. num mundo cada vez mais interconectado tendem a se encaminhar (e exigir) para condições que garantam cada vez mais a liberdade e a igualdade. O capitalismo, entretanto, também prometia isso – e em comparação com os modelos antigos algum avanço se concretizou. É preciso, portanto, que os diversos movimentos e grupos se unam (para não dizer os 99% da sociedade que Harvey [2014, p. 282] espera) para impedir uma nova mudança relativa da sociedade que, mais uma vez, beneficie poucos em prejuízo de muitos; para que se possa realizar a revolução urbana de que falava Lefebvre (2008), em seus próprios termos:

83


o conjunto das transformações que a sociedade contemporânea [ainda] atravessa para passar do período em que predominam as questões de crescimento e de industrialização (modelo, planificação, programação) ao período no qual a problemática urbana prevalecerá decisivamente, em que a busca das soluções e das modalidades próprias à sociedade urbana passará ao primeiro plano (LEFEBVRE, 2008, p. 16-17, grifo do autor).

Um novo homem, uma nova sociedade Ter uma vida significa criá-la e recriá-la sem parar. O homem não pode ter vida se não a criou por si mesmo. Quando a luta pela existência for apenas uma lembrança, ele poderá, pela primeira vez na história, dispor livremente de toda a duração de sua vida. Conseguirá, com plena liberdade, moldar na sua existência a forma de seus desejos. Em vez de ficar passivo diante de um mundo que não o satisfaz, ele vai criar um outro, onde poderá ser livre. Para poder criar a sua vida, precisa criar esse mundo. E essa criação, como a outra, são parte de uma mesma sucessão ininterrupta de recriações (CONSTANT apud JACQUES, 2003, p. 29-30).

“Ao sentido da produção de produtos (do domínio científico e técnico sobre a natureza material)”, indica Lefebvre em suas considerações finais de O direito à cidade, “deve-se acrescentar, para, a seguir predominar, o sentido da obra, da apropriação (do tempo, do espaço, do corpo, do desejo). E isto na e pela sociedade urbana que começa” (LEFEBVRE, 2001, p. 140, grifo do autor). “Isso exige”, continua o autor, “ao lado da revolução econômica (planificação orientada para as necessidades sociais) e da revolução política (controle democrático do aparelho estatal, autogestão generalizada) uma revolução cultural permanente” (LEFEBVRE, 2001, p. 140). Como muitos outros antes e depois dele, Lefebvre (2001, p. 108) defendia que deveríamos nos esforçar para ir à direção de um “novo humanismo”, “de um outro homem, o homem da sociedade urbana”. Evidentemente, esse não é um processo fácil e atinge diretamente cada indivíduo na sociedade, que precisa se desfazer de crenças e hábitos que, com frequência, estão muito arraigados em sua própria noção de identidade. Mas, como lembra Pierre Lévy (2001, p. 95), todos os planos a que obedecemos e comportamentos que seguimos foram aprendidos, “podemos desaprendê-los e adotar outros”. A abolição das fronteiras e a liberdade de imigração – que, devido às diferenças de perspectiva, para Lévy (2001, p. 39), constituem “as últimas revoluções a se efetivar” e para Negri (2003, p. 42), “o primeiro campo de 84


luta” – encontra nas ideologias nacionais e patrióticas seu principal obstáculo. A abolição das classes, no sentido de romper com as desigualdades sociais, econômicas e políticas, é entravada pela ideia de superioridade (neste caso, sobretudo, intelectual) que implica um suposto “merecimento” diferenciado de acesso a bens e valores. Estas abolições se unem a outras (como a abolição da propriedade privada nos moldes atuais) e compõem uma mais geral: a abolição da identidade. Hardt e Negri (2016, p. 355-376) defendem que o reconhecimento e a afirmação das identidades no caso dos grupos de minoria, ou excluídos, é fundamental para corrigir os males sociais, mas ressaltam que esse é apenas um passo a caminho de uma verdadeira revolução. O processo “extraordinariamente violento” de autotransformação, necessário para criar uma sociedade sem relações de dominância entre seus integrantes, é, para os autores, uma das mais complicadas tarefas a serem cumpridas pelo movimento revolucionário (HARDT; NEGRI, 2016, p. 405). Posicionamento, este, consonante com o de Alain Supiot (2007, p. XII), que já afirmava que “toda a dificuldade das sociedades modernas está justamente em dever pensar e viver a igualdade sem negar as diferenças”. Pierre Lévy (2001) dedica todo o seu livro a mostrar que só agora, com a interconexão da humanidade permitida pelos avanços da comunicação e do transporte, começamos a compartilhar um mesmo mundo. “A visão da unidade da espécie humana, evidentemente partilhada por algumas boas almas, não fazia parte da bagagem cultural da grande maioria”, afirma Lévy (2001, p. 20), que credita a isso muito dos males realizados no mundo (inclusive as guerras), e continua, “essa unidade ainda não tinha sido vivida concretamente, como ela pode ser hoje e como ela será cada vez mais no futuro”. É essa conexão que permitirá que se realize em escala planetária, muito mais que uma simples mistura de povos, a síntese que Vilém Flusser (1998) via como potencial na sociedade brasileira e que poderia resultar na constituição de um “novo homem”. Um novo homem livre “que dá sentido ao seu ambiente, vive de acordo com este sentido, e assim o transforma num mundo da sua vida”, explica Flusser (1998, p. 56-57), “pronto a alterar-se, a fim de alterar o mundo”. Esse é fundamento que vem sendo defendido sob o nome de direito à cidade. Afinal, como Harvey (2014, p. 28) sugere, “a questão do tipo de cidade que queremos não pode ser separada da questão do tipo de pessoas que queremos ser”.

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