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é feira a nova Feira? A mudança de local de um patrimônio campo-grandense gera polêmica há 8 anos.


oberto

Higa

tamento sanitário; a precariedade da comercialização em dias de chuva; as dificuldades de trânsito, de afluxo de pessoas” (Buainain, 2006, p.438). Assim a Feira Central perdeu o “Livre” que tinha no nome e os feirantes passaram a pagar taxas e impostos para permanecerem no novo local, ao mesmo tempo que ganharam várias melhorias estruturais. Segundo a historiadora Lenita Rodrigues “a mudança da Feira, em 2004, não foi apenas de endereço ou de organização. Mudaram, também, as relações dos habitantes tanto com a Feira, no cotidiano, como com a própria cidade”.

Fotos: R

A Feira Central é um patrimônio cultural de Campo Grande. Ela surgiu em 1925 e foi passando por vários pontos da cidade, até se fixar entre as ruas José Antônio e Abrão Júlio Rahe, no ano de 1964, onde permaneceu por 40 anos. Em dezembro de 2004 o então prefeito André Puccinelli assinou um decreto e transferiu a Feira para a Esplanada Ferroviária, mudança que gera discussões até hoje. Alguns dos motivos citados na época foram “o espaço que os feirantes tinham nas ruas; o transtorno que ocasionava seu funcionamento; a sujeira do local no dia seguinte; a falta de higiene, de esgo-

Fotos de quando a Feira Central ainda era entre as ruas José Antônio e Abrão Júlio Rahe. Na segunda, uma feirante fazendo sobá.


es r Lenita Rodrigu Foto cedida po

Fotos: Raque

l de Souza

No canto esquerdo, uma barraca de hortifruti na antiga Feira. Nas outras, barracas do mesmo gênero no novo espaço.

Exemplo disso é o comentário de alguns entrevistados de que ela teria perdido o “ar de feira”. E o que seria esse “ar de feira”? No dicionário, feira significa “mercado público em dias ou épocas fixas em lugar determinado”, “sítio onde se expõem e vendem mercadorias”. A atual Feira Central se enquadra nessas definições, mas deixou de ser um local onde são vendidas mercadorias mais cotidianas, como carnes e grãos. Ainda é possível encontrar barracas que vendem hortifruti, mas em número bem menor, pois esses comerciantes reclamam da queda no movimento. Marina, 37 anos, que desde os 11 trabalhava vendendo verduras com os pais, diz que

no antigo local “não tinha dia fraco”. Atualmente ela trabalha como funcionária em uma barraca que vende comida japonesa, e muitos feirantes dessa área também passaram a trabalhar com outros produtos para continuarem na Feira. Outros, como Fábio Borges, proprietário da única banca de frutas do novo espaço, investiram em negócios paralelos para não terem que abrir mão da tradição familiar. Outros ainda migraram para as feiras nos bairros, que sofreram um crescimento significativo depois que a Feira Central deixou de ser na rua. Esse crescimento mostra um certo saudosismo da população local pelas tradicionais barracas de lona, hoje inexistentes na Feirona.


O setor de alimentação é o principal atrativo da nova Feira. O sobá, patrimônio cultural da cidade, ganhou até monumento no local.

da ilha de Okinawa, de onde vieram a maioria dos imigrantes japoneses da cidade), lotam a Feira especialmente nos sábados e quando são realizados Festivais como o do Peixe e o do Sobá. O sobá, prato mais tradicional da Feira Central e considerado patrimônio imaterial de Campo Grande, é também um dos grandes atrativos para os turistas.

Fotos: Raquel de Souza

Apesar de alguns criticarem o espaço privilegiado que as “barracas” do setor alimentício receberam com a mudança, dizendo que as mesmas transformam a Feira numa grande praça de alimentação, é esse atualmente o maior atrativo da mesma. Os campograndenses, já familiarizados com a mistura entre a culinária local e os pratos japoneses (mais especificamente os


Fotos mostram a Feira Central no sábado, dia de maior movimento.

Fotos: Raquel

de Souza

Os turistas, aliás, são atualmente os maiores responsáveis pelo movimento da Feira. Dados obtidos em entrevistas com os feirantes apontam que melhores épocas no novo local são os meses de férias, quando a quantidade de turistas aumenta na cidade. Com base nesses dados e nas declarações de vários entrevistados, é possível concluir que a Feira Central ganhou, com a mudança, status de ponto turístico. Além do sobá, o que leva tantos turistas para a Feira Central? A maioria dos feirantes diz que é a diversidade presente no local. Magda Ber-

tagnolli diz que é isso que diferencia a Feira dos outros lugares, “você pode vir pra comer, comprar, ou só para olhar”. Glaudete Pinheiro, vendedora de balas de coco artesanais, completa dizendo que a presença de muitos tipos de produto no mesmo espaço não é concorrência, é atrativo. Mas a paraense Rosimary da Silva, na Feira há 16 anos, acha que essa diversidade tem que aumentar ainda mais. Atualmente ela trabalha vendendo tapioca, e diz que os campo-grandenses têm que ter coragem para provar coisas novas.


“O turista que vem não quer ver

coisas do Paraguai, quer ver coisas do Mato Grosso do Sul.” Roy Moreira

Outro atrativo são os produtos regionais, como doces, pimentas e bebidas típicas. Gabriel Antoniazzi trabalha com esses produtos e diz que os turistas tem bastante interesse por eles, “principalmente pelas cachaças”, diz em tom de brincadeira. Há também o artesanato com elementos regionais. Zoraide Pereira, que trabalha na Feira há 40 anos, diz que os produtos mais procurados são aqueles com elementos que remetem ao Pantanal, como as onças, araras e tucanos que ela pinta nos panos de prato. Zoraide e o marido guardam registros da maioria dos turistas que já passaram por ali, e nesses registros é possível encontrar recados de alemãos, norte-americanos, holandeses, espanhóis, uruguaios, australianos, enfim, de todas as partes do mundo.

Consequentemente os feirantes que sobrevivem do turismo são só elogios para a nova Feira. Eles dizem que ali podem trabalhar com mais segurança, comodidade, higiene e organização. Roy Moreira, artesão, diz que além da melhora na organização o ambiente está bem mais adequado para, por exemplo, dias de chuva, que antigamente causavam muitos problemas. Roy aproveitou a entrevista para criticar o aumento no número de barracas com produtos importados. Segundo ele, o turista que vem pra cá não quer ver coisas do Paraguai, e sim do Mato Grosso do Sul. A campo-grandense Jânia Ovando, nascida e criada aqui, diz que essas barracas estão transformando a feira “em um outro Camelódromo” (lugar fixo para os camelôs localizado no centro da cidade).


Fotos: Raq uel de Souz a

Diversidade presente na Feira ĂŠ o principal atrativo para os turistas. No canto direito, Zoraide mostra registros com visitantes do mundo todo.


l de Souza Fotos: Raque

Apesar da mudança, há 8 anos, ter alterado várias de suas características originais, a Feira Central comemorou 87 anos no final do ano passado.


E é assim, em meio a várias discussões, que a Feira Central comemorou seus 87 anos. A principal continua sendo a mudança de local, mesmo depois de mais de 8 anos. Uma frase, citada diversas vezes por várias pessoas diferentes, resume bem a essência da mudança: “Era uma Feira onde a gente ia de chinelo”. Lenita Rodrigues faz uma análise dessa frase em sua dissertação, que teve como tema a Feira Central. “Antigamente, o chinelo era símbolo de simplicidade no trajar. (...) Assim a frase faz referência à Feira como um lugar de simplicidade, um lugar que possibilitava às pessoas mostrarem-se como na simplicidade de suas casas.” Mas se até os chinelos, graças a intensivas campanhas publicitárias, acabaram promovidos a calçados da moda, a mudança da Feira acaba tendo que ser encarada como transformação natural de uma cidade que busca o progresso a qualquer custo. Patrícia Ireijo, vice-presidente da Associação da Feira Central e Tu-

rística de Campo Grande (AFECETUR), diz que o antigo local era bom, mas também teria que passar por algumas adaptações. Lá, por exemplo, os funcionários não eram registrados e trabalhavam o dia inteiro, o que não é mais permitido com as mudanças nas leis trabalhistas. Everardo Bezerra, cearense que trabalha na Feira há 17 anos, diz que a princípio toda mudança tem seu impacto e isso gera muita resistência. Para ele, entretanto, a mudança foi boa, e a Feira tem hoje a melhor estrutura do país. O que é certo é que da antiga Feira, atualmente só restam lembranças. Para aqueles que desejam matar a saudade, existem feiras nos mesmos moldes funcionando atualmente na Orla Morena e em diversos bairros da cidade, como o Cabreúva e a Vila Carvalho. E para os que aprovaram a mudança, a “nova” Feira Central funciona de quarta, quinta e sexta-feira a partir das 16, e sábados e domingos a partir do meio-dia.

“A Feira Central representa bem

mais a cidade do que um shopping.” Elcy Soares


E feira a nova feira?