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ANO 1 . NÚMERO 06 . NOVEMBRO / DEZEMBRO DE 2012 . DISTRIBUIÇÃO GRATUITA NO SITE WWW.MARCOSCAMPOS.COM.BR

entrevista

Edison Angeloni

ensaio

Chris Wright

galeria do leitor câmeras curiosas


Foto: Marcos Campos

E D I T O R I A L Em primeiríssimo lugar eu preciso explicar esse hiato entre a última edição e esta que aqui está, é um tanto inexplicável mas eu vou tentar. Sabe quando as coisas mudam, e com coisas quero dizer vida em geral, e você percebe que aquele papo de bloqueio de criatividade existe, realmente existe, não era papo de sua professora de criação na faculdade, ele existe. Foi isso que aconteceu, falta de tempo, outras ocupações, em resumo, outros projetos, mudanças, esse é o motivo pelo qual, infelizmente, deixei de lado a Foto Inversa todo esse tempo. Quando pensei em fazer a revista, me programei para cumprir ao menos um ano de revista, que resultaria em seis belas edições para vocês curtirem, é isso que estou fazendo neste momento, cumprindo o prometido, oque eu me prometi também. Aqui estou eu fazendo a 6ª edição da Foto Inversa que estava parada na medade desde o finalzinho de Outubro de 2012. Assim quero me desculpar com quem leu, acompanhou, participou e principalmente com aqueles que me enviaram material e eu não publiquei, como o gigante Edison Angeloni que é o entrevistado desta última edição da revista, sim porque essa será a última, prometida, se outras vierem... serão ao acaso, agradecer ao Adeil Araújo que me mandou um material muito bacana que produziu com seus alunos e que eu prometi que publicaria, aqui está Adeil, parabéns cara. Agradecer também ao Chris Wright da Escócia que mandou um material lindíssimo para o ensaio desta edição

e não poderia deixar de agradecer a Solange Valadão que foi uma das pessoas que me mandou uma mensagem falando que estava aguardando a edição, isso me fez pensar e casualmente no momento que li o que a Solange escreveu, eu estava com o arquivo aberto no InDesign e pensando por onde começar, valeu Solange, você deu uma quebrada no bloqueio criativo. Bom pessoal, espero que gostem desta última edição da Foto Inversa que fez com que muitas pessoas percebessem a fotografia Pinhole além do exercício do olhar, além da experiência da sala de aula de física, entendessem a fotografia Pinhole como arte, como expressão e interpretação do mundo. Acredito que todos vocês que transpiram criatividade, tanto na criação das câmeras, como sempre curiosas, como na captação dos mais diversos ângulos nos trazendo sempre imagens incríveis. Muitíssimo obrigado espero que a Foto Inversa tenha cumprido o que implícitamente eu tenha me prometido fazer: Apresentar a arte da fotografia Pinhole. Obrigado e me desculpem mais uma vez pela demora. Boa leitura e boas fotos. Marcos Campos

Arte/Diagramação: Marcos Campos Fotografia: Marcos Campos e Convidados Textos: Marcos Campos e Convidados www.marcoscampos.com.br contato@marcoscampos.com.br www.issuu.com/fotoinversa Twitter: @fotoinversa

Foto/capa: Corte em foto de Edison Angeloni, entrevistado desta 6ª edição da Foto Inversa.

Este trabalho foi licenciado com a Licença Creative Commons Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada. Para ver uma cópia desta licença, visite http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/3.0/ ou envie um pedido por carta para Creative Commons, 444 Castro Street, Suite 900, Mountain View, California, 94041, USA.

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do leitor 04 galeria Mônida Ramos/Brasil Paulo Sampaio/Portugal

06 entrevista Edison Angeloni/Brasil 16 ensaio Chris Wright/Escócia 20 acontece Adeil Araújo / Brasil curiosas 22 câmeras VinsArt/Itália

edição atrasada dernière édition late edition

própria 23 experiência por Marcos Campos

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23 dá uma olhada


uma pintura (estética pictorialista). Achei garboso deixar visíveis as bordas negras da caixa de fósforo. Dei-lhe o título de GIZ DE CAXA BY DAY (ela tem uma “ irmã ” noturna) e fará parte de minha futura exposição São Luís: uma pérola no Atlântico na Visão das Esmeraldas. O tempo do registro foi de 6 segundos e usei um filme ASA 200. Mônida Ramos, 36 anos, São Luís/Brasil, 02 anos de Pinhole. www.flickr.com/monidart

Foto: Mônida Ramos

F

oi com a participação numa oficina de fotografia Pinhole (1.° Jornada Nauro pelo Buraquinho / www.peloburaquinho.blogspot.com) que me tornei entusiasta deste tipo de registro, atraída pelo seu foco suave que confere uma atmosfera onírica às imagens. O motivo que trago aqui é uma vista para a Rua do Giz, no Centro Histórico de São Luís do Maranhão, famosa pela sua escadaria de mesmo nome, em pedra de cantaria, e por seu imponente casario colonial, diante dos quais optei por registrá-los desse modo para intensificar o caráter saudosista da cena. Nesta fotografia, gosto de seu enquadramento preciso, mesmo sem visor, com o uso de uma câmera artesanal feita em caixa de fósforo, e ainda pelo fato de a mesma guardar forte semelhança com

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P

ara mim fotografia sempre foi magia. Lembro-me das primeiras idas ao laboratório preto e branco, daquele ambiente de luz vermelha… Era mágico colocar uma folha branca num químico e ver uma imagem a aparecer. Maravilhoso! Uma grande excitação! Com a fotografia digital grande parte dessa magia parecia desaparecer (não é verdade, não desaparece). Pinhole é isso mesmo: magia e surpresa (e um nunca acabar de experimentar). Exemplo disso é a fotografia que envio que resulta de um erro. Numa das primeiras experiências com uma câmara com três estenopos, por engano, abri duas vezes o mesmo estenopo fazendo uma dupla exposição (e um total de 30’’ de exposição) no primeiro estenopo; o segundo

estenopo ficou por abrir não registando nenhuma imagem; o terceiro estenopo registou uma imagem sem interesse. Fiquei contente com o resultado do primeiro estenopo! Actualmente utilizo diversas câmeras Pinhole do tipo lata cilíndrica, onde coloco papel fotossensível, para filme utilizo as Pinhole matchbox e uma PinHolga - adaptei uma Holga 120N a Pinhole retirando-lhe a lente. Possuo câmeras com 2 estenopos, câmeras anamórficas e muitas ideias…o tempo é que não chega para tudo!!! Paulo Sampaio, 42 anos, Silves/Portugal, 5 anos de Pinhole www.flickr.com/photos/psampaio Foto: Paulo Sampaio

Para participar da Galeria do Leitor, envie e-mail solicitando informações para contato@marcoscampos.com.br com o título “Galeria do Leitor”.

GALERIA DO LEITOR

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Fotos: Edison Angeloni

ENTREVISTA

EDISON ANGELONI “... Minha empolgação era com a simplicidade desse equipamento e as possibilidades que surgiam...”

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ão teria como fechar esse ciclo da Foto Inversa sem apresentar Edison Angeloni, um grande artista das Pinholes e forte entusiasta da técnica. Cheio de experiências, tanto didáticas quanto práticas, nos mostra diferentes formas de utilizar a fotografia, Angeloni que conheceu e começou a arte dentro de um laboratório fotográfico, trás em suas fotos uma enorme bagagem para nos apresentar. No decorrer da entrevista, vocês poderão sentir a empolgação e a evolução que todo o trabalho envolvendo Pinhole consegue gerar em alguém. Divirtam-se com essa ótima entrevista e admirem as belas imagens de Edison Angeloni. 7


Foto Inversa - Qual foi seu primeiro contato com a fotografia Pinhole? Edison Angeloni - O primeiro contato com a Pinhole acho que foi um pouco tarde, em 2004, eu já fotografava, trabalhava em laboratório e comecei a fazer testes das latas e caixas em um grupo de estudos para formação de professores no Senac. Fazíamos vários experimentos para saber lidar com todas as situações que poderiam ocorrer; entrada de luz indesejada na câmera, diferentes horários do dia, posição do sol etc. Saíamos do laboratório para a rua, fotografávamos e o retorno para revelar a foto era o momento em que eu pensava na impossibilidade de possuir um laboratório superestruturado como tínhamos na escola. A ideia era levar a fotografia Pinhole para diversos lugares, seja para oficinas, comunidades, escolas públicas ou qualquer outro lugar, e montar um laboratório sempre seria um trabalho imenso. Além disso, o deslocamento para fotografar com pinhole nunca atingia uma distância muito grande com relação ao local onde montávamos os químicos, o que limitava o local a ser fotografado pela distância. Comecei a pensar na possibilidade de utilizar filme fotográfico e não sabia direito o resultado, quase não tinha referência e resolvi testar um filme em uma caixa de papelão da Kodak, os livros que usava para cálculos era doThalesTrigo, Equipamento Fotográfico e do Eric Renner Pinhole Resource. Construí a primeira câmera e fiz um filme inteiro com testes. Para minha sorte, resultou uma imagem que me agradou muito e acho que instigou a fotografar mais e a aprimorar a câmera, pois o mecanismo de avanço de filme era uma tragédia e para colocar o filme era muito trabalhoso. Após essas primeiras experiências, comecei a fazer mais câmeras e fotografar mais. O encantamento com essa técnica me deixou tão entusiasmado que cheguei a deixar a antiga câmera de lado, exceto para fotografar os resultados e as câmeras que criava. Minha empolgação era com a simplicidade desse equipamento e as possibilidades que surgiam.

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Foto Inversa - Você possui um grupo, um coletivo, que trabalha a fotografia Pinhole, correto? Fale sobre ele? Edison Angeloni - Não sei se poderíamos chamar de coletivo, mas tenho um grupo de amigos fotógrafos, e organizamos alguns passeios para fotografar, todos são bem vindos. Esses dias mesmo comentamos sobre um passeio até o litoral para fotografarmos com Pinhole, o que não exclui pessoas com câmeras industriais né, sem exclusão. Foto Inversa - Você atua em diversas oficinas de fotografia Pinhole. Fale sobre isso. Edison Angeloni - Já havia participado de algumas atividades relacionadas ensinando a fotografia Pinhole, mas comecei a dar minhas próprias oficinas no Sesc Pompéia, convidado pela Simone Wicca quando viu as imagens e câmeras, mas ela propôs que eu fizesse com a caixa de fósforos, que eu não havia feito ainda, o estranho é que eu não tinha referencias de como construir com esse material na época, apesar de ser bem utilizada e encontrarmos diversos tutoriais na internet. Acabei desenvolvendo meu próprio método para a oficina e até que ficou um resultado legal. Só depois é que descobri

outros trabalhos com essa técnica. Apesar de utilizar a fotografia Pinhole como principal fator das oficinas, trabalho a formação da imagem, seja através da câmera obscura pequena ou a possibilidade de fazer imagem em um quarto escuro. Foto Inversa - Qual sua percepção sobre as pessoas que participam destas oficinas? Você tem um contato pósaprendizado com os participantes? Edison Angeloni - As pessoas que participam das oficinas são das mais variadas profissões, mas existem muitos professores que multiplicam essas atividades. Muitas vezes eles relatam as experiências com os alunos. Isso é um grande incentivo. Muitos fotógrafos também fazem a oficina e apesar da intimidade com imagens, a maioria fica impressionado com a simplicidade do equipamento, da formação da imagem e acaba aderindo a técnica com muita intensidade. >>

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Foto Inversa - No seu Flickr encontram-se fotografias com diversos suportes e técnicas aplicadas a Pinhole. Tens alguma preferência? Porque? Edison Angeloni - A fotografia que utiliza filme fotográfico já requer alguma paciência, pois vivemos em um período cada vez mais imediatista e quando se trata da fotografia Pinhole, ainda há a construção da câmera, o ato de fotografar, que é um pouco mais lento e a espera na revelação. Isso tudo remete a uma reflexão sobre o tempo, sobre o que fazemos e paramos um pouco e pensar no que queremos e na real necessidade dos novos equipamentos, cada vez mais atuais, com mais mega-pixels, ultra mega modernos. Quando utilizo outros suportes como o cianótipo para a positivacão, ainda há outras etapas para chegar ao resultado final. É um processo lento para se chegar nesse resultado. Comecei a praticar os processos históricos da fotografia com o mestre Kenji Ota, e com Elizabeth Lee, fotógrafa que também trabalha com Pinhole, grande incentivadora e especialista em técnicas fotográficas do século XIX. Alguns desses processos, como a goma bicromatada, requer um tempo ainda maior, com camadas de cores e imagens que demoram dias para ficarem prontas, sem falar nos testes para se chegar aos resultados pretendidos. Dessa forma temos que deixar a ansiedade de lado e cultivar uma paciência cada vez rara no mundo atual. Foto Inversa - E quanto a construção das câmeras, você usa desde grandes formatos, grandes mesmo como barris, até pequenas caixas de fósforos. Construir e experimentar, fale sobre isso. Edison Angeloni - Acho que o grande lance é reaproveitar o que temos disponível. A primeira câmera, a caixa da Kodak, era o que tinha sobrado dos papeis 10x15 usados no laboratório, depois ela serviu e foi bem utilizada. A câmera seguinte, já com recursos mais práticos, como a colocação do filme e o sistema de avanço, foi feita com papelão reaproveitado também e assim foram sendo feitas os equipamentos. O barril era de ácido cítrico (interruptor) do laboratório e não tive dúvidas quando esvaziou, virou câmera, assim como o barril menor de sulfito de sódio. O que me ajudou bastante foi ter muitos profissionais da fotografia por perto, grandes fotógrafos, professores, colegas e alunos me abasteciam com papéis novos e antigos, filmes de 35mm, 120, 4x5 e até chapas de raio X, alguns desses materiais com vencimentos de até 30 anos e não desprezava nada, sempre >> 11


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utilizando tentando trazer imagens nesses suportes. Certa vez o Antonio Saggese me trouxe uma caixa de chapas 4x5 dentro de um saco plástico, ele sempre acondicionava muito bem seu material, mas esse havia caído atrás da geladeira e a emulsão estava se desfazendo quando fui manuseá-la no laboratório. A imagem mais bacana foi da Elizabeth Lee, quando fotografamos com latas de leite ninho. Foto Inversa - No ano passado você realizou a exposição “Passagem”. Qual foi sua percepção do público frente a fotografia Pinhole como arte, como absorveram as imagens? Edison Angeloni - A exposição Passagem, feita apenas com fotografias Pinhole, foi selecionada em um edital do governo do Estado de São Paulo. Com imagens feitas com filme 120 e caixa de fósforos grande. A câmera utilizada dá muita entrada de luz, muita distorção e manuseio um pouco mais difícil e nem sempre geram imagens fáceis de serem vistas. Essa câmera foi a busca da não perfeição nas fotografias, pois certa vez fiz uma câmera que dava imagens sem nenhuma distorção e muito “certinha”, daí em diante queria essas interferências. Mas essa é a parte técnica. A exposição tenta refletir um pouco a questão do tempo, pois estamos sempre correndo para nossos destinos e raramente paramos para observar ou contemplar. Na sociedade contemporânea a rapidez e o imediatismo estabelecem o ritmo acelerado e a questão do consumo por novos equipamentos, celulares que fotografam e tudo de última geração nos faz consumidores vorazes, sem questionar muito se realmente precisamos de tudo isso. Foto Inversa - Como é de costume, indique algum(s) artista(s) que você tem como referência ou influência na sua trajetória com a fotografia Pinhole? Edison Angeloni - Há alguns mestres da fotografia, não só da Pinhole, mas que influenciam diretamente o meu trabalho. Miguel Chikaoka, pessoa tranquila e que faz todos os questionamentos sobre a fotografia e os modos como trabalhamos, Kenji Ota, fotógrafo que utiliza processos históricos na fotografia, Elizabeth Lee, que se juntou e passamos a desenvolver técnicas em dupla, Dirceu Maués, acho que o mais conhecido com trabalhos atuais, Eustaquio Neves, as referências de fora como Justin Quinnell e Eric Renner, um camarada chamado Marcos Campos com sua Pinhole Sardinha e muitas outras referências que poderia colocar aqui.

Aqui estão duas das câmeras que Edison utiliza. Bem diferentes uma da outra, assim já podese perceber o quando Angeloni experimenta em vários formatos.

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Foto Inversa - Finalizando essa entrevista, o que é Pinhole pra você? Edison Angeloni - Em um mundo cada vez mais tecnológico e inovações constantes, a rapidez da vida moderna não dos deixa parar. Faz com que automatizemos nossa rotina para aproveitar cada segundo em função de outras atividades produtivas, em um ritmo cíclico de trabalho imerso, sem tempo para reflexões. Equipamentos são lançados no mercado e o desejo de consumo compulsivo nos faz adquirir novos aparelhos, descartando o que é ultrapassado, engolidos pelo desenvolvimento e sem pensar nas consequências que acarretam. Com a popularização de câmeras digitais e celulares que fotografam, a Pinhole segue no sentido inverso, e objetos simples como caixas de fósforo, latas de leite em pó e outros compartimentos que provavelmente iriam parar no lixo depois de serem usados, se transformam em câmeras fotográficas, porém em outro ritmo. Enquanto fotos digitais feitas aos montes são apagadas instantes depois de serem tiradas, a Pinhole requer escolhas, pois quando não é de exposição única, permite apenas algumas fotos, o que faz o fotógrafo analisar aquilo que deseja eternizar em suas imagens. Além da questão de reflexão sobre nosso tempo e nosso ritmo diário, a Pinhole me dá um olhar diferente do que estou acostumado, novas possibilidades com materiais que eu mesmo posso reaproveitar, novos estilos de câmeras e a questão que Vilém Flusser levanta em seu livro Filosofia da Caixa Preta. Eu mesmo consigo fabricar meu equipamento e consigo determinar uma série de possibilidades que não seriam possíveis em um equipamento industrializado.

Conheça o trabalho de Edison Angeloni em: www.flickr.com/angeloni

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fotografado é feito cara-a-cara, sem voyeurismo, criando uma identidade interesante e encurtando distâncias ao ser inserido no ambiente de seus retratos.

Fotos: Chris Wright

Uma maneira de fotografar com Pinhole que não é tão comum, uma busca por retratar pessoas e não somente assuntos imóveis como de costume de muitos, um desafio certamente. Assim é apresentado o trabalho de Chris Wright, direto da AntiSharpness League no Reino Unido onde seu contato com o

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ENSAIO

CHRIS WRIGHT Edimburgo ESCÓCIA

Eu estava interessado nas fotos que via no Flickr de pessoas utilizando uma câmera Zero2000 e decidi experimentar também. Depois de anos de uso de câmeras digitais hi-tec, eu descobri que realmente gostava de voltar ao básico. Tudo bem que as imagens não eram perfeitas, mas foi divertido ver o que aconteceu depois de um dia de fotos indo para o Festival de Edimburgo, o que também foi um revelação. Estes últimos 3 anos, comecei a fotografar pessoas em vez de coisas. Usando Pinhole geralmente requer o consentimento e participação da pessoa fotografada, por isso a fotografia é menos sobre voyeurismo destacado e mais sobre a interação e contato. Vejo muitos profissionais ou amadores ricos, fotografar de um quilômetro de distância, obtendo imagens tecnicamente perfeitas, mas que não acrescentam nada ao cenário, ao contexto fotografado.

Chris Wright, 42 anos, Edimburgo/Escócia, 3 anos de Pinhole. www.flickr.com/jadmor

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a fotografia Pinhole nos faz pensar, nos deixa curiosos não é verdade? Acredito que esse sentido de curiosidade que envolve a fotografia Pinhole tornou-a uma bela ferramenta para o professor Adeil Araújo e sua experiência com alunos da rede pública do Ceára. Confiram seu relato e as boas imagens captadas por alguns deles e que acabaram virando um grande varal fotográfico na escola atraindo olhares e multiplicando conhecimento.

Fotos: Priscila Gomes

Fotos: Adeil Araújo

Há algum tempo recebi um e-mail de um professor de física da rede pública do estado do Ceára contando sua experiência com Pinhole e seus alunos, fiquei muito feliz e isso me deu um gás para dar continuidade a revista e principalmente a essa interação com leitores que me fazem pensar no poder que tem a imagem, mesmo ela sendo fora de foco, tremida, nublada, indefinida, abstrata... e por ai vai. Defina como achar melhor, mas o que não podemos deixar de falar é que

Alunos e suas fotos no Varal Fotográfico, resultado da oficina. 20


ACONTECE

Fotos: Caroline Nascimento

Fotos: Matheus Souza

Fotos: Inara Santos

A iniciativa de realizar uma oficina de Pinhole começou em Maio deste ano, quando ministrava aulas sobre óptica geométrica aos meus alunos do 9º e 2º anos da escola de ensino fundamental e médio São Francisco de Assis, da rede pública estadual, localizada no bairro Bom Jardim, periferia da cidade de Fortaleza/CE, e propus a construção de uma câmera escura de orifício. O entusiasmo e comprometimento dos alunos nesta aula prática foi tão motivador que decidi dar um passo além e propus então, a construção de uma máquina fotográfica a partir de materiais do dia-a-dia desses alunos: caixa de fósforo, pregadores de roupas e filmes fotográficos. Para dar o exemplo, construi minha própria Pinhole e sai pelas ruas do centro de Fortaleza tirando fotografias, muitas vezes, sob olhares curiosos dos transeuntes. Revelei essas fotos e levei para a escola. O espanto dos alunos foi geral... Indagavam “Como podemos tirar foto com uma máquina feita de caixa de fósforos?” Propus que realizassem então uma pesquisa sobre a confecção de máquinas fotográficas artesanais. E em grupos realizaram essa pesquisa e construíram suas próprias Pinholes, baseados nos conceitos básicos e em projetos visualizados na internet. De início, a qualidade das fotografias não ficou tão boa, por uma série de motivos: orifício grande, tempo de exposição e até mesmo má vedação da máquina. Percebi certa decepção por parte dos alunos em relação aos maus resultados gerados pela expectativa de que as fotos dessem certo. Foi então que com o auxílio da professora de matemática propus a realização de uma oficina de Pinhole. Iniciamos traçando um pouco sobre a história da fotografia, sobre a teoria da formação da imagem no filme fotográfico, propagação retilínea da luz, câmara escura, semelhança de triângulos e, ao final construímos as máquinas Pinholes. Os alunos puderam enfim construir uma câmera funcional. Combinamos que cada um a levassem para casa e fotografassem seu cotidiano e o resultado foi surpreendente a ponto das fotografias serem expostas na escola. Realizamos em setembro nosso primeiro varal fotográfico, como parte do Projeto Intervalo Ciência, que desenvolvemos na escola. Os alunos tiveram a oportunidade de multiplicar os conhecimentos obtidos em sala de aula e na oficina para toda a comunidade escolar. Nosso desafio agora é continuar trabalhando no projeto pois o número de interessados continua aumentando e muita gente solicita uma nova oficina de Pinhole. Pensamos que desta vez os facilitadores deverão ser os próprios alunos já capacitados, pois já estão preparados para transmitir a técnica. Adeil Araújo - Professor de física da rede pública de ensino do Estado do Ceará

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CÂMERAS CURIOSAS

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Para ver o projeto completo Food Pinhole Portrait visite o site www.vinsart.it VinsArte, 30 Campobasso/Itália

Foto: VinsArt

FOOD PINHOLE PORTRAIT

om o projeto Food Pinhole Portrait eu experimentei a fotografia Pinhole fazendo uso de alimentos sujeitos à deterioração. Foi muito interessante o resultado, mas em alguns casos é difícil conseguir trabalhar as câmeras. A berinjela foi muito adequada para o projeto devido à sua sólida consistência interna que proporciona uma boa estrutura para se trabalhar. Fiz um auto-retrato no espelho onde utilizei um filme de 35 milímetros Kodacolor Iso 200, foi utilizado tripé para uma exposição de cerca de 6 segundos.

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anos,


EXPERIÊNCIA PRÓPRIA

PINHOLE AINDA MAIS LENTA

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im, dá pra fazer, ela já é lenta, mas dá pra deixar ainda mais e eu estou trabalhando nisso, confesso que à passos de tartaruga, mas estou trabalhando nisso sim. Adaptei uma das minhas câmeras para receber um filtro de densidade neutra, o famoso ND. Pra quem não conhece, esse tipo de filtro seria como sua câmera estive usando óculos escuros, ele reduz a quantidade de luz que entra pela objetiva, no caso da Pinhole, pelo furo da agulha. Criei uma forma de colocar um filtro ND em minha câmera Pinhole 6x6, nos meus cálculos, mentais é claro, acredito que vou precisar do triplo de tempo que estou acustumado a utilizar, por exemplo: Em um dia de sol forte, nessa câmera eu utilizo algo entre 1 a 2 segundos de exposição, portanto deverei utilizar algo em torno de 4 ou 5 segundos, acredito que seja o suficiente. Mas sabem como eu vou fazer, dá maneira que sempre aconselho todo mundo, farei na mesma condição de luz, fotos com intervalos de 1 segundo e irei anotando tudo, o bom e velho acerto e erro que irá me gerar uma "tabelinha"para as próximas fotos.

por Marcos Campos

Tá mas oque você quer com isso senhor Marcos!? Eu quero poder fazer fotos em pleno sol, que me deixem capturar rastros das nuvens, maior movimento do mar, em resumo, transformar tudo que se move em poeira, em risco, pra imagem que eu busco, esse é o jeito. Então, já sabem, querendo deixar sua fotografia Pinhole ainda mais lenta, use óculos escuros, em você, na câmera use filtro ND. Vale lembrar que existem várias graduações de filtros, portanto pesquisem bastante e façam seus testes, tenho certeza que o resultado, como sempre, irá surpreender. Assim espero, pois eu irei testá-la logo no PinholeDay 2013, portanto preciso de uma boa imagem não é verdade?! Deseje-me boa sorte!

DÁ UMA OLHADA Uma dica de construção e ainda por cima levando em conta um assunto muito na moda e necessário, a reciclagem. Faça uma câmera Pinhole com uma caixa usada de filme. Boa hein!

Tudo bem que é notícia velha, mas já imaginou uma Pinhole do tamanho de um caminhão?! Pra quem não conhece vale muito dar uma boa olhada no grandioso projeto de Mica Costa Grande, O Brasil pelo buraco da agulha.

Dá uma olhada: http://migre.me/bceac

Dá uma olhada: www.costagrande.com.br 23


Foto: Marcos Campos


#06 - Foto Inversa - A arte da fotografia Pinhole