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2013 | ANO 01 | N º 01 ISSN 2317-4579

ALBERTO FERREIRA - ANTONIO AUGUSTO FONTES - ANTONIO DAVID - AUGUSTO PESSOA - DAYSE EUZÉBIO - FRANCISCO FRANÇA - GUSTAVO MAIA - GUSTAVO MOURA - HUDSON AZEVEDO - JOÃO LOBO - MACHADO BITENCOURT - MARCUS ANTONIUS - NUMO RAMA - REGINALDO MARINHO - SEVERINO SILVA - WALTER CARVALHO - WÊNIO PINHEIRO


ISSN 2317-4579

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A Luz da Fotografia Paraibana A base na qual foi concebido esse projeto é a tradição e a força que a fotografia documental e autoral paraibana apresenta ao longo de sua história. Inspirada nos elementos da cultura, do cotidiano, do comportamento da sociedade e nas peculiaridades da paisagem natural, sua riqueza reside exatamente no que se capta dos gestos de um povo; no que se transcreve da alma de um lugar. Saliente-se que, em função do imenso leque de expressões, a curadoria considerou a seguinte delimitação metodológica: reunir a produção de seguidas gerações de fotógrafos paraibanos (nascidos ou radicados no Estado), a partir da segunda metade do século passado, focada no teor ensaístico e documental. O leque de ensaios aqui reunidos só não é maior devido às naturais limitações de espaço, e mesmo por questões de acessibilidade aos autores. Essa é a razão da ausência de algumas obras importantes – inclusive aqui citadas – cuja referência não poderíamos deixar de fazer. De forma mais abrangente, a contribuição dessas expressões é descrita num artigo do pesquisador e professor da UFPB, Bertrand Lira, que faz um resumo histórico da fotografia paraibana desde o final do século XIX. Fotografia Paraibana Revista traz à luz a obra do paraibano Alberto Ferreira (1932 – 2007). Desconhecido em sua terra natal (Alagoa Grande) Alberto é simplesmente um dos fotógrafos paraibanos de maior projeção mundial, tendo conquistado vários prêmios importantes durante os 30 anos que trabalhou no Jornal do Brasil (25 anos como Editor de Fotografia). Considerado por especialistas um dos melhores do mundo em coberturas esportivas e um dos precursores do jornalismo fotográfico no país, Alberto produziu registros únicos das manifestações ideológicas e cultu-

rais da sociedade brasileira, notadamente entre as décadas de 50 e 60. Na sequência, contemporâneo de Alberto Ferreira, o guarabirense Hudson Azevedo foi considerado o maior retratista do litoral paraibano e um dos mais importantes documentaristas da paisagem urbana, destacando-se em sua obra, líricas imagens de uma João Pessoa nos anos 50. Depois, temos Machado Bitencourt, que se faz documentarista atuando no jornalismo, e se torna um dos mais ecléticos fotógrafos da Paraíba a partir dos anos 60. Antônio Augusto Fontes vem em seguida, aprimorando sua verve fotográfica em incursão pelos EUA e, posteriormente, realizando ensaios e séries para algumas das mais importantes publicações brasileiras e internacionais, como Veja, Exame, Isto É, Le Monde, entre outros. Nessa época, Reginaldo Marinho figura com sensíveis ensaios de artistas, como Zé Ramalho, e um histórico registro da redemocratização da Espanha, em 1977. Ao mesmo tempo, noutra frente, Walter Carvalho inicia-se na fotografia, como assistente nas filmagens de seu irmão (Vladimir), tornando-se mais tarde o mais cultuado fotógrafo do cinema brasileiro. Da mesma escola de Machado, surge Antônio David, com um olhar atento aos fatos e ao cotidiano, sem perder de vista a sua perspectiva autoral, atuando como repórter fotográfico nos principais jornais paraibanos. Entre as décadas de 70 e 80 identificamos talvez o maior fluxo de produção fotográfica do gênero documental no Estado. Nesse contexto, além da continuidade da geração anterior, apontamos o surgimento de nomes como Roberto Coura, Roberto Guedes, Gustavo Moura, Clara Lenira, Germana Bronzeado e João Lobo, entre as mais expressivas revelações da época.

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Roberto Coura notabilizou-se pelos ensaios antropológicos, com destaque para “A Feira de Campina Grande” (1978), aclamado nacionalmente, conquistando o cobiçado Prêmio Marc Ferrez de Fotografia. Roberto Guedes, entre outras iniciativas, realiza um ensaio pioneiro sobre os grafiteiros na década de 80, em São Paulo. Gustavo Moura desenvolve sua produção a partir dos anos 80 com uma obra inspirada na luminosidade e no imaginário nordestino. Sua trajetória ganha projeção nacional, notadamente através de publicações autorais como “Imaginário” (2000) e, sobretudo, “Do Reino Encantado” (2006), baseada no universo armorial de Ariano Suassuna. E mais: o importante trabalho desenvolvido por Clara Lenira, realizando – nas palavras de Bertrand Lira – “um inventário de movimentos, expressões e gestos de atores, bailarinos, cantores e músicos” que atuaram nos palcos da Fundação Espaço Cultural da Paraíba, ao longo de mais de duas décadas. Destaque-se também o relevante acervo realizado por Germana Bronzeado que, durante 15 anos, documentou a restauração do patrimônio histórico de João Pessoa, através do projeto Oficina Escola, vinculado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. E a trajetória experimentalista de João Lobo, sobretudo na utilização de recursos estéticos que transcendem os padrões e suportes utilizados, numa versatilidade que se expande com a utilização dos mecanismos digitais. A última década do século XX é marcada pelo surgimento de coletivos fotográficos, que congregam a maior parte dos chamados fotógrafos autorais paraibanos. O grupo pioneiro chama-se Traficantes de Imagens, que tem como propósito básico a promoção de iniciativas voltadas para a reflexão sobre a fotografia. Um dos integrantes do Traficantes de Imagens é Marcus Veloso (1950 – 2000), cujas imagens do sertão paraibano, seriam expostas na Biennale Internacional d’Art d Groupe, um importante evento artístico da Europa, realizado em 1995, na França. Juntamente com Ricardo Peixoto e

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Mano de Carvalho, em 1994 Veloso cria a Agência Ensaio, responsável por importantes projetos relacionados à fotografia paraibana contemporânea. Mais à frente, a retomada de iniciativas focadas na ação coletiva de formação e difusão se dá através do projeto Setembro Fotográfico (2011 e 2012), promovido pela Fundação Cultural de João Pessoa, com a coordenação de Gustavo Moura, um dos mais atuantes membros do Traficantes de Imagens. Dos anos 90 pra cá, despontam também na cena fotográfica paraibana trajetórias em grande parte forjadas no ambiente jornalístico. É o caso de Francisco França, Gustavo Maia, Marcus Antônius e Augusto Pessoa. Desse gênero, destacamos ainda a atuação impar de Severino Silva, cuja trajetória profissional se alicerça no Rio de Janeiro, transitando “de maneira fantástica” entre os conflitos urbanos e o afeto da cidade maravilhosa. Mas, além do fotojornalismo, há exceções relevantes, a exemplo de Numo Rama, paraibano radicado no Rio Grande do Norte que faturou o conceituado Prêmio Porto Seguro de Fotografia em 2004 na categoria Brasil. E mais à frente, a novíssima geração, representada aqui por Deyse Euzébio e Wênio Pinheiro. A despeito da riqueza dos acervos criados ao longo das décadas por esses profissionais, a carência de mecanismos de difusão dessa produção resulta no desconhecimento acerca de seu valor e, consequentemente, de nossa própria realidade. A criação de um produto, que funcione como veículo de informação e conhecimento sobre o patrimônio fotográfico documental paraibano, é o propósito essencial desta Revista. Essa é a nossa contribuição num processo que requer a união de esforços honestos e inestimáveis para a revalorização do que temos de mais precioso: o patrimônio cultural que expresse a criatividade e a alma de nosso povo. Elinaldo Rodrigues Jornalista e Documentarista


A emblemĂĄtica foto da bicicleta de PelĂŠ, feita pelo paraibano Alberto Ferreira em 1965.


Coordenação editorial / Produção: Gustavo Moura Edição fotográfica: Gustavo Moura e Wênio Pinheiro Coordenação literária / Assessoria de imprensa: Elinaldo Rodrigues Projeto gráfico: Gustavo Moura e Wênio Pinheiro Foto da capa: Gustavo Moura Textos: Bertrand Lira Elinaldo Rodrigues Revisão: Elinaldo Rodrigues Editora: Eliro Produções Elinaldo José Rodrigues ME Rua João Alfredo Cajueiro, 133, Portal do Sol - Cep: 58.046-660 João Pessoa/PB

Impressão: Gráfica Santa Marta Fotografias: Alberto Ferreira Antonio Augusto Fontes Antonio David Augusto Pessoa Dayse Euzébio Francisco França Gustavo Maia Gustavo Moura Hudson Azevedo João Lobo Machado Bitencourt Marcus Antonius Numo Rama Reginaldo Marinho Roberto Guedes Severino Silva Walter Carvalho Wênio Pinheiro Colaboradores: Bráulio Tavares, Clarissa Garcia, Gonzaga Rodrigues, João Roberto Ripper, Rita Luz, Rosely Nakagawa, Simoneta Perschetti.


Š Gustavo Moura.

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E então houve um dia em que por acaso no mesmo momento se fez uma pausa se fez um silêncio. Nenhuma pessoa falou nem buliu. Nenhum passarinho a asa bateu. Criou-se no espaço um cristal tão fininho... e tudo mudou e tudo calou e tudo parou e tudo foi seu. Nenhuma tremura nas nuvens, na relva, nos grilos, nos sapos, nos carros, nos bois. Foi só um minuto suspenso do mundo, e nele o silêncio se pôde escutar... Depois, de repente, o tempo se abriu, as fontes correram, o vento passou; a planta cresceu, fumaça subiu, a fruta caiu, a tarde voltou. E cada um continuou na sua vida, só que agora se lembrando.


Inauguração de Brasília, a festa, 1960.

ALBERTO FERREIRA 12


Construção de Brasilia, os candangos, anos 50, séc. XX.

Considerado por especialistas um dos melhores do mundo em coberturas esportivas, o paraibano Alberto Ferreira Lima venceu vários prêmios importantes durante os 30 anos que trabalhou no Jornal do Brasil (25 anos como Editor do departamento de fotografia). Uma de suas fotos mais famosas, que lhe valeu o prêmio Esso de fotografia em 1963, registra o exato momento em que Pelé, na partida contra a Tcheco-Eslováquia, sente a contusão que o afastou definitivamente da Copa do Mundo do Chile, em 1962. “O rei se curva ante a dor que o Brasil todo sentiu”,

título da foto no JB, era o reconhecimento ao que fazia de Alberto Ferreira um profissional de alto nível: um dos precursores do jornalismo fotográfico no Brasil e um dos primeiros a dar fundamento ao velho chavão das redações de que “uma foto vale mais que mil palavras”. Alberto Ferreira tinha a intuição que faz com que os grandes fotógrafos prevejam os fatos frações de segundos antes que eles aconteçam. Foi assim que, em uma época de equipamentos fotográficos inteiramente mecânicos, registrou com uma Leica 13


M3, em fotograma isolado, o vôo de Pelé em sua famosa bicicleta, num jogo contra a Bélgica, no Maracanã, em 1965. É sua foto mais famosa: deu-lhe naquele ano o prêmio SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa), e depois se tornou um símbolo: esteve exposta no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio, no Maracanã, no Centro Cultural da Justiça Federal e no Centro Cultural Banco do Brasil, faz parte do Acervo do Museu Europeu de Fotografia como um dos 28 Instantâneos de Felicidade e também compõe as exposições L’Extreme em Paris e Extremos no Instituto Moreira Sales no Rio e em São Paulo. Foi

Meninos de um orfanato no Rio, 1958.

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escolhida por Pelé para representar a síntese de sua carreira. Esteve diretamente ligada a três Copas do Mundo; tornou-se marca da do México, em 1970, e o MasterCard a estampou em seus cartões, por ocasião da Copa do Japão e Corea em 2002, como um dos momentos máximos da arte do futebol. Na Copa de 2006, a foto ficou exposta em Berlim, e a CocaCola fez imagens ampliadas (outdoors) que cobriam fachadas de prédios, abrigos de ônibus e relógios de rua, durante 24 meses, em Tóquio, Paris, Londres e Nova Iorque, além de ilustrar com ela anúncios em jornais e revistas do mundo inteiro. Alberto Ferreira


As meninas de Velasquez, Museu do Prado, Madrid, 1960.

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participou de diversas coberturas no exterior ligadas ao esporte brasileiro, não só ao futebol. Cobriu a Copa da Inglaterra, em 1966, acompanhou a Seleção Brasileira na excursão de 1968 à Europa e trabalhou na Copa do México em 1970. Dois anos mais tarde, passou longa temporada cobrindo o desempenho vitorioso de Emerson Fittipaldi na Fórmula-1 na Europa, seguindo depois para as Olimpíadas de Munique. Enviado também às Olimpíadas de Moscou, em 1980, foi o único fotógrafo que conseguiu fazer uma seqüência de fotos da única queda durante uma competição da campeoníssima ginasta olímpica romena Nádia Comanecci. Ganhou

Construção de Brasilia, anos 50, séc. XX.

o prêmio Bola de Ouro pela cobertura fotográfica feita pelo Jornal do Brasil. Em 1982, Alberto Ferreira partiu para o campeonato mundial de futebol na Espanha. Considerava esta fase incomparável em termos de trabalho duro, mas compensadora porque a cobertura do Jornal do Brasil foi considerada a melhor entre todos os jornais e em 1986 esteve novamente no México para a Copa do Mundo. Alberto Ferreira distinguiu-se em eventos esportivos, mas foi notável também em outras áreas, como a cobertura do concurso Miss Universo em Miami, em 1963, e o funeral de Bob Kennedy, em Washington, em 1968, que considerava um dos momentos mais emocionantes de sua carreira. Esteve presente 16

nas principais coberturas fotográficas durante a época em que trabalhou e assim, através de suas lentes e seu olhar único, documentou importantes momentos da história do Brasil e do mundo.  Construiu o maior e mais completo acervo autoral sobre a construção e a inauguração de Brasília. De 1958 até sua inauguração em 21 de abril de 1960, Alberto Ferreira esteve por diversas vezes na cidade acompanhando a Condessa Pereira Carneiro, dona no Jornal do Brasil na época. As imagens das visitas de cortesia da Condessa ao então Presidente Juscelino Kubitschek durante as obras e a inauguração, foram publicadas pelo JB na época. O restante do material, ou seja, o registro da colocação das pedras fundamentais, e, sobretudo a documentação da vida e trabalho dos candangos começaram a ser divulgados em 2003, no ano do Brasil na França, na mostra “Brasília, uma Metáfora da Liberdade”, juntamente com as imagens contemporâneas de Jair Lanes. Em 2005, Alberto Ferreira expôs em Paris, fazendo parte da coleção da MEP (Maisom Européene de la Photographie), que revela o “instantâneo” como parte fundamental da nossa memória pessoal e coletiva e foi considerado um dos 28 maiores fotógrafos do século junto com Sebastião Salgado (os dois únicos brasileiros) além de Henri Cartier Bresson, Robert Doisneau, Edouard Boubat, Pierre Verger e outros. Em 2010, participa da exposição Autour de L’Extreme no MEP e em 2011 a exposição veio ao Brasil com o nome Extremos através da parceria entre o Instituto Moreira Sales e a Maison.  Alberto Ferreira morreu em 11 de março de 2007 aos 75 anos de idade. Rita Luz Jornalista e Escritora


Barra da Tijuca, Pedra da Gรกvea, 1968.

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ANTONIO AUGUSTO FONTES

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chegada do verão produz em mim um irresistível impulso de volta às origens. Formosa, uma pequenina praia no litoral paraibano é o lugar mais próximo do Paraíso que conheço. É para lá que retorno em busca do aconchego da família e da grande mãe Natureza. Lá dei meus primeiros passos na fotografia e fui apresentado àquela que seria mãe dos meus filhos e musa de uma vida inteira. É em Formosa que volto a encontrar o puer aeternum, a criança interior que rejuvenesce o espírito apesar da passagem dos anos. Este ensaio é uma pequena homenagem. Antonio Augusto Fontes

Antonio Augusto Sales Fontes (João Pessoa, PB, 1948). Estuda engenharia na Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, mas não conclui o curso. De 1970 a 1973, reside nos Estados Unidos, onde estuda fotografia, no New York Institute of Photography, 1970; e antropologia e história da arte, no Manchester College, 1971. Fixa-se no Rio de Janeiro em 1974, e inicia a carreira como fotógrafo profissional. Na década seguinte, trabalha para diversas revistas informativas, entre elas Veja, Exame e IstoÉ, antes de se decidir pela atuação independente

no campo da fotografia documental, nos anos 90. Entre 1975 e 1980, no Rio de Janeiro, é consultor técnico do Arquivo Fotográfico do Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas e do Arquivo Nacional. Dedica-se também à fotografia de expressão pessoal. Recebe o Prêmio Eugène Atget, promovido pela Air France, Prefeitura de Paris e Paris Audiovisuel, em 1984; e, em 1991, o Prêmio Marc Ferrez de Fotografia, para desenvolvimento do ensaio fotográfico Rio de Janeiro: um olhar cego sobre a cidade, e a Bolsa Vitae de Arte.


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Formado pela Universidade Federal da Paraíba em l988. É repórter fotográfico desde l975. Trabalhou no jornal O Norte (l975-l976), jornal O Momento (l985-l986) e no jornal A União (l977-l994). Professor substituto de Fotojornalismo na  Universidade Federal da Paraíba (l99l-l992). Membro do Sindicato do Jornalistas Profissionais do Estado da Paraíba (l9752006). Membro da Associação Paraibana de Imprensa (l975-2007). Coordenador de Fotografia da Secretaria de Comunicação Institucional do Governo do Estado da Paraíba (l995-2006). Gerente Executivo de Fotografia da Secretaria de Estado da Comunicação Institucional (2009-2010). Ganhou o Prêmio Lambe-Lambe de fotografia (2002) pela Agência ensaio no Núcleo de Arte Conteporânea em João Pessoa-PB. Sua Obra Integra o Acervo do Museu da Imaginação (2006). Lançou o livro Antonio David 30 anos de Fotojornalismo (2007). Vencedor do concurso nacional Leica-Fotografe Melhor (2011), na categoria cor (foto ao lado).

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ANTONIO DAVID 23


Gonzaga Rodrigues Jornalista

A máquina de David, no começo do seu aprendizado – ali pelos anos 1970 – foi orientada para fixar, o mais objetivamente possível, a realidade imediata, flagrante, recomendada pelo jornal. Assim se fez o repórter fotográfico, portador da curiosidade popular e do interesse das entidades e instituições para as quais trabalhava. Mas essa realidade, com o tempo, foi depurando os ângulos para as coisas em que a luz do sol e dos flashes já não lhe diziam muito. As lentes foram se transluzindo de realidades que só a consciência ilumina. Imagens trazidas do berço, de um sol que mais castigava que ajudava a lançar, brotar, nascer. E a essa realidade inaugural a sensibilidade social do esteta foi acrescentando a experiência do dia-a-dia, apurando o olhar menos para o encantamento do que para a denúncia. Sua máquina passou a ler por outro ângulo, a chamar com

tintas de tom negro e de foco agressivo, o que aos neutros e alienados passa despercebido. Foi o resultado do seu álbum de fotojornalismo editado sob o patrocínio da Lei de Incentivo à Cultura, edição de 2006. Ali a Tragédia (assim com maiúscula) quando não é social é da própria condição humana, envolvendo miseráveis e heróis nas mesmas sombras, como quem sai do cosmo de um Augusto dos Anjos ou da triste riqueza do mundo de Zé Lins. Agora estamos todos olhando para o céu. Os olhos e as mãos compondo o novo discurso fotográfico de Antônio David. Rostos lindos, rostos tristes, velhos e novos, lisos e engelhados,que não têm servido para nada mais confiante que a eternidade da fé. Uns falando verdadeiramente com o seu Deus; outros ou outras de mãos juntas, postas, fechadas no peito, guardando sua única riqueza; uns tantos vendo de olhos cerrados, todos contritos e iguais, a maioria rezando com as suas palavras o que um poeta distante das nossas mazelas e do nosso tempo rezava com seus versos de tom bíblico: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce” : Fernando Pessoa (1888-1935) em Mensagem.


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AUGUSTO PESSOA 26


Jornalista e fotógrafo, natural de Campina Grande, Augusto Pessoa fotografa profissionalmente desde a década de 1990, tendo integrado as equipes de fotojornalistas de diversos jornais nordestinos. Pessoa é vencedor de alguns prêmios nacionais e intermacionais, entre eles o Prêmio Abril de Jornalismo 2008, o Prêmio Pérsio Galembeck e o Prix Web de 2010. É autor das publicações: Nordeste Desvelado, em parceria com a banda paraibana Cabruêra, a série Capital Iluminada e o catálogo INTI, Uma Travessia, parte integrante de um trabalho de documentação na Cordilheira dos Andes iniciado em 2000. Atualmente trabalha como repórter e fotógrafo free-lancer para as Revistas National Geographic Brasil, Vida Simples, Continente e Horizonte Geográfico, entre outras.

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Sidney Rocha Escritor

Fotógrafos são capazes de invadir o intériuer, e capturar a alma das gentes. De criar anima em alguns seres e também vida, mesmo breve, em meia-dúzia de utensílios. Sustento pela fotografia o mesmo fascínio dos astecas de Montezuma pelos cavalos dos espanhóis. Dos primeiros índios pelos espelhos. Não tanto ao “/nos deram espelhos e vimos um mundo doente/”, do Legião Urbana, e mais ao tom dos versos anteriores, onde eles acertaram: “Que o mais simples fosse visto/ Como o mais importante”. A fotografia em Augusto cavalga nesse estágio. Talvez as pessoas não aguentem mais tanta realidade, como disse Eliot, ou alguma aura haja se perdido, como anunciou Walter Benjamin, por conta do nosso valor ao culto e à espetacularização, onde estética e política se misturam. Mas, realidade, aura, estética e política quase nada significam perante a potência do Tempo e, no enquadramento de Augusto Pessoa tenho certeza não da condensação do momento, mas dessa fluência quase reencarnatória da imagem no tempo, e a confirmação pela fé na imagem, na capacidade de narrar pela imagem. Tem sido cansativo ver artistas contemporâneos com tanta obsessão por certa originalidade. Vê-los acreditar na técnica tão separada da arte. Perseguir engajamentos, identificações, alterités. E como

resultado desses eus partidos e estereotipados, só obras fragmentárias e lugares-comuns. Ai, ai, a contemporaneidade. Pessoa já venceu esse estágio. Não persegue nada, creio. Contudo, se pousa o olhar na moça da felicidade de Areia, ou nas sombras carnais em Amsterdã, ou nos lampiões de rua da Europa, arte e técnica (re)produzem justo a busca dos outros: o original; porque ser original é somente voltar às origens. O resto é palavreado da semiótica. Papo sobre Deleuze e Debois. Mas, note — porque alguns são danados para confundir —, a origem não é o passado. Para Augusto, o passado-passou: está morto. E nesse “— Pronto, passou”, quando clica, igual ao “— Pronto, passou”, do farmacêutico nos vuco -vucos do algodão no braço do menino-chorão, um segundo depois da agulha, Augusto é solidário com suas origens, no sentido preferível da palavra: sólido. Por isso, vai mais leve, joga fora a pose acadêmica, pula pra longe do formidável da etnografia e do ramerrão fotojornalístico e, de onde vejo — e de onde não vejo —, não é fácil sabermos onde sua alma vai capturar a nossa amanhã. Uma experiência estética, simples, importante, da qual não sabemos se estamos a uma distância segura da lágrima. Ou do riso. É crer pra ver.


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DAYSE EUZÉBIO Dayse Euzébio, 27 anos, é natural de João Pessoa. Formada em Comunicação Social – Jornalismo pela UFPB, foi co-editora da revista eletrônica de cultura e arte Cult PB, repórter fotográfica no jornal Correio da Paraíba e atualmente atua como gerente de fotografia da Secretaria de Comunicação de João Pessoa. Realizou a exposição individual Vernissaids em 2007, em comemoração ao dia Mundial de Combate à AIDS. Conquistou o 1° lugar no concurso Paraíba Dos  Seus Olhos, categoria Amador em 2008. Participou da exposição O Desejo É O Mote, na Mostra Puta Arte em 2009, organizada pela Agência Ensaio em comemoração ao dia internacional das prostitutas 30

e, no mesmo ano, da exposição coletiva “Coletânea Paraibana”, na Estação Cabo Branco - Ciência, Cultura e Artes. Conquistou o 3º Lugar no Prêmio AETC de Jornalismo - 2009,   fez parte da Exposição “Panorama da fotografia brasileira produzida na  Paraíba – Novíssimos”, na Galeria Archidy Picado em 2010 e integrou, como artista convidada, a II Bienal do SESC -PB de Pequenos formatos, 2010. Em 2011 participou da mostra coletiva do Setembro Fotográfico e teve seu ensaio “Por favor bata na porta” publicado na 6ª edição da revista eletrônica Foto Grafia. Em 2012 fez parte da exposição coletiva “Parahyba A Nosso Gosto” no Ateliê Multicultural Elioenai Gomes.


Terminal de Integra巽達o, Jo達o Pessoa, 2010.

Desfile de 7 de setembro, Jo達o Pessoa, 2001.


FRANCISCO FRANÇA

Moradora de rua encontrada morta em carro de mão, João Pessoa, 2012.

Francisco Rodrigues de França é natural de Patos, PB. Começou a fotografar em 1987 no foto Alarcon em Patos, registrando eventos sociais. Foi para João Pessoa em 1989, quando em maio desse mesmo ano começou a carreira de fotojornalista no Jornal Correio da Paraíba. Em 1994 trabalhou na campanha do governador Antonio Mariz. Em 1995 ingressou no Jornal O Norte, onde assumiu a editoria

de fotografia em 1997. Em 2005 foi trabalhar no Jornal da Paraíba onde permaneçe até hoje. Foi vencedor do Prêmio AETC-JP de Jornalismo (2005, 2006, 2008, 2010, 2012). No ano de 2012 foi finalista do Prêmio ESSO de Jornalismo e vencedor do Prêmio Jornalistico Vladimir Herzog de Direitos Humanos (com a foto acima). 33


GUSTAVO MAIA


G

ustavo consegue perceber situações nas quais as formas, cores e objetos se encontram em harmonia – e sabe estar lá no momento exato em que os raios de sol elevam o cenário ao sublime. O tempo, por um segundo, se detém, e o colecionador de instantes transforma uma experiência pessoal e efêmera em uma imagem-matéria, uma obra tangível, aberta ao compartilhamento com todos. E assim acontece, através da fotografia, a mágica transcendência do tempo e do espaço. Duas fotografias exemplares: O olhar sobre a intimidade de um quarto que parece estar no meio de um sonho e onde, entretanto, a matéria, em silêncio, aflora. É um instante de acordar iluminado. E uma cozinha/sala em Santa Catarina, onde encontramos vestígios do quarto de Van Gogh. A cadeira, igual, está no mesmo lugar, mas banhada de azul, assim como as paredes. A janela está no mesmo lugar, mas, aqui, aberta para o mundo exterior, permitindo um banho de luz no ambiente. As tábuas do piso e do forro nos encaminham na mesma perspectiva. No lugar da cama, fogão, e armário. O fogão é o elemento central da casa; alimenta e aquece, agregando a família. O clima das duas fotos, que pertencem à mesma casa, nos proporciona uma sensação de aconchego, acentuado pelo azul tranquilizante e pelo rosa amoroso – semelhante à intenção declarada por Van Gogh, de “sensação do perfeito repouso”, através do amarelo, no seu “Quarto em Arles”.  Clarissa Garcia Mestre em Antropologia e artista plástica


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GUSTAVO MOURA


“Perceber é a síntese do olhar; é quando memória e imaginação se unem para recriar a geografia em paisagem, a sombra em vulto, o árido em fértil, o branco e preto em cores. Gustavo Moura fantasia a paisagem do sertão, registrando o que está nas entrelinhas, nas bordas, nas sombras, no não dito; indo além do que vê. A sua paisagem considera a ação do homem que transforma o que o rodeia, incluindo a si mesmo.” Rosely Nakagawa

Nascido na capital paraibana, em março de 1960, Gustavo Moura fotografa desde o início dos anos 80, transitando entre o documental e o autoral. Em sua trajetória ganhou evidêcia a atenção ao universo ambiental e cultural do Nordeste brasileiro. Daí surgiram várias publicações, como o livro Imaginário (Editora Tempo d’Imagem, 2000) e o 1o Caderno da fotografia brasileira (sobre a Guerra de Canudos), publicado pelo Instituto Moreira Salles. Seu envolvimento com esse universo temá-

tico foi ampliado quando da realização do projeto “Do Reino Encantado”, resultando em exposição e livro nos quais aborda o universo da vida e obra do escritor Ariano Suassuna. Participou do projeto “O Brasil passa pelo Sesc” (2011) e publicou o ensaio “Sertão Gonzagueano” no livro “O Rei e o Baião”, em comemoração ao centenário de Luiz Gonzaga. Gustavo Moura tem fotografias na Coleção Pirelli/ MASP, Museu da Imagem e do Som - SP, Instituto Moreira Salles e Coleção FNAC/Brasil.


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HUDSON AZEVEDO


Avenida Guedes Pereira, anos 60, séc. XX.

Nascido em Guarabira, em 1923, Hudson Azevedo chegou a João Pessoa em 1937, e logo começou a trabalhar com fotografia com os dois grandes mestres na Paraíba: Gilberto Stuckert e José Lyra. Colaborou por dez anos com os Stuckert, até que aceitou o convite do Foto Lyra. Contratado para serviços que iam da limpeza do estúdio à entrega de fotografias, logo ficou fascinado pela “magia” que envolve a atividade fotográfica. Seu aprendizado aconteceu espontaneamente, por interesse próprio, porque os patrões não precisavam de mais um fotógrafo ou laboratorista. Da experiência com Lyra, após quatro anos, abriu seu próprio atelier na rua Guedes Pereira, onde permaneceu por 32 anos. Em 1948 foi convidado para exercer a função de fotógrafo oficial do Governo do Estado. Hudson deixa o Foto Lyra para dividir seu tempo entre o Palácio e o seu pequeno ateliê fotográfico. Tinha verdadeira paixão por paisagens, o

que o fez ser considerado o maior retratista do litoral paraibano e um dos mais importantes documentaristas da paiagem urbana, na década de 1950, tendo massificado a sua produção por meio de coleções de postais. Com imagens das praias paraibanas, organizou, em 1953, sua primeira exposição individual (Prefeitura Municipal de João Pessoa). Com essas obras, representou a Paraíba na I Exposição do Nordeste Brasileiro (Teatro Municipal, Rio de Janeiro, 1953). Durante os anos 80 coordenou o laboratório de fotografia da UFPB. Em 1993, participou, ao lado de Marcos Veloso e Gustavo Moura, da mostra Cidades invisíveis (Centro Cultural São Francisco). Atualmente, o detentor dos direitos do pequeno acervo que restou de sua vasta produção, é o fotógrafo paraibano Gustavo Moura, que, em 2011, publicou parte desse material no livro Cidade em Movimento.


Praia de Tambaú, anos 60, séc. XX.

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JOÃO LOBO Nascido no interior da Paraíba, mais especificamente em Brejo do Cruz, a vida de João Lobo mudou quando começou a se interessar por imagens aos 20 e poucos anos, na década de 80. Inquieto e curioso, o trabalho no fotojornalismo – a primeira de suas escolhas na área fotográfica – não o satisfez. Sua vontade era ir além do fato, da imagem-notícia, da narrativa de um evento. Sua agitação pedia mais: o que ele queria era experimentar, ir além do registro e mostrar que a fotografia era, sim, capaz de produzir arte. 46

Essas experiências o levaram para a Universidade, onde aprofundou conhecimentos teóricos e, também, a lecionar, para que seu trabalho não fosse tão solitário como se apresentava: “A Universidade foi conseqüência do meu aprendizado. O meu estudo de fotografia sempre foi solitário”. Assim como a de um cientista, sua aprendizagem foi a experiência, pura tentativa e erro. Experiência essa que o levou a sair do Brasil e a levar seus trabalho para diversos países, como Portugal, Argentina, Espanha, França, Holanda e Chile.


As imagens de João Lobo buscam desconstruir o real e servem como suporte e estímulo ao trabalho sempre inovador que o caracteriza. É um experimentalista no sentido mais amplo. Trabalha com a luz, com diferentes filmes, quebrando regras de exposição e processamento, obtendo resultados que quase sempre nos surpreendem e acabam produzindo imagens que nos causam um descondicionamento do olhar. Nada é visto da forma que realmente é. Isso só é possível de ser feito com sucesso, porque sua base tradicional e acadêmica na fotografia é bastante consistente. Nada, nele, é por acaso. Os riscos são calculados e ele conhece muito de regras e padrões a ponto de quebrá-los e, novamente, como qualquer cientista, ser capaz de reproduzir a experiência, obtendo os mesmos resultados. Estes quase 30 anos em que vem transitando entre a prática e a teoria, permitiram-lhe desenvolver um olhar crítico e um conhecimento da produção contemporânea, especialmente quando o assunto é arte, uma área em que muitos ainda patinam e se eximem de comentar. O sangue paraibano de João

Lobo não lhe permite a isenção. Ele é categórico ao afirmar: “a fotografia está no ápice de seu reconhecimento como arte. A gama de possibilidades que o digital proporcionou, induziu o fotógrafo a mostrar suas produções mais abertamente e em maior escala”. Nisso ele também tem razão. E, como bom crítico, não fica apenas num discurso saudosista ou criticando novas tecnologias. Ele consegue compreender a transformação de visualidade que o digital trouxe não só para a fotografia, mas para a arte de uma maneira geral: “Outro aspecto salutar é a maior interatividade entre fotografia e artes visuais. De um modo geral, isso facilita o aprendizado e define uma melhor contextualização no ambiente artístico.”. Simonetta Persichetti, do livro “João Lobo” Coleção SENAC de Fotografia

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Nasceu em Piracuruca, Piauí, em 3 de setembro de 1942. Adolescente, mudou-se com a família para Campina Grande, Paraíba, onde cursou, durante três anos, a Faculdade de Direito. Em 1969 teve sua matrícula cancelada, depois de ter seus direitos políticos e civis cassados pela ditadura militar. Em 1968 recebeu uma das mais importantes premiações da fotografia mundial, a medalha de prata no XX Salão Internacional de Arte Fotográfica de Bordeux. No início dos anos 70 já atuava profissionalmente como jornalista. Em 1975 fundou a Cinética Filmes, única empresa de cinema genuinamente paraibana, na qual realizou centenas de produções, entre filmes, reportagens e documentários. Machado Bitencourt percorreu os mais diversos recantos do Brasil, atravessou as fronteiras sul-americanas e registrou especialmente as paisagens naturais e humanas do nordeste brasileiro. Seu acervo (com cerca de 180 mil imagens em diversos suportes e formatos) compreende uma vasta diversidade temática, que transita pela cultura popular, monumentos ambientais e arqueológicos, cidades, personalidades e etc.

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MACHADO BITENCOURT 49


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MARCUS ANTONIUS

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Nascido em João Pessoa, iniciou sua carreira em 1981 como fotógrafo de eventos sociais em Presidente Prudente (São Paulo). Na Paraíba, começou atuando na Sucursal do jornal A União, em Patos, PB, e depois nos jornais Correio da Paraíba (João Pessoa, 1989) e O Norte (João Pessoa). Trabalhou em empresas de publicidade e jornais (Start Promoções, Denver Marketing Político, jornal Correio da Paraíba, João Pessoa). Premiado em vários concursos, como o Prêmio Ayrton Senna de Fotojornalismo (2001), Paraíba dos seus olhos/TV Cabo Branco (2008-2009) e Prêmio AETC de Jornalismo (João Pessoa, 2007). Participou de exposições de fotografia e do concurso internacional Word Press Photo. Publicou fotos no portal da National Geographic Brasil, jornais Folha de São Paulo, O Globo, e nas revistas Air Press, Nova Escola e IstoÉ. 53


foi dito que certas fotos falam por mil palavras. A do ex-senador Jarbas Barbalho de pulsos algemados a caminho da prisão deve valer por toda uma literatura de ciência e de sociologia política juntas num momento dado de decadência. A imagem de maior significação histórica do fim do século XIX e começo do XX, dizendo mais que uma fotografia, não espocou da máquina fotográfica, mas do pincel de Aurélio de Figueiredo, reproduzida em todos os compêndios de História do Brasil tendo como legenda “O Baile da Ilha Fiscal”. Essa só não comoveu mais que a imagem lívida de Getúlio vencido, afinal, pelo suicídio. É evidente que, para isso, o grande peso é o fato, o feito extraordinário como a chegada do homem à lua ou uma ação estúpida como a explosão do Rio-Center. O fotógrafo, nesses casos, não precisou de tanta acuidade, precisou de presença, coragem e ângulo. Já uma foto como esta de Marcus Antonius (foto ao lado, Jornal O Norte, 2001, Prêmio Ayrton Senna de Fotojornalismo)

revela-nos a cena da mais atroz guerra na mais indesejada paz. Aí sim, precisa-se de sensibilidade artística, sensibilidade social e capacidade de instigar milhões de palavras com um único clic. Reuna-se a ONU inteira, com todos os seus departamentos ligados à sorte da família humana, e o que ela dirá ou protestará que não esteja implícito e explícito nessa foto?! O mais grave, o que chega a meter medo nas pessoas civilizadas é o olhar de susto que nos atira a inocente que se ampara atrás dos andrajos da mãe. Meter medo não na espinha dos gestores convencionais da vida e do mundo, mas em pessoas como Sartre, Exupery, Helder Câmara, para quem não há mundo feliz enquanto existir uma só criança faminta. Pessoas que pensam na outra. Uma foto dessa se guarda até que se cessem os seus motivos. Gonzaga Rodrigues Escritor e Jornalista


NUMO RAMA A trajetória de Numo Rama denota um teor humanista dos mais consistentes e poéticos no cenário fotográfico contemporâneo nordestino. A motivação ideológica norteia o uso dessa arte, que para ele é mais “um meio que dispõe para está na vida”. Numo Rama utiliza a linguagem da fotografia com o intuito de reavaliar uma verdade que acredita ser vulnerável, mutável e reinterpretável. Essa motivação foi se construindo na sua vivência com as variadas paisagens humanas dos diversos lugares onde morou, desde a adolescência, quando saiu de Araruna-PB, sua cidade natal, para viver na Amazônia e, posteriormente, em países como Portugal, Suécia, Emirados Árabes, Indonésia e Timor Leste. Como retirante nordestino, seguiu por necessidade de uma vida melhor; não no sentido puramente econômico, mas também de compreensão da própria vida, seguida de muita curiosidade e busca do conhecimento. O encontro com a fotografia se deu de forma autodidata em 1994, quando morou em Portugal, onde comprou sua primeira câmera e viveu como fotógrafo de rua. Dois anos depois, um ensaio sobre o Timor Leste, ganharia exposição no museu Etnográfico de Estocolmo, na Suécia, com direito a ilustre visita de José Ramos Horta e do bispo Carlos Felipe Ximenes Belo, ganhadores do prêmio Nobel da Paz. Definitivamente, foi no retorno ao Brasil, em 1999, que Numo Rama redescobriu a fotografia enquanto linguagem capaz de registrar a força característica de sua terra, destacadamente, o nordeste brasileiro. E aí ocorre também o reencontro com um povo que, apesar das intempéries sociais e ambientais, detém a nobreza atestada por Euclides da Cunha, para quem o sertanejo é, sobretudo, um forte.

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As incursões em sua própria terra lhe valeram inúmeras exposições pelo Brasil e exterior (República Checa, Dinamarca, Paris, Bélgica, Madrid, entre outros), incluindo o prêmio Porto Seguro de Fotografia 2004 pela série Humanos, um longo projeto voltado para a reflexão do próprio ser sobre seu papel no contexto eco-social, tendo como tema o nordeste brasileiro. “É preciso reavaliar o que é está humano”, filosofa Numo, ao defender uma abordagem universal dos seres que habitam essa região: “É preciso fotografar o nordeste com sua força própria. O nordeste idílico para mim não é interessante. A abordagem HUMANOS sobre o nordeste o lança numa perspectiva mais ampla. Sai da sua condição de alma derrotada, brasileiro de terceira, e se lança numa escala mais interessante, de um ser mais planetário”. Na concepção de Numo Rama, paradoxalmente, a imagem, a fotografia em si, não é o essencial. A arte fotográfica lhe atrai especialmente pela versatilidade que ela detém como instrumento de comunicação. Gosta dela como meio e não como fim. Acredita que é preciso ir além da própria fotografia para que ela tenha um sentido: “Só imagem não basta. É necessário pensar, ir um pouco mais adiante, e só depois fotografar”. Com um espírito libertário de reflexão sobre a arte, em meio às paisagens do parque Pedra da Boca, na zona rural de Araruna-PB, onde mora, atualmente Numo orienta o movimento Alumiar, que tem o intuito de discutir fotografia de forma mais livre. A despeito do desprendimento que confessa em relação à própria fotografia, Numo faz uso dela com toda força de viver. Para ele, a forma como o autor se posiciona perante o tema e como ele expõe esse conteúdo ao público são os elementos mais nobres de um artista. “Os demais elementos podem está inerentes ou não, podem ser provocados, mas a conduta tem que está acima da própria obra”, conclui. Elinaldo Rodrigues Jornalista e Documentarista


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REGINALDO MARINHO

De natureza inquieta e talentos diversificados, Reginaldo Marinho ingressou na Escola de Engenharia da UFPB em 1967, e no mesmo ano foi convidado para atuar como assistente do então professor Argemiro Brito, notável engenheiro calculista, na disciplina de Geometria Descritiva do Colégio Universitário da mesma UFPB. No ano seguinte, em 1968, assumiu, por notório saber, a titularidade da disciplina.   Desistiu da Escola de Engenharia e foi para Brasília, em 1969, estudar Arquitetura na Universidade de Brasília (UnB). Em 1972, com outros colegas egressos da UnB, fundou a primeira produtora de publicidade de Brasília. Em 1974, ingressou no Jornalismo e foi editor de fotografia do Jornal de Brasília. Em 1977, trabalhou na imprensa espanhola como repórter fotográfico da revista Interviú. 58

  Voltou ao Brasil e trabalhou no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, atual Fundação Joaquim Nabuco. Em 1980, retornou a Brasília e trabalhou na revista OCB da Organização das Cooperativas Brasileiras. Foi selecionado para participar da exposição inaugural da Galeria de Fotografia da Funarte, já extinta. O olhar jornalístico, associado à linguagem matemática da geometria, se destaca nas fotografias de Reginaldo Marinho como imagens limpas, precisas e de comunicação objetiva. Atualmente, escreve para o portal Wscom e é diretor de Imprensa e Cultura do Sindicato dos Jornalistas da Paraíba. No campo da engenharia, sendo um pesquisador vocacionado e permanente, é um inventor laureado. Ele criou o sistema construtivo Construcell, com o qual foi premiado com medalhas de ouro em


Gilberto Freyre, Acervo Fundação Joaquim Nabuco.

salões europeus de tecnologia, em Genebra e Londres e foi selecionado em primeiro lugar no edital Prime da Finep/MCT para apoiar empresas nascentes de base tecnológica. Construcell introduz dois novos paradigmas à engenharia: será a primeira estrutura do mundo em resina plástica e será a primeira construção inteiramente transparente, quando os módulos também o forem. Publicou dois álbuns fotográficos. Espanha: Via Democrática, sobre a redemocratização espanhola e Verde Que Te Quero Ver, sobre a Cidade de João Pessoa. Além da exposição coletiva da Funarte, fez a exposição individual “Arte e Vida Nordestina”,

na Galeria A da Fundação Cultural do Distrito Federal; “Espanha: Via Democrática”, no Instituto de Arquitetos do Brasil/São Paulo, e no Salão Negro do Congresso Nacional, por ocasião da visita oficial do primeiro-ministro espanhol Felipe Gonzalez; “Mosaicus” no Hotel Tambaú e “Verde Que Te Quero Ver”, no Centro Cultural Zarinha e no Instituto de Arquitetos do Brasil/Paraíba. Fez uma homenagem a Aloísio Magalhães com a exposição “Telecartemas – Tributo a Aloísio Magalhães”, na Câmara dos Deputados.

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Um dos mais importantes fotojornalistas de hard news em atividade no Brasil, Severino Silva tem uma das trajetórias mais bem sucedidas no fotojornalismo carioca dos últimos vinte anos. Nascido em Pipirituba, no brejo paraibano, o fotógrafo de 53 anos tem nas questões sociais, na ética e no respeito ao próximo, a matéria prima de sua documentação no trabalho jornalístico. Com passagens pelos jornais O Fluminense, A Notícia, O Povo, O Globo e, atualmente, no O Dia, Severino Silva é reconhecido no Brasil e na Europa como um dos mais importantes profissionais no registro de conflitos armados urbanos.

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SEVERINO SILVA 61


Severino

Silva, nosso bravo Severo, é um fotógrafo admirável, que consegue transitar entre o conflito e o afeto de uma maneira fantástica. Sua fotografia é sua vida. Trata-se de um artista operário, um crítico popular, que mesmo desprovido da formação acadêmica tradicional, nos ensina extraordinárias lições de vida todos os dias, extraídas das ruas, dos becos, das favelas e da dor daqueles que sofrem diante de seus olhos, durante os muitos conflitos urbanos que documenta. Severino consegue ser, ao mesmo tempo, um artista engajado e um elo de bem querer entre as pessoas fotografadas e aqueles que vêem suas imagens. Por entre luzes e sombras, dores e ternuras, atitudes covardes e gestos de coragem, ele vem conseguindo desenvolver uma densa narrativa fotográfica sobre os injustiçados do nosso tempo e sobre a violência asfixiante que recai sobre todos nós. Suas fotos revelam a beleza do Pão de Açúcar e a ameaça da polícia carioca que, sozinha, mata mais do que toda a polícia norte-americana junta; mostram a criança que brinca numa reali-

dade que não tem mocinho, correndo entre os policiais, com a esperança dividida de quem observa o conflito ao lado do cão companheiro de brinquedo. Imagens que mostram as ações de repressão, com o braço armado do Estado emergido entre fumaças e fogos. O olhar do fotógrafo Severino Silva não alimenta uma história única. Podemos observar o soldado que protege, meio sem jeito, uma criança; lado a lado com aquele que mata mecanicamente, emoldurado entre a pintura da paz e o vôo da pomba. Severo veio da Paraíba e, portanto, conhece o interior e os espaços mais pobres do Brasil. Talvez por isso, ele entre com a maior humildade na casa das pessoas que fotografa, cumprimentando, pedindo licença e escutando histórias. Essa postura traz para sua fotografia um profundo respeito pelo fotografado, enaltecido por uma alma bonita e por um olhar iluminado e afetuoso. João Roberto Ripper Fotógrafo


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Cineasta e fotógrafo. Graduação em Design Gráfico (ESDI, Rio de Janeiro), onde foi aluno de Aloísio Magalhães, Zuenir Ventura, Renina Katz, Décio Pignatari. Trabalhou como Programador Visual, quando começou sua atividade de fotógrafo (still), conquistando prêmios como o da revista Realidade (1972) e está inserido na Photographers Encyclopaedia International (Suíça, 1983). Herdeiro do Cinema Novo, começou no cinema ajudando o irmão – o também cineasta Vladimir Carvalho – como fotógrafo. E logo foi assumindo outros projetos de fotografia em cinema até se tornar, ele próprio, também diretor de cinema. Sua apurada fotografia cinematográfica tem a marca inconfundível do cinema brasileiro da segunda metade do século 20. Exposições: III Bienal Internacional de Desenho Industrial (1972); VI Salão de Verão (MAM Rio, 1974); I Trienal de Fotografia (MAM São Paulo, 1980); Bienal de Fotografia de Curitiba (1996). Individual no Centro Cultural Banco do Brasil com a exposição Intervalos de filmagem (1997). Foi assistente dos diretores de Fotografia: José Medeiros, Dib Lufti e Fernando Duarte e logo passou a cate-

goria de diretor. Estudou Cinematografia Eletrônica (TV Globo). Em 1982 começou a atuar em TV, realizando o documentário Krajcberg – O poeta dos vestígios; a série América, o Blues [João Moreira Salles], e a novela Pantanal [Washington Novaes]. Realizou os especiais Caetano Veloso, 50 Anos [Walter Salles Jr.], e Chatô – O Rei do Brasil [Walter Lima Jr.]. No cinema realizou mais de 50 filmes entre curta, média e longa metragens, além de comerciais para TV. Fez a Direção de Fotografia dos filmes: O amor está no ar (Festival de Gramado, 1997); Pequeno dicionário amoroso [Sandra Werneck] (1997); Central do Brasil (Urso de Ouro, Festival de Berlim, 1998); Villa Lobos – uma vida de paixão [Zelito Vianna] (1998); Lavoura arcaica [Luiz Fernando Carvalho] (2000); Migrantes [documentário, de Isabel Jaguaribe]; Janela da alma [documentário, de João Jardim e Walter Carvalho] (2000); Amores possíveis [Sandra Werneck] (2000). Como fotógrafo de cinema, conquistou dezenas de prêmios em festivais de cinema nacionais e internacionais.


WALTER CARVALHO 65


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urante as filmagens do documantário Incelência para um Trem de Ferro (1971), de Vladimir Carvalho, na madrugada de uma vila da Usina Santa Helena, na Várzea do Rio Paraíba (PB), presenciei a cena — iluminada por apenas um bico de luz, amparada por uma tapera de duas águas — do abate de um boi. Essa imagem brutal ficou guardada na memória e registrada num único filme de 36 poses, na minha câmera 35mm. Assisti transido o encarregado da matança, um homem de chapeu de massa, de gestos secos e certeiros moldados à sua função, atingir a nuca do animal magro num golpe só, de toureiro, com um chucho afiado, capaz de cortar até o silêncio que se esparge na noite. Após o golpe, o boi desmorona no chão, mas estrebucha e tenta resistir, a respiração ofegante e os olhos arregalados, antes da fixidez derradeira, como se fora

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um espectador de sua própria morte. Aos poucos, perdendo as forças, tenta inutilmente se levantar. O homem se prepara para o próximo ataque e agora, com a destreza do gesto definitivo, sangra a jugular do animal — que aí já não reage. O sangue é aparado por uma velha bacia de ágata descascada. Como um cirurgião experiente, o homem inicia a retirada do couro, desnudando a pele do boi, deixando sua carne e seu tecido muscular à mostra e ainda trêmulo pelos espasmos dos nervos vivos e das veias mortas. Depois, o esquartejamento. A faca afiada corta e recorta o boi em pedaços e em poucos minutos seu corpo é


apenas fragmentos, que serão expostos e vendidos nos açougues e feiras da região. Vi e, sem me conter, fotografei até a última cena que me marcou fundamente — e depois de todo esse tempo continuo procurando fotografar, nos mais remotos recantos do país, esse confronto, essa peleja da vida e morte em que já sabemos quem será o vencedor daquele duelo secular. Muda o décor, porém as ferramentas e os objetos de cena permanecem: o machado de ferro para romper os ossos e as facas amoladas em limatão para manter o fio impecável da lâmina que recorta o corpo do animal sem machucar os retalhos da carne. Por fim sua cabeça decepada junta-se aos miúdos do

próprio corpo, jogados em um canto, mas os olhos continuam arregalados, observando as partes separadas de sua matéria e sentem o ar impregnado do cheiro do seu sangue. O que recolhi aqui nesta exposição é apenas uma parte do documentário fotográfico que pretendo continuar buscando em outras matanças, em outros cenários, sob o Sol inclemente, embaixo de uma árvore ou no interior de uma construção rudimentar, na beira da estrada, num matadouro público ou no próprio curral onde vivem mansamente os bichos que serão condenados ao sacrifício. Walter Carvalho

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WÊNIO PINHEIRO Wênio Pinheiro Araújo, 29 anos, é natural de Campina Grande, PB. É artista visual e cursa licenciatura em Artes Visuais pela UFPB. Em 2008 foi selecionado no X Salão de Novos Artista Paraibanos (Sesc/PB) e finalista no concurso Leica-Fotografe. Em 2009 publicou o livro Nação Jaguaribe (Editora LocalFoto), ensaio fotográfico sobre a arquitetura e o cotidiano do bairro de Jaguaribe, em João Pessoa, Paraíba, pelo Fundo Municipal de Cultura (FMC). Participou da Mostra 68

Coletiva dos Artistas Paraibanos na Estação Cabo Branco (2009). Em 2010 fez sua primeira exposição individual de fotografias, Nós por um de Nós, no Hall da Reitoria (UFPB), durante a I Semana de Ciência Tecnologia e Arte. As fotografias apresentadas aqui fazem parte do ensaio Vestiginoso, que aborda a questão da presença humana nos espaços de modo simbólico, a partír de seus vestígios.


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Dádivas do Olhar Há instantes em que a vida que pulsa ao nosso redor inspira a certeza de que as maravilhas da existência se expressam nas mais simplórias atitudes e fenômenos da natureza. Quando crianças, vislumbramos no quintal, por entre orvalhos e estrelas, ou no máximo, entre as ondinas do rio, um universo que nem mesmo os modernos aparatos eletrônicos conseguem alcançar. Vivenciamos de fato a experiência da vida. Nesse tempo, a imaginação, muito mais do que qualquer outro mecanismo, nos torna soberanos de um território sem fronteiras. E não são delírios oníricos, já que nos mantemos senhores dos destinos; coisa que o sonho não permite, a imaginação sim. Falo da imaginação criadora, aquela que conduz o movimento do artista, seja na humildade lúdica de um brincante ou na genialidade matemática de um maestro.

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Numa sociedade escrava da rotina, do dinheiro, da ilusão do mundo, dos sonhos de consumo, no quintal, parece só existirem muros; e nas correntezas do rio, as sobras dessa rotina selvagem. E no meio de tudo, nós, sonâmbulos. Nem digo das mazelas que a mídia sensacionalista celebra, com toda sua selvageria e ignorância. Basta sair à rua. Onde havia um jardim, há um estacionamento; onde havia um rio, há um lixão ou uma favela; e o cinema e o circo perderam lugar para uma cracolândia ou um shopping center. Talvez seja prudente contemplar os instantes de nossa história, a partir da ótica dos artistas. Num tempo de descrédito até com a reverência às grandezas da alma, a arte ainda é um veículo dos mais oportunos para guiar nosso olhar além dessa selvageria cotidiana, sem o risco da indiferença.


Se há uma atitude que nos salve, ou que contribua para isso, talvez seja o retorno às nossas origens, onde a criatividade flui guiada pelo poder da imaginação e da vontade criadora. Esse é o segredo dos grandes artistas, mesmo diante da degradação que se encontra o mundo; mesmo diante de tantos que preferem a perdição. Da mesma forma que a criança contempla o universo a partir do jardim, propomos contemplar a nossa gênese fotográfica, considerando o recorte sugerido nesse trabalho. Os fotógrafos documentaristas que esta obra celebra não são panfletários ou engajados, no sentido dos que exercem uma atividade artística em defesa de uma causa específica. Mas, acima de tudo, eles cumprem sua missão com a responsabilidade que a profissão requer, e assim talvez contribuam para o alcance de uma utopia: a construção de um mundo melhor. Fazem-no simplesmente ao exercerem sua arte com grandeza de espírito, com a humanidade que todo verdadeiro artista deveria ter. O segredo de seus acertos reside no equilíbrio entre mente e coração, entre a técnica e a poética, razão e intuição; e até na transcendência das dimensões sensoriais do saber. Do que se vê, além do reflexo de um objeto invertido; além das miragens de um mundo guiado tão somente pelos cinco sentidos - e às vezes menos que isso -, nesse território de relações mercadológicas ultramodernas, ainda tão arcaicas. A essência do ato fotográfico é como o despertar do sono perpétuo que a vida impõe. É magia. Ou deveria ser. As oportunidades são dádivas. Há instantes cujo alcance depende da objetividade para decidir, mas também da sensibilidade para perceber, experimentar, vivenciar os caminhos, sentir o valor das alternativas. Afinal, cada momento carrega em si inumeráveis contradições. Trevas são necessárias

para que percebamos a luz. Decisões nos livram da morte, ou nos privam da sorte. Lágrimas sinceras são menos trágicas que o riso falso. É a fotografia, com seus contrastes de luz e sombra. E o senhor de tudo parece ser o tempo. Parece. Como um passo a nos livrar da tragédia. Como o instante em que a bala atinge o corpo; o drama que Robert Capa foi capaz de perpetuar, ao registrar o exato momento em que o soldado é atingido nas trincheiras da guerra. É necessário quebrar paradigmas, verdades ditas absolutas, inclusive sobre essa entidade que parece fora de controle: o tempo. Pensemos no valor do instante guiado por atos cuja duração pouco importa. Mesmo equipado com a tecnologia dos novos tempos, o que determina as ações do grande fotógrafo é a intuição. A sabedoria que o coloca no lugar certo, na hora certa; inspira a apertar o ‘gatilho’ no instante preciso. Claro, há outros conceitos não dispensáveis; comportamentos fotográficos forjados no acelerado processo midiático dos tempos modernos, também são relevantes para a composição de nossa imagem, para a expressão documental de nossa existência. Mas, quando tudo parece dominado pelas engrenagens do relógio, o mais valioso certamente são as sensações verdadeiramente humanas. Aliás, é imprescindível o senso de humanismo para captar o brilho do olhar, o gesto inusitado, um fragmento de sorriso, a poesia das coisas, a alma dos seres. Então, é preciso reconhecer a grandeza desses garimpeiros da luz, que além da missão de retratar as transformações do mundo, produzem lições que transcendem as horas. Seja mostrando corpos dilacerados, para denunciar a imbecilidade da violência, ou compondo poesias visuais, com a esperança que resta, em meio às mazelas nossas de cada dia. Elinaldo Rodrigues Jornalista e Documentarista 71


Olívio Pinto, década de 30, séc. XX.


Fiando o Tempo com a Luz

No longínquo ano de 1842, três anos depois do anúncio da invenção da fotografia em Paris, o daguerreotipista J. Evans anunciava no Diário de Pernambuco, para os interessados numa “cópia fiel de si mesmo”, que o procurassem o quanto antes pois já estava de partida. Com certeza Evans já partiria em busca de uma nova clientela. Talvez tivesse se dirigido à Província da Parahyba do Norte, cuja capital Parahyba não passava de um aglomerado de ruas malajambradas, tortuosas e iluminadas por nada mais que 50 lampiões e que por isso, no dizer de Walfredo Rodriguez, “os paraibanos do Segundo Império, jamais teriam os benefícios da luz do gás incandescente, estando fadados, até 1884, a viverem sob os bruxulentos e amarelados raios das candeias de azeite.” Nesse cenário, nada alvissareiro, poucos fotógrafos se aventuraram a viajar de um centro economicamente efervescente, a exemplo da vizinha capital pernambucana da segunda metade do século XIX, para retratar em poses estereotipadas a pequena elite local com seus daguerreótipos – assim eram chamadas, de uma só vez, a câmera fotográfica e as chapas fotográficas por elas produzidas. O nome foi uma homenagem ao inventor do aparato, o francês Louis Jacques Mandé Daguèrre. Embora o daguerreótipo fosse a técnica fotográfica a mais popular, outras técnicas existiam: um anúncio de 1856, no jornal A época (talvez o primeiro em um periódico paraibano), o fotógrafo oferece o cristalótipo (ou ambrótipo) para imortalizar sua cliente-

la. O mesmo fotógrafo – que se identifica como FV, que acreditamos ser João Ferreira Vilela estabelecido em Recife desde 1855 –, dois meses depois, diz que trabalha com o daguerreótipo por ser um sistema mais aperfeiçoado e definido. Pelos anúncios publicados nos anos de 1857 e 1858 (jornal A Imprensa), de 1861 e 1863 (Jornal da Parahyba), e de 1865 (jornal O Tempo), constatamos a presença do daguerreotipista Rocha Athayde, que incluiu por diversas vezes a capital da Província da Parahyba do Norte no seu roteiro de itinerante. No ano de 1865, a visita de Alfred Metzger amplia a oferta de serviços fotográficos na cidade. Onze anos depois, no ano de 1876, já atuava na rua da Viração, nº 17, o fotógrafo João Firpo com sua “Photographia Italiana”. Até 1885, João Firpo continuou atuando na Província da Parahyba do Norte, certamente por ter encontrado uma demanda de seus serviços que não se resumiam apenas ao retrato. Firpo se dedicou a fotografar as “vistas urbanas” e as obras da estrada de ferro Conde d’Eu. Um italiano, dois alemães e uma mulher fotógrafa foram os últimos itinerantes no final do século XIX. Um dentista italiano com “alma de artista visionário”, aporta na Parayba do Norte no ano de 1889. Nos seus baús, Nicola Maria Parente não trazia apenas fórceps e boticões para suas atividades de dentista protético: oferecia também serviços mais artísticos do que a confecção e colocação de dentaduras. Na rua da Areia, 73, a cidade ficou conhecendo suas habilidades de retratista com a sua “Photographia Vesuvio”. Foi Parente também que mostrou pela primeira vez à Paraíba a grande maravilha do final do século, o cinematógrafo, impressionando a gente daqui com a projeção de imagens em movimento em 1897, um ano e meio depois da célebre exibição dos irmãos Lumière em Paris. O ano de 1889 traz à Para-

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Bruno Bourgard, década de 80, séc. XIX.

hyba do Norte, além de Nicola Parente, dois fotógrafos alemães. Um deles, Bruno Bourgard, iria se estabelecer definitivamente no estado e deixar o carimbo de sua “Photographia Allemã” nos retratos de muitos paraibanos. Rosa Augusta, uma das raras mulheres fotógrafas da América Latina no século XIX, cuja nacionalidade desconhecemos, teria chegado à capital em 1895 e aberto sua “Photographia Minerva” à rua da Areia, nº 72. A presença de uma mulher exercendo uma atividade tipicamente masculina deve ter surpreendido os paraibanos. Não sabemos quanto tempo mais Rosa Augusta se demorou na Parahyba, como foi recebida e se percorreu outras cidades da província antes de partir definitivamente. A Paraíba só

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voltaria a ver uma mulher no ofício da fotografia em 1932, quando Tereza de Jesus Medeiros é presenteada com uma câmera-caixão e a cidade de Santa Luzia ganha uma retratista. A intensa itinerância que caracterizou a atividade fotográfica no século XIX na Parahyba do Norte, praticamente desaparece no início do novo século. Como Bourgard, Eduard Ludolf Stuckert casa-se com uma paraibana e se radica na cidade da Parahyba. O velho Stuckert, como depois ficou sendo chamado Eduard Stuckert, talvez para diferenciar dos seus três filhos fotógrafos (Gilberto, Manfredo e Roberto), foi o responsável pela formação de toda uma geração de fotógrafos no estado. Os fotógrafos que aprenderam o ofício na Paraíba (Pedro Tavares, Walfredo Rodríguez e Frederico Falcão), iniciaram suas atividades com a fotografia desde as primeiras décadas do século XX e tinham estreitas ligações com a arte pictórica. Frederico Falcão foi mais festejado pela imprensa por sua exímia habilidade com os pincéis do que como fotógrafo. Nas décadas seguintes, outros pintores, como Olívio Pinto e J. Serrano Lyra, vão associar seus nomes à fotografia. Uma grande parte da memória visual da Paraíba chegou aos dias atuais graças ao empenho e dedicação de Walfredo Rodríguez, o mais polivalente dos nossos fotógrafos. Pintor, fotógrafo, cineasta, cronista e historiador, contribuiu de forma singular para a memória iconográfica da cidade. Outros profissionais vão se formando no estado nas décadas de 20, 30 e 40, na maioria das vezes pelas mãos daqueles já solidamente estabelecidos ou vindos de outros estados como aconteceu com Ariel Farias e J. Serrano Lyra. Os fotos dos Stuckert, de Ariel Farias e J. Serrano


Lyra foram os maiores responsáveis pela formação de novos profissionais da fotografia que, amiúde, se iniciavam no métier como simples ajudantes de serviços gerais, passavam a auxiliar de laboratório e finalmente fotógrafos. O fotoclubismo: a fotografia como meio de expressão artística A fotografia na Paraíba, na década de 50, foi marcada por dois fenômenos: o movimento fotoclubista e o surgimento dos primeiros repórteres fotográficos como entendemos hoje. O fotoclubismo paraibano surge da mobilização de um grupo de fotógrafos, na sua maioria amadores, que via na fotografia um veículo de expressão artística. O primeiro e único fotoclube de que se tem notícia no estado foi fundado oficialmente no dia 30 de maio de 1953. O Foto Clube da Paraíba, assim batizado, funcionou, durante mais de dez anos de sua existência, à rua Visconde de Pelotas, 149, no centro da cidade, prédio que hoje abriga a Associação Paraibana de Imprensa. Uma vertente da fotografia abraçada pelos fotógrafos da década de 50, com o fotoclubismo, tem eco nos anos 60 com uma fotografia de aspiração autoral evidenciando a realidade social como sua maior referência. Machado Bittencourt (1942-1999), jornalista, fotógrafo e cineasta piauiense radicado na Paraíba, dá início a uma longa trajetória profissional de documentação da realidade nordestina em cujas fotografias identificamos um cunho autoral. A fotografia, neste contexto, busca sua afirmação no universo das artes plásticas, distanciando-se do mero registro e emergindo como um meio de expressão artística. A fotografia da América Latina é pura realidade, com forte engajamento cultural e social, constatou um dia a

historiadora alemã Erika Billeter. Com Bittencourt, a partir do final da década de 60, a fotografia paraibana vai se impregnar de crítica e denúncia social. Assuntos específicos são tratados dentro do amplo leque que a “fotografia social” abrange: a pobreza no âmbito do rural e do urbano, o Sertão, as condições de trabalho, as festas, o lazer, os cultos, a religiosidade etc. Os fotógrafos vão se influenciar por esse sentimento de brasilidade, de descoberta do país e de sua realidade plena de desigualdades. Um sentimento que os anos de repressão só fizeram fomentar e que explode com a volta ao regime de direito a partir de 1979. Na década de 70, dois nomes, Antonio Augusto Fontes e Walter Carvalho, vão colocar a fotografia paraibana no cenário nacional ao encetar suas carreiras noutras plagas sem, no entanto, se desvincular afetivo e profissionalmente da terra natal. Eles vão beber em outras fontes, mas a Paraíba continuará alimentando de beleza as suas imagens. Fontes vai estudar fotografia, história da arte, antropologia e filosofia em Nova York e Hartford (EUA) e volta ao Brasil para uma sólida e premiada carreira como fotógrafo no Rio de Janeiro. Como Walter Carvalho, que também troca a Paraíba pelo Rio, sua fotografia prima pela inventividade.

Integrantes do Foto Clube da Paraíba, década de 50, séc. XX.

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Designer gráfico de formação, Walter Carvalho envereda no cinema pelas mãos do zeloso irmão Vladimir e se torna um dos mais notáveis diretores de fotografia e realizadores cine-matográficos do país. Vivendo no Rio desde 1968, já vê seu trabalho reconhecido pela revista Realidade quatro anos depois de sua chegada a cidade. A partir daí, são inúmeras as exposições e prêmios, cujo reconhecimento é partilhado com o cinema. Vez por outra, o artesão das imagens fixas e em movimento cruza o olhar com seus conterrâneos Antonio Augusto Fontes e Gustavo Moura nos brindando com belos ensaios, a exemplo de Varadouro – Soneto em Preto e Branco, publicado em livro em 2002. Gustavo Moura é de uma geração posterior à dos dois parceiros e se deixou fisgar pela fotografia bem cedo. Não teve dúvidas sobre que profissão seguir. Autodidata, devorou com olhos ávidos todas as fotografias de Cartier-Bresson e de outros mestres; em troca, nos devolveu um “reino encantado” de imagens de um nordeste cheio de poesia. “Gustavo faz parte dos fotógrafos, que articulando cosmos e ego, trabalham uma dramaturgia que vai além da realidade que se encontra no quadro ou fora dele, deixando assim um vasto lugar ao imaginário” testemunha o fotógrafo e crítico de arte francês Pierre Devin. A contribuição de Gustavo Moura à fotografia vai além do seu meticuloso trabalho autoral iniciado nos anos 80 e que se prolonga à década atual com o mesmo vigor de outrora. Gustavo é um militante da causa, envolvendo amadores e profissionais na batalha pela consolidação da atividade no estado. É fruto de sua cachola a ideia de unir os fotógrafos Fábio Gusmão Passarini (o Bita), Giselma Franco, Mano de Carvalho, Marcos Veloso, Alberto Paiva e Ricardo Peixoto em torno de um grupo,

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Reunião dos Traficantes de Imagens, 1993.

o Traficantes de Imagens, para pensar e vivenciar a fotografia através da troca de idéias e reflexões sobre o ver e o fazer fotográficos. Uma mobilização que geminou eventos como I Semana Paraibana de Fotografia, em 1994, no âmbito da primeira edição do Fenart – Festival Nacional de Artes da Fundação Espaço Cultural da Paraíba. A Semana de Fotografia – com suas exposições, palestras e oficinas – foi um marco na tomada de consciência e no contato do público local com o mundo da fotografia brasileira e do próprio estado. Uma semente plantada e que só viria a brotar quase duas décadas depois no Setembro Fotográfico de 2011 e 2012. Gustavo Moura é contemporâneo de Roberto Coura, um nome fundamental da fotografia paraibana dos anos 70, 80 e 90. Artista plástico, Coura abandona as artes plásticas em 1972, optando definitivamente pela fotografia. É de 1978, seu mais célebre ensaio: A feira de Campina Grande, exposição que repercutiu país afora, rendeu-lhe um livro e o Prêmio Marc Ferrez de Fotografia. Em parceria com Gustavo Moura, documentaram, no início dos anos 80, a triste realidade dos bordéis pelo interior da Paraíba, cujo ensaio rendeu várias páginas na revista Iris, a mais importante e duradoura publicação dedicada à fotografia no Brasil. Segundo o cientista social Mauro Koury, “a fotografia de Coura cons-


trói uma realidade nova a partir do registro de situações quaisquer escolhidas pela relação do olhar do fotógrafo e os elementos registrados, humanos ou não.” Coura ainda documentou os carnavais e as festas de rua entre 1979 e 1981, em Campina Grande, onde viveu até 1990 e quando se mudou para João Pessoa como professor do Depto de Arquitetura do Centro de Tecnologia da UFPb. Um coletivo que também contribuiu muito para o fomento da atividade fotográfica na cidade foi a Agência Ensaio, criada em 1994 por Marcos Veloso (1950-2000), Ricardo Peixoto e Mano de Carvalho, que envolveu e movimentou os aficionados pela imagem mecânica de Nièpce, Daguèrre, Talbot e Florence, inventores, a seu modo e em lugares distintos, da fotografia. A estreita sala, na Praça Rio Branco, era minúscula para tamanhos projetos: expedições fotográficas, exposições, oficinas, palestras, publicação de postais e o célebre Festival Lambe-lambe de Fotografia – que, em diversas edições, abriu espaço para os novos fotógrafos – foram a tônica da agência. Marcos Veloso, médico radiologista, nada tinha do estereótipo do fotógrafo engajado, mas nos legou imagens do Sertão nordestino que influenciaram toda uma geração de fotógrafos. Ricardo Peixoto, Mano de Carvalho e Assuero Lima foram os idealizadores do projeto Cidadão do Mundo que levou a obra desses artistas a acervos e coleções do Brasil, Argentina, Áustria e França. Abrimos parênteses aqui para mencionar três profissionais renomados que inscreveram seus nomes na história da fotografia brasileira e mundial e que, todavia, a Paraíba desconhece: Alberto Ferreira (1932 – 2007) e Severino Silva. Eles deixaram a Paraíba cedo, mas em momentos diferentes, em busca de fazer a vida do “Sul maravilha” e engendraram suas carreiras num

meio altamente competitivo. Ferreira, nascido em Alagoa Grande, tem seu trabalho reconhecido já nos anos 50 como editor de fotografia no Jornal do Brasil, sendo considerado um dos precursores do fotojornalismo brasileiro e já bem locado no panteão de nomes da fotografia mundial, a exemplo de Cartier-Bresson, Robert Doisneau, Robert Capa, Marc Riboud, Werner Bischof e Sebastião Salgado entre outros. Por sua vez, Severino Silva, 53, natural de Pirpirituba, é uma prova de que a sensibilidade molda o olhar. Um olhar forjado na labuta diária de um repórter fotográfico que tomou o caminho oposto ao sensacionalismo fácil. Seus registros da violência cotidiana do Rio de Janeiro estão carregados de sentimento e transbordam poesia. O terceiro mestre paraibano das imagens mecânicas nasceu em Araruna, deixou a Paraíba aos 16 anos e passou nove visitando países tão distintos e longínquos quanto a Suécia, Emirados Árabes, Indonésia e Timor Leste. Refiro-me a Numo Rama (nome artístico), nascido em 1968 e iniciado na fotografia aos 26 anos em Portugal. O talento de Rama o levou à uma primeira individual, dois anos depois, no Museu Etnográfico de Estocolmo, sobre a vida

Identidade visual criada pelo artista Romero Cavalcanti.

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Várzea do Rio Parahyba, por Germana Bronzeado.

em Timor Leste. Numo Rama volta ao Brasil em 1999 e, desde então, tem realizado diversas exposições no país e também no estrangeiro (Dinamarca, Bélgica, França, Espanha, República Checa e mundo afora). A Paraíba precisa urgente conhecer e reconhecer o talento desse filho pródigo. Talento que salta aos olhos nas imagens de Reginaldo Marinho (Sapé, 1950) e Antonio David (Taperoá, 1955), repórteres fotográficos com trajetórias distintas. Marinho, 63 anos, deixou bem cedo a Paraíba, migrando para Brasília, onde cursou arquitetura, e terminando em terras espanholas documentando a redemocratização do país que redundou no ensaio Espanha: via democrática. Antonio David, por sua vez, deixou sua Taperoá nos anos 60 para estudar Ciências na Universidade Federal da Paraíba e daqui nunca saiu. A partir de 1975, passou a trabalhar como fotógrafo em periódicos locais (Jornal O Norte, O Momento, A União). Foram mais de sete exposições individuais e 12 coletivas desde 2005. Um trabalho coroado com o lançamento do álbum Antonio David: 30 anos de fotojornalismo.

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Fazendo uma varredura da segunda metade dos anos 70 e início dos 80, encontramos Roberto Guedes (in memorian) com suas inquietações. Conhecemos poucas imagens de sua lavra, mas o pouco que chegou aos nossos olhos atesta o talento de um apaixonado pela fotografia – ausente tão prematuramente. Nesse período, marcava presença na cena fotográfica paraibana, o professor do antigo DAC (o agitado e provocador Departamento de Artes e Comunicação da UFPB), Luiz Bronzeado com seus ensaios inspirados no universo do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre. Idealizando a vida do Nordeste escravagista, Bronzeado realiza Engenhos e Senzalas, em 1982, reconstituindo fotograficamente o cotidiano de senhores de engenhos e escravos. As décadas de 1990 e 2000 dão à fotografia paraibana uma geração inquieta e reunida em torno da Agência Ensaio e do grupo Traficante de Imagens que vai pensar o fazer fotográfico em suas mais díspares temáticas e tendências. A ordem é experimentar. Sem pertencer a nenhum desses grupos, o veterano João Lobo busca novo


Abertura do Setembro Fotográfico de 2011.

rumo a cada ensaio, vide Across Lens de 2001, em que Bete Gouveia ressalta “as sombras contrastantes e brumas diáfanas, onde a ausência de luz é presença constante, e o congelamento das imagens parece inexistente.” Talvez influenciados pelo fotojornalismo, nossos fotógrafos passaram a apontar suas lentes para os deserdados da sorte. Essa tendência de documentar a realidade social indigesta, marcante a partir dos anos 60, torna-se quase uma obsessão da fotografia brasileira. Ao incorporar o considerado socialmente feio e incômodo, a fotografia democratiza, segundo a crítica de arte Susan Sontag, a noção de beleza que pode a partir de agora ser encontrada em qualquer objeto ou tema. “Do mesmo modo que as pessoas que se embelezam para a câmara, tudo que é menos atraente e desagradável também tem direito à sua parte de beleza”, filosofa a norte-americana. Tendo a realidade como matéria-prima, o fotojornalismo paraibano forjou nomes que têm contribuído para o reconhecimento do Brasil como um dos grandes no setor. Destacamos aqui o trabalho de Marcus Antonius, Francisco França e Augusto Pessoa, merecedores dos prêmios mais importantes na categoria. Uma mulher se destaca nessa seleção majoritariamente masculina: a fotojornalista Mônica Câmara, que coleciona no seu nutrido currículo prêmios nacionais (Revista Brasileiros 2004) e internacionais

(National Geographic 2003). Atualmente, fotógrafa free-lancer e designer gráfico da UFPB, integra o Imagine Fotografia – Núcleo de Pesquisa, Documentação e Divulgação da Fotografia. A “fotografia de palco”, uma vertente do fotojornalismo, tem na potiguar Clara Lenira sua maior representante. Como fotógrafa da Fundação Espaço Cultural, construiu um importante acervo iconográfico do universo da arte do espetáculo na cidade, ajudada nessa tarefa pelos discípulos Alberto Machado e Bertrand Lira. Quem também tangenciou esse caminho de forma autônoma foi a fotógrafa Germana Bronzeado, irmã do fotógrafo Luiz Bronzeado que mencionamos acima. Germana documentou durante 15 anos, como fotógrafa da Oficina-Escola, os trabalhos arqueológicos e de revitalização do patrimônio histórico-cultural da cidade. Dois eventos marcantes, realizados pela Fundação Cultural do Município de João Pessoa (Funjope), com curadoria de Gustavo Moura e Wênio Pinheiro, colocaram a fotografia na ordem do dia: o Setembro Fotográfico 2011 e 2012. Durante uma semana de cada ano, a cidade recebeu nomes de peso da fotografia brasileira como Ed Viggiani,

Corpos e Flores para Yemanjá, por Paulo Rossi.

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Água de Meninos, por Aurílio Santos.

Romero Cavalcanti, José Wagner, Marcos Issa, Dante Gastaldoni, Marcelo Buainain, João Roberto Ripper, Celso Oliveira, Paula Sampaio, Severino Silva, Eustáquio Neves, Rosely Nakagawa e artistas locais como Clara Lenira e João Carlos Beltrão para exposições, palestras, oficinas e lançamento de livros que ocuparam a Estação Cabo Branco, o Centro Cultural São Francisco e o Casarão 34. Na edição de 2012, além desses espaços, o Setembro Fotográfico ocupou a Praça Alcides Carneiro, com uma exposição ao ar livre, e a Casa das Artes Visuais. A CAV foi idealizada por René e Manu DSouza e veio a ser um importante fomentador da arte fotográfica na cidade, tendo também o fotógrafo Paulo Rossi, paulista radicado na Paraíba, como seu coordenador pedagógico. No seu Dicionário das Artes Visuais na Paraíba (2010), o artista plástico Dyógenes Chaves não negligenciou os fotógrafos do passado (remoto e recente) e nem os contemporâneos, inclusive os da novíssima geração. Estão lá: Aurílio Santos (Encourados de Sonhos), Adriano Franco (Entre mundos), Antonio Gualberto (Fotografias), Cácio Murilo (Tem planta que virou bicho), Fabiana Veloso (O outro lado da Terra), Fábio Passarini (Brasília recriada em caleidosfotos), Gabriel Bechara (Rastros, Estação Lapa), Germana Bronzeado (Cidade antiga),

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Gilberto Stuckert Filho (Parahyba, capital em fotos), Guto Zafalan (Making of de Sivuca, o poeta do som), Guy Joseph (Terra da gente Paraíba), Hélder Oliveira (coletivas da Agência Ensaio), Ivan Correia (Romeiros de corpo e alma), Joálisson Cunha (Sonho de fábrica das boas partes do corpo insano), Lilia Tandaya (Uma história de pescador), Manoel Clemente (Ornamento e forma da paisagem construída), Márcio Moraes (Os Ciganos), Mano Carvalho e Ricardo Peixoto (Festival Lambe-lambe de fotografia, Cidadão do Mundo), Rizemberg Felipe (repórter fotográfico internacional do Jornal da Paraíba), Roberto Guedes Arnaud (Adrenalina), Rodolfo Athayde (Artistas Mascarados) e Wênio Pinheiro (Nação Jaguaribe). Essa novíssima geração, representada por Rafael Passos, Deyse Euzébio, Wênio Pinheiro, Frido Claudino e Thercles Silva, traz um frescor à fotografia paraibana imprimindo inventividade e inquietação, manipulando sem pudor as ferramentas que a tecnologia digital nos oferece para recriar novas realidades e mundos imaginários. Num contexto de overdose de imagens, com o fazer fotográfico acessível a qualquer um, esses novos artistas fazem a diferença, resgatando o sentido primordial da contemplação de uma imagem, salvando-a da banalidade do clique fácil e de uma fruição fast food. Bertrand Lira Prof. Dr. do Depto de Comunicação em Mídias Digitais da UFPB e autor do livro “Fotografia na Paraíba: um inventário dos fotógrafos através do retrato (1850-1950).


Adriano Franco, [dez] lambida mem贸ria, 2011.


Impresso pela Gráfica Santa Marta, João Pessoa, Paraíba, julho de 2013. Primeira tiragem: 1.000 exemplares. Distribuição gratuita. Venda proibida.


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Distribuição gratuita. Venda proibida.


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