{' '} {' '}
Limited time offer
SAVE % on your upgrade.

Page 1

IMAGENS EXPANDIDAS

MEMÓRIA E RESISTÊNCIA NA ZONA PORTUÁRIA DO RIO DE JANEIRO


IMAGENS EXPANDIDAS

MEMÓRIA E RESISTÊNCIA NA ZONA PORTUÁRIA DO RIO DE JANEIRO


EDIÇÃO Coletivo FotoExpandida TEXTOS Luiza Cilente Julia Botafogo Bruno Morais Coletivo FotoExpandida REVISÃO DOS TEXTOS Luiza Cilente FOTOGRAFIAS Arquivo Coletivo FotoExpandida PROJETO GRÁFICO E EDITORAÇÃO Nuyddy Fernández

AGRADECIMENTOS Adriano Cícero Rabel Adriele Silva Ana Dalloz Bianca Selofite Bruno Morais Cristiano Magalhães Mauricio Hora Merced Guimarães Miguel Chikaoka Penha Santos Thiago Barros Valeria Barzaghi Toloi Victa de Carvalho PARCERIAS Ateliê Oriente Favelarte Instituto Pretos Novos Laboratório Fotográfico da UFRJ Ocupação Mariana Crioula

PARTICIPANTES Ana Carolina Galizia Anna Carolina de Souza Soares Bruno Morais Carlos Antônio Alves da Silva Cheyenne Christine Davi Marcos Eduarda Araújo Fábio Duarte Fernando Solano Gabriel Savary Helber Araújo de Paula Lina Maria Ibañez Raphael Rodrigues dos Reis Thaynara Rodrigues

COLETIVO FOTOEXPANDIDA Ed Sartori Felipe Nin Henrique Zizo Julia Botafogo Luiza Cilente Nuyddy Fernández Rhenan Amaral CONTATOS www.fotoexpandida.org www.facebook.com/ ColetivoFotoexpandida fotoexpandida@gmail.com


ÍNDICE 09 APRESENTAÇÃO 13 PROCESSOS ALTERNATIVOS DE FOTOGRAFIA »» P or dentro da Caixa Preta »» Câmeras Artesanais »» A Experiência do silêncio »» Teste 3 tempos

25 RESISTÊNCIA NEGRA NA ZONA PORTUÁRIA »» Camadas de memória

38 AFETOS & PROCESSOS »» E ncontro com Eustáquio Neves »» Imagens da Imaginação / Bruno Morais

00 BIBLIOGRAFIA


Memória e resistência negra sob a ótica da fotografia expandida

APRESENTAÇÃO Este catálogo apresenta o desenvolvimento e produção do projeto Imagens Expandidas: memória e resistência na Zona Portuária do Rio de Janeiro realizado pelo Coletivo FotoExpandida com apoio do programa Rumos Itaú Cultural. O ciclo de encontros aconteceu durante o segundo semestre de 2014 e reuniu 13 pessoas que participaram ativamente do processo. Foram cinco oficinas gratuitas que ocorreram do dia 22 de outubro a 5 de novembro de 2014 encerradas com um workshop de 2 dias ministrado pelo artista Eustáquio Neves. Também foi realizada, no dia 8 de novembro, uma oficina com os moradores da ocupação urbana Mariana Crioula1.

Ir além da fotografia. Esse talvez tenha sido um dos principais nortes deste projeto. Há três anos o Coletivo FotoExpandida atua na zona portuária do Rio de Janeiro. Com uma proposta híbrida, ao longo desse tempo realizamos oficinas livres de pinhole; refletimos sobre o potencial das imagens; destrinchamos trabalhos de alguns artistas; experimentamos técnicas alternativas de fotografia; pesquisamos sobre a história e realizamos derivas pela região além de nos aproximar de grupos culturais e movimentos sociais locais. Grande parte do trabalho sempre foi feito voluntariamente. Cada integrante tem trabalhos e focos individuais mas a vontade de desenvolver projetos temáticos já era latente. Em nossas derivas2, cartografamos o cotidiano da zona portuária desde o período em que se intensificaram as reformas urbanas – aceleradas

1. Com dois anos de existência, a ocupação Mariana Crioula é a segunda ocupação em área central do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM). Sua luta é pela manutenção das famílias com renda de 0 a 3 salários mínimos na área. O casarão, um antigo depósito mal utilizado localizado no bairro da Gamboa, faz parte agora do projeto de reforma, no qual estão envolvidas 60 famílias. 2. O termo deriva foi apropriado e relacionado ao meio urbano por pensadores Situacionistas entre as décadas de 50 e 70, como Guy Debord, que propõe a prática de rumar pelo ambiente urbano sem planejamento deixando que as sensações geradas pelo próprio meio guie o caminho.

7


8

Circular pelos bairros da Gamboa e Saúde é caminhar pelas ruas que abrigaram armazéns de vendas de negros escravizados e os portos já aterrados onde desembarcavam os navios negreiros durante o período da escravidão; é dançar na ladeira da Pedra do Sal, berço do samba carioca; é também passar por casas ocupadas por centenas de famílias, nos lembrando que a resistência e a luta por direitos ultrapassou séculos de opressão ao povo negro. Constatamos que as histórias, apesar das tentativas de apagamento, insistem em serem lembradas. Era chegada a hora de dar nossa contribuição.

// Interior do Instituto Pretos Novos

com a chegada de megaeventos esportivos como a Copa do Mundo de 2014. Durante os percursos, a história da escravidão se mostrava cada vez mais evidenciada e (re) descoberta – literalmente. A parceria com o Instituto Pretos Novos (IPN), onde realizamos algumas de nossas oficinas, reforçava esse aspecto em nosso trabalho. O local é um espaço cultural e sítio arqueológico desde 1996 quando os então novos donos do terreno descobriram, durante a reforma da casa, o antigo cemitério dos escravos Pretos Novos.


// Interior do Instituto Pretos Novos

Com o apoio do programa Rumos Itaú Cultural, tivemos a oportunidade de ousar esse resgate, propondo uma imersão coletiva na zona portuária por meio da fotografia alternativa. Imagens Expandidas foi a possibilidade de utilizar processos alternativos de fotografia para falar sobre memória e resistência utilizando imagens e afetos. Para nós, a fotografia expandida é um meio de apropriação tecnológica. Significa a possibilidade de criar e produzir imagens com mais autonomia, tornando @ fotógraf@ ciente de todo o processo pelo qual passa a formação de uma imagem. Foi essa mesma percepção que buscamos estender para outras atividades. Aos participantes do novo ciclo de oficinas, propomos um escape: imagens geradas sob uma nova ótica de tempo e percepção onde a estética assume o risco do erro, mas não nega a possibilidade de interação com o universo do objeto captado. Atentos aos diversos desdobramentos, propomos encontros abertos onde a escuta dos participantes se fez constante. Além do material final produzido, essa publicação busca mostrar como se desenrolaram os encontros e oficinas, as ferramentas e técnicas utilizadas e algumas intervenções realizadas pelos participantes.

9


10


PROCESSOS ALTERNATIVOS DE FOTOGRAFIA Por dentro da Caixa Preta3 Ao longo dos séculos, Câmeras Obscuras chamaram a atenção de muitos cientistas e pensadores. Astrônomos já a utilizavam no século XI para traçar o caminho das estrelas. Mas além da física e astronomia, há diversos pontos em que a câmera obscura cruza com a arte (ou vice-versa). Se no século XIX foi também usada por pintores, – ao projetarem paisagens que desejavam representar – até hoje alguns artistas a utilizam, seja como ferramenta ou apenas conceitualmente.

Dois exemplos são os trabalhos do cubano Abelardo Morell e a alemã Vera Lutter. Enquanto Abelardo transformou quartos de hotéis ao redor do mundo em câmeras obscuras e registrava a imagem que se projetava no interior do recinto, Lutter construiu câmeras obscuras de grandes formatos para captar em papel fotográfico paisagens de diversos países. Muito se refere às técnicas artesanais, como as câmeras pinhole, reproduzidas diretamente a partir das Câmeras Obscuras. Outras possibilidades de experimentação manual em laboratório também abarcam esse conceito. Mas se considerarmos a Fotografia Expandida de acordo com o conceito do filósofo Villém Flusser – que propõe abrir a “caixa preta” para assim entender como funciona o aparelho e subverter o seu uso – podemos abarcar trabalhos de diversos artistas e fotógrafos que vão muito além do uso artesanal de câmeras. Exemplos são: Alexandre Serqueira, Alice Miceli, Miroslav Tichý, Eustáquio Neves, Wayne Martin Belgere, Beate Gütschow.

3. Conteúdo apresentando durante o primeiro encontro do ciclo de oficinas do projeto Imagens Expandidas: oficinas livres de fotografia na Zona Portuária do Rio de Janeiro que aconteceu no Instituto Pretos Novos (IPN), na Gamboa, e reuniu cerca de 15 participantes. As oficinas foram facilitadas por Julia Botafogo e Luiza Cilente.

11


Câmeras Artesanais Uma das práticas mais comuns para quem gosta de experimentar técnicas alternativas de fotografia é a construção de câmeras artesanais. Na maioria das vezes são pinhole, ou seja, sem a entreposição das lentes, o que faz com que a luz projetada no filme ou papel entre diretamente pelo buraco feito por uma agulha atingindo o papel ou filme fotográfico.

12

Existem diversos artistas e fotográficos que trabalham com câmeras artesanais. As possibilidades de materiais são infinitas: tubo de filme, caixa de mdf, latinhas de alumínio, o que a imaginação permitir, enfim. Sem a lente, a imagem projetada tem foco infinito, produzindo imagens sem áreas desfocadas. Em sua pesquisa, o Coletivo FotoExpandida desenvolveu um modelo de câmera artesanal feito com papel paraná. Elas foram produzidas durante o ciclo de oficinas do projeto Imagens Expandidas4.

4. Prática realizada durante terceiro encontro do ciclo de oficinas do projeto Imagens Expandidas: oficinas livres de fotografia na Zona Portuária do Rio de Janeiro que também aconteceu no Instituto Pretos Novos (IPN). Oficinas foram facilitadas por Rhenan Amaral e Felipe Nin.


O molde simula o formato das câmeras analógicas tradicionais. Inclusive com o espaço para colocar o rolo de filmes.

13


14


15

Depois de pronta, 茅 s贸 sair e clicar!


A Experiência do silêncio5

16

A dinâmica da construção da câmera escura em silêncio surgiu numa oficina para surdos e mudos ministrada em Recife pelo fotógrafo Miguel Chikaoka e o grupo da pedagogia da luz. A ideia principal é usar apenas mãos, uma folha de papel cartão, um dobrador (um pequeno pedaço de madeira para ajudar a vincar as dobras), cola branca, pedaços já cortados de papel alumínio e papel vegetal. Nem régua, nem tesoura – os dedos medem, as mãos rasgam. A oficina é conduzida por uma pessoa em uma posição estratégica para que todos possam ver. As instruções são dadas: a importância de uma posição confortável para o trabalho, visão, silêncio, o porquê do uso do material – o papel alumínio porque veda a luz, o papel vegetal, por ser translúcido – não se vê através mas é atravessado por uma quantidade suficiente de luz possibilitando a formação de imagens. Por último, caso alguém se perca ou não esteja acompanhando, o conselho para fazer “barulho”, “muito barulho” – com sinais. As informações dali em diante serão passadas pelas ondas de luz, e não sonoras. 5. Pratica realizada também durante o primeiro encontro do ciclo de oficinas do projeto Imagens Expandidas.

Tudo é feito com calma e brincadeira, mas cada brincadeira tem um porquê. O porquê de ajoelhar – para jogar peso ao que está dobrado. O porquê de pisar na dobra enquanto cola – a cola branca requer um pouco de tempo para secar. Enquanto se pisa, se brinca de equilibrista.


17


Após a construção, hora de testar, podemos falar da fisiologia do olho, como se forma a imagem, e porquê está de cabeça para baixo. Testamos com um pequeno furo, com um furo um pouco maior, com dois furos, com um rombo, depois colocamos a lente e descobrimos a diferença, o foco. Indicações são dadas: o tempo dos olhos se acostumarem, o cuidado de vedar pelas laterais a entrada de luz com as mãos. Assim pode ser iniciada uma nova experiência, com reflexão e movimento, fazendo da História nossa matéria prima.

18


19


Testando o tempo Não existe erro, tudo é uma resposta da luz! O exercício de 3 tempos, também inspirado na Pedagogia da Luz de Miguel Chikaoka, parte da ideia de olhar em primeira instância para luz e não para imagem. Sair preto ou branco é puro resultado da luz. A proposta do exercício também foi testar nossas câmeras de papel paraná construídas no encontro anterior. Verificar se não estava vazando luz, ver se o furo estava ok, entre outras coisas.

20

Câmeras prontas, cada um recebeu uma folha com 9 quadradinhos e linhas embaixo, para colar a foto e fazer anotações sobre o ambiente; a posição e o local onde foi batida a foto; a luminosidade; o horário; condições do ambiente (se estava sol, nublado, se foi batida na sombra, no interior).Também foram anotadas o tempo de exposição e por último alguma possível observação sobre a situação retratada. A proposta do exercício foi fazer 3 fotografias do mesmo objeto com 3 tempos diferentes, sempre dobrando a quantidade de tempo em 3 diferentes ambientes (sol, sombra e ambiente interno). Além disso, foi dada a sugestão de explorar em cada fotografia um ângulo diferente (de perto, de longe, câmera no tripé, câmera na mão etc). Isto reforça que o mais importante não é a imagem e sim o exercício de observação e investigação da luz.


21


22


RESISTÊNCIA NEGRA NA ZONA PORTUÁRIA

Camadas de memória6 Arquitetura, ruas, monumentos e o movimento dos transeuntes nos contaram um pouco sobre a história da região portuária do Rio de Janeiro, carregada de marcos simbólicos. Felipe Nin, pesquisador e integrante do Coletivo FotoExpandida se propôs a ser nosso guia em uma caminhada por esse território, nos ajudando a identificar pontos importantes sobre a história que permeia o circuito. Começamos na Praça Mauá, mais exatamente na entrada do mais novo Museu de Arte do Rio (MAR). Antes da saída, propomos exercitar o olhar – mesmo que o objetivo não fosse exatamente fazer fotografias. Ali estávamos também recém-saídos da experiência de

construir um visualizador. Este nos serviu para modelar nosso olhar, nos ajudando a compreender como a combinação entre luz/ enquadramento/lentes constrói imagens. Após o exercício, olhamos para o entorno. Bem em frente ao Museu se estende aquele que durante a década de 30 foi o maior arranha-céu da América Latina e abrigou por anos a Rádio Nacional no Rio de Janeiro. Conhecido como o edifício “A Noite” - por também abrigar por anos a sede de um jornal de mesmo nome -, atualmente, o prédio já compartilha o espaço, bem mais verticalizado, com muitos outros de mesma ou maior altura. Conversamos sobre o significado de um sofisticado museu de arte em meio ao um ambiente ainda precário repleto de bares e casas noturnas, – e o questionamos se de fato este Museu dialoga com os habitantes da região. Seguimos em direção a Rua Venezuela onde nos deparamos com o edifício totalmente abandonado que entre 2005 e 2011 foi ocupado por um grupo organizado de sem tetos. A ocupação foi batizada Zumbi dos Palmares. As famílias foram despejadas em 2011, exatamente no mesmo período em que as obras do Porto Maravilha se instauraram na região.

6. O segundo encontro (25/10) do ciclo de oficinas do projeto Imagens Expandidas propôs uma caminhada guiada pela cidade.

23


24

Seguindo, entramos pela Rua Sacadura Cabral de onde saímos diretamente na famosa Pedra do Sal, conhecido como berço do samba e reduto da cultura afro-brasileira no Rio de Janeiro. Se durante os séculos XVIII e XIX o local servia como passagem dos negros africanos escravizados que carregavam sacos de sal vindos das embarcações, a partir do século XX se tornou uma referência de resistência negra. Local onde tocaram os maiores sambistas do Brasil, ainda hoje a Pedra do Sal é imersa em música, atraindo milhares de pessoas semanalmente. Recentemente moradores que se auto-intitularam quilombolas conseguiram o reconhecimento do território como Quilombo da Pedra do Sal. O local é considerado uma herança material e imaterial de seus ancestrais negros. Subindo a escada esculpida em pedra entramos no Morro da Conceição de onde já podemos avistar o Morro da Providência, a primeira favela do Rio de Janeiro. Seguimos então descendo pelo Jardim Suspenso do Valongo, reformado pela segunda vez desde que foi erguido durante a violenta Reforma Pereira Passos. Com quatro estátuas gregas e um jardim projetado, o cenário destoa de seu entorno, a Rua Camerino, –antiga Rua do Valongo - onde vemos um modesto fluxo de comércio nos espaços que antigamente abrigavam os armazéns de vendas


de negros escravizados. Alguns relatos deixados por viajantes que passaram pelo Rio de Janeiro naquela época nos trazem a imagem do como a antiga Rua do Valongo:

“1º de maio de 1823: vi hoje o Valongo. É o mercado de escravos do Rio. Quase todas as casas desta longuíssima rua são um depósito de negros cativos. Passando pelas suas portas à noite, vi na maior parte delas bancos colocados rente às paredes, nos quais filas de jovens criaturas estavam sentadas, com a cabeça raspada, os corpos macilentos, tendo na pele sinais de sarna recente. Em alguns lugares, as pobres criaturas jaziam sobre tapetes, evidentemente muito fracas para sentarem-se. (Maria Graham, viajante inglesa e amiga da Imperatriz Leopoldina, anotação do diário, 1808 GOMES p.240)” Descendo o novo Jardim e seguindo pela rua Camerino, entramos no Cais do Valongo, também conhecido como Cais da Imperatriz. Esse talvez seja o local que melhor simboliza a tentativa de apagamento da memória negra na zona portuária carioca. O antigo Cais do Valongo foi durante boa parte do século XIX o

25


porto onde desembarcaram milhares de negros escravizados vindos da África. Após a proibição do tráfico, com a chegada da futura Imperatriz Teresa Cristina que se casaria com o futuro Rei D. Pedro II, o local sofreu uma reforma e foi sobreposto pelo Cais da Imperatriz. Tal memória, até então apagada, foi reacendida com as obras de intervenção do projeto Porto Maravilha quando foi então “redescoberta” esta outra camada da história.

26

“Os navios negreiros que chegam ao Brasil apresentam um retrato terrível das misérias humanas. O convés é abarrotado por criaturas, apertadas umas às outras tanto quanto possível. Suas faces melancólicas e seus corpos nus e esquálidos são o suficientes para encher de horror qualquer pessoa não habituada a esse tipo de cena. Muitos deles, enquanto caminham dos navios até os depósitos onde ficarão expostos para venda, mais se parecem com esqueletos ambulantes, em especial as crianças. A pele, que de tão frágil parece ser incapaz de manter os ossos juntos, é coberta por uma doença repulsiva, que os portugueses chamam de sarna. (cônsul inglês James Henderson,


descreveu assim o desembarque dos escravos no porto do Rio de Janeiro, 1808 GOMES 2007, p.241)” Para encerrar nossas andanças, saímos em direção à rua Pedro Ernesto onde se encontra o Instituto Pretos Novos (IPN), parceiros do Coletivo FotoExpandida. O local que hoje abriga um instituto cultural e de pesquisa é também um sítio arqueológico. Em 1996, os donos do terreno encontraram por acaso – durante obras na casa – o antigo Cemitério de Escravos Pretos Novos. Era para lá que os corpos de negros escravizados vindos da África, mortos logo após a chegada no Brasil ou durante a exaustiva viagem tinham seus corpos levados para serem enterrados sem sepultamento. Estes eram chamados de Pretos Novos pois ainda não haviam sido vendidos. Para um africano escravizado, ser enterrado de forma indigente, sem ritual adequado, era uma das piores coisas já que, de acordo com as suas crenças, significaria o impedimento de reencontrar seus antepassados após a morte.

“Próximo à rua do Valongo está o cemitério dos que escapam para sempre da escravidão... na entrada daquele espaço cercado por um muro

27


de 50 braças em quadra, estava assentado um velho, em vestes de padre, lendo um livro de rezas pelas almas dos infelizes que tinham sido arrancados de sua pátria por homens desalmados, e a uns dez passos dele, alguns pretos estavam ocupados em cobrir de terra os seus patrícios mortos, e , sem se darem ao trabalho de fazer uma cova, jogam apenas um pouco de terra sobre o cadáver, passando em seguida a sepultar outro.” (PEREIRA, 2007, p. 80-81)

28

Mas a região portuária não apresenta apenas vestígios de uma história de opressão e resistência. Atualmente a região também é palco de disputas, onde grupos que lutam pelo direito à moradia (em sua grande maioria composta por negros) reivindicam este direito básico. Durante a caminhada, conhecemos o prédio que abriga a ocupação urbana Mariana Crioula, ali vivem famílias que simbolizam um exemplo de resistência pela moradia popular e que lutam pela reforma urbana em um território que sofre cada vez mais com o crescimento da especulação imobiliária, fruto de um projeto global de cidade.


29


“Foi uma brincadeira, entre aspas, que eu levei a sério.” Bruno Morais

38


AFETOS & PROCESSOS “Houve uma mistura de diferentes talentos, eu vi uma parte muito lúdica para fazer o visor, aprender a fazer as coisas de um jeito diferente. Gostei porque a oficina também foi um espaço para a gente compartilhar e conhecer mais as pessoas”. Lina Ibáñez

“Esse curso me fez pensar sobre o tempo. A cada foto que a gente tirava, o tempo que a gente demorava... quando se relacionava com as pessoas. Aqueles segundos que pareciam super demorados para gente tirar a foto, eram poucos mas eram muitos”. Anna Carolina Soares

39

“Achei engraçado essa relação que vocês criaram diferente com o tempo, tem a ver com captar a imagem fora do digital, pensar de forma analógica. Na verdade cada vez a gente quer menos tempo com as pessoas, com as vivências, me impressiona muito essa vontade de ter mais tempo com o curso e com essas pessoas porque cada vez a gente quer menos... é muito impressionante como o analógico e a forma de elaborar o processo funcionou bem, o próprio silencio já é uma reflexão muito grande sobre o próprio tempo. Você está mais contemplativo, talvez seja por isso existe a sensação de “ah eu quero mais”, porque a gente aprende a contemplar mais....essa experiência de ter essa paciência de pensar, de esperar, de sentir, de desacelerar que é muito importante pro que a gente vive hoje”. Davi Marcos


“Eu comecei a ver tudo de uma forma bem diferente porque a gente precisava de tempo. Quando a gente passou em frente a ocupação Zumbi dos Palmares paramos por um bom tempo. Mas olhando tudo aquilo com o visor eu comecei a ver tantos detalhes que nunca tinha reparado mesmo tendo passado por ali tantas vezes. Quando se está falando de resistência negra numa cidade é exatamente dessa visão diferente que a gente precisa”. Eduarda Araújo

40

“Ao sair com aquela câmera em direção à procissão tive que controlar minha ansiedade em relação ao tempo”. Carlos Silva

“Mesmo com uma proposta de pedagogia, ainda assim tem espaço para as pessoas construírem coisas diferentes... essa capacidade de estar aberto às pessoas”. Raphael Rodrigues

“Tive muita dificuldade no dia da procissão porque sou lento mesmo, me matando pra fazer as fotos mas aí comecei a pensar no meu tempo interno e aí foi ótimo...teve uma hora que não queria mais nem contar, vai na sensação”. Bruno Morais

“Cada foto é muito nossa, por cada enquadramento, cada minuto que ficamos segurando a câmera” Anna Carolina Soares


“Fiquei muito ansiosa pra ver como tinham ficado (as fotos). Achei que não ia sair nada”. Thaynara Rodrigues.

41


Encontro com Eustáquio Neves

42

Interessados pelo trabalho do artista mineiro Estáquio Neves, principalmente pelo atravessamento de sua produção com a fotografia expandida, assim como com a pesquisa em arquivos e a memória negra, os participantes do Imagens Expandidas tiveram a oportunidade de recebê-lo, à convite do Coletivo, para um workshop. Foram 3 dias de encontros (13, 14 e 15 de novembro de 2014) cheios de provocações, trocas e produção de imagens. Contamos com os mesmos participantes das oficinas livres. No primeiro dia, uma fala aberta do artista na Casa Daros em Botafogo teve como intuito atingir um público maior. O artista concluiu sua intervenção dizendo que nunca “perdemos uma imagem”, pois “podemos guardá-la em nosso inconsciente para depois recriá-la”. Nos dias seguintes, junto dos participantes do workshop, partiu-se para ação. Com o tema “A Expansão dos Signos a partir dos Arquivos, Eustáquio propôs tratar a “fotografia como interpretação do meio ambiente de cada indivíduo”. Após uma caminhada pela região os participantes do workshop revelaram suas imagens no laboratório analógico da Universidade Federal do Rio de Janeiro

sobre a orientação do artista que forneceu ferramentas para construção de trabalhos a serem elaborados posteriormente, a partir de imagens de arquivo e intervenções no próprio material fotográfico. Mostrando um pouco o seu processo de criação e a forma como trabalha – a junção de fotogramas, a elaboração de máscaras, o uso de emulações, entre outros processos espontâneos - , Eustáquio procurou também inspirar cada participante.


43


Imagens da imaginação / Bruno Morais “Sempre me divirto com a ideia que certas pessoas fazem da técnica fotográfica e que se traduz num gosto desmesurado pela nitidez da imagem: será uma paixão pela minúcia, pelo capricho, ou será uma esperança de, por meio desse trampe-l’oeil, tocar mais de perto a realidade? Essas pessoas estão tão longe do verdadeiro problema quanto as da outra geração, que envolviam suas anedotas num flou artístico” Henry Cartier-Bresson

44

Há tempos queria conhecer o Coletivo FotoExpandida. Achava fantástica a pegada para a fotografia artesanal do coletivo. Como integrante de outro coletivo fotográfico, o Pandilla, que tem nas práticas pedagógicas e artísticas um meio de intervenção, meu interesse por trocar experiências com o grupo era grande. Fotografia Expandida pode ser entendida por mil caminhos diferentes. Na lógica clássica que Villém Flusser estabeleceu, podemos entendê-la como um mecanismo para subverter o aparelho fotográfico. No contexto do workshop Fotografias Expandidas, na zona portuária, eu percebi que o processo artesanal, no qual o termo expandido se encaixa, pode ser também um caminho

para subverter nossa própria relação com as imagens. Não só no fazer, mas principalmente no imaginar imagens. Porque antes de tudo é preciso imaginar, e não se prender aos referenciais que todos os dias nos enchem a imaginação. A proposta da oficina, contextualizada aos aspectos socioeconômicos da zona portuária, à especulação imobiliária, à memória negra da região, esse compromisso entre arte e política, em nada atravancou o processo criativo dos participantes. Não se exigiu imagens relatos, imagens memórias, apenas imagens imaginadas. O mergulho franco na zona portuária, a relação com seus habitantes, o compromisso no processo criativo. Desde o primeiro dia a marca das oficinas foi essa interação entre contexto e criação, entre pesquisa e atuação. Nota-se o compromisso franco do Coletivo em atuar de maneira rizomática, interligando zonas de atuação e diferentes atores do porto. Conhecemos o Instituto Pretos Novos, o Museu de Arte do Rio (MAR) e o ateliê Favelarte. Como a proposta incluiu uma prática fotográfica pela região, também foi uma oportunidade para que muitos conhecessem a zona portuária, as mudanças que estão acontecendo e os moradores do entorno.


Criou-se uma grande sinergia entre os participantes, e a heterogeneidade do grupo foi mais um fator de enriquecimento da experiência. As práticas encontraram o equilíbrio entre uma explanação contextualizada do conteúdo, a disponibilidade material e a liberdade subjetiva na produção das imagens. Vista a partir da ótica da fotografia artesanal, a região portuária foi apropriada, vivenciada, reinventada e imaginada. As tensões latentes que as mudanças atuais colocam puderam ser recicladas em cartografias subjetivas que cada participante pode revisitar sempre que sentir vontade. A participação do artista Eustáquio Neves nos dois últimos encontros veio complementar um processo de apropriação individual fornecendo elementos criativos para o desenvolvimento de propostas artísticas com o material fotográfico. Enfim, expandiu-se em todos a percepção do processo fotográfico enquanto linguagem, permanentemente inacabado, passível de inúmeras representações e reapropriações, fundamental como instrumento educativo e criativo, principalmente em um momento no qual nossa subjetividade é inundada cotidianamente por uma maioria de imagens sem imaginação.

45


Imersão fotográfica na Procissão de todos os santos


48


49


BIBLIOGRAFIA ABREU, M. A. Geografia Histórica do Rio de Janeiro (1502-1700), Volume 2. Rio de Janeiro: Ed. Andrea Jakobsson Estúdio.

GUATTARI, F. e ROLNIK, S. Micropolítica: Cartografias do Desejo. Petrópolis: Editora Vozes Ltda, 1986.

ACSELRAD, H. & COLI, L. R. Disputas cartográficas e disputas territoriais. In: ACSELRAD, H (org.). Cartografias sociais e território. Rio de Janeiro: IPPUR/UFRJ, 2008, p. 13-43.

JACQUES, P. B (org.). Apologia da deriva. Rio de Janeiro: casa da Palavra, 2003. __ . Elogio aos errantes. Breve histórico das errâncias urbanas. Arquitextos, vol 5, nº 53, out 2004. Disponível na INTERNET via http://www.vitruvius.com.br/ revistas/read/arquitextos/05.053/536. Arquivo consultado em 28 de agosto de 2010.

ARANTES, A. A. Paisagens Paulistanas: Transformações do Espaço Público. São Paulo: Editora Unicamp, 2000. FLUSSER, V. Filosofia da caixa preta – Ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Coleção Conexões, Relume Dumará, Rio de Janeiro, 2002. GOMES, L. 1808, Como uma rainha Louca, um Príncipe Medroso e uma Corte Corrupta Enganaram Napoleão e Mudaram a História de Portugal e do Brasil. São Paulo: Ed. Planeta, 2007.

PEREIRA, J.C.M.S. À Flor da Terra: O Cemitério dos Pretos Novos no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Editora Garamond: IPHAN, 2007.

59


60


61


Profile for Fotoexpandida

Imagens Expandidas  

Memória e resistência na Zona Portuária do Rio de Janeiro

Imagens Expandidas  

Memória e resistência na Zona Portuária do Rio de Janeiro

Advertisement