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106 ano11 janeiro 2012

Neruda, o poeta

assassinado? Reportagem de Victor Farinelli, do Chile, mostra que um dos maiores nomes da literatura pode ter sido envenenado pela ditadura

EXCLUSIVO: Arapongagem na USP issn

1519-8952

no 106 R$ 8,90

Documento obtido por Fórum revela detalhes de uma investigação de 28 dias das atividades de estudantes, professores e sindicalistas da universidade


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janeiro de 2012


Neruda, assassinado? A arapongagem na USP O corpo e o Direito Mulheres, a conferência nacional Clacso

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Os EUA e a derrota no Iraque

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A Globo e as Olimpíadas de 2012

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Jornalismo em quadrinhos A mesma luta de duas palestinas O asfalto como pauta O Congresso Fora do Eixo

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Cartas

4

Espaço Solidário

5

Direito

18

Diversidade

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Nossa Estante

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Toques Musicais

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Penúltimas Palavras

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A Privataria e a maioridade da outra mídia Na noite do fechamento desta edição, em 21 de dezembro, os jornalistas Paulo Henrique Amorim e Amaury Ribeiro Jr., e o deputado federal Protógenes Queiroz, participavam de um debate no Sindicato dos Bancários de São Paulo. Protógenes anunciava que já tinha quantidade de assinaturas suficiente para a instalação de uma CPI que teria como base a vasta documentação publicada no livro A Privataria Tucana, e o autor, Amaury, garantia que, além do publicado, tinha muito mais documentos a oferecer à CPI. O episódio das privatizações no governo FHC foi debatido no último dezembro como “nunca na história deste País”. Não que não existissem motivos para isso. O livro O Brasil Privatizado, do jornalista Aloysio Biondi, lançado em 1998, também foi um best-seller. Vendeu mais de 140 mil exemplares. O de Amaury, dez dias após o lançamento, já atingia a marca de 120 mil.

O fenômeno de A Privataria teve muito a ver com a nova esfera da comunicação do Brasil, a blogosfera, porque, num primeiro momento, a mídia tradicional ignorou completamente a publicação. E, num segundo, para tratar do livro sem falar dele, decidiu atacar os blogueiros que o repercutiam. Nas palavras de um dos seus colunistas imortais, esses blogueiros seriam “chapas-brancas” por destacarem um trabalho de um “propagandista de campanha petista”. A raiva dos colunistas indignados tinha mais a ver com despeito e perda de espaço do que com qualquer outra coisa. A editora de A Privataria Tucana não enviou o livro a nenhuma das chamadas “grandes redações” antes do seu lançamento.

Quem teve acesso ao trabalho antes do lançamento, que aconteceu numa entrevista ao vivo realizada por alguns dos chamados “blogueiros sujos” com Amaury Ribeiro Jr. foram apenas esses blogueiros e a redação da revista Carta Capital. Esse livro deixa uma lição.

Além de ser uma reportagem investigativa muito bem realizada, com provas contundentes de que parentes de tucanos graúdos, como o ex-governador José Serra, abriram offshores em paraísos fiscais para internalizar recursos no Brasil, também se torna uma referência para discutir o novo momento midiático. A mídia tradicional comercial não fala mais sozinha. E pode até ficar calada, que, se a outra esfera da comunicação, formada por blogueiros e ativistas de redes sociais, tiver uma pauta comum, o assunto entra na agenda.

No caso da bolinha de papel, na campanha de Dilma, isso já tinha ficado claro. Mas havia quem dissesse que aquilo só acontecera por conta do calor do momento. E agora? O sucesso de A Privataria Tucana é o atestado de maioridade da outra mídia, que precisa ser respeitada como um importante espaço de comunicação. Se governos considerados progressistas continuarem apenas olhando para os velhos veículos de sempre é porque não têm interesse no novo. E não são progressistas. Selo FSC

Publicação da Editora Publisher Brasil. Editor: Renato Rovai. Editor executivo: Glauco Faria. Edtora de arte: Carmem Machado. Colaboradores desta edição: Adriana Delorenzo, Alexandre de Maio, Carlos Carlos, Cynthia Semíramis, Fernando Luiz Lara, Idelber Avelar, Igor Carvalho, Julinho Bittencourt, Moriti Neto, Mouzar Benedito, Pedro Alexandre Sanches, Pedro Venceslau, Túlio Vianna, Sâmia Gabriela Teixeira, Vange Leonel e Victor Farinelli. Ilustração de capa: Thiago Balbi. Revisão: Denise Gomide e Luis G. Fragoso. Estagiários: Camila Cassino e Carolina Rovai. Administrativo: Ligia Lima e Pâmela dos Santos. Representante comercial em Brasília: Joaquim Barroncas (61) 9972.0741. Publisher Brasil: Rua Senador César Lacerda Vergueiro, 73, Vila Madalena, São Paulo, SP, CEP 05435-060. Contatos com a redação: (11) 3813.1836, e-mail: redacao@ revistaforum.com.br. Para assinar Fórum: assine@revistaforum.com.br, http://assine.revistaforum.com.br. Portal: www.revistaforum.com.br. Impressão e CtP: Bangraf. Distribuição: Fernando Chinaglia. Fórum Outro Mundo em Debate é uma revista inspirada no Fórum Social Mundial. Não é sua publicação oficial. A divulgação dos artigos publicados é autorizada. Agrade­cemos a citação da fonte. Matérias e artigos assinados são de responsabilidade de seus autores. Circulação desta edição: 10/01/2012 a 9/2/2012 Conselho Editorial: Adalberto Wodianer Marcondes (Agência Envolverde), Alipio Freire (jornalista), Artur Henrique dos Santos (CUT), Beatriz da Silva Cerqueira (Coordenadora do Sind-UTE/MG ), Cândido Castro Machado (Sindicato dos Bancários de Santa Cruz), Cândido Grzybowski (Ibase), Carlos Ramiro (Apeoesp), Claiton Mello (FBB), Eduardo Guimarães (Movimento dos Sem Mídia), Gustavo Petta (Conselho Nacional da Juventude), João Felício (CUT), Jorge Nazareno (Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco), Lúcia Stumpf (Coordenação dos Movimentos Sociais), Luiz Antonio Barbagli (Sinpro-SP), Luiz Gonzaga Belluzzo (economista e professor da Unicamp), Marcio Pochmann (economista e professor da Unicamp), Maria Aparecida Perez (educadora), Moacir Gadotti (Instituto Paulo Freire), Paul Singer (economista e professor da USP), Paulo Henrique Santos Fonseca (Sindicato dos Bancários de BH), Ricardo Patah (Sindicato dos Comerciários de São Paulo), Roberto Franklin de Leão (CNTE/CUT), Rodrigo Savazoni (Intervozes), Sérgio Haddad (Ação Educativa), Sergio Vaz (Cooperifa), Sueli Carneiro (Geledés), Vagner Freitas de Moraes (Contraf/CUT) e Wladimir Pomar (Instituto de Coope­ração Internacional). janeiro de 2012

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Três anos de crise global (edição 103)

K.: Não temos o direito de esquecer (Blogue do Mouzar)

Eu entendo que o estado em que se encontram os setores de produção em larga escala (indústria automobilística, por exemplo) – nos quais o custo do investimento e a consequente amortização exigem não só a manutenção, mas o crescimento da demanda pelos seus produtos – deverá ser a gota d’água para a recessão que vem aí. Gostaria de ler alguma opinião sobre essa possibilidade.

Que a Comissão da Verdade possa, pelo menos, revelar aos brasileiros – principalmente aos que não querem entender a extensão da tragédia que foi a ditadura – o que realmente foi praticado naquele período. Que se possa apurar o destino de tantos que até hoje continuam como desaparecidos. Se não se pode julgar os torturadores, que sejam, ao menos, nomeados. Torço para que a Comissão da Verdade seja firme em seus propósitos. O Brasil merece ter sua História escrita como ela foi. Não como a ditadura midiática insiste em contá-la.

Eduardo

Choque: recuo do gelo do Oceano Ártico libera gases de efeito estufa mortais (página eletrônica) O mais impressionante disso tudo é que, em vez de se preocuparem mesmo com essa situação, os sentados na grana estão gostando do derretimento do gelo do Ártico!!! Pois assim eles conseguirão explorar/navegar a/pela área para extrair mais petróleo e mais gás para os nossos carros e indústrias (poluidoras)... Será que eu sou o único que consegue ver que isso irá destruir completamente a nossa “civilização”?!!! Não existirá ninguém para consumir esses recursos e o dinheiro não servirá para nada!!! Rico é mesmo muito mais burro do que pobre. Pobre ainda se ajuda! Rico só quer saber de &&$*%*& o próximo. Thiago Martins

Eleições: Espanha vira à direita (página eletrônica) A Espanha vira à direita ou capota à direita? Lula é o grande estadista de hoje, e ainda vai se tornar maior. A economia que dá certo é a da distribuição de renda. Um exemplo paradigmático é: Bill Gates terá tanto dinheiro pra que e suas empresas irão até aonde se um dia não houver pessoas que comprem seus produtos? É uma equação simples, que os gananciosos não querem entender. Assim caminha a humanidade.

Ignez

Quando a fala vem de um estrangeiro, a credibilidade aumenta (Blogue do Dennis de Oliveira) Mestre, enquanto não bombardearem aquele país, o povo e “certa mídia” (como diz J. Dirceu) não sossegam. Só que essa mídia é a mais poderosa do mundo, bem como o exército dos países associados, que querem se lambuzar no petróleo iraniano até fartaremse. Em um e-mail recebido sobre Teerã, nota-se que é uma cidade moderna, parece que estamos na Europa. Troquei conversas durante algum tempo com uma iraniana que frequentava a universidade e trabalhava: a imagem da sociedade atrasada, em que todas as mulheres são capacho dos homens e que não tem ligação com o modo de vida ocidental, é o estereótipo no qual se apoiam os que querem ver o Irã bombardeado e suas riquezas saqueadas. Quanto à questão de fundo, é isso mesmo: quem tem direito de dizer quem tem direito a construir e ter armas nucleares? Quem deveria se queixar é o Irã, já que Israel tem várias ogivas e meios de lançá-las. Quem ameaça, de fato, a paz mundial?

Entre em contato. A Fórum é feita com sua colaboração. Dê sua sugestão, critique, opine, faça a revista conosco. Nosso e-mail é redacao@revistaforum.com.br e o endereço é rua Senador César Lacerda Vergueiro, 73, Vila Madalena, São Paulo, SP, CEP 05435-060. A Fórum reserva-se o direito de editar as cartas e e-mails por falta de espaço ou para facilitar a compreensão.

SERVIÇO AO ASSINANTE (11) 3813.1836 | assine@revistaforum.com.br | www.publisherbrasil.com.br/revistaforum janeiro de 2012

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Atribuição e Compartilhamento pela mesma Licença 2.5 Brasil

Flávio Pietro

Lucio-PB

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Feira de Natal Diferente em São Paulo No último dia 10 de dezembro, na Avenida Paulista, centro financeiro de São Paulo, ocorreu a VI Feira de Saúde Mental e Economia Solidária, realizada pela Rede de Saúde Mental e Economia Solidária, com venda de produtos fundamentados nos princípios do comércio justo e exibições artísticas. O evento ocupou o espaço do Parque Mário Covas. Foram 63 empreendimentos solidários na exposição itinerante, que já foi montada em locais como a Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP). Tendo como um dos eixos a difusão do debate sobre a reforma psiquiátrica antimanicomial, a feira une economia solidária e saúde mental, conceito surgido no encontro do Ministério do Trabalho e Emprego, via Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes), com o Ministério da Saúde. Assim, foi criada a oficina inspiradora do nascimento da Rede de Saúde Mental e Economia Solidária – espaço articulador de experiências de inserção no trabalho constituídas por trabalhadores usuários da Rede de Saúde Mental do Estado de São Paulo, que atua estabelecendo relações entre as temáticas. A Feira de Natal comercializa produtos originários de projetos, oficinas e empreendimentos solidários que promovam a inclusão social de usuários da Rede de Saúde Mental por meio de arte, cultura e trabalho. Na tarefa de comercialização, o evento enfatiza ideias como a sustentabilidade ambiental e o consumo consciente. Neste ano, as apresentações artísticas incluíram vários gêneros, como teatro – com a peça As quatro velas de Natal –, música, dança, rap, DJs e também grupos como o Teatro do Oprimido, Cidadãos Cantantes e Dança Cigana. Também houve exposição de quadros e gravuras. De acordo com a organização da Feira de Natal Diferente, o evento, além de conferir visibilidade às questões relacionadas à reforma psiquiátrica antimanicomial, possibilita maior retorno aos trabalhadores na comercialização de produtos do que em outras feiras. Em 2012, já existem três datas para que a Rede de Saúde Mental e Economia Solidária realize eventos. Estão previstas, no Parque Mário Covas, feiras para 19 de maio, 4 de agosto e 13 de outubro.

Relatório aponta trabalho análogo à escravidão em unidades de terapia A reforma antimanicomial objetiva o fechamento de manicômios e a inclusão social de pessoas com doenças psiquiátricas. Além disso, a proposta busca o tratamento sem segregação, o que seria feito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Entre várias ações realizadas para descortinar a situação da rede de saúde mental brasileira, as Comissões de Direitos Humanos do Sistema Conselhos de Psicologia e os Conselhos de Psicologia utilizam, além de intervenções cotidianas, dispositivos da Campanha Nacional de Direitos Humanos e inspeções nacionais em unidades que privam pessoas da liberdade sob justificativas de cuidados e tratamentos. Coordenada pela Comissão Nacional de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia e envolvendo os atuais Conselhos Regionais de Psicologia, a inspeção nacional contou com o apoio de vários parceiros, entre eles, aproximadamente 200 militantes de direitos humanos, vindos de movimentos sociais e de instituições de defesa dos direitos da cidadania, como defensorias e procuradorias públicas. Em setembro último, os organismos inspecionaram 68 estabelecimentos em 24 estados do País, o que resultou na produção de um relatório, publicado em dezembro, que permite conhecer a realidade das unidades de internação. Neste ano, foram as muitas denúncias, recebidas pelo Observatório de Saúde Mental e Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia, que geraram a determinação de abordar a questão das drogas como elemento propulsor das inspeções.

Ao lado, Coral Cidadãos Cantantes

Fotos: leo PinHo

Feira de Natal comercializou produtos originários de projetos, oficinas e empreendimentos solidários

Fundamentalmente, a inspeção orientou-se por dois eixos. A necessidade de intervir e qualificar o debate sobre o tema das drogas e os riscos das propostas veiculadas pela mídia, que ameaçam direitos humanos e sociais dos usuários de álcool e outras substâncias. Especificamente sobre a discussão do trabalho, o que passa pela questão da economia solidária, a inspeção nas comunidades terapêuticas encontrou a volta à prática da laborterapia, muito utilizada nos manicômicos. Diferentemente do trabalho autogerido e emancipador, o método impõe tarefas aos internos. Nesse sentido, o relatório da inspeção aponta a seguinte avaliação: “O trabalho − forçado, não remunerado, sem sentido e perspectiva − recebe aqui, como nos hospícios, a mesma nomeação: laborterapia. Na prática, é nada mais nada menos que a realização de tarefas cotidianas de manutenção da estrutura física da instituição, como lavar, passar, cozinhar etc. O trabalho assume, nesta proposta de tratamento, a mesma adjetivação dada pelo manicômio e pelas prisões, o caráter de puro imperativo moral. Trabalha-se para combater o ócio, para limitar a liberdade e submeter à ordem. Mas, também, trabalha-se para gerar lucro para outrem, trabalha-se sem direito a remuneração ou a qualquer forma de proteção.” Segundo as organizações de defesa dos direitos humanos, a laborterapia assume caráter análogo ao trabalho escravo e ressurge como maneira de dispensar a presença de trabalhadores contratados e remunerados, tornando mais lucrativas as atividades das instituições. “Ninguém, seja portador de sofrimento mental, usuário de álcool e outras drogas, seja o homem de razão que não faça uso de qualquer aditivo, pode ter o direito ao trabalho reduzido à condição de tratamento. Trabalho é direito e, como tal, deve ser respeitado. Caso contrário, é violação de direito, não tratamento”, conclui o relatório. Para ler o relatório na íntegra, acesse o endereço eletrônico http:// www.pol.org.br/pol/export/sites/default/pol/noticias/noticiaDocumentos/ Relatorio_Inspecao_Direitos_Humanos.pdf. As fotos acima estão em: http://www.flickr.com/photos/saudeecosol/sets/72157628376297431/

divulgação solidária – A Fórum dedica este espaço à divulgação de

iniciativas ligadas à economia solidária. Se você participa ou promove algum tipo de empreendimento relacionado ao comércio justo e solidário, entre em contato conosco para divulgá-lo. janeiro de 2012

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O Código Neruda Justiça chilena questiona versão de morte em decorrência de um câncer, e testemunha-chave garante que o poeta foi assassinado Tenho pronta a minha morte, como uma roupa que me espera, da cor que eu gosto, da extensão que inutilmente procurei, da profundidade que necessito. Quando o amor gastou sua matéria evidente e a luta consome seus martelos em outras mãos de acrescentada força, vem a morte apagar os sinais que foram construindo tuas fronteiras. (trecho do poema A Morte, de Pablo Neruda)

por Victor Farinelli, do Chile

O

s versos acima foram escritos por um homem cuja morte está cercada por alguns mistérios nunca antes questionados, e que podem estar prestes a desmoronar. Sua biografia oficial diz que sucumbiu a um câncer em estado avançado e parecia que a morte havia apagado outros sinais, mas os novos indícios, surgidos nos últimos meses, demonstram que o tumor não gastou sua matéria de forma evidente, e a extensão, que ele diz ter inutilmente procurado, garante que as investigações terão a profundidade que se necessita. Pablo Neruda não morreu de câncer. Essa seria a principal revelação apresentada pelo expediente ROL 1038-2011, com base na análise dos antecedentes clínicos disponíveis e dos primeiros exames revelados pela nova exumação de seus restos mortais, que, apesar de ainda não poderem apontar com exatidão a verdadeira causa da sua morte, já descartaram a versão que se manteve como oficial durante quase 40 anos.

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E como morreu, então, o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1971, que efetivamente sofria de câncer na próstata? A investigação judicial realizada pela Corte de Apelações de Santiago, liderada pelo promotor Mario Carroza (que também trabalha em outros 725 casos ocorridos na ditadura e recentemente reabertos, entre os quais se destacam o de Neruda, o do ex-presidente Salvador Allende e o do brigadeiro Alberto Bachelet, pai da ex-presidenta Michelle Bachelet), já dura sete meses e conta com um testemunho-chave, que sustenta uma tese especialmente polêmica: Neruda teria sido assassinado pela ditadura que nascia liderada por Pinochet. Trata-se do taxista Manuel Araya, ex-militante da Juventude Comunista chilena durante o governo da Unidade Popular, que havia sido designado pelo partido para ser o assistente pessoal do poeta quando este regressou ao seu país natal, em 1972, para apoiar o amigo Salvador Allende, que sofria forte pressão dos setores empresariais chilenos e da embaixada

dos Estados Unidos. “Neruda foi envenenado por uma injeção que lhe aplicaram na Clínica Santa María, não tenho nenhuma dúvida de que a nova exumação confirmará o que estou dizendo”, garante o motorista. Como se chegou a esse ponto crucial na história de uma das maiores referências da literatura ocidental contemporânea? Por que essa hipótese nunca foi discutida durante todos esses anos? E o mais intrigante: por que os mais interessados em apurar a verdade estão sendo questionados pela entidade criada para cuidar do legado do escritor?

Como morreu Pablo Neruda?

Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, o homem por trás do pseudônimo Pablo Neruda, faleceu em 23 de setembro de 1973, às 22h30, numa cama da Clínica Santa María. A causa da morte, segundo o atestado de óbito registrado no mesmo dia do falecimento, seria a metástase de um câncer na próstata. Porém, horas depois desse registro, o diário El Mercurio, historicamente o de maior circulação no Chile,


chegou às bancas com a notícia, mas trazendo uma versão muito diferente: o poeta foi vítima de uma parada cardíaca, ocorrida depois que uma injeção de calmante provocou um choque, que agravou seu estado. A direção do Partido Comunista chileno já conhecia a versão do seu ex-militante Manuel Araya, mas precisava de alguma evidência mais concreta para poder pedir a reabertura do caso. “Além do El Mercurio, os demais jornais da cidade também reproduziram a versão da morte por parada cardíaca com aplicação de uma injeção, e o contraste com o escrito no atestado de óbito foi o primeiro indício concreto de que a versão de Araya fazia sentido”, explicou Eduardo Contreras, advogado do Partido Comunista, parte denunciante no processo. Outro indício importante levantado por Contreras foi o fato de a Clínica Santa María, onde Neruda faleceu, surpreendentemente ter afirmado aos investigadores que não possuía a ficha médica do paciente mais ilustre. Segundo a lei chilena, as fichas médicas devem ser preservadas por pelo menos 40 anos após a morte do paciente, prazo que ainda não se cumpriu, nesse caso. “Tenho certeza que o arquivo da clínica deve manter algumas fichas de mais de 50 anos, e a que estamos pedindo ainda não tinha 38 quando eles nos deram essa resposta”, sugere Contreras. Além disso, a de Pablo Neruda não foi a única morte sob suspeita ocorrida dentro da Clínica Santa María, durante a ditadura de Pinochet. Na tarde de 22 de janeiro de 1982, o ex-presidente chileno Eduardo Frei Montalva, antecessor de Salvador Allende, perdeu a vida, segundo o primeiro laudo a respeito, em decorrência de uma infecção bacteriana. A família Frei jamais acreditou nessa versão, e a nova exumação feita pelo Serviço Médico Legal encontrou resíduos de tálio e de mostar-

Neruda, já adoecido, e as manchetes dos jornais à época de sua morte

asses. de Com. da Corte de aPelaçÕes de santiago

da sulfúrica na estrutura óssea, o que seria um claro indício de envenenamento. As recentes investigações do caso também constataram que os médicos Helmar Rosenberg e Sergio González, que não trabalhavam na Clínica Santa María, entraram no quarto de Frei Montalva minutos após o falecimento, escoltados por agentes não identificados, e realizaram uma autópsia não autorizada pela família, na qual foram retirados todos os órgãos do tórax e do abdômen, os quais não foram conservados. Segundo o promotor Mario Carroza, que lidera as investigações sobre a morte de Neruda, sem deixar de considerar as diferentes circunstâncias em que vivia o país nos dois casos (“Neruda morreu pouco depois do golpe, quando ainda não havia uma estrutura montada para perseguir opositores, embora eles já estivessem sendo perseguidos”, lembra o promotor), as descobertas do Caso Frei Montalva poderiam levar a elementos importantes para o fato que investiga, mas antes seria preciso confirmar com exatidão a causa da morte do poeta. “Os restos mortais de Neruda foram muito mais reduzidos que os de Frei e, para podermos encontrar as coincidências do caso, precisaríamos ter uma prova concreta de que envenenamento, o que ainda não foi determinado pelo Serviço Médico Legal”, especificou Carroza. O expediente ROL 1038-2011, por enquanto, somente descarta a possibilidade de que a morte tenha sido produto de metástase do câncer. O relatório médico anexado ao expediente foi realizado pelo Departamento de Criminalística da Polícia de Investigações do Chile e enviado à Brigada de Direitos Humanos em 16 de agosto de 2011. No informativo Nº 75 do relatório médico, se encontram as análises de 13 exames médicos realizados no poeta nos meses anteriores a sua morte, acompanhadas de uma O promotor Mario Carroza lidera a investigação judicial que já dura sete meses

carta escrita e assinada pelo médico pessoal de Pablo Neruda, Guillermo Merino, na qual ele informa ao médico urologista Vargas Salazar que o tumor que ele apresentava na próstata era benigno, e não maligno. Porém, o mesmo informativo destaca exames referentes a um tratamento de radioterapia com cobalto, realizado entre março e abril de 1973, com um parecer que determina que esse tipo de tratamento radioterápico é recomendado somente para casos de tumores malignos, e não benignos. Finalmente, o ponto decisivo do expediente está nas duas afirmações principais contidas no anexo “Conclusões Médico-Criminalísticas”, onde se informa, no capítulo 1: “Não dispomos de exame objetivo capaz de afirmar com certeza a causa da morte do senhor Pablo Neruda.” Porém, o capítulo 4 indica: “Quanto aos exames que poderiam orientar a presença de metástase, estes apontaram resultados normais, o que poderia significar, entre outras possibilidades, que não há tumor maligno, ou que este estaria circunscrito somente à glândula, ou se normalizou devido ao tratamento radioterápico. Como não contamos com os antecedentes clínicos do paciente, não é possível indicar uma conclusão entre essas alternativas.”

Quem quer saber a verdade?

Em 12 de maio de 2011, dias depois de a Corte de Apelações anunciar o início das investigações sobre a causa da morte do poeta, a Fundação Neruda – administradora dos museus instalados nas três casas que constavam de seu patrimônio no momento da morte – emitiu uma curiosa nota condenando a reabertura do caso. “Não existe evidência alguma que indique que Pablo Neruda tenha morrido por outra razão que não o câncer avançado do qual se queixava há anos [...] Não parece razoável construir uma nova versão da morte do poeta com base somente na opinião de seu chofer, o senhor Manuel janeiro de 2012

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Araya, que insiste em sua teoria, porém, sem nenhuma outra prova além do seu próprio parecer. Consideramos mais sérios e confiáveis os testemunhos das pessoas que estiveram com Neruda nos últimos dias de sua vida”, dizia o comunicado. Quem eram essas “pessoas que estiveram com Neruda nos últimos dias de sua vida”, a quem a Fundação se refere? Segundo o expediente ROL 1038-2011, na página 113 (de um total de 209) figuram dezenas de depoimentos que negam de forma categórica a possibilidade de que Neruda tivesse morrido por outra razão que não o câncer. Curiosamente, todas essas testemunhas estão vinculadas à Fundação Neruda. A instituição foi fundada e é até hoje presidida pelos irmãos Agustín e Aída Figueroa. Conforme Manuel Araya, “eles se apropria-

ram do patrimônio de Neruda com a ajuda de Pinochet e levaram a senhora Matilde (Urrutia, viúva do poeta) a lhes entregar um testamento que validasse essa entrega, para poder fazer o que fazem hoje, tratar o legado dele como um negócio”. Os museus administrados pela Fundação Neruda cobram um preço de entrada equivalente a R$ 10, além do arrecadado pela loja de souvenirs, que vende livros, camisetas, bolsas, CDs e DVDs, entre outros artigos relacionados ao autor. O ex-assistente pessoal de Neruda alega que ele tinha um testamento, que teria sido ocultado pelos agentes da ditadura, no qual entregava todo o seu patrimônio, incluindo as três casas que funcionam hoje como museu e quase tudo o que é exibido dentro delas, aos trabalhadores mineiros, à Central Única dos Trabalhadores e ao Parti-

do Comunista Chileno. A Fundação Neruda defende a tese de que o escritor nunca teve um testamento reconhecido. Com ou sem testamento reconhecido, o fato é que Pablo Neruda, depois de morto, já não tem mais “pronta” sua morte, que está sendo reescrita. Ou, quem sabe, este capítulo póstumo de sua história reivindicada seja um breve renascimento, em busca da verdade que lhe permita, finalmente, descansar em paz. Como na primeira estrofe do poema já citado: Renasci muitas vezes, das profundezas de estrelas derrotas, reconstruindo o fio das eternidades que povoei com minhas mãos, e agora vou morrer, sem nada mais, com a terra sobre meu corpo, destinado a ser terra.

A frustrada fuga de Pablo Neruda por Victor Farinelli, do Chile

A versão do assistente pessoal sobre os últimos 12 dias de vida do poeta

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“T

emos que ter pressa! Pablo disse que lhe aplicaram uma injeção na barriga, não está entendendo nada e pediu que voltássemos com urgência”, implorava Matilde Urrutia a Manuel Araya, após falar ao telefone com o marido. Era 23 de setembro, uma fria e nublada, porém não chuvosa, tarde em Isla Negra, no litoral central chileno. O país passava por dias cinzentos em todos os sentidos, e aquela chamada iniciava o desfecho de uma das mais obscuras histórias vividas naquele período. Neruda não costumava ir para a cama cedo, e 12 dias antes de sua última ligação, na madrugada que iniciava o fatídico 11 de setembro de 1973, sequer pode dormir. Por volta das 4 horas, no mesmo casarão com vista para o mar, em Isla Negra, sentado à mesa da cozinha, acompanhou, através de uma emissora de rádio argentina, as primeiras notícias sobre obstruções militares nos caminhos fronteiriços entre Santiago e Mendoza, e tropas que partiam do Sul do Chile em direção à capital. O poeta havia regressado a seu país natal em novembro de 1972, quando abandonou a embaixada chilena na França para apoiar o governo de seu amigo Salvador Allende, que enfrentava forte resistência por parte de empresários e fazendeiros, que, por sua vez contavam com forte ajuda, inclusive financeira, da embaixada estadunidense. O Partido Comunista, do qual Neruda era militante histórico, havia então designado o jovem Manuel Araya como seu assistente pessoal, um cargo que acumulava funções de assessor administrativo, mensageiro, motorista e, principalmente, guarda-costas. “Eu o achava muito chato, havia visto palestras dele no partido, onde falava por horas, e dava sono. Os meses em que convivemos juntos foram os melhores da minha vida, embora, por causa deles, os meus anos posteriores terminassem sendo os mais dolorosos”, resumiu o hoje taxista aposentado, que naquela madrugada estava sentado ao lado do seu protegido, escutando os movimentos que antecediam o ataque ao Palácio de La Moneda.


França rumo ao Chile, para fugir da ditadura franquista), vividas naqueles anos. Ao terminar o relato, alertou o seu discípulo: “Quando eles pegarem você, porque, cedo ou tarde, eles vão te pegar, você terá que ser valente, sua missão será a de não revelar nada a ninguém, mesmo que isso custe a sua vida”, e terminou com uma mão sobre o seu ombro, o que fez aquilo parecer reconfortante, apesar do tom assustador daquelas palavras. Os três dias posteriores foram de tensão. Os sinais de rádio chagavam novamente ao casarão, mas o telefone funcionava somente para receber ligações. Dentro da casa, com Neruda, estavam sua esposa Matilde, sua meia irmã Laura, Manuel Araya e um grupo de mais ou menos dez empregados. A ânsia por algum contato com seus companheiros de partido não gerara nenhum intento mais concreto, mas logo descobriram que os militares que rodeavam a Isla Negra supunham algo parecido. No dia 14, no começo da tarde, os soldados invadem a residência em busca de possíveis dirigentes do Partido Comunista que pudessem estar escondidos. Aceitaram poupar os anfitriões do incômodo e os deixaram tranquilos no aposento principal, enquanto Araya os guiou por toda a casa, onde encontraram somente jardineiros, cozinheiras e enfermeiras. Aquela invasão despertou em Neruda a necessidade de uma reação mais concreta contra o golpe. Sentiu que sua própria vida poderia correr perigo, mas principalmente a dos que o cercavam. Decidiu que, para poder lutar contra aquele regime, precisava estar longe dele. No dia seguinte, todos os criados foram dispensados, recebendo os salários correspondentes a todos os últimos meses do ano. Sua irmã também conseguiu uma carona de uma família vizinha para retornar a Temuco. Manuel Araya foi o único que contou com a confiança do casal e pôde se manter ao seu lado naquele momento, e também a única testemunha dos primeiros movimentos para o plano de fuga. O telefone do casarão voltou a estar totalmente mudo, o que obrigou o poeta a ir até uma hospedaria próxima, para fazer os primeiros contatos com seus colegas diplomatas. “Ele sempre manteve boas relações e recebia visitas frequentes de pessoal de todas as embaixadas instaladas no país, exceto com a dos Estados Unidos, a qual ele sabia que era o quartel general do golpe”, ressaltou Araya.

divulgação

Após as notícias da emissora argentina, todas as comunicações por rádio e telefone foram cortadas, e o que aconteceria depois era previsível, pelo menos para Neruda, que já esperava um cenário que tentasse impedir Allende de anunciar o plebiscito, com o qual buscaria o respaldo popular para a continuação de sua revolução democrática. O presidente chileno visitava Neruda semanalmente, no casarão de Isla Negra, para pedir conselhos, e também semanalmente era advertido pelo amigo sobre o golpe de Estado, que este considerava iminente. A última visita coincidiu com os alertas mais enfáticos do anfitrião, e teria sido dias depois da nomeação do general Augusto Pinochet como comandante das Forças Armadas – “não creio que seja barco para este porto”, teria dito o poeta sobre o futuro ditador, segundo Araya. A principal preocupação durante a última visita também ditou o suspense daquela feia manhã: poderia Salvador Allende sair do palácio com vida? O isolamento, que se tornou ainda maior ao meio-dia, com tropas militares cercando o balneário onde se localizava o casarão e avisando os residentes que estava proibido circular pelas ruas ou pela praia, parecia ser um sinal, e não dos melhores. Araya sentiu que a vida de seu protegido também corria perigo, convicção que se confirmou quando o próprio poeta tomou sua mão esquerda para perguntar de forma emocionada: – Companheiro, você não vai me abandonar, vai? – Jamais, meu capitão! E se disparam contra o seu peito, eu me ponho adiante para receber a bala por você – teria sido a resposta, que emocionou seu mentor. O jovem Manuel Araya aprendeu muito durante aqueles dez meses em que conviveram, inclusive exercícios de estímulo à expressão poética. As aulas, após aquele juramento e durante todo o resto do dia, foram de história. Neruda conheceu seu primeiro golpe militar quase 40 anos antes daquele: ele trabalhava no consulado chileno em Madri quando estourou a Guerra Civil Espanhola. Mesmo estando isolado em Isla Negra, imaginava as similitudes entre os dois eventos e recriava suas maiores penas (comparou a dor da presumível morte de Allende à que sentiu quando soube do assassinato do também amigo Federico García Lorca pelas mãos do exército nacionalista espanhol), e também suas glórias (recordou sua gestão no projeto Winnipeg, que culminou com o resgate de mais de 2 mil refugiados espanhóis, que partiram da

Manteve conversações com vários deles, e também com o cardeal Raúl Silva Henríquez, a quem o poeta costumava qualificar como “o meu melhor contato com Deus”, e obteve respostas positivas de Gonzalo Martínez Corbalá, embaixador do México no Chile, que havia acabado de retornar de seu país, onde havia levado dezenas de refugiados chilenos, entre os quais se encontrava Hortensia Bussi, viúva de Salvador Allende. Corbalá trazia uma ordem expressa do presidente mexicano Luis Echeverría, para oferecer a Neruda estadia em seu país por tempo indeterminado, na qualidade de convidado de honra. Os planos para a fuga foram feitos desde o dia 17, com mais pressa que cuidado. Neruda acreditava que os militares, por piores que fossem, respeitariam as autoridades diplomáticas. Deu entrada no pedido de salvoconduto respaldado pela embaixada mexicana, e logo foi atendido. Acreditava que, com ele em mãos, não haveria maiores obstáculos em seu caminho: “Mal desço do avião e já denuncio esses tiranos para toda a comunidade internacional”, teria garantido diante de Araya e do embaixador Martínez Corbalá. Logo, surgiu um problema crucial. Neruda, de 69 anos, sofria de câncer na próstata, detectado havia mais de um ano. Quando voltou ao Chile após ser embaixador na França, levou consigo uma bateria de exames que permitissem seguir fazendo o acompanhamento da doença em seu país natal. Com o salvo-conduto em mãos, e a viagem marca-

Manuel Araya: ex-assistente pessoal do poeta é testemunha-chave para a investigação sobre a morte de Neruda

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da para 24 de setembro, Neruda foi levado à Clínica Santa María, em Santiago. “Sentiu dores no dia 20, e já não tinha as enfermeiras particulares por perto, mas não era um quadro grave, e o levamos para a clínica somente porque achávamos que era o lugar mais seguro onde poderia esperar pelo dia do embarque para o México”, relatou Manuel Araya, que enfatizou sua discordância da versão oficial, de que a morte do poeta teria sido causada pela metástase daquele câncer, dizendo que não foi a única testemunha que o viu ativo e falante durante os 12 dias após o golpe e nas 48 horas finais na clínica, ressaltando também que o oferecimento do presidente mexicano comprovaria sua tese. “Quem concederia a um moribundo um convite que o sujeitaria a uma viagem de quase 15 horas, que provavelmente seria fatal”? Veio então o fatídico 23 de setembro. Naquela manhã, um dia após sua internação, Neruda entregou a seu assistente uma lista de pertences que precisaria levar ao México, e que ainda estariam no casarão de Isla Negra (constaria na lista, por exemplo, os originais da incompleta obra póstuma do autor, a autobiografia Confesso que Vivi). Matilde Urrutia, esposa do poeta, decidiu acompanhar o jovem, porque saberia encontrar mais facilmente a maior parte dos itens listados. “Foi o erro que nos custou a vida dele, jamais deveríamos tê-lo deixado sozinho”, lamenta hoje Araya. Chegaram ao casarão pouco antes do meio-dia. Matilde reuniu rapidamente os itens requeridos pelo marido. O Citroën prateado do poeta já estava quase pronto para o retorno a Santiago, quando o menino de recados da hospedaria próxima ao casarão chegou correndo, avisando que haviam ligado da clínica, e que era urgente. Matilde ligou para o marido do telefone da hospedaria. Escutou um confuso Pablo Neruda dizer que uma pessoa havia entrado no quarto e aplicado uma injeção na altura do estômago e que, após aquele procedimento, suas dores haviam piorado sensivelmente. Araya diz que retornou a Santiago o mais rápido que pôde, ao lado da angustiada esposa. Chegaram à clínica pouco depois das seis da tarde. Neruda suava de febre e fazia perguntas a respeito da injeção que lhe haviam aplicado. Reportagem da Revista Ñ, da Argentina (¿Quién mató a Pablo Neruda? http://www. revistaenie.clarin.com/literatura/Pablo-Neruda-aniversario-muerte_0_549545224.html, de 6 de setembro de 2011), traz uma meia confissão do médico Sergio Draper, que trabalhava na Clínica naquela época: “Acho o cúmulo estar constantemente sob suspeita. Não

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cabia a mim atendê-lo (a Neruda), mas a enfermeira de turno me disse que ele se queixava de muitas dores, e eu disse para ela aplicar o medicamento recomendado pelo seu médico pessoal, se não me engano foi dipirona. Fui somente um interlocutor”. Minutos depois, um médico da clínica pediu a Matilde que providenciasse um remédio específico para conter a febre do ilustre paciente. Manuel Araya, que diz não poder identificar o médico que fez o pedido, foi escalado para a missão, após ter deixado os pertences de Neruda em mãos do embaixador mexicano Martínez Corbalá, que já estava na clínica, onde permaneceria até o último verso do poeta. O endereço dado pelo médico ficava do outro lado da cidade. O assistente seguiu a toda velocidade, cruzando as barreiras militares instaladas em diversos pontos da capital chilena. Araya lembra somente que estava numa avenida do setor sudoeste quando percebeu que dois carros, que ele não viu de onde surgiram, o cercaram pelos dois lados e fizeram

“Há mais de 20 anos eu sonho frequentemente com Neruda, e sempre o mesmo sonho: ele sentado numa cama como a da clínica, me pedindo que denuncie o assassinato, que revele a verdade sobre a sua morte”

sanduíche do Citroën prateado”. Percebeu tarde demais que tudo era uma armadilha, desde o pedido para buscar o remédio, e, naquele momento, já não havia possibilidade de resistência. Os golpes começaram antes mesmo de Araya entrar no veículo dos sequestradores, e foram piores depois que lhe puseram o capuz, que só foi retirado quando ele estava numa galeria do Estádio Nacional, entre milhares de outros presos políticos. Araya não sabe a que horas chegou ao Estádio Nacional. Não sabe dizer se foi antes ou depois da morte de Neruda, registrada às 22h30. Soube da morte do poeta cerca de seis dias depois, quando o cardeal Silva Henríquez, um dos melhores amigos de Neruda, foi ao estádio interceder por ele e por muitos outros colaboradores do governo de Allende. A notícia o devastou tanto quanto a tortura diária que sofria nos corredores do estádio. Foram 40 dias de socos, pontapés, golpes de corrente e pontas de cigarro queimadas em seu corpo

(“me pediam para confessar que era cubano, ou que tinha ligação com a embaixada de Cuba, que assim me libertariam, mas eu sabia que aquela confissão forçada seria para justificar o meu assassinato”), até que o cardeal conseguiu que o soltassem. O cardeal também conseguiu um emprego de taxista para Araya, que chegou a trabalhar como motorista de ônibus, durante os anos 1990, para depois retomar o táxi, há cerca de cinco anos. Apesar de os problemas econômicos terem sido uma constante em sua vida desde a saída do Estádio Nacional, não foram os maiores tormentos sofridos por ele desde então. “Há mais de 20 anos eu sonho frequentemente com Neruda, e sempre o mesmo sonho: ele sentado numa cama como a da clínica, me pedindo que denuncie o assassinato, que revele a verdade sobre a sua morte”, diz com um tom algo atormentado. Porém, sua primeira tentativa de restabelecer a verdade se deu antes dos primeiros sonhos com o poeta. Foi quando se encontrou com a então viúva Matilde Urrutia, em 1980, que na época vivia em um hotel no centro de Santiago. Relembraram todo o acontecido entre o dia do golpe e o da última viagem a Isla Negra. Matilde contou o que houve na clínica depois da saída sem retorno de Araya, que Neruda seguiu reclamando de dores até o último minuto (versão confirmada pelo embaixador Martínez Corbalá, em entrevista ao jornal mexicano La Jornada, de 28 de maio de 2011 http://www.jornada. unam.mx/2011/05/28/cultura/a04e1cul), contrariando a versão de que teria estado catatônico durante suas últimas horas de vida. O jovem, por sua vez, explicou a armadilha que o impediu de regressar aquele dia. Diante daquela versão, Araya propôs à viúva que denunciassem juntos o assassinato do poeta, mas se deparou com uma surpreendente negativa por parte dela, que teria alegado medo de que os agentes da repressão tomassem dela o pouco que lhe restava. “Tenho uma mágoa muito grande daquela mulher até hoje”, confessa o taxista, “ela poderia ter esclarecido isso ainda durante a ditadura, e não o fez por medo”. Em seu livro de memórias Minha vida com Pablo Neruda, Matilde Urrutia menciona Manuel Araya carinhosamente em diversos trechos relacionados aos últimos dias do marido. Em um deles, diz: “Era a única pessoa que tínhamos por perto nessas últimas horas, para nos ajudar. Pobre garoto, que vagabundeava com Pablo por mercados e lojas de antiguidades, desapareceu com o nosso carro, e com ele eu perdia a companhia que tinha em todas as horas daqueles dias difíceis”. F


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Uma história de espionagem na USP

Documento obtido com exclusividade por Fórum mostra como atividades de trabalhadores e estudantes são monitoradas dentro da maior universidade do Brasil Beraldo leal / FliCkr

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o dia 27 de outubro, três estudantes foram presos pela Polícia Militar na USP, acusados de portar maconha. A ação desencadeou um confronto entre alunos da universidade e a PM, que levou à ocupação do prédio de administração da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH). A principal reivindicação era a saída da PM do campus. Em 1º de novembro, porém, após uma tumultuada assembleia, os estudantes da USP aprovaram a desocupação do prédio da FFLCH. Mas na madrugada do dia 2, parte do grupo derrotado decidiu ocupar a reitoria. A ação desencadeou uma grande polêmica, tanto na universidade como na sociedade paulista. Muitos consideraram que o fato de a decisão da assembleia ter sido desrespeitada tirava a legitimidade daquela ação. A mídia comercial tradicional foi além. Tratou todo o movimento como algo de playboyzinhos e patricinhas maconheiros,

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que queriam a saída da Polícia Militar do campus para poder festar impunemente. A pauta era outra. Estava em discussão a revogação do convênio entre a PM e a universidade, o fim dos processos administrativos contra alunos, professores e funcionários e um novo regimento geral para a USP. Parece algo menor, mas guarda relação com a autonomia da universidade e com a sua necessária independência. Que outra universidade de país democrático tem polícia armada no seu campus? Mas isso não é tudo. Que outra universidade de um país democrático tem um esquema de arapongagem de alunos, professores e lideranças de trabalhadores no campus? Fórum recebeu e publica com exclusividade um relatório que detalha a preparação de uma greve em abril de 2010, que teria sido produzido pela “sala de crise” e enviado a Ronaldo Pena, diretor da Divisão Técnica de Operações e Vigilância da Coordenadoria do Campus (Cocesp), a quem cabe a

segurança local. É algo no padrão do que, à época da ditadura militar, faziam os agentes do Serviço Nacional de Informação (SNI). Na manhã de 16 de dezembro, uma sexta-feira, depois de ter concedido entrevista para o repórter Igor Carvalho no dia 8, o reitor João Grandino Rodas fez uma visita de cortesia à redação da Fórum. Na ocasião, foi informado de que a revista estava para receber ainda naquela tarde essa documentação e que gostaria de ouvi-lo. Rodas foi muito solícito e se colocou à disposição para tratar do assunto quando o documento chegasse às nossas mãos. Fórum entrou em contato com a assessoria do reitor naquele mesmo dia. Não obteve resposta. De qualquer forma, trechos da entrevista concedida por Rodas, tratando de outros aspectos relacionados à instituição, podem ser lidos a partir da página 15. Arapongagem numa universidade pública em tempos de democracia é algo assustador.


por igor carValho

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o dia 28 de abril de 2010, funcionários da Universidade de São Paulo discutiam se entrariam ou não em greve naqueles próximos dias. “1° Dia – 28/04 – Reconhecimento da unidade e dos locais de atuação nas assembleias.” Esse é o resumo da atuação de investigadores no dia em que foi inaugurado o trabalho da “Sala de Crise”. Durante os próximos 28 dias, cada passo da movimentação foi acompanhado de perto, e declarações dos diretores do sindicato foram transcritas. Tudo embasado em fotos e dados com sobrenomes de pessoas, departamentos nos quais trabalham, cargos e até detalhes sobre valores arrecadados para financiar a greve, discutidos dentro das reuniões do sindicato. As informações são pontuais e antecipam encontros de líderes e até movimentos estratégicos do comando da greve. No quarto dia descrito no relatório, 1º de maio, descobre-se que as pessoas contratadas para compor a “Sala de Crise” não aparentam ter um vínculo formal com a universidade. “Adentramos na unidade da USP Butantã com certa dificuldade, já que era feriado e estava fechada, podendo acessar apenas alunos e funcionários com credencial. Burlada a segurança pelo HU [Hospital Universitário] por onde se entra livremente com qualquer argumento. Percorremos todos os prédios e não havia nenhum tipo de encontro ou manifestação.” Já em 5 de maio, o resumo das operações dá conta do que aconteceu em reuniões de diversos departamentos da universidade, inclusive das sedes da USP localizadas em outras cidades. O Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (Crusp) foi um dos alvos. O relatório aponta: “Moradores do Crusp informaram que, se durante a greve cortarem a comida como é de costume em greve, irão invadir o bandejão”. Uma aluna, que pediu para não ser identificada, é moradora do conjunto há quatro anos e confirma a informação que consta no relatório. “Lembro muito bem, foi exatamente essa a nossa deliberação na reunião daquele dia.” Nem todas as reuniões que são descritas no relatório eram abertas. Algumas, de acordo com pessoas que protagonizaram esses encontros, eram bem restritas. Em vários trechos do documento, os investigadores comentam que tiveram informações privilegiadas, o que sugere uma possível colaboração de informantes de dentro dos movimentos.

Mas a investigação não se restringe apenas à forma como trabalhadores e estudantes organizam o movimento grevista, chegando mesmo a atingir a vida pessoal de pessoas da comunidade uspiana. O relatório de 16 de maio, o 19º dia de trabalho descrito no documento, fala sobre estudantes e médicos do Hospital Universitário que supostamente comprariam drogas na favela São Remo, localizada atrás do campus. “Para entrar na USP, tivemos que burlar a segurança pelo portão da favela (local complicado). Os vigilantes têm medo de ficar no local sem proteção, muitos estudantes compram drogas no local, incluindo médicos e funcionários do Hospital Universitário.” Lúcia Mendes de Oliveira Pinto é chefe de plantão do Hospital Universitário, durante a madrugada. Ela alega desconhecer essa prática. “Acho improvável, não temos, aqui, médicos com esse perfil nem outros funcionários. Nunca tive notícias de uso de drogas aqui no hospital, mas não podemos controlar o que as pessoas fazem fora dele”, afirma. Em um dos documentos, os investigadores antecipam o fechamento do prédio da reitoria. “23º dia – 20/05 – Às 9h ocorreu uma reunião com os funcionários da reitoria com a participação do Sr. Magno. Ficou decidido que na próxima terça, dia 25/05, haverá outra reunião com os funcionários da reitoria e o fechamento do prédio.” Magno Carvalho, citado no trecho acima, é diretor do Sintusp. Segundo ele, tal fato poderia indicar o uso de aparelhos eletrônicos de espionagem. “Há escutas plantadas em nossas salas nesses procedimentos, já que fizemos reuniões e sabemos que ali não haviam infiltrados, porque era gente só da diretoria. Isso aí é arapongagem, me lembra os tempos do DOI-CODI.” Órgão repressor Ronaldo Pena rebateu a criado pela ditaduafirmação do diretor. “Con- ra militar brasileira sideramos essa afirmação (1964-1985), para um saudosismo dos anos prender e torturar aqueles que de chumbo da ditadura que fossem contrários não existem mais.” ao regime. Para o diretor do Sintusp, há uma volta no tempo na composição do cenário político e social da universidade. “Se você pegar essas três coisas: militarização da universidade, processos administrativos e essa arapongagem, vai perceber que estamos de volta aos piores tempos da ditadura militar, dentro da USP.” Pena explica que a “sala de crise”, responsável pela elaboração do documento, “é passiva e consultiva e somente recebe os contextos cotidianos produzidos pelo meio natural de informações circulantes, não tem poder nenhum de mandar fazer

algo e, ainda mais, ilegal, como uma escuta.” Procurado por Fórum, o advogado de Magno Carvalho, Luiz Eduardo Greenhalgh, vai além e acusa Ronaldo Pena, que, segundo ele, é “um agente policial infiltrado, é a pessoa que faz a intermediação da USP com as delegacias e também responsável pela criminalização dos estudantes e profissionais da USP. A Constituição garante a existência de sindicatos, assim como a intimidade e não violação dos domicílios. Acho que as sedes dos centros acadêmicos, assim como o Sintusp, estão grampeados. A ‘sala de crise’ não tem nada de crise, é uma sala de controle. É uma mentira o que ele [Ronaldo Pena] diz, ele não atua dentro da legalidade”, finaliza. Nem mesmo a Faculdade de Direito, que fisicamente está distante do campus Butantã, escapou aos olhos e ouvidos dos informantes. Em 7 de maio, uma preocupação do diretor da faculdade, professor Antonio Magalhães Gomes Filho, foi revelada no relatório, mesmo não tendo aparente relação com a greve. “O diretor do Direito estava disposto a renunciar ao cargo porque não está conseguindo resolver os problemas devido ao reitor Rodas interferir nos assuntos e decisões, confidenciou a pessoas próximas e ao 11 de Agosto [XI de Agosto é o Centro Acadêmico da Faculdade de Direito].” Determinados trechos do relatório expõem inclusive as arrecadações feitas para financiar a greve e atuação do sindicato. É o que consta no 10 de maio, 13º dia de trabalhos investigativos. “PREFEITURA (da USP): Não fizeram reunião hoje (os funcionários). Já entregaram o valor arrecadado com o fundo de greve no valor de R$ 840,00”. A atuação sindical também está na pauta do 18º dia: “As faixas de ‘Greve’ em frente ao Coseas foram retiradas, provavelmente pelo pessoal da guarda. O pessoal do sindicato está furioso. Furaram os pneus da Kombi do sindicato e furtaram todos os panfletos que falavam mal do diretor, 10 mil panfletos. O Brandão disse que o professor Mazzola (sic) vai repor, se realmente foi a guarda. A Neli disse que foi a terceira vez que aconteceu.” O trecho pontua uma reunião entre os diretores do sindicato, após o furto de material de comunicação e danificação do carro da instituição.

Processos administrativos

O título X (dez), do Regimento Geral da USP, determina que alguns elementos do estatuto são transitórios. Em seu artigo 4º está escrito: “Enquanto não for aprovado o novo regime disciplinar pela CLR, permanecem janeiro de 2012

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em vigor as normas disciplinares estabelecidas no Regimento Geral da USP editado pelo Decreto 52.906, de 27 de Março de 1972.” Esse, talvez, seja o grande ponto de discórdia entre alunos e reitoria. O decreto vigora O decreto 52.906, do governador desde 1972, época da diLaudo Natel, foi retadura militar no País. Os digido pelo ex-reitor processos administrativos, Luis Antonio da Gama e Silva (1963- apoiados em regras dis1969). Ele também ciplinares, são aplicados é responsável por com base nesse decreto, redigir o AI-5, quanque, entre outras coisas, do era ministro da determina a proibição de: Justiça no governo Costa e Silva. “promover manifestação ou propaganda de caráter político-partidário, racial ou religioso, bem como incitar, promover ou apoiar ausências coletivas aos trabalhos escolares”, assim como “fazer inscrições em próprios universitários, ou em suas imediações, ou nos objetos de propriedade da USP e afixar cartazes fora dos locais a eles destinados”. No último dia 17 de dezembro, foi publicado no Diário Oficial de São Paulo a notificação sobre a expulsão de seis alunos da USP. A medida se apoia em um processo administrativo movido contra os alunos que ocuparam o Crusp, em 2010, e que foi estruturado com base no decreto 52.906. Uma das estudantes expulsas, Jéssica de Abreu, alega que “não há depoimentos, quem acusa é quem julga, funcionários subordinados são as únicas testemunhas, enfim, é um processo absurdo”. Para Aline, elas refletem a perseguição política que existe dentro da universidade. “Há 96 alunos sofrendo processos administrativos, e são sempre os alunos que se articulam politicamente, são alunos do movimento estudantil”, avalia. Rafael Alves é um caso emblemático da relação estabelecida entre o comando da Universidade e os alunos. Reconhecido por sua atuação política, o estudante foi jubilado uma vez, porém, recorreu e conseguiu, prestando um novo vestibular, voltar para a USP. “Não existe nenhuma prova de qualquer crime que eu tenha cometido, o que existe são boletins e inquéritos policiais abertos a mando da reitoria, por gente que ocupa cargos de chefia, da cúpula da universidade, provavelmente ameaçados pela perda de seus cargos e funções. Estou sempre nas assembleias, reuniões e congressos. Isso é, sim, perseguição política”, afirma (confira entrevista de Rodas na pág. 15). A administração do reitor João Grandino Rodas é questionada desde o princípio. O colégio eleitoral que escolhe o reitor da USP é com-

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posto pelos membros do Conselho Universitário, dos Conselhos Centrais (Graduação, Pós-Graduação, Pesquisa e Cultura e Extensão Universitária) e das Congregações das Unidades, cerca de 19 mil eleitores. Os oito nomes mais votados vão para um segundo turno, no qual o colégio eleitoral fica ainda mais restrito: somente os membros do Conselho Universitário e dos Conselhos Centrais votam, sendo que a lista tríplice é submetida ao governador.

Em uma lista de três candidatos, o exdiretor da Faculdade de Direito ficou em segundo lugar, perdendo para o professor Glaucius Oliva. Ignorando o resultado eleitoral, José Serra, então governador de São Paulo, nomeou Rodas. Essa posição do governador, de não referendar o vencedor do segundo turno, repetiu o ex-governador Paulo Maluf, que indicou Antônio Hélio Vieira, em 1981, quarto colocado de uma lista sêxtupla. F


O que diz o reitor João Grandino Rodas explicou, em entrevista exclusiva, algumas das principais críticas feitas a sua gestão. Confira trechos da conversa abaixo

por Igor Carvalho Fórum – Como o senhor recebeu a notícia de ter sido considerado persona non grata na Faculdade de Direito, da qual o senhor foi diretor?

Cecília Bastos / Jornal da USP

João Grandino Rodas – Primeira coisa, veja... Se você é persona non grata na USP e você não é da USP, conceitualmente está certo. Agora, na sua casa, ser declarado persona non grata, conceitual­ mente está errado. Segunda coisa: o quórum que decidiu isso era de 13 pessoas, ao final de uma reunião da Congregação, que não tinha na pauta o assunto. Não há dúvida nenhuma de que é um jogo político, claro. Daí, para me aborrecer com isso? Eu recorri por uma razão simples, me falaram: “você precisa recorrer”. acontecer sem ouvir a pessoa. Como você faz um negócio desse sem Primeiro, a faculdade não pode fazer isso, se os professores quise- ouvir ninguém? Isso depõe contra os próprios que o fizeram. A Farem fazer algo em nome próprio, tudo bem, mas não em nome da culdade de Direito não seguiu um processo legal, não obedeceu o faculdade, isso é irregular. Se a Faculdade de Direito quiser dar um contraditório, isso é um demérito para quem fez, e não para quem título de honoris causa, eles não podem oferecer diretamente, de- eventualmente recebeu. vem começar lá e isso vai para o Conselho Universitário. Se quiser dar um título de professor emérito, eles podem dar sozinhos o títu- Fórum – O regimento interno da USP é de 1972. Por que ele não é revisto lo, mas a faculdade tem regras, e isso que foi feito é absolutamente com o conjunto, com as pessoas da universidade? irregular, ainda mais em detrimento de uma pessoa. Por exemplo: Rodas – Em 1988, portanto, não tinha mais nada da “revolução” [aqui eu, como reitor, ou qualquer diretor, podemos chegar para qual- o reitor se refere ao período da ditadura militar], foi feito um novo quer aluno e falar: “Olha aqui, você foi declarado... qualquer coisa regimento que foi aprovado. Tem uma parte que é o regimento disnegativa”. A pessoa vai na Justiça e pede danos morais. Quer dizer, ciplinar, então, é assim: “Você é funcionário, falta 3 dias...”. É um deé de uma infantilidade absoluta. A Congregação, nem que estivesse talhamento interno sobre o aspecto disciplinar, e faz referência tanto com todos [os membros] teria a ao funcionário como ao aluno. competência para fazer isso, que Quando chegou nessa parte da vai contra as regras da univer- Se você é persona non grata na USP e você não é discussão, o que aconteceu? Os sidade. Pessoalmente, eles po- da USP, conceitualmente está certo. Agora, na sua alunos e os funcionários não dem xingar a mãe e tudo mais, quiseram discutir. Então, aquecasa, ser declarado persona non grata, conceitualmas em nome da escola, não. E la parte do regimento [disciplinem que pudesse, teria esse di- mente está errado nar], eles quiseram que ficasse reito, nem uma suspensão pode fazendo parte do regimento de janeiro de 2012

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1988. Quando você diz que é um regimento de 1972, não é bem as- um ilícito civil. Você pode ser punido de três formas: administrativa, sim, não quiseram mudar naquela época, e aquilo ficou. Eles não qui- criminal e civilmente. Administrativamente, mesmo vigente esse neseram discutir a parte disciplinar. gócio de 1972 que eles não mudaram e aceitaram em 1988, a minha O problema do regimento é que era do tempo da “revolução”, então, opinião é a seguinte: se for questão de educação ou moral, acho que por que em 1988 não mudaram? Porque não quiseram. Não que não não teria como punir. Mas, se por hipótese, ele invadiu e quebrou possa mudar, pode e deve mudar. Quando se fala sobre a questão qualquer coisa, isso pode ser objeto de uma penalidade administrada moral e dos bons costumes, que está no regimento, hoje você vê tiva, e essa penalidade administrativa pode ser uma suspensão ou alguém ser punido pela universidade porque deixou a barba mais exclusão. Isso não é um aspecto de moral e bons costumes, é uma comprida? O problema é o seguinte: quando você faz algo que é tipi- coisa que no Código Penal é crime. Para ser punido administrativaficado no Código Penal como crime, aí não fui eu que tipifiquei. Por mente, precisa ser por alguma coisa grave, se houve lesão corporal exemplo, invasão de prédio púde um colega, é passível de publico, está tipificado no Código nição administrativa. Quando Penal como crime, isso é moral se fala de criminalização, quem e bons costumes? Não tem nada O problema do regimento é que era do tempo da criminaliza é a lei. que ver uma coisa com a outra. “revolução”, então, por que em 1988 não mudaram? Fórum – Há um clamor de parte Você não pode invadir, quebrar, da comunidade universitária por porque isso está tipificado no Porque não quiseram. Não que não possa mudar, uma revisão do regimento interno Código Penal. Não tem história pode e deve mudar da USP. Por que não estabelecer de que ninguém pode criticar um diálogo com os alunos e abrir só porque aquilo [o regimento] um processo de revisão junto com é da época da ditadura. Certas toda a comunidade? posturas evoluíram com o tempo. Agora, que precisa ser discutido para mudar, isso precisa, mas Rodas – É uma retórica boa. Vou falar de outra época, para não falar não significa que não vai haver regra disciplinar, existem regras de mim. A reitora Suely Vilela cedeu e separou uma semana dentro sobre princípios gerais de administração na Constituição vigente, do calendário letivo, não faz muito tempo, há uns três anos, para que regras gerais sobre administração pública que não têm nada que se discutissem mudanças regimentais. Era um congresso, se fosse você o interessado, o que faria? ver com a “revolução”. Quando se fala em criminalização, alguém me pergunta: “O que o Os alunos brigaram com os funcionários, e não saiu nada. A univeraluno pode fazer, se ele quer protestar, se juntar a um grupo, o que sidade deu infraestrutura, daí começaram a reclamar que precisava ele pode fazer para que não tenha problema?”. A primeira cautela ter mais infraestrutura. Desculpa sempre todo mundo tem. Então, que precisa ter é a seguinte: não fazer nada que seja tipificado como é uma retórica muito boa, mas que, na prática, acaba servindo para crime. Se for tipificado como crime, aí não é mais disciplinar, é Di- justificar o injustificável. No fundo, há um grupo que não quer disreito Criminal. Não depende da universidade fazer ou não, é ação cutir nada. F pública, não depende da universidade dizer: “Eu quero que fulano A entrevista completa estará disponível na página eletrônica da Fórum seja preso, porque ele colocou uma bomba aqui”. Se não for nada (www.revistaforum.com.br) que seja crime, pode fazer. Fórum – Então, professor, não é bem isso que acontece. Há um aluno, não sei se o senhor tem conhecimento do caso dele, o Rafael Alves.

Rodas – Conheço sim, o conheço de vista.

Fórum – É um aluno que foi jubilado, conseguiu rever essa decisão, prestou Fuvest e ingressou novamente na universidade. Ele sofre alguns processos administrativos da universidade, por conta de mobilização política dentro da USP, que nem sempre resultaram em quebradeira ou ocupações, nada que seja crime. Como fica a situação dele?

Rodas – Precisaríamos ver o caso dele, mas veja bem, quem criminaliza não é a universidade. Em uma das ocupações em que ele estava, não digo que foi ele, mas teve lesão corporal, e o caso foi parar na delegacia. Foi algo entre eles, não tinha guarda, não tinha nada, foi aqui na ocupação do Crusp. Então, teve lesão corporal e tem laudo, mas isso nem está aqui dentro, lesão corporal a universidade não julga. Quer dizer, eu não sei se ele estava ou não no ato, mas estava no episódio, não posso dizer que diretamente. Aí, entra a questão da responsabilidade administrativa e penal. Vamos falar só da administrativa, que não fui eu quem colocou lá, mas pode-se tirar. Se ele se manifestou de algumas formas que... por exemplo, piquete. É algo ilegal. Piquete não é um ilícito criminal, é

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Os polêmicos tapetes de Rodas

Imbróglio envolvendo doação e compra de peças orientais geram mais críticas à gestão do reitor da USP

por igor carValho

A

ntes de assumir a reitoria da USP, o professor João Grandino Rodas era diretor da Faculdade de Direito da universidade. Em seu último dia de gestão, 22 de janeiro de 2010, redigiu um ofício “emprestando” dois tapetes persas, modelo Hosseinabad, para a reitoria, documento que foi encaminhado ao chefe de gabinete da reitoria, Alberto Amadio. Na segunda-feira, dia 25, aniversário da USP, Rodas foi empossado como reitor e recebeu em sua sala o seu chefe de gabinete, o mesmo Alberto Amadio, juntamente com os tapetes que ele, como diretor da Faculdade de Direito, havia emprestado.

Os dois tapetes fazem parte de um conjunto de seis, doado à faculdade pela Fundação Arcadas. Em um documento intitulado “A outra face da moeda: o caso dos tapetes orientais”, divulgado em 30 de setembro do ano passado, o atual diretor da faculdade, Antonio Magalhães Gomes Filho, ironiza o fato. “Essas preciosas peças de tapeçaria oriental, ricas ‘peças da arte de tecer’ adornam aquele

Magnífico recinto, cuidadosamente decorado com móveis de veludo e dourado, ao estilo Luis XV, cujo rei antecessor é o autor da frase ‘L’état c’ est moi’! . Muito coerente.” Os problemas de Rodas com tapetes não se resumem ao empréstimo do que seria um patrimônio da Faculdade de Direito. Em março de 2010, Antonio Marcos de Aguirra Massola, diretor-executivo da Fundação USP (Fusp), intermediou a compra de um tapete persa, no valor de R$ 32 mil, para a reitoria. O reitor alega que o bem foi comprado com “dinheiro privado, de fundo privado, administrado pela Fusp e está todo contabilizado”. Essa verba utilizada seria proveniente de doações, que não precisam, portanto, passar pelo crivo do Conselho da USP. Para Rodas, trata-se de uma necessidade. “Uma universidade do porte da USP tem que ter, pelo tamanho e por tudo, um lugar para receber visitas que seja condigno, e até majestoso. O que não teria mal nenhum em ser feito com dinheiro do orçamento, mas, desde o início, quando se começou a reforma, que já está adiantada, se pensou que todas essas coisas que possam ser consideradas, vamos dizer, supérfluas, não serão compradas com dinheiro da universidade nem com dinheiro da Fusp, mas com dinheiro de doação externa”, explica. O deputado estadual Carlos Giannazi (Psol) entrou com uma representação no Tribunal de Contas do Estado (TCE) solicitando investigação sobre as aquisições de imóveis feitas pela universidade. A USP vai investir R$ 4 milhões para construir um prédio de 16 andares no centro de São Paulo, em um terreno comprado por R$ 7,4 milhões junto à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado (Fapesp). Para o deputado, a representação contra Rodas se deve ao “uso do dinheiro da

universidade supostamente sem necessidade e sem atender critérios de boa administração”. “Não lembro exatamente o valor total das compras, mas o que determina é: você comprou para quê? Você comprou com as autorizações necessárias no local? Esse gasto é excessivo dentro do total do orçamento? Outras coisas ficaram descobertas por conta desse investimento? Tem mais, não tem nenhum aluno que esteja dentro de uma determinada situação socioeconômica que não esteja completamente coberto pela universidade”, explica o reitor. Rodas se orgulha de dizer que a USP oferece moradia ou auxílio para os estudantes que precisem, mas Dário Vargas, colombiano que está terminando seu mestrado em Artes Visuais, na Escola de Comunicação e Artes (ECA), desde que chegou ao país, no começo do ano, não conseguiu nenhum apartamento no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (Crusp) ou mesmo um auxílio moradia da universidade. “Desde o começo do ano eu tento, mas não consigo nenhuma vaga, reuni todos os documentos, participei da entrevista, mas dizem que não tem nada para mim.” Vargas segue morando em um dos apartamentos da chamada “Moradia Retomada”, uma das alas do Crusp que é administrada pelos alunos desde a ocupação de 2010, e que não passa pelo crivo da universidade. Muitos alunos informaram à Fórum que há uma grande quantidade de estudantes em filas de espera por um apartamento no Crusp, assim como Vargas. Antes do fechamento desta matéria, Rodas enviou um e-mail confirmando, por meio de um ofício, que devolveu os tapetes Hosseinabad para a Faculdade de Direito. Porém, não enviou os documentos comprovando que o tapete de R$ 32 mil foi comprado com recursos oriundos de doações. F janeiro de 2012

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O direito ao próprio corpo U

ma sociedade não pode ser considerada livre se seus membros não tiverem o direito de dispor de seus próprios corpos. O núcleo do direito à liberdade é a autonomia sobre o próprio corpo e justamente por isso o Direito, a moral e a religião se ocuparam durante tanto tempo com a imposição de regras para regular a livre disposição dos corpos. O direito ao próprio corpo ainda está longe de ser conquistado e reconhecido como um direito fundamental da pessoa humana. As normas limitando a autonomia dos corpos estão por todas as partes: limitações à sexualidade, ao uso de drogas psicotrópicas, à liberdade de expressão e até mesmo à vida e à morte. Tudo em nome de um suposto bem maior: a coletividade. A maioria destas normas de regulação dos corpos, porém, não evita que haja lesão a direito alheio, mas tão somente impõe um modelo de conduta que a maioria julga adequado. Estado democrático de direito – é sempre bom frisar – não se confunde com ditadura da maioria. As liberdades individuais só podem ser limitadas se – e somente se – o exercício de uma determinada autonomia provocar dano a outrem. Assim, as pessoas, maiores e capazes, deveriam ser livres para dispor sobre seus próprios corpos desde que com suas ações não prejudicassem a ninguém. Na prática, porém, o Direito está repleto de normas que limitam ações completamente neutras a terceiros. A sexualidade sempre foi campo fértil para as limitações jurídicas sobre os corpos. No passado já se puniu até mesmo a fornicação, entendida como o relacionamento sexual por pessoa solteira. A sodomia foi considerada crime no estado do Texas até 2003, quando a decisão da Suprema Corte estadunidense no caso Lawrence v. Texas a

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considerou inconstitucional. Detalhe: decisão por maioria de 6 a 3. No Brasil, ainda hoje, pelo código penal em vigor, se um garoto de 13 anos mantiver relação sexual consensual com uma mulher maior de 18 anos (uma prostituta, por exemplo), ela poderá ser condenada a uma pena que varia de 8 a 15 anos (art.217-A CP). Manter casa de prostituição também ainda é crime em nosso país (art.229 CP), numa indevida regulação do corpo de mulheres maiores e capazes que deveriam ter o direito de dispor do seu próprio corpo da forma que considerem mais conveniente. Outra pérola de regulação sexual do nosso código penal ainda em vigor é seu art. 234, que pune com pena de até dois anos quem fizer, “importar, exportar, adquirir ou ter sob sua guarda, para fim de comércio, de distribuição ou de exposição pública, escrito, desenho, pintura, estampa ou qualquer objeto obsceno”. Felizmente este último não vem sendo aplicado pelos tribunais há algum tempo, ainda que não haja uma decisão reconhecendo oficialmente sua inconstitucionalidade. Não bastasse a lei conservadora, os tribunais tendem a ser bastante moralistas na aplicação do Direito quando as questões versam sobre práticas sexuais minoritárias. É paradigmática uma decisão do Tribunal de Justiça de Goiás (Ap. 25220-2/213), que absolveu um acusado de violentar outro homem sob o singelo argumento de que a violência teria ocorrido em uma prática de sexo grupal. Nos fundamentos da decisão se lê que: “a prática de sexo grupal é ato que agride a moral e os costumes minimamente civilizados. Se o indivíduo, de forma voluntária e espontânea, participa de orgia promovida por amigos seus, não pode ao final do contubérnio dizer-se vítima de atentado violento ao pudor”(sic). Em outras palavras, pode-se

aFonso lima / stoCk.xCHng

Leis sobre sexualidade, aborto, eutanásia, esterilização, drogas, liberdade de expressão e privacidade, entre outras, muitas vezes limitam um direito que deveria ser fundamental para qualquer ser humano. O reconhecimento da autonomia do indivíduo sobre seu corpo é um dos principais desafios jurídicos atuais


dizer que o tribunal revogou o então crime de atentado violento ao pudor (hoje, estupro) em orgias, negando o direito à liberdade sexual àqueles que optam por práticas sexuais moralmente reprováveis pela maioria. O Código Civil também parece condenar qualquer prática polígama por parte dos casais ao dispor, em seu artigo 1566, I, que são deveres de ambos os cônjuges a fidelidade recíproca. Uma imposição inaceitável se tratando de pessoas maiores e capazes de decidir sobre as práticas sexuais que lhe aprazem.

Direito à vida e à morte A relevância ao reconhecimento de um direito fundamental ao próprio corpo vai muito além da liberdade sexual. É no direito à vida e à morte que a regulação jurídica dos corpos se manifesta de forma mais evidente. Questões como aborto, eutanásia, esterilização e muitas outras são reguladas pelo Direito, em regra dando pouquíssima liberdade aos interessados de disporem de seus próprios corpos. Vê-se com clareza isso no direito ao aborto, reconhecido na maioria absoluta dos países da Europa e dos estados americanos. No Brasil, por uma nítida influência religiosa, criou-se a ficção jurídica de que o embrião não é parte do corpo da mãe, pois já teria direitos a serem reconhecidos a partir da concepção. Assim, chegamos a situações absurdas, em que fetos anencéfalos possuem mais direitos que a mulher maior e capaz que o carrega no ventre. Uma clara demonstração das dificuldades a serem enfrentadas no reconhecimento do direito à autonomia sobre o próprio corpo. Também na regulação da morte as restrições são várias. A eutanásia é punida como homicídio (art.121 CP) e o suicídio assistido é punido com penas de até 6 anos (art.122 CP), obrigando-se muitas vezes ao indivíduo, mesmo quando consciente, a levar uma sobrevida vegetativa contra sua vontade. A esterilização cirúrgica de pessoas casadas só pode ser realizada com o consentimento expresso do cônjuge (art.10, §5º, da Lei 9.263/96) o que, na prática, limita o direito de muitas mulheres de optarem por não engravidar.

Liberdade de consciência e de expressão

O reconhecimento do direito a dispor do próprio corpo tem como corolário a liberdade de consciência e também a liberdade de alteração de consciência por meio de drogas psicotrópicas, desde que evidentemente o uso de tais drogas não provoque danos a terceiros. Não cabe a um Estado no qual a liberdade é direito fundamental uma atuação paternalista por parte do governo no sentido de proibir que pessoas maiores e capazes provoquem danos a seus corpos. Deve o Estado, sim, proteger a saúde de crianças e adolescentes, mas no momento em que se reconhece sua plena capacidade jurídica, é

preciso que se reconheça também seu direito a usar drogas que alteram sua consciência, ainda que estas lhe venham a causar um eventual dano à saúde. O que se vê, porém, em relação às drogas psicotrópicas, é uma regulação jurídica dos corpos que chega ao cúmulo de considerar crime o uso recreativo de drogas de baixíssima danosidade ao organismo, como é o caso do cloreto de etila (lança-perfume). Um controle jurídico obsessivo dos estados de consciência, que pune inexplicavelmente o uso de drogas mais leves que o próprio álcool. O direito ao próprio corpo manifesta-se ainda na liberdade de expressão e na de não expressão, que chamamos de privacidade. É preciso que se reconheça a cada indivíduo o direito de se expressar quando e como queira, mas também o direito de se manter em silêncio e em sossego, longe dos olhares e das câmeras alheias. Por óbvio não se pode admitir que sua expressão ou sua privacidade possa causar dano a direito alheio. Por certo justifica-se seu cerceamento, se a expressão de um pensamento for lesiva à honra ou o exercício da privacidade for lesivo ao direito à informação de interesse público. A regra, porém, deve ser que um indivíduo possa se expressar ou se recolher à sua privacidade conforme sua conveniência, o que, lamentavelmente, tem se tornado exceção. A grande batalha jurídica do século XXI será pela libertação dos corpos das normas impostas pelo arbítrio da maioria. Somos herdeiros de uma cultura religiosa que nos impôs ao longo da história uma infinidade de restrições morais e, posteriormente jurídicas, ao uso de nossos próprios corpos. Não há nada de democrático na imposição pela maioria de normas de conteúdo exclusivamente moral a uma minoria. Se uma conduta não lesa nem gera riscos de lesão a direitos alheios, não há por que ser proibida. A liberdade de um povo não está simplesmente em escolher seus governantes. Não se pode considerar livre um povo que decide os rumos de seu governo, mas que nega a cada um de seus indivíduos a autonomia de decidir sobre os rumos de seu próprio corpo. Liberdade é, antes de tudo, poder decidir sobre o próprio corpo. F TÚLIO VIANNA, professor da Faculdade de Direito da UFMG.

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Entre o conservadorismo e a autonomia É necessário discutir qual o caráter das políticas a serem traçadas pela Conferência Nacional, para que elas não reforcem valores conservadores, acentuando a desigualdade de gênero

por Cynthia Semíramis

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Fábio Rodrigues Pozzebom / ABr

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m março do ano passado, a presidenta Dilma Rousseff convocou a 3ª Conferência Nacional de Políticas para Mulheres (CNPM), realizada em Brasília em dezembro de 2011. A Conferência tem vários objetivos: analisar a realidade nacional e os desafios para a construção da igualdade de gênero, avaliar e aprimorar as ações e políticas que integraram o II Plano Nacional de Políticas para as Mulheres e definir as prioridades para os próximos anos. A exemplo das edições anteriores (que ocorreram em 2004 e 2007), a 3ª Conferência provavelmente resultará no 3º Plano Nacional de Políticas para Mulheres, norteando o governo Dilma em relação a políticas de combate à desigualdade de gênero. A Conferência Nacional foi precedida de conferências em níveis municipal, regional e estadual, todas convocadas pelo poder público. Nas estaduais, foram eleitas as delegadas que participaram da edição nacional, sendo 60% delas representantes da sociedade civil, 30% representando governos municipais e 10%, governos estaduais. As conferências são importantes mecanismos de democracia participativa, estimulando a sociedade civil a participar do direcionamento de políticas públicas, indicando questões problemáticas e especificidades do tema abordado (saúde, direitos humanos, segurança pública, assistência social etc) Outro aspecto importante das conferências é que resultam na mobilização da sociedade civil em nível local. No caso das mulheres, as conferências trouxeram a institucionalização dos movimentos de mulheres (com a criação de secretarias e coordenadorias para mulheres), gerando planos estaduais e municipais de políticas na área. Obviamente, nem tudo são flores. Muitas mulheres participaram das conferências para defender a plataforma política de grupos religiosos, enquanto outras se tornaram

As manifestações da presidenta Dilma Rousseff no discurso de abertura da Conferência indicam os conflitos que existem atualmente em relação ao tema

lideranças como herdeiras de seus parentes do sexo masculino, sem procurar mudar os valores que mantêm a desigualdade entre homens e mulheres. Além disso, de pouco adianta haver institucionalização se as políticas adotadas optam por manter uma cultura machista, que desrespeita o direito de escolha e as diversas possibilidades para a vida das mulheres.

A presença e o discurso de Dilma Rousseff

Como exemplo dessa dinâmica em relação a políticas para mulheres, é importante destacar as manifestações da presidenta Dilma Rousseff no discurso de abertura da Conferência, pois indicam os conflitos que existem atualmente em relação ao tema.

Durante seu discurso, Dilma pôs fim aos comentários de que a Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM) seria extinta ou anexada a um ministério, afirmando que “não há qualquer veracidade nas notícias que falam sobre a extinção ou fusão da secretaria”. E indicou que considera fundamental para o seu governo que a “secretaria que defende os direitos das mulheres” continue existindo, e atuante. Corroborando essa visão há o fato de que a Conferência de Políticas para Mulheres foi a única conferência nacional que teve participação da presidenta, indicando que ela considera as políticas do setor um tema que interessa ao seu governo. Por melhor que seja a notícia sobre a manutenção da SPM, tanto a presença de Dilma quanto a sua afirmação de que a secretaria


é importante não resultam necessariamen- saúde como um todo, e não obrigá-las a seA proposta inicial na Conferência falava te em importância concreta: o orçamento guir apenas o modelo que associa a mulher em despenalização e atendimento integral, federal para a SPM é baixo, e mesmo assim à maternidade, cuidando apenas de órgãos respeitando a vontade da mulher. A plenária os recursos não estão sendo completamente reprodutivos. final rediscutiu o tema e optou por inscrever utilizados, atrapalhando a implementação textualmente “legalizar o aborto” na proposta. Ao falar de violência doméstica, a prede políticas públicas para mulheres. Esse é um dos casos em que o texto da sidenta fez um comentário bastante equiE o discurso da presidenta, apesar de vocado: “Sabemos que o exercício da vioConferência provavelmente não sairá do palistar as conquistas das mulheres durante o lência privada é um momento dramático, pel. A presidenta Dilma Rousseff, durante a governo Lula e as políticas que estão sendo porque mostra para crianças algo que as campanha de 2010, assumiu o compromisdesenvolvidas em sua gestão, teve um tom crianças deviam evitar também, que é o so de manter a legislação sobre aborto na bastante conservador. Dilma enalteceu as contato com uma forma de violência coforma atual, e não há indícios de que mumulheres como seres fortes porque são a varde”. A violência privada é um momento dará de ideia. Tendo em vista a grande inparte da população que tem capacidade de dramático porque a dignidade, a integridafluência da bancada religiosa no Congresso gerar vida. Com isso, a presidenta reduziu de física e psicológica da mulher estão senNacional, desrespeitando o Estado laico, dimulheres ao papel de mãe, sendo que ma- do violadas. A mulher não é menos vítima ficilmente haverá espaço para modificação ternidade (por adolegislativa referente ção ou não) deveria ao aborto. Ou seja, ser uma opção, e a vitória política de É péssimo para as mulheres abrir espaço político para exaltar não uma obrigação. inscrever nas resoOutro deslize foi um modelo de feminilidade calcado apenas na maternidade luções da Conferênfalar que as mulhe- e em cuidados familiares, ignorando outros fatores que impactam cia a pauta de legalires são as responzação do aborto não sáveis por educar e modificam a vida das mulheres trará esta política homens e mulheres. específica para a Isso não faz sentido: vida das mulheres. pessoas educam e É uma pena que são educadas em todas as relações sociais. porque não tem filhos, estejam eles presenas manifestações da presidenta em relação Supor que apenas o vínculo mãe-filho é o ciando ou não a violência. O fato de as crianà violência doméstica e ao aborto sejam tão responsável pela educação é exagerar a im- ças assistirem a agressões é um problema conservadoras, pois essas são grandes cauportância desse vínculo, além de desquali- secundário e certamente menor do que a sas de morte de mulheres no Brasil, e decorficar todas as outras relações de educação violência sofrida pela mulher. É lamentável rem diretamente da desigualdade de gênero. – incluindo escolar, religiosa e midiática, que que na abertura de um evento discutindo Implementando políticas públicas são bem mais influentes do que a educação políticas para mulheres a presidenta tenha para mulheres relativizado a violência doméstica, endosmaterna ou familiar. A maioria das políticas aprovadas na Em outro momento, Dilma reforçou a res­ sando indiretamente o discurso de que muConferência não tem viés conservador. Meslheres devem aceitar a violência em nome ponsabilidade das mães ao pontuar diversas mo assim, foi preocupante perceber que o políticas públicas e benefícios voltados para da preservação da família. discurso da presidenta encontrou muitas a família, cujos recursos são entregues diadeptas nos corredores da Conferência, e retamente a mulheres. Essas políticas são Legalizar o aborto Uma das grandes discussões da Confeque há potencial para ser ampliado. bastante criticadas, pois reduzem a mulher É péssimo para as mulheres abrir espaço a uma cuidadora e gestora do bem-estar fa- rência foi sobre a legalização ou descrimipolítico para exaltar um modelo de feminimiliar, ignorando sua autonomia (tema da nalização do aborto. É necessário lembrar lidade calcado apenas na maternidade e em Conferência Nacional e norteador das polí- que gravidez não pode ser encarada como cuidados familiares, ignorando outros fatoticas da SPM) e necessidades pessoais, além castigo para a mulher por ter vida sexual, e res que impactam e modificam a vida das de manter uma ordem social que privilegia a que a maternidade deve ser um direito, e não uma obrigação. Nesse sentido, a criminalizamulheres. Recortes de geração, raça, etnia, mulher no espaço privado. orientação sexual, classe, são fundamentais Dilma também destacou o combate ao ção do aborto interfere nas decisões das mupara evitar tratar as mulheres apenas como câncer de mama e colo de útero, reduzindo lheres sobre seus corpos, incentiva abortos mães e cuidadoras, abrindo espaço para efea saúde da mulher à condição de parideira. clandestinos e resulta em altíssimo índice de tiva autonomia das mulheres e igualdade de No entanto, infartos e doenças cardiovascu- complicações e morte de mulheres. A disputa política está entre descriminaoportunidade entre homens e mulheres. lares são as doenças que mais matam muPor isso, é importante acompanhar os lheres, e não são alvo de políticas públicas. lizar e legalizar o aborto. Descriminalizar imefeitos da Conferência, tanto em nível local Esse é um problema sério a ser resolvido, plica apenas retirar do Código Penal os art. quanto no futuro 3º Plano Nacional de Polímas, para isso é necessário primeiro en- 124 a 128, que tipificam o aborto. Legalizar tica para Mulheres. As políticas não podem tender que mulheres não estão no mundo implica em ações mais amplas do governo, ser implementadas de forma a apenas reapenas para serem mães, como pregam os realizando consultas, exames e procedimenforçar valores conservadores, pois isso vai conservadores, mas para ser quem elas de- tos necessários à interrupção voluntária de acentuar (ao invés de diminuir) a desigualsejarem ser. O papel do Estado é apoiar as gravidez de forma segura, garantindo atendade de gênero. F mulheres em suas escolhas e zelar pela sua dimento integral à saúde da mulher. janeiro de 2012

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Cadernos do Pensamento Crítico Latino-Americano

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M HAITIANO UNIVERSAL. Com a publicação de um de seus últimos trabalhos, nós nos lembramos de Jean Claude Bajeux, que faleceu em 5 de agosto em Peguiville, Porto Príncipe. Nascido em 1932, Bajeux foi durante toda a sua vida um incansável lutador contra as ditaduras, um defensor incondicional dos direitos humanos. Em 1964, foi forçado ao exílio pela ditadura de François Duvalier, seguindo a rota de milhares de ativistas contrários ao regime, o que causou, entre outras coisas, um êxodo massivo da população, a deterioração da economia e da sociedade, aberrantes violações aos direitos humanos e a pilhagem sistemática dos cofres públicos. Seu exílio durou 23 anos, e a maior parte de sua família foi assassinada pela ditadura. Bajeux fundou o Centro Ecumênico de Direitos Humanos (CEDH) em 1979, o qual dirigiu até sua morte. Além disso, foi membro fundador da Caribbean Rights, uma organização regional com sede em Barbados, que reúne sete organismos do Caribe. No México, havia trabalhado com Iván Illich e outros teólogos da libertação no Centro Intercultural de Documentação (Cidco) de Cuernava. Na República Dominicana, participou da organização Amizade entre os Povos, que aglutinou voluntários no intuito de apoiar as lutas dos “braceros” – denominação dada às trabalhadoras e aos trabalhadores haitianos da cana-de-açúcar naquele país. Durante seu exílio em Porto Rico, onde ensinou literatura na Universidade de Porto Rico, iniciou, em 1980, uma luta legal pelos direitos das “boteras” e dos “boteros” procedentes do Haiti, fundando e dirigindo o Inter-Regional Council on Haitian Refugees (Cirh). Quando regressou ao seu país natal, Bajeux lutou pelo Estado de Direito, participando especialmente na promulgação da Constituição de março de 1987. Juntamente com Víctor Benoit, participou também do nascimento da coalizão Congresso Nacional de Movimentos Democráticos. Quando a coalizão se transformou em partido político, Jean Claude foi seu secretário-geral durante uma década e seu representante na Internacional Socialista e na Coalizão de Partidos Políticos da América Latina (Coppal). Em 1987, participou do movimento que paralisou o país em uma greve de seis dias, em protesto contra o governo provisório liderado pelos militares, e, em 1991, publicou a primeira edição bilíngue (francês e crioulo) da Constituição. Teve de abandonar novamente o Haiti em 1993, quando sua casa foi atacada por uma organização paramilitar, mas ao regressar, em 1994, jurou – de acordo com as pessoas mais chegadas a ele – que jamais aceitaria ir embora de seu país de novo. Jean Claude foi ministro da Cultura durante o governo do primeiro ministro Smarck Michel, entre 1994 e 1995, posteriormente renunciando ao cargo juntamente com outras personalidades democráticas que perceberam que a gestão de Jean-Bertrand Aristide estava traindo as expectativas e as necessidades do povo haitiano. No campo da literatura, seu maior mérito foi ter escrito e publicado a única antologia de toda a literatura em crioulo até 1999, Anthologie de la Litterature Creole Haitienne, dois volumes que são uma contribuição às presentes e futuras gerações sobre suas raízes, sua identidade e sua cultura.

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A refundação 1 de uma nação Jean Claude Bajeux*

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aiti: é preciso levar a sério o silêncio que se seguiu após a enorme vibração de um terremoto sem igual, que sacudiu o país até a medula e ainda mais. Ouvimos a expressão por todos os lados: tal evento aconteceu “antes do dia 12 de janeiro de 2010”; ou: tal evento ocorreu “depois do dia 12”. E Laennec Hurbon não teve dúvidas em colocar como chamada na capa do jornal Le Monde: “Haiti, o ano zero”. Haiti, esse país que em vão procuramos pelos montes e pelos vales, ou perdidos no silêncio das bibliotecas e dos ecos das salas de concerto; esse país, que nunca quis dizer “sim” e “não” de uma maneira clara, sempre foi assediado pelos demônios do autocratismo e 1

 texto deste Caderno foi publicado no sexto número da revista Crítica y Emancipación. Buenos O Aires, CLACSO, 2011. Também disponível em: www.biblioteca.clacso.edu.ar.


Foto premiada tirada por Carol Guzy, após explosão de uma granada em Porto Príncipe, capital do Haiti, em 1994

Carol guzY

habitado por eles. Uma indecisão no coração de sua profunda alma não lhe permitiu assumir as opções fundamentais que distinguem as nações mais adiantadas, aquelas que dão o tom sobre aquelas que marcam o passo, as que não deixam de definir sua identidade e de aperfeiçoar o contrato que as mantém em harmonia, as que elegem o direito, a liberdade e o desenvolvimento... Quando se combate a escravidão, em sua negação da condição humana e em sua obsessão pelo benefício baseado no trabalho gratuito, o movimento histórico que deriva dessa luta e termina na independência teria de ser inevitavelmente uma afirmação da liberdade dos seres humanos, de seu direito a viver em liberdade e igualdade, em uma comunidade de direito. Então, como é possível que essa visão que constitui uma revolução radical em um sistema feroz e brutal tenha se traduzido, ao longo do tempo, em uma sociedade pós-colonial que reproduz o mesmo tipo de poder, a mesma mescla de caracteres provenientes, ao mesmo tempo, de tradições africanas e de cortes europeias? Estava claro, pelo menos para nós, que 200 anos mais tarde vemos esse Estado nascer e se desenvolver, que desde os primeiros minutos da independência deveria ter sido proclamada a nulidade de todos os discursos que admitissem uma desigualdade de grupos humanos, uma desigualdade entre pessoas fundamentada em questões raciais e contaminadas pela crença da escravidão. E esse era o Haiti. Um Estado que, para nascer e funcionar, precisava proibir toda afirmação de desigualdade de cidadãos que es-

tivesse fundamentada no racismo, consciente ou não. Uma posição radical, que foi o motor da guerra da independência e sem a qual esse Estado não teria conseguido nascer. Essa exigência atravessa os mutáveis episódios da guerra da independência e se impõe a todos os outros atores. Ela faz de cada haitiano, seja quem for, um soldado da liberdade. Ela é a alma do “juramento dos antepassados”. Essa é a mensagem que deveria ser apresentada, defendida e difundida em todo o mundo durante 200 anos. Sobretudo, não se deveria tê-la abandonado. Não se deveria tê-la deixado no sótão. Não se deveria ter deixado transbordar na rua e na vida corrente as futilidades de um racismo primário e de exclusões recíprocas de crianças de uma mesma família, em competições miseráveis e sórdidas, e finalmente, na loucura assassina de um poder sangrento e estéril que durou 29 anos e esgotou o Estado. No entanto, nessa sociedade mestiça que, por definição, não poderia ser acusada de racismo sem negar a si mesma, o veneno estava bem ali, ativo e nocivo, segregando uma biologia mística e mítica. Aqui, não há desculpa e nem sequer se tolera a discussão. E se espera, inclusive após a independência, a expressão de uma política pública de luta contra esse veneno, uma vontade e uma política públicas para a erradicação desses prejuízos racistas; uma política como a que expressaram Anténor Firmin e Jean Price-Mars e que teria permitido a todo cidadão ser liberto do menor sentimento de indignidade. A raça é uma prisão? Certamente não. Essas são crenças bastardas, difundidas por interesses poderosos que elaboram esse tipo de prisão e as transportam para o seio de famílias supostamente descolonizadas, provocando neuroses, obsessões, complexos de inferioridade que funcionam como restrições e tentações que impulsionam crimes que permanecerão impunes. É preciso reconhecer e admitir o lugar desse fator como uma primeira explicação para o nosso atraso na organização do país. Trata-se de um processo de refundação, por meio do qual seria necessário fazer um inventário dos prejuízos de semelhante metástase e inventar uma nova base para um programa de vida comum, livre dos efeitos patógenos das elucubrações de Gobineau, diante da resplandecente diversidade de seres humanos. A segunda barreira que tem impedido a constituição de uma nação capaz de garantir a “felicidade” de seus cidadãos e de assegurar a todos o acesso às liberdades democráticas é o mutismo da maioria da população em seu não acesso à escrita; é a incapacidade, de fato, de se explicar e se comunicar; a incapacidade de confiar à escrita os arquivos da nação e os tesouros do saber. Após 200 anos, o mundo do saber técnico, o universo das tecnologias em suas linguagens diversas e a ampliação da memória unida à escrita permanecem fechados para a maioria das nossas crianças. Isso não é apenas a negação do progresso, mas é de fato a destruição de um tesouro. O juramento dos antepassados supunha um dever de revolução: a união de todos e o saber para todos, sem demora e sem falatório. O acesso de todas as crianças à manutenção de duas línguas é, por sua vez, a abertura para o saber; em outras palavras, é o acesso à liberdade. O fato de ainda não existir a possibilidade de uma educação nacional aberta para todas as crianças, sem exceção, de que não existe um método pedagógico de acesso ao manuseio de duas línguas, é literalmente incrível. Também é incrível que as promessas concernentes às liberdades democráticas tenham permanecido como letra morta. Podiam se dar ao luxo de fuzilar os que se levantaram para reclamar, como aconteceu com Félix Darfur em 2 de setembro de 1822, ou janeiro de 2012

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emBaJada de eeuu en ParaguaY / FliCkr

Cadernos do Pensamento Crítico Latino-Americano

Haiti, em 2011: um país à espera da reconstrução

com os três irmãos Coicou, em 15 de março de 1908. E não podemos nos esquecer de Capois-la-Mort, fuzilado em Terrier-Rouge em 1806, dois anos antes de Vertières. Apenas recentemente, em 1987, uma Constituição pôde finalmente reconhecer os direitos dos cidadãos e das cidadãs e impor o respeito às suas liberdades. Do mesmo modo, a decisão do ministro Bernard com relação ao papel e ao uso de duas línguas no sistema de ensino requereu o mesmo espaço de tempo para ser formulada. Assim como nós temos impedido, de fato, que as liberdades democráticas sejam a regra na vida pública, da mesma forma temos permanecido surdos ao discurso democrático, temos falhado em cumprir a obrigação de escolarizar todas as nossas crianças, sem exceção e a qualquer preço. Se o Haiti deseja continuar existindo, a condição é impedir e combater sem cessar o aparecimento de categorias raciais na vida, ou seja, racistas. E em segundo lugar, é preciso mobilizar todos os esforços para que todas as crianças frequentem o colégio. Essas são as duas condições inegociáveis para qualquer tipo de refundação da nação. É um desafio que deve ser imposto à nona geração posterior à independência, porque não basta apenas falar de reconstrução – isso seria desejar repetir os mesmos erros, impor-nos novamente

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*Graduado em Filosofia pela Universidade de Bordeaux, doutorado em Idiomas e Literatura pela Universidade de Princeton, professor de literatura na Universidade de Porto Rico, ministro da Cultura do Haiti (1994-1995). Fundador do Centro Ecumênico de Direitos Humanos (CEDH).

Os Cadernos de Pensamento Crítico Latino-Americano constituem uma iniciativa do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO) para a divulgação de alguns dos principais autores do pensamento social crítico da América Latina e do Caribe. São publicados mensalmente nos jornais La Jornada do México e Página 12 da Argentina e nos Le Monde Diplomatique da Bolívia, Chile, Colômbia, Espanha, Peru e Venezuela. No Brasil, os Cadernos do Pensamento Crítico são publicados em parceria com a Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO) na Revista Fórum.

encarte no 21

Como citar este documento: Claude Bajeux, Jean. “La refundación de una nación”, em Cuadernos del Pensamiento Crítico Latinoamericano Nº 49. CLACSO, dezembro de 2011. Publicado em La Jornada do México, Página 12 da Argentina e Le Monde Diplomatique da Bolívia, do Chile e da Espanha.

as cadeias da desigualdade, as idiotices perigosas do racismo e o mutismo da ignorância. Essa questão deve ser clara e tem consequências imediatas no sistema e no conteúdo da educação, na realidade das relações entre cidadãos e nas leis do Estado novo. É um juramento que deve ser feito agora. F

CLACSO é uma rede de 300 instituições, que realizam atividades de pesquisa, docência e formação no campo das ciências sociais em 28 países (www.clacso.org).

FLACSO é um organismo internacional, intergovernamental, autônomo, fundado em 1957, pela Unesco, que atua hoje 17 Estados Latino-Americanos (www.flacso.org.br).


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A derrota dos EUA no Iraque: o declínio de um modelo

Não há garantias de que invasões semelhantes não voltem a ocorrer, mas a Guerra do Iraque demonstrou a decadência definitiva de uma forma de ocupação colonial que os Estados Unidos tentaram impor várias vezes, a mais ilustremente derrotada delas no Vietnã

por Idelber Avelar

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oi uma das derrotas mais acachapantes da era moderna. Quatro mil e quinhentas vidas norte-americanas, centenas de milhares de vidas iraquianas, um pacote de mentiras, um trilhão de dólares e nove anos depois, os EUA recolhem as armas e saem do Iraque vencidos, sem jamais terem verdadeiramente controlado uma única rua iraquiana. Como apontou, em coluna no Guardian, o deputado escocês George Galloway, um dos mais corajosos opositores da guerra em seu país, uma rua de Bagdá, a Haifa, foi túmulo de pencas, talvez centenas de soldados americanos. Fallujah entrou para a história ao lado de Stalingrado como um símbolo da resistência à invasão estrangeira. O terrorismo islamista de grupos como a Al Qaeda, do qual o secular Iraque não tinha sequer notícia antes da ocupação, encontrou no país terreno fértil. Pelas óbvias afinidades com a maioria xiita agora dominante no Iraque, o Irã multiplicou sua influência na região. Israel, a outra grande razão norte-americana (além do petróleo) para iniciar a guerra, encontra-se mais isolado do que nunca. Os horrores da tortura em Abu Ghraib enterraram de vez qualquer pretensão americana de superioridade moral. O modelo de estabilidade democrática pró-ocidental que se esperava impor ao Iraque está ainda mais longínquo do que em 2003. Nem uma única autoridade iraquiana compareceu à despedida das tropas estadunidenses. Nos EUA, uma multidão de veteranos mutilados, traumatizados, desempregados e violentos zanza pelas ruas, descobrindo finalmente que foram enganados. Como disse Bush em 1o maio de 2003, “missão cumprida”!

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Depois de completar sua missão no Iraque em 2004, o casal de sargentos William e Erin Edwards retornou separadamente à base do exército no Texas, no qual ambos estavam estacionados. Depois da chegada dela, William a espancou brutalmente, estrangulou-a, arrastou-a por cima de uma cerca e bateu com sua cabeça na calçada. Com a ajuda de um general, ela se transferiu para outra base, em Nova Iorque. Conseguiu uma ordem judicial para se proteger, mandou os dois filhos para viver com a avó e recebeu a garantia dos comandantes do marido de que não lhe seria permitido sair da base sem estar acompanhado por um oficial. Mas, na manhã de 22 de julho de 2004, William Edwards saiu de sua base, foi de carro até a casa da mulher, em Killeen, no estado do Texas, esperou que ela saísse e, depois de uma luta corporal, matou-a com um tiro na cabeça e depois se suicidou. Este breve relato é adaptado da matéria do New York Times, de 15 de fevereiro de 2008. Até janeiro de 2008, o New York Times havia contabilizado 121 assassinatos cometidos por veteranos do Iraque e do Afeganistão. Este número, a estas alturas, já é bem maior. Mais da metade desses crimes envolveu armas de fogo; os restantes foram casos de esfaqueamento, espancamento, afogamento em banheira ou estrangulamento. Aproximadamente um terço das vítimas eram cônjuges, namoradas, filhos ou outros parentes, incluída aí Krisiauna Calaira Lewis, de dois anos de idade, esmagada pelo pai com pancadas contra a parede. Segundo estudo da Universidade da Califórnia em San Francisco, um terço dos veteranos já podem ser considerados doentes mentais, mais fre-

quentemente com estresse pós-traumático ou depressão. E a maior parte dos soldados só começa a voltar agora. Não há garantias de que invasões semelhantes não voltem a ocorrer, mas a Guerra do Iraque demonstrou a decadência definitiva do modelo de ocupação colonial que os EUA tentaram impor várias vezes, a mais ilustremente derrotada delas no Vietnã. Paul Virilio, urbanista francês que é um dos maiores pensadores da guerra no nosso tempo, ajuda a entender o quadro atual. Segundo Virilio, a nossa época é caracterizada pelo fim da guerra de matriz napoleônico-clausewitziana (do General prussiano Clausewitz, autor de Sobre a guerra, o tratado mais influente sobre o tema no século XIX). Naquele modelo, as guerras eram eminentemente territoriais e simétricas. Foi o período das guerras entre as potências europeias, que se estende desde os conflitos religiosos da primeira era moderna até a Segunda Guerra Mundial. Dali em diante, entramos num período em que o próprio campo de batalha tende a desaparecer. Nos conflitos napoleônico-clausewitzianos, lutava-se por ocupação de território. Essa dinâmica permitia, inclusive, em alguns casos, que o combatente mudasse de lado, como foi o caso na Revolução Russa, em que muitos soldados czaristas, convencidos da justiça da causa bolchevique, abandonaram as fileiras do exército para se juntar aos revolucionários. Nas guerras pós-modernas, o inimigo não é mais localizável como Estado-Nação. É, com frequência, uma entidade amorfa, que pode ser, inclusive, um signo vazio – como Al Qaeda, que é muito menos uma organização (no sentido em que os par-


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Paul Virilio, Ce qui arrive. Paris: Galilée, 2002, p.63.

de longa duração. A combinação entre essas características e o fato de que o conflito foi concebido ainda de acordo com uma lógica moderna e colonial de ocupação do território alheio fez com que o único resultado possível fosse este, que deixou comentaristas de mídia perplexos e confusos: quando poderemos dizer que “ganhamos” essa guerra? Quando realizarmos uma eleição de araque? Quando cessarem as explosões e ataques suicidas (ou seja, nunca)? Quando o país estiver mais pacificado do que estava antes (ou seja, nunca)? A mídia dos EUA, tão dócil e tão obediente em 2003, incapaz de se perguntar se as mentiras usadas para justificar a guerra tinham algum fundamento, foi descobrindo, pouco a pouco, o que sabia qualquer observador menos entorpecido em 2003: a Guerra do Iraque era, por definição, já de antemão, uma guerra na qual não havia vitória possível. Fazer previsões em política é sempre um jogo arriscado e nada garante que um ataque semelhante ao Irã não será lançado nos próximos anos, inclusive como peça do jogo eleito-

ral dos EUA, cuja população parece dotada de uma capacidade amnésica ainda maior que a brasileira. Mas ficou claro que a Guerra do Iraque representa a falência definitiva do modelo que tenta combinar a guerra instantâneavirtual descrita por Virilio com o paradigma moderno, colonial da ocupação. É impossível prever se ele será tentado de novo, mas é indiscutível que, se o for, fracassará novamente. A previsibilidade do fracasso não é garantia suficiente de que outra tentativa não ocorrerá. Os impérios em decadência funcionam com uma dinâmica toda particular, em que se tende a insistir nos desastres responsáveis pela própria decadência. É o que os freudianos chamamos de repetição: a reiteração cega do sintoma como forma de impedir o confronto com sua raiz mais profunda. Enquanto isso, as ruas americanas vão se enchendo de maltrapilhos e alcoólatras traumatizados com as explosões e mortes de Bagdá e Fallujah, juntando-se agora aos maltrapilhos e alcoólatras traumatizados há 40 anos com as explosões e mortes de Saigon. F

Luciano Tasso

tidos ou guerrilhas modernas são/eram organizações) que um referente ao qual alude uma série de atos descentralizados de vários movimentos islamistas não necessariamente coordenados entre si. Neste contexto, desaparece o próprio terreno de batalha. A guerra pode acontecer em qualquer canto e deslocar-se para qualquer outro. A intervenção da Otan em Kosovo já anunciava essa curiosa realidade: “os dois adversários oficialmente declarados não deviam se encontrar em lugar nenhum, marcando-se assim a desaparição do campo de batalha real”.1 Para Virilio, os três grandes traços das guerras pós-modernas são a instantaneidade, a velocidade e a virtualidade. Estaríamos nos aproximando do momento em que as guerras podem ser teleguiadas por uma secretária eletrônica, escondendo a realidade das mutilações e das mortes. A instalação desse modelo ocorreu com a primeira Guerra do Golfo, que imortalizou as imagens de videogame da CNN, das quais todo o horror da violência homicida havia sido purgado. Nos novos conflitos, também tende a desaparecer a fronteira que separa a guerra do policiamento. Os estados mais fortes passam a realizar atos de guerra e apresentá-los como trabalho de policiamento. O oponente já não é um inimigo em termos clássicos; ele é apresentado como um “fora da lei”. Os EUA e Israel são os representantes tradicionais desse paradigma: todas as agressões de Israel a seus vizinhos, a partir da Guerra de Yom Kippur, de 1973, foram formuladas em termos de policiamento de um bandido, e não em termos napoleônico-clausewitzianos. O resultado disso é que os Estados respondem ao terrorismo desenvolvendo seus próprios métodos terroristas. Virilio propõe o ataque de paraquedistas israelenses ao aeroporto de Beirute em 1969 como o início desse modelo em que, ao mesmo tempo em que faz guerra com argumentos e práticas policiais, o estado desenvolve os seus próprios métodos de delinquência. A Guerra do Iraque exemplificou várias dessas características dos conflitos pós-napoleônicos: não havia um inimigo identificável e ele estava por toda parte; os argumentos e as práticas da ocupação eram policiais, não bélicos no sentido clássico; a potência ocupante lutava contra o terrorismo utilizandose abundantemente de métodos terroristas; não havia campo de batalha pré-estabelecido, pois a luta ocorria aonde a insurgência a levava a cada momento; a instantaneidade, a virtualidade e a velocidade foram as grandes armas na derrubada do regime de Saddam Hussein, mas de pouco serviram no conflito

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comunicação

Até onde vai o desprezo “olímpico” da Globo? por Pedro Venceslau

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urante os Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, os milhões de brasileiros que assistem à Rede Globo se viram diante de um dilema. O que é mais importante para o desenvolvimento do esporte no país: um jogo amistoso de futebol de salão ou a final da natação com César Cielo? Artistas tentando acertar um joão-bobo chutando uma bola de calcanhar ou um jogo entre Brasil e Cuba

Sem o direito de transmissão das Olimpíadas de 2012, a emissora se vê diante de um dilema: é possível ignorar o maior evento esportivo do planeta?

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no vôlei? Desde que a Globo é a Globo, é ela quem dita as regras sobre o que é relevante e vale a pena ser visto. Foi a emissora do Jardim Botânico, por exemplo, que tentou introjetar no brasileiro a ideia de que o futebol de praia e as corridas de Stock Car disputadas pelo filho de Galvão Bueno são eventos imperdíveis e de suma importância no cenário internacional. Recentemente, o locutor mais famoso do país conseguiu a façanha de con-

ferir valor épico a um jogo amistoso entre reservas do Brasil e o Gabão em um campo de várzea. Até mesmo uma corrida de kart entre pilotos e ex-pilotos pode se transformar em “vitrine” do automobilismo brasileiro. Se os patrocinadores pagarem bem, que mal tem? Nos Jogos Pan-Americanos do Brasil, em 2007, a Globo, que detinha os direitos de transmissão, martelou na cabeça do público que o torneio era quase tão importante quanto pato garza / flickr


uma Olimpíada. Cada jogo, cada corrida, cada salto era transmitido em tom ufanista. E as medalhas, uma a uma, foram celebradas como se o Brasil fosse uma potência do esporte. Tratava-se de um evidente exagero, claro. Mas era a emissora, com suas reportagens especiais e locuções apaixonadas, que estava dizendo. Depois que a Record comprou os direitos de transmissão do Pan do México, o evento perdeu subitamente a importância e, em 2011, o torneio foi simplesmente ignorado pela emissora. A questão que intriga jornalistas, esportistas e especialistas é como a Globo vai se comportar nos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres, cujos direitos de transmissão também pertencem à Record. Nesse caso, não há como esconder ou minimizar a importância do maior evento esportivo do planeta. Na emissora do bispo Edir Macedo, prevalece a ideia de que as Olimpíadas de Londres marcarão o fim de um paradigma e que o público do evento vai migrar de canal para ficar. O canal não mede esforços para concretizar o velho sonho de chegar à liderança no Ibope. “A Record vai exibir, diariamente, de 10 a 12 horas das diversas modalidades dos Jogos Olímpicos. Vamos contar com 320 profissionais em Londres. Nenhum detalhe ficará fora da transmissão”, disse à Fórum o empolgado diretor de jornalismo da emissora, Douglas Tavolaro. A Record também vai montar um quartel-general de 750 metros quadrados, que produzirá 12 horas diárias de programação. Depois de uma negociação tortuosa, a emissora fechou um acordo que confere à Globosat, braço de TV por assinatura da Globo, o direito de exibição dos Jogos Olímpicos de Londres na TV nos canais SporTV. Valor? R$ 22 milhões. Um dado curioso é que, em 2008, a Globosat pagou apenas US$ 3 milhões para a própria Globo. Em 2012, os executivos do Jardim Botânico apostam em um cenário inédito na TV brasileira para minimizarem o estrago: uma TV aberta disputando audiência diretamente com outra emissora a cabo. As TVs abertas só poderão exibir, por contrato, 3 minutos de jogos e competições. Além do SporTV, a Globo planeja abrir até mais seis canais. Em uma operação milionária, a ideia é atrair um público de 10 milhões de pessoas para a TV paga. No mercado de mídia, os rumores apontam para uma negociação entre Globosat e operadoras para viabilizar uma megapromoção de pacotes de TV fechada válida por alguns meses, que envolveriam o período dos jogos. “Eles fizeram uma operação parecida quando lançaram o jornal Extra. Para esva-

ziar o concorrente, o jornal O Dia, que estava liderando entre os leitores de classe C e chegou a vender mais que a Folha, o grupo Globo fez uma operação casada: vendiam o Extra com muitos brindes e colocaram na praça anúncios casados com O Globo. Levaram um baita prejuízo só para ferir o concorrente”, lembra-se André Balocco, editor-assistente do jornal esportivo Marca Brasil. “No caso do Pan de Guadalajara, eu tinha a palavra da Globo de que eles fariam a cobertura do evento, mas isso não aconteceu. O caso da medalha do [César] Cielo mostrou que eles são capazes de esconder tudo. Deram só uma nota coberta e sem imagem. E era a redenção dele”, conta Crsitina Padigilione, editora de TV e colunista do jornal Estado de S.Paulo. Observadora atenta da disputa Record x Globo, ela faz uma previsão pessimista para os Jogos do ano que vem. “Não me espanta que o Pan seja só um aperitivo do que a Globo fará em Londres em 2012”. A discussão sobre o comportamento da maior emissora do país durante o maior evento esportivo do planeta mobilizou as redes sociais, chegou à internet e acabou forçando os constrangidos executivos e apresentadores globais a se manifestar. “Nossa cobertura, de acordo com o que está estabelecido no COI [Comitê Olímpico Internacional], será o que chamamos de fair use. Quer dizer, tem uma partida de vôlei e você tem três minutos para exibir em seus telejornais. Não vamos esconder. Temos um acordo de longo prazo com as federações e confederações olímpicas”, afirmou o diretor-geral da Globo, Octávio Florisbal, em entrevista ao site UOL Esportes. Questionado sobre os motivos que levaram a Globo a perder a primazia histórica sobre os Jogos, ele respondeu em cifras. “Nós tínhamos uma visão de que os Jogos de 2012 deviam valer ao Brasil até US$ 30 milhões. Se passasse disso, daria prejuízo. A concorrente ofereceu o dobro”. Entre os “artistas” da programação esportiva da casa, o dilema da transmissão também pegou na veia. “Eu sou muito cobrado: por que você não fala da Fórmula Indy? Simples. Porque eu não tenho o direito de falar na Indy, meu amigo! Existe uma ideia errada de que a Globo deve falar de tudo porque o cara quer ver na Globo...”, disparou o apresentador Tiago Leifert, porta-voz informal da emissora, em entrevista à edição de dezembro da revista G.Q. “A Globo deve usar em Londres a mesma estratégia do Pan: informar os resultados por meio de computação gráfica e entrevistas in loco. O que pegou no Pan foi que o telespectador estava acostu-

Record fatura alto com patrocínios A Record já vendeu nove cotas de patrocínio para os Jogos de Londres. Segundo a emissora, o faturamento total será de R$ 277 milhões. Os patrocinadores serão Caixa, Cerveja Petrópolis, McDonald’s, Nestlé, Petrobras, Procter, CocaCola, TIM e Visa. “Minhas expectativas são as melhores possíveis. Tenho certeza que teremos um boom no investimento publicitário, da mesma forma que nos anos anteriores em que tivemos eventos desse porte. E, dentro cenário, sendo a Record a detentora exclusiva dos direitos de transmissão das Olimpíadas de Londres, aposto todas as fichas e acredito que a emissora terá um dos melhores desempenhos de faturamento e de audiência de toda a sua história”, Walter Zagari vice-presidente comercial da Record.

mado a acompanhar a transmissão pela Globo”, pondera a diretora de redação da revista e do portal Imprensa, Thaís Naldoni.

Amadorismo

É consenso entre os profissionais da crônica esportiva e televisiva – e até dentro do governo – que a Record está a quilômetros de distância da Globo em termos de qualidade de transmissão e cobertura de grandes eventos esportivos. “A cobertura da Record [do Pan] foi amadora, com direito até a links perdidos. O público estranha muito isso, porque está acostumado ao padrão global”, diz André Balocco, do Marca Brasil. Para a colunista de TV do Estadão, um dos gargalos da transmissão da Record no Pan de Guadalajara foi o despreparo do comandante-geral da operação. “Aconteceram muitas falhas no processo que poderiam ter sido evitadas com mais coordenação. Faltou comando...”, diz Cristina Padiglione. “Foram erros crassos, que englobaram desde o posicionamento das chamadas ‘câmeras exclusivas’, postas em locais sem nenhuma estratégia, sem iluminação, passando pelos narradores e repórteres que carregaram no ufanismo. Chegaram a dizer que um evento era ao vivo, quando não era. Os repórteres se comportavam como fãs”, lembra Thaís Naldoni, da revista Imprensa. Outra marca da Record foi a transformação da rixa com a Globo em modalidade olímpica. A emissora usou tempo de seus telejornais para criticar, por meio de longas reportagens, janeiro de 2012

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a concorrente. Apesar de ter mostrado quase 40% de horas a mais no Pan do México do que a Globo no evento do Brasil, a Record ainda não consegue separar o público dos entreveros comerciais. O bispo Honorilton Gonçalves, todo-poderoso homem do canal, disse diversas vezes que a Globo “escondeu o Brasil”. A disputa entre os dois canais preocupa o governo. “Quando a Globo deixa de dar o registro para alguma modalidade, isso causa prejuízo ao esporte. O Jornal Nacional cobriu muito pouco o Pan de Guadalajara”, afirma um interlocutor próximo ao ministro do Esporte, Aldo Rebelo. Oficialmente, a pasta prefere manter distância do enredo comercial. Mas, nos bastidores, o ministério atuou como mediador em vários momentos. “Essa negociação sobre o tempo que cada canal sem os direitos poderá transmitir dos jogos é muito complicada. Nunca fica bom para todo mundo. Até 2016, será imprescindível que as emissoras entrem em acordo”, completa o assessor. Em tempo: o ministro Aldo Rebelo sabe que, mais cedo ou mais tarde, vai enfrentar com o Comitê Olímpico Internacional tensões parecidas com as que marcam a relação com a CBF... F

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Ibope e o mistério da audiência No ano em que a Globo estará fora dos Jogos Olímpicos, a entrada da Nielsen, uma das maiores empresas de pesquisa do mundo, no mercado de aferição da audiência de TV em 2012, acabará com o monopólio do Ibope Senhor absoluto da audiência em tempo real da TV brasileira desde 1988, o Ibope ganhará um concorrente de peso em 2012. A Nielsen, uma das maiores empresas de pesquisa do mundo, entrará no mercado com o dobro de domicílios que compõem a amostra do Ibope. Na reunião em que o projeto foi apresentado aos canais de TV, apenas a Globo não compareceu. Para o cientista político Carlos Novaes, que criou e comandou entre 2003 e 2005 o único empreendimento que ousou enfrentar o Ibope até hoje, o Datanexus, a ausência era mais que esperada. À Fórum, ele contou os bastidores de seu projeto e as dificuldades que encontrou no caminho. “O Datanexus tinha a melhor tecnologia da época, com um sinal preciso e emitido por celular. A nossa mostra era muito mais apurada, pois não aceitávamos barreiras. Colocamos aparelhos em favelas, coisa que o Ibope não fazia”, conta. Financiado pelo SBT, o instituto logo apresentou números que colocavam em dúvida não só a alta audiência da Globo, mas de toda a TV brasileira. No dia em que convidou todos os dirigentes das emissoras para uma reunião em que apresentaria os novos números do mercado, Novaes se lembra que também naquela ocasião, só a Globo não apareceu. Durante sua apresentação, o cientista político revelou um dado perturbador: a audiência total da televisão brasileira é 10% menor do que pensava o mercado. “Na saída, o Johny Saad, da Band, me disse: ‘Então você está dizendo que meu negócio é 10% menor? Que vantagem eu levo?’. Resultado: as emissoras acabaram ignorando o novo instituto. Sozinho, o SBT acabou seguindo mesmo caminho.” Desconfio que será difícil (A Nielsen dar certo no Brasil). Há uma comunidade de interesses entre os diretores de marketing, das agências e as TV, que estão confortáveis com os números do Ibope”, diz Novaes.


Garras e feridas A

palavra que marcou o ano de 2011 para a comunidade LGBT brasileira foi “homofobia”. Diante do aumento escandaloso de ataques gratuitos contra homossexuais, as Paradas Gays por todo o Brasil enfatizaram a necessidade de lutar contra o preconceito por orientação sexual. Os grupos LGBT, porém, sofreram um primeiro baque no meio do ano, quando a presidenta Dilma Rousseff, em meio ao tiroteio que derrubaria o então ministro Antonio Palocci, engavetou temporariamente o projeto Escola Sem Homofobia do MEC, alegando problemas didáticos, usando a expressão “propaganda de opção sexual”. Após o recuo em relação ao chamado kit anti-homofobia (que a imprensa teimou em chamar de kit gay), a militância passou a pressionar o Congresso para a aprovação do PLC 122, projeto de lei que criminaliza o ataque a homossexuais. Na tentativa de fazer passá-lo na Comissão de Direitos Humanos do Senado, Marta Suplicy (PT-SP) se reuniu com a bancada da família, principal opositora ao projeto. As modificações feitas na lei, suavizando as penas para o preconceito homofóbico e garantindo o direito dos religiosos de vociferar contra a homossexualidade, deixou muitos ativistas LGBTs irados com o que julgaram ser uma concessão inadmissível à bancada religiosa. O deputado Jean Wyllys (Psol-RJ) fez forte oposição ao substitutivo da senadora, propondo voto em separado para alguns artigos caros aos LGBTs. Infelizmente, as concessões feitas aos conservadores não surtiram efeito, e a senadora Marta Suplicy viu-se obrigada, no final de 2011, a retirar o PLC 122 de votação, para que ele não fosse enterrado de vez. Quem assistiu à audiência percebeu a truculência dos métodos usados pela bancada religiosa, que levou uma claque ruidosa a tiracolo para gritar, histericamente, impropérios contra um suposto “Império Gay”. O tom messiânico, desestabilizador e agressivo das intervenções dos oposi-

tores ao projeto era o mesmo que se vê nas pregações dos pastores mais exaltados. Enfim, a não votação do PLC 122 jogou um balde de água fria na militância. Fernando Quaresma, presidente da APOLGBT, acredita que “nossos políticos estão inertes diante do quadro do preconceito” e que “na maioria das vezes se omitem, ou pior, deflagram o preconceito”. Por essas e por outras, ele deposita suas esperanças no Poder Judiciário, que, com decisões pró-LGBTs em 2011, deu “um puxão de orelha no Legislativo”. Toni Reis, presidente da ABLGT, que apoiou Marta Suplicy no esforço de construir pontes para aprovar um mínimo que fosse junto à bancada conservadora, terminou o ano declarando esgotadas as possibilidades de negociação. Reis se empenhará, de agora em diante, na defesa da aprovação de uma lei anti-homofobia “sem concessões de qualquer natureza”. Uma explosão magoada e revoltosa irrompeu na semana seguinte, durante a abertura da II Conferência Nacional LGBT. Ausente da cerimônia, a presidenta Dilma Rousseff foi alvo de sonoras vaias. A ministra Maria do Rosário, da Secretaria dos Direitos Humanos, presente à cerimônia e

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representando o governo, defendeu a presidenta e garantiu que a comunidade LGBT não sairia de mãos vazias do evento. Embora tenha recebido palavras de apoio e admiração, a ministra não conseguiu mitigar o desgosto de grande parte dos movimentos em relação à presidenta. Mas garantiu, para o próximo ano, uma campanha nas TVs abertas contra a homofobia, em parceria com a Unesco. Apesar das boas intenções da ministra, o clima de enfrentamento está instalado. Meu temor é que a militância parta para a luta feroz, mimetizando a prática reducionista dos fundamentalistas, discutindo de maneira exaltada e leviana, escolhendo bodes expiatórios, xingando aliados e dinamitando pontes em vez de zelar por elas. Não podemos esquecer que esse é um caminho que a sociedade deve percorrer, pois o preconceito não termina apenas por causa de um decreto presidencial. Talvez a provável evolução dos movimentos LGBTs aqui no Brasil, se direitos lhes forem negados e os espancamentos homofóbicos continuarem impunes, aponte para o surgimento de uma militância raivosa, dogmática, radical, ferida e contrariada com os governos e o Estado. Triste, isso. F

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Twitter: @vleonel E-mail: vangeleonel@uol.com.br

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Duas palestinas, a mesma luta Na década de 1970, Leila Khaled atraiu a atenção internacional com dois sequestros de aviões. Na década seguinte, surgiu a União dos Comitês de Mulheres Palestinas, na qual Abla Sa’adat atua até hoje. Conheça um pouco mais dessas duas trajetórias

por Sâmia Gabriela Teixeira

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ste é o voo TWA 840”, disse o piloto quando foi interrompido por uma elegante mulher vestida de branco. Ela, enquanto segurava uma granada já sem o pino, tomou o rádio e alertou: “Não, este não é mais o voo 840. Senhoras e senhores, sua atenção, por favor. Este é o seu novo capitão falando, Shadia Abu Ghazali. O Comando Che Guevara, unidade da Frente Popular pela Libertação Palestina (FPLP), acaba de assumir o comando do voo da TWA”. Enquanto voavam sobre Israel, caças militares acompanhavam o avião comercial sequestrado. Mas o avião seguiu para Damasco e pousou sobre uma pista de concreto, já construída com antecedência pelo movimento palestino de resistência. Após o pouso, a mulher de branco anunciou aos passageiros: “Saiam todos. Há uma bomba neste avião”. A aeronave explodiu assim que as pessoas desembarcaram e seguiram para um local seguro. A intenção da FPLP era de pousar em território árabe amigo para julgar o embaixador israelense nos Estados Unidos, Itzhak Rabin, ex-chefe do Estado-Maior do Exército Israelita, que

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participou da Guerra de 1967. Mas, na última hora, Rabin desistiu de embarcar. Apesar disso, esse primeiro sequestro de avião realizado pela palestina Leila Khaled, a elegante mulher vestida de branco, serviria para torná-la conhecida no mundo inteiro. Depois de três meses, Leila e seu companheiro foram liberados pela polícia síria, e a causa palestina passava a receber os holofotes da mídia. Hoje, com 67 anos, Leila ainda é referência de luta em terras árabes. Ela esteve no Brasil entre novembro e dezembro deste ano, para uma série de debates sobre a resistência palestina e as ocupações israelenses. Para ela, a atualidade pede novos caminhos para revolucionar. “Os palestinos eram conhecidos somente como refugiados. O mundo não sabia que tínhamos uma causa, uma terra ocupada. Então, nós utilizamos uma determinada tática para que o mundo nos enxergasse. E essa tática foi a força. Quando você usa o poder, quando você usa força, o mundo passa a te dar atenção. Hoje, não é mais necessário o sequestro de aviões. Essas ações não nos deram respostas, os sequestros deixaram a pergunta. E a revolução nos dará a resposta”, disse Leila, enquanto acendia um novo cigarro.

A questão e a resposta

A pergunta que, segundo Leila, os sequestros deixaram é “quem são os palestinos?”. Décadas depois, de acordo com ela, os palestinos já são conhecidos, e a opinião pública é considerada mais crítica em relação a Israel. “A revolução começou quando a raiva palestina emergiu após a invasão de Israel no Sul do Líbano, em 1982. Em 1987, quando aconteceu a primeira intifada nos territórios ocupados, o mundo todo começou a nos escutar. Viram as crianças jogando pedras e todas as Leila treinou mulheres e até mesmo crianças em campos de refugiados. Ainda hoje, é referência de luta política para os movimentos de mulheres e jovens na Palestina

pessoas indo para as ruas. O mundo, então, descobriu a questão palestina e reconheceu Israel como um ocupante, um opressor. Desde então, temos delegações de movimentos e comitês chegando à Palestina para denunciar a realidade, para ver como vivem os palestinos e como Israel lida com eles. E temos, a cada dia, mais e mais pessoas ao nosso lado.” Aliás, essa crença de Leila na revolução é sóbria, sem exageros, consciente e, mesmo com o forte sentimento de esperança, ela fala com a racionalidade de uma guerrilhei-


twitter: @CarlosLatuff

ra. Para ela, uma terceira intifada ainda está muito longe de ocorrer, e acredita que ainda teremos muitos anos para que as questões políticas na Palestina ganhem mais forma e consistência. Leila também não aposta suas fichas em acordos entre Hamas e Fatah ou na criação do Estado Palestino. “Não podemos ignorar esses dois grupos, pois são componentes desse cenário. Mas a pressão popular nas decisões de Hamas e Fatah deve existir sempre. Quanto à criação do Estado, defendo que exista um Estado único, laico, onde as terras sejam compartilhadas entre judeus, palestinos, muçulmanos e cristãos, sem distinção alguma. Uma nação democrática. Mas então eu pergunto: Israel está disposto a aceitar isso?” Quem vê essa mulher, falando com voz rouca e firme, cheia de questionamentos e duras afirmações, tenta imaginar como foi a sua infância e seu envolvimento na luta política pela libertação da Palestina. Leila tinha 4 anos de idade quando a Palestina virou Israel. Um grupo terrorista judeu, chamado Stern Gang, foi protagonista de um dos mais trágicos massacres no vilarejo de Deir Yassim, matando centenas de homens, mulheres e crianças. A família de Leila abandonou Haifa, onde moravam, e buscou refúgio no Sul do Líbano. E foi na escola dos campos

de refúgio que Leila notou as primeiras distinções de tratamento. “Todos tinham, cada um, seu próprio livro. Eu sempre tinha de dividir o meu com meus irmãos. Quando perguntava o motivo disso a minha, mãe ela respondia: ‘Isso acontece porque somos palestinos. Só teremos o inteiro quando voltarmos à nossa terra.’ Isso não saía mais dos meus pensamentos, e acredito que foi então que comecei a militar”, relembrou. Como membro, até hoje, da FPLP, Leila continua seu trabalho na Palestina, mesmo não podendo pisar em sua terra natal. Os trabalhos do movimento de resistência são dirigidos à juventude e às mulheres, que no cenário atual têm papel fundamental no campo político. “A juventude e as mulheres são o nosso futuro. Pensando assim, devemos transferir a nossa experiência para elas. Mostrar o que está certo, o que está errado, e o que Israel faz. Obter conhecimento também é uma luta. Temos que estimular a juventude a construir um novo futuro para o nosso povo. Educá-las politicamente, pois educação também é uma arma. Nosso inimigo tem nos educado esses anos todos, e eles usam a educação contra nós. Agora, temos para a revolução a tecnologia e a comunicação, e os jovens usam essas ferramentas de um modo muito eficaz”, disse.

Resistência dentro e fora das grades Outra palestina que atua com esse objetivo de politização e articulação de resistência, principalmente com as mulheres, é Abla Sa’adat, dirigente da União dos Comitês de Mulheres Palestinas. Nascida no vilarejo de Betrima, em Ramallah, a palestina de 56 anos nem sempre esteve envolvida com a política. Hoje, ela é referência na luta das mulheres e nas campanhas pela libertação de presos políticos. O companheiro dela, Ahmad Sa’adat, é o secretário-geral da FPLP, e, de alguma maneira, foi uma forte inspiração para o engajamento político e social dela. Ele está detido desde 2001. Antes, já havia sido preso em 1968, 1969, 1970 e em 1976. Membro da FPLP, Ahmad tornou-se secretário-geral do movimento após a morte de Abu Ali Mustafa, um dos fundadores da Frente, e ganhou destaque internacional pelo seu ativismo político e influência na luta palestina, mesmo estando em cárcere. Abla o conheceu em 1968, e logo descobriu que a personalidade contestadora daquele jovem a faria se apaixonar por ele. “Eu trabalhava na casa vizinha à do Ahmad. Como era comum a troca de visitas entre as famílias, nos vimos muitas vezes por lá. Nos apaixonamos desde o início. Quando janeiro de 2012

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fotos: Sâmia Gabriela Teixeira

o vi falando sobre política e religião com tanta convicção, segurança, confiança, logo o achei interessante, muito culto e inteligente”, relembrou. Desde 2008, quando foi condenado a 30 anos de prisão, ele está proibido de ver esposa, filhos ou qualquer outro parente. Até 2006, ele estava preso em Jericó, sob poder das autoridades palestinas. Em uma ação israelense, foi sequestrado pelas forças militares de Israel com mais outras centenas de presos políticos. Abla assistiu ao vivo a invasão militar. “Eu tinha medo que, com as explosões, as paredes caíssem em cima dos presos. Quando ouvi a voz de Ahmad numa reportagem da Al Jazeera, fiquei tranquila. Depois, vi os palestinos sendo trazidos somente com a roupa de baixo, e pensei que Ahmad seria morto, pois ele nunca permitiria que o forçassem a sair somente com a roupa de baixo. O mais difícil era aparentar ser forte na frente da imprensa e dos meus filhos. Perdi a paciência quando um repórter da NBC me perguntou se Ahmad resistiria até o fim. Eu respondi: ‘Resistir até o fim? Como resistir, sem nem ter as roupas do corpo, contra armas pesadas e militares descendo de helicóptero?’”, relatou. Assim como Abla, milhares de mulheres palestinas sofrem com a detenção dos companheiros. Vivendo nesse cenário, além de campanhas pela libertação dos presos políticos, que totalizam 4.9 mil, ela atua na educação política das mulheres e viabiliza a autonomia dessa parte da sociedade que, hoje, livre dos cárceres israelenses, é a maior porcentagem da população palestina em terras ocupadas. “Como a educação está nas mãos de Israel, construímos creches para que as mulheres tivessem mais tempo para a militância. Incentivamos cooperativas para que possam gerir seu próprio negócio e, principalmente, as conscientizamos do papel que a mulher tem hoje numa sociedade em que muitos homens, que antes eram chefes de família, estão presos pelas forças militares israelenses”, explicou. A questão dos presos políticos é um dos principais temas discutidos nos trabalhos com as mulheres. Abla considera essa uma questão tão importante quanto “o muro do apartheid, as campanhas de boicotes e criação de Estado palestino”. Para ela, é necesAbla Sa’adat encabeça as manifestações contra a detenção de presos políticos e administrativos; Leila Khaled ganhou destaque na mídia internacional com os dois sequestros de aviões, planejados pela FPLP

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sário reconhecer a ilegitimidade da prisão dos palestinos antes de conquistar a queda dos muros de Israel em terras palestinas. E que, exatamente por existir um contexto de opressão, “reconhecer o Estado palestino é o mesmo que reconhecer a ocupação israelense”. Para ela, a questão dos presos políticos deve ser considerada como a mais urgente a ser atendida. Segundo Abla, as consequências de uma detenção ilegal vão muito além do sofrimento do detido. “Quando falamos em quase 5 mil prisioneiros, não falamos apenas sobre números oficiais. Não são 5 mil injustiçados, mas 5 mil famílias que sentem a impunidade de um terrorismo de Estado, que vem de Israel. Vale lembrar que isso é terrorismo, e não o engajamento de cada preso político que lutou pela libertação de seu povo”, desabafou Abla.

As possibilidades de vitória

É possível que Leila Khaled, símbolo de resistência, não veja o dia em que a Palestina será libertada. Mas ela deixa para os jovens e mulheres um legado de confiança no poder dos movimentos políticos. Para quem acha que serão necessárias armas pesadas para a revolução palestina ganhar força, Leila redesenha com detalhes as cenas de crianças e mulheres que, na primeira e segunda intifadas, estiveram à frente dos protestos, utilizando apenas pedras contra tanques militares. “Quando eu participei dos sequestros, me senti muito encorajada pelo meu povo. Tanto por homens como pelas mulheres. Mas me tornei essa espécie de símbolo de força, então, tive que trabalhar com meu povo, ao lado dele, nos campos de refúgio, para que me enxergassem como um ser humano, e não um ser intangível”, salientou Leila. “Eu e outros companheiros mobilizamos palestinos para participar da luta, e muitas mulheres e jovens se uniram à causa. Mas algumas mulheres não sabiam como ajudar, tinham filhos para criar. Pensávamos: ‘Como trazê-las também para a revolução, para a guerrilha?’. Uma senhora já de idade veio falar comigo e disse: ‘Eu tenho sete filhos. Estava lavando roupas agora na lavanderia em que trabalho quando soube que você estava aqui. Me diga, como eu posso ajudar?’. Eu disse: ‘Você fará parte da revolução se trouxer esse espírito de luta para as crianças. Você não precisa vir conosco e lutar, mas pode fazer a revolução cuidando de seus filhos’. Hoje, não precisamos de sequestros de aviões”, concluiu Leila, enquanto apagava o seu último cigarro. F


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O paradigma do asfalto É importante perceber que a questão das enchentes urbanas passa tanto pelo poder público, pelas diretrizes de urbanização e gestão das águas quanto por cada um de nós

por Fernando luiZ lara*

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o português coloquial brasileiro, a palavra “asfalto” significa o contrário de favela. A favela começa onde termina o asfalto, e vice-versa. Asfalto é, assim, sinônimo de cidade formal, cidade legal, sendo a favela, informal e ilegal, o seu oposto. Essa questão vai muito além da semântica e tem implicações profundas no modelo de desenvolvimento que estamos seguindo há séculos, sem maiores correções de rumo, apenas com pisadas eventuais no freio ou no acelerador da economia. Usado pela primeira vez no Brasil pelo então prefeito do Rio de Janeiro Francisco Pereira Passos na reforma do centro da cidade, que demoliu 1.2 mil casebres e construiu 300, o asfalto entrou no imaginário brasileiro da forma mais autoritária e excludente possível. De lá para

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cá, superamos o autoritarismo e lutamos bravamente contra a exclusão, mas o asfalto continua. É absolutamente angustiante perceber que, apesar de todos os avanços democráticos da última década e do sucesso das políticas públicas de inclusão social, o modelo de construção (literalmente) do País é o mesmo desde o governo JK: todo problema se resolve com mais cimento e mais asfalto. Asfalto, cabe lembrar, é um subproduto do refino do petróleo. A borra do óleo cru (alcatrão) é misturada com um agregado miúdo (brita fina) para produzir uma massa flexível enquanto aquecida e razoavelmente resistente quando resfriada. E esta massa de borra de petróleo com brita cobre uma porção significativa das nossas cidades, chegando quase a 20% da superfície total. Junto com seu inseparável companheiro, o cimento, na forma de concreto (que, como o asfalto, também tem pedra na sua fórmula) ou de pisos em geral, 80% das áreas públicas das cidades brasileiras estão impermeabilizadas. Escrevendo sobre Roberto Burle Marx, o crítico de arte carioca Paulo Venâncio Filho cunhou uma frase que, no meu entender, resume tudo: o brasileiro só sabe se relacionar com a natureza tendo o cimento como mediador. Os últimos 20% são áreas de canteiros em praças ou parques públicos, os únicos espaços em que a água que cai torrencialmente de novembro a março tem a chance de voltar a terra sem a intermediação da infraestrutura de escoamento, que é formada pelos acima citados asfalto e cimento. E as áreas privadas da cidade, que formam

cerca de 75% da superfície total, não ficam nem um pouco atrás, cobertas por telhados em cima de edifícios ou pelo cimento que os rodeia. Em resumo, nossas cidades têm um índice de impermeabilidade altíssimo. Cada vez que você passar por uma rua alagada, logo depois de uma tempestade de verão, lembre-se disto: a água não tem para aonde ir, pois a cidade está toda impermeabilizada. As conversas sobre o tema sempre passam por aquilo que alguém deveria fazer. E esse alguém é sempre definido como o outro: o poder público, as autoridades, os da rua de cima. A expansão urbana desenfreada, a produção agrícola em larga escala: é importante perceber que a questão das enchentes urbanas passa tanto pelo poder público, pelas diretrizes de urbanização e gestão das águas quanto por cada um de nós, em nossos pedacinhos de terra na cidade. O manejo da água da chuva é público, mas a absorção residencial é um problema doméstico, privado. Com todos os quintais impermeabilizados, a municipalidade passa a controlar 100% do volume de água, mas só dispõe de 25% da área da cidade para tanto. Cada vez que chove 100 mm (e isso tem ocorrido frequentemente), um quarteirão médio (100 m x 100 m, ou 1 hectare) recebe 100 mil litros de água. Se fôssemos segurar todo esse volume num piscinão, seria necessário um lote de 12 x 30 com profundidade de três metros – para cada quarteirão. Em São Paulo, um volume gigantesco de água corre rapidamente para os vales dos rios Tietê e Pinheiros cada vez que chove forte. Em Belo Horizonte, os fundos de vale são inundados várias vezes ao ano, como aconteceu com a avenida Tereza Cristina em 12 de dezembro de 2011, aniversário da cidade. Se parte dessa água tivesse sido absorvida ou pelo menos retardada por canteiros e áreas com pavimento permeável, a enchente poderia ter sido evitada. Cada metro quadrado de solo permeável devolve entre 1,5 mil (São Paulo) a 1,8 mil (Rio de Janeiro) litros por ano ao subsolo. Se cada lote urbano tivesse 10 metros quadrados de canteiros rebaixados, 80% da água da chuva anual seria retida e encharcaria devagar na terra, recarregando os lençóis freáticos e ajudando a manter a cidade mais fresca no dia seguinte, com o processo de evaporação. Mas, em vez disso, cada vez que chove temos mais e mais água correndo mais e mais rápido sobre o asfalto liso. Para resolvermos parte do problema das enchentes urbanas, temos de entender que a questão da permeabilidade do solo é proble-


ma de todos; e que precisamos promover uma mudança cultural: 1) na forma como o poder público trata o problema; 2) na forma como as pessoas se sentem envolvidas com ele. E é aqui que entra a responsabilidade do poder público. No caso, da presidenta Dilma Rousseff, que ocupa o mais alto cargo no Estado brasileiro, dos governadores, dos prefeitos e de todos que, de uma forma ou de outra, participam do processo de projeto e execução das obras de infraestrutura. Mas vamos nos ater ao Executivo federal e à presidenta Dilma, que, quando ministra, elaborou e executou o maior programa de infraestrutura urbana jamais feito na história deste país (dá para ouvir a voz do presidente Lula na frase anterior, não?). De acordo com os números do PAC disponíveis na página do governo federal, foram investidos R$ 600 bilhões em obras de infraestrutura entre 2005 e 2010. Outros R$ 500 bilhões ainda serão investidos até 2014.

Não vou nem entrar aqui no debate sobre as obras de infraestrutura para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, porque são, via geral, um tremendo retrocesso em termos de processos de participação e de investimentos na função social dos equipamentos urbanos. Vou me ater aos dois vetores principais de intervenção do PAC I: as obras de saneamento e acessibilidade nas favelas e o programa Minha Casa, Minha Vida. As obras de saneamento e acessibilidade nas favelas financiadas pelo PAC se diferenciam do modelo dos governos do século XX por manter a população no lugar e levar infraestrutura e equipamentos para onde antes não havia. Antes dos anos 1990, a receita padrão para resolver o “problema” das favelas era demolir tudo e realocar as famílias em algum conjunto de casinhas mínimas, construídas sempre muito longe dos centros das cidades, em um local onde o preço da terra fosse ainda muito barato. Ora, preço da terra é uma função, entre outras coisas, das amenidades e dos equipamentos aí disponíveis. Deslocar milhares de pessoas para áreas longínquas significa privá-las de oportunidades de trabalho e afastá-las de toda uma rede de oportunidades existente no centro das cidades. O caso mais emblemático é o da Cidade de Deus, na zona oeste do Rio, destrinchado pela narrati-

Demoramos quase um século para aprender que favela não é um problema, mas sim uma solução precária e incompleta

va de Paulo Lins e jogado ao mundo pelo filme de Fernando Meirelles. Como bem mostram as cenas iniciais do filme, Cidade de Deus foi um conjunto de pequenas casas construído pela administração Carlos Lacerda em 1967, cujo isolamento (físico, social e econômico) serviu de combustível para a violência em todos os níveis. Demoramos quase um século para aprender que favela não é um problema, mas sim uma solução precária e incompleta. Mas a maior ironia (para não dizer tragédia) é perceber que o modelo persiste, agora rebatizado de Minha Casa, Minha Vida. São R$ 12 bilhões por ano para construir habitação preferencialmente para famílias cuja renda esteja abaixo de R$ 1.6 mil. Mas basta uma análise preliminar das diretrizes de financiamento da Caixa Econômica Federal (CEF) para perceber o atraso conceitual do programa. Para começar, a CEF dita um valor máximo de financiamento de R$ 58 mil por unidade, no caso de São Paulo e do Distrito Federal (os mais caros). Descontado o custo da construção (aproximadamente R$ 1 mil por metro quadrado ou cerca de R$ 45 mil por apartamento), sobram R$ 13 mil para pagar o terreno e todas as obras de infraestrutura interna, incluindo escadas e caixas d’água, por exemplo, que são, há de se convir, absolutamente fundamentais. No caso da infraestrutura externa ao edifício, cabe à prefeitura (quase sempre) ou às construtoras (absolutamente nunca) pagar por tudo. É como se calçadas, pontos de ônibus, áreas de lazer, parquinhos, campos de futebol ou mesmo a simples arborização fossem luxos, e não componentes essenciais de qualidade de vida. Como no velho BNH, a CEF financia as construtoras e repassa a dívida na forma de hipotecas para os moradores qualificados. Como no velho BNH, as construtoras não têm nenhum risco. Elaboram projetos simplistas, muitas vezes cópias de desenhos que a própria CEF fornece. Compram terrenos baratos na periferia longínqua, aprovam um arruamento básico, a ser executado com o uso de apenas uma máquina motoniveladora, convencem a prefeitura a estender as redes de água, luz e esgoto e constroem as casas ou apartamentos da forma mais barata e mais rápida possível. Terminada a obra e recebido o dinheiro, o lucro é simples, o risco é mínimo. A conta de verdade cai no colo da prefeitura, que num futuro próximo vai ser pressionada a fornecer toda a infraestrutura que devia ter sido feita junto com as unidades habitacionais. Praças, quadras de esporte, calçadas, linhas de ônibus, sinais de trânjaneiro de 2012

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sito, escolas, creches, clínicas e parques. Tudo isso vai demorar anos, talvez décadas, para ser construído, com efeitos negativos na qualidade de vida, na saúde e na produtividade de quem mora ali. E o primeiro a chegar vai ser o asfalto. Antes da creche ou do posto de saúde, antes do parque e infelizmente antes das árvores, chega o asfalto. O que não é de se estranhar, dado que os moradores das periferias das grandes cidades passam em média três horas por dia em ônibus e vans, um custo altíssimo que nunca é computado nessa equação. Enquanto os centros das grandes cidades se esvaziam a olhos vistos, continuamos com essa expansão irracional. Importante lembrar que a densidade das cidades brasileiras tem caído desde os anos 1980, na contramão de qualquer conceito de sustentabilidade. Os centros de São Paulo e do Rio de Janeiro, por exemplo, têm milhões de metros quadrados de construção subutilizados. São edifícios de escritórios com 15% de ocupação ou prédios de apartamentos antigos cujo valor imobiliário é baixo (sem garagem e um só banheiro), mas com alto custo de manutenção. Transformar esses espaços em moradia barata é viável e muito mais eficiente a longo prazo, mas não existe linha de financiamento ou de incentivo para construtoras menores ou mesmo mestres de obra fazerem as reformas necessárias. O resultado é uma concentração gigantesca de recursos em obras fáceis, onde não há invenção nem risco. E o pior, não há futuro. Expandir as cidades ad in�initum em um momento em que a taxa de natalidade está abaixo do nível de reposição implica cair na armadilha norte-americana de abandonar o centro. Isso só faz sentido na lógica do capital imobiliário, que precisa continuar comprando terra barata e vendendo caro. E se for para fazer apartamentos de R$ 50 mil, que seja sem risco. A raiz desta ideia é a mesma em Belo Monte, no PAC ou no Minha Casa, Minha Vida: tudo se resolve com mais asfalto e mais cimento. Afinal de contas, o asfalto é o antônimo da favela e do subdesenvolvimento. Há algumas semanas, uma foto da presidenta Dilma Rousseff circulou na internet, e aquela imagem, sim, diz mais que mil palavras. Uma jovem Dilma, segura de suas convicções e ciente de sua condição de prisioneira, encara o terror da tortura e olha de cabeça erguida para os militares que a rodeiam, enquanto estes escondem o rosto claramente com medo do que a história lhes reserva. Dá calafrios imaginar que o modelo de incentivo à construção do governo Lula e

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Para resolvermos parte do problema das enchentes urbanas, temos de entender que a questão da permeabilidade do solo é problema de todos; e que precisamos promover uma mudança cultural: 1) na forma como o poder público trata o problema; 2) na forma como as pessoas se sentem envolvidas com ele

do governo Dilma é parecido com o modelo do governo Médici. É até compreensível que nossas lideranças de esquerda, formadas nos anos 1970, sejam tão desenvolvimentistas. Mas o conceito mesmo de desenvolvimento já vai se deslocando aos poucos da ideia de mais asfalto e mais cimento, e é hora de a esquerda repensar sua política de construção de infraestrutura. Insistir nesse tipo de política urbana significa que, quando começar a jorrar pra valer o óleo grosso do pré-sal, vamos multiplicar por 3 ou 4 a produção de asfalto, que é a borra do refino, e vamos consequentemente impermeabilizar 3 ou 4 vezes mais área, gerando inevitavelmente mais enchentes. A outra consequência de insistir neste modelo de asfalto e cimento como solução para tudo é ainda mais perigosa. Como já anunciado nas eleições presidenciais de 2010, um discurso conservador disfarçado de ambientalista tem uma aceitação significativa na classe média (antiga ou recém-chegada, tanto faz) e pode causar um retrocesso de décadas no caminho de superação das desigualdades que estamos, com muito custo, trilhando. Custamos muito a aprender que a favela não é problema. Agora urge aprender que o asfalto não é solução. F

*Fernando Luiz Lara é belo-horizontino, arquiteto e professor na Universidade do Texas em Austin, EUA.


O microfone aberto do Fora do Eixo Congresso realizado em São Paulo reuniu 1,8 mil pessoas de todo o Brasil e chama a atenção para o debate cada vez mais efervescente em torno da música brasileira por Pedro Alexandre Sanches

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programa de TV está no ar. O assunto é educação: deficiências do ensino, os descaminhos dos educadores, o acesso das camadas sociais menos favorecidas à universidade, as cotas raciais. Rafael Moysés, negro, nascido em 1988, está sentado no auditório e pede a palavra. Surpreendentemente, os apresentadores concedem. Rafael senta-se ao sofá, ao lado dos educadores. Ele se manifesta. Conta que entrou via Enem no curso de cooperativismo da Universidade Federal de Viçosa (MG). Filosofa. Intimida-se: “Eu sou calouro ainda, estou só começando”. Continua a filosofar. Dali a pouco, outra estudante, também afrodescendente, senta-se à roda e conta sua experiência com a universidade. O programa de TV progride. Não estamos sintonizados na Globo, nem na televisão aberta, menos ainda na paga. O programa vai ao ar pela Pós-TV, que o produz e transmite via internet a partir da Casa Fora do Eixo, no bairro paulistano do Cambuci. Do lado de fora, há churrasco e cerveja, dentro da casa, há programa de (pós-) TV. Rafael perdeu a mãe neste ano, não tem iPad, falta-lhe um dente no sorriso aberto. É pobre, e muito, muito inteligente. É um entre centenas de foras-do-eixo que zanzam por ali, plenos de orgulho e vontade de viver e fazer diferença. É o oitavo e último dia de jornada do IV Congresso Fora do Eixo, sediado no Paço das Artes, na USP, entre 11 e 18 de dezembro passados. Segundo o mato-grossense Pablo

No FdE, a música é o motor de tudo, mas frequentemente fica nítido que ela é mais meio que finalidade

Paula Mello / Fora do Eixo

Capilé, líder mais visível do movimento Fora do Eixo, 1.800 pessoas de todos os cantos do Brasil participaram do congresso. Quem quis fumar maconha, fumou, e a polícia política tucana instalada na USP nem percebeu, ou fez que não. Fora do Eixo (FdE) é uma movimentação que cresceu exponencialmente nos últimos anos, primeiro, a partir de Cuiabá (MT), depois, via internet, redes sociais e um circuito de festivais de música espalhados pelo Brasil. A música é o motor de tudo, mas frequentemente fica nítido que ela é mais meio que finalidade – isso talvez ajude a explicar a resistência de muitos músicos, e também de jornalistas musicais e culturais, ao processo de aglutinação e desenvolvimento dos fora-do-eixo.

Por sinal, o congresso trata também de comunicação e jornalismo. E de meio ambiente. Política cultural. Educação. Economia solidária. Política identitária (tímida, ainda, no que se refere a gênero, raça, sexualidade). Política (anti-) partidária. E assim por diante, num carrossel de temas e não temas – a “não programação” é uma das provocações lançadas pelos organizadores; “o debate é sobre vida”, (não) define, a certa altura, Capilé. Estranhamente, a ciranda caudalosa de “nãos” parece conduzir, pouco a pouco, a alguns “sins”. Num debate sobre jornalismo e a necessidade de se construir um sistema fora-doeixo de comunicação, extra-Folha,Veja etc., o jornalista mineiro Israel do Vale pergunta à grande plateia no vão (quase) livre do Paço das Artes: “Quantos jornalistas culturais esjaneiro de 2012

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Diferentes vozes

Desviar o debate do centralismo e da miséria intelectual rotineiramente praticados pelo velho eixo Rio-São Paulo é um programa explícito de ação do FdE. Tomar o poder (que poder?) do velho eixo parece ser outro objetivo, esse menos trombeteado. Chegando de mansinho já há alguns anos, FdE é um planeta pequeno (mas em crescimento contínuo), em rota de colisão com o eixo midiático-cultural que empobrece o Brasil há décadas. No final da noite de sábado, 17 de dezembro, acontece no Paço a última plenária do congresso. Capilé propõe o formato arriscado, que tem tudo para dar errado: o microfone ficará à disposição de quem quiser manifestar o que quiser manifestar. Sete cadeiras de plástico permanecem desocupadas no centro do debate. E um pequeno fenômeno começa a acontecer. Gente de todos os sotaques vêm se pronunciar. Muitas mulheres chegam ao microfone, com um invariável discurso introdutório, do tipo “estou nervosa”, “não estou acostumada a falar em público”. O próprio FdE puxou essa ciranda de expressão feminina, ao abrir oficialmente o congresso, na segunda-feira, 12, com uma mesa formada por 11 mulheres, no palco do solene e algo intimidador auditório Ibirapuera. Mantida pelo banco privado Itaú, a casa de espetáculos aceitou o fora-doeixo-card, controversa moeda paralela do FdE, como pagamento de aluguel do espaço. Entre as mulheres fora-do-eixo que abriram o congresso, havia gestoras da Petrobrás, da Vivo, da Vale e do FdE, a onipresente

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Luiza Guedes / Fora do Eixo

tão aqui?”. Ninguém levanta a mão. “Quantos jornalistas estão aqui?”, refaz. Nenhum, além dos que estão presentes à mesa (Alex Antunes, Bruno Torturra, Eduardo Nunomura, Lino Bocchini e eu). Não se veem, tampouco, músicos e artistas, além dos integrantes do grupo matogrossense Macaco Bong, que já foi premiado pela Rolling Stone brasileira e integra o coletivo de coletivos hoje chamado Fora do Eixo (na origem, em Cuiabá, era Espaço Cubo). Mas expliquemos melhor: os artistas que não estão presentes são aqueles que contam com o aparato de mídia, gravadora, programa de TV aberta, páginas de revistas de celebridade. Fora dessas categorias, todo mundo no congresso Fora do Eixo é artista – e jornalista e comunicador, e educador e estudante, e, de algum modo próprio e particular, fora-do-eixo. Não fosse, aqui não estava, como provam os ausentes e a ausência quase completa de repercussão na mídia tradicional.

Desviar o debate do centralismo do velho eixo Rio-São Paulo é um programa explícito de ação do Fora do Eixo

professora de comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Ivana Bentes e a cantora e a compositora paraense de tecnobrega Gaby Amarantos. Mas voltemos à plenária de microfone aberto. Em mais de um momento, a encenação coletiva adquire feição que lembra reunião de alcoólicos ou narcóticos anônimos – só que não são anônimos, nesse caso. Vem ao microfone o alto e magro integrante de um duo-casal musical gaúcho de Santo Ângelo (infelizmente, não anotei os nomes). Ele é o mesmo que, dias antes, conversara sobre casamento bissexual com o casal Vange LeonelCilmara Bedaque, numa roda-ciranda sobre identidade sexual, sexualidade, feminismo, rock etc. Ao microfone aberto, diz que andava pensando seriamente em suicídio antes de vir ao congresso. Narra as dificuldades de ser fora-do-eixo no interior do Rio Grande do Sul. Promete que o suicídio está descartado, sob ovação da plateia. “A vontade é me explodir agora em milhões de pedaços”, diz a capixaba Carol Ruas, que, além de mulher, se revela jornalista. Um poeta negrobrancomestiço vestindo saia lança o movimento “Os Femininos”, em referência amorosa ao subgrupo fora-do-eixista Femininas. Apodera-se do microfone gente de Santa Catarina, Ceará, Pernambuco, interior paulista, outros países da América Latina. “Tô nervoso, porque estar diante do espelho é foda”, proclama um escritor de sotaque norte-nordestino, mas radicado no centro duro de São Paulo. Há laivos de terapia grupal, reunião sindical, assembleia estudantil e mesmo de culto religioso. Há ali gente da Central Única das Favelas (ex-presidente, o carioca Celso Athayde circulou pelo Paço outro dia).

Os fora-do-eixo têm um quê de Movimento Sem Terra, de Movimento Sem Teto, de Movimento Sem Mídia. Mas a tônica comum não é a de nenhuma dessas iniciativas. É outra: todo mundo que vem ao microfone é unânime em dizer que está feliz, muito feliz. Todos celebram a intensa experiência coletiva, o aprendizado grupal, a vivência nerd-hippie-politizada-hedonista. Ninguém tem queixas genéricas a fazer. Todos sacam discursos otimistas, querem produzir, agir, interagir e participar. Ninguém se queixa da vida, dos políticos ou do país. Todos esperam e preveem um glorioso 2012. “O próximo congresso é daqui a um ano, logo depois do fim do mundo”, brinca com as profecias apocalípticas em voga Cláudio Prado, 66 anos, que acompanhou os Mutantes e os Novos Baianos, trabalhou com Gilberto Gil no Ministério da Cultura e está perdidamente apaixonado pelo FdE. Otimista entre otimistas, Cláudio sabe como ninguém que uma revolução cultural está em curso. De algum modo, o Congresso FdE é o “occupy qualquer coisa” daqui, disposto em rodas de ciranda anordestinadas, em vez de em acampamentos, protestos armados ou marchas anticorrupção vestidas de vassouras. Se é revolução ou não, ainda não sabemos. Mas que há um fenômeno cultural em curso, há – nos dividiremos entre os que estamos percebendo isso e os que não estão.

Entusiasmo e animosidades

O FdE provoca animosidade à mesma medida que causa entusiasmo. Logo no início do congresso, um grupo de 13 festivais musicais anuncia sua desfiliação da Abrafin, Associação Brasileira de Festivais Independentes. Estão descontentes com o que chamam de


verdade, mas contamina o debate midiático feito rastro de pólvora. Artística e politicamente, China tornase paradigma e exemplo de um modo antifora-do-eixo de agir. Faz política cultural de “trollagem” (para usar termo em voga nas redes sociais) ao FdE, enquanto prega, em música, a não-politização da música. “Não é música para entender/ só serve pra dançar/ não é hino de uma geração/ nem a mais pedida na Voz do Brasil/ sem discurso, sem intenção/ só serve pra dançar”, canta em “Só Serve pra Dançar”, carro-chefe de seu mais recente disco, Moto Contínuo (2011). Do outro lado, Capilé morde a isca e reage aos primeiros fomentadores da cena heterogênea que hoje prospera. Acusa-os de “estagnados”, tomando uma parte pelo todo, como se o problema fosse o estado inteiro de Pernambuco, e não alguns de seus representantes. Um trecho de debate da Pós-TV sobre a Abrafin, levado ao ar no domingo 28, virou hit na comunidade musical após ser retirado do ar pelo Fora do Eixo e, em seguida, vazado via YouTube. Ali, Capilé tecia críticas megalomaníacas a Pernambuco, e os adversários (China à frente) se refestelaram. O ato antidemocrático custou caro ao FdE. No front crítico, deixaram-se de lado o debate de alto nível e as propostas construtoras do congresso. Focaram-se única e exclusivamente na rusga aloprada com Pernambuco e nos pendores autoritários do líder dos fora-do-eixo. Distantes do debate, caracterizaram Capilé como Hitler e se lançaram ao ataque, ironicamente sob contornos também nazistas, e assustadores. Saiu todo tipo de bicho da caixa de Pandora de rancores (de novo atiçados pelos FdE, que se dizem “pós-rancor”, mas evidentemente não são desprovidos dele): racismo, homofobia, misoginia, aversão à política, torcida contra, trogloditismo generalizado.

O tipo físico caboclo/cafuzo/mameluco de Capilé foi intensamente ridicularizado nas redes. Naquele debate da Pós-TV, transmitido da casa onde ele trabalha e mora coletivamente (e onde pouco antes Rafael Moysés conquistara o direito à palavra), Capilé estava descalço, molambento. Os guardiães da “boa aparência” apelidaram-no de Mogli (o “menino lobo”), desqualificaram seu discurso via aparência e chacotearam sua postura na cadeira. Ridicularizavam o índio por sentar de cócoras, enquanto viam apenas no índio (nunca neles próprios) a sombra antidemocrática de Hitler. A celeuma em torno da pernambucofobia e da foradoeixofobia está a pleno vapor em 21 de dezembro, quando concluo este texto. A princípio, preconceitos e fobias de parte a parte parecem abater, em pique de autossabotagem e tiro no pé, o caráter ensolarado do novo edifício que o congresso erguia alegremente. Mas, aconteça o que acontecer daqui por diante, o debate cultural em torno da música brasileira ferve como nunca se viu em décadas recentes. E, picuinhas à parte, deve ser em grande parte creditado a figuras como Capilé e China, e a movimentos como o avassalador Fora do Eixo. Poeiras assentadas, saberemos o que restará do congresso, das sabotagens e do debate ligeiramente democratizado. Como no caso do câncer de Lula, a agressividade dos livre-atiradores expõe mais os críticos que os criticados. À parte equívocos e desvarios dos fora-do-eixo, há ódio branco, “macho” e conservador atrás da má vontade com um movimento novo, propositivo, proativo, potencialmente transformador. Com trocadilho (contra-) racista e tudo, nunca passa em brancas nuvens o momento em que índios, negros, bichas, mulheres, muçulmanos, gordos, feios, loucos, foras-do-eixo e desajustados em geral se autoinvestem de poder e protagonismo. F

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sobreposição do sistema FdE aos interesses da Abrafin – de fato, o atual presidente, Talles Lopes, é fora-do-eixo mineiro. O goiano Fabrício Nobre, presidente anterior, também era (e é), mas de uma fase em que o FdE ainda não chamava tanta atenção. Ao que tudo indica, dá-se uma disputa que opõe os termos “reserva de mercado” e “código aberto”. O chamado “grupo dos 13” saiu incomodado com o assédio de pequenos festivais à Abrafin e com o desejo do FdE em aceitá-los sem reservas na associação. O FdE prega regionalização e descentralização, acesso para o maior número possível de festivais à Abrafin. Desconfiados, os opositores temem que o Fora do Eixo queira, ao contrário, centralizar e manipular pequenos festivais, para acumular controle decisório e de verbas – os editais públicos à disposição são outro vespeiro a opor os que dizem não gostar de política (mas a praticam no bastidor) e os que gostam e praticam mais ou menos abertamente (os FdE). O confronto toma aspectos freudianos. Ao longo do congresso, a música independente de Pernambuco assoma como inimigo preferencial nos discursos de Capilé – dois dos festivais que abandonaram a Abrafin, os pioneiros Abril pro Rock e RecBeat, são de fato pernambucanos. De certa forma, a desterritorialização FdE se contrapõe à revolução cultural/estética/política batizada manguebit, que recolocou Pernambuco no centro do debate cultural em meados dos anos 1990. O FdE não existiria sem os antecedentes pernambucanos, e nesse ponto Capilé parece se voltar contra o próprio pai. Não à toa, o principal porta-voz anti-FdE tem sido o pernambucano China, ex-Sheik Tosado, atual Del Rey, artista solo e VJ da MTV. Ele acusa o FdE de pregar o não-pagamento de cachês aos artistas que tocam em seu circuito, o que é no máximo uma meia-

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Dimensões de uma “modernidade” Filosofia da caixa preta

Ensaios para uma futura filosofia da fotografia

Vilém Flusser Annablume, 107 págs.

Para além da superfície das imagens No Brasil, poucos já ouviram seu nome, e na Europa, poucos sabem que ele já foi um “brasileiro”. Após perder a família num campo de concentração nazista em Praga, Vilém Flusser se exilou em terras tupiniquins com sua esposa, onde viveu por 30 anos. Dando continuidade aos estudos iniciados na recém-independente Tchecoslováquia, juntou-se à pequena comunidade filosófica brasileira. Lecionou Filosofia da Ciência na Escola Politécnica da USP e foi um dos fundadores do curso de comunicação da Faap, além de escrever colunas para os principais jornais paulistanos. Seus primeiros livros – lançados ainda no contexto brasileiro – abordaram temas como a filosofia da linguagem, a religião e a crise dos paradigmas científicos. Com seu retorno à Europa, em 1972, ganhou destaque internacional nos estudos da comunicação e se tornou um dos principais autores da Medientheorie (Teoria da mídia alemã). Flusser morreu 20 anos atrás, em 27 de novembro de 1991, num acidente de carro em Praga. Curiosamente, essa teria sido a primeira vez que o filósofo pisou em sua terra natal desde a invasão nazista.

Filosofia da caixa preta (1983) foi o primeiro livro do autor lançado em contexto europeu. A primeira edição brasileira é de 1985 e não precisou de tradução. Uma vez que uma das principais características de Flusser era articular o pensamento em diferentes línguas, ele traduzia seus próprios textos, a fim de experimentar as diferentes formas de pensar em outros idiomas. Ao contrário do que o título sugere, o livro não discute só a fotografia, mas uma vida programada por aparelhos, principalmente aqueles produtores de imagens, como a câmera fotográfica. Segundo Flusser, os aparelhos possuem uma ontologia muito diferente dos instrumentos e das máquinas que rodearam a humanidade até a invenção da fotografia no século XIX. Contudo, a fotografia é a primeira “imagem técnica” e, por isso, é usada para explicar “o essencial de todos os aparelhos, desde os gigantescos (como os administrativos) até os minúsculos (como os chips), que se instalam por toda parte”. Para o filósofo, as “imagens técnicas” inauguram uma nova consciência histórica, pois diferentes das imagens tradicionais (pré-históricas), as novas imagens surgiram com a consolidação da escrita (história) no pensamento técnico-científico e, portanto, seriam “pós-históricas” – e deve-se ter cuidado com esse termo, pois ele nada tem a ver com as teorias sobre o fim da história. Essa nova consciência parte da transformação de textos escritos em imagens, não obstante, é diferente daquela que transformou as imagens em textos para melhor entender o mundo.

Filosofia da caixa preta é um livro instigante, relançado em 2011 para o leitor brasileiro, que, anos depois, vem redescobrindo esse grande pensador tcheco/judeu/paulistano. Por meio de reflexões sobre a imagem e a fotografia, Flusser esclarece – ou problematiza – questões contemporâneas como o consumo, a burocracia, o trabalho e suas novas configurações, além de importantes reflexões sobre a história da cultura, da comunicação e das relações entre a humanidade e o mundo. (Thiago Balbi)

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Considerado como um dos mais influentes sociólogos do final do século XX, o britânico Anthony Giddens – escritor, sociólogo e ex-assessor (ou guru, como preferem alguns) do então primeiro-ministro britânico Tony Blair –, propõe em seu livro As consequências da modernidade, escrito no início da década de 1990, uma avaliação alternativa da modernidade, no âmbito de uma ordem social e moral, cujos limites foram extrapolados. E tanto nas reflexões às várias dimensões da modernidade – ordenadas inclusive em gráficos – até aquilo que identifica como “os contornos de uma ordem pós-moderna”, o autor não deixa de lado questionamentos pontuais: O que é a modernidade e quais são os seus grandes riscos? Quais as atuais implicações do sistema capitalista e como superálas? Quais as utopias que por hora se apresentam? Qual é o significado de “pós-modernidade”? Os mercados devem ser regulados ou submetidos a um controle centralizado? “Um sistema pós-escassez, porém, leva-nos para lá deste dilema”, afirma Giddens, sugerindo uma nova concepção da ordem mundial estabelecida e, obviamente, questionando suas prováveis dimensões. Como é possível observar, as questões e análises do autor que encabeçou as propostas de uma “terceira via” ainda são bastante pertinentes quase 20 anos depois e independente de certas, digamos, posturas políticas de Giddens – de centro-esquerda, um social-democrata, mas criticadas por muitos... Em um sintético capítulo, o sociólogo reflete também sobre os tipos e o papel dos movimentos sociais, sobrepondo-os às “dimensões institucionais da modernidade” por ele estruturadas. Além de conduzir a uma outra apreciação da modernidade, Giddens propõe a viabilidade de um sistema alternativo à conjuntura mundial (então – ou ainda?) contemporânea, inserido em um âmbito conceitual por ele designado de realismo utópico, ou seja, “temos de equilibrar os ideais utópicos com o realismo de um modo muito mais rigoroso do que era necessário no tempo de Marx”. (Denise Gomide)

As consequências da modernidade Anthony Giddens Editora UNESP, 180 págs.


CONSUELO DE pAULA É UMA GUERRILHEIRA DA NOSSA CULTURA POPULAR. Qualquer coisa a mais que se diga ao seu respeito contribui apenas para reduzir o seu universo e seu signi���cado. Consuelo de Paula é imprescindível. Uma artista grandiosa, de modos e atitudes modestas, que, com apenas três discos e agora o DVD NEGRA, tem garantido um lugar eterno entre os grandes artistas brasileiros. Mineira, de Pratápolis, Consuelo de Paula se formou em Farmácia, mas abraçou mesmo a música. Desde menina brincava nas congadas, carnavais e folias de sua terra. Fundou um bloco feminino com apenas 13 anos, cantou, dançou e compôs até não poder mais. Quando viu que não havia mais jeito, se profissionalizou. Seus três primeiros discos são lindos. Divididos entre canções populares brasileiras, em sua maioria do folclore, e também composições próprias, são do que ela chama de sua fase amarela. Todos eles são homenagens à nossa cultura mais íntima e ancestral. Posto isso, formou um dream team, dirigido pelo violonista e compositor Dante Ozzetti, e gravou seu primeiro DVD. Dessa vez, sem se afastar muito das manifestações populares, Consuelo aproveita seu talento e extensão vocal, seu arranjador e a banda, para fazer algo extremamente sofisticado e um pouco mais urbano. Ao unir seus tambores de minas a instrumentos de concerto, como o piano de Heloísa Fernandes, a viola de arco de Fábio Tagliaferri, o contrabaixo acústico de Zeca Assumpção, a bateria de Sérgio Reze, a percussão de Ari Colares e o clarinete de Zé Pitoco, a cantora consegue imprimir um sotaque universal à sua brejeirice mineira. Aliado a isso, a direção de cena impecável de Elias Andreato e a direção

OUTRA CANTORA QUE ATUA NA MESMA SEARA DE CONSUELO DE PAULA É A PAULISTANA KÁTYA TEIXEIRA, que, na contramão de tudo e todos, se dedica totalmente à nossa cultura popular. Com uma voz linda e límpida, grande musicalidade e bom gosto, poderia trilhar todo e qualquer caminho dentro da música. Por pura e simples determinação da paixão, optou pelos mais tortuosos e longínquos. Com isso, é capaz de cantar o fandango de Cananeia, congadas de Jequitibá, toadas, modas e folias de todas as partes, além de namorar vivamente com a cultura latino-americana, ou seja, tudo o que não toca nas nossas rádios e TVs. Acaba de lançar o seu terceiro disco, o lindo FEITO DE CORDA E CANTIGA, que aguardou um intervalo de 14 anos desde o primeiro. Trata-se de um álbum completamente diferente de tudo o que circula por aí, a começar pela capa e pelo encarte. De saída, o lindo invólucro em papel pardo e encarte com papel reciclado nos deixa claro outra das grandes preocupações da cantora, o meio ambiente. Posto isso, a partir do momento em que a música e a voz encantadora de Kátya Teixeira dão seus primeiros sinais, tudo faz sentido. Fragmentos que pareciam (e talvez estivessem mesmo) esparsos se reúnem e nos remetem de volta a nós mesmos, à nossa história e ancestralidade como nação. E, para tal encantamento, ao contrário de buscar no folclore o seu repertório, a cantora nos disponibiliza canções de Paulo e Jean Garfunkel, Luis Perequê, Mochel, Chico Branco, Amauri Falabella, e ela mesma na linda “Mãe das Raças”. Um disco feito, portanto,

do DVD de Maurício Valim fazem de Negra um dos grandes lançamentos do ano. Tudo funciona perfeitamente. A integração dos músicos com o universo da cantora, o prazer e a alegria ao dividir cada canção e, consequentemente, cada momento instrumental dentro de cada uma delas, tudo enfim fica escancarado, tanto ao público do lindo teatro Polytheama, da cidade de Jundiaí quanto ao espectador do vídeo. Praticamente todas as canções do DVD, com exceção de “Folia”, de Lourenço Baeta e Xico Chaves; “Piedra e Camino”, de Atahualpa Yupanqui e “Caicó”, do cancioneiro popular, são de autoria de Consuelo de Paula com seus diversos parceiros, entre eles Rubens Nogueira, Luiz Salgado, Dante Ozzetti e Vicente Barreto. E são exatamente as canções originais a outra ponta do tripé, junto com a cantora e os músicos, da tamanha beleza de Negra. O nome do espetáculo vem do belo quadro de Ana Freitas, que serve como painel e tema do espetáculo. Cercada de talentos por todos os lados, Consuelo foi fotografada por Alessandra Fratus, que se destaca já há alguns anos pelos espetáculos que registra lindamente. Negra, bem como toda a obra de Consuelo de Paula, é um marco da nossa cultura popular.

com base na obra de talentosos compositores que militam na canção de resistência desde sempre. Com uma beleza rara, descompromissado com mercados e vendagens, modismos e eventuais armações, o disco foi gravado de forma heroica, com a colaboração de músicos amigos de primeira linha, como Turcão, Jica, Thomas Rohrer, Marcelo Pretto, Gabriel levy, Ricardo Vignini, Cassia Maria, Manoel Pacífico, Aluá Nascimento, Ney Couteiro, Manassés Aragão, Rodrigo y Castro, Clara Bastos, Noel Andrade, José de Geus, Amauri Falabella, Daniel Figueiredo, André Venegas, os grupos Caiçaras do Acaraú, Jovens Fandangueiros de Itacuruça e Vida Feliz de Cananeia. A sua abertura fica por conta da linda canção “Vem Comigo”, de Luis Perequê, uma bela evocação das gentes: “Vem comigo que eu vou lhe mostrar, quantos homens de bem têm os braços abertos pra nos abraçar”, onde ritmos latinos se misturam à rabeca nordestina, além de lindos vocais multiplicados por Marcelo Pretto e Sérgio Turcão. Daí em diante, uma sucessão de canções com temas que se entrecortam, como a escravidão, os mitos Iorubás e brasileiros, os sertões das Gerais, entre vários outros, fazem de “Feito de Corda e Cantiga” quase um documento etnográfico, um estudo de caso de como é, vive, canta e dança o povo brasileiro. Num desencadear de temas, o disco anuncia seu final com o canto a capella de “Mãe das Raças”, bonita canção de Chico Branco e da própria autora. Logo em seguida, novamente o compositor Luis Perequê, que havia evocado o caminho dos homens na abertura, chama agora o da porta de casa em “Convite”: “Cantando eu abro o meu peito, o convite está feito e estou lhe esperando, na porta da minha casa”. Imperdível.

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Quero o Paysandu no campeonato brasileiro! C

om o tropeço do Santos diante do invencível Barcelona, uma espécie de seleção mundial, lembro dos bons tempos do futebol brasileiro em que o campeonato nacional era chamado de “o melhor do mundo”, quando, em vez de brasileiros acompanhando campeonatos europeus, eram os europeus que acompanhavam com inveja, pela TV, os jogos dos nossos times. O futebol brasileiro já teve momentos absurdos também, como no tempo da ditadura. “Onde a Arena vai mal, um time no nacional. Onde a Arena vai bem, um time também”, era a brincadeira que se fazia. O futebol quase sempre foi e é utilizado politicamente, e a ditadura brasileira fez isso com muito sucesso. Além de faturar em cima da conquista da Copa de 1970, aproveitou a euforia futebolística para agradar o eleitorado, colocando timecos regionais para disputar o campeonato nacional. Em 1979, chegou a 94 o número de times na disputa. Houve uma reação muito justa contra essa inflação de times colocados politicamente na “elite do futebol brasileiro”, sem nenhum merecimento. Mas acho que acabaram exagerando na dose. O Brasil imita a Europa, sem necessidade. Nos países europeus, como Itália, Espanha, Alemanha e França, são 20 times que disputam o campeonato? Então, tem que ser 20 no Brasil também. Bobagem.

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Pergunto aos leitores quantos times espanhóis disputaram a final do campeonato mundial de clubes. Real Madrid, Barcelona... Mais algum? E os italianos? E os ingleses? E os alemães? Pois vejam que no Brasil nove times chegaram a isso. Sete times – Santos, São Paulo, Corinthians, Palmeiras, Flamengo, Grêmio e Internacional – já foram campeões mundiais. Cruzeiro e Vasco disputaram e perderam, foram vices. Que país tem tantos times no topo do futebol assim? Nove disputaram a final do mundial de clubes! Por que temos que ter campeonato com 20 times, como os europeus? Proporcionalmente, o campeonato paulista já equivale ao de um país europeu. Tem quatro times de primeira linha – Corinthians, São Paulo, Santos e Palmeiras – e vários equivalentes aos de segunda linha dos campeonatos europeus. Portuguesa, Ponte Preta, Guarani... de vez em quando mais algum ascendente, como Bragantino, Santo André, São Caetano... Então é isso: campeonato de 20 times é o paulista. O brasileiro tem que ir além. Não temos um Barcelona aqui, mas vejam que o campeonato espanhol tem Barcelona e Real Madrid disputando com 18 coadjuvantes – de vez em quando, algum deles desponta, como o Atlético Madrid, o Valência e o Sevilla –, aqui temos muito mais times disputando o campeonato de verdade. Além dos quatro grandes paulistas, te-

mos os dois grandes gaúchos, os quatro grandes do Rio, os dois grandes de Minas (só aí são doze equipes) e entre os “coadjuvantes” que de vez em quando despontam, três times do Paraná, dois da Bahia, três de Pernambuco e às vezes algum de Goiás, do Ceará ou de Santa Catarina, como foi o caso do Figueirense, no campeonato de 2011. Por causa dessa imitação que se faz do campeonato europeu ficam de fora do campeonato brasileiro times de outros estados, como o Pará (o Paysandu tem uma torcida enorme), que nada ficam a dever a alguns que disputam o campeonato espanhol: Getafe, Mallorca, Granada, Rayo... Por isso, defendo: o campeonato brasileiro de futebol deveria ter 28 times. Tá falado. Ah... Me lembrei de uma situação que era o contrário dessa. Em Nova Resende, minha terra, o lateral Elias foi afastado à revelia da Esportiva, o “grande” time local, quando completou 49 anos. Não queria abandonar o futebol. Fundou, então, com alguns companheiros “aposentados” do esporte o Sem Futuro Futebol Clube. O problema era arranjar adversário equivalente. Procuraram na região e encontram em Juruaia o Reumatismo Futebol Clube. E só. Jogavam apenas entre eles. Não inventaram um campeonato, mas, se inventassem, seria interessante. Um deles seria fatalmente campeão e o outro vice. Sem rebaixamentos. F

MOUZAR BENEDITO, mineiro de Nova Resende, é geógrafo, jornalista e também sócio fundador da Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci).


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Revista Fórum - edição 106