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Verdade, essência e ciência! Pantalhaços – IV Mostra de Palhaços do Pantanal /América do Sul

Por Christiane Araújo

Ontem, dia 22 de agosto de 2012, encerrou-se a IV Mostra de Palhaços em Campo Grande/MS. Venho, por meio deste texto, colaborar com o evento, com artistas que lá atuaram e com o público que prestigiou com tanto brilho. Primeiro, peço humildemente licença a todos os pesquisadores e escritores das artes circenses, área que não é a minha de pesquisa, mas minha como apreciadora de arte e curiosa pelo corpo comunicativo. Permitam-me assim resenhar. Ainda ontem, quando saí do ultimo espetáculo a que assisti, estive em uma confraternização de amigos, na qual o assunto/tema era o que é essência, como se chega nela e como se consegue encontrá-la; nesta roda, com psicólogos, artistas, administradores, designers, enfim, muitos colocavam suas opiniões, contradições e reflexões acerca do tema. Fui para casa com tantos estímulos recebidos na pantalhaços e de todo aquele bate papo da “essencialização” do ser ou do como simplesmente estar e, então, resolvi escrever-lhes, propondo aqui uma reflexão poética e crítica em torno de dois espetáculos apresentados: “Encontro de Palhaços” com a Cia Teatro Turma do Biribinha/AL e “Mala sem alça, Palhaço sem calça” com Ale Casali/BA. Muito teríamos a falar sobre esses dois belíssimos espetáculos e artistas, mas proponho apenas o foco no paralelo entre a arte e a ciência, em que atualmente tenho descoberto algumas respostas para o meu fazer artístico e docente. Gostaria de iniciar falando de intuição. Para Silvio Zamboni, no livro A pesquisa em arte, o autor faz uma relação entre processo criativo e consciência, formas cerebrais de assimilação dos estímulos e como a intuição é explicada cientificamente. “Em arte, a intuição é de importância fundamental, ela traz em grau de intensidade maior que a impossibilidade da racionalização precisa. A arte não tem parâmetros lógicos de precisão matemática, não é mensurável, sendo grandemente produzida e assimilada por impulsos intuitivos; a arte é sentida e receptada, mas de difícil tradução para formas integralmente verbalizadas.”... “A intuição nada mais é do que uma forma de sabedoria em arte”. (ZAMBONI, 1998)

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E esta intuição é um dos primeiros pontos fortes que observo nos dois espetáculos, artistas que ao se colocarem em cena, ativam em seu cérebro e consequentemente no fazer artístico, a intuição do jogar em cena, a resposta e receptividade com o público, a observação que permeia o tempo de execução de cada ação, ou seja, seus canais intuitivos extremamente ligados, abertos e receptivos à troca, ao jogo, vivendo verdadeiramente aquele momento presente. A ação e reação totalmente interligadas pelo ato criativo. E para isso, Zamboni ainda complementa. “Na verdade, a criatividade está ligada à intuição, é um processo de busca de soluções interiores, mas não é claro nem ao próprio indivíduo que o exercita; as soluções começam a se tornar conscientes à medida que vão ganhando uma forma. A criação na verdade é um ordenamento, é selecionar, relacionar e integrar elementos que a princípio pareciam impossíveis. A criação artística espelha a visão pessoal do artista, da mesma forma que a criação científica reflete a visão pessoal do cientista.” Percebe-se com isso, que existe uma dinâmica coerente e intensa de trocas muito rápidas entre o intuitivo e o racional, em que alguns nomeiam de insight, outros, de experiência adquirida com a prática do improviso e outros ainda de facilidade criativa de proporcionar soluções cênicas; de qualquer forma, o que analisamos diante disso tudo é que a intuição ou insight ou improvisação ou soluções, são executadas com maestria e muita verdade pelos artistas de ambos os espetáculos. No espetáculo “Encontro de Palhaços” (Biribinha) o elenco nos convence desta verdade logo de início, com a cena de um mendigo invadindo e interferindo no espetáculo, utilizam-se deste segredo até mesmo da equipe de produção que se prontifica a evitar que tal cidadão prejudique a cena. No decorrer nos são apresentadas verdades mediante ações corporais, com perfeita entrega ao movimento proposto, assim esses atores circenses nos certificam da necessidade de um preparo corporal intenso para qualquer tipo de atuação, seja ela o teatro, a dança, o circo, a performance... Corpo como canal de comunicação! E finalizam com a verdade de uma das essências do circo, que é a tradição familiar, com a simbologia de um chapéu que passa por gerações, emociona toda a plateia com seu pequeno mascote em cena. Sim, espetáculo que nos diverte, nos emociona e nos faz refletir nossa condição humana e importância nessa sociedade que vivemos. Já no espetáculo “Mala sem alça, Palhaço sem calça” com Ale Casali/BA, o artista, convida logo no início o público a ser protagonista daquele espetáculo junto com ele, e para isso, explica e mostra com toda a sua essência a importância desse jogo. Com isso me surge um pensamento: será que todos ali 2


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possuem a real percepção de que são protagonistas de suas próprias histórias? Paulo Freire pode nos explicar muito sobre isso, mas deixarei para outro momento. Continuando, com sua alma de palhaço inteiramente entregue à cena, nos faz refletir sobre pontos cruciais da evolução histórica que os palhaços do Brasil e do mundo sofreram nos últimos anos, e da importância de eventos como esse para a classe artística. Reflexão crítica e com um humor na medida certa, poderíamos dizer. Ora, mostrava-nos também um pedagogiar, propunha em seus textos e ações, abordagens também de formação de público, de formação de cidadãos, utilizando–se de esclarecimentos da vida e obra do palhaço na atualidade. Com esses relatos, gostaria de propor a reflexão do por que nos identificamos com alguns espetáculos e outros não, e o porquê neste texto escolho esses dois para refletir e questionar, enquanto não cito vários outros de igual qualidade que foram apresentados. Busco algumas respostas na pesquisa científica dos neurônios-espelho, já que acima abordamos esses dois paralelos entre arte e ciência. Para o cientista envolvido nesta pesquisa, chamado Giacomo Rizzolatti, "Os neurônios-espelho nos permitem captar a mente dos outros não por meio do raciocínio conceitual, mas pela simulação direta. Sentindo e não pensando." Efetivamente nós, seres humanos, procuramos nos identificar com o que estamos assistindo e nosso cérebro está constantemente no ato de olhar, agindo de forma constante, para acompanhar e vivenciar no nosso próprio corpo quando observamos algo.

Nirlyn Seijas nos aponta em sua reflexão seu aprendizado em dança, alguns esclarecimentos acerca desta descoberta científica. “Esta descoberta que aconteceu em 1996, está mudando muitas ideias sobre como os seres humanos se relacionam, mudando a ideia de comunicação e de aprendizado, voltando a afirmar as novas teorias de cognição e comunicação em que toda ação é seguida por uma cadeia de outras ações que desenvolve o ato de se comunicar. A partir dessas novas descobertas não é possível falar dessa ideia de que um emissor envia uma mensagem e depois um receptor a recebe e analisa para depois responder. Na real, o que acontece é que quando o emissor está produzindo a mensagem, o receptor está agindo sobre isto constantemente. Da mesma forma, quando aprendemos, não estamos recebendo informação, mas estamos de fato reagindo a isso que está acontecendo constantemente em nosso corpo todo. A descoberta nos neurônios-espelho é claramente uma das respostas e justificativas para a comunicação acontecer como acontece.” 3


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E com isso me sinto à vontade de escrever-lhes, pois quando assistimos a um espetáculo, pouco importa o tema, a linguagem artística escolhida, mas estamos constantemente procurando o corpo humano, segundo os neurôniosespelhos. A razão disso é porque procuramos quem nos sentimos identificados, para assim poder viver esta obra no nosso próprio corpo, aprendendo como sente, como pensa, como reage. Assim, sinto, penso e reajo a tantos estímulos, que me fizeram voltar a ser ou simplesmente estar, me propuseram por instantes reviver minha alegria interna, com a pureza de uma criança, com a verdade de uma maternidade, com a responsabilidade de uma adulta, identificada e espelhada naqueles corpos comunicativos, intensos e verdadeiros de sua plena essência. O meu muito obrigada! ---------------------------------------------------------------------------------------------------------Christiane Araújo é professora no curso de Artes cênicas e dança da UEMS e UFGD . É pós-graduada em Arte integrativa pela Universidade Anhembi Morumbi SP. Participou de diversos cursos na área da educação, artes e linguística na PUC/SP. Graduada em Dança pela Faculdade de Artes do Paraná.

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Verdade, essência e ciência  

resenha da Pantalhaços por Christiane Araújo

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