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Junho 2008 • Revista Mensal • 3 Euros


Editorial

DOURO: DA TEORIA À PRÁTICA… Não conheço ninguém que desça de Mesão Frio para a Régua e não fique deslumbrado com a terra que se espraia à sua frente. Experimentem subir do Pinhão para S. João da Pesqueira ou percorrer a estrada que beija o Douro entre a Régua e a ponte das Bateiras. O que se vislumbra, não tenho dúvidas, ficará para sempre na retina de cada um.

Essas novas práticas mostram-se, verdadeiramente, indispensáveis para que a decisiva abertura da região vinhateira ao Mundo, venha a ser uma reforçada realidade.

É verdade: o Douro tem imagens tão impressivas que se agarram ao peito e nunca mais descolam… Já no final do ano de 2001, a UNESCO ao consagrar o Alto Douro Vinhateiro como “ Património da Humanidade “ reconhecia que, no caso, a medida das coisas era outra… Estávamos perante uma paisagem com um carácter excepcional. Cultural, evolutiva e viva. Mas esse reconhecimento, todos os sabiam, implicaria novos desafios. Acarretaria novas responsabilidades. Induziria novas oportunidades. Pois bem a questão que, hoje, se nos coloca é simples: como é que a região tem reagido a esse novo quadro? A resposta espontânea é reconhecer que se fez pouco, face ao diagnóstico que todos conhecemos. Dito de outro modo, temos pela frente uma grande margem de progresso que teremos de saber aproveitar em tempo oportuno. Para tal impõe-se, a nosso ver, que trabalhemos noutros moldes. Com outras práticas de articulação, de cooperação, pois é manifesto o deficit nesse capítulo. Impõe-se, desde logo, uma (re)organização forte entre os pequenos produtores , uma reestruturação qualificante do tecido cooperativo e empresarial. É necessária uma administração pública desconcentrada com outra espessura. Construir uma mais estreita relação de confiança entre os parceiros públicos e privados. Ora tal não se consegue por artes mágicas, nem por Resolução do Conselho de Ministros…Entenda-se que a alteração de procedimentos, de rotinas, de comportamentos não se consegue num instante. Há um tempo próprio de maturação que não se pode, nem deve atropelar…

O Douro não precisa mais, dispensa mesmo, de políticas proteccionistas e/ou assistenciais. Para crescer, para elevar os seus níveis de rendimento, de conforto, de forma consistente terá de competir, de concorrer, de exportar. Não pode fugir a esse desiderato É esse o estímulo que importa recriar no espaço e no tempo. O de se inserir em redes de conhecimento, por onde passa a inovação, a qualificação de competências instaladas. “Mais do que ao hardware, é ao software que é preciso dar prioritária atenção”…Ter a capacidade para criar novas oportunidades, certo e sabido que a vinha, o vinho e o turismo são os sectores – chave. Isso não é novidade nenhuma para quem trabalha no Douro. Sem a exportação dos seus vinhos, o Douro nunca seria o que é hoje. Recordese que o seu vinho generoso chega, já, a 160 mercados e os seus vinhos de mesa a mais de 60 países e como nos domínios do Vinho e do Turismo, base da economia regional, a concorrência é feroz. A conquista de novos e qualificados nichos de mercado justificam um apoio claro à promoção internacional do seu património vínico e do deu território, isto é, do seu património paisagístico. É nesse contexto que se deve entender a vinda ao Douro de peritos da Organização Mundial de Turismo e, mais propriamente, de especialistas do Centro de Excelência de Destinos Turísticos. Na verdade, se a região vier a preencher os requisitos de qualidade que a elejam como um destino – piloto, passará a ser parte integrante de uma rede mundial com todas as implicações positivas que tal afirmação internacional, implicará. Em suma, fazer do Douro cada vez mais que um rio… Ricardo Magalhães Estrutura de Missão do Douro, Régua, 19 de Maio

Índice Editorial........................................................................................ 3 Bianchi de Aguiar ........................................................................ 4 Comboios de Portugal .................................................................. 7 Região Turismo Douro Sul ........................................................ 10 Gov. Civil Vila Real ................................................................... 12 CM Mesão Frio .......................................................................... 14 CM Sta. Marta de Penaguião ..................................................... 16

CM Lamego ............................................................................... 18 CM Tabuaço ............................................................................... 20 Douro Azul ................................................................................. 22 Ambiente .................................................................................... 24 Quinta da Pacheca ...................................................................... 26 Apitil .......................................................................................... 28 Chef Hélio .................................................................................. 30

Ficha Técnica

Propriedade, Redacção e Direcção: NewsCoop - Informação e Comunicação CRL • Rua António Ramalho 600E - Apartado 6024 • 4461-801 Senhora da Hora Matosinhos • Publicação periódica mensal registada na E.R.C. com o número 125382 • Tiragem: 12 000 exemplares • Contactos: Tel./Fax: 22 9537144 • Tlm.: 915236623 • antonio.morais@newscoop.pt • www.newscoop.pt• Director: Sérgio Oliveira • Editor: António Sérgio • Coordenador Editorial: António Morais • Jornalistas: António Sérgio e Elisabete Moreira • Produção Gráfica: Ana Oliveira • Impressão: Artes Gráficas Diumaró • Fotografias da capa gentilmente cedidas por Luís Graça (http://pwp.netcabo.pt/lrgraca) e Álvaro Cardoso de Azevedo (Casa Alvão), Colecção Instituto dos Vinhos do Douro e Porto


Bianchi de Aguiar em entrevista

“Mantenho toda a esperança no Douro…” Pouca iniciativa micro empresarial, falta de congregação de esforços, onde inclui autarcas, e empresários e a urgente necessidade de fixação de populações jovens são ameaças que Bianchi de Aguiar contrapõe com a constatação de claras oportunidades oferecidas pela Região do Douro, não apenas a classificada como Património Mundial, mas o seu todo. O caminho é apontado pelo mentor da candidatura protagonizada e conquistada pela Região: reduzir o mais possível a sazonalidade da presença no Douro, oferecendo um cabaz mais alargado e qualificado sob os denominadores comuns Douro, vinho e azeite, dar visibilidade ao potencial estratégico e financeiro de que poderão usufruir as unidades produtoras, distribuidoras, comerciais e promotoras do vinho local mas também de outros sectores de actividade, como o micro-comércio e a restauração com a instalação das suas infra-estruturas na Região, e apostar no desenvolvimento turístico e cultural e inerente diferenciação ao nível da oferta de trabalho. Bianchi de Aguiar revela-se optimista quanto ao futuro da Região, manifestando crença total nos princípios que o levaram a assumir o processo de candidatura como a manifestação de um sentimento local, como se de um filho se tratasse… Quando se dedicou com tanto afinco à candidatura do Douro a Património Mundial da Humanidade, projectava, de alguma forma, o escasso desenvolvimento que a Região viria a patentear? Bianchi de Aguiar (BA) – Bom, antes do processo propriamente dito de candidatura, existe um trabalho que consiste em reunir as capacidades e qualidades da Região e colocá-las num dossier técnico que, por si só, é insuficiente. Portanto, sob o ponto de vista da realidade do Douro, aquele documento é válido. De facto, a excelência da paisagem e o reconhecimento do valor universal

excepcional do Douro não têm qualquer contestação, não obstante a pressão para que se olhasse para o Douro como uma paisagem cultural e evolutiva de vida. Essa pressão sobre a evolução da paisagem mantém-se, até com muito mais intensidade, porque, de facto, a actividade económica é o grande sustentáculo da paisagem. E aí tem que haver um equilíbrio entre a manutenção do que é um museu vivo e a evolução normal da paisagem para que esta, do ponto de vista económico, potencie o desenvolvimento de actividades que se afirmem como sustentáculo dessa própria paisagem. Mas a questão não está aí. Não só o tão péssimo acervo técnico colocado relativamente a algumas intervenções menos felizes na paisagem – embora haja hoje um enquadramento que antes não existia -, o grande problema na paisagem do Douro consiste em criarmos a consciência – e há regulamentos que o impõem - que tem que haver um movimento colectivo de percepção e responsabilização para a manutenção e salvaguarda da paisagem. O que não significa congelar a paisagem mas em saber fazê-la evoluir, até porque deverá coexistir a forma de organização dos terrenos, com a excelência que lhe reconhecemos, dos patamares, dos terraços mais ancestrais, com os mais modernos. Portanto, essa percepção, esse movimento local de salvaguarda ficou, na minha óptica, muito aquém do previsto. E porque é que isso aconteceu? BA – Primeiro porque estamos perante um projecto muito mais complicado do que qualquer outro Património Mundial. É diferente capacitar, por exemplo, o Centro Histórico do Porto, em que existe uma tutela por parte de uma única autarquia de o fazer relativamente a uma Região constituída por 13 municípios, tratando-se ainda de um gesto pouco usual, embora existisse, em Trásos-Montes a Associação dos Municípios de Trás-os-Montes e Alto Douro – e


Bianchi de Aguiar em entrevista

faço aqui uma homenagem ao seu presidente, o engenheiro Jorge Nunes, que é um homem distante do Douro mas conseguiu acolher, a partir de uma pequena alteração estatutária, o grupo dos 13 municípios, numa primeira tentativa de criar uma gestão colectiva ou, pelo menos, um fórum de articulação. Simplesmente, depois, a pseudo reforma da organização territorial desmantelou-se totalmente e os autarcas, após terem criado o movimento que estava previsto, de índole intermunicipal, enquanto o Governo financiou as candidaturas do processo a fundo perdido – tratava-se de um PRAL -, o gabinete mantevese aberto e, quando o dinheiro acabou, fecharam o gabinete. O gabinete era uma estrutura extremamente leve mas era interlocutora que gostaríamos que existisse junto da UNESCO para os patrimónios classificados. E os autarcas, em torno desse gabinete, discutiriam os temas mais importantes e decidiriam colectivamente, mesmo em torno de questões técnicas. E sempre que houvesse um assunto técnico ligado à preservação, à salvaguarda e aos compromissos que tínhamos assumido, uma proposta técnica poderia obter o consenso dos 13 municípios. Não foi isso que aconteceu, fecharam a porta e descarregaram todas essas suas competências sobre o território na Estrutura de Missão. Existe um encarregado de missão que, agora, deve assumi-lo… Sendo certo que a UNESCO acedeu ao desafio da classificação do Douro como Património Mundial, até que ponto terão os durienses recusado colaborar para a concretização do mesmo? BA – Não… Não existe uma percepção colectiva dessa necessidade. Repare que até uma questão tão simples como a sinalização, apesar de felizmente ter sido realizada, foi-o tardiamente. E tirando a comunicação social, que por vezes é também o eco das preocupações, as próprias pessoas que vivem no Douro e tiveram orgulho na classificação poderiam afirmar-se como a voz mais crítica desta apatia mas nem isso houve… Não houve a necessária tomada de consciência colectiva da candidatura. Normalmente, o protagonista das candidaturas é a Administração Pública, enquanto aqui foi uma entidade privada que a assumiu por inteiro, não tendo havido um tostão do Orçamento Geral do Estado, embora nos tenhamos comprometido – e eu como coordenador da candidatura, realizei, com muita regularidade, momentos de auscultação dos autarcas e das associações regionais para me validarem a mim e ao percurso que pretendíamos fazer. E em todos os momentos em que houvesse decisões mais técnicas que já estivessem amadurecidas, ou que houvesse que validar uma opção e apresentava-o. Fizemos a interacção possível com o território e duvido que a Administração Pública tivesse ido tão longe como nós fomos. Agora, não foi suficiente. A única coisa que não fiz, devo dizê-lo muito sinceramente, foi reunir com todos os presidentes de junta de freguesia. Primeiro por obstáculos logísticos mas, a certa altura, com a validação que alcançámos ao nível das autarquias e com a necessidade de as próprias assembleias municipais se pronunciarem, pensámos que os presidentes de junta também estariam representados. Mas mesmo assim, não foi uma coisa sentida localmente ao ponto de a Região ser a voz crítica do que não se fez até agora. Embora exista um segundo órgão muito interessante que foi proposto à UNESCO e que funciona, a Liga dos Amigos do Douro Património Mundial, presidido pelo Dr. Miguel Cadilhe, que pretende assumir-se como o porta-voz que represente o sentimento local. Creio que haverá, talvez, alguma desilusão devido ao facto de os resultados práticos, o que toca no bolso das pessoas, dos agricultores, de quem se espera algum esforço ao não destruírem aqui ou ali, não se sentem. E, portanto, não há grande entusiasmo em torno do processo de candidatura. No entanto, não tenho qualquer dúvida que, no momento em que foi feita a candidatura, os durienses sentiram-se mais orgulhosos e fez-se justiça em relação aos mesmos. No Douro não se pronuncia a palavra Vinho do Porto mas vinho generoso ou vinho fino… Porque se considera que aquilo corresponde a uma espécie de apropriação. E a candidatura corresponde também ao reconhecimento internacional da região de produção, o que faz também justiça ao trabalho gigantesco que foi feito sobre o uso da paisagem, etc. Sentiu algum tipo de obstáculos ou entraves durante o processo de afir-

mação da candidatura? BA – Não! E até devo dizer uma coisa que é muito sensível: a UNESCO não permitia classificarmos os 250 mil hectares do contorno da Região Demarcada do Douro e foi preciso existir uma mancha representativa desta diversidade. E embora o Douro Atlântico nos tivesse permitido criar paisagens mais detalhadas, usámos o Baixo Corgo na corda superior com três unidades de paisagem e fizemos uma mancha representativa dessas unidades que acaba próximo do Vale do Meão. E mesmo essa mancha representativa ao longo do Douro, mais bem preservada e por excelência paisagem unida pelos denominadores comum água, rio e os afluentes, não podia focar todos os concelhos do Douro. E pensei que isso poderia causar alguma reacção. Devo dizer que, numa reunião realizada na Casa do Douro em que apresentei pela primeira vez esses critérios de uma candidatura que era da Região Demarcada do Douro, escolhi a designação de Alto Douro Vinhateiro para aquela mancha que tem uma tradição muito grande desde a Companhia Geral das Vinhas do Alto Douro até à divisão administrativa do princípio do século XX relativamente à designação da província… Portanto, era uma designação regional, que não era discriminatória, sabendo-se que, depois mais tarde, era o Douro que seria classificado como Património Mundial. Aliás, a mancha, que corresponde a cerca de 10 por cento da Região Demarcada do Douro, com 24.700 hectares, tem determinadas regras de salvaguarda que se prendem com os planos directores municipais, com uma atenção especial à manutenção da paisagem – das novas vinhas e da preservação das antigas -, tem normas que foram definidas pela UNESCO e que são extensivas à zona de tampão que é igualmente abrangida por medidas de salvaguarda adequadas à sua dimensão e às necessidades de paisagem. Aquela mancha de 24.700 hectares deve ter uma predominância muito grande de vinha, aparecendo depois outro tipo de paisagem, com os cereais, as matas, entre outros. E isso tem a ver com uma fase, que é da incumbência dos autarcas, que consiste em estender algumas das regras de salvaguarda a toda a Região Demarcada do Douro. Concorda com a criação da Estrutura de Missão? BA – Concordo… Creio que se trata de uma medida que o Governo tomou reconhecendo que existe ali uma Região com particularidades muito especiais


Bianchi de Aguiar em entrevista

que merece uma atenção especial. Cria uma unidade territorial que a Região administrativamente não tem e, nesse sentido, creio que foi uma boa medida. Agora, não pode é, perante os autarcas, fomentar um excesso de desresponsabilização do que são as suas competências. Mas essa própria estrutura não deveria constituir um interface de ligação entre os autarcas envolvidos? BA – Julgo que tem sido desenvolvido um grande esforço no sentido de colocar as câmaras lado a lado mas existe aqui um problema intrínseco ao nível do relacionamento intermunicipal, que não se resolve de um momento para o outro. Agora, existe um preceito que não é exclusivo da Região Demarcada do Douro que consiste na discórdia em relação a uma iniciativa conjunta no meio. E creio que é esse papel homogeneizador que a Estrutura de Missão vai desempenhando. Agora, face a determinadas limitações, também porque não se trata de um órgão do Governo, e embora se crie muita expectativa relativamente ao papel que pode desempenhar, sem dúvida que pode localmente ser o melhor porta-voz junto da Comissão de Coordenação Regional, junto do Governo e diferentes ministérios perante as preocupações e iniciativas, que devem ser transversais à Região, independentemente se é da margem esquerda ou direita, junto à cidade da Régua ou à fronteira com Espanha. É esta visão de conjunto que faz falta à Região e que nenhuma divisão administrativa acautelava. Nem sequer o projecto de regionalização, na altura, acautelava… …E uma nova divisão administrativa do território, nomeadamente através de um novo processo de regionalização, poderia ser positiva para a Região? BA – Desde que não se trate do Norte e o Sul, sim… Em que moldes? BA – Repare, a questão que se colocava na altura na Assembleia da República, – e o deputado Eurico Figueiredo foi o grande porta-voz dessa impossibilidade – e aquilo que sentíamos era que o mapa proposto dividia o Douro a meio. Há ali uma actividade económica que é o grande elemento de ligação da Região e esse não deve ser ignorado. Devo dizer, por exemplo, que a iniciativa do Museu do Douro deve corresponder a um museu de região uma vez que não se trata apenas de um projecto museológico mas quase um instituto cultural da Região, que deve preservar as tradições de vária ordem, tangíveis e intangíveis. E deverá pois, reflectir uma leitura conjunta de todo aquele espaço do território. Para além do vinho e da vinha, que outros vectores estratégicos de desenvolvimento aconselharia implementar na Região? BA – Nós falamos sempre da vinha e do vinho mas existe um cabaz de produtos mediterrâneos de qualidade que têm toda a vantagem em integrar um todo. Temos o azeite, os frutos secos… Mesmo do ponto de vista da imagem, a produção em cabaz, como elemento promotor do Douro, é extremamente interessante. Vou dar-lhe um exemplo de uma das primeiras regiões vitícolas classificada Património Mundial, Melicuri, em Itália, a Cinque Terre, que tem muito pouco olival mas que tem um grande produtor de azeite. E se for a Cinque Terre encontra sempre nos cabazes de promoção dos produtos o vinho e o azeite. Sabendo tratar-se de uma região essencialmente agrícola, creio que seria oportuno associar à notoriedade do vinho do Douro os outros produtos regionais que também são de excelente qualidade. E o azeite é, sem dúvida, um desses produtos e que faz também parte do padrão tradicional de paisagem, com as oliveiras à volta e que se encontra em grande dificuldade, uma vez que não se afigura rentável explorar as oliveiras. E, no entanto, constituem esse elemento tradicional da paisagem que gostaríamos de preservar. E também nesse sentido, o esforço de valorização do território terá que incluir todas as actividades para que rendimento bruto permita fixar as pessoas e dar-lhes dignidade de vida. Portanto, alargar a visão e o interesse dos produtos agrícolas aos outros que constituem um cabaz de produtos de alta qualidade com o

denominador comum da Região é imperioso. Outro vector fundamental é o desenvolvimento turístico. Todos reconhecemos que existe uma potencialidade enorme de desenvolvimento turístico, que pode ser um factor de fixação de trabalho diferenciado na Região, que pode deixar mais dinheiro na Região e, também aí, vemos que esta não o encara como um projecto prioritário. E apesar de a Rota do Vinho do Porto ter sido a primeira entidade que conseguiu coligar as iniciativas das festas da vindima, dispersando-as, ligando-as e distribuindo-as através de um programa que se traduziu num maior período de animação e atractividade, também aí, tenho pena que os próprios autarcas não tenham cumprido com os seus compromissos financeiros, estando actualmente a Rota a passar por sérias dificuldades. E o Show Room da Rota é algo que fascina qualquer visitante, afigurando-se como uma estrutura interessante e eficaz, muito embora saibamos que a solicitação é muito pequena face ao potencial de utilização que essa estrutura possui. Relativamente ao sector empresarial do Vinho do Porto, que tende muito a criar uma estrutura paralela para as suas visitas, com um cariz mais comercial é óbvio, gostaria de vê-los aderir à Rota. Sei que procederam, recentemente, a uma tentativa de se organizarem mas é pena que não estejam ainda presentes. Têm um peso muito grande, têm muitas infra-estruturas, são muito profissionais na maneira de receber e têm estruturas permanentes… Tenho pena que não se congreguem todos os esforços da Região, autarcas, a estrutura comercial do Vinho do Porto e do Douro e todos eles dêem vida e capacidade à própria estrutura existente e que ela própria tenha a percepção de que deve desempenhar esse papel. Por outro lado, a ausência de um trabalho diferenciado que fixe a nova geração é algo que urge ser alterado. Devo dizer que uma das coisas que mais me fascinou na equipa do Douro Património Mundial, em que participaram pessoas da Universidade de Aveiro, do Porto, de Trás-os-Montes e Alto Douro e também muita gente de fora, foi o entusiasmo que manifestavam ao dar auto-estima às próprias pessoas da Região, ter gosto por trabalhar na Região e dar-lhe dignidade ao trabalho da viticultura. Mas, de uma forma mais pragmática, tem que haver o dinheiro, as oportunidades e o emprego. Portanto, o turismo corresponderia à possibilidade de haver uma diferenciação do trabalho mas o Vinho do Porto também… Todo ele, ao passar para Vila Nova de Gaia, descaracteriza um pouco a região vitícola, como estamos habituados a ver as outras, em que a dinâmica comercial, as unidades de trabalho, de engarrafamento e a comercialização estão concentrados na própria Região. E isso, no Douro, existe numa percentagem muito pequena. E algum movimento de colocação das infra-estruturas de comercialização no Douro, algo que algumas empresas fizeram, poderia traduzir-se numa tendência animadora, completando numa região vitícola essa componente que é a drenada para Vila Nova de Gaia, por razões históricas e técnicas. Mas algumas empresas têm vindo a descobrir essas vantagens e a da proximidade com a rede viária europeia. Por fim, tenho também muita expectativa e esperança relativamente à componente cultural e, nesse sentido iniciativas como o Museu do Douro e muitas outras poderão constituir verdadeiros motivos de atracção. Devo dizer que trabalho habitualmente em Lisboa e muitas das pessoas com quem trabalho, embora já tenha conseguido que algumas cá tivessem vindo, não conheciam o Douro.


Autoria de Álvaro Cardoso de Azevedo (Casa Alvão), Colecção Instituto dos Vinhos do Douro e Porto

Reviver o Douro a preto e branco numa viagem cheia de cor

CP e Douro: um passado comum “contado” em viagem histórica A Linha Ferroviária do Douro estende-se ao longo de 203 quilómetros de extensão, desenvolvendo-se, na sua maior parte, junto às margens do rio Douro, ligando actualmente o Porto ao Pocinho. Correspondendo a uma extraordinária obra de engenharia concluída em 1887 após doze anos de intensos trabalhos, em que inúmeros acidentes naturais foram sapientemente ultrapassados, facto comprovado pelos vinte e seis túneis e trinta pontes que nela existem, poder-se-ia estabelecer mesmo um paralelo entre a estóica missão aliada à sua construção e ao desenho dos patamares e terraços vitivinícolas durienses pelos antepassados “engenheiros” que trabalhavam os solos. A linha, em grande parte do seu percurso, acompanha as margens do rio Douro, contendo a maior extensão de via-férrea ladeada de água de Portugal, superando mesmo o grande troço ribeirinho da Linha da Beira Baixa (ao longo do rio Tejo). Viajar nos Comboios Históricos do Douro, em carruagens do início do século, com tracção a vapor (Henschel Loco 0187), ou Diesel (série 1400), corresponde a desfrutar de um dos meios de transporte mais emblemáticos desta Região, proporcionando-se, a cada momento, o prazer da contemplação de uma das paisagens mais majestosas do mundo. É hora de partir para a viagem e sentir as emoções do passado, a bordo do Comboio Histórico da CP, num passeio inesquecível…


Reviver o Douro a preto e branco numa viagem cheia de cor

Campanha 2008 dos Comboios Históricos do Douro A CP inaugurou, no passado dia 31 de Maio, a campanha de 2008 dos Comboios Históricos do Douro. A viagem, entre a Régua e a foz do rio Tua, é idêntica à que será realizada por turistas e entusiastas, todos os sábados, até Outubro. O passeio é acompanhado de animação por grupo de música e cantares tradicionais da região do Douro. Este serviço, na linha do Douro, permite reviver a nostalgia do passado, atravessando a paisagem singular do Douro Vinhateiro, em cinco carruagens restauradas com capacidade para 250 pessoas sentadas, puxadas por elegante locomotiva a vapor da marca alemã Henschel, material circulante do inicio do século XX (anos 20), verdadeiras peças museológicas. Enquanto legado histórico incontornável, dotado de assinalável valor patrimonial, o Comboio Histórico do Douro desperta grande interesse em turistas de várias idades e origens, e valoriza não só a oferta global da CP como também enriquece o turístico do Douro, constituindo-se um ícone da região. Para além da espectacular viagem da Régua ao Tua, com paragem no Pinhão para se usufruir a beleza da estação, nomeadamente dos seus painéis de azulejos retratando a vida das gentes do Douro, este serviço proporciona a emoção do regresso ao passado num comboio do início do século XX, bem como um serviço a bordo englobando animação por grupo de música e de cantares regionais, bem como a oferta da tradicional bola


Reviver o Douro a preto e branco numa viagem cheia de cor

regional e de um cálice de Vinho do Porto. O serviço “Comboios Históricos do Douro, dispõe de viagens regulares todos os sábados, de Maio a Outubro, com partida da Régua às 14.46h, chegada ao Tua às 15.55h. O regresso está programado para as 16.59h, com chegada à Régua às 18.05h. Os Bilhetes para o Comboio Histórico do Douro, adultos 43 Euros e crianças dos 5 aos 12 anos 21.50 Euros, estão à venda em todas as bilheteiras da CP e operadores turísticos do Douro, desde 16 de Maio. A partir deste ano, a aquisição de bilhetes nas agências de viagem será possível, de forma mais rápida e cómoda, através da reserva directa on-line no sistema de vendas daqueles operadores. Mediante a simples exibição do bilhete do comboio histórico, os clientes podem usufruir de condições especiais de alojamento nos Hotéis Régua Douro; Douro Park Hotel; Vintage House e Aquapura, bem como obter preços especiais no estacionamento na estação de Porto Campanhã. No ano passado os Comboios Históricos do Douro efectuaram 22 viagens e transportaram cerca de quatro mil passageiros. Reserve já o seu lugar e visite esta Linha ímpar nos comboios da CP.

HORÁRIOS: Ida:

Partida de Régua: 14h46ʼ Chegada / Partida do Pinhão: 15h23ʼ / 15h33ʼ Chegada ao Tua: 15h55ʼ

Regresso: Partida do Tua: 16h59ʼ Chegada / Partida do Pinhão: 17h19ʼ / 17h29ʼ Chegada à Régua: 18h05ʼ


Região de Turismo Douro Sul

Encanto, prazer e tradição ao Douro pela sua “paisagem viva e evolutiva” - entre outros factores como a notoriedade dos seus vinhos e edificação de infra-estruturas fundamentais à dinâmica do turismo na Região – têm catapultado o Vale do Douro para um lugar de destaque no turismo nacional e internacional. Para além das melhorias registadas nos acessos rodoviários, dos investimentos no turismo fluvial e ferroviário da Região e dos grandes benefícios introduzidos no Aeroporto Sá Carneiro, bem como as várias rotas - nomeadamente de lowcost – que nos últimos anos começaram a operar para o Porto, no que respeita à oferta de alojamento turístico de qualidade, há a destacar o trabalho levado a cabo ao nível do PITER – Plano Integrado Turístico Estruturante de Base Regional do Douro. Da responsabilidade da Região de Turismo Douro Sul foram aprovados, através desta candidatura, 9 projectos. Destes nove, 7 projectos avançaram e estão em diferentes fases de concretização. Entre eles o Aquapura Douro Valley Villas & Spa, o Hotel Rural Quinta da Romaneira dos Sonhos, o Douro Palace Hotel e o Hotel Rural Quinta da Pacheca. Para além destes investimentos inscritos no PITER, há outros que tem sido tornados públicos que permitem, no Douro em 2009, duplicar o número de camas actuais. Em termos económicos e de desenvolvimento turístico para um destino emergente e com uma ascensão forte e níveis de procura muito acentuado, este é um aumento considerável e muito razoável. Com grande impacto na economia do Douro e da Região Norte, suprime as principais lacunas em termos de alojamento turístico, quer em hotelaria tradicional quer em hotéis rurais na Região.

O despertar da Região

Melchior Moreira, presidente da Região de Turismo Douro Sul

O Vale do Douro, compreendido entre Barqueiros e a fronteira, é fruto dos prodígios da natureza, mas também do esforço e da energia despendida pelo homem na sua transformação. A vinha que gera as castas do célebre Vinho do Porto é a causa e a razão maior de todo este árduo trabalho. Séculos de labuta, fadiga e suor humano, desventraram a terra, removeram o xisto maciço, moldaram os muros e patamares de socalcos para arrimar as videiras, erguendo esta obra colossal, que Marquês de Pombal recompensaria, no século XVIII, com o título de primeira Região Demarcada do mundo.

O turismo na Região Douro Sul “O turismo na Região do Douro tem tido um crescimento sustentado e uma atenção especial por parte das instituições públicas do sector, das autarquias e do poder central, tendo sido mesmo considerada “zona de excepcional aptidão turística” no PDTVD – Plano de Desenvolvimento Turístico do Vale do Douro. O PENT – Plano Estratégico Nacional de Turismo - reconheceu vários dos seus produtos turísticos de excelência. Os últimos dados sobre dormidas na região e o crescente número de passageiros em barcos de cruzeiros no rio Douro têm também indicado uma grande afluência de turistas nacionais e estrangeiros. Por outro lado, o titulo de Património Mundial da Humanidade atribuído pela UNESCO

Um novo fôlego parece ter despertado nos últimos anos na Região. A Região viu reconhecidas muitas das suas potencialidades e valências, nomeadamente como território de elevada qualidade ambiental e paisagística. O seu património cultural, arquitectónico e histórico de reconhecida importância (só a Região Douro Sul representa um quarto do património construído da Região Norte). Os recursos estratégicos com dimensão nacional e internacional (vinhos, turismo, paisagens). A imagem de qualidade dos seus produtos (a Região vitícola demarcada mais antiga do mundo que produz um dos vinhos mais famosos internacionalmente). O Rio Douro e canal navegável, associado ao potencial do TER como complemento da oferta turística ribeirinha e o surgimento de novas unidades hoteleiras de qualidade. Os projectos turísticos inovadores de base territorial, em fase de consolidação (a rede de miradouros; os caminhos durienses, as aldeias vinhateiras, etc.). Os importantes investimentos em infra-estruturas e acções complementares à actividade turística (vias de comunicação, cais fluviais, dissonâncias ambientais, etc.) e a aposta na formação de recursos humanos e em profissionais de reconhecida qualidade (a Escola de Hotelaria e Turismo de Lamego e os cursos de formação profissional em inúmeros sectores de actividade). Para isso, foi crucial o papel desempenhado pelas Regiões de Turismo, pelas autarquias, pelas instituições ligadas a sectores vitais da economia na Região Norte – turismo, agricultura, desenvolvimento regional – pelo Poder Central e pelas associações e empresários da Região e pelo reforço financeiro dos Quadros Comunitários de financiamento.

O caminho para a afirmação No entanto, a Região necessita ainda de superar alguns estrangulamentos e problemas estruturais, tais como combater o envelhecimento da população e o declínio demográfico, principalmente devido à fraca capacidade de fixação e atracção dos jovens com formação média e superior que provoca uma substancial falta de recursos humanos qualificados no sector.


Região de Turismo Douro Sul

readaptados às necessidades do turista de hoje, o que demonstra vontade em suplantar as dificuldades que eventualmente vão surgindo na sua concretização.

Desafios Nesta fase de reestruturação das Regiões de Turismo, são ainda muitos os desafios que se impõem. O futuro Pólo Turístico do Douro terá obviamente muitos projectos a implementar, nomeadamente investir na projecção internacional do Douro como marca e destino de excelência; reestruturar o sector do artesanato e da gastronomia regional; uniformizar os postos de informação turística; reorganizar o material promocional e adequar as ferramentas de promoção turística às necessidades dos turistas; introduzir novas ferramentas de suporte e apoio ao investidor; interagir com os profissionais de turismo e reforçar a promoção das rotas e circuitos da Região, nomeadamente a Rota do Vinho do Porto, a Rota das Vinhas de Cister e Rota do Azeite, entre outras entretanto implementadas.

Continuar a melhorar as acessibilidades inter-regionais e intra-regionais que interferem com a sazonalidade acentuada da Região e a sua relativa incapacidade de fixação de visitantes, bem como a ainda limitada oferta de animação estruturante com implicações na tipologia do visitante e na capacidade negocial e de atracção da região. Por outro lado, a actividade de incoming ainda pouco desenvolvida, as dificuldades de coordenação entre os vários agentes que operam no mercado turístico, sobretudo na vertente da organização, planeamento e estruturação da oferta turística e a significativa dependência do mercado doméstico, são ainda dificuldades com alguma expressão no panorama actual da Região. Por outro lado, surgem cada vez mais novos projectos, novas empresas de animação e turismo, novos produtos turísticos adaptados à realidade do Douro e um sem número de outros já existentes mas com novas abordagens e


Governo Civil de Vila Real

Douro, candidato a Maravilha da Natureza Com um passado e presente umbilicalmente ligados à região do Douro, António Martinho, actual Governador Civil do distrito de Vila Real, nasceu em Santa Eugénia, no município de Alijó, em 1949, e reside actualmente em Vila Real, onde é Professor do Quadro da Escola Monsenhor Jerónimo do Amaral. Licenciado em História pela Universidade do Porto, fez uma Pós-graduação em Estudos Europeus no Instituto Superior de Economia e Gestão e prepara tese no Mestrado em Gestão Pública e Autárquica, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Foi deputado à Assembleia da República, eleito nas listas do P. S. pelo Círculo de Vila Real, entre 1991 e 2002, tendo integrado as Comissões de Educação, Ciência e Cultura e de Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas, de que foi presidente (1999-2002) e ainda vereador na Câmara Municipal de Alijó, de Janeiro de 1982 a Dezembro de 1985. Foi também membro da Assembleia de Freguesia de Santa Eugénia (1980 – 1982) e da de São Dinis, Vila Real (2002 – Março de 2005). De Janeiro de 2003 a Setembro de 2004 integrou a Equipa de Projecto do Museu do Douro, tendo a seu cargo a Coordenação do Serviço Educativo. Desempenhou funções directivas em cooperativas e associações culturais, tendo sido membro fundador da Associação dos Amigos do Museu do Douro, coordenando a Comissão Instaladora e, depois, presidindo à Direcção. Foi com este duriense de gema e agente pró-activo, com um passado e presente que se confundem com os das próprias instituições mais emblemáticas da região, que Douro News conversou no sentido de auscultar uma perspectiva do Douro veiculada por um dos seus “filhos”. Enquanto Governador Civil de Vila Real, e tendo em conta que grande parte dos municípios constituintes da Região Vinhateira do Alto Douro pertencem ao Distrito de Vila Real, em que medida ou que peso tem, nas suas funções, o Alto Douro Vinhateiro?

António Martinho, Governador Civil de Vila Real

António Martinho (AM) – Eu não me posso alhear da minha história. Na Assembleia da República era conhecido como deputado do Douro, no entanto, sempre me intitulei também como deputado Transmontano. Hoje, sou exactamente Governador Civil do distrito de Vila Real. Mas acima de tudo tenho uma perspectiva regional e por isso cumpri, juntamente com os meus três colegas de Bragança, Guarda e Viseu, uma orientação do ministro António Costa, que é a de dar o exemplo trabalhando com espírito aberto, sem atitudes de “minifúndio”. Dessa forma, reunimos regularmente para tratar de assuntos comuns, como por exemplo, as comemorações dos 250 anos da Região Demarcada do Douro. Foi um trabalho desenvolvido por membros da equipa do Museu do Douro mas acompanhado por mim em nome dos meus colegas numa colaboração e num entendimento dos quatro distritos. Quando propusemos ao Governo que através de uma resolução do concelho de ministros reconhecesse o interesse cultural e económico das comemorações dos 250 anos da criação da Região Demarcada do Douro, estávamos a dar o exemplo do espírito de região, estávamos a ver o todo e não as partes que correspondem aos quatro distritos. Esta ideia de região do Douro, enquanto Região Vinhateira está presente também nesta minha função de representação do Governo no distrito, em colaboração com os meus colegas. Agora, um facto que eu não posso esquecer, é que Vila Real e Viseu são os distritos que têm maior território de Alto Douro Vinhateiro, classificado como património da Humanidade pela Unesco, e por isso temos mais responsabilidades. Eu sinto que é muito importante que o Douro património ou o Douro no seu todo seja visitável. Considero que no Douro não podemos viver sem vinha e a vinha também exige bastantes cuidados. O xisto tem características geológicas muito próprias e é preciso saber onde é que há rocha xistosa em risco de aluimento ou não, para prevenirmos situações de risco. Têm de ser muitos os cuidados para que o Douro Vinhateiro seja um Douro vivo, com vinho, com socalcos actualizados, com socalcos de xisto, mas onde se possa viver. Acho que o Governo percebeu muito bem a importância que o Douro representa para o país, investindo em estruturas fundamentais como o Museu do Douro. O Museu do Douro foi o primeiro museu criado pela Assembleia da República. Normalmente são criados por decreto de lei. Também não era habitual ver um museu com três componentes: a componente museológica, propriamente dita, a componente de acção cultural e a componente de arquivo. O museu do Douro tem uma vertente de dinamização cultural da própria região. Poder-se-á dizer que a progressiva valorização do Douro é também um projecto pessoal? AM – Acima de tudo é um projecto da região que eu soube ler enquanto deputado. Depois sou o co-autor da lei que criou o Museu do Douro e também me preocupei e lutei por alterações na própria gestão da região demarcada, a partir do meu entendimento sobre a Região Demarcada do Douro, que produz quatro tipos de vinho de valor. Tem denominações de origem protegida e tem pessoas que o produzem. Também me preocupei com o facto das barragens do Douro produzirem tanta energia eléctrica para o país e nem sempre haver a compreensão de que é necessário um retorno. Hoje preocupo-me de outra forma. Nas minhas actuais funções devo levar ao governo as preocupações da população e também levo as preocupações que têm a ver com a necessidade, por exemplo, de electrificar a linha do Douro até à Régua, de manter a exploração comercial normal até ao Pocinho e de, eventualmente, repensar a reabertura do caminho-de-ferro entre Pocinho e Barca dʼAlva, para fins turísticos. Nós não podemos desligar o Douro de Trás-osMontes ou o Douro da Beira Transmontana, isto é, não podemos desligar o vale da zona de planalto. Se repararmos, só existem dois centros urbanos significativos junto ao rio, que é o Pinhão e a Régua. As pessoas viviam a meia encosta ou no planalto. As pessoas que fizeram os socalcos, depois da filoxera, no séc. XIX, foram


Governo Civil de Vila Real

os transmontanos, as pessoas da beira alta e os galegos. O Douro é de toda a região. Foi nessa perspectiva que eu defendi vários projectos para a região do Douro, desde a componente agrícola, à componente cultural e à componente dos transportes. Não interessa ter uma região classificada, se esta não for fruída. É preciso criar vias para trazer as pessoas ao Douro. Nós temos a nível cultural, um espaço que devemos saber aproveitar. Temos que dizer a Lisboa para nos darem o apoio que dão ao Algarve. Se há uma palavra de ordem “Allgarve”, por que não criar ou apoiar iniciativas semelhantes para o Douro”? O decreto-lei indica as novas regiões de turismo e o Douro como um dos seis pólos de desenvolvimento turístico criados. AM – Quando eu quis que o Douro ficasse enquadrado na Região Norte, foi para potenciar a opção que o Governo fez do desenvolvimento turístico do Douro. O Primeiro-Ministro, no dia 31 de Agosto de 2006, na sessão de abertura das comemorações dos 250 anos da Região Demarcada do Douro, disse que o Norte Interior deve desenvolver-se baseado em quatro pilares: o vinho, a paisagem, a cultura e o turismo. Estas declarações deverão ter consequências, daí que hoje haja apoios específicos para os investimentos no turismo no Douro. Mas esse investimento tem de ter em conta que as pessoas que cultivam a terra é que criam uma identidade e essa identidade exprime-se com o trabalho na vinha, mas também por outros bens culturais, alguns deles totalmente imateriais como lendas, tradições, etc. Tudo isto deve ser aproveitado para captar fluxos turísticos. Não porque vão à “reserva” mas porque vão encontrar expressões da vida humana. Esse desenvolvimento turístico implica necessariamente dar a conhecer o bem cultural que se tem. É preciso dar a conhecer o Douro, de maneira a que as pessoas o possam fruir. Para dar a conhecer o Douro é preciso fazer acções de promoção. Para fazer acções de promoção é necessário alguma criatividade. Se os investidores virem que o Douro é procurado, constroem hotéis e outros equipamentos. Há intenções de investimentos no Douro, há intenções muito explícitas. Essas intenções de investimento concretizar-seão. As taxas de ocupação subirão. Mas só aumentará a ocupação, para além das motivações normais, se houver eventos. É preciso criar eventos no Douro para que as pessoas possam cá vir. É natural que as pessoas venham ao Douro também para assistir a um festival ou para participar num grande congresso e depois aproveitem para ver a paisagem. Há, no entanto, uma série de elementos que têm de ser tidos em conta e que devem estar interligados. Nesse sentido existe a Estrutura Missão do Douro, para dar corpo a esta ideia de interligação. Isto tudo tem preocupações de coesão porque se pensa a região como um todo. Há vários eixos de desenvolvimento que integram diversos componentes. Nós devemos partir do vinho, mas também é importante a produção de energia eléctrica e as albufeiras que a produzem. Há a “paisagem cultural evolutiva e viva”. Há a cultura identitária. O turismo de cruzeiro. No entanto, a iniciativa empresarial no Douro ainda é pequena. É preciso que os durienses e os transmontanos comecem a formar empresas que orientem os turistas na região. É deprimente estar na Régua e ver os turistas sair do barco e encaminharem-se em fila indiana para o comboio ou vice-versa, quando eles podiam subir a região. Isso depende da iniciativa empresarial, dos durienses e transmontanos que poderiam criar empresas que depois dariam emprego a todos

aqueles jovens que fazem cursos de línguas vocacionados para o ensino mas que deveriam ser vocacionados para guias e intérpretes. Inevitavelmente, esse tipo de iniciativas iria aumentar o negócio em restaurantes e nos hotéis. Os durienses têm de ser os primeiros a apostar na região. Falamos de actividades económicas, mas potenciadas por uma cultura viva, que é a cultura das pessoas que trabalham a terra, que fazem a cultura da vinha e que continuam a trabalhar e a viver cá. As consequências dos pilares de desenvolvimento para o Interior Norte que o Primeiro-Ministro exprimiu, têm de se realizar através de investimentos. O Governo está a cumprir os compromissos que assumiu, mas considero também necessário que todas as entidades públicas tenham a visão do país como um todo. O que nem sempre acontece. Qual é o principal objectivo da candidatura da região do Douro às 7 novas Maravilhas da Natureza? AM – Essa iniciativa tem como objectivo promover e divulgar a região do Douro, porque temos a consciência que a expressão de um grande escritor tem razão de ser: “O Douro é um poema geológico, a beleza absoluta” – Miguel Torga. O Douro, no seu todo, é um Douro humanizado, numa parte, mas é também um Douro de grande riqueza em termos de biodiversidade e essa riqueza de biodiversidade é aquilo a que eu chamo o Douro natural ou o Douro selvagem. O Douro da garça e da águiareal, o Douro do rosmaninho e da esteva. O Douro do xisto, do quartzito e dos contrafortes de granito. Tudo isto é um Douro, ainda muito natural. Do Douro que “da pedra se fez terra, do sol bravo o licor generoso, que tem um ressaibo de brasa e framboesa” como diz Aquilino Ribeiro, surge a classificação de Património da Humanidade pela UNESCO. E aquele Douro bravo que não foi transformado, que é difícil de transformar? E aquele Douro bravo que foi transformado e que voltou a tornar-se selvagem e natural, após a filoxera? Eu considero que estas zonas onde há bosques são também essenciais e parte efectiva do Douro. Isto é, sem dúvida, uma maravilha. As Novas Maravilhas do Mundo tiveram, em termos de votação, 100 milhões de visitas no site da Fundação New Seven Wonders; se nestes dois anos em que se vai realizar a votação para as Maravilhas da Natureza, se assinalarem o mesmo número de visitas, nós podemos alcançar milhões de pessoas que, via Internet, entrarão em contacto com a região do Douro. Naturalmente, o ideal seria que o Douro pertencesse às 7 maravilhas finais, mas se conseguir ficar entre as 21 mais votadas, isso também será bom. Assim, decidimos aproveitar este grandioso meio de divulgação que é a Internet para divulgar o Douro. Para tal, pedimos apoio institucional e apelamos aos empresários das quintas, às firmas exportadoras, aos produtores, às Câmaras Municipais que nos ajudem a fazer a promoção do Douro candidato à classificação de Maravilha da Natureza. Porque estamos a mostrar um bem nosso, onde se produz um produto que é uma mais-valia das exportações nacionais. Um bem que também pode e deve ser fruído. Nós precisamos que as instituições apoiem esta iniciativa porque ela merece ser apoiada e para que consigamos levar esta candidatura até um número que permita ultrapassar a primeira fase. Assim, o nosso apelo é: visite o site www.welcomedouro. com e vote. Depois da primeira fase, estou convencido que o Douro pode passar à segunda.


Presidente da CM Mesão Frio desconfia das vontades mas acredita nas potencialidades do Douro

“Quando sair terei orgulho daquilo que fiz” Fala de Mesão Frio como a porta de entrada numa Região com potencialidades enormes e cujo desenvolvimento tem vindo a ser adiado ano após ano. “Uma porta que se começa a abrir”, esperando-se que “toda a legislação que rege toda a burocracia do nosso reino não venha, mais uma vez impedir que essa porta se possa abrir completamente”. Quanto a outros desideratos a cumprir, fala na “regionalização e inerente delegação de meios e estruturas próprias” como algo fundamental para o Douro, porque “não podemos continuar dependentes de um Poder Central que, muitas vezes, nem sequer conhece a Região”. Em entrevista, Marco António Silva define como um “desafio diário” ser presidente da Câmara Municipal num município como o de Mesão Frio, mostrando-se ainda disponível para dar continuidade ao trabalho desenvolvido numa próxima legislatura. Que será a última, ainda que por decreto… Face ao que encontrou quando, pela primeira vez, assumiu os desígnios do concelho de Mesão Frio enquanto autarca, que legado considera ter já deixado no mesmo? Marco António Silva (MS) - Quando cheguei à Câmara Municipal encontrei um concelho que era muito parecido com a generalidade dos concelhos do interior, especialmente aqueles com a dimensão do de Mesão Frio. Foram concelhos que, durante anos – e julgo que actualmente se passa o mesmo -, foram completamente marginalizados de qualquer processo de desenvolvimento. E recordo que, quando cá cheguei, no que concerne ao que considero básico para qualquer concelho, não existia quase nada. Desde a água para consumo das populações, recordo que a vila, no Verão, tinha água meia hora de manhã e outra meia hora de tarde; nas freguesias, havia de vez em quando água nos fontanários; a recolha de lixo realizava-se apenas na vila e o tratamento do lixo não existia – tínhamos uma lixeira a céu aberto por detrás da Câmara Municipal; as estradas eram o que eram; o saneamento básico era um luxo. Portanto, encontrei um concelho em que praticamente tudo o que possibilitasse o desenvolvimento se encontrava por fazer. Neste momento, esses problemas estão resolvidos e tudo o que é básico ou está feito ou se encontra praticamente concluído, para além de ter sido ainda possível dotar o concelho de alguns equipamentos. Refiro-me concretamente às piscinas, à zona de lazer, polivalentes desportivos e a alguns outros equipamentos que trouxeram também alguma qualidade de vida ao concelho. Temos o trabalho de casa feito para completar também esta área e, no âmbito de uma candidatura ao QREN, temos fortes possibilidades de virmos a ter um estádio municipal, temos o centro escolar em fase de lançamento, a biblioteca municipal e o pavilhão multiusos verão, certamente, a muito curto prazo, as respectivas obras iniciarem-se e, com isto, julgo que o concelho de Mesão Frio ficará numa situação bastante boa. E com que problemas mais significativos se deparam actualmente os munícipes? MS – Actualmente, surge um novo problema, o do emprego. Temos problemas estruturantes que derivam do facto de o concelho viver quase exclusivamente da agricultura, um sector que está como está, não tendo obviamente a autarquia capacidade para dar a volta a isso; e temos um fenómeno novo, porque passámos de um tipo de sociedade em que, normalmente, o chefe de família era o ganha-pão da mesma para uma nova realidade em que a mulher também pretende trabalhar e afirmar-se como parte activa do desenvolvimento do concelho. Estamos a prestar grande atenção a isso e temos uma bolsa de emprego feita pelos serviços da Câmara que nos permite saber quem está actualmente desempregado, que habilitações tem, entre outro tipo de informações úteis e estamos a tentar, junto de unidades de turismo que irão aparecer a curto prazo, estabelecer uma ligação muito próxima, para que, quando aparecerem, tenhamos gente preparada para lá trabalharem. Mas, voltando um pouco atrás, realizámos há dias um colóquio no Auditório Municipal com os cerca de 300 desempregados do concelho e constatámos que estavam lá 299 mulheres. Isto é preocupante porque estamos a falar de pessoas sem formação e, para que possamos ultrapassar esta situação, estamos a desenvolver uma forte aposta na realização de cursos de formação, na habilitação e educação das pessoas. Costuma revelar-se crítico face à excessiva dependência do Terreiro do Paço… Em que medida poderia um processo de regionalização atenuar os efeitos indesejáveis do peso da centralidade?

Marco António Silva, Presidente da CM de Mesão Frio

MS – Com este Governo, foi criada uma estrutura nova no Douro que, na altura, aplaudi porque julguei que iria finalmente encarar o Douro de forma diferente, a Estrutura de Missão do Douro. Passado todo este tempo, acabo por tristemente chegar à conclusão que pouco ou nada mudou. Julguei que esta estrutura iria realizar um estudo profundo que procurasse detectar os constrangimentos da Região e que ocuparia depois um lugar privilegiado de ligação entre o Douro e o Governo Central, por forma a que este tivesse uma intervenção, como aliás foi prometida pelo Primeiro-Ministro quando veio cá ao Douro, lançar esta estrutura. O facto é que estamos já com dois anos perdidos de QREN, e no âmbito destas candidaturas, tirando o Plano de Desenvolvimento Turístico do Douro, o que se veio a verificar é que a Estrutura de Missão não tem grande papel em toda esta questão, o que considero grave. Agora, sou apologista das regiões, a minha posição sempre foi essa, obviamente desde que acompanhada dos respectivos envelopes financeiros. Porque, criar mais uma estrutura, como temos tido, por exemplo, com as regiões de turismo, corresponde apenas a criar mais meia dúzia de lugares para meia dúzia de pessoas que não vão resolver absolutamente nada porque nem sequer dispõem de meios para trabalhar. O que falta, actualmente, ao Douro? MS – Talvez até mais que dinheiro, falta massa crítica. E falta ainda haver, por parte do Poder Central, uma perspectiva nova sobre o que deve ser o desenvolvimento desta Região. Por onde deveria passar, em seu entender, o desenvolvimento desta Região? MS – Fundamentalmente pelo turismo. Esta Região não possui qualquer vocação industrial, tem algo precioso, que é o vinho e julgo que uma forte ligação entre turismo e vinho poderá potencializar esta Região em termos turísticos com uma dimensão muito superior à do Algarve. E, para o efeito, não será necessária a adopção de uma atitude mais cooperativista entre as diferentes entidades? MS – É necessário captar para o Douro gente que invista e o modernize, que traga novas ideias. Mas aquilo que se verifica, e dou como exemplo o Douro Marina Hotel, um projecto de 60 milhões de euros, anda nos gabinetes há cinco anos, o que é impensável… Aliás, tenho mantido uma relação muito forte, quer com o primeiro investidor, o Mário Ferreira, quer actualmente com CS e posso dizer que a sorte é que já realizaram grandes investimentos, porque senão já cá não estavam. Não há pachorra para aturar uma coisa destas! Não é possível que, sob a capa do Douro Património Mundial, sejamos mais papistas que o próprio Papa… Eu visito zonas que são Património Mundial em todo o mundo, onde se vêem coisas novas, coisas que, no fundo, potenciam o desenvolvi-


Presidente da CM Mesão Frio desconfia das vontades mas acredita nas potencialidades do Douro mento daquelas regiões, enquanto nós, em Portugal, como queremos proteger de uma forma que considero absurda o tal património edificado e natural, acabamos por não criar condições para que as pessoas venham cá, visitem a Região e deixem cá riqueza para quem cá vive. A continuarmos assim, qualquer dia haverá pessoas a subir o rio e a ver o mato nas margens porque a agricultura, entretanto, faliu e as pessoas, porque não têm emprego, desapareceram. Como português, já alguma vez temeu que possamos perder a classificação atribuída pela UNESCO? MS – Vou dizer algo que poderá cair muito mal, mas sou franco: quase digo que me estou a borrifar para isso… Quando Portugal candidatou esta Região a Património Mundial, criou fortes expectativas. Tínhamos consciência de que nos traria alguns constrangimentos, na medida em que teríamos que proteger mais afincadamente o que possuímos mas esperávamos depois colher os frutos do reverso da medalha, que se traduziria em benefícios. E essa segunda parte ainda não a vi. E o que sinto é que as pessoas que pretendem construir no meu concelho não o podem fazer porque existe uma série de grelhas que se sobrepõem, que começam nos PU, passam pelos PDM e acabam no IPPAR, com regras que ninguém percebe muito bem. E o facto é que vivo num concelho que ainda por cima é limítrofe de Baião, que está fora desta Região do Douro e sou confrontado com munícipes que reclamam que aqui não se pode fazer e ali ao lado faz-se tudo. E tenho uma série de munícipes que vão viver para Baião e Resende e nós continuamos aqui a proteger algo que, qualquer dia, se poderá resumir a um património sem gente. Tendo já passado por legislaturas sob a direcção do PS e do PSD, constatou alguma flutuação ao nível do investimento no Douro em função da cor partidária ou sente, de alguma forma, enquanto autarca desta Região, que não existe poder reivindicativo junto do próprio aparelho partidário? MS – Eu não vejo propriamente um favorecimento político, nem me parece que esse tipo de questões se coloque ao nível de um concelho como Mesão Frio. Poderá colocarse ao nível dos grandes concelhos, daqueles que são determinantes politicamente e em

termos eleitorais no panorama nacional. Desde que se apresentem projectos bem fundamentados e se fale com a pessoa certa, creio que o país não mudou muito a esse nível. Os projectos intermunicipais funcionam no Douro? MS – Estamos num Região um pouco complicada a esse nível. Existem grandes projectos que seriam importantes em termos intermunicipais mas que não passam à prática. Uma das lacunas com que nos deparamos situa-se ao nível dos transportes. Fazer uma rede de transportes intermunicipal fica extremamente caro, o mercado é o que é e não funciona. Agora, há outro tipo de projectos em que nos temos associado, nomeadamente no seio da Associação do Vale do Douro Norte e, em tudo o que é possível, as coisas têm funcionado. E existe abertura quanto a uma promoção intermunicipal da Região? MS – Existe uma coisa que resultou, que foi a navegabilidade do Douro. Temos actualmente milhares de turistas a subir o Douro mas o que acontece é que, a partir da saída do barco, não temos quase nada. Não temos artesanato, não temos formas organizadas de captar as pessoas para que fiquem cá mais dias e, como tal, a riqueza que as pessoas têm para deixar, deixam-na dentro do barco ou no Porto. E há muito trabalho a fazer nessa área mas é necessário que se criem ou apareçam instituições que promovam, de uma forma global, o Douro. Há algum trabalho feito ao nível da promoção mas, no essencial, terá que passar pelos privados. Sei que a CS, mal tenha o hotel construído, pretende realizar uma campanha publicitária no exterior em que gastará cerca de 5 milhões de euros. Mas não adianta estar a promover aquilo que depois não temos. Quando cheguei à Câmara Municipal, apanhei aí uns panfletos turísticos alusivos ao meu concelho, em que se dizia que a gastronomia era o cabrito assado e o arroz de forno e o doce era a falacha, e eu interrogava-me sobre o que fazer se um turista, aqui chagado, pegasse no panfleto e entrasse num restaurante e pedisse cabrito assado ou falacha. Provavelmente, cabrito não haveria e falacha, nem saberiam do que se tratava… Portanto, antes de promover, teremos que pensar ter as coisas. Temos de facto a paisagem, toda esta construção que o Homem fez ao longo do rio, mas é preciso muito mais que isso.


Câmara Municipal de Santa Marta de Penaguião:

Todo o Douro num município “Nem os montes que nos abraçam conseguem travar a evolução rápida das novas tecnologias. Hoje, o mundo inteiro está ao alcance de um simples pressionar de uma tecla, e quem não acompanhar, cai no esquecimento. Santa Marta de Penaguião, é uma pequena e simples, mas riquíssima Vila, que jamais poderá ser esquecida. Estamos conscientes de que muito do que por cá se faz e cultiva, representa uma mais-valia no património nacional e mundial. Abrimos aqui as nossas “Janelas”, para que qualquer um possa entrar, nos conhecer e até quem sabe, gerar o gosto de nos visitar. Do encanto das paisagens, à genuinidade das tradições e paixão das gentes, em cada “enter” terá uma nova descoberta. Descobrirá o digníssimo visitante que entre pequenos montes, se fizeram grandes homens e mulheres, e que atrás de cada videira há sempre uma lenda, uma história de família e um brasão para a comprovar. Leia, conheça e convide outros a visitar, Santa Marta de Penaguião é um cantinho de Portugal que a todos pertence, é a natureza pura em constante mutação, é a riqueza das cores e o aroma inconfundível de um vinho que não é igual em lado nenhum! É desta forma apaixonada que Francisco Ribeiro, presidente da Câmara Municipal de Santa Marta de Penaguião, abre as portas à Douro News, como que a desafiar o leitor a aventurar-se pela descoberta de um oásis.

Um legado de 22 anos enquanto autarca de Santa Marta de Penaguião “ Confesso que não estou muito preocupado em pronunciar-me sobre o legado que irei deixar… Enveredei por esta vida política porque o povo assim o entendeu e o Partido Socialista também e essa confiança inicial foi sendo reforçada sucessivamente nos diversos actos eleitorais, o que revela claramente que a maioria da população do concelho está contente com o trabalho que tenho vindo a realizar. E eu, incentivado por esse apoio, pelo gosto que se vai ganhando pelas coisas que se vão fazendo e pela paixão pela terra que me viu nascer, naturalmente, cá continuo a dar o melhor de mim no sentido de não defraudar as expectativas que em mim

depositaram e de levar por diante um conjunto de empreendimentos capazes de alterar o aspecto desta vila e deste concelho, criando condições para que cada um de nós que cá vivemos se sinta cada vez mais feliz”.

Visibilidade e qualidade de vida igual a obra edificada “Julgo importante referir que, nesta altura, Santa Marta é um dos concelhos que, no contexto regional, e também se poderá afirmá-lo a nível nacional, tem um dos mais elevados índices de satisfação das necessidades básicas. Refiro-me concretamente à água e ao saneamento, no primeiro caso com uma cobertura de 100 por cento e no segundo superior a 80, o que corresponde ao que de melhor existe em termos europeus. Temos uma rede viária decente, arranjada e fomos criando, ao longo do tempo, um conjunto de empreendimentos bastante significativos e de elevada importância, nomeadamente os espaços para prática desportiva, como campos de futebol e complexo municipal relvado, polivalentes e piscinas municipais; na vertente cultural, edificámos o Auditório Municipal, no turismo, para além da construção do posto de turismo, requalificámos quatro miradouros com um potencial que permite que quem nos visita fique cada vez mais atraído pelo concelho; temos uma actividade cultural muito intensa, que advém também do facto de termos muitos e variados grupos. Este será também certamente dos concelhos mais ricos culturalmente do Douro e, por via disso, todos os anos temos levado a efeito uma mostra cultural, a qual denominamos Semana Cultural, ao longo da qual todos os grupos do concelho apresentam o melhor de si e levamos por diante uma semana gastronómica, havendo todos os dias um restaurante a confeccionar uma oferta típica do nosso concelho. Hoje, é um concelho muito organizado, temos beneficiado de uma resposta muito adequada em termos de expansão urbanística, nomeadamente na vila. Está actualmente a decorrer a abertura de duas novas vias estruturantes, como as variantes a Santa Comba e a São Miguel no coração da vila, o que permitirá também uma expansão do tecido urbano que aqui se situa. E a vila é um espaço territorial muito recente que, basicamente, começou a ter alguma forma e dinâmica a partir de 1985, visto que, até essa altura, não era o núcleo populacional mais importante. Está ainda a decorrer a construção de mais um pavilhão gimnodesportivo aqui na vila, o que vai também permitindo aos mais jovens e igualmente à restante população usufruírem de um conjunto de equipamentos que contribuem para uma vida mais digna nesta terra. Trata-se de um concelho que, apesar de situado no interior, se encontra num eixo entre Régua e Vila Real, o que permite alguma dinâmica, permanência e fixação de populações desses concelhos e, como tal, temos apostado em criar condições para que toda essa gente se sinta bem cá. Temos actividade desportiva e cultural bem planeadas, revelamos muito cuidado com o ambiente e somos, ao nível da Associação dos Municípios de Trás-os-Montes e Alto Douro, o concelho que tem mais estações de tratamento de águas residuais. Associado a tudo isto, temos os nossos vinhos, o produto por excelência e nossa fonte de subsistência, da qual vive quase em exclusivo o nosso concelho. A nossa adega cooperativa é a maior do Douro e uma das maiores do país e, portanto, terá que ser desse sector que dependerá o futuro do concelho. Sector esse que vive hoje uma crise profunda, face também à globalização há dificuldade em vender bem os vinhos o que dificulta, a quem o faz, viver nesta terra. Esperemos que todos sejamos capazes de dar a volta para que quem cá vive encontre boas razões para o continuar a fazer”.

O futuro “Creio que o nosso futuro dependerá, por um lado, do que formos capazes de fazer pela nossa região, nomeadamente através do incremento turístico, um sector em que depositamos muitas esperanças”.

Cartões de visita Francisco Ribeiro, presidente da Câmara Municipal de Santa Marta de Penaguião

“Elegeria fundamentalmente as nossas paisagens e os nossos vinhos. Temos uma paisagem muitíssimo bonita e gratuita para quem nos quiser visitar e o nosso Vinho


Câmara Municipal de Santa Marta de Penaguião:

do Porto, o vinho fino. Para além do vinho, temos o bom cabrito com arroz no forno, para além de toda uma variada oferta de pratos tradicionais. Estamos num concelho bem servido de transportes, quer por barco, quer por comboio, quer pela rodovia, uma vez que o nó da A24 está perto da sede do concelho”.

Oferta turística “Temos tido algumas dificuldades… Têm surgido algumas unidades hoteleiras no Douro, muitas das quais – ou quase a totalidade – vocacionadas para uma gama alta de turismo e a grande maioria, que é a classe média, não tem muitas vezes condições para cá ficar. Tem havido algum esforço nos últimos tempos, preconizado por alguma iniciativa de construção de unidades hoteleiras, em Santa Marta temos apenas uma residencial e algumas casas de turismo rural, o que é manifestamente insuficiente para um turismo que pretendemos de massa, que deixe cá dinheiro para que quem cá vive possa viver melhor. Temos já um contacto muito forte com um empreendedor, manifestámos abertura para a cedência de terrenos em condições favoráveis, o nosso PDM já prevê também algumas zonas para instalação de unidades hoteleiras e empreendimentos turísticos e estou convicto que nós, que temos, para além desta zona predominantemente vitivinícola, uma outra zona mais alta que vai até à Serra do Marão, oferecemos uma mescla com enorme potencial turístico e seremos, certamente novidade a curto prazo nesta matéria”.

Uma responsabilidade chamada Douro Património Mundial “Eu tive responsabilidade como teve qualquer cidadão que cá vive. Penso que se trata de um título muito justo, que se deve a todos que cá vivem mas particularmente – para além de todo o mérito de quem fez, apresentou e defendeu a candidatura

– aos nossos antepassados que, com mais trabalho e esforço que nós, foram capazes de preparar esta paisagem cada vez mais apetecível e preservá-la continuadamente. Mas, infelizmente, o efeito dessa classificação traduziu-se, até agora, em muito pouco. Inicialmente, o Governo ainda instalou conjuntamente com as câmaras o Gabinete Técnico Intermunicipal para dar apoio e acompanhar as intervenções no Douro Vinhateiro que, depois, por falta de verbas, desapareceu. Os apoios têm sido deveras escassos, têm até havido alguns constrangimentos na área da construção, o IPAR tem tido dificuldades e alguns autarcas até têm sofrido de alguma forma devido ao facto de a sua área ter sido classificada porque, hoje, para se fazer qualquer coisa, sentem-se muitas dificuldades. E essa instituição, que tem como missão preservar o património e dar o acompanhamento necessário, tem sido muitas vezes uma força de bloqueio ao desenvolvimento. Portanto, esta classificação está nas mãos de todos os durienses e cada um, com a sua inteligência e bom senso, tem desenvolvido os seus esforços no sentido de dignificar esta classificação e fazer com que a mesma se mantenha por muito tempo”.

A Estrutura de Missão para o Douro “Temos, obviamente, que saudar a recente iniciativa da criação de uma unidade de missão para o Douro que, para além de ter como função a realização de um diagnóstico da situação e revelar a capacidade de articular todos os investimentos e iniciativas dentro de uma determinada perspectiva mas, para além disso, ainda não são conhecidos outros incentivos que consideramos da maior importância para apoiar quem teve a coragem e espírito de sacrifício para se manter cá. É evidente que todos nos sentimos contentes e orgulhosos por vivermos numa terra bonita, a mais bela de todas, mas esta riqueza não se tem traduzido em mais-valias nem incrementado a economia de cada cidadão de cá”.


Francisco Lopes, presidente da CM Lamego, apostado em devolver preponderância a um dos ícones históricos do Douro

Lamego: Um ícone histórico com presente e futuro É com imensa convicção nas potencialidades do município de Lamego que Francisco Lopes, prestes a cumprir o primeiro mandato na liderança do executivo autárquico local, projecta o futuro. Não revelando qualquer receio em arriscar investindo, ficará na história do concelho como um dos responsáveis pela recuperação e reabertura do Teatro Ribeiro Conceição, fechado há mais de 20 anos, pela edificação da primeira zona empresarial do município, pelas inúmeras respostas criadas ao nível da habitação social e infra-estruturas básicas, desportivas, culturais e de lazer. Parece muito em quatro anos mas Francisco Lopes promete mais: “em seis anos teremos, pelo menos seis hotéis na nossa frente ribeirinha” e, quanto ao cais fluvial, completamente paralisado, pretende “transformá-lo numa área logística ligada ao vinho, uma estrutura que resulte da fusão das adegas cooperativas da Região”. Quando se fala do Douro, é quase indispensável referir-se a importância histórica de um município como Lamego… Francisco Manuel Lopes (FL) – Com certeza que sim. Lamego é uma das cidades mais antigas da Região e teve sempre um papel de grande predominância no contexto do Douro. Foi aqui que se começou a produzir algum vinho de qualidade e daqui saiu o primeiro vinho exportado com o nome de Vinho do Porto, era aqui que havia o registo dos mercadores e dos rabelos que desciam o Douro e pagavam tributo ao bispo da cidade, foi na dependência dos mosteiros de Cister que, efectivamente, se começou a desenvolver uma viticultura que viria a dar origem, não apenas em termos da qualidade e na reputação do produto que hoje conhecemos como Vinho do Porto e, mais recentemente, como Vinhos do Douro, mas sobretudo o tratamento e armação do terreno que deu origem a uma paisagem única classificada como Património da Humanidade. Sem prejuízo de Lamego apostar hoje numa componente de natureza mais patrimonial e cultural, sem enjeitar essa marca que tem também no Vinho do Porto, sabemos que existem outros concelhos que têm igual importância, como a Régua que teve sempre as instituições ligadas ao vinho ou São João da Pesqueira, o concelho maior produtor de vinho. Temos outras prioridades, tendo no entanto em conta o facto de termos estado enquanto área geográfica na origem desse importantíssimo produto para toda a Região e para o País, durante muito tempo como elemento muito relevante na nossa balança de transacções que, entretanto, foi perdendo essa importância económica mas que continua a ser fundamental no equilíbrio da economia da Região, porque existem cerca de 40 mil viticultores que dependem do vinho. Mas também, como disse, porque a paisagem que aqui foi construída abriu outras perspectivas de desenvolvimento regional, nomeadamente através do turismo. E através das pessoas que vêm pelo prestígio do Vinho do Porto, pela qualidade e diversidade da paisagem conseguiremos “vender” outros produtos, e aí, os núcleos urbanos que temos, com as questões mais patrimoniais e culturais associadas, as tradições e a história, a gastronomia, os produtos regionais, todo um conjunto de potencialidades que a Região tem, que nunca foram devidamente aproveitadas mas que estão cá intactas e devem ser incluídas em planos estratégicos de desenvolvimento que visem o seu aproveitamento do ponto de vista turístico, obviamente sempre numa óptica de qualidade que respeite as condicionantes que o próprio património construído obriga, bem como os valores ambientais que ainda estão subjacentes a todo o Vale do Douro e à estrutura fundiária que aqui foi criada e que foi sempre muito respeitadora do ambiente. É também nessa óptica da promoção das potencialidades turísticas da Região que surge o reforço do Eixo Atlântico, nomeadamente a cooperação com a Galiza como vector estratégico? FL – Sim, mas não apenas… Antes disso, há uma aposta que nos parece fundamental que corresponde ao reforço da capacidade urbana da cidade de Lamego. Todo o interior do País sofre uma pressão muitíssimo forte de desertificação humana e temos que encontrar cá soluções para que possamos oferecer às nossas populações cidades médias que, não tendo porventura os graves inconvenientes que tem a vida nas grandes cidades, possam ter também as vantagens ao nível da oferta de emprego, de serviços públicos e privados diversificados, da animação, da inovação. Que se ofereçam todas essas condições para que as pessoas sintam

Francisco Lopes, Presidente da CM de Lamego

que têm todas as condições para continuarem a viver aqui. E isso só se consegue a partir de um ambiente urbano devidamente preparado e cuidado e que tenha dimensão e massa crítica, caso contrário a manutenção de serviços será inviável, a criação de emprego não acontecerá e isso é, efectivamente, o que fixa as pessoas: um emprego, um modo de vida capaz e uma oferta de outro tipo de serviços indispensáveis. Portanto, a nossa participação, quer recentemente no Eixo Atlântico, quer no Eixo Urbano Vila Real-Régua-Lamego, tem como objectivo dar mais dimensão e densidade à estrutura urbana da cidade de Lamego, ainda que isso venha a implicar alguma absorção das periferias, o que é normal, porque estamos convictos que tal será benéfico para Lamego, permitindo manter serviços, e para os concelhos vizinhos da Região que, vivendo em rede com Lamego, mantendo a sua população a residir e trabalhar nos seus concelhos de origem, possam vir a Lamego em busca de alguns serviços ou oportunidades que aqui lhes sejam oferecidas. Serão esses desideratos que enumerou possíveis de alcançar face à actual divisão administrativa do território? FL – A divisão administrativa do território foi sempre, a nosso ver, um óbice ao desenvolvimento do interior porque não potenciou a criação de condições de descriminação positiva nalguns concelhos ou cidades que teriam possibilidades de desenvolvimento se tivesse existido vontade política e investimento. É evidente que, não raro, são também os próprios locais que, por não criarem dinâmicas de desenvolvimento, alimentando inércias que, tradicionalmente, afectam a nossa maneira de ser e de trabalhar, não fizeram o mínimo para que essa situação viesse a verificar-se. E, em Lamego, é minha convicção de que foi isso que aconteceu. Não cresceu comparativamente com as cidades capitais de distrito que estão a Norte e a Sul, Vila Real e Viseu, porque também nunca cuidou de fazer os investimentos necessários para fixar a população e os serviços públicos essenciais, que estão cá e precisam de condições para se manterem cá, paralelamente a uma aposta na actividade privada no comércio, indústria, nos serviços que são mais terciarizados e inovadores, que geram hoje emprego e iniciativa reprodutiva. Embora haja hoje um esforço muito grande de atracção deste tipo de investimentos, isso está praticamente ausente das cidades do interior. A estrutura administrativa tem aqui, obviamente, um papel mas não foi fundamental. O que não quer dizer que esteja bem. Não está, e eu sou adepto da descentralização de poderes e competências


Francisco Lopes, presidente da CM Lamego, apostado em devolver preponderância a um dos ícones históricos do Douro e, se estas puderem ser desenvolvidas por entidades dotadas de legitimidade própria que lhe venha da livre escolha dos cidadãos, melhor. Portanto, parece-me inevitável que, mais tarde ou mais cedo, se tenha que caminhar nesse sentido. Está prestes a terminar o seu primeiro exercício no executivo autárquico de Lamego mas, quando chegou, e após o primeiro diagnóstico, encarou a herança recebida como uma ameaça ou como uma oportunidade? FL – Seguramente como uma ameaça, como um ponto fraco. Herdámos um concelho com muitas dificuldades, altamente débil ao nível das infra-estruturas e equipamentos mais relevantes, com uma estrutura administrativa da máquina municipal pouco organizada e pouco qualificada nos seus recursos, sem haver uma definição estratégica ao nível daquilo que era a vocação do concelho e seus objectivos e missão no contexto regional. E isso prejudica fortemente uma acção como a que pretendi imprimir ao concelho de Lamego, que foi muito proactiva, com o lançamento de múltiplas actividades e iniciativas, não apenas de natureza infra-estrutural, isto é, obras, mas também de natureza imaterial, procurando perceber a forma como as pessoas encaram estas iniciativas, o funcionamento da máquina autárquica e o desenvolvimento. E o que efectivamente notámos foi um descrédito nas capacidades da cidade instalado em grande parte da população. E na capacidade de reverter 20 anos consecutivos de perda de população, de serviços, de prestígio e de importância local e regional. E quando este executivo começa a lançar obras como a recuperação do Teatro Ribeiro Conceição que estava fechado há 20 e constitui até hoje o maior investimento realizado pela Câmara Municipal de Lamego, uma obra em que gastámos 6 milhões de euros, começámos a lançar piscinas cobertas, habitação social, o espaço internet - algo que não existia numa cidade que tem quase mil estudantes no ensino superior, temos uma escola de hotelaria que é a mais moderna do País, uma escola profissional de grande qualidade e dinamismo, dois colégios privados reputadíssimos, um deles com 150 anos de história por onde passaram Miguel Torga e Aquilino Ribeiro, temos um pólo da Escola Superior de Educação e a Escola Superior Tecnologia e Gestão de Lamego e, mesmo assim, não oferecíamos uma coisa tão básica e

elementar para a difusão das tecnologias da informação, que são fundamentais, como o espaço público de internet – demos a perceber à população que havia coisas que se podiam fazer, que eram evidentes e que ajudariam a inverter o estado de coisas. Avançámos com a primeira zona empresarial do concelho e, mesmo nesta altura que atravessamos, já vendemos mais de metade dos lotes, o que significa que ainda há apetência, dinamismo e vontade de investir. Isto porque acreditamos, ao contrário de muitas pessoas, que daqui por 20 anos haverá aqui gente. E sabemos que isso se paga mas procuramos aproveitar de forma eficaz os fundos comunitários e recorrendo, nos limites legais, ao endividamento bancário que, obviamente, não nos deve preocupar pois não é isso que compromete o futuro quando estamos a fazer obras como o Teatro, financiado a 50 por cento pelo Programa Operacional da Cultura. Enriquecemos o património da autarquia sem termos que pagar metade do valor a que corresponde o investimento. São obras que, globalmente, nos beneficiam muito e tanto assim é que, três anos depois, a Câmara Municipal de Lamego tem uma capacidade de endividamento maior do que a que tinha quando aqui cheguei, apesar de termos feito muitos investimentos. É uma forma diferente de encarar a gestão autárquica e de encarar o futuro com muita mais confiança, a qual advém do facto de estarmos inseridos numa zona muito especial, com um potencial turístico imenso e que terá no concelho de Lamego um dos territórios onde será aproveitado de forma mais intensa. Porque temos uma localização geográfica muito interessante, temos hoje boas acessibilidades com a A24, não as temos ainda em relação ao Porto, faltando-nos o IC26, nem uma boa ligação aos nosso parceiros naturais, ou seja, todos estes municípios que vão de Tarouca, Moimenta, Sernancelhe, Penedono, até Trancoso, uma necessidade urgente mas, de qualquer forma, já temos para Lisboa e Litoral Sul a A24. Estamos a meio do Douro, o que significa que estamos na primeira linha de chegada dos cruzeiros fluviais, estamos acessíveis através de comboio a partir da Régua… Esta localização geográfica, associada à importância da cidade mas também à estrutura fundiária – estamos na zona das mais antigas e prestigiadas quintas, que mais cedo avançaram para o turismo e para os vinhos de qualidade, perspectiva-nos que venhamos a ter, na nossa frente ribeirinha num prazo máximo de seis anos, pelo menos oito hotéis.


O Douro Românico

Tabuaço: Vinha, vinho, paisagem e património Tabuaço está bastante vocacionado para o Turismo. Essa é, de facto, uma grande aposta da Câmara Municipal? Quais são os principais programas desenvolvidos? José Carlos Pinto dos Santos (JPS) – Tabuaço tem, de facto, potencialidades no sector do Turismo e para além de algumas obras de infra-estruturas vocacionadas para o Turismo, nomeadamente a construção do cais fluvial e da fluvina do rio Távora e da construção de alguns miradouros, estamos sobretudo interessados em incentivar o aparecimento de unidades hoteleiras. Nesse sentido, temos neste momento alguns projectos já preparados, de entidades privadas, destinados à construção de dois hotéis aqui em Tabuaço. Por outro lado, junto à estrada nacional 222, a marginal do rio Douro, vão aparecendo alguns casos de turismo de habitação em Quintas com imagens já consagradas sobretudo no domínio da exportação do Vinho do Porto. Quintas essas que despertaram também nestes tempos que correm para a questão turística. Refiro a propósito a Quinta do Seixo, em Valença do Douro, que pertence ao grupo Sogrape e a Quinta do Pego, onde está em construção um hotel rural. Portanto, a Câmara Municipal pretende, através da criação de infra-estruturas voltadas para o alojamento turístico, para os desportos náuticos e para o lazer, desenvolver algumas actividades no sentido de atrair cada vez mais a população que nos visita e que cada vez mais tem revelado apetência por conhecer e viver as experiências do Douro. Queria referir ainda que, com a construção do Museu do Douro na sua estrutura polinuclear, Tabuaço terá um pólo desse museu que será o pólo do “Imaginário Duriense”. De maneira que são pormenores que constituirão certamente centros de interesse para os turistas. Há alguns cuidados na promoção e desenvolvimento de tudo aquilo que é gastronomia e artesanato, sobretudo na valorização e restauro do nosso património cons-

José Santos, Presidente da CM de Tabuaço

truído e esta será também uma componente desses objectivos que nós pretendemos realizar relativamente ao turismo. Temos praticamente concluída a intervenção da Aldeia Vinhateira de Barcos, que só pela classificação que mereceu, será também em breve centro turístico por excelência no concelho de Tabuaço. Para além das suas paisagens, da hospitalidade da sua gente, temos um património riquíssimo para visitar, daí a nossa esperança de cada vez mais olharmos para o Turismo como um factor de desenvolvimento económico e social. Pode falar-nos um pouco do grande património natural e dos vestígios arqueológicos de Tabuaço? JPS – Nós temos alguns imóveis classificados como monumentos nacionais, nomeadamente a Igreja Matriz de Barcos mas temos também um conjunto vasto de imóveis classificados como imóveis de interesse público. Referia apenas dois por me parecerem bastante representativos da natureza românica do nosso concelho que são a Capela Românica de Sabroso, na freguesia de Barcos e a Capela Românica de São Pedro das Águias, na freguesia da Granjinha. Quer um, quer outro são jóias peninsulares do estilo românico, que têm uma história muito rica e que grandes admiradores e homens das letras e da cultura não se cansaram de recomendar, de elogiar e de admirar. É o caso, por exemplo de Miguel Torga, que fez questão de vir ver com os seus próprios olhos a experiência riquíssima de visitar estes monumentos. Que avaliação faz, actualmente, do turismo em Tabuaço? JPS – A questão turística de Tabuaço está ligada de uma forma mais abrangente ao fenómeno turístico do Douro. A região do Douro tem um plano integrado de desenvolvimento turístico já há alguns anos, infelizmente ainda não foi levado à prática mas esperamos que dentro em breve apareça um envelope financeiro para concretizar este plano; não só porque é urgente mas também profundamente necessário. A Estrutura de Missão do Douro, à frente da qual está o presidente da Comissão de Coordenação e o chefe de Missão que é também uma pessoa conhecedora desta região, o Eng.º Ricardo Magalhães, tudo têm feito para avançar rapidamente com este plano. Dessa forma, os reflexos positivos do turismo de toda a Região Demarcado do Douro tem também efeitos muito positivos no concelho de Tabuaço. Durante muitos anos, o Douro era apenas Vinho do Porto, neste momento é muito mais do que isso, é o Vinho do Porto, é o Vinho de Mesa mas também é a paisagem, a gastronomia e é a beleza ímpar de toda esta região que, sem modéstia, é apelidada das regiões mais bonitas de Portugal e do mundo. Tem-se apostado muito no turismo fluvial, fazendo cruzeiros que sobem e descem o Douro, mas é necessário também animação turística e sobretudo uma aposta muito grande no alojamento turístico, na restauração e na gastronomia. É necessário dar a conhecer a esses nossos visitantes, quer nacionais, quer estrangeiros, a História da nossa região e a história de cada monumento. Até agora, grande parte do turismo fluvial, que é constituído sobretudo por turistas estrangeiros, tem-se limitado a apreciar a beleza do rio Douro. No entanto, torna-se cada vez mais necessário a penetração de toda essa gente no interior dos concelhos ribeirinhos ao Douro e de percorrerem, visitarem e conhecerem e ser-lhes contada a história dos monumentos porque há histórias muito bonitas ligadas a cada um deles. Nesse sentido, aqui deveria surgir o papel de guia turístico local. Não deveria existir uma equipa de guias turísticos distribuídos pelos concelhos, conhecedores da sua Região, que recebam esses visitantes e lhes mostrem que de facto o Douro é vivo e não só aquela “moldura” que vêem dos barcos? JPS – Exactamente. Actualmente já existem algumas escolas profissionais que estão preparadas para ministrar cursos de Turismo e a própria escola de Hotelaria e Turismo de Lamego, recentemente criada, está já a desempenhar um papel muito


O Douro Românico

importante na formação dos recursos humanos e na promoção e divulgação da nossa gastronomia. Durante muitos anos, os homens desta região andaram voltados de costas para o rio, neste momento olha-se para o rio como uma fonte de grandes potencialidades e olha-se para o rio, não como factor de divisão entre os concelhos na margem esquerda e da margem direita, mas antes como elo de ligação entre os vários municípios. Desta maneira, tenho também defendido desde sempre a unidade desta região constituída por 23 municípios, que se encontra espartilhada e dividida por quatro distritos: Vila Real, Bragança, Viseu e Guarda. No século XXI isto não faz sentido nenhum. Já se tem falado muito na extinção dos distritos e eu sou defensor dessa extinção de forma a arrumar esta região numa unidade sólida, consistente e com um futuro promissor sustentável à nossa frente. Considera então que o Douro teria muito a ganhar com o processo de regionalização? JPS – Sim, eu sempre defendi a regionalização. Infelizmente, há muita gente em Lisboa com um certo peso político que tem uma visão centralista do nosso país mas eu na altura do referendo defendi a regionalização e estou convencido que se teriam dado já passos muito importantes no desenvolvimento destas regiões do interior se o referendo primasse pela defesa da regionalização. Quero acreditar que mais tarde ou mais cedo, e quanto mais cedo melhor, a regionalização seja de facto uma realidade, para bem das zonas do interior e para bem de todo o país porque estamos num país fortemente desequilibrado, quase diria a inclinar-se para o mar, uma vez que é no litoral que se concentra a maior parte da população e das infra-estruturas que criam riqueza, deixando despovoados os concelhos deste rectângulo que estão situados no interior.

Para trazer os visitantes ao interior é também necessária a feitura e promoção de actividades e eventos. Que iniciativas tem promovido a Câmara Municipal de Tabuaço? JPS – Nós temos um respeito muito grande pelas tradições da nossa população e portanto a Câmara Municipal tem vindo a apoiar a realização das festas tradicionais em cada uma das freguesias que são cada vez mais admiradas pelos visitantes. Em Tabuaço, propriamente dito, temos feito os festejos de S. João, de uma forma modesta mas é uma altura em que realmente se concentram nesta vila alguns milhares de pessoas. Temos realizado também a Festa das Vindimas, já mais junto ao rio Douro. Em conjunto com outros municípios temos feito meias maratonas de atletismo, temos apoiado eventos culturais com a vinda de grupos, temos apoiado as nossas Associações Culturais e Desportivas. De maneira que, começa a sentir-se uma componente cultural que agrada e que cativa a permanência de pessoas nas nossas terras e é isso que nos convém.

Às pessoas que ainda não conhecem Tabuaço: Venham ao Douro, procurem a foz do rio Távora e subam estas encostas muito bonitas, cheias de vinhedos e olivais e conheçam de perto todo este património cultural edificado existente no nosso concelho. Acima de tudo, venham gozar da influência mágica da paisagem e venham relaxar, viver, respirar ar puro e reconfortar o corpo e o espírito em terras que sendo ainda muito desconhecidas, têm a matriz da aventura e da qualidade. É este o convite que a Câmara de Tabuaço faz a todas as pessoas de bom gosto.


Douro Azul

DouroAzul amplia aposta no Douro Após registar, em 2007, um crescimento de 400 mil euros nas receitas, o que se traduz num aumento de 20% na facturação, a DouroAzul redefiniu a sua estratégia, apostando no reforço da oferta em cruzeiros no Douro e abandonou, para já, o projecto de expansão para a Amazónia. É o regresso às origens do maior operador turístico duriense, que transporta uma média de 150 mil passageiros por temporada, de Março a Novembro, numa altura em que se pretende atingir resultados líquidos positivos, objectivo que seria incompatível, para já, com os custos envolvidos nas duas travessias do Atlântico exigidas pelo investimento no destino brasileiro. O abandono do negócio da hotelaria, com a alienação do Vintage House Hotel, Douro Marina Hotel e Solar da Rede para o empresário Carlos Saraiva, medidas tomadas em sintonia com os diversos accionistas da DouroAzul, é outro dos marcos da nova política empresarial, de acordo com a qual se perspectiva, ainda, a reestruturação da frota e aquisição de novas embarcações. É neste contexto e na sequência de uma proposta irrecusável do operador americano Amadeus Waterways, que o Algarve Cruiser, até recentemente acostado, como barco-hotel, em Lisboa, foi reconduzido para o rio Douro. Aqui, rebaptizado como Douro Cruiser, a sua utilização visa atrair mais passageiros internacionais e aumentar o número de dormidas. O Algarve Cruiser e o Douro Queen, barcos iguais, adquiridos em 2004, têm 78 metros de comprimento e uma velocidade que atinge os 12 nós. As embarcações têm 65 cabines, das quais, 38 com uma varanda privativa, no upper deck e 27 com janela panorâmica, no main deck. Todas têm casa-de-banho privativa, vista para o exterior e duas camas que podem estar separadas ou juntas. Nas áreas públicas estão o restaurante, o lounge bar e o lobby com a recepção. No sun deck há um bar, piscina e dois jacuzzis. São os maiores de uma frota com 11 embarcações, que começou a ser construída em 1994, ano da fundação da Ferreira & Rayford Turismo, Lda.,


Douro Azul

com a aquisição do barco VistaDouro. Dois anos mais tarde, com a constituição da Douro Azul Sociedade Marítima Turística, Lda., chegou a embarcação Princesa do Douro. A internacionalização do leque de clientes levou à compra, em 1996, do Alto Douro, um barco-hotel com capacidade para alojamento de 48 passageiros. Até 2003, foram adquiridos o Invicta, Cenários do Douro, cópia dos históricos barcos rabelos, Douro Azul, Milénio, Corsário, barco típico à vela e o iate Enigma, com capacidade para albergar 6 pessoas em 3 cabines duplas. Foi sempre política da empresa aliar aos cruzeiros fluviais tours em terra, para permitir ao turista uma visão tão global quanto possível da região, complementando as viagens com transportes terrestres via comboio histórico, autocarro de luxo ou viatura privada. A inclusão de visitas a quintas da região tem suscitado um interesse na procura de um turismo diferente. A busca pela inovação levou à criação, em 2003, da Helitours, empresa exclusivamente dedicada a voos de helicóptero, com ponto de partida e de chegada no heliporto instalado na zona de Massarelos, junto ao rio Douro, no centro da cidade do Porto. A DouroAzul tem programas de dois e três dias, com alojamento em casas de turismo de habitação e hotéis de charme da região, como a Casa de Sto António de Britiande, o Vintage House Hotel e a Pousada Solar da Rede, entre outros. Os cruzeiros diários, com subida ou descida do Douro, são outra opção a ter em conta, a par dos pacotes de fim-de-semana, cruzeiros de dois dias com passeios até ao Pocinho ou à Régua. Os cruzeiros em barco-hotel são a maior aposta da empresa, com programas de três ou sete noites. O cruzeiro de uma semana, por exemplo, tem passagem pela Régua, Pinhão, Barca dʼAlva, Veja Terron e Bitetos e ainda passeios opcionais a Salamanca, ao Palácio de Mateus, Figueira de Castelo Rodrigo e Lamego. As estadias a bordo são animadas por espectáculos de flamenco e música portuguesa. Para 2008, foram criados pacotes especiais de três e quatro dias, para os fins-desemana prolongados de Maio, Junho, Agosto, Novembro e Dezembro. Programas para grupos, o bilhete Yellow City Cruises, que alia o cruzeiro a um passeio de autocarro panorâmico pelo Porto, cruzeiros temáticos, o cruzeiro das 6 pontes, viagens de helicóptero e o iate de luxo são outros produtos disponibilizados pela DouroAzul. Orientação para o cliente, honestidade, espírito de equipa, profissionalismo, rigor e disciplina são os valores da empresa que pretende disponibilizar meios em terra, água e ar, capazes de exceder as expectativas do cliente na descoberta do património.

DouroAzul Cruzeiros diários: Tel. +351 22 340 25 00 reservas@douroazul.pt Cruzeiros em Navio-hotel: Tel. +351 22 340 25 03 barcohotel@douroazul.pt

Helitours – Douro Heliturismo: Tel. + 225 432 464 helitours@dourozul.pt


Da maturação do vinho ao rejuvenescimento do ambiente…

Rolhas de cortiça: Um fiel amigo do ambiente O sector florestal português, representa uma riqueza estratégica com exigências cada vez mais evidentes, no que diz respeito à sua preservação, protecção e desenvolvimento sustentável. A floresta desempenha um papel muito importante no que se refere às questões sociais, económicas, ambientais e culturais, pelo que urge optimizar o seu contributo para o desenvolvimento sustentável da sociedade, sobretudo no desenvolvimento das zonas rurais, fornecimento de recursos renováveis e protecção do ambiente local e global.

Rolhas de cortiça são amigas do ambiente A produção de uma rolha de cortiça emite para a atmosfera quatro vezes menos CO2 do que a produção de uma cápsula de alumínio. Esta foi a principal conclusão de um estudo desenvolvido pela empresa Cairn Environment sobre o impacto da produção de vedantes para o meio ambiente. Segundo o estudo, a “pegada de carbono” (carbon footprint) em quilogramas por tonelada é de 10kg de CO2 por tonelada para as cápsulas de alumínio e de 2,5kg para rolhas de cortiça capsuladas. O que faz com que a produção de uma rolha de cortiça seja mais ecológica do que a produção de um vedante de alumínio. Um recente estudo publicado pela Assolegno (Associazione Nazionale delle Industrie Forestali e della Lavorazione del Legno) – associação italiana relacionada com a floresta - indica que ao consumir 15 mil milhões de garrafas vedadas com rolha de cortiça por ano é possível reter a poluição provocada por 45 mil viaturas/ano que

circulem 15 mil quilómetros/ano cada. Segundo a Assolegno, uma viatura emite 170g de CO2 por km e uma rolha de cortiça é capaz de reter 7,9g de CO2, o que equivale, em média, ao dobro do seu peso. O que quer dizer que o consumo de 15 mil milhões de rolhas/ano permite a retenção de 118500 toneladas de CO2/ano. Estas conclusões tiveram por base a análise do ciclo de vida de uma rolha de cortiça, tendo sido analisado todos os passos da sua produção desde a floresta até ao produto final. Ainda sobre esta temática, o investigador do Instituto Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial (INETI), Luís Gil, acrescenta os seguintes dados: considerando a recomendação médica para um adulto de beber diariamente cerca de dois copos de vinho/dia (2,5 dl de vinho/dia), seria consumida uma garrafa de vinho (0,75 l)/pessoa em cada três dias, o que corresponde a 122 rolhas/ano; este número de rolhas representa 1183,40 g CO2/pessoa/ano, o que por sua vez corresponde a cerca de 7km percorridos por um veículo médio/pessoa/ano. O montado de sobro contribui, ainda, para a fixação de cinco por cento das emissões totais de CO2 em Portugal. Segundo um estudo do Instituto Superior de Agronomia (ISA), que analisou a Produção Líquida do Ecossistema (PLE) – indicador que mede a capacidade de sequestro de CO2 na floresta -, o montado de sobro português representou, em 2006, um sumidouro de cerca de 4,8 milhões de toneladas de CO2. Atendendo que as emissões totais de Portugal rondam os 85


Da maturação do vinho ao rejuvenescimento do ambiente…

milhões de toneladas, o montado é responsável pela fixação de cinco por cento das emissões totais.

Preservação do ecossistema A indústria de cortiça garante, ainda, a sustentabilidade do montado de sobro e contribui para a preservação das espécies da fauna e flora que aí habitam. O montado de sobro e o ecossistema agro-silvo-pastoril que coexiste em seu redor assumem uma importância crucial, na medida em que contribuem para a preservação do ambiente, sustentam a fauna e flora existente e ainda conseguem assegurar a vida das populações em zonas de clima hostil e de solos pobres.

Rolhas de cortiça 100 % recicladas As rolhas de cortiça podem, ainda, ser recicladas e reutilizadas. As rolhas usadas são trituradas e aproveitadas para o fabrico de outros produtos aglomerados, não podendo, no entanto, ser aproveitadas para a indústria vinícola. Existem um conjunto de iniciativas em todo o mundo que têm dado corpo a esta ideia. Como exemplo temos em Portugal a Câmara de São Brás de Alportel que tem espalhado os “Rolhões” pela cidade para a recolha das rolhas de cortiça.

Indústria de cortiça é eco eficiente É na indústria de cortiça que o lema “nada se perde tudo se transforma” se aplica na perfeição. Ao longo de todo o processo produtivo todos os desperdícios resultantes do fabrico de rolhas naturais são transformados em produtos úteis e de excelente qualidade. Desde rolhas técnicas e aglomeradas, a painéis para pavimentos e revestimentos, artigos decorativos para o lar e escritório, peças de arte e design, solas para sapatos, aplicações no sector automóvel, aplicações nas indústrias militar e aeroespacial, produtos químicos para fins farmacêuticos, entre muitos outros. Até mesmo o pó de cortiça é utilizado na co-geração de energia eléctrica.

Por que o Vinho tem um topo É consenso entre os grandes produtores, precisamente os “pais” dos melhores vinhos, o uso das rolhas de cortiça, especialmente as produzidas em Portugal, onde este produto continua a ser tido como o mais adequado. Talvez porque qualquer “pai” quer sempre o melhor para o seu filho, a tendência tem mesmo vindo a ser exportada para outros países, ao que não são alheias as campanhas de marketing desenvolvidas em torno da cortiça portuguesa. Mas são essencialmente os factores técnicos que explicam o contributo que a rolha de cortiça presta para a maturação e potenciação das qualidades de um vinho. O vinho é um alimento natural e perecível. Se deixado exposto ao calor, luz, vibrações ou flutuações de temperatura e humidade, ele certamente vai perder qualidades. Quando devidamente armazenado e engarrafado, o vinho não só mantém as suas qualidades, como melhora e cresce em aroma, sabores e complexidade.

Associação Portuguesa de Cortiça (Apcor) A Apcor tem como missão representar e promover a indústria portuguesa da cortiça, representando cerca de 300 empresas, que no seu conjunto são responsáveis por cerca de 80% da produção nacional total e 85% das exportações de cortiça. É também responsável pelo desenvolvimento de acções de promoção e valorização da cortiça através da realização de iniciativas de carácter nacional e internacional, disponibilizando, ainda, um centro de informação.

A Floresta Portuguesa em números A área florestal no nosso país atinge cerca de 38 por cento do território nacional (cerca de 3349000ha), o que em termos económicos representa 3 por cento do VAB (valor acrescentado bruto: cerca de 3100milhões de euros). Em termos sociais, garante 3.3% da população activa (cerca de 160000 trabalhadores) e acresce ainda uma importância no comércio externo nacional. Todos estes aspectos reforçam a necessidade de se efectuarem estudos, planos, projectos de desenvolvimento com sucesso prático, para minimizar as lacunas, dificuldades e insuficiências, que continuam a caracterizar este sector.


Quinta da Pacheca

Charme à mesa Vinhos com história A Quinta da Pacheca é uma das mais conhecidas propriedades do Douro, tendo sido das primeiras a engarrafar vinhos com sua marca. É num documento datado de Abril de 1738 que pela primeira vez se faz referência à Quinta chamada “da Pacheca” por ser sua proprietária D. Mariana Pacheco Pereira. Nessa altura, a Quinta era um conjunto de vinhas adquiridas através dos tempos aos conventos de Salzedas e de S. João de Tarouca. A relação dos Serpa Pimentel com o Douro remonta também ao séc. XVIII, altura em que a família adquiriu a Quinta de Vale de Abraão, espaço privilegiado de lazer para a aristocracia da época, mas desenquadrada do contexto vinícola associado à Pacheca. Foi só em 1903 que D. José Freire de Serpa Pimentel, que nutria grande paixão pelo vinho, decidiu comprar também a Quinta da Pacheca, para se dedicar com grande empenho à sua produção. No ano imediato à compra, deu-se início a uma primeira grande reconstituição dos vinhedos. De modo inovador para a época, as vinhas novas foram desde logo plantadas por castas em talhões, sendo separados por ruas largas para melhor facilidade dos trabalhos. Em 1916 dá-se um novo passo com a construção de novos lagares e armazéns. Estes lagares, onde ainda hoje são vinificados os tintos da Pacheca, são em número de 8 e impressionam pela sua capacidade e imponência. O último grande incremento foi dado por Eduardo Mendia de Freire de Serpa Pimentel, que foi reconstruindo as vinhas mais velhas. Com a colaboração de seu filho, o enólogo José Van Zeller de Serpa Pimentel, iniciou a comercialização dos vinhos de Denominação de Origem DOURO (DOC) produzidos na Quinta da Pacheca.


Quinta da Pacheca

Recentemente, a Quinta de Vale de Abraão foi também replantada com 17 hectares de vinha tendo-se recorrido a enxertos prontos totalmente certificados/seleccionados e aos mais modernos métodos de plantação. Hoje, uma nova geração está à frente dos destinos da Quinta da Pacheca, Maria Serpa Pimentel (Enóloga), Catarina Serpa Pimentel (Enoturismo) e José Serpa Pimentel (Vendas Mercado externo e Nacional assim como comunicação e imagem). Enquanto empresa de cariz vincadamente familiar, a Quinta da Pacheca é denominada de produtor engarrafador de vinhos de Quinta, todos os anos com produções limitadas de Vinhos do Douro de excelente qualidade e Vinhos do Porto somente de categorias especiais.

Produtos/Marcas Quinta da Pacheca Branco DOC DOURO Quinta de Vale de Abraão Tinto DC DOURO Quinta da Pacheca Tinto DOC DOURO Quinta da Pacheca Tinto Reserva DOC DOURO Quinta da Pacheca Tawny Quinta da Pacheca LBV PORT Quinta da Pacheca VINTAGE PORT

Enoturismo A Quinta da Pacheca pode ser visitada a qualquer altura, pois está aberta diariamente, oferecendo a possibilidade de efectuar provas de todos os Vinhos produzidos na Pacheca e o deleite das refeições (almoços/jantares) sempre com marcação prévia.

Contactos Quinta da Pacheca, Lda Quinta da Pacheca – Cambres 5100-424 LAMEGO Telef: +351 254 313 228 Fax: +351 254 321 359 E-mail: enoturismo@quintadapacheca.com www.quintadapacheca.com


Apitil - Associação pela Infância e Terceira Idade de Lamego

A nobreza da infância e terceira idade duriense Há 26 anos surgia em Lamego uma resposta emergente de índole social, destinada a populações extremamente carenciadas. Na altura, fruto de um projecto municipal, constatava-se a necessidade de oferecer um abrigo dotado de condições mínimas de dignidade humana a pessoas que faziam da rua o seu porto de abrigo. Eram 11 os destinatários da missão, servidos por seis funcionários… E é então que surge na história da Associação pela Infância e Terceira Idade de Lamego um marco que viria a catapultála em termos de dinâmica e abrangência: a pedido da cidade, Amândio Fonseca, então vice-presidente da autarquia, tal como hoje, não resiste e aceita o desafio de liderar aquela que é hoje uma das mais proeminentes e proactivas IPSS do Douro e assume o leme de um projecto que, hoje, serve “apenas” 400 idosos e 500 crianças, dispondo de centro de dia, apoio domiciliário, creche, ATL, jardim-de-infância e sala de estudo onde trabalham 156 funcionários. E é ver duas gerações extremadas pela idade mas unidas pelo convívio e sapiência de quem soube unir em vez de excluir Amândio Fonseca (AF) – A Apitil foi fundada há 26 anos, era eu vicepresidente da Câmara Municipal de Lamego, como hoje sou. Na altura, constatámos que existiam pessoas a dormir na rua, desamparadas, e começámos a trabalhar num projecto que visava a requalificação das actuais instalações, com o intuito de aqui instalar um centro de dia para idosos. Sabíamos que havia que prestar apoio à comunidade carenciada das condições mais básicas de vida. Estamos a falar de uma Região que, já há 26 anos atrás, apresentava um potencial turístico enorme, nós próprios entendíamos que qualquer desenvolvimento que pudesse vir a beneficiar o Douro teria que passar inevitavelmente por uma aposta na oferta turística e de lazer. Amândio Fonseca

Nessa altura, as carências e necessidades dessa população idosa e desamparada seriam, certamente, diferentes das que têm hoje os utentes da Apitil… AF – Exactamente! Na altura, a nossa missão prioritária passava por tirarmos as pessoas miseravelmente abandonadas da rua, colocando-as num local mais digno para a vida humana. E devo dizer que quando eu entrei em cena, havia uma dinâmica muito fraca no que concerne à necessária intervenção para suprir aquelas que eram as carências evidenciadas a outros níveis pela sociedade lamecense. Por isso, a determinada altura, constatei que havia chegado a hora de prestar a minha ajuda. Já na altura, era considerado uma pessoa populista, até porque conheço e trato as pessoas pelos seus próprios nomes. E quando a grande maioria dos 122 sócios que a Apitil tinha na altura me pediu encarecidamente que começasse a liderar os desígnios da instituição, porque conheciam o meu trabalho, disponibilidade e espírito de missão, ao serviço da Câmara Municipal, fui incapaz de declinar o convite. E, sendo honesto, devo reconhecer que alguns anos de ter enveredado por esta aventura, não estava nos meus horizontes nem me parecia ser do que mais gostaria de fazer na vida vir a liderar uma instituição particular de solidariedade social. Na altura, havia sete funcionários ao serviço da instituição e 11 idosos a frequentarem-na e uma lista de espera de 38. E embora estas não evidenciassem a mesma situação miserável dos primeiros, não fazia, no meu entender, qualquer sentido que não fizéssemos nada por aquelas pessoas mais carenciadas e debilitadas que vagueavam pelas ruas de Lamego. E fruto do estabelecimento de contactos que comecei a efectuar junto da Segurança Social, do Instituto do Emprego, da Câmara Municipal e de alguns empresários, consegui que o espaço físico de que dispúnhamos fosse melhorado, repartido por uma sala de jantar, uma cozinha, escritório e instalações sanitárias com toda a dignidade. Isso foi conseguido graças ao contributo, na maior parte, da Câmara Municipal e às ajudas de alguns empresários. Estabelecemos protocolos com a Segurança Social para a admissão de idosos, muito porém, tal acontecesse invariavelmente a conta gotas. E ainda hoje, seja porque o País não pode ou porque o Estado não tem dinheiro, a Segurança Social, embora conheça a realidade – até porque as instituições lhe dão eco da mesma – anda muito afastada dos seus reais deveres e obrigações. E portanto, fui eu, calcorreando juntamente com um grupo de pessoas da direcção e essencialmente com alguns funcionários que já cá estavam e tinham alguma experiência, que consegui contribuir para que essas pessoas carenciadas pudessem viver com mais dignidade e seriedade e os próprios funcionários da instituição pudessem prestar os seus serviços com mais equilíbrio. Aprendi muito com esses funcionários, com os utentes e os seus familiares e, hoje, falamos de 400 idosos, 500 crianças e 156 funcionários. Esses 400 idosos que refere beneficiam também de apoio domiciliário? AF – Uma grade parte sim. Aliás, devo dizer que é precisamente esse o serviço que mais me orgulha e que mais gosto que a instituição preste. Muito embora o centro de dia traduza uma alegria fantástica que pode ser visitada e testemunhada diariamente, o apoio domiciliário tem-se afirmado pela positiva. O idoso mantém-se no seu habitat, na sua casa, recebe duas funcionárias que lhe prestam serviços de higiene pessoal e da habitação, dão-lhes carinho, dão-lhes qualidade de vida, diminuindo os efeitos da sua carência de autonomia e suavizando o sofrimento da própria família que, não raras vezes, nem sequer dispõe de tempo para cuidar dos seus idosos. Estamos a falar de cenários contraditórios que, só com uma instituição que preste esses cuidados intensivos, permite algum alívio aos familiares dos idosos, que sentem que os seus próximos são bem tratados. E nós sentimo-nos bem porque testemu-


Apitil - Associação pela Infância e Terceira Idade de Lamego

nhamos a alegria, o bom aspecto do idoso e o carinho que retribuem ao que lhes é dado. E temos exemplos extraordinários, como o de uma senhora cega e muda, que vivia em condições miseráveis, comia a meias com os ratos com quem dividia a sua casa, e a quem, à sexta-feira a nossa carrinha ia fornecer alimentação. Quando começámos a acompanhar a sua situação mais de perto, concluímos que essa senhora, à segunda-feira, já não tinha comida, pois eram os ratos que comiam praticamente tudo. Não tinha água em casa… E quando ouvia a viatura da Apitil a 4 quilómetros de distância da sua casa, ela abria a porta. E a sua vizinha adivinhava que a carrinha estava a chegar… E bastava o som do bom-dia das funcionárias para a senhora, com um largo sorriso nos lábios, as reconhecer de imediato e tratar pelos nomes. Hoje, essa senhora está bem, fizemos obras na sua casa, vem à rua, veste bem e convive, na medida do possível com as suas vizinhas. Que serviços presta actualmente a Apitil? AF – No que concerne aos idosos, possuímos o centro de dia onde são prestados cuidados de alimentação, vestuário, banho, de enfermagem e médicos. Além destes, como já referi, disponibilizamos o serviço de apoio domiciliário e, numa vertente de animação e cultural, promovemos diversas iniciativas que marcam a tradição da Região, produzidas pelos idosos, como são os casos dos Reis, do Carnaval, da Páscoa e os sistemáticos passeios mensais que fazemos pelo País fora. Temos ainda um grupo coral, o Chá de Cidreira que, durante essas viagens promove animação extra. Acima de tudo, tentamos impedir que as pessoas caiam naquele estado de velhice, isolado e inerte. Promovemos, sempre que possível a sua autonomia, tentamos que passeiem e convivam pelas praças e ruas da cidade, entre as refeições e os períodos de actividades que frequentam no centro de dia e a verdade é que esses idosos, quando não aparecem há uns dias, sentem saudades do centro e dos colegas… E, para usufruir de todos estes serviços, um idoso que tenha uma reforma digna, paga apenas 125 euros. Se estiver apenas no centro de dia e tiver possibilidades, paga cerca

de 80 euros. Quanto à infância, possuímos um ATL, um jardim-de-infância, creche e sala de estudo. Mesmo as crianças que estudam noutros locais que não asseguram a sua permanência no horário pós escolar, vêm para cá até os seus pais as poderem vir buscar. Estamos a falar em idades altamente sensíveis, desde o bebé com cinco meses à criança de seis anos e, como tal, elegemos critérios altamente exigentes relativamente aos quadros que asseguram a prestação de serviços de educação. E é fruto dessa qualidade percebida que os meus três netos estiveram aqui e dois deles ainda cá estão…


Chef Hélio

Um encontro de prazeres

Não entendo uma boa refeição sem um bom vinho, a combinação das iguarias provadas com o vinho seleccionado é essencial para uma refeição verdadeiramente surpreendente e única. A escolha pode ser do vinho e depois da comida ou da comida e depois do vinho, o essencial é que essa combinação seja harmoniosa e que dela resulte um sabor final equilibrado e agradável em que todos os aromas e sabores se encaixem fortificando sensações e motivando-nos para novas sensibilidades. Por vezes assisto a escolhas de grandes vinhos encorpados com bouquets fantásticos acompanhados por pratos tão ligeiros e tão simples que me dá sempre a impressão de estar ouvir o Pavarotti acompanhado por um realejo. A ideia de um vinho sempre tinto para acompanhar carne, e de um branco para acompanhar peixe, resulta por vezes de uma falta de conhecimento e de estereótipos criados ao longo de anos. Uma cultura…de desconhecimento… leva por vezes à escolha de vinhos tintos em detrimento dos brancos e dos maduros em relação aos verdes, privando-nos de novas aventuras gastronómicas limitando no tempo e à mesa os novos rumos do conhecimento pantagruélico. Haverá algo mais agradável que um vinho verde branco acompanhado por uma salada de gambas com sapateira recheada, ou de um bacalhau assado na brasa acompanhado por um vinho verde tinto? Para mim não há. Qualquer profissional de cozinha e restauração deve ter conhecimentos das qualidades de vários vinhos e conhecimento profundo do Portugal vinhateiro nas suas diferenças e particularidades. Em cada região é legitima a defesa dos seus produtos, da mesma forma como se defende (ou devia) os monumentos e a paisagem. A gastronomia é o monumento, não edificado, mas é paisagem humanizada por mãos que dão vida e sabor ao trabalho do homem e ao fruto da terra. Desprezar este conhecimento é negar uma cultura e um Povo. Quem nos procura vindo de outra região ou de outro país está sempre à espera de ser surpreendido, e surpreender alguém muitas vezes passa por lhe dar a provar um prato que respeite a região onde nos encontramos, acompanhado por um vinho que sem olhar a padrões convencionais seja uma descoberta de sabores que perdure na memória por muito tempo. Quantas viagens fazemos por um prato que guardamos na memória olfativa e palatativa, muitas

vezes acompanhada pela lembrança da paisagem e da simpatia de quem nos acolhe. Quantas vezes nos lembramos de um momento da nossa vida pela fragrância que sentimos ou pelo sabor sentido no meio de tantos outros, é verdade que a memória guarda pedaços de sensações havidas num passado mais ou menos longínquo e por elas somos capazes de fazer viagens e percorrer estradas sem fim para saciar não a fome, mas os desejos e emoções. Quantos quilómetros fariam para de novo sentir os aromas e sabor único da culinária da infância da comida cheirosa da mesa da casa dos avós? Preservar os pratos tradicionais de cada região enriquecendo-os com os vinhos e dignificando as suas escolhas, devem ser sempre uma tarefa consistente de um profissional de cozinha, não entendo um cozinheiro que não se preocupe com o acompanhamento da refeição que elaborou, será sempre uma falha grave, uma vez que uma refeição completa e verdadeiramente gastronómica é aquela em que desde a decoração da mesa, à qualidade dos materiais usados são tratados com cuidado e de forma elevada. Podemos fazer dois tipos de escolha: - Partir dos sabores e aroma do vinho e de seguida elaborar a iguaria a servir . - Dos pratos seleccionados para o menu escolher os vinhos para os acompanhar. Quer para uma solução quer para outra é necessário um profundo conhecimento dos vinhos e o resultado deve ser harmonioso e sempre pensado no resultado final de toda a ementa tendo o cuidado de não cair em exageros, uma refeição equilibrada é sempre um crescendo de sabores e os últimos vinhos devem ser os mais aromáticos e intensos para que perdurem na boca e na memória. Têm os senhores enólogos uma responsabilidade acrescida para as finanças do país e o bem-estar da população em geral, pois segundo Montesquieu que afirmava “ Dai-lhes bons vinhos e eles vos darão boas leis “, faz pender sobre as vossas cabeças a responsabilidade do progresso nacional, ao que se depreende que se os vinhos são bons os nossos deputados, na sua maioria, são abstémicos. Montesquieu: “Dai-lhes bons vinhos e eles vos darão boas leis.” O vinho é um complemento saudável para uma refeição e não para matar a sede, para isso temos a água que deve sempre presente do princípio ao fim. Lembro aqui uma frase de Cardoso Mata em um dos seus poemas: Da vida sábia e sem perda Melhor exemplo não topo Que um livro na mão esquerda E na mão direita um copo. E com esta verdade acrescida de uma boa culinária penso ter criado apetite par uma boa refeição, sempre em boa companhia...



NC/F&C