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Como Utilizar a Imprensa nas Escolas Paulo Faustino | Rui Martinho | Eloir Rodrigues | Cรกtia Candeias


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Introdução Este trabalho surge com o objectivo de reunir e disponibilizar aos professores, especialmente os do ensino básico e secundário, um importante conjunto de informações acerca da utilização do jornal na sala de aula, como ferramenta auxiliar no enriquecimento do projecto pedagógico das escolas e na formação de cidadãos críticos, autónomos e com capacidade de intervenção social no meio em que estão inseridos. A ideia nasce da constatação de que a leitura e/ou produção de jornais nas escolas é uma proposta que tem vindo a ser aceite e praticada em várias partes do mundo, motivada por uma enorme preocupação das empresas jornalísticas, de entidades que representam o sector da imprensa e dos governos, em desenvolver o hábito de leitura de jornais entre os jovens, como meio de garantir a sobrevivência do meio impresso e, ao mesmo tempo, promover a cidadania, seguindo uma postura de responsabilidade social. Inserida no contexto da Educação para os Media – uma área que procura aproximar os campos da Comunicação e da Educação, no sentido de despertar o espírito crítico dos estudantes em relação ao papel dos meios de comunicação na sociedade contemporânea – a utilização do jornal na escola é uma realidade presente no sistema educacional português e que, nos últimos anos, também passou a ser estimulada através de projectos específicos, desenvolvidos tanto pelo poder público, como pela iniciativa privada. Comparado com outros países, no entanto, Portugal está ainda a dar os primeiros passos no sentido de desenvolver a leitura do jornal na sala de aula e fazer com que, ainda nos bancos da escola, os alunos percebam a importância dos media na sociedade e aprendam a


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posicionar-se em relação a eles. Isto, não obstante o facto de os media serem contemplados no programa curricular português do 1º e 2º ciclos do Ensino Básico, como objecto de estudo na disciplina de “Estudo do Meio” e como forma de proporcionar a aprendizagem de outros conteúdos curriculares1. Nos Estados Unidos, o The New York Times foi pioneiro nesta área, lançando o seu programa de jornal na educação logo em 1932. A ideia foi-se disseminando ao longo dos anos seguintes e, na década de 70, mais de 350 jornais americanos já contavam com professores que funcionavam como assistentes a implementar o programa jornal na escola. Hoje, cerca de 700 títulos patrocinam programas do género. Na Suécia, Dinamarca e Noruega, 100% dos jornais têm programas educacionais. Na Ásia, as iniciativas de introdução da leitura de jornal na sala de aula começaram em 1989, no Japão.Também na América do Sul, Brasil, Argentina e Chile, destaque com os seus programas Jornal na Educação. Perante este cenário, o primeiro capítulo deste livro procura chamar a atenção do professor, bem como de jornalistas e outros profissionais envolvidos nas áreas de Educação e Comunicação Social, para o contexto mediático em que vivemos na sociedade contemporânea. O objectivo é despertar os alunos para a necessidade de uma reflexão mais aprofundada acerca do papel que os media passaram a desempenhar na vida do homem moderno, especialmente desde o desenvolvimento tecnológico. Este capítulo trata da importância actual dos media, centrando-se na forma como os meios de comunicação social passaram a rivalizar com a escola na formação cultural dos cidadãos. O texto discorre sobre questões como a interferência dos media na constituição das identidades sociais; o jornalismo como forma de conhecimento e a ambivalência dos media (de um lado o seu carácter cultural e, do outro, o comercial). O primeiro capítulo convida ainda o leitor a transitar pela área da inter-relação entre Comunicação-Educação, abordando aspectos 1 Tavares, Clara Ferrão, Os Media e a Aprendizagem , Universidade Aberta, Lisboa: 2000, pp. 3-6.


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como a decadência das instituições tradicionais, de entre as quais a “Escola”, e identificando pontos de convergência entre essas duas áreas, tendo em vista, inclusive, o facto de vivermos numa cultura de massas. Também neste capítulo inicial é introduzida a discussão sobre a emergência do campo da Educomunicação, que nasce justamente da aliança dos campos da Educação e da Comunicação. Nesta secção, o leitor é convidado a fazer um passeio por algumas das teorias educacionais que ajudaram a constituir a base conceptual do campo da Educomunicação, que tem a chamada “Educação para os Media” como uma das suas quatro áreas de actuação. O segundo capítulo aprofunda a discussão sobre a Educação para os Media, debatendo a importância actual dos media e a necessidade de se levar o jornal para a sala de aula. Num primeiro momento, este capítulo apela ao desenvolvimento do espírito crítico dos cidadãos em relação aos media, defendendo que os indivíduos têm capacidade para agir em relação aos efeitos dos meios de comunicação social a vários níveis: na constituição das identidades sociais, na produção do conhecimento, na difusão cultural e na mediação simbólica. A formação para a cidadania e a possibilidade de se formarem leitores com autonomia são outros aspectos abordados. Num segundo momento, este capítulo analisa igualmente o contexto da Educação para os Media em Portugal, tendo em conta os baixos índices de leitura de jornais no país e destacando o projecto “Público na Escola”, do jornal “Público”, como iniciativa pioneira e actualmente quase exclusiva de incentivo à utilização de jornais na sala de aula. O método de trabalho adoptado pelo “Público na Escola” é discutido, neste capítulo, tomado como termo de comparação para a discussão posterior de outras iniciativas de jornal na educação desenvolvidas fora de Portugal. Este capítulo apresenta um breve historial dos programas de jornal na educação pelo mundo, destacando, inclusive, a preocupação da Associação Mundial de Jornais em fomentar essas iniciativas, como forma de aumentar os indicadores de leitura da imprensa.


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Em destaque no segundo capítulo encontra-se o relato da experiência do programa “Cidadão do Futuro”, desenvolvida no Brasil e que surge como um modelo de estratégia de inserção de jornais na educação. Criado há apenas quatro anos, o programa cresceu rapidamente, através de parcerias entre o poder público e a iniciativa privada, e há pouco mais de um ano resultou na fundação da ONG (Organização Não Governamental) “Cidadão do Futuro – Centro de Promoção à Educação e à Cultura”. Este programa foi objecto de estudo de uma investigação académica realizada por este autor em 2002. Os resultados verificados junto de estudantes, escolas, professores e do próprio jornal que criou o programa – o Diário dos Campos – foram surpreendentes. A forma como o programa foi estruturado e viabilizado, bem como os seus resultados, são analisados neste capítulo. Já o terceiro capítulo aborda de forma mais específica a utilização do jornal na sala de aula, destacando aspectos como o enriquecimento do projecto pedagógico das escolas; a necessidade de articulação entre escola, media e sociedade; e a falta de preparação do professor para ensinar com o jornal. São reforçadas algumas questões fundamentais da proposta de educação para os media, sobretudo no que se refere à utilização do jornal na educação. Aborda-se, nomeadamente, a forma como a Educação para os Media pode ser introduzida no currículo escolar, com base em múltiplas experiências pedagógicas realizadas em vários países. Perante as imensas possibilidades que o jornal abre aos professores, enriquecendo o processo de aprendizagem dos alunos, o quarto capítulo surge com o objectivo de oferecer um conjunto de informações, orientações e sugestões sobre a forma como os jornais podem ser utilizados na sala de aula. O capítulo é dirigido especialmente aos professores e outros profissionais que reconhecem na aproximação dos campos da Educação e da Comunicação o caminho certo para melhorar o processo de formação das novas gerações.


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É um convite para que professores e alunos “mergulhem” nas páginas dos jornais, conhecendo melhor a sua estrutura (o que é a notícia, editorial, artigo, cartoon, manchete, lead, chamada etc) e descobrindo as diversas formas de utilizar o jornal no processo de aprendizagem. Trata-se de uma compilação de sugestões apresentadas em guias e manuais produzidos por diversos programas de jornal na educação2 e desenvolvidos por empresas jornalísticas que, ao longo do tempo, atingiram excelentes resultados, não apenas na formação de um público leitor, mas principalmente na conquista de jovens autónomos e críticos em relação às mensagens veiculadas pelos media.

Paulo Faustino

2 Consultar bibliografia.


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