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AMOR ETERNO Vivíamos na bonita cidade de Santarém numa vivenda que a mãe adorava pois em todas as divisões dava o sol. Se não era de manhã era à tarde e, talvez por isso, a mãe adorasse aquele lugar e a sua cadeira de baloiço colocada, estrategicamente, por debaixo do alpendre onde uma grande árvore, com os seus ramos frondosos, lhe dava a sombra necessária para aí poder corrigir os trabalhos dos seus alunos e trabalhar, como ela dizia, “ao som dos pássaros e ao ritmo das suas melodias suaves”. A escola onde dava aulas ficava a 10 km da nossa casa e depressa lá chegávamos, quando a mãe não se atrasava, que era quase sempre … A mãe era bonita, pelo menos para mim e para o pai que estava sempre a elogiá-la. Era baixinha e até eu era mais alto do que ela e por vezes o pai, para se meter com ela, chamava-a de “rodinhas baixas”. Tinha os olhos de duas cores pois, quando estava sol e o dia brilhante, eram de um verde muito bonito, mas quando o tempo estava escuro e a chover eram completamente cinzentos. A mãe tinha os cabelos que nem eram curtos nem compridos (chegavam-lhe à zona dos ombros) e eram ruivos, uma cor que chamava bastante a atenção e que fazia com que a sua pele, que já era muito branca, ainda parecesse mais branca. Quando saia com ela, notava que as pessoas a tratavam muito bem, pelo modo como falavam com ela e até pela forma como a olhavam. A mãe era realmente simpática e conseguia manter conversa com quem quer que fosse. E porque ela era assim, gostava que eu fosse igual, dizendo-me: “tenta pelo menos cumprimentar as pessoas” ou “não sejas antipático mostra, pelo menos, um sorriso”. Essas coisas que me irritavam muito. Eu era assim mesmo e não gostava de beijinhos nem de sorrir à toa e quanto a ser simpático, só o era com quem achava que devia ser e não porque as pessoas eram amigas ou conhecidas da mãe. A mãe chamava ao pai “amor” ou “amorzinho” conforme calhava e ele também. Às vezes até pareciam namorados, tal era a forma como se tratavam e olhavam. O pai chama-se Diogo, tem 44 anos de idade e é engenheiro de profissão. Trabalha numa grande empresa de telecomunicações e é chefe de um departamento qualquer, nessa empresa. Anda sempre cansado, devido aos 180 quilómetros que tem de percorrer e às situações problemáticas que diz que tem de resolver, todos os dias. Ao contrário da mãe, o pai é muito alto e quando vamos passar férias confundem-no sempre com um estrangeiro, pois tem os olhos muito azuis, o cabelo louro e é muito magro. Falta dizer que o pai é muito calmo, tão calmo que a mãe costumava dizer “nem que te caia a casa em cima tu perdes a paciência”. No entanto, eu já o vi bem zangado e foi há quatro anos atrás quando eu tinha oito anos. Lembro-me bem pois o pai ficou muito enervado comigo quando lhe respondi mal a um pedido que me fez. Levei umas boas chineladas e não chorei, mas aprendi a lição. O pai não grita comigo e só o faz quando está mesmo muito enervado com alguma coisa grave que eu possa ter feito. Aos fins-de-semana e quando calha, andamos juntos de bicicleta e esses momentos para mim são únicos. O pai para mim é o meu herói: sabe tudo o que lhe pergunto e é uma barra em Matemática. Entrou para a faculdade com 19 valores de média e tirou o curso de Engenharia de Telecomunicações. Eu também quero ir estudar para a Faculdade como ele e como a mãe e gostava de entrar para o curso de Medicina para poder tratar as pessoas, mas tenho de ter muito boas notas. A mãe chateava-me com isso de “ter boas notas”. Eu pensava que não era nada bom ser filho de uma professora, porque a mãe achava que as minhas notas poderiam ser melhores e exigia muito de mim, mas agora compreendo-a muito melhor e até entendo o que ela pretendia de mim. Sobre as minhas leituras a mãe não achava que “eu poderia fazer melhor” pois leio muito. Habituei-me a fazê-lo desde os seis anos quando, pela primeira vez, pedi ao pai que me comprasse um livro de aventuras do Clube das Chaves e ele pediu a opinião da mãe ao que ela respondeu “se ele quer é porque se acha capaz de o ler”. E a sua opinião foi muito importante para o pai e principalmente para mim. A mãe sabia que eu era capaz de fazer muitas coisas diferentes dos outros meninos da minha idade e talvez por isso ela fosse tão exigente comigo em quase tudo o que eu fazia. Às vezes a mãe falava de um modo que me fazia pensar que estava chateada com alguma coisa, mas não. Ela explicava que falava assim dizendo que não estava zangada, mas que era o seu jeito de falar e que não lhe levassem a mal”. Por vezes sentia-se mal disposta e muito triste e o pai explicou-me que a mãe tinha uma saúde muito frágil e que era importante que a ajudássemos. Para isso era importante não a enervar muito e termos atenção ao seu estado de saúde. Sofria do coração e foi precisamente há quatro anos atrás que a tristeza e o medo de a perder me bateu, pela primeira vez, à porta e me fez sentir terrivelmente mal. Teve o início de um enfarte e nós assustámo-nos muito. Por isso e a partir desse dia tentei não a contrariar, porque não a queria perder, mas afinal ela acabou por nos deixar e as saudades são muitas! Eu pouco falava e agora sem a ter comigo, ainda falo menos. Serve-me de consolo este livro que o pai me deu pouco tempo depois de ela ter partido e são as recordações que me ajudam a manter a mãe viva no meu coração e na minha memória. Não sei porquê, mas já naquela altura não me apetecia conversar sobre nenhum assunto. Ao jantar e quando estávamos os três juntos o pai contava o dia dele e a mãe também, ambos em tom lastimoso e desanimado pois parecia que nada corria e perguntavam-me como tinha sido o meu dia. Como sempre era muito breve na descrição e apenas dizia: “correu tudo bem. Não houve novidades nem notícias importantes” E a mãe queria sempre saber mais pois achava que lhe estava a esconder alguma coisa e fazia mais e mais perguntas e quando eu lhe respondia num tom vago ela parecia desconfiada e perguntava: “Será que é só isso que tens para contar?”. Novamente regressava ao tempo em eu era mais jovem e dizia: “Quando eras mais pequeno, contavas tudo. Agora não sei por que motivo és muito mais reservado. Deve ser da idade”. E o assunto morria ali. Eu nada dizia e ela dava a impressão que ficava triste e que esperava que eu


respondesse alguma coisa, mas eu não sabia o que dizer, porque de facto já tinha dito tudo e nada mais havia a dizer de importante. Levantava-se da mesa e enquanto retirava a loiça dizia: “não sei o que fazer para te mudar” e ainda ”gostava que conversasses mais connosco”. Se fosse agora, eu ter-lhe-ia dito alguma coisa mais, falado de coisas que para mim não tinham tido interesse e que aconteceram na escola, só para ela não ficar com a ideia que a culpa de eu não falar mais era dela. Mas o que está feito já não tem remédio e agora espero que ela, onde estiver, entenda as minhas razões. Eu não era lá muito conversador e acho que continuo assim. Penso que o pai já percebeu como eu sou, senão não me teria dado este tão precioso livro onde posso dizer tudo, sem falar. Nos momentos em que eu pouco conversava com eles, o pai tentava falar comigo, no meu quarto, explicando-me que a mãe precisava de me ouvir mais e eu a ela e que compreendia o motivo de eu ser tão fechado, porque utilizando as suas palavras: “tu és parecido comigo”. E acrescentava que a mãe era diferente de nós os dois e que gostava muito de conversar e como tal precisava de nos ouvir mais para não se ouvir só a ela e não se sentir tão só Quando o pai tinha estas conversas comigo, por vezes dava-me vontade de ir ter com a mãe e dizer-lhe alguma coisa, quanto mais não fosse dizer-lhe que gostava muito dela, mas em vez disso, acabava por ficar no meu quarto a pensar nela e no que o pai me dissera. Faltava-me não sei o quê e prometia a mim mesmo que numa outra situação que surgisse, haveria de falar mais alguma coisa. Ainda hoje não consigo compreender a razão da mãe achar assim tão importante que eu falasse mais do que aquilo que dizia. Talvez fosse como o pai explicava, ela sentir-se só e precisar, quem sabe, de me ouvir dizer que gostava muito dela, mas eu pensava que ela sabia isso muito bem, apesar de eu não andar sempre aos beijinhos a ela. Eu acho que nunca compreendi bem a mãe e não houve tempo suficiente para a conhecer melhor, porque ela ora era uma pessoa alegre, ora mergulhava numa tristeza profunda. Será que ela adivinhava do fundo da sua alma que iria partir tão cedo?! Que nos ia deixar? Que me ia deixar! E talvez por isso quisesse tanto ouvir-me, porque depois já não o poderia fazer… Quando estávamos sós e ela me convidava para a acompanhar ao café e eu lhe dizia que não queria ir, ficava com um ar que eu não consigo explicar: era uma mistura de tristeza com desilusão e dizia: “não queres acompanhar-me, porque tens vergonha de estar comigo ou tens receio que eu te envergonhe em alguma coisa?” Dizia estas coisas e elas nem me passavam pela cabeça. Eu apenas não conseguia estar no café a ouvi-la a conversar horas a fio com as suas amigas ou conhecidas, sem ficar verdadeiramente aborrecido e cansado de lá estar. Por isso lhe dizia que não queria ir, mas devia ter-lhe explicado os motivos. Se fosse agora, mãe, dir-te-ia tudo, explicar-te-ia os motivos e conversava muito mais contigo. Eu era o seu centro das atenções, “o seu menino” como ela falava de mim às suas colegas e até a mim mesmo. A mãe era assim. Vivia fases de muita tristeza, porque se recordava da avó que tinha morrido há alguns anos e estava sempre a falar dela e do avô; dizia que se sentia cansada e desiludida com a vida e eu achava que ela não tinha assim tantos motivos para se sentir assim, mas talvez tivesse e acho que nem eu nem o pai a ajudámos o suficiente. Outras vezes a mãe cantava e nadava muito alegre. Contava-me anedotas que nos faziam rir às gargalhadas. Parecia que a mãe tinha duas pessoas diferentes dentro dela! Tinha, na verdade, formas de estar e de ser bem diferentes. Como nem eu, nem o pai falávamos muito ela acabava por também falar pouco, o que para ela devia ser muito difícil, pois adorava conversar conforme eu via nos raros dias que a acompanhava às compras em que ela dialogava com as pessoas se uma forma que dava gosto ver. Em casa falava pouco e como sabia que não tinha ouvintes, dedicava-se às”coisas da escola”, como ela dizia. Quando assistia a algum programa de televisão que merecesse interesse da sua parte e que viesse a propósito, dizia sempre estas palavras: “por vezes há gestos que valem mais do que mil palavras” e eu até me convencia disso porque apesar de pouco conversarmos, todos os dias à noite, antes de se ir deitar, passava no meu quarto e me aconchegava a roupa e me dava um beijo na testa ou na face e me segredava ao ouvido palavras doces, como: “gosto tanto de ti, filho”. Ela pensava que eu não dava conta, mas eu estava semi-acordado e apercebia-me de tudo. De manhã levantava-se quase sempre em cima da hora e pedia para eu me despachar, quando na verdade era ela que não o fazia. Andava de um lado para o outro, ora na casa de banho, ora no meu quarto, ora na cozinha, enquanto ia dizendo: “eu sei que nos vamos atrasar. Despacha-te e vem tomar o pequeno–almoço. É sempre a mesma coisa. Nunca estás pronto a tempo. Dormes demais!” E eu por vezes tentava dizer-lhe que era ela que estava atrasada, pois eu já estava pronto há algum tempo e ela respondia: “pois!”. A mãe com o seu:”pois” deixava-me sempre na dúvida se concordava comigo ou se o que ela dizia é que estava certo. A mãe tinha o péssimo hábito de fumar. Eu e o pai bem tentámos fazer com que deixasse esse vício, principalmente quando teve aquele horrível episódio do enfarte, mas em vão ela nos dava ouvidos. Dizia que “tinha de morrer de alguma coisa”. Eu detestava o cheiro a tabaco e o pai também e a mãe fumava no carro e logo de manhã, a seguir ao seu inseparável café dizendo que lhe sabia bem. A mãe era assim, dependente de muitas coisas e muito independente de outras. “Adorava dar aulas” dizia ela e falava que se fartava dos seus alunos “que nunca estavam atentos; que eram pouco estudiosos, que não faziam os trabalhos de casa”… Enfim, tanta coisa que só de ouvir ficava com a cabeça a andar à roda e até já nem me apetecia ir para a escola. Às vezes a mãe era irritante com estas coisas, mas havia outras em que contava histórias que me faziam chorar de tanto rir e nessas alturas era tão divertida! Lembro-me de uma piada que ela contava, com verdadeira alegria, quando ela andava na escola e tinha mais ou menos doze ou treze anos e que começava assim: “um dia os meus colegas, sabendo que eu trocava o “b” pelo “v” por ter nascido e


vivido até aos seis anos em Mioma, uma aldeia perto de Viseu, pediam-me para dizer rapidamente a frase: “Eu vejo o cu de uma vaca” e eu, como trocava os b’s pelos v’s, dizia: “eu beijo o cu de uma baca”. Depois de contar esta piada ria-se às gargalhadas e eu e o pai também e eu gostava de ver a mãe sempre assim: alegre e feliz. Não foi o que aconteceu naquela tarde quente de Verão, em pleno mês de Junho, quando eu já estava de férias em casa, mas a mãe e o pai ainda continuavam a trabalhar. Como havia pouca coisa que me apetecesse fazer, resolvi ouvir música e ler deitado em cima da cama. A mãe já tinha chegado da escola e disse que estava cansada e eu já sabia o que iria dizer de seguida como era habitual: “filho vou fechar um pouco os olhos pois doem-me muito. Se não te importares, evita fazer barulho”. Respondi que ficasse descansada e que ia tentar não a incomodar. Com receio que a música, mesmo estando com o volume quase no mínimo, pudesse incomodar a mãe deixei a leitura de parte e desliguei o rádio. Acabei por me levantar e em pezinhos de lã, fui até à sala ver um pouco de televisão. Talvez estivesse a dar um filme e eu tirar-lhe-ia o som para não fazer qualquer tipo de barulho que incomodasse. Já na sala, antes de ligar a televisão e por mera distracção, vistoriei aquela divisão da casa e tentei interpretar o significado de todos os objectos que a integravam. Foi então que dei com os olhos no velho armário que fazia as delícias de quem visitava a casa. Era de facto imponente demais para o meu gosto, mas a mãe gostava muito dele por ter sido herança da Uma das portas estava aberta e a curiosidade levou-me a ver o que lá se encontrava. Foi então que vi uma velha carteira em pele castanha, pequena e com as letras A. C. gravadas na parte da frente da mesma e no canto inferior direito. Era a carteira que a mãe tanto gostava de exibir porque segundo ela: “o que é bom é caro mas dura uma eternidade”. Não consegui perceber muito bem o motivo de ela ali se encontrar, pois a mãe não deixava as suas coisas, principalmente aquela carteira, num sítio qualquer, se não fosse por alguma razão especial. A curiosidade foi mais forte do que, provavelmente, o raspanete que iria ouvir se ela suspeitasse que eu mexi no seu “bem precioso”, como ela se referia às coisas que apreciava muito. Com as mãos a tremer abri a carteira que se encontrava vazia. Que estranho! Tinha quase a certeza que ainda no dia anterior tinha visto a mãe com ela e não podia estar enganado, porque velha como aquela carteira só mesmo aquela, com aquele castanho sumido e muito polido, devido ao uso. Talvez o pai lhe tivesse oferecido uma nova, pois sempre que via a mãe com ela, insistia que devia mudar de carteira. Mas não podia ser, pois a mãe, quando recebia uma prenda ou algo novo fazia um alarido que se ouvia pela casa fora. Sempre foi assim, “espalhafatosa” à sua maneira, facto de que por vezes me envergonhava em determinadas situações e junto de colegas meus. Bem, a carteira ali estava e sem nada dentro, pelo menos à primeira vista. Resolvi virá-la ao contrário, para ver se dela caia algo com interesse, como de facto aconteceu: uma folha de papel, meticulosamente dobrada em quatro partes e muito vincada. Dava para ver que a folha fora muitas vezes lida e relida. O que seria aquilo? Resolvi investigar e desdobrei, avidamente, o dito papel. Era um poema e pela caligrafia dava para adivinhar que tinha sido a mãe a escrevê-lo. Se já estava com curiosidade, com mais fiquei só por saber que tinha sido a mãe a escrever. Com as mãos a tremer comecei a ler o poema que falava de amor, não de um amor qualquer, mas do grande e eterno amor de uma mãe por um filho. Fiquei comovido com a leitura e duas lágrimas rolaram-me pelo rosto que de imediato limpei, não fosse apanhado de surpresa pela mãe. Nem parecia ter sido escrito pela mãe, não que ela não tivesse jeito para inventar poemas, mas era o que estava escrito que me fez pensar. O quereria ela transmitir-me com aquelas palavras? Será que ela já pressentia o que lhe ia acontecer? Hoje penso que sim e aquelas palavras eram um incentivo à minha vida e ao meu viver. O poema começava assim: “A Vida só é vida se for Vivida na realidade! Vive-a, meu filho Com a força da tua vontade”. Esta é a primeira quadra de mais três escritas com o mesmo incentivo de vida e de coragem para enfrentar o futuro. Todo o poema era dirigido a mim, como se fosse uma homenagem e na altura não o compreendi, agora, no entanto, estou a começar a entender o seu real significado. Eu adorava a minha mãe e ela sabia isso muito bem e ali estava a prova do seu amor infinito. Ouvi barulho e tentei a todo o custo pôr o papel dentro da carteira, mas não consegui, tal era o nervosismo e acabei por guardá-lo no bolso dos calções, pensando que talvez surgisse uma oportunidade de o voltar a colocar no sítio de onde foi retirado. Alguém se aproximou da sala e vi que era o pai que tinha chegado mais cedo a casa, vindo do trabalho. O pai, ao contrário da mãe, era a calma em pessoa sendo completamente o oposto dela. Muitas vezes me interroguei sobre o que os teria levado a gostar tanto um do outro, tantas eram as diferenças que tinham em relação a quase tudo. Não era muito difícil não gostar da mãe, porque se por vezes barafustava e se sentia triste, outras havia em que ria muito e se sentia verdadeiramente feliz. O pai fazia a mãe sentir-se feliz com coisas mínimas, como por exemplo: um miminho, uma anedota engraçada, o recordar de um episódio cómico que ambos tinham vivido, enfim qualquer coisa… e ela retribuía com aquele sorriso bonito, do seu rosto também muito bonito.


A mãe não parecia ter os anos que na realidade tinha. Quem não soubesse a sua idade dava-lhe, no mínimo, dez anos a menos do que efectivamente tinha, que eram 45 anos As mães dos meus colegas com a mesma idade pareciam muito mais velhas, mas a mãe tinha muito cuidado com o que comia e como se vestia. Eu gostava das combinações de roupa que ela fazia e com os acessórios que usava que estavam sempre a condizer com a roupa que vestia ou com o que calçava. Esta era a minha mãe que com os defeitos que tinha e com as suas fases tristes e alegres era, assim mesmo, muito meiguinha. O pai aproximou-se de mim, deu-me um beijo e perguntou-me pela mãe e eu sentado no sofá, a fingir que via televisão, mas com ela desligada, respondi que estava deitada, como era seu hábito a meio da tarde, a descansar um pouco. Disse que era melhor irmos acordar a mãe pois a hora do jantar aproximava-se. Acompanho-o e chegados ao quarto vimos a mãe a dormir muito sossegada, tão sossegada que parecia nem estar a respirar. Numa das mãos a mãe agarrava o terço, um que era pequenino e prateado, feito de contas, também muito pequeninas e brilhantes que a mãe me ofereceu no dia da minha primeira comunhão. O pai fez-lhe uma festinha e chamou-a de mansinho, enquanto lhe fazia uma festa no rosto. Eu coloquei-me do outro lado da cama e sentei-me pegando-lhe na mão que agarrava o terço, mas ela não acordava. O pai, continuava a chamar por ela e a abaná-la, já muito nervoso com a situação e pediu-me, com um ar aflito, para ir buscar o telemóvel. Eu corri para a cozinha confuso e sem saber o que pensar. A minha mãe, a minha mãe, o que teria ela? Seria como da outra vez em que ela teve o início de um enfarte?! Oh não! Não podia ser. Dessa vez o médico do INEM avisou o pai que a mãe deveria deixar de fumar, evitar gorduras, fazer mais desporto ou caminhadas pois tinha o colesterol muito alto, tensões altas e arritmia cardíaca. No entanto, a mãe, teimosa, no dia seguinte, foi dar aulas ainda adoentada, porque como ela dizia: ”não nos podemos entregar à doença, senão a doença entrega-se a nós e acabamos por ficar pior”. Levei o telemóvel ao pai e a mãe continuava sem acordar. Já ao telefone ouvi-o dizer para alguém o nome da mãe, Ana Carolina, a idade, o que se passava no momento e um breve historial clínico. Pouco depois do telefonema, veio uma ambulância e dois homens entraram em casa com uma maca e levaram a mãe, a minha mãe que continuava com o terço bem agarrado na sua mão esquerda. O pai chamou pela vizinha e pediu-lhe o favor de ficar comigo. Eu disse que não queria ficar e que também queria ir com a mãe. O pai sossegou-me e reparei que o pai chorava e a calma que sempre tinha ou que sabia controlar naquele momento não existia, tal era o nervoso em que se encontrava. Entretanto muitas foram as pessoas que tentaram saber o que se passava com a professora Ana. Os senhores da ambulância tentavam afastar essas pessoas da porta e disseram ao pai para entrar, fechando-a de seguida. Estavam todos dentro da ambulância e eu cá fora sem nada saber e só pensava na minha mãe e se ela já teria acordado. Entretanto, a minha vizinha levou-me para dentro de casa e tentava acalmar-me, dizendo que tudo iria correr bem e que a mãe iria ficar boa. Eu queria acreditar em tudo o que ela me estava a dizer, mas só me lembrava da minha mãe deitada na cama, inerte e com aquele terço bem apertado na mão e que eu desvalorizei quando ela, com tanto carinho quisera que o usasse no dia da minha primeira comunhão. A ambulância arrancava e cá fora ouvia-se o som de uma multidão, que em pequenos grupos cochichava. Apercebia-me de tudo isto, porque da janela da sala da minha vizinha, conseguia ver tudo o que se passava na rua. As pessoas olhavam para a minha casa com ar espantado, apontavam para a ambulância e para a casa da D. Lurdes, a minha vizinha. Esta tentava dar-me toda a atenção e mais alguma, mas eu estava muito ausente e ela, apercebendo-se disso, perguntou-me se queria comer alguma coisa visto a situação ter acontecido perto da hora do jantar. Respondi que não e então conduziu-me até à sala e deixoume só por alguns instantes. Nesses escassos momentos, lembrei-me do poema, levei a mão direita ao bolso das calças e retirei de lá aquela folha amarelecida e gasta pelo uso e leio, leio não sei quantas vezes aquelas quadras para mim ainda incompreensíveis. De repente, a D. Lurdes entrou na sala e eu escondi o papel atrás das costas, mas ela apercebeu-se disso, no entanto nada disse. Referiu apenas que me tinha preparado uma sandes de queijo e um sumo que me aguardavam na cozinha. Para não parecer indelicado e até porque já tinha alguma fome, fui até lá, aproveitando o facto de ela ir à minha frente, para colocar a folha novamente no bolso. O telefone tocou. O meu coração deu um salto. Será que eram notícias da minha mãe? Corri atrás dela e coloquei-me bem perto para tentar ouvir. Era de facto do hospital e eu nada consegui ouvir, mas pela cara da minha vizinha e os eternos “pois”, levaram-me a concluir o pior. Ao desligar, não foram precisas explicações. Eu já tinha entendido tudo: a minha mãe continuava adormecida, como na história da “Bela Adormecida”, só que a mãe tinha sempre junto dela o seu príncipe. Então por que não acordava com o beijo dele? A D. Lurdes, em tom maternal, explicou-me que o pai tinha dito que a mãe estava em coma (que era como se estivesse a dormir), claro que eu sabia o que isso era, de ter visto em filmes e ouvido nas notícias e continuou a explicar que os médicos estavam a tentar saber a


causa desse coma e que a tinham ligado a umas máquinas para fazer com que o coração trabalhasse. O pai mandou beijos e pediu que eu tivesse calma, que tudo se iria resolver. Não consegui dormir. Estava preocupado, inquieto e desejei, com todas as minhas forças, que a minha mãe estivesse ali, que me viesse dar o beijo de boa- noite, que me lembrasse de rezar e que lhe pudesse dizer simplesmente “Amo-te muito, mãezinha, nunca duvides disso”. Mas a mãe não estava ali, nem eu, só o meu corpo, porque a minha mente e a minha alma estavam adormecidos como a minha mãe. Acabei por sucumbir ao cansaço e adormeci. No dia seguinte, fui acordado pelo telefone. Levantei-me de um pulo e fui até ao corredor onde já estava a D. Lurdes a atender. Nada dizia e só acenava com a cabeça. “Bolas”, pensava, “o que lhe estariam a dizer?” E lá continuava ela a acenar a cabeça e palavras, nem uma … Toquei-lhe no ombro, para lhe dar a entender, apesar dela saber muito bem, que eu estava ali e que também queria saber o que estava a acontecer. Ela fez-me sinal com a mão para esperar e continuou com a mesma atitude. Saí dali e fui para o quarto e chorei, chorei muito. Eu sabia, antes de me dizerem o que tinha acontecido. A minha mãe, naquele poema, de certa forma, já me tinha dito. Era difícil de acreditar, mas eu sentia que tinha sido isso mesmo que aconteceu: a minha mãezinha tinha adormecido para sempre. Por isso, quando ouvi o telefone a desligar-se e a D. Lurdes a aproximar-se do quarto onde me encontrava, em passos lentos e compassados, compreendi de imediato o que tinha acontecido. Ela abriu a porta; olhou para mim, que entretanto já mal a via, tal era o choro compulsivo em que me encontrava e ouvi-a dizer com as letras todas o que eu já imaginava: “Pedrinho, a tua mãezinha não conseguiu acordar. Os médicos tudo fizeram, mas não conseguiram. O coraçãozinho dela não aguentou. Tens de ser um menino muito forte”. Estas foram as suas palavras, mas eu só consegui ouvir até à parte em que ela disse: “não conseguiu acordar” … e também eu não consegui acordar para a realidade e só me lembrava da primeira quadra do poema escrito pela mãe; da sua carteira que, por coincidência ou não, a mãe guardou naquele local onde eu fui procurar e do terço que parecia colado na sua mão esquerda, a mão do coração, coração que deixou de bater, coração que ficará eternamente agarrado ao meu… E espero que ela onde estiver, consiga ler os meus pensamentos que escrevo neste pequeno livro de folhas em branco que o pai me deu, logo a seguir a tê-la perdido, dizendo-me, apenas: “Escreve o que te vai na alma e as tuas palavras aproximar-te-ão da tua mãe”.

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