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Carolina Ponte


Sem tĂ­tulo, 2010, caneta, acrĂ­lica e nanquim sobre papel, 146 x 196 cm Untitled, 2010, pen, acrylic and china ink on paper, 57.5 x 77.2 in


Sem tĂ­tulo, 2011, caneta, acrĂ­lica e nanquim sobre papel, 140 x 220 cm Untitled, 2011, pen, acrylic and china ink on paper, 55.1 x 86.6 in


Sem tĂ­tulo, 2011, caneta, acrĂ­lica e nanquim sobre papel, 140 x 220 cm Untitled, 2011, pen, acrylic and china ink on paper, 55.1 x 86.6 in


TECER MUNDOS No crochê, qualquer ponto que vai adiante precisa voltar, concluindo assim o arremate que evita que o tecido esgarce. Os desenhos e trabalhos com crochê que Carolina Ponte apresenta nesta exposição mostram um momento da carreira da artista em que ela faz com a própria obra o mesmo movimento que executa com linhas e agulha. Se um dia o crochê foi uma forma de descanso para o desgaste dos desenhos – ou um jeito de desenhar com mais fluidez -, hoje o desenho se transformou em algo mais coeso graças à prática da artista como escultora tecelã. Quando um trabalho consegue se dobrar sobre si mesmo é sinal de que ganhou estrutura – e o uso desta última palavra também não é um acaso, já que as formas e padronagens dos trabalhos mais recentes de Carolina estão diretamente ligadas à arquitetura e à construção de um universo muito peculiar. A artista aprendeu a fazer crochê porque queria roupas novas para suas bonecas. Destruía as antigas e criava seus figurinos, que depois também envelheciam e iam para a zona de descarte com os modelos originais. Agulha e carretéis de linha eram mantidos em atividade contínua, quase obsessiva, com o trabalho manual servindo de motor para que ela tecesse seu próprio mundo. Não muito depois de abandonar as bonecas, ela descobriu que queria ser artista e deu seus primeiros passos na pintura. Suas passagens pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pelas salas de aula do Parque Lage fizeram com que descobrisse uma nova linguagem, o desenho, mas também a intimidaram. Nem sempre as águas de um rio conseguem suportar as margens que lhe são impostas. E a artista padeceu com uma espécie de enchente interna, afogando seus impulsos nos medos de não se encaixar aos modelos. Muitos param neste ponto. Carolina sobreviveu ao redescobrir seu fluxo. O estouro da represa se deu com um trabalho fronteiriço, de 2006, que é desenho, mas também pintura e escultura. Munida de um arsenal de miçangas e canutilhos coloridos, compôs um fio com cerca de 100 metros de extensão, em que criava uma sequência de cores que podia ser um caminho direto para a geometria lúdica e caleidoscópica de Paul Klee. Ou um sobrinho da Medusa (1969), um clássico de Amélia Toledo. Com o fio, Carolina redescobriu o prazer de uma execução mecânica, próxima da meditação, hoje uma característica indissociável de sua trajetória. Esvaziar a cabeça com o trabalho duro e repetitivo é uma forma híbrida, entre o intuitivo e o racional, de harmonizar cores e formas. É curioso ter lembrado Amélia Toledo ao falar de fluxo, já que a Medusa é feita de tubos plásticos cheios de líquidos coloridos. Embora nunca tenha usado água ou fluidos em seus trabalhos, Carolina migrou das miçangas e canutilhos para um desenho em que as áreas de cor pareciam boiar no espaço do papel. Em alguns deles, a aplicação de uma “aguada” de tinta no fundo reforça esta impressão de um mundo submarino e silencioso, onde as formas se atraem ou se repelem de acordo com sua vibração cromática.


No crochê, todo ponto que vai adiante precisa voltar – dissemos acima. Ao se transformar em filha pródiga de seu primeiro impulso criativo e voltar a tecer, Carolina pôde, enfim, tomar posse de seu território. Inicialmente uma espécie de hora do recreio para os desenhos, o crochê virou outra forma de desenhar, para logo a seguir ganhar o espaço com formas que escorriam para o chão ou escalavam o teto num ritmo quase líquido, como uma fonte de jorro incessante ou mesmo pequenos vazamentos, goteiras e infiltrações. As mandalas coloridas feitas de linha levaram Carolina a um mergulho mais profundo no universo da padronagem. Depois dele, a ex-estilista de roupinhas de boneca vem criando um repertório artístico que não deixa de ser vizinho da moda, tanto de clássicos da Pucci como da estamparia contemporânea de Catalina Estrada. O ornamento, desde sempre uma “beleza sob suspeita” (1) e absolutamente sedutora, poderia também aproximá-la da pintura de Beatriz Milhazes, enquanto o crochê, este suporte tão pouco usual, poderia levá-la até Leda Catunda, Ernesto Neto, Marcos Cardoso ou aos bordados de Leonilson. A viagem que faço no rio do artista é, no entanto, um pouco mais longa, sobretudo depois de ver seus trabalhos mais recentes. Seu desenho detalhista e quase compulsivo se aproxima do Barroco, não apenas por sua atmosfera excessiva e pela contraposição de cores, mas por realizar um tipo de composição que vai e volta ao tema, acrescentando a ele, a cada retorno, um pouco mais de informação. Olhar para os desenhos ou ver uma de suas esculturas é algo como ouvir o Cânon em Ré Maior, de Pachelbel, em que um violino executa a melodia-base, constante, mas a cada recomeço há a entrada de um novo instrumento, com outro fraseado musical. As voltas às primeiras notas provocam um acúmulo de melodias e sonoridades diversas, porém sem esconder em nenhum momento a estrutura inicial. Ornar é diferenciar. Nos desenhos recentes, Carolina se apropria de padronagens egípcias, orientais, latinoamericanas ou brasileiras para criar uma espécie de léxico particular, próximo à Grámatica do ornamento, publicada em 1856 por Owen Jones. Constrói com esta estamparia brasões e bandeiras que lembram o Rococó muito mais pelas plantas arquitetônicas (2) de suas igrejas – com a nave principal se dividindo em múltiplos altares laterais – do que pela citação evidente a motivos florais e marítimos ou a volutas e outras formas típicas do estilo. A relação com a arquitetura está cada vez mais forte também nas peças tridimensionais. Elas ganharam suportes de madeira que são, ao mesmo tempo, sustentação e ornamento. Todo ponto que vai precisa voltar para o arremate. Sempre que retorna ao rio principal de sua obra, Carolina redesenha seu mapa de navegação com a descoberta de novos afluentes, provando já ser a comandante de seu barco.

Daniela Name, fevereiro de 2011 1. PAIM, Gilberto. A beleza sob suspeita – O ornamento em Ruskin, Lloyd Wright, Loos, Le Corbusier e outros. Rio de Janeiro: Zahar, 2000. 2. OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de. O Rococó Religioso no Brasil e seus antecedentes europeus. São Paulo: Cosac Naify, 2003.


Sem tĂ­tulo, 2011, caneta, acrĂ­lica e nanquim sobre papel, 156 x 180 cm Untitled, 2011, pen, acrylic and china ink on paper, 61.5 x 70.9 in


WEAVING WORLDS In crochet, any stitch which goes forward must make its way back, thus completing the knot that will prevent the fabric from fraying. The drawings and crochet works that Carolina Ponte presents in this exhibition show a moment in the artist´s career in which she makes the same movement with her own work as when she handles the needle and thread. If one day crochet was a form of rest to the weariness of drawing – or a manner of drawing with more fluidity -, today drawing has transformed itself into something more cohesive and structured thanks to the artist´s practice as a weaver sculptor. When a work can fold upon itself it means that it has gained structure – and the use of this last word is not by chance, since the shapes and patterns of Carolina´s most recent works are directly linked to the architecture and to the construction of a very peculiar universe. The artist learned how to crochet because she wanted new clothes for her dolls. She would get rid of the old ones and create new designs, that would later on also become outdated and make their way into theddiscarded pile along with the original models.eNeedle and spools of thread were kept in constant activity, almost obsessively, wite manual labor serving as the motor foreweaving her ownduniverse. Not long after she abandoned her dolls she discovered that she wanted to be an artist and took her first steps in painting. Her passages through the Escola de Belas Artes of the Federal University of Rio de Janeiro and through the classrooms of Parque Lage made herrdiscover a new language, that of drawing, but also intimidated her. The waters of a river might not always be contained in the shorelines imposed upon them. And the artist bore a type of internal flooding within herself, drowning her impulses in the fear of not complying with the models. Most would quit at this stage. Carolina survived by rediscovering her workflow. The outburst of this dam gave itself out asgan edgykpiece, in 2006, which is a drawing, but also painting and sculpture. Supplied with an arsenal of colored beads and bugle beads, she produced a string extending nearly a hundred meters, in which she created a sequence of colors that could be a direct path to the kaleidoscopic and lucid geometry of Paul Klee. Or a nephew of Medusa (1969), a classic by Amélia Toledo. With the string, Carolina rediscovered the pleasure of a mechanic execution, close ta meditation, todaycan indivisible feature from her trajectory. To free one´s mind with hard and repetitive work is a form of meditation that harmonizes the shapes and colors in their rightful places. It is curious to have remembered Amélia Toledo when speaking of flow, since the Medusa is made up of plastic tubes filled with colored liquid. Although she has never used water or fluids in her works, Carolina migrated from the beads and bugle beads to a type of drawing in which the colored areas seemed to float on the space of the paper. In some of them, the application of a “watery“droplet” of paint in the background reinforces this impression of a silent underwater world, where the shapes and forms attract or repel each other according to their chromatic vibration. In crochet, any stitch which goes forward must make its way back – as mentioned above. In transforming herself into the prodigal daughter of her first creative impulse and returning to weaving, Carolina could, at last, take possession of her territory. Initially a recreationalepastime to drawing, crochet became a different form of drawing, soon occupying space with shapes that would drip down to the floor or that would escalate up to the ceiling in an almost liquid rhythm, as a source of incessant outpouring or even smaller leaks, droplets and infiltrations. The colorful mandalas made of thread took Carolina on a much deeper dive into the universe of pattern. After that, the former designer of doll clothes has been creating an artistic repertoire not far from that of fashion, so much from the classics of Pucci to the contemporary pattern creations of Catalina Estrada. Ornament, always having been a “beauty under suspicion” (1) and absolutely seductive, could alsoebring her closer to the paintings by Beatriz Milhazes, while the crochet, this such unusual support, could take her all the way to Leda Catunda, Ernesto Neto, Marcos Cardoso or to the embroidery by Leonilson. The journey I take through the artist´s river is, however, somewhat longer, especially after having seen her more recent works. Her detailed and almost compulsive drawings come very close to the Baroque style, not only because of its excessive atmosphere and its counter-positioning of colors, but for creating a type of composition that goeskback and forth to its theme, adding to it, in each return, a little more information. To look at the artist´s drawings or to see one of her sculptures is like listening to Pachelbel´s Canon in D Major, in which a violin executes the base melody, constantly, but at each restart there enters a new instrument, with another musical phrasing. The returns to the first notes stir up an accumulation of melodies and diverse sonorities, however without, at any point, hiding the initial structure. To ornate is to differentiate. In her recent drawings, Carolina takes hold of Egyptian, Oriental, Latin American and Brazilian patterns to create e sort of particular lexicon, close to the Grammar of ornament, published in 1856 by Owen Jones. With this patterning she constructssblazons and flags that remind us of Rococo much more for the architectural plans of its churches (2) – with theenave being divided into multiple lateral altars – than for the evident citation of floral and maritime themes or the volutes and other shapes typical of the style. The relationship with architecture is also strengthened in the three-dimensional pieces. They have received wooden mounting that serve as support and ornament at the same time. Any stitch which goes forward must make its way back to the knot. Whenever she returns to the main river of her work, Carolina redraws her navigation map with the discovery of newscreeks, proving.to be the captain of her own boat. Translation by Nathalie Beltran, February 2011. (1) PAIM, Gilberto. A beleza sob suspeita – O ornamento em Ruskin, Lloyd Wright, Loos, Le Corbusier e outros. Rio de Janeiro: Zahar, 2000 (2) OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de. O Rococó Religioso no Brasil e seus antecedentes europeus. São Paulo: Cosac Naify, 2003


Sem tĂ­tulo, 2011, crochĂŞ e madeira, 200 x 340 x 175 cm Untitled, 2011, crochet and wood, 78.7 x 133.9 x 68.9 in


Sem tĂ­tulo, 2011, caneta, acrĂ­lica e nanquim sobre papel, 144 x 190 cm Untitled, 2011, pen, acrylic and china ink on paper, 57.1 x 74.8 in


Sem tĂ­tulo, 2010, caneta, acrĂ­lica e nanquim sobre papel, 140 x 200 cm Untitled, 2010, pen, acrylic and china ink on paper, 55.1 x 86.6 in


Carolina Ponte Salvador, Brasil [Brazil], 1981 Vive e trabalha em [lives and works in] Petrópolis, Brasil [Brazil]

Formação [Education] 2000-2005 Gravura [Engraving]. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil [Brazil] 2005-2006

Arte Hoje: Atitudes Contemporâneas. Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]

2001-2005

Festival de Inverno da Universidade Federal de Minas Gerais, Diamantina, Brasil [Brazil]

Exposições [Exhibitions] 2011 .Zipper Galeria, São Paulo, Brasil [Brazil] .Desenho no Campo Ampliado. Espaco Cultural Sérgio Porto, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil] .Pontos de Encontro: Pedro Varela e Carolina Ponte. Espaco Cultural da Caixa, Salvador, Brasil [Brazil]; Sala Theodoro de Bonn, Museu de Arte Contemporânea do Paraná, Curitiba, Brasil [Brazil] 2010 .Converging Trajectories. Modified Arts, Phoenix,EUA [USA] .Sobre Ilhas e Pontes. Galeria Cândido Portinari, Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Brasil [Brazil] .Diversidade e Afinidades: universo x reverso. ECCO Brasília, Brasil [Brazil] 2009 .Estranho Cotidiano. Galeria Movimento, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil] .Realidades Impossíveis. Ateliê 397, São Paulo, Brasil [Brazil] .Pontos de Encontro: Pedro Varela e Carolina Ponte. ECCO Brasília, Brasil [Brazil] .Conexões. Centro de Cultura de Petrópolis, Brasil [Brazil] 2008

Realidades Imposibles: 20 Artistas Brasileños Trabajando con Fotografía Hoy. Fototeca Juan Malpica Mimendi, Veracruz, México [Mexico]

2006 .Abre Alas. A Gentil Carioca, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil] .AH. Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil] 2005 .PY Rata. Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]; Niterói, Brasil [Brazil] .A Arte Sobe e Desce a Serra. Centro Cultural Raul de Leoni, Petrópolis, Brasil [Brazil] .PY Neo. Ateliê do Cadú, Niterói, Brasil [Brazil] .PY = X ao quadrado. Sala José Cândido de Carvalho, Niterói, Brasil [Brazil] .PY = X, Circuito Aberto. Niterói, Brasil [Brazil]


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Projeto Gráfico l Graphic Design

Fotos l Photos by Valentino Fialdini Duda Covett (pgs. 6-7) Foto da capa l Cover photo Sem título, 2011, crochê e tapeçaria, 285 x 375 cm Untitled, 2011, crochet and tapestry, 112.2 x 147.6 in © março 2011

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