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Março 2012 Ano 11 No 97

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Lilibeth Cardozo

Meu encontro com Ary Barroso

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Alexandre Brandão

Yoani Sánchez não vem

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Oswaldo Miranda

O velho Hotel das Paineiras


ANÚNCIO


índice

editorial

Mulheres de fibra Vocês sabiam que a Folha Carioca está caminhando para o seu centésimo número no meio do ano? É, gente... é fazendo que vamos juntando, somando e publicando esses textos, mal ou bem escritos; bonitos ou feios, longos ou curtos, que agradam e desagradam, mas fazem a Folha voar pela Zona sul carioca e até viajar na bagagem de muitos não cariocas. E vamos comemorar. Você, leitor, tem alguma coisa ‘cem’? Mande pra nós! Cem anos de idade, algo interessante com 100 anos; uma curiosidade datada com 100, uma foto de 100 anos, um fato bem seu, bem carioca, de 100 anos. Estamos há muitos anos fazendo a Folha Carioca e os leitores conversam conosco. No mês passado, por exemplo, um leitor do Acre nos escreveu. Pegou a revista aqui em suas férias e foi ler lá na sua cidade, extremo norte do Brasil! Isto nos dá alegria e muito fôlego! Este nosso número está cheio de emoções. Homenageando as mulheres nossa matéria de capa apresenta mulheres de fibra. Impossível fotografar e publicar tantas mulheres fortes, de luta, de garra que mereceriam ilustrar nossas páginas. Mas são todas que queremos homenagear e nas quatro que destacamos colocamos um pouco da história de cada uma pensando em suas lutas, suas vitórias, suas vidas de mães, mulheres, trabalhadoras, criadororas, justas, alegres, sofridas e outros tantos sentimentos que fazem a estrutura forte de mulheres nascidas num país onde até hoje sentem falta de direitos, de lugar, de igualdade... Na página 5 Iaci Malta nos oferece um lindo texto sobre irmãos. Stenka Calado, nosso entrevistado deste mês, nos conta as indas e vindas pelas redações jornalísticas fazendo sua primeira reportagem, ainda um menino, em 1958. E daí, foi circulando entre redações, no meio dos perigos e perseguições políticas implacáveis. Stenka venceu e chegou a um endereço virtual que faz barulho. Ler a entrevista de Stenka é fazer uma viagem no tempo e na história da difícil tarefa de ser jornalista. Alexandre Brandão numa excelente crônica nos leva a Cuba com a emoção de trazer Yoani Sánches ao Brasil. Emociona. Oswaldo Miranda recorda passagens pessoais no Hotel das Paineiras, localizado no meio da Floresta da Tijuca, e que agora vai entrar em obra para sua renovação com vistas aos inúmeros eventos que acontecerão na cidade nos próximos anos. E para finalizar uma matéria triste: a derrubada de dezessete árvores na Gávea em uma área pública que a prefeitura vendeu para uma construtora. A rápida mobilização dos moradores fez com que o prefeito Eduardo Paes voltasse atrás e embargasse a obra.

Quem é quem

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Pelé dos óculos 5

Iaci Malta

Irmãos... de sangue ou de criação 8

Entrevista

Stenka do Amaral Calado 9

Atividades aquáticas Cadeirantes Capa

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Mulheres de fibra Música

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Dos anos 60 até a atualidade 22

Meio Ambiente

Protesto contra a derrubada de árvores 23

Saúde

Reconhecimento dos sinais da dengue

colunas 05 06 10 11 12

Iaci Malta Sil Montechiari Sandra Jabur Wegner Lilibeth Cardozo Ana Cristina de Carvalho

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Alexandre Brandão Oswaldo Miranda Tamas Haron Gamal Gisela Gold

Boa leitura!

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ENTRE EM CONTATO CONOSCO Leitor, escreva pra gente, faça sugestões e comentários. Sua opinião é importante.

folhacarioca@gmail.com

Leia a edição pela internet: www.folhacarioca.tk Fundadora Regina Luz

Capa Vladimir Calado

Editores Paulo Wagner / Lilibeth Cardozo

Diagramação Marcos Vilaça

Distribuição Gratuita

Projeto gráfico e arte Vladimir Calado (vlad.calado@gmail.com)

Jornalista Fred Alves (MTbE-26424/RJ)

Revisão Petippa Mojarta, Marilza Bigio

Colaboradores Alexandre Brandão, Arlanza Crespo, George Sauma Jr., Geraldo Hasse, Gisela Gold, Haron Gamal, Iaci Malta, Lilibeth Cardozo, Oswaldo Miranda, Sandra Jabur Wegner, Sil Montechiari, Tamas

Captação de Anúncios Angela: 2259-8110 / 9884-9389 Marlei: 2579-1266 O conteúdo das matérias assinadas, anúncios e informes publicitários é de responsabilidade dos autores.


quem é quem

Pelé dos óculos

Março 2012

Arlanza Crespo

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Conheci o Pelé através do boca a boca. Estava no armarinho da Dó (que também já foi entrevistada por mim) quando alguém entrou e ela falou sobre ele. Perguntei quem era e a pessoa me disse que quando eu precisasse trocar os óculos era para fazer lá, que o preço era muito barato, e que era ele inclusive que fazia para várias lojas do Leblon. Caiu como uma luva pois eu estava mesmo precisando fazer óculos novos, e o orçamento que eu tinha era de R$ 1.400,00, armação e lente. Resolvi ir até lá, e foi a melhor coisa que fiz na minha vida. Ficou tudo por menos da metade do preço e ainda me rendeu uma entrevista. Pena que o Marcio, rapaz que trabalha com ele, não estivesse lá. O Márcio é quem dá a coloração das lentes, e eu, idiota, achando que elas já nasciam escuras. O Pelé, ou melhor, Gilberto Silva, começou a trabalhar nesse ofício desde os 14 anos de idade. São 48 anos de profissão. Ele estudou até a oitava série, fez um supletivo e tirou um curso de ótica em dois anos. Começou a trabalhar na Ótica Pastor, com um oftalmologista de renome, depois foi para as Óticas Fluminense, onde ficou doze anos e de lá só saiu quando ela fechou as portas. Mas como ele mesmo disse: “saí para melhor”. Hoje trabalha para várias óticas, dois oftalmologistas e ainda tem sua loja. O serviço que ele faz, de conserto, coloração, montagem, solda, está praticamente em extinção. Ele me mostrou com orgulho como se colore uma lente e eu, que só tinha ido fazer meus óculos, ganhei uma mega entrevista e ainda por cima uma ótima aula.

Pelé mora em São Gonçalo, é casado há 35 anos e tem três filhos já encaminhados na vida, mas nenhum quis seguir sua profissão. Pedi para ele falar dos clientes, mas Pelé é muito reservado, disse que todos são ótimos, nunca se aborreceu com nenhum. Dos mais antigos citou Chico Anísio. Sua clientela é feita através do boca a boca e com isso já são mais de 3.000 clientes. Aliás, quando eu fazia a entrevista chegou uma senhora pela primeira vez também, como eu. Ela tinha quebrado a armação e ninguém dava jeito. Ele soldou na hora, ficou perfeito. O preço? R$ 40,00. Na Zona Sul só ele faz esse serviço, por isso ele concorda quando dizem que está em extinção. O amor que ele tem pelo seu ofício é muito difícil de ver hoje em dia. Nas paredes da

loja, junto com os óculos pendurados e todo o resto, encontrei um pensamento emoldurado que dizia “Aqueles que não se esforçam para conquistar o que querem nunca chegarão lá”. Ele se esforçou e chegou lá! E se mantém lá até hoje. Na sua loja, no segundo andar do Centro Comercial Santa Angela (ao lado do Jobi) você entra e tem a impressão que o tempo voltou atrás. Tempo bom, das lojas onde éramos atendidos pelo próprio dono. Pensem nisso. Quantas a gente conhece que ainda são assim?  Serviço: Av. Ataulfo de Paiva, 1174 sobreloja 13 - segundo piso Telefones: 2512-7205 e 9739-5747


Iaci Malta iaci@barongarden.com

Irmãos... de sangue ou de criação, irmãos de sangue e criação ou apenas de criação, são aqueles que provavelmente mais foram expostos a estímulos e experiências similares às nossas: mesma geração, mesmo valores, crenças e costumes – mesmos criadores. Irmãos não têm segredos entre si, têm pactos. E são nossas testemunhas. As paixões são efêmeras, os casamentos muitas vezes acabam. Os amigos, mesmo que maravilhosos, com muita frequência a vida separa. Mas a irmandade permanece: mesmo separados pela distância física, os irmãos estão juntos. Podemos ver isso quando, após cada um seguir seu caminho, sua vida (muitas vezes distantes um do outro), após a saudável e necessária partida dos filhos para o mundo, após a perda de companheiros (por morte ou

Desenho da Iaci: “meus filhos, irmãos encaracolados nos cabelos e no amor”

separação), irmãos se reencontram e passam a viver juntos cuidando uns dos outros. Eles se reencontram e se acolhem na velhice e, muitas vezes, na solidão de um mundo que quase fala outra língua. Os irmãos..., esses sempre falam a mesma língua. 

Março 2012

Muitos belos textos, que exaltam a importância das amigas, circulam pela internet em sofisticados shows de slides e música. Mas ainda não vi nada, mesmo sendo singelo, que se refira à importância dos irmãos. E é sobre isso que quero falar... Eu me lembro que quando meus filhos entraram na pré-adolescência (verdade é que naquela época não existia isso, eram apenas crianças maiores), toda vez que brigavam, eu vinha com o seguinte texto: é muito importante que vocês se entendam porque irmãos são as pessoas que nos acompanharão por toda vida. Continuo acreditando nisso; penso que os vínculos que se constroem nos primeiros tempos de vida fazem parte dos alicerces do que somos, da nossa identidade. E irmãos,

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Sil Montechiari

Dispa-se!

silmontechiari@gmail.com

Never let me go

Março 2012

“Este é o mal que há em tudo o que acontece debaixo do sol: o destino de todos é o mesmo. O coração dos homens, além do mais, está cheio de maldade e de loucura durante toda a vida; e por fim eles se juntarão aos mortos.” Ec 9: 3

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Andei cometendo uns textos para a Folha Carioca e tenho sido convidada a permanecer como colaboradora. Pelo que estou declaradamente grata. Apesar de que acabei, enfim, por perceber que, em minhas viagens literárias, mais ainda se revelou minha falta de foco. Tenho sustentado a tese de que para escrever é preciso ter interesse genuíno pela vida e pelas pessoas. Para buscar entendê-las ou, no mínimo possível, observá-las atentamente e assim, falar mesmo sobre o que não compreendemos nelas ou sobre elas. Penso que o dia que já tiver esgotado todos os assuntos... terei perdido a vontade. Talvez por isto seja tão fascinante! Tudo que me cai nas mãos, olhos e ouvidos durante o mês, vou acumulando para este momento que reservei para o hábito da escrita. Entretanto, são tantas histórias e acontecimentos que me confundo nas inúmeras possibilidades. Quizá deva dedicar mais tempo e acumular vários momentos registrados neste meu emaranhado de fios chamado cérebro (meu editor ficaria satisfeito por conta do meu atraso constante nas pautas). Uma, em especial, chamou muito a minha atenção. Não sabia exatamente como transmutar tamanha dor que senti ao assistir a um filme chamado “Não me abandone jamais” e transmitir aos leitores a mensagem subliminar de libertação deste roteiro tão magnífico. Trata-se da história de amor de três jovens que crescem em um internato na Inglaterra e que descobrem, aos treze anos, que são seres fabricados para doar seus órgãos. Seguem sendo manipulados pelo sistema sabidos que, no início da idade madura começarão a submeter-se a cirurgias de mutilação de seus corpos. E, a cada novo

instante é descoberta a infinidade de loucuras e maldades que alguém é capaz de imaginar (quer seja o próprio autor do texto)... Vou reavaliando minha visão do mundo, do ser humano... sentindo profundamente as agruras da vida, a pequenez dos pensamentos e das atitudes em relação ao sofrimento “alheio”. Sim, entre aspas, pois será que o outro é assim tão desprezível para mim a ponto de considerar que minha vida é mais importante, melhor ou mais interessante?

“Pois os vivos sabem que morrerão, mas os mortos nada sabem; para eles não haverá recompensa, e já não se tem lembrança deles. Para eles o amor, o ódio e a inveja há muito desapareceram; nunca mais terão parte em nada debaixo do sol.” Ec 9: 5 O filme expressa três coisas muito marcantes em meu universo: relacionamentos e arte. O propósito de Deus. Todos os sentimentos que consigamos ter por alguém ou algo, normalmente, passam por interesses tão próprios... então perdidos,

afastados, desvirtuados, transviados do Plano Maior, nesta nossa pequena passagem em terra de ninguém. Pelo que entendi, através da visão do autor, o amor humano e a arte poderiam libertarnos de todo o mal. E as personagens estão resignadas a aceitar o status quo. Somente estas indagações denunciam pensamentos mais próximos do divino: – Será que a vida destas pessoas pelas quais morremos valem mais do que as nossas???? – Quem determina o tempo de vida de cada um????

“Percebi ainda outra coisa debaixo do sol: Os velozes nem sempre vencem a corrida; Os fortes nem sempre triunfam na guerra; Os sábios nem sempre têm comida; Os prudentes nem sempre são ricos; Os instruídos nem sempre têm prestígio; Pois o tempo e o acaso afetam a todos. Além do mais, Ninguém sabe quando virá a sua hora.” Eclesiastes 9: 11-12 


Marรงo 2012

novidades serviรงos e entregas

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entrevista

Texto originalmente publicado no site Observatório da Imprensa

Stenka do Amaral Calado

Meio século de intimidade com as pretinhas Geraldo Hasse

Março 2012

Com mais de 50 anos de carreira, o jornalista Stenka Calado trabalhou a maior parte de sua vida profissional na “cozinha” de redações como o Correio da Manhã, Folha de S.Paulo e Estadão. Também operou por mais de uma década em assessorias de imprensa. Nos últimos dez anos, aliou-se a Rogério Medeiros na revista Século, hoje www.seculodiario. com, um dos endereços digitais mais batidos de Vitória, ES. Neste depoimento, Stenka conta sua história.

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Nomes de revolucionários Conte a sua estreia como repórter. Stenka Calado – Minha primeira reportagem pela Imprensa Popular foi no dia da chegada da seleção brasileira campeã do mundo em junho de 1958. Mandaram-me para o aeroporto do Galeão. Eu tinha completado 18 anos. Fui com uma calça emprestada por um tio e um paletó branco emprestado por outro parente. Foi minha sorte: confundido com um garçom, pude circular livremente no meio daquela confusão. Passei boa parte do dia entrevistando craques: Didi, Nilton Santos, Bellini... No final da tarde, ditei a matéria por telefone. Não pense que era fácil. Levava horas. Por que você tem esse nome estranho? S.C. – Homenagem a Stenka Razin, espécie de Robin Hood russo, um líder cossaco que infernizou a vida do czar e, após a vitória da Revolução, foi promovido post morten a tenente do Exército Vermelho. Stenka Razin era o que se pode chamar de cão chupando manga. Lampião perto dele era fichinha. Quando soube pelos líderes da Revolução que o objetivo do levante era derrubar o czar, ele invadiu o palácio, foi capturado, pendurado num poste, esquartejado e teve o corpo arrastado pelas ruas de Moscou para servir de exemplo. Nosso Tiradentes não sofreu tanto. E seus irmãos também têm nomes de revolucionários? S.C. – Sim, meu pai só lia literatura revolucionária. Minha irmã mais velha ganhou o nome Nadedja, que vem de Nadejda Krupskaya, companheira de Lenin. Klara, a irmã nascida logo depois de mim,

foi batizada em homenagem a Klara Zetting, ex-deputada do Partido Comunista Alemão, fuzilada pelos nazistas como responsável pelo incêndio do parlamento alemão. Meu irmão Marat foi homenagem a Jean-Paul Marat, líder da Revolução Francesa, que morreu degolado. A Ludmila ganhou esse nome em homenagem a uma patriota russa que, segundo meu pai, matou mais de mil nazistas durante a II Guerra Mundial. Por último veio a Olga, em homenagem à nossa conhecida Olga Benario, alemã, mulher de Luiz Carlos Prestes, executada na Alemanha depois que Getúlio Vargas a entregou a Hitler.

Morto com um tiro no coração Afinal, seu pai fazia o quê? S.C. – Digamos que era revolucionário. Originalmente se chamava José Ferreira Guimarães, filho de imigrantes portugueses, ex-militantes do Partido Comunista Português que aportaram em Recife fugindo da ditadura salazarista. A exemplo do pai, trabalhava como barbeiro. Preso na ditadura do Estado Novo, meu pai foi libertado em precário estado de saúde pelas torturas sofridas. Quando se recuperou, entrou para a clandestinidade, tirando novos documentos com o nome de Jaime Calado. Com esse nome se casou com mamãe, ainda em Recife, onde sofria tenaz perseguição da polícia política pernambucana. Quando aparecia qualquer pichação na cidade com o timbre do Partido Comunista, ele era chamado a prestar depoimento e invariavelmente detido. Então resolveu fugir com a mulher e os dois primeiros filhos, Nadedja e eu, ainda bebês.

Fugiram para onde? S.C. – Para João Pessoa, na Paraíba. Ele ingressou na Polícia Militar, que estava precisando de barbeiro. Um ano depois, suspeitando ter sido reconhecido por um oficial na barbearia do quartel, resolveu fugir para o Ceará. Minha mãe contava que o tal oficial, enquanto era barbeado por papai, olhava fixamente para ele, pelo espelho, e dizia: “Acho que te conheço... mas não sei de onde.” Desta vez a fuga foi para... S.C. – ...Fortaleza. Assistido pelo Partidão, o exbarbeiro Jaime Calado virou repórter de O Democrata. Na época, o PCB tinha um jornal diário em cada capital. Foi como repórter e orador nos comícios do partido que ele se tornou conhecido na capital cearense. Chegou a ser considerado um dos melhores oradores do Estado, o que não é pouca coisa no Ceará. O casal teve mais quatro filhos em Fortaleza: Klara, Marat, Ludmila e Olga. E como terminou a história dele? S.C. – Foi morto por um comando paramilitar fascista na campanha presidencial de 1949, quando Getúlio se elegeu, apoiado, inclusive, pelo Partidão. No dia 29 de julho de 1949, contrariando decisão do Comitê Central do partido, papai resolveu impedir que Plínio Salgado, candidato a presidente pelo PRP, discursasse num comício marcado para a Praça José de Alencar, no centro de Fortaleza. Mobilizou a família – engordada pela presença dos pais de mamãe e seus


Multidão de 5 mil pessoas no enterro E sua mãe também era militante? S.C. – Sim. Papai havia marcado encontro com mamãe na praça às quatro da tarde. Ela chegou pontualmente e, naquele clima de guerra, foi levada à escadaria do teatro, onde o corpo de papai continuava estendido sobre uma poça de sangue. Comunistas e integralistas já se engalfinhavam no meio da praça, enquanto no palanque que papai deixara quase pronto os oradores do partido se sucediam. Mamãe subiu no palanque e também discursou. A Polícia montada invadiu a praça, feriu muita gente, inclusive à bala, mas no balanço final só havia mesmo um morto: papai. E como você ficou sabendo da tragédia? S.C. – Eu estava em casa, no bairro operário do Pirambu, onde morávamos. Minha irmã Nadedja preparava um lanche para nós. Éramos vizinhos de um casal de portugueses simpatizantes do Partidão, donos de uma vendinha, de onde saía o som de um rádio transmitindo ao vivo os acontecimentos da praça José de Alencar. Nossos vizinhos aumentaram o som do rádio para que ouvíssemos o que estava sendo noticiado. Mas nós só conseguíamos ouvir o nome de papai, sem entender o que acontecia. Até que o casal apareceu, em prantos, e nos comunicou o assassinato. O que vocês fizeram? S.C. – Fomos todos para a casa dos vizinhos e ali ficamos, até que, já bem tarde da noite, um jipe do jornal encostou e nos levou para a casa de nossos avós maternos, no centro da cidade. Era lá que o corpo de papai estava sendo velado. A casa, um enorme casarão situado no número 497 da rua Doutor João Moreira, próximo à Praça da Estação, era um misto de pensão e hospedaria, onde se abrigavam cidadãos vindos do interior. Uma fila dava volta no quarteirão. Na entrada, um enorme pote de barro recolhia donativos em dinheiro para a família do morto. O enterro aconteceu na tarde

do dia seguinte, em cortejo a pé. Os jornais da época calcularam a multidão que acompanhou o enterro em 5 mil pessoas. À beira do túmulo discursaram políticos de todos os partidos que apoiaram a eleição de Getúlio.

Minha primeira matéria foi uma coletiva de Brizola O que aconteceu depois? S.C. – Com o dinheiro arrecadado no velório, o partido construiu uma casa para nós no bairro do Pici. E papai virou nome de rua no hoje elegante Bairro de Fátima, que visitei há uns quatro anos. Como vocês foram parar no Rio? S.C. – No início dos anos 1950, aconteceu a grande seca que matou muita gente de fome no Nordeste. Nós fugimos dela num navio da frota do Loide Brasileiro que Getúlio mobilizou para levar mão-de-obra não qualificada para o Rio e São Paulo. Escolhemos o Rio, onde concluí o curso científico (atual ensino médio) e ingressei no jornalismo aos 18 anos. Jornalismo partidário? S.C. – Fui trabalhar como repórter-auxiliar na Imprensa Popular, diário do PCB, enquanto mamãe ia para a oficina como revisora. O jornal só se sustentou mais um ano. Foi um dos últimos da imprensa partidária a fechar as portas. E você foi fazer o quê? S.C. – Na idade de prestar serviço militar, fui “excesso de contingente” do Exército por três anos seguidos. Sem o certificado de reservista, não consegui trabalhar de carteira assinada. Então, sobrevivi nesse período fazendo bicos (basicamente, vendas em domicílio). Quando finalmente fui liberado do serviço militar em caráter definitivo, bati à porta da Gazeta de Notícias – diário de tradição getulista – e fui chamado pelo gaúcho Osmar Flores, secretário da redação, para fazer um teste. Minha primeira matéria foi uma coletiva de Leonel Brizola na ABI. O caudilho havia encerrado um governo badaladíssimo no Rio Grande do Sul – quando, entre outras proezas, nacionalizou a Bond & Share – e se mudara para o Rio, onde anunciou sua candidatura a deputado federal pelo PTB do ex-Distrito Federal. Fui aprovado no teste e Brizola eleito com a maior votação da história do Rio.

Investigadores do Dops procuravam um tal de copidreque Onde mais você trabalhou? S.C. – Da Gazeta de Notícias, pulei, sucessivamente, para O Dia/A Notícia, Luta Democrática, O Jornal, Rádio Mayrink Veiga (brizolista) e Rádio Mauá (janguista). Em novembro de 1968, estava no Correio da Manhã, onde fiquei no lugar do secretário de redação,

Aloisio Branco, que saíra de férias. Sob as ordens de Osvaldo Peralva, o redator-chefe, comandei as edições do jornal que, sem dúvida, contribuíram (mea culpa) para o AI-5, baixado em 13 de dezembro daquele ano. Afinal, o deputado federal Márcio Moreira Alves, autor do discurso que irritou os militares, era um dos articulistas do jornal, ao lado de Hermano Alves, Paulo Francis e outros “inimigos ferrenhos da ditadura”. Você era chefe no Correio da Manhã e não sofreu nada? S.C. – Foi um dos fatos mais curiosos da minha trajetória. Na manhã do AI-5, eu cheguei em casa da praia e, como sempre fazia antes de entrar no banho, liguei a TV. Em todos os canais aparecia no vídeo um cidadão vestido de preto, óculos fundo de garrafa, lendo um documento com ar de enfado. Era Gama e Silva, o ministro da Justiça, lendo o AI-5. Fiquei sabendo naquele momento que tudo estava proibido, absolutamente tudo. Menos (sorte minha) ir à praia. Quando o cara acabou a leitura, voltei para a praia e dei a notícia aos amigos frequentadores do Posto 9, ali em frente à antiga rua Montenegro (hoje, Vinícius de Morais). Muitos não acreditaram no que eu dizia e foram para casa conferir. O meu chefe do copy no Correio, Mário Rolla, foi dos poucos que acreditaram e com ele fiquei o resto do dia na praia. Só saímos para comer algo e acompanhar o resto dos acontecimentos pela TV lá de casa. Você não foi trabalhar? S.C. – É claro que não fui. Quem foi à redação se danou e dormiu várias noites no xadrez do Dops, que ficava ali pertinho do jornal (rua da Relação com Gomes Freire). Deixei passar uns três dias e liguei para o jornal. Fui atendido pela editora de moda, Germana Delamare. Ela me contou que toda a cúpula do jornal, inclusive dona Niomar, fora presa. Muitos redatores e repórteres também. Naquela manhã, um grupo de investigadores do Dops voltara à redação procurando um tal de copidreque.

Fui editar a seção de culinária Seria o chefe do copidesque? S.C. – Rindo muito, Germana me disse que, debaixo de porrada, quando perguntados sobre determinados textos que haviam assinado na última edição do velho e aguerrido Correio da Manhã, alguns repórteres disseram não ser os autores daqueles textos. “Isso foi coisa do copy desk!...”, afirmaram. O jornal foi comprado por um grupo de empreiteiros, liderados pelos irmãos Alencar – um deles, Marcelo, virou governador e hoje é um dirigente tucano. Para não ser demitido por abandono de emprego, voltei a trabalhar. A redação era um deserto. Trabalhou sob censura no Correio? S.C. – Minha primeira tarefa foi editar a seção de culinária. A editora me avisou: “Na sala que era do Peralva

Março 2012

filhos e netos – para a tarefa de preparar panelões de angu com pimenta para jogar nos galinhas-verdes que se atrevessem a aparecer na praça. Habilidoso artesão, ele mesmo montava os palanques sobre os quais discursava. Estava ocupado nessa tarefa quando alguém lhe cochichou que os fascistas estavam espancando um estudante no interior do teatro. Ele largou as ferramentas e correu em direção à porta do teatro. Ao pisar no segundo degrau da escadaria que levava à entrada principal do teatro, foi golpeado na cabeça e caiu, desacordado. Um homem, que mais tarde se soube ser o tenente Bezerra, do Exército, conhecido integralista cearense, deu-lhe um certeiro tiro no coração. Com Bezerra estavam um investigador do Dops cearense e um guarda ferroviário.

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entrevista está sentado um coronel que faz a censura das matérias. Quando acabar aí, me passa que eu levo lá para ele dar OK.” A matéria era sobre o preparo de massas segundo os especialistas italianos. Uma matéria cheia de detalhes à qual dei o seguinte título: “O valor e a importância das massas”. A editora nem olhou o que eu havia feito. Pegou o material e foi para a sala do coronel. Voltou lívida, nervosíssima. A solução foi falar com o novo redator-chefe, Isaac Akselrud, o único não-esquerdista da cúpula. Ele estava malocado numa sala que a gente chamava de Butantã porque lá só tinha cobras. Perguntou-me se eu queria mesmo ser demitido, eu disse que sim. Foi minha sorte. Dias depois fiquei sabendo que os salários começaram a atrasar.

Março 2012

A volta para Vitória

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Foi aí que você se mudou para Sampa? S.C. – Queimado no Rio, entrei de cara como subeditor de educação da Folha de S.Paulo, subordinado ao Perseu Abramo. Depois pulei para o Estadão. Em seguida, estava numa assessoria de imprensa – Impacto

de Comunicação. Foi quando reencontrei num restaurante Henrique Caban, que assumira a administração da redação do Globo na gestão Evandro Carlos de Andrade. “Quer trabalhar no Globo? Se não cometeu crime de sangue, a gente tá aceitando”, ele falou. Fiquei oito anos no copy do jornal. Trabalhei até nos cadernos especiais. Quando você trabalhou na imprensa de Vitória? S.C. - No início dos anos 1980, a convite de Rogério Medeiros, vim para A Tribuna, onde fui editor de local. De Vitória fui para Brasília, onde fiz uma reforma gráfica no segundo caderno do Correio Braziliense. Em seguida voltei para Sampa, a convite do meu amigo José Roberto Buitron, dono da Impacto, já então uma empresa de grande porte. Fiquei por lá uns cinco anos e fui chamado ao Rio pelo Mário Rolla para assessorar Eliezer Baptista, então presidente da Vale do Rio Doce.

Afinal, do jornalismo partidário à assessoria de imprensa, você deu uma volta quase completa. S.C. – Quase. Eliezer estava às voltas com uma tentativa de derrubada no Congresso, encabeçada pelo senador Severo Gomes e apoiada por Ulysses Guimarães. Fiquei cinco anos com Eliezer, no eixo Rio-Brasília, e depois fui para a Brasif, fazer o mesmo tipo de trabalho para Jonas Barcelos, que corria o risco de perder o monopólio dos freeshops de aeroporto por ingerência de políticos brasilienses de olho grande naquele maná de dinheiro em dólar. Depois de mais cinco anos de ponte Rio-Brasília, procurei Hélio Fernandes Filho, herdeiro da Tribuna da Imprensa, que me empregou como editor de economia. Fiquei lá dois anos e resolvi mudar pra Vitória. Cheguei de surpresa, no final do século passado, liguei para o Rogério, que estava querendo voltar a ser jornalista, depois de ter sido primeiro-ministro de Vitor Buaiz. Foi quando ele me encomendou o projeto de uma revista mensal de atualidades. E estamos tocando esse barco. A única grande mudança é que a mensal impressa virou um diário digital. 

Sandra Jabur Wegner hidrovida@hidrovida.com.br

Atividades aquáticas para cadeirantes “Na água, a alma encontra a liberdade que o corpo perdeu” Harold Dull – criador do método de relaxamento aquático passivo Watsu e importante terapeuta corporal

O cadeirante é a pessoa que, por circunstâncias da vida, está forçada a se locomover em cadeira de rodas. Diversos eventos podem levar alguém a essa situação: lesões medulares, sequela de pólio, encefalopatia infantil (paralisia cerebral), amputações, distrofias, entre outros. O fato de alguns cadeirantes não possuírem controle de movimento nos membros inferiores e, em alguns casos, nos superiores também, não os impede de praticar atividades físicas. Pelo contrário, provavelmente essas atividades Ihes proporcionarão momentos mais prazerosos. Nessa realidade, as atividades aquáticas oferecem uma sensação ímpar: a redução da força da gravidade causada pela imersão cria uma sensação de liberdade, e aquela pessoa que está sempre apoiada ou amparada em algum objeto (seja na cama, cadeira, muletas, maca) pode flutuar,

livre, em alguns casos, inclusive, sem a ajuda do fisioterapeuta ou instrutor. A pressão hidrostática facilita exercícios de marcha com parte do corpo submerso, e ajuda na redução de edemas. Além da sensação de liberdade, a água, aquecida, cria uma sensação de conforto, relaxando ainda mais quem pratica nela alguma atividade. As opções para a prática de atividades aquáticas para o cadeirante são inúmeras, desde aquelas com finalidade de reabilitação (hidroterapia) até a natação especial (individual ou em pequenos grupos) e diversos relaxamentos aquáticos (watsu, water dance etc). Essas atividades serão definidas de acordo com as restrições físicas individuais. Entretanto, qualquer um pode praticá-las, inclusive tetraplégicos, dependendo apenas do nível do profissional que o acompanha, podendo utilizar flutuadores para auxiliar, onde for o caso. Lembro que no Parapan, realizado em nossa cidade, participou o nadador mexicano Cristopher Tronco, que não possui os dois braços e apenas uma das pernas e, mesmo assim, conquistou quatro medalhas.

O mais importante é que devemos oferecer oportunidades para corpo e mente e, assim, crescer, aumentando o universo de interesses, o prazer e, consequentemente, a qualidade de vida. Essa deveria ser a nossa filosofia de vida, cadeirante ou não.  Dúvidas sobre o assunto podem ser esclarecidas através do e-mail hidrovida@hidrovida.com.br

Cristopher Tronco, atleta mexicano, disputando uma prova na Olimpíada de Pequim


Lilibeth Cardozo

lilibethcardozo@hotmail.com

Foto Leo Pessanha

Hoje encontrei Ary, o Barroso, ali no Leme, em frente ao Fiorentina, lugar de muitos artistas, muitas histórias. Ele estava sozinho, sentado numa mesa de bar, com as pernas cruzadas e braços apoiados numa cadeira vazia. Olhava o mar. Todo vestido com terno e gravata, chapéu elegante. Ary sozinho era sinal de composição amorosa, quem sabe riscando o nome de alguém de seu caderno? Ou seria aquele coração explodindo de brasilidade compondo Aquarela do Brasil? Procurei um reco-reco na mão, um pandeiro ou um violão. Nada! Acendi um cigarro e fui lá, conversar com Ary. Contei umas coisas pra ele; pude até falar uns segredos do quase namorado que me acompanhava. Falei de política brasileira, daquele marzão ali em frente, do calor forte que resfriava com a brisa da tarde e perguntei pra ele: Isto aqui, o que é? Ary ficou calado, me olhando. Acho que ficou pensando: “Mulher mais desinibida! Como chega assim, na minha mesa e vem falando?” Cheguei mais perto e sentei numa cadeira vazia ao lado dele. Tinha uns segredos pra contar e umas coisinhas que queria saber. Achei que ele queria uma cerveja geladinha, mas me enganei, mesmo que ele tenha dito um dia que se a saudade apertasse, pra ninguém se perturbar e afogar a saudade nos copos de um bar. Continuava quieto e parecia estar cantando para os lábios que beijou, mãos que afagou. Seriam talvez as lembranças da morena nas coisas do carnaval. Afinal, a morena dele era um desacato. Ou seria a morena boca de ouro que o fez sofrer, que o queimou nas brasas vivas do seu amor?

De morena o Ary entendeu e até ao Senhor do Bonfim ele pediu: “Arranje outra morena igualzinha pra mim”. Lembrei logo dele dizendo, aos suspiros, que amor é bobagem que a gente não explica, prova um bocadinho, fica envenenado e pro resto da vida é um tal de sofrer.... Mesmo com ele calado, lembrei pra ele, que dizia que mesmo a tristeza sorri, do quanto andava triste. Mas Ary fica ali, quietinho, mostrando pro Rio que nem adianta fazê-lo de bronze, pois seu coração anda solto por aí, vivo e pulsando, fazendo o canto de muitas rodas de amigos, cantores, cantantes e amantes. Até comentei com ele o quanto seria bom que políticos gostassem de ouvir música e ficassem relendo suas letras lindas. Quem sabe as cores da Aquarela do Brasil ganhariam umas novas cores e aqueles que governam ensinariam às crianças as letras que escrevem a nossa história? Abracei o Ary e deitei no seu ombro. Fiquei ali pensando, Ary morreu e percorreu este país, e quando compôs Rancho Fundo fez versos de poesia de nenhum poeta maior. Ary escrevia o Brasil e Brasil, quebrando nas quebradas. Falei pra ele que o povo anda do mesmo jeito, trabalhando como louco, mas ganhando muito pouco, por isso vivendo sempre atrapalhado, fazendo faxina, comendo no “China” e faltando um zero no ordenado. Meu namorado me fotografou ali, sentada ao lado do grande poeta e guardei as fotos pra exibir pros amigos. O novo namorado até curtiu me ver conversando com o Ary. Foi um encontro tão carinhoso, tão simpático que nem contei pra ele que tem pai e mãe deixando criancinhas dançando ao som de

funks com letras pornográficas e nem ensinam mais cantigas de ninar. Eu não queria deixar que ele ficasse triste comigo e andei anos e anos pra trás, fingindo que estávamos nos anos de 1900, numa mesa de bar, comemorando seus sucessos e cantando juntos a união de poesia e música. Deixei Ary do mesmo jeito: elegante, pensando no Brasil e fazendo música pra eu ouvir e cantar em 2012. Meus leitores, vão lá de vez em quando visitar o Ary Barroso; ele parece gostar! E não se esqueçam de dizer pra ele que o Drummond também escuta todo mundo sentado num banquinho da praia de Copacabana. Pra esses imortais vale muito a gente contar nossas coisas e fazer perguntas. As respostas? Ah, as respostas a gente lê nos livros das histórias de suas vidas, na poesia que fizeram do Brasil em que viveram! Volto pra conversar com o Ary qualquer hora dessas e vou aproveitar pra levar um papo com o Drummond. Qualquer dia vou conversar com Chacrinha pra dar umas boas gargalhadas e com Pixinguinha, lá na travessa do Ouvidor, para ouvir ele cantando Carinhoso ou dizendo pra mim o que já escreveu há muitos anos: “Fala baixinho só pra eu ouvir, porque ninguém vai mesmo compreender...” 

EU E OS MENINOS Em abril, no Teatro dos 4 estréia a peça “Eu e os Meninos” de André Pellegrino, João Sant’Anna e Daniel Zubrinsky. A direção é de Bernardo Jablonski e de Cico Caseira. O espetáculo está em sua quarta temporada, tendo passado pelo Teatro do Anônimo, Teatro O Tablado, Teatro dos Grandes Atores e agora chega à Gávea. A peça é uma sátira de temas bíblicos. Com um texto original e uma estética envolvente, a vida de Jesus é contada desde sua infância, passando pela adolescência até a chegada da vida adulta, além de abordar a relação entre Jesus Cristo e Judas. O elenco composto por 17 jovens artistas conquista a plateia com uma linguagem leve, dinâmica e descontraída, fazendo uso de um humor ácido, inspirado no grupo britânico Monty Python.

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Meu encontro com Ary Barroso

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saúde e bem-estar

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Faça as pazes com seu corpo!

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Ao praticar Pilates você irá se sentir melhor. Terá uma melhor postura, melhor coordenação, melhor amplitude de movimentos e maior tonicidade muscular. No nosso Estúdio cada aluno é considerado único: depois de uma avaliação, os exercícios são dirigidos à necessidade especifica desse aluno, para criar um corpo harmonioso e com grupos musculares bem equilibrados. A coluna, bem alinhada e alongada, faz com que algumas pessoas afirmem que ficaram mais altas. Ao trabalhar os músculos posturais e do centro do corpo, a postura melhorará significativamente, ajudando-o nas suas atividades diárias: as horas ao computador, tratar dos filhos ou netos pequenos, carregar as compras do supermercado. Uma enorme percentagem dos alunos afirma também que o trabalho calmo e objetivo sobre o corpo lhes proporciona um maior equilíbrio emocional. Unimos aos fundamentos de Pilates, fundamentos de treinamento resistido, plataforma vibratória, antiginástica, aeróbico e proprioceptivo tornando o trabalho variado e desafiador, sempre procurando motivar os alunos ao máximo. No nosso Estúdio as aulas são personalizadas, pelo que a cada aluno é dado o seu próprio programa de exercícios, que fará parte da rotina da sua aula, sendo desenvolvido e alterado ao longo do tempo. Para nós, cada aluno é detentor das suas próprias especificidades, para as quais é preciso adaptar, desenvolver e mesmo criar novos exercício e desafios. Para nós, o importante são as pessoas, não a técnica por si só. Ela deve existir como um instrumento teórico e prático, mas sempre dinâmico, e não como algo rígido que sirva a todos da mesma maneira.

Há alunos para os quais é necessário utilizar diferente material de apoio de forma a posicioná-los corretamente na execução do exercício. Para outros é necessário alterar o padrão respiratório. Ainda para outros, o que resulta é fornecer uma informação diferente da habitual. Para nós o importante é que o aluno se sinta confortável e motivado com seus treinos, e assim atinja o seu potencial máximo durante os treinos.  Ana Cristina de Carvalho www.pilatesvilla90.blogspot.com anacris.c@terra.com.br

Maria bel Baptista flordecamalote@yahoo.com.br

Sinônimos do Amor Incrível: o Amor O que traz uma decepção no Amor O que faz uma dor sem cura O que transforma o que é vivo em morto Espantoso: o Amor Quem assassinou quem Quem deixou quem Quem matou alguém Inexplicável: o Amor Alguém matou ninguém Ninguém não deixou alguém A decepção matou o Amor Estranho: o Amor O poder mata A dor assassina e o que era vivo morre Excêntrico: o Amor Sobrevive a dor a perda o poder e a morte Singular: o Amor Ninguém inventa o Amor Alguém ultrapassa seus próprios limites de poder de perder de doer e de morrer e o Amor resulta assim: extraordinário!


Alexandre Brandão xanbran@gmail.com

No Osso

Cuba vive uma ditadura. Ponto final. Ou ponto e vírgula, sinal que induz a tomar fôlego e completar o raciocínio. Ditadura engendrada no maior movimento revolucionário da América, justo aquele que encheu muita gente de esperança e influenciou seu jeito de viver vida afora. Há coisas interessantes feitas sob o manto do socialismo cubano. O país tem medicina de boa qualidade e nível de escolaridade alta, por exemplo. Todavia, não apenas pela pressão dos EUA, particularmente depois do fim do império soviético, os ganhos se deram à custa do cerceamento da liberdade. Recentemente, a presidente Dilma esteve em Cuba e deu uma mancada ao fugir do debate sobre a existência de presos políticos e de outras formas de constrangimento individual naquele país. Não bastasse negar-se a falar da situação, jogou luzes sobre o absurdo de Guantânamo e, dando mostras de um comportamento de líder justa e altruísta, chamou a atenção para o fato de a situação brasileira, no que tange aos direitos humanos, não ser exemplar.

Muito bem, não discordo da presidente, a situação nos EUA e no Brasil tem de melhorar muito, mas e a de Cuba? O Brasil não quer fazer mais negócios lá? Então, bom momento para pressionar positivamente o país, clamando por maior liberdade. Quando for aos EUA, Dilma que trate de falar de Guantânamo. E, quando estiver no Brasil, arregace as manguinhas e cuide dos problemas de cá. Tenho imensa simpatia por Cuba, até mesmo por seu ditador-mor, Fidel Castro. Mesmo cometendo erros, o país se arriscou a seguir adiante com aquela ideia (hoje chamada de maluca) de socialismo. Todavia, um país socialista, ao garantir o bem da coletividade, minorando as diferenças, deveria promover as individualidades. No socialismo, a individualidade não seria essa nossa - agarrada ao direito ao consumo desenfreado - e se basearia fortemente na liberdade de expressão e no compromisso de criar mentalidades críticas. Seria algo mais elevado. A diminuição das diferenças materiais entre os indivíduos deveria estimular o aumento de suas outras diferenças. Cuba, ao negar essa face da complexidade social, derrapa na curva. Pena. Que raio caiu sobre minha cabeça para me meter em análise tão rasteira e desentendida da política internacional brasileira e do modelo de socialismo cubano? Tem a ver com a proibição de Yoani Sánchez vir ao Brasil. Pela décima nova vez, o governo cubano proibiu a moça de sair da ilha. É uma questão seriíssima. E, do ponto de vista cubano, burra. Com a proibição, a imagem do país piora numa extensão maior do que ocorreria com as acusações que ela viesse a fazer. Yoani Sánchez estudou filosofia e gosta de internet. É da geração Y (nome de seu blog, plataforma a partir da qual dialoga com o mundo), gente nascida na década de 1970 e batizada com nomes em que aparece a letra Y. Jovem. Inconformada como devem ser todos que se deparam com a delinquência das ditaduras. Corajosa, pois não se cansa de denunciar as atrocidades cometidas pelas forças governamentais, como a que recentemente levou à morte o ativista político Wilman Villar Mendoza. Na versão oficial, um marginal em greve de fome para angariar a simpatia das pessoas. Negar a essa moça que circule no mundo faz com que eu reforce minha ideia de que Cuba não passa de uma ditadura, uma droga de ditadura. Mesmo que a medicina de boa qualidade esteja disponível a todos, Cuba é um país menor. Mesmo que todos estudem, Cuba é um país menor. Será que um dia Yoani Sánchez vem? Não estou otimista. 

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Yoani Sánchez não vem

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capa

Mulheres de fibra

Dedicado especialmente às mulheres da minha família e as minhas amigas. Aos meus amigos homens, amantes das mulheres. A todas as mulheres que conheci quando, nas entrevistas, me metia na vida delas. A mulher que gerei, minha filha Helena.

A Folha Carioca homenageia, no mês da mulher, comemorado no dia 8 de março, narrando algumas histórias que valem ser contadas

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Lilibeth Cardozo

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No dia internacional da mulher há que se pensar em todos os dias das mulheres, na peculiar natureza feminina, nas mulheres que nos fizeram meninos ou meninas, homens e mulheres que hoje somos. São muitas as mulheres de fibra que nos rodeiam: avós, tiasavós, mães, filhas, irmãs e as tantas mulheres que encheram de vida e de saber, coragem e determinação seus filhos, seus homens, seus amigos, seus empregados, seus empregadores e todos que rodeavam suas vidas como barras bordadas de saias que rodam pela existência de cada um que foi gerado no aconchego de um útero. Pelo Brasil afora, na cidade, conversas, falas que emocionam como ouvir uma mulher muito pobre dizer que teve 13 filhos e, afagando a cabecinha de um único menino de 7 anos, afirmar: “Morreu tudo anjinho, moça. Noitece bom, manhece morto”. E ela acreditava ser assim mesmo, coisas da vida! Uma outra, dona Mariana, nos diz: “O que mais temos se não este breve intervalo entre viver e morrer. Nascemos para morrer!”. Terezinha, uma simples costureira da periferia, referindo-se a sua vida sexual e como evita filhos diz “Sei nada não. Ele que sabe. Só sei que sirvo a ele, fico prenha e o menino nasce”. Uma migrante nordestina, mãe de 9 filhos, perguntada sobre a data de nascimento de seus filhos, esclarece: “Sei nada de data. Aqui a gente sabe se nasceu perto de São João, perto do dia da Santa, do Natal, da colheita, da praga no algodão, no inverno ou no verão. Ninguém teve registro”. Pesquisando nas favelas cariocas é possível ver como a vida, esse tênue fio se sustentado

Samantha: meus filhos são o meu prumo, minha razão, minha emoção

por amor e dedicação de uma mulher. Uma pesquisadora nos conta: “Eu, muito menina, com 18 anos, entrevistava uma mulher pobre, elegante e distinta, talvez com uns 40 anos, mas para mim era uma senhora de idade. Ela, mãe dedicada e amorosa, relutante em me dizer como mantinha os filhos, me disse: ‘Você é tão novinha pra saber dessas coisas: sou mulher da vida, minha filha! Enquanto as crianças dormem vou pra vida, passo a noite inteira na zona, tenho vergonha, mas de manhã trago o pão deles. Não consigo emprego porque tenho que cuidar deles de dia’. Saí daquele barraco conhecendo uma doída e bela página da vida”, nos declara a pesquisadora! Outras, outras tantas histórias da garra e dedicação... Podemos ver mulheres chorando nos vincos marcados no rosto, sem lágrimas, fervendo água e açúcar para alimentar um filho que grita de fome. E ali, numa favela dentro da cidade. Inesquecível ver uma delas que mostrou os dedinhos das crianças roídos pelas ratazanas que passeavam em volta de seu barraco no alto de uma favela da Zona Sul carioca. Uma outra, com três filhos pequenos, que vivia sem o marido que a abandonou, morava num

daqueles antigos apartamentos do BNH nunca terminados, muito limpo e bem cuidado e não tinha nenhum receio em dizer; “Na rua não moro com eles! Esse apartamento é invadido. Quando perco um, invado outro. Isso aqui, desses apartamentos, é muita bandidagem e proteger filhos não é ser bandido. Bandido é um pai que abandona os filhos. Não roubo, só pego emprestado por um tempo. Quer um chá? Aqui não tem café. Café é caro demais. Chá é só umas folhinhas e água. Pobre tem que saber viver!” Mulheres de fibra, mulheres desfibradas, mulheres desfibrando sem comida, pobres, pele e osso, viam minar de seus seios o alimento único, muitas vezes de mais de um filho: o recém-nascido e o outro de dois anos. Mulheres machucadas por seus homens, outras afagadas por seus maridos. Conversamos com mulheres que choravam, mulheres que sorriam, mulheres no auge da juventude que pareciam idosas, mulheres idosas que tinham força de jovens... Mulheres, todas, da vida, pela vida e dando vida! Mulheres vincadas pela dureza de tantas lutas, precisando de cuidados, um bisturi para lhes devolver a saúde


Mulher guerreira, que de cabeça erguida luta com as batalhas do dia a dia, não se deixando desanimar

num banco de ponto de ônibus em Copacabana. Ela não quis nos dizer seu nome e só nos disse que queria ir para a Central, onde pegaria o trem. Perguntamos para onde iria e ela respondeu: “Pra muito longe, muito longe mesmo”. Com uma placa pendurada no pescoço, onde havia uma inscrição louvando a Deus, ela carregava uma bagagem arrumada em trouxas e sacolas. Nos vendo com a máquina fotográfica, disse irritada: “Não tira foto minha não, isso de retrato é coisa do diabo”. Depois de uma conversa tiramos a foto e ela blasfemou: “Agora que tirou, fica! Eu quero é ir embora pro meu canto lá longe... Sou lá mulher de fotos? Sou é de guerra, de trabalho pra sobreviver. Foto é pra revista que rico vê”.

Patrícia Tolmasquim é uma mulher de fibra e acaba de receber da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, o Diploma Mulher-Cidadã Leolinda de Figueiredo Daltro. Carioca dos anos 60 integra a geração que foi educada no Brasil dos “Anos de Chumbo”. Venceu, cresceu e ganhou a fibra de mulheres fortes. Hoje casada e com três filhos, igualmente de grande fibra e ciosos do papel de cidadãos, tem uma família de grandes conquistas a partilhar com o povo carioca. Quando adolescente Patrícia já se movimentava politicamente e se integrou o Movimento Juvenil

Socialista Judaico. Àquela época se apaixonou pela educação e fortaleceu as bases de seu desejo por justiça social, um princípio judaico que cultiva desde então. Sempre lutando com muita garra, nos anos 90 coordenou o Projeto “Meninas da calçada” trabalhando com meninas em situação de risco social, cujo objetivo era respeitar as meninas em sua atuação e capacitá-las para se tornarem trabalhadoras independentes. Em 2002 abraçou o projeto da atriz Cristina Pereira e coordenou na Casa da Gávea a “Bolha Psi” do Projeto “Olha pra Mim” que atendeu meninas e meninos de rua da região do Leblon, Gávea e adjacências. Foi nesta época que Patrícia conheceu Regina Luz, a fundadora da Folha Carioca. Em parceria com a Pastoral do Menor, a guerreira Patrícia passou a ministrar cursos de desenvolvimento psicológico de meninas aos professores e agentes de disciplina do Sistema Degase (Departamento Geral de Ações Socioeducativas), que tem a responsabilidade de acolher, cuidar, acompanhar, atender e tratar o adolescente em conflito com a lei, bem como seus familiares, objetivando sua reinserção na sociedade pela execução de medidas socioeducativas e o acompanhamento de egressos. Na Rede Rio Criança ela ministra cursos de formação para Conselheiros Tutelares. Sempre preocupada com as mulheres carentes ela realizou o atendimento psicoterápico e psicopedagógico das “Mulheres do Salgueiro”, comunidade do município vizinho de São Gonçalo, para dar vazão aos seus traumas e ajudá-las em sua luta diária. Voltada para as lutas sociais com propósito de dignificar o ser humano, Patrícia é uma das fundadoras do Movimento Candelária, que há 18 anos organiza a “Caminhada em Defesa da Vida pelo fim das chacinas na cidade do Rio de Janeiro”. Em 2010, criou a vigília

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e que nunca pensariam em tê-lo tão somente para serem belas. Mulheres cariocas do Brasil, parindo e criando os filhos do Brasil. Mulheres que nos orgulham de sermos mulheres, brasileiras, guerreiras! Vimos meninas crescendo e virando mulheres. Mulheres envelhecidas trabalhando na construção de suas famílias, transformando suor e sangue em alimentos que sustentavam suas proles; arrancando com as unhas os frutos da terra; cortando com foices o verde que brota, viçoso. Mulheres na miséria, quase nuas, mas na orelha, no pulso ou no pescoço um adorno de vaidade; um espelho, um batom, uma tinta nas unhas. Um olhar maroto permitindo a corte masculina. Mulheres a quem ninguém ensinou ou impôs limites descabidos e elas, como os sentidos como a fome e a sede, naturais, sabem ler como ninguém as maravilhas do sexo, do prazer de integração dos corpos e não são pornográficas sendo naturalmente sensuais. Vimos mulheres que curam outras mulheres; mulheres que ajudam outras mulheres a prepararem outras pessoas e fazerem nascer seus filhos. As que se ajudam, se entendem, brincam, conversam, cantam. Mulheres que banham as crianças, cuidam dos velhos, preparam os alimentos, descobrem na terra, nas florestas, nos jardins as seivas da vida, que amenizam dores e fazem as belezas florescerem no meio do mato ou nos laboratórios do mundo, transformadas em cosméticos caríssimos, vendidos nos grandes centros. Bordadeiras, empresárias, criadoras, famosas, anônimas, curandeiras, fiandeiras, artesãs da vida... Vimos mulheres guerreiras das grandes cidades cuidando de seus filhos, penduradas em trens, ônibus ou caminhando a pé. Mulheres que dirigem carros, dirigem empresas, comandam, decidem, opinam e cuidam de seus maridos, seus filhos, seus mimos e ainda enfeitam de flores seus cabelos, a casa, o jardim, a vida... Nas mulheres vemos o ninho onde existe calor e aconchego para germinarem as sementes dos homens, pais, bravos guerreiros que amam, admiram, buscam, encontram ou procuram, sempre a fêmea, a companheira, a amiga, a mãe de seus filhos. Mulheres, fortes ou fracas, belas ou feias, chorando ou sorrindo. Mulheres, luas das noites insones de seus filhos, de seus homens, de seus amigos. Mulheres que ensinaram, que ensinam, que ensinarão. Encontramos uma mulher de fibra sentada

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Patrícia (esq.) e sua família. Engajada em movimentos sociais, sempre pronta para ajudar


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da Candelária, que ocorre na noite anterior à Caminhada, com o objetivo de dar suporte espiritual e emocional às mães e parentes das vítimas de chacinas no Rio de Janeiro. Patrícia é também membro da Coordenação Colegiada do Movimento Nacional de Direitos Humanos e integra várias redes sociais importantes, sempre focada na luta por direitos humanos, das mulheres e crianças em especial, tais como a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa e Rede Rio Criança. No projeto Fazeres da Memória seu trabalho segue capacitando mulheres das comunidades da Maré, Vidigal e Alemão visando à importância do registro de suas histórias e memórias. Patrícia, com sua fibra, é uma das ainda criadoras do Museu da Memória. Museu ambulante montado duas vezes ao ano nas ruas da cidade do Rio de Janeiro com objetos das vítimas de chacinas e de situações de clara violação dos Direitos Humanos pelo Estado. O trabalho e a militância da professora Tolmasquim beneficia a todas as meninas e mulheres em sua luta por uma sociedade mais justa, mais igualitária e mais equânime.

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Dona Agnes, mulher meiga, para ela a vida é bela e deve ser respeitada por todos de forma igual

Dona Agnes é carioca há 65 anos e veio do Sergipe. Aqui se formou e passou uma vida ensinando. Trabalhou como nutricionista, mas foi no magistério, como professora de arte que trabalhou, formou e despertou em seus alunos o prazer de viver olhando o mundo com as cores, brilhos e sons das expressões artísticas. Hoje Dona Agnes está com 75 anos e nos diz que gosta de seu anonimato, suas caminhadas pela cidade, no meio do povo, observando os passantes pelas ruas, dentro dos ônibus, como diz ela: “Observando como as coisas são”. Dona Agnes é daquelas mulheres que admiram as diferentes expressões do homem em suas múltiplas e individuais condutas no viver. Casada com um grande psiquiatra, escritor, poeta e colecionador de livros, ela, mulher de fibra, está sempre com um semblante de paz e tranquilidade, mesmo diante das duras cascas fibrosas que teve que desfiar ao longo da vida. Ela nos conta de suas perdas e sua memória guarda dores que a fizeram cada vez mais forte. Mãe de um casal de filhos e avó de dois netos, teve perdas que nunca mais pode ou poderá esquecer. Ela nos conta: “Meu pai morreu em minhas mãos no dia em que comemorava suas bodas de ouro.

Nunca pude esquecer aquela perda”. A força de D. Agnes não tem voz em tom alto, não tem trejeitos de mulher poderosa. Miúda, elegante e simpática tem na filha (outra mulher de fibra, nos diz ela), nos netos, na arte, na música e em sua devoção religiosa, o alento para continuar vivendo depois de ter tido seu adorável filho João - um biólogo, pessoa admirável como cidadão - levado por correntezas encachoeiradas da serra fluminense. A morte brutal de seu filho a despedaçou, mas não lhe roubou aquele ar de mulher que constrói sempre. Ela, mulher de fibra diz: “Sou simplesmente uma mulher e gosto de andar pela cidade, apreciando o movimento de diferentes pessoas, vendo como as coisas são. Ensinei a meus filhos e a meus alunos a arte de fazer e apreciar a arte. E creio que aprendi a arte de viver”.

Samantha é uma mulher de fibra sem dúvida alguma. Linda, alegre, criativa e dinâmica. É daquelas mulheres que tem uma beleza de dar inveja nas outras mulheres e os homens se encantam em vê-la. Sua beleza vem de dentro e explode em seu sorriso feliz e no brilho de seus olhos azuis. Mulher de fibra, vigorosa, nos contou com alegria os prazeres em ser mãe e derrubar os muros de lamentações por ter um filho que teve câncer e perdeu a visão. O depoimento da Samantha emociona. Ela nos disse: “Dizem que a vida é determinada pela razão ou pelo coração. Minha vida foi diferente. Quem determinou meu destino foi o útero. Com 27 anos era mãe de Luíza, Igor e Caio. Atarefada, jovem e dividida, entre a vida que corria lá fora e o leite que escorria do meu peito. Amamentei meus filhos por um ano e fui mãe de leite de mais alguns bebês. Acalentar e ser o centro de suas atenções era meu cotidiano. Eu me sentia a pessoa mais importante do mundo. O tempo correu. Divorciei-me e passei a viver sozinha com as crianças. Aos seis anos, meu filho caçula, Caio, apresentou desequilíbrio emocional, físico e psíquico. Todas essas observações foram colocadas pela escola. Procurei terapia e pediatra. Seis meses se passaram até que veio o diagnóstico certo: Caio tinha câncer no cérebro. Um tumor raro, maligno, que mudaria nossos dias dali pra frente. Dividir a dor com os amigos, parentes ou mesmo com os mais novos conhecidos foi fundamental para que eu conseguisse continuar apoiando meu filho. Nada era fácil. A operação, a radioterapia e a quimioterapia se mostraram avassaladoras. Caio tornou-se deficiente visual e a busca pela adaptação nos levou ao Instituto Benjamin Constant. Nem em meus mais terríveis pesadelos pensava

Samantha e Caio: ela espalha a alegria e compartilha dignidade e eterno amor aos filhos

que meu filho fosse um “coitadinho”, pelo contrário; Caio, um guerreiro, enfrentava a tudo como um herói: forte, bem disposto e seguro. Até hoje não sei como conseguimos esse resultado; imagino que seja fruto do imenso amor que trocamos. No IBC aprendemos, eu e o Caio, a sermos cegos, a entender, a conviver e admirar os deficientes visuais, que povoavam as nossas vidas cheios de alegria, sonhos e desejos. Aprendi rapidamente a escrever em Braille e não tardei a trabalhar como recreadora com aquelas crianças. Foi um período enriquecedor e feliz de nossas vidas. Mas Caio precisava de mais... Sua curiosidade, coragem e determinação lançaram-no para novos desafios. Incluímos o Caio em escola de videntes; não é fácil, não é simples, mas é a vida que ele escolheu.Com algumas frustrações é verdade, mas repleta de vitórias e novos conhecimentos. Parecia que a vida já estava adaptada às novas limitações. Câncer curado, novo casamento, mais dois irmãos, filhos do meu marido que vieram viver conosco... Foi quando Caio começou a apresentar problemas neurológicos, ficou epilético e hoje é preciso fazer uso de remédios que o equilibrem. Meus filhos são o meu prumo, minha razão, minha emoção. Hoje aos 44 anos continuo disponível para ampará-los e apoiálos em suas decisões. As aventuras não são exclusividades do Caio. Igor e Luiza também se entregam à vida e ainda precisam de mim. Que bom! Quando nós, mães, mulheres, sensíveis e fortes que somos, abraçamos a vida com todas suas complexidades, surpresas, dissabores, amores e alegrias, somos capazes de curar, amparar e enriquecer. Não sou a única mulher que conseguiu ajudar seus filhos em momentos tão doloridos, apenas quero dizer pra todo mundo que vale a pena.” No Rio, cariocas, como em todo o Brasil e no mundo, são elas, as mulheres que guardam no corpo os ovos que quase invisíveis abrigarão os novos cariocas, os novos brasileiros. E as mulheres têm fibra! 


XXVI LEILÃO LIVROS RAROS & PAPÉIS ANTIGOS LEILÃO | 24 de março de 2012 às 15h EXPOSIÇÃO | 20, 21,22 e 23 de março das 10h às 18h Local | Livraria Rio Antigo (novo endereço) Rua Gonçalves Dias nº 82 – 101 Centro – Rio de Janeiro / RJ

XXVI LEILÃO

LIVROS RAROS & PAPÉIS ANTIGOS

Local | Livraria Rio Antigo (novo endereço) Rua Gonçalves Dias nº 82 – 101 Centro – Rio de Janeiro / RJ Nas últimas duas décadas, o civilizado hábito dos leilões de livros antigos e raros, assim como de documentos, fotografias e autógrafos, instalou-se de forma definitiva e crescente entre nós. Se os leilões desviaram do mercado direto, nas estantes e por preço fixo, inúmeros itens cujo encontro fazia o júbilo dos buquinistas aplicados, dos bibliófilos garimpeiros, a verdade é que a venda em leilão possibilitou aos proprietários das peças um aaproximação muito mais justa do valor real das mesmas, tal como enriqueceu todos os interessados com uma importante bibliografia de catálogos, muitas vezes comportando uma iconografia notável. Nessa recente tradição um dos lugares mais importantes pertence à Livraria Rio Antigo. Cada catálogo de leilão da livraria traz, de fato, acréscimos ou correções às bibliotecas tradicionais – o trabalho do bibliógrafo é sempre uma ingrata e imperfeita tarefa – que outorga a eles um valor cultural autêntico, para além da sua precípua função comercial. A verdade é que o comércio de bens culturais possui, intrinsecamente e em todo mundo, uma grande importância na conservação e transmissão do patrimônio dos povos, e talvez ainda mais, infelizmente, nos países com uma política patrimonial incipiente. Para comprovar isso basta uma rápida comparação entre o estado de exemplares dos mesmos livros nas mãos de bibliófilos com aqueles guardados pelo poder público, com as honrosas exceções de sempre. Alexei Bueno

Caso possua um livro raro, gravura, documento, autógrafo ou um importante objeto de colecionismo e tenha interesse em vendê-lo, contacte-nos para que possamos promover uma avaliação. Nossos clientes têm tido gratas surpresas! Pelo e-mail: leilao@livrariarioantigo.com ou telefone (21) 2232-2507

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LEILÃO | 24 de março de 2012 às 15h EXPOSIÇÃO | 20, 21,22 e 23 de março das 10h às 18h

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música

E o mundo nunca mais foi o mesmo Um giro pelo mundo da música: dos anos 60 até a atualidade

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George Sauma Jr.

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A consultora de moda Gloria Kalil, comentando sobre a evolução de costumes e moda no programa Café Filosófico da TV Cultura, disse o seguinte: ”Até os anos 50, o jovem não existia. Ou se era criança ou adulto. E a criança ficava louca para se tornar logo adulta... A adolescência era um período ali no meio, sem muita importância. As roupas eram de criança ou de adulto. No caso dos homens, terno, gravata e chapéu! Hoje, são os adultos que querem se vestir como os jovens e não os jovens como adultos, como antigamente”. Tal afirmação em relação à moda pode ser observada também nas manifestações artísticas musicais. Até o início dos anos 60 os artistas homens sempre se apresentavam em público de terno. Embora com indumentária formal, aquela década foi um período de grandes transformações. Época emblemática que determinou uma série de mudanças de costumes e posturas como, por exemplo, o surgimento do feminismo e a descoberta da pílula anticoncepcional que deu mais liberdade à mulher, impulsionando-a para o mercado de trabalho. Foi uma década de grandes descobertas, tais como: a TV se consolidou como um produto mais bem acabado e iniciou-se a transmissão por satélite; aumentou o interesse pela propaganda e marketing; ocorreram grandes avanços na ciência e na tecnologia; consolidaram-se os movimentos civis em favor de grupos minoritários; ebulição na política com protestos juvenis e o surgimento do “boom” econômico e imobiliário. Neste contexto a produção musical no Brasil também experimentou grandes transformações e avançou por todo o território nacional, alcançando expressão até no exterior. A música, desde a sua criação com os primeiros instrumentos, vem adquirindo as mais diversas formas e denominações, dependendo de seu contexto regional e cultural. Especificamente nos anos 60, a grande transformação se deu a partir do “rock and roll”, ritmo criado em meados dos anos 50, que por sua vez, teve sua origem no blues. Surgido no século 19, o blues era uma espécie de lamento (blues = tristeza), executado pelos negros vindo da África para os EUA que trabalhavam na lavoura. Algo semelhante se deu com o surgimento do samba no Brasil. À medida que o blues era executado, era reinventado. Isto é, uma pequena variação no andamento ou ritmo era suficiente para se obter uma nova denomi-

nação ou estilo: jazz, soul, funk, rock, forró etc. Na sua forma lenta, pode-se compreender como atingiu a chamada “balada” que no Brasil, teve seu equivalente conhecido como samba-canção. Porém foi na junção do trio: baixo, guitarra e bateria que se iniciou uma revolução! O som alto e amplificado (o amplificador foi criado na década de 30, mas desenvolvido nos anos 50), fornecia e atendia à demanda dos jovens com suas danças: twist, chachacha, rock and roll etc. Os principais nomes dessa transição blues-rock foram Chuck Berry, Little Richards e Elvis Presley (tem branco no samba, digo, no rock!). Muitos grupos foram se formando. O chamado rock romântico assume uma posição de liderança, sendo os Beatles o de maior projeção no mundo.

Jimi Hendrix numa apresentação histórica em Woodstock

Os jovens que, naturalmente, têm um comportamento contestatório, logo se rebelaram àquela antiga maneira de ser e vestir e iniciaram um movimento em direção à informalidade: biquíni, roupas psicodélicas - este modelo, inclusive, atingiu a música. O cabelo comprido, por exemplo, dizem ter surgido quando um dos Beatles saiu da piscina com o cabelo molhado e caído na testa. Depreende-se por aí que, qualquer atitude dos grandes mitos da música era avidamente absorvida na intenção de sair do marasmo, do comportamento rígido, de muitas regras e tabus.

Hoje se percebe que toda aquela mudança, além de necessária, tinha valor e qualidade. Basta observarmos as ideias e costumes que, em essência, todas permanecem. Podemos concluir, sem sombra de dúvida, que jamais mudança alguma se comparou em termos de impacto, principalmente por seu caráter definitivo, à da década de 60. A década de 70, na verdade, se anunciou um pouco antes. Em 1969, o festival de Woodstock, que consagrou um rock mais pesado e os chamados “lisérgicos”, ambos influenciados pelas drogas, consolidou um evento que teve grande influência no mundo. A música e estilo do festival, além de assumir um papel de contestação, viraram moda entre a juventude. Era tempo de flower power, o “faça amor, não faça a guerra”. A juventude gritando contra toda e qualquer forma de repressão ou violência. Um posicionamento contra tudo o que estava ali, contra o establishment. O ponto de ruptura chegou ao seu grau mais extremo. Não foi à toa que jovens parisienses picharam a capital francesa com inscrições como “É proibido proibir” e “Não confie em ninguém com mais de 30 anos”. Eles eram jovens e sonhavam. A música popular brasileira – MPB - que já vinha acumulando uma variedade de estilos e ritmos, um mix onde cabia de tudo nesse rótulo (como é até hoje), com o advento do rock, bossa-nova, tropicália, samba, choro, valsa, “música de festival”, carnaval, romântico, dá uma estagnação nos anos 70. Ainda sob a égide da ditadura e censura, vivia-se uma cena árida e melancólica. Não em termos da arte em geral, que era bem profícua, mas do alcance ao grande público. Os meios de comunicação eram bem precários e não mobilizavam as massas como outrora foi, excepcionalmente, a Rádio Nacional. Com a sua extinção, os artistas dessa geração voltaram a se apresentar em boates e teatros populares. Porém, apreensivos com a situação política que se instala no país (os militares haviam tomado o poder), que inicia uma perseguição aos artistas colocando todos sob suspeita da censura. Não só os artistas, mas principalmente, estudantes engajados, políticos etc. Os compositores começam a incluir em suas letras (autores em seus textos) mensagens subliminares, ou mesmo diretas, em oposição ao regime militar. Muitos foram exilados, presos, torturados ou mortos, uma situação que perdurou por vinte anos, que prejudicou e atrasou o país em diversos segmentos. Mas o país não parou por conta disso. Tudo continuava funcionando, mesmo com o que acontecia por baixo dos panos. E na arte os


que conseguiram burlar a censura, produziram muito naquele período, pois há instigação (da criação) na proibição. Mas isso é outra história, vamos voltar à música... Nada chegou a impedir que “as novas ondas adentrassem o gramado”. O fato é que aquele sucesso alcançado pela turma da “velha guarda” jamais se repetiu. Várias vertentes surgiram: o rock progressivo, que unia sofisticação à elementos eruditos; no final dos anos 70, o punk e o heavy metal. No início dos anos 80, o rock Brasil (não que o nosso rock tenha surgido ali), também teve grande repercussão. Com a escassez das casas de shows, eram raros os artistas que lotavam esses locais: alguns remanescentes da Tropicália e grupos de rock que surgiam – o rock, agora, como um termo bem abrangente. Com um público eminentemente jovem e o poder da mídia que engatinhava, era o boca a boca ou cartazes pelos muros que funcionavam. Mas tudo isso ainda eram nichos de mercado. As vendas ainda não eram astronômicas nem os shows milionários, como seriam nas décadas seguintes. Fenômeno igual se deu com o nosso futebol. Mas foi com a “volta” das discotecas, que a música alcançou um patamar jamais imaginado! E estourou nas rádios e pistas do mundo inteiro. Nesse momento a indústria fonográfica, sempre atenta a tudo, percebeu no jovem um potencial consumidor e, tal qual um gigante adormecido, despertou e resolveu investir pesado. As gravadoras, quase todas multinacionais, algumas com filiais já instaladas aqui, decidiram dominar os meios de comunicação ao perceberem neles os principais meios de divulgação de seus “produtos”. Negociaram os horários das rádios e TVs (o famoso jabá) e a rádio FM começou a ser ouvida pela juventude. Não demorou muito e logo os departamentos artísticos se transformam em departamentos de marketing ou comerciais. Era o início dos anos 80 e o fim da arte pela arte. Foi aí que o bolo desandou... Muita coisa ruim vazou, com músicas despreocupadas com a qualidade e mais com o apelo popular, visando o lucro fácil e imediato.

dizendo: “Olha só o que essa gravadora está lançando!” Faço uma analogia: em tese, as gravadoras são como os clubes de futebol. Só cabem 11 em cada time. E mais alguns reservas, que é o mesmo que estar na “geladeira” (o cast deve ser grande para justificar as despesas, you know what I mean). Numa proporção hipotética, como então resolver a seguinte equação: são dez veículos de comunicação ou dez times principais, para dez mil artistas ou o mesmo que almejam nosso querido esporte bretão. Por mais que as gravadoras e os clubes pareçam insensíveis ou mercenários, são empresas. Reféns de uma situação que atinge todos os níveis da sociedade: pouca oferta (meios de comunicação) e muita demanda (artistas). Uma situação cruel e sem saída... Por força dessas circunstâncias quantos profissionais maravilhosos, inevitavelmente, deixamos de conhecer! Faltou falar dos direitos autorais dos compositores, escritores etc. Outro drástico problema pela difícil fiscalização e arrecadação. E ainda a linha tênue entre o que é ou não plágio, discussões infindáveis na justiça. Não que eu seja um saudosista. Hoje, assim como antigamente, há muita coisa boa e ruim. Acontece que antes, como a arte era discriminada e mal remunerada, só decidia ser artista quem tinha realmente muito talento e vocação. Por isso a qualidade transparecia e havia mais visibilidade. Mas, a música boa continua existindo, e o talento sempre estará nascendo. Restanos procurar, garimpar, ser exigente, desenvolver nosso senso crítico e não engolir goela abaixo tudo que as gravadoras nos impõem, decidindo o que devemos ouvir. Mas, agora houve uma reviravolta nessa história. Com a internet os mesmos jovens, antes manipulados, descobrem uma nova forma de se comunicar, interagir e divulgar suas ideias e trabalhos. Fora do controle das gravadoras (o que está sendo tentado desesperadamente) elas veem seus artistas e músicas sendo disponibilizados, para quem quiser ouvir e gravar no seu próprio equipamento em casa! O CD, tal qual o conhecemos, parece estar com os dias contados e o futuro ainda é uma incógnita. Mas, sem dúvida, um David surgiu na vida do Golias. Porém, não se iludam! Diferentemente da fábula, aqui o verdadeiro Golias é tão gigante e poderoso que recebera apenas um forte golpe, podendo despertar a qualquer momento. 

A música digital está cada vez mais presente nas nossas vidas e a internet desenvolveu novos hábitos de consumo

Março 2012

O Tropicalismo foi um movimento de ruptura que sacudiu o ambiente da música popular e da cultura brasileira

Caso os diretores das gravadoras, empregados das multinacionais (é isso que são), não retornassem os investimentos realizados num prazo determinado e com lucro maior possível, eram sumariamente demitidos. São sabidas as brigas homéricas entre artistas e produtores, estes ávidos por enquadrá-los aos ritmos do momento. São raríssimos os artistas que conseguem a não interferência em seu trabalho, correndo o risco de serem dispensados ou amargarem uma “geladeira”, que significa não constar da planilha de execução das rádios e TVs. E o mais lamentável é que somos um povo que, estatisticamente (sim,“eles” trabalham com números!), está provado, consome mais a música menos elaborada e de fácil absorção. As gravadoras, mesmo isentas de alguns impostos por “produzirem cultura”, pagam, em média, 3% aos artistas sobre duvidosa vendagem. Aos que vendem mais, 5%, para não reclamarem e ainda agradecerem. Os que ganham 3% também não reclamam, para não parecerem ressentidos e ainda perderem o emprego. Em 2002 o músico Lobão iniciou um movimento a favor da numeração dos discos, visando um maior controle das vendas e garantir o pagamento correto dos direitos autorais. Parece que virou lei em 2003, mas não sei como anda seu funcionamento na prática. Lembro dele reclamando que não houve uma adesão significativa entre seus pares. Mas, afinal quem, em sã consciência, iria arriscar o emprego, questionar o seu patrão, sendo ele uma multinacional? Você pode se perguntar: “Mas os artistas aceitam passivamente essa condição?” Sim. As gravadoras recebem 97% do valor do produto, porém fazem todo o serviço: pagam estúdio, músicos, capa, prensagem e os principais, execução (divulgação) e distribuição por todo Brasil! Qual o músico independente que tem esta força? Dessa maneira, os artistas alcançam alguma fama e podem marcar seus shows, quando, aí, as gravadoras não interferem. Pronto, está formado o círculo vicioso, onde manda quem pode e obedece quem tem juízo! Aliás, nada disso é novidade no meio musical onde, “todo mundo sabe, mas ninguém quer dizer”, como diz a letra de “Nova era glacial” de Tim Maia, outra voz que era discordante desse sistema. Mas, um momento! Não sejamos tão ingênuos e levianos. Afinal, tudo que conhecemos de bom ou ruim foi através da mídia. E ela deve existir. Até hoje nos beneficiam com trabalhos de qualidade, não se pode negar. Como é verdade também que dos anos 80 para cá piorou sensivelmente, com a imposição de alguns modismos de qualidade duvidosa, e a velha fórmula da repetição à exaustão nas rádios e TVs, com a finalidade de vender mais. Sempre brinco quando ouço uma música na rádio ou TV (mormente quando é ruim),

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Espaço Oswaldo Miranda oswaldomiranda@uol.com.br

Março 2012

O velho Hotel das Paineiras à espera dos grandes eventos No meio da Floresta da Tijuca está o Hotel das Paineiras, abandonado há 26 anos. Leio que vai entrar em obras, com vistas à Jornada Mundial da Juventude, à Rio-20, à Copa de 2014 e às Olimpíadas. A licitação teria sido feita no mês passado e tudo indica que as obras de reforma serão logo atacadas. O hotel, que visitei há pouco, é enorme e está em estado lastimável. Tem histórias. Duas eu conheço. Nele Getúlio Vargas montou a base de sua campanha presidencial de 1950, eleito com larga vantagem sobre o outro candidato, Cristiano Machado. Quando a campanha era feita por aqui e redondezas, eu participava como repórter do vespertino Vanguarda e da Rádio Guanabara. A comitiva

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saía para percorrer bairros, subúrbios e cidades da periferia – a reportagem atrás na cobertura. Sempre tínhamos de conviver com o prepotente tenente Gregório, o famoso segurança pessoal de Getúlio, que se julgava dono dele... Êta figurinha indesejável o tal de tenente Gregório, que mais tarde estaria envolvido no atentado ao jornalista Carlos Lacerda, quando ocorreu a morte do major Rubens Vaz, e aí é outra história. Neste trabalho foram meses, até que em outubro Getúlio estava eleito, agora pelo voto direto, tendo no Brasil democracia, depois de 15 anos de ditadura, o que também é outra história. Não sei se havia uma placa no hotel registrando o acontecimento. Não vi nada. Outra referência que deve ser citada: ali foi a concentração da seleção brasileira de futebol que em 1958 conquistaria a nossa primeira Copa do Mundo, na Suécia, com a explosão de Garrincha e a descoberta de um gênio do futebol chamado Pelé. Procurei e também não descobri placa nenhuma nas paredes, se é que existiu.

Como se vê, em estado deplorável. Vai ser um Centro de Convenções

Olha só a vista da Lagoa

A extensa galeria por onde transitaram Getúlio e os campeões do mundo de 58

Bem, se me lembro aqui estão dois marcos que assinalam a história deste hotel que agora será reformado para abrigar o mundão de gente que virá por aí para as duas importantes realizações esportivas e outras citadas. Oxalá as obras comecem logo, tudo corra como desejado e o histórico hotel possa mesmo estar de portas abertas já em 2013 para abrigar a massa de hóspedes que o procurará para desfrutar, como se vê nas fotos, da vista deslumbrante do Rio que dele se descortina. 

Lá em baixo, todo o bairro de Botafogo


Imagens que falam por si

Carnaval Seguindo o bloco, o catador se encheu de latinhas para reciclagem. 65kg, um quilo a 2 mirréis. Féria garantida. Mas ninguém para comprar. Desconsolado o catador se escondeu atrás do montão da colheita. O carnaval tem contrastes...

Maestro

Março 2012

“São as águas de março fechando o verão. É a promessa de vida no meu coração” – Tom Jobim

Não custa perguntar... O vice-governador Pezão teria feito o teste do pezinho?

mídia

Deu na

MÍDIA GERAL: “Putin presidente”. Eleiçãowoskwa fraudulentawska... // MÍDIA GERAL: “Marcelo Crivela, ministro da pesca”. Ele é da Universal, a igreja dos milagres. Virá por aí o da multiplicação dos peixes? // FANTÁSTICO: “Fumantes passivos respiram 30 por cento mais que os próprios”. Nota 10 para a campanha do Dr. Dráuzio Varela. // ANCELMO GOlS: “Penas do mensalão vão prescrever, diz Ministro Lewandowski. A justiça tarda e... falha. // HOJE: “Mamão tem uma enzima que combate o câncer” Comemo-lo, pois. // O GLOBO: Ano passado a Câmara Municipal prestou 19.539 homenagens e concedeu 13.325 diplomas”. O Legislativo se banalisa. // O DIA: “Irã experimenta mísseis que atingem alvos a 200 km de distância”. Guerra à vista... // ALFA - capa: “Mike Tyson fala de sua nova paixão: pombos”. Bruto, mas sensível. // ÉPOCA - capa: “Chovendo no molhado”. Bom título para o descaso do poder público com relação às enchentes. // JORNAL NACIONAL: “Obama faz discurso em defesa da classe média”. Malandro, na busca de votos... // FORBES: “O Brasil produz 19 milionários por dia”. Fruto da corrupção? // O GLOBO: “... obra cujo custo já é 6 vezes maior do que o anunciado”. É a Cidade das Artes, titulo mais que apropriado - das artes. // ANCELMO GOlS: “O zoo está procurando um novo par para ZagalIo”. Não o tetracampeão, mas o girafa, que ficou viúvo com a morte da girafa Beija-céu. Ah! bom...

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meio ambiente

Março 2012

Protesto contra derrubada de árvores na Gávea

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O Rio de Janeiro está cheio de crimes ambientais não combatidos. Árvores são derrubadas todos os dias. Algumas vezes isso ocorre com a conivência das autoridades públicas, como no caso acontecido na Gávea, em um terreno que fica localizado na esquina das ruas Marquês de São Vicente com Vice-Governador Rubens Berardo. O fato da política ambiental da prefeitura prezar pela prevenção de danos não impede que sejam licenciadas obras e atividades causadoras de impactos ambientais. A prefeitura autorizou – sem consultar a comunidade – a venda de uma área pública para a empresa Engeziler, responsável pelo projeto de construção de um prédio de cinco andares no terreno ao lado. O projeto tramitou pelas secretarias de Meio Ambiente e de Urbanismo, conseguindo autorização em ambas. Pela cessão da área pública, a prefeitura recebeu cerca de R$ 3,6 milhões. Como compensação pelo corte de 17 árvores, estava previsto o plantio de 305 mudas em outros locais. A compensação ambiental, grosso modo, é um mecanismo que objetiva contrabalançar as perdas ambientais a serem provocadas por um empreendimento, mediante a obtenção de ganhos ambientais de valor equivalente, a expensas do empreendedor. Mas quanto vale um belíssimo ipê amarelo, plantado há mais de vinte anos, uma mangueira, jabuticabeiras entre outras espécies que foram derrubadas? Com a licença expedida pela prefeitura, a construtora rapidamente cercou o local com tapumes e em menos de quatro horas derrubou todas as árvores. A população indignou-se. Houve protestos de moradores e uma pronta mobilização da AmaGávea – Associação de Moradores da Gávea - contra a derrubada e venda da área. Inúmeras mensagens de protesto contra a atitude da construtora tomaram conta da internet. Duas moradoras de um prédio vizinho ao terreno, Giulia

Bins Peixe Lima e Mary Bins criaram um perfil no Facebook chamando a população para um ato público e diversos e-mails foram enviados para as autoridades cobrando ação. Após forte pressão popular o prefeito Eduardo Paes embargou a obra. – Havia um terreno da prefeitura, contíguo à área particular, que foi adquirido pelos empreendedores através de uma investidura (cessão de posse). O projeto não estava irregular, mas o fato é que houve um erro interno, que estamos apurando. Por isso, mandei embargar – afirmou o prefeito. Ralph Lifschits, diretor da AmaGávea, se juntou aos manifestantes: – Entende-se que o prefeito não fique sabendo tudo o que suas secretarias fazem dentro do que acham ser legal. Mas a venda de um espaço público a uma empreiteira, uma pequena praça cheia de árvores, não pode ser feita sem consulta à população que este espaço serve. Isto deve se tornar norma. Áreas públicas são do público e não de negociantes instalados dentro da máquina administrativa. Os moradores da Gávea estão indignados com a derrubada de 17 árvores, entre elas um grande ipê amarelo, maravilhoso, que anualmente fazia a alegria de todos na região. Tudo isto para quê? Para que a prefeitura fature pouco mais de R$ 3 milhões e que uma construtora lucre com a construção de mais um edifício. É lastimável! A vereadora Andrea Gouvêa Vieira, moradora da Gávea, questiona o processo de venda da área: - Era um espaço público que transformou-se num lugar de lazer para os moradores da região. A derrubada das árvores durou menos de 20 minutos - disse Andrea. - Como tudo foi feito regularmente, é capaz de a prefeitura ter que indenizar a empresa por causa do embargo. Como um projeto como este tramitou em vários órgãos sem que ninguém o impedisse? Para Maria Amélia Crespo, presidente da AmaGávea, o procedimento foi desrespeitoso com a comunidade: - O corte das árvores repercutiu de maneira bastante negativa para a população. O que fizeram foi um crime ambiental. A mobilização popular não evitou a morte das árvores, mas alertou

Dezessete árvores foram derrubadas em menos de quatro horas

A beleza do ipê amarelo impressionava a todos que passavam por ele

as autoridades para que elas assumam suas obrigações com o meio ambiente, bem como respeitem o direito da comunidade de decidir sobre um bem público e o que os moradores querem para seu bairro. Temos que produzir uma cidade mais digna para se morar. A rápida mobilização dos moradores foi decisiva para que o prefeito Eduardo Paes voltasse atrás e embargasse a obra que havia tomado um pedaço de área pública. Entretanto, infelizmente, o embargo chegou tarde, pois não impediu a derrubada das 17 árvores. Mas ao menos o sacrifício do ipê amarelo serviu para demonstrar que quando os cidadãos se unem, o governo cede. O secretario de Meio Ambiente, Carlos Alberto Muniz se comprometeu com o replantio das árvores no lugar das que foram retiradas. O próximo passo é fazer com que a área se torne uma praça. A vereadora Andrea está sugerindo que se dê o nome de Praça Doutor Clementino Fraga, sanitarista e professor de Medicina, cujo busto encontrava-se naquele local antes da venda para a iniciativa privada. A estátua, que também deve retornar, é de autoria do escultor italiano Giulio Starace e foi inaugurada em março de 1983. Mas isso não será um processo rápido. O terreno agora pertence à construtora, a venda terá que ser anulada ou a área desapropriada. É provável que se tenha uma longa batalha jurídica. Fiquemos atentos para que tudo o que aconteceu não caia no esquecimento! 


A dengue é a doença viral transmitida por mosquito mais comum no mundo, com estimados 50 milhões de casos de infecção por ano. O vírus tem quatro sorotipos relacionados (DENV1, DENV2, DENV3 e DENV4). A dengue é transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, encontrado em locais de grande concentração urbana. Somente a fêmea transmite a doença, quando se alimenta do sangue humano. Ela ataca durante o dia, picando, sobretudo, as pernas. Os ovos são colocados milímetros acima da água, principalmente, em recipientes artificiais expostos à chuva. Quando chove, os ovos eclodem em cerca de 30 minutos e, em um período de até sete dias, passam de larva a mosquito. A transmissão da dengue depende da concentração do mosquito: quanto mais chuva, mais mosquitos e maior transmissão. Por isso, é vital o controle dos criadouros, pois não existe vacina para a doença. A infecção do vírus da dengue ocasiona uma doença de amplo espectro clínico, desde casos pouco sintomáticos até quadros muito graves, podendo levar à morte. Classicamente, inicia-se com febre elevada abrupta associada à dor de cabeça, redução da força muscular, debilitação e fraqueza, além de dor muscular e retroorbitária (conhecida como “febre do quebra ossos”). A febre desaparece entre o terceiro e sétimo dia de doença. Em cerca de 50% dos casos, no fim do período febril, podem ocorrer irritações na pele, especialmente na face, no tronco e nos membros, podendo ser pruriginosas (que provocam a sensação de comichão). Anorexia, náuseas, vômitos e diarreia (pouco intensa) podem também ocorrer. O fim da febre pode dar início a um período de aparecimento de sinais de alarme e agravamento clínico, com aparecimento de sintomas como vômitos con-

tínuos, dor abdominal, hepatomagalia dolorosa (aumento do fígado), desconforto respiratório, sonolência ou irritabilidade, hipotermia (temperatura do corpo abaixo do normal), fenômenos hemorrágicos, incluindo queda abrupta de plaquetas, diminuição ou ausência de urina e derrame pleural, pericárdico e acúmulo de líquido no interior do abdome. Estes sinais são secundários ao extravasamento plasmático, que pode levar ao choque em 24 a 48 horas. Diante disso, é de suma importância o reconhecimento precoce de sinais de alarme para reposição volêmica agressiva, destinada ao aumento da pressão, para evitar a piora da situação clínica, com risco, inclusive, de disfunção de múltiplos órgãos e morte. O risco de epidemia este ano é real e ampliado pelo aparecimento do sorotipo 4 e o ressurgimento do sorotipo 1, com os quais a maioria da população não teve contato prévio. Por isso, a Clínica São Vicente realiza treinamentos para atendimento do paciente com suspeita de dengue. Foi elaborado um protocolo de abordagem no setor de Emergência e em toda a clínica, adequado para as características dos pacientes, adaptado do último Manual de Manejo Clínico do Paciente com Dengue do Ministério da Saúde, disponível desde o final de 2011. Os casos suspeitos são notificados para as autoridades sanitárias. É adequado frisar que o atendimento precoce com avaliação diagnóstica correta e com hidratação venosa generosa é fundamental para uma boa evolução e também para minimizar o impacto das doenças e das mortes. Na epidemia de dengue, o atendimento deve obedecer ao protocolo para agilizar, otimizar recursos e preservar a segurança do paciente. 

Dr. Sérgio Siqueira Diretor médico da Clínica São Vicente Dr. Luís Felipe Camillis Coordenador do Serviço de Emergência da Clínica São Vicente

EMERGÊNCIA

GERAL

Tel.:2529-4505

Tel.:2529-4422

Psicóloga - CRP 05/36016 Gestalt-Terapeuta Especialista em Psicogeriatria (21) 8728-0697 denise_brasil@hotmail.com

Rua Dona Mariana 143, sala C25, 2º andar - Botafogo Medical Center - RJ

Março 2012

A importância do reconhecimento dos sinais da dengue

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Tamas

Haron Gamal

2004.tamas@openlink.com.br

hjgamal@ig.com.br

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Se o mar está revolto barulhento, espumando, não me revolto, aguardo. Se o mar está brando suave, receptivo me banho, aconchego. Eu e o mar vivemos assim, respeito mútuo, um lá outro aqui. Como nada entendo de marés, fase da lua e ação da gravidade só me resta olhar e esperar a tranquilidade do mar.

“A inteligência é humana. O Humano não é inteligente.” “Antes de tudo acabar água e ar vai faltar.” “Bem-aventurado aquele que tem a alma blue.” “Toda certeza é composta de muitas dúvidas.” “Se a velocidade é relativa, parado pode ser rápido.” “Com uma pena escrevi um poema digno de pena.” “Uma lágrima de chuva. Uma gota escorrida no meu rosto. Chove ou estou chorando?” “O relógio e a ruga insistem em me lembrar do tempo.” “Palavras de amor: para não perdê-las melhor escrevê-las.” “Muitas enganações. Poucas soluções.”

Pensamentos Pró-fundos

Março 2012

Instante Fugaz

A função do crítico

Em um trecho de Irmãos Karamázov, Dostoiévski diz pela voz de Ivan, um dos protagonistas do romance: “se não existe Deus nem a imortalidade da alma, tudo é permitido.” Durante muitos séculos, o principal pilar da Moral foi a religião. Do século XVIII aos nossos dias, quando a existência de Deus e a da alma passaram a ser colocadas em dúvida ou mesmo negadas, surgiu um novo problema, talvez ainda maior: como a organização política e social poderia se realizar levando-se em conta apenas aspectos inerentes a si mesma? Kant nas suas três críticas, sobretudo na da razão prática e na da faculdade do juízo, já antecipava tal questão. Havia a necessidade de uma filosofia moral que prescindisse dos aspectos metafísicos da existência. Após chegar à conclusão de que Deus era uma questão de crença, o que restava ao ser humano era a própria reflexão, regida esta por alguns parâmetros que nomeou de imperativos categóricos. A filosofia, embora negasse a Moral como fim último, já não escapava de ser um de seus componentes. Remontando aos primeiros filósofos da antiguidade, a prática do pensamento comportaria uma espécie de beleza e, caso a polis se espelhasse nela, tornar-se-ia bela da mesma forma. Portanto, desde o começo, a filosofia arrasta atrás de si o lastro político. No período em que vivemos, conhecido como Pós-moderno, Ronaldo Lima Lins constata em seu mais recente livro, Crítica da moral cansada, que a filosofia perdeu seu potencial crítico, e que a intelectualidade se mantém à sombra dos dilemas do tempo. Citando inúmeros pensadores, como o já mencionado Kant, continuando num outro extremo com Sartre, que através de seu existencialismo também convoca o filósofo a se posicionar ante os dilemas da contemporaneidade, o professor da UFRJ, autor de vários livros de crítica da cultura, desenvolve extensa exposição sobre a for-

mação da sociedade, as causas da violência e a possível potencialidade da teoria crítica senão a apontar soluções pelo menos em não esmorecer na sua própria capacidade de criticar. Na verdade, o que o escritor quer dizer é o seguinte: os intelectuais jamais devem silenciar. Fazer o levantamento de questões é tão ou mais importante do que encontrar as respectivas respostas. Tal premissa foi uma das características da Escola de Frankfurt, com Theodor Adorno e companhia. E esse é o caminho percorrido por Lins, que afirma: “insatisfação e crítica promovem o surgimento de novas concepções, delirantes ou não, pouco importa, porque sabemos que as concepções delirantes levaram, muitas vezes, os homens para frente.” Sabe-se que as insatisfações e tensões são inerentes ao ser humano, e que devido a elas as sociedades avançam. Como, porém, conciliar este ponto de vista hegeliano, em que os conflitos são necessários para o avanço da História, com os ideais de convivência harmônica, ou mesmo de paz entre os seres humanos? No capítulo “Sobre controles e descontroles”, está escrito o seguinte: “O fundamento de uma filosofia moral visava o estabelecimento de uma consciência que diminuísse os riscos do descontrole e ajudasse a desmontar armadilhas.” Ao mesmo tempo se constata que com o fim das utopias vive-se um paradoxo: como conciliar paz e solidariedade com um modo de vida em que predomina a violenta competição? Vide a ditadura dos mercados financeiros e das crises que surgem após todo período de grande especulação. Quando governos se dispõem a interceder e sanear falcatruas de grandes corporações, na verdade o fazem com o dinheiro dos cidadãos, que mesmo muitas vezes sem consciência de tais ações e sem sentir de imediato o golpe, não deixarão de sofrer as consequências.


Gisela Gold

http://giselagold.tumblr.com/

Fora do compasso A estatística me faz estática e o mundo estético me faz apática. Absolutamente fora da gramática, esqueço a regra de ser super simpática. O som casou. Alguém desafina, por favor, que essa danada da repetição da rima faz o game ficar over. Em vez de ponto,

uma vírgula, por favor, maestro! Talvez eu queira experimentar as curvas da estrada de Santos. É preço alto não seguir em linha reta, eu sei. Prefiro o descompasso do que dez com passo de um. Que jeans tamanho único nunca me caiu bem nas pernas.

Gengibre que chega pelando minha garganta. Arde. E o que na vida não arde? A arte que incomoda, belisca sensações, aromas. Especiarias fazem do meu ar tara pela espécie humana que as derrama na água fervida. O tempo me pede para sentar-me e tomar esse chá de cadeira, ter paciência que aroma bom é aquele que se instala sem olhar quantos minutos demora para sair da casca. Lagarta que sai correndo de medo de ser tomada pela fragrância dos perfumes, cores, olhares, tons. Quero minha alma vermelha

sangue latina explosivo, tentando solos de guitarra nos palcos arteriais e venosos do meu cérebro. Que minha libido eu conjugo mais pra cima. Sensações me fazem esquecer de ligar a seta para a direita. E a canhota, gauche segue seu caminho torto sem senso de direção e sem noção do ridículo. Que a exposição das minhas palavras nunca seguiram as linhas do caderno. São marejadas, navegantes, lotadas de interrogações. Que a libido pergunta mais do que responde. Ou não seria essa fome de curiosidade pela vida.

Slow motion Boca é só uma. Num guento o aguaceiro da informação. Nem ao alho e óleo me desce. Só cai bem quando vira botão escolhido. Onda que a gente toca no tamanho da palma da mão. Como quem peneira sem pressa o Por conseguinte, surge a questão fundamental de Crítica da moral cansada. A indústria cultural não só contaminou a grande massa, mas também parte do segmento social que transita no universo da alta cultura. Muitos intelectuais deixaram-se fascinar pelos produtos dessa indústria (incluindo os tecnológicos), demonstrando total adesão ao mercado, procurando, com suas narrativas, não mais praticar qualquer tipo de crítica, mas contabilizar os próprios lucros e se espraiar num hedonismo perverso. Aqui não escapam filósofos, ficcionistas ou poetas.  Crítica da moral cansada, Ronaldo Lima Lins Ed. da UFRJ, 249 páginas

que presta no fino da areia. Aí eu sou feliz e entendo que não careço engolir mundo todo. Daí contento com boa e velha raspa de tacho da delicadeza. Que pressa só se for de corredeira ou cascata de rio.

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Março 2012

Sensações

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GÁVEA

Banca do Carlos Rua Arthur Araripe, 1 Tel.: 9463-0889

Menininha Rua José Roberto Macedo Soares, 5 loja C Tel.:3287-7500

LEBLON Banca Scala Rua Ataulfo de Paiva, 80 Tel.: 2294-3797

Banca Encontro dos Amigos Rua Carlos Goes, 263 Tel.: 2239-9432

Banca Feliz do Rio Rua Arthur Araripe, 110 Tel.: 9481-3147

Da Casa da Tata R. Prof. Manuel Ferreira,89 Tel.: 2511-0947

Banca Café Pequeno Rua Ataulfo de Paiva, 285

Banca João Borges Clínica São Vicente

Delírio Tropical Rua Mq. São Vicente, 68

Banca Mele Rua Ataulfo de Paiva, 386 Tel.: 2259-9677

Banca Luísa Rua Cupertino Durão, 84 Tel.: 2239-9051

Banca MSV Rua Mq. de São Vicente, 30 Tel.: 2179-7896

Chez Anne Shopping da Gávea 1º piso Tel: 2294-0298

Banca Novello Rua Ataulfo de Paiva, 528 Tel.: 2294-4273

Banca New Life R. Mq. de São Vicente,140 Tel.: 2239-8998

Super Burguer R. Mq.de São Vicente, 23

Banca Rua Ataulfo de Paiva, 645 Tel.: 2259-0818

Banca Alto da Gávea R. Mq. de São Vicente, 232 Tel.: 3683-5109

Igreja N. S. da Conceição R. Mq.de São Vicente, 19 Tel.: 2274-5448

Banca Real Rua Ataulfo de Paiva, 802 Tel.: 2259-4326

Banca dos Famosos R. Mq. de São Vicente, 429 Tel.: 2540-7991 Banca Speranza Rua dos Oitis esq. Rua José Macedo Soares Banca Speranza Praça Santos Dumont, 140 Tel.: 2530-5856 Banca da Gávea R. Prof. Manuel Ferreira,89 Tel.: 2294-2525 Banca Dindim da Gávea Av. Rodrigo Otávio, 269 Tel.: 2512-8007 Banca da Bibi Shopping da Gávea 1º piso Tel.: 2540-5500 Banca Planetário Av. Vice Gov. Rubens Berardo Tel.: 9601-3565 Banca Pinnola Rua Padre Leonel Franca, S/N Tel.: 2274-4492 Galpão das Artes Urbanas Hélio G.Pellegrino Av. Padre Leonel Franca, s/nº - em frente ao Planetário Tel: 3874-5148 Restaurante Villa 90 Rua Mq. de São Vicente, 90 Tel.: 2259-8695

Chaveiro Pedro e Cátia R. Mq. de São Vicente, 429 Tels.: 2259-8266 15ª DP - Gávea R. Major Rubens Vaz, 170 Tel.: 2332-2912 J. BOTÂNICO Bibi Sucos Rua Jardim Botânico, 632 Tel.: 3874-0051 Le pain du lapin Rua Maria Angélica, 197 tel: 2527-1503 Armazém Agrião Rua Jardim Botânico, 67 loja H tel: 2286-5383 Carlota Portella Rua Jardim Botânico, 119 tel: 2539-0694 Supermercado Crismar Rua Jardim Botânico, 178 tel: 2527-2727 Posto Ypiranga Rua Jardim Botânico, 140 tel:2540-1470 HUMAITÁ Banca do Alexandre R.Humaitá esq. R.Cesário Alvim Tel.: 2527-1156

Banca Top Rua Ataulfo de Paiva, 900 esq. Rua General Urquisa Tel: 2239-1874 Banca do Luigi Rua Ataulfo de Paiva, 1160 Tel.: 2239-1530 Banca Piauí Rua Ataulfo de Paiva, 1273 Tel.: 2511-5822 Banca Beija-Flor Rua Ataulfo de Paiva, 1314 Tel.: 2511-5085 Banca Lorena R. Alm.Guilhem, 215 Tel.: 2512-0238 Banca Cidade do Leblon Rua Alm. Pereira Guimarães, 65 Tel.: 8151-2019 Banca BB Manoel Rua Aristides Espínola Esq.R. Ataulfo de Paiva Tel.: 2540-0569 Banca do Leblon Av. Afrânio M. Franco, 51 Tel.: 2540-6463 Banca do Ismael Rua Bartolomeu Mitre, 144 Tel: 3875-6872 Banca Rua Carlos Goes, 130 Tel.: 9369-7671

Banca HM Rua Dias Ferreira, 154 Tel.: 2512-2555 Banca do Carlinhos Rua Dias Ferreira, 521 Tel.: 2529-2007 Banca Del Sol Rua Dias Ferreira, 617 Tel.: 2274-8394 Banca Fadel Fadel Rua Fadel Fadel, 200 Tel.: 2540-0724 Banca Quental Rua Gen. Urquisa, 71 B Tel.: 2540-8825 Banca do Vavá Rua Gen. Artigas, 114 Tel.: 9256-9509 Banca do Mário Rua Gen. Artigas, 325 Tel.: 2274-9446 Banca Canto Livre Rua Gen. Artigas s/n Tel.: 2259-2845 Banca da Vilma Rua Humberto de Campos Esq. Rua Gen. Urquisa Tel.: 2239-7876

Banca Miguel Couto Rua Bartolomeu Mitre, 1082 Tel.: 9729-0657 Banca Palavras e Pontos Rua Cupertino Durão, 219 Tel.: 2274-6996 Banca Rua Humberto de Campos, 827 Tel.: 9171-9155 Banca da Emília Rua Adalberto Ferreira, 18 Tel.: 2294-9568 Banca Rua Ataulfo de Paiva com Bartolomeu Mitre Banca Novo Leblon Rua Ataulfo de Paiva, 209 Tel.: 2274-8497 Banca Rua Humberto de Campos, 338 Tel.: 2274-8497 Banca Rua Alm. Pereira Guimarães, 65 Banca J Leblon Rua Ataulfo de Paiva, 50 Tel.: 2512-3566 Banca Av. Afrânio Melo Franco, 353 Tel.: 3204-2166

Banca Rua Prof. Saboia Ribeiro, 47 Banca Canto das Letras Tel.: 2294-9892 Rua Jerônimo Monteiro, 3010 Banca Largo da Meesq. Av. Gen. San Martin mória Rua Dias Ferreira, 679 Banca Tel: 9737-9996 Rua José Linhares, 85 Tel.: 3875-6759 Colher de Pau Rua Rita Ludolf, 90 Banca Tel.: 2274-8295 Rua José Linhares, 245 Tel.: 2294-3130 Garapa Doida R. Carlos Góis, 234 - lj F Banca Guilhermina Tel.: 2274-8186 R. Rainha Guilhermina, 60 Tel.: 9273-3790 Banca do Augusto Rua Humberto de Campos, Banca Rainha 856 R. Rainha Guilhermina,155 Tel: 3681-2379 Tel.: 9394-6352 Sapataria Sola Forte Banca Rua Humberto de Campos, Rua Venâncio Flores, 255 827/E Tel.: 3204-1595 Tel.: 2274-1145

Copiadora Digital 310 Loteria Esportiva Av. Afrânio de Melo Franco Loteria Esportiva Av. Ataulfo de Paiva Vitrine do Leblon Av. Ataulfo de Paiva, 1079 Café com Letras Rua Bartolomeu Mitre, 297 Café Hum Leblon Rua Gen. Venâncio Flores, 300

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Folha Carioca / Março 2012 / Ano 11 / nº 97  

Edição março 2012