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Jornal Laboratório | N º 199

Dezembro de 2017 | Jornalismo UEPG

Câmaras da região desrespeitam Lei de Acesso à Informação Ingrid Petroski

Levantamento do Foca Livre conferiu quais cidades dos Campos Gerais melhor atendem as exigências da Lei de Acesso à informação. Foi enviado um e-mail para todas as Câmaras Municipais perguntando sobre cargos comissionados, seguindo todos os protocolos exigidos pela lei federal 12.527/2011. As cidades que melhor pontuaram foram Arapoti, Curiúva, Jaguariaíva, Palmeira e São João do Triunfo. As cinco piores colocadas em termos de transparência são Reserva, Ivaí, Ipiranga, Sengés e Ponta Grossa. Ao fim, 14 dos 19 Legislativos dos Campos Gerais criam “regras próprias” para obstruir acesso a dados. INVESTIGATIVO p. 4-5

CIDADANIA p. 7

Pesquisadoras são pouco reconhecidas na academia

JORNALISMO LITERÁRIO p. 1 0

Aventuras de um quase jornalista ao visitar um canil cheio de gatos

PASSO A PASSO p. 8 e 9

Entenda como o jornal Foca Livre é produzido

CULTURA p. 1 3

Construção civil ameaça arquitetura moderna de PG

UEPG p. 2 Comunidade acadêmica reage ao fim do PIBID

UEPG p. 3

Empresas juniores trazem experiência de mercado para universidades

Alunos e professores de cursos de licenciaturas protestam contra o fim do financiamento do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência - PIBID.

CIDADANIA p. 6

Colégio Frei Doroteu continua sem previsão para término de obras

Gabriel Miguel

ENTREVISTA p. 1 5

"Usar software livre é uma questão de liberdade", afirma jornalista Rafael Santos

Todas as edições do Foca Livre - Ano 25 foram produzidas em software livre

Maria Fernanda Laravia

Em PG, restam quatro locadoras. Segundo funcionários, aindaháprocurapelosfilmes. esporteelazerp. 12

O jornal recomenda o uso de software livre em universidades públicas. As oito edições de 2017 foram montadas no programa Scribus. O Foca apoia a filosofia de liberdade no mundo digital.

Vire o jornal e confira ensaio de rua de PG


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UEPG

Ameaças ao PIBID sensibilizam cursos de licenciatura da Universidade Estadual de Ponta Grossa “A insegurança está instalada”, afirmou a atual coordenadora do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência da UEPG, Maria Odete Tenreiro, sobre a situação que o programa está enfrentando no país. Professores e estudantes da Universidade Estadual de Ponta Grossa têm se mobilizado em ações contrárias à interrupção do PIBID. Entre as ações que tem preocupado a comunidade universitária estão às previsões de cortes do Projeto de Lei Orçamentária (PLOA) 2018 no âmbito da educação básica, a não publicação de um novo edital do projeto, que deveria entrar em vigor em fevereiro do próximo ano, e a última proposta anunciada pelo Ministério da Educação (MEC) no mês de outubro, durante a construção da Nova Política Nacional de Formação de Professores. A medida do Ministério da Educação sugere uma modernização do PIBID no ano de 2018, a partir de um formato de residência pedagógica. Segundo o MEC, 80 mil bolsas serão ofertadas com o objetivo de melhorar a qualidade da formação dos futuros professores. A partir do terceiro ano da licenciatura os estudantes dariam início a essa atividade. Novos convênios precisarão ser estabelecidos com as redes públicas de ensino. O PIBID funciona

com todas as Instituições de Ensino Superior que oferecem cursos de licenciatura e apresentam à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) projetos de iniciação à docência. As instituições aprovadas recebem recursos de custeio e capital para o desenvolvimento do projeto, e os bolsistas passam por um processo seletivo. Se aprovados, desenvolvem atividades com orientação de um docente da licenciatura e do professor da escola da rede pública a que são encaminhados. Além de ser uma forma de incentivo à formação de docentes e de valorização do magistério, o programa insere os acadêmicos no cotidiano das escolas e proporciona aos professores da rede pública uma participação nos processos de formação de futuros profissionais. A Universidade Estadual de Ponta Grossa atende 338 bolsistas. Esse número inclui acadêmicos dos cursos de licenciatura da instituição, professores coordenadores de área e professores supervisores nas escolas. Para a acadêmica de Letras-Espanhol, Letícia Kovalski Mônico, inserida no PIBID, a prática é fundamental e capacita os estudantes. “Com o PIBID o acadêmico consegue conciliar a teoria com a prática dentro da sala de aula, isso só tem a acrescentar mais tarde, na nossa vida profis-

O cotidiano das salas de aula é conhecido pelos acadêmicos de 11 licenciaturas da UEPG através do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência. |Foto: Raylane Martins

sional”, afirma Letícia. Para funcionar, o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência também depende da parceria com 26 instituições da educação básica em Ponta Grossa. Professores e estudantes afirmam que a interrupção do PIBID fragiliza o ensino público e prejudica a graduação. Segundo o professor Paulo Rogério de Almeida, que foi coordenador de área no PIBID Português-Inglês de 2014 a 2017, ameaças ao programa já aconteceram outras vezes, mas sem sucesso. “Desde o início de 2014, ouvi sobre ameaças ao programa cerca de cinco vezes. A alegação é falta de dinheiro. Graças ao movimento do PIBID em todo o Brasil, que conseguia mais de 100 mil assinaturas, o governo sempre manteve o PIBID”, comenta. Durante o último mês, além de uma petição online nacional para evitar qualquer tipo de corte ou interrupção do PIBID, em Ponta Grossa, investiu-se em iniciativas como coletas de assinaturas nos campus, confecção de cartazes por alunos pibidianos e conscientização por redes sociais. “O Forpibid tem buscado um diálogo mais próximo com a Capes, buscando apoios com parlamentares, associações, parcerias com diferentes coletivos que lutam pela continuidade do programa”, relata Tenreiro, que além da coordenação institucional do PIBID UEPG, é licenciada em Pedagogia e mestre e doutora em Educação.

A UEPG auxilia mais de 338 bolsistas e tem 26 parcerias Por Raylane Martins com Instituições de Ensino Básico para desenvolver o PIBID. | Foto: Raylane Martins


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UEPG

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Empresas juniores promovem empreendedorismo dentro das universidades incentivar que as próprias

As empresas juniores são empresas formadas por alunos da graduação que prestam serviços da sua área de estudo para micro e pequenas empresas por um valor mais acessível que o mercado a fim de gerar o desenvolvimento da sociedade. Segundo o documento Conceito Nacional de Empresa Júnior, outras finalidades são profissionalizar os estudantes por meio da vivência empresarial, contribuir para o desenvolvimento nacional e promover o empreendedorismo entre os participantes. Apesar de serem empresas que prestam serviços remunerados, a empresa não pode gerar receita para a instituição de ensino ou para seus membros. O dinheiro captado deve ser usado para atividades educacionais para capacitar os envolvidos. O NEJ-PG (Núcleo de empresas juniores em Ponta Grossa) trabalha no auxílio de empresas juniores como por exemplo, capacitação, eventos e busca

empresas dentro do NEJ consigam se comunicar. Carlos Guttemberg e Leonardo Araújo são alunos que participam do núcleo e explicam como é o funcionamento. “O NEJ só aceita empresas que possuam alunos daquele determinado curso. A empresa vai aproximar esse aluno ao mercado de trabalho” afirma Carlos. Leonardo explica os critérios necessários para se criar uma empresa júnior. “Para se criar uma empresa júnior é preciso obter tudo que uma empresa normal precisa como CNPJ, estatuto e regimento interno. Se já tem um espaço físico como no caso da UEPG, é preciso ter um alvará de funcionamento da prefeitura e do corpo de bombeiros”. Existem atualmente 11 empresas juniores em Ponta Grossa sendo 10 afiliadas ao NEJ. Cada uma delas possui em média 20 membros. A empresa júnior EMa-Jr, fundada em 2001, do curso de Enge-

do do Paraná, em sua Lei Orçamentária para 2018 prevê um repasse menor para as universidades estaduais do Paraná. O processo afronta o Artigo 181 da constituição do Estado. A presidente do Sindicato dos Docentes da Universidade Estadual de Ponta Grossa (SINDUEPG), Rosângela Petuba exemplifica o assunto, "A proposta orçamentária para o ano de 2018 prevê a destinação de 82 milhões, 54 milhões a menos, que o previsto na Lei Orçamentária da União (LOA) de 2017". A presidente acrescenta que a Universidade Estadual de Londrina (UEL) e Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE) serão as mais afetadas. Na Universidade Estadual de Ponta

da ordem de pouco mais de 10%. Outra crise com relação as universidades públicas, foi do decreto que o atual governador do estado, Beto Richa (PSDB), publicou no dia 6 de novembro. O decreto impede as universidades estaduais de realizarem testes seletivos ou concursos para contratação de servidores técnicos e docentes. Fator que fere a autonomia das universidades e prejudica a contratação de novos professores. O professor de História da UEPG, Cláudio Dias comenta como o decreto pode prejudicar os docentes, "É muito provável que um curso como História, não seja mais necessário, pois se a universidade for privatizada é desconsiderado totalmente

nharia de Materiais da UEPG é a primeira empresa surgida em Ponta Grossa e foi criada a partir de alunos que visavam obter novas experiências e sair do ambiente acadêmico. Gabriel Eichelbaum participou durante quatro anos da empresa. “Com o tempo, a perspectiva da empresa júnior mudou bastante e nós acabamos nos filiando a federação das empresas juniores do paraná, a FEJEPAR. Passamos então a prestar serviços de ensaios de caracterização de materiais para diversas empresas da nossa região, sendo empresas de diversos portes”, afirma Eichelbaum. Juliana dos Santos, estudante de Engenharia Química da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (campus Ponta Grossa) e empresária no setor de qualidade da Quanttum Empresa Júnior, entrou na iniciativa pela curiosidade de aprender sobre o mercado e com a perspectiva de aplicar o conteúdo apren-

dido da sala de aula na prática. “Será importante no futuro por já me proporcionar um networking e por já ter me ensinado as bases de uma empresa e funcionamento de seus serviços”, relata Santos.

Cláudio também aponta o fato de que professores colaboradores, como ele, vão ficar desempregados. Para tentar amenizar algumas dessas decisões, em assembleia realizada no dia 20, os docentes da UEPG decidiram paralisar suas atividades no próximo dia 29 de novembro, quarta-feira. A estu-

Nadine Sansana afirma a importância da paralisação realizada, "A paralisação é, na verdade, o meio que a universidade encontrou para mostrar sua insatisfação diante das propostas do governo". A estudante diz também que as medidas vão empobrecer o ensino e prejudica as atividades docentes.

Eduardo Wisbiski, participante da Quanttum como vice presidente, enfatiza que dentro da empresa Júnior também existe uma hierarquia de cargos. “Atualmente está no sexto presidente, sendo que 120 pessoas já passaram pela empresa. Somos em 6 diretores, um é diretor presidente, os outros cinco são as áreas: marketing e vendas (uma só), projetos, administrativo/financeiro/jurí dico, qualidade e talentos humanos”, explica Wisbiski. Atualmente a empresa destina o dinheiro recebido para a FAUEPG (Fundação de Apoio ao Desenvolvimento Institucional, Científico e Tecnológico da UEPG) e para o de-

partamento que auxilia na aquisição de novos equipamentos e na melhoria da infraestrutura da universidade e do departamento de Engenharia de Materiais. Lucas Reksua é presidente da Prostut Eletrônica, empresa do curso de Engenharia Eletrônica da UTFPR que iniciou seus trabalhos em 2013. As demandas são de manutenção de equipamentos elétricos/eletrônicos, projetos de viabilidade econômica, planejamento de plantas industriais, residenciais e prediais, criação de placas de circuitos e muitos outros dentro da área da elétrica e eletrônica. “A empresa funciona como uma empresa normal, dividida em setores composta por membros de acordo com as afinidades. Procuramos também levar capacitação aos membros preparando-os para o mercado de trabalho”, relata Reksua.

Por Fernanda Wolfe Millena Villanueva

Falta de recursos e perda de autonomia comprometem universidades estaduais públicas O governo do esta- Grossa (UEPG) o corte é uma formação humana". dante de Jornalismo, A não contratação

Sala de aula da Universidade Estadual de Ponta Grossa. | Foto: Arieta Valherri de Almeida

do número de professores necessário, pode acarretar uma diversidade de problemas dentro da universidade. Entre eles, a possibilidade de que os estudantes fiquem sem aulas, também o caso de uma sobrecarga dos professores, assim comprometendo também os projetos de pesquisa e extensão. Lembrando que a sobrecarga contribuí para a precarização das condições de trabalho. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) aponta, desde 1953 que a profissão docente é a segunda que mais causa doenças ocupacionais. Esse quadro agrava cada vez mais, podendo até levar ao suicídio.

Por Arieta de Almeida


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investigativo

Apenas cinco Câmaras respeitam a Lei de Acesso à Informação No dia 9 de novembro de 2017, a equipe de reportagem do Foca Livre enviou pedidos baseados na Lei de Acesso à Informação aos 1 9 municípios participantes da Associação de Municípios dos Campos Gerais (AMCG). Apenas cinco municípios (Arapoti, Palmeira, Piraí do Sul, Porto Amazonas e Sengés) responderam à consulta que buscava informações sobre cargos comissionados. O levantamento do Foca Livre procura identificar o nível da cultura da transparência na região. A Lei nº 12.527/2011 ou Lei de Acesso à Informação (LAI) entrou em vigor em maio de 2012 e, desde então, regulamenta o acesso a informações públicas no Brasil. De acordo com análises feitas pelo portal Artigo 19, até outubro de 2017 foram realizados cerca de 550 mil pedidos de acesso à informação no país. De acordo com a LAI, todos os órgãos e entidades distritais, municipais, estaduais e federais de todos os poderes (executivo, legislativo e judiciário), além do restante da administração pública e entidades sem fins lucrativos, devem cumprir a lei. O prazo para resposta é de 20 dias, sem especificação de dias úteis ou corridos. O vencimento dos pedidos feitos pelo Foca foi no dia 29 de novembro, caso sejam contados dias corridos, ou dia 8 de dezembro, caso fossem contados somente dias úteis. Os órgãos devem, também, criar procedimentos e prazos que facilitem o acesso à informação. O que o Foca Livre encontrou durante seus pedidos foi o contrário. Apenas cinco portais (Palmeira, São João do Triunfo, Jaguariaíva, Curiúva e Arapoti) apresentam com destaque o link para o pedido de acesso à informação. Apesar do destaque, somente duas dessas câmaras atendeu ao pedido. Palmeira respondeu no dia 13 de novembro e Arapoti no dia 20 de novembro. O restante das respostas foi obtida através de formulários de contato, ouvidoria ou emails enviados diretamente às câmaras. Sengés, por exemplo, foi um dos órgãos que respondeu ao pedido, mas o formulário apresenta problema para envio e o site não possui contato por email somente por telefone ou endereço. Quando o site não apresenta formulário específico

lista na Lei de Acesso à Informação Marina Atoji. A gerente-executiva da ABRAJI aprovou o procedimento da equipe. A jornalista confirma ainda que “o fato de as informações estarem nos portais de transparência não é motivo para os órgãos públicos ignorarem pedidos de informação. Eles são obrigados a responder com o link Como a LAInão direto para as páginas no portal da detalha se o prazo é que contêm as inforcontado em dias corri- transparência mações solicitadas ou o caminho, dos ou úteis, convém portal, para encontrá-las”, inesperar o fim do prazo no forma Atoji. em dias úteis também. Questionamos, também, a A partir daí, se contigerente-executiva da ABRAJI sobre nuar a ausência de o procedimento após o fim do praresposta (geralmente de 20 dias. “Como a LAI não continua), precisa ver zo se o prazo é contado em se as Câmaras Munici- detalha corridos ou úteis, convém espais regulamentaram a dias perar o fim do prazo em dias úteis LAI. Marina Atoji também. A partir daí, se continuar para pedido de acesso à informação, o pedido pode ser feito através de email. A reportagem do Foca Livre entrou em contato com a câmara por telefone para pedir o endereço de e-mail para envio do pedido.

Duas respostas (Porto Amazonas e Piraí do Sul) indicaram o link do Portal da Transparência para acesso de informações solicitadas que estavam disponíveis no site. A resposta do município de Arapoti somente informou que as informações estão no portal. Todos os dados solicitados pela redação deveriam estar disponíveis nos portais da transparência. Mesmo assim, os pedidos devem ser respondidos indicando o local onde as informações podem ser encontradas. A redação descreveu todo o processo para a jornalista e gerente-executiva da ABRAJI e especia-

a ausência de resposta (geralmente continua), precisa ver se as Câmaras Municipais regulamentaram a LAI”, explica. O regulamento da Câmara deve explicar o que é feito a seguir. Caso a regulamentação não exista, o próximo passo é o envio de ofícios solicitando providências para a Câmara e para o Ministério Público do Estado.

Respostas O Foca Livre recebeu respostas de cinco municípios. A Câmara Municipal de Sengés possui apenas um cargo comissionado de oito contratados. A resposta contemplou todas as perguntas feitas

pela redação. A Câmara de Palmeira possui cinco comissionados e nove efetivos. Anexa à resposta, a Câmara enviou uma tabela com todos seus funcionários e vereadores, além dos salários. As Câmaras de Porto Amazonas (com três comissionados e três efetivos) e Piraí do Sul (três comissionados e cinco efetivos) responderam as perguntas e enviaram o link do portal da transparência para consulta da lista de funcionários e salários. Piraí do Sul enviou também instruções para que as informações fossem encontradas com maior facilidade. A Câmara de Arapoti não respondeu nenhuma das perguntas, alegando somente que todas as informações estavam disponíveis no portal da transparência, sem direcionar para o link.

Ponta Grossa

A Câmara Municipal de Ponta Grossa não apresenta nenhum formulário para pedidos de acesso à informação em seu portal. A informação disponível sobre a LAI no site diz que um formulário deve ser impresso, preenchido e protocolado no prédio da Câmara. De acordo com a lei, os órgãos devem possibilitar envio através da internet. Caso não exista mecanismo próprio, os pedidos podem ser enviados por email. A equipe do Foca não recebeu nenhuma confirmação ou resposta para o pedido. Durante o fechamento do jornal, a redação entrou em contato com a Diretoria Geral da Câmara, que alegou que o endereço de e-mail informado no site está funcionando, mas que o pedido não foi recebido ou passou despercebido. O pedido foi enviado no mesmo e-mail para as câmaras de Sengés, Ponta Grossa e Reserva. Sengés recebeu e respondeu o pedido. Sobre a necessidade de protocolar o pedido impresso na Câmara, a diretoria afirmou que precisava confirmar a possibilidade de envio pela internet, mas que o pedido pode ser enviado para o email pessoal do Diretor Geral Renato Webber de Oliveira e será respondido o quanto antes. No entanto, até o fechamento desta edição não houve resposta por parte da Câmara Municipal de Ponta Grossa.

Por Ana Istschuk e Lucas Cabral


investigativo

dez/2017

Dicas para fazer um pedido por meio da LAI Segue ao leitor Foca Livre o protocolo e algumas dicas de como pedir as informações pela LAI (Lei de Acesso a Informações). A fonte de informação é o portal do governo federal chamado Acesso à Informação, mas há também vários cursos disponíveis na web e páginas como a “Achados e Pedidos” O pedido de acesso à informação deverá conter: a) nome do requerente; b) número de documento de identificação válido; c) especificação, de forma clara e precisa, da informação requerida; e d) endereço físico ou eletrônico do requerente, para recebimento de comunicações ou da informação requerida. As informações estão presentes no decreto 7.724/2012, que regulamenta a LAI 12.527/2011. Seguem orientações de como escrever seu pedido de acesso à informação:

• Identifique qual órgão ou entidade é responsável pela informação que você deseja. Caso não saiba para quem encaminhar o pedido, verifique quais são as competências dos órgãos e entidades do Poder Executivo Federal • Antes de realizar sua solicitação, verifique se a informação já se encontra disponível no site do órgão ou entidade • Faça um pedido de cada vez. Assim, seu pedido ficará mais claro e a resposta poderá chegar mais rápido. Caso você decida enviar mais de uma pergunta em uma única solicitação, elas serão respondidas em conjunto, mesmo que uma das informações requeridas já se encontre disponível • Seja objetivo e escreva de forma clara. É importante que o órgão compreenda corretamente qual é o seu pedido para lhe enviar uma resposta adequada

• Ao escrever seu pedido, dê o máximo de detalhes possíveis sobre que informação você deseja. Não estão amparadas pelo escopo da LAI as informações genéricas, ou seja, aquelas em que o requerente não indica o período em que a informação foi produzida, o tipo de documento que deseja, o assunto a que se refere, de modo que o órgão não consiga identificá-lo de maneira precisa • Evite informar seus dados pessoais no campo dedicado à descrição do pedido de acesso à informação. Coloque-os apenas no seu cadastro no sistema

Saiba mais: Achados e Pedidos http://achadosepedidos.org.br Fonte: Acesso a Informação www.acessoainformacao.gov.br


cidadania

dez/2017

Obras do Frei Doroteu ultrapassam tempo estipulado e continuam sem previsão de entrega Devido atraso nas obras, alunos do Colégio Frei Doroteu permanecem em salas improvisadas até 2018 O Colégio Estadual Frei Doroteu de Pádua passa por uma reforma aprovada pelo governo do estado no ano passado e iniciada em fevereiro deste ano. A obra foi uma reivindicação dos alunos que ocuparam o prédio no ano passado, durante as manifestações contra a reforma do ensino médio. Os estudantes exigiam a reforma imediata do local, pois o colégio contava com quatro salas de madeira em situação precária. As obras para a construção de novas salas iniciaram em fevereiro deste ano. A pedagoga Vivian

Xavier explica que as obras consistem na demolição das salas de madeira e a construção de novas salas de alvenaria no lugar. “Ao todo são quatro salas de madeira, duas já foram demolidas e já estão sendo construídas as novas salas para substituílas.Quando estiverem prontas, as outras duas de madeira serão demolidas”, relata Xavier. Em meio a reforma do colégio os alunos ainda estão tendo aulas em salas de madeira. As paredes possuem buracos, os pisos são feitos com pedaços de placas de madeira e as portas são trancadas por correntes e cadeados por não terem fechaduras.

A pedagoga Vivian Xavier afirma que por conta da situação é realizado um rodízio de turmas para a utilização das salas de madeira. “A cada bimestre uma turma diferente é colocada nessas salas, para que não seja apenas uma durante o ano, seria injusto”, justifica a pedagoga. A obra estava prevista para ser entregue até junho, porém com o atraso, a engenheira responsável pela obra, Alana de George Saciloto, informou que duas das salas serão entregues em fevereiro de 2018. As outras duas salas não têm previsão de entrega. A equipe de reportagem entrou em contato

com Saciloto, que informou que foram investidos cerca de R$ 150 mil em materiais. A engenheira, contratada pelo Núcleo Regional de Educação, declarou em entrevista para a Agência de Notícias do Estado do Paraná, em março, que a escolha do colégio para a construção foi feita pelo Núcleo Regional de Educação e a previsão para término da ação era de quatro a cinco meses. O Frei Doroteu comporta cerca de 575 alunos, divididos em 11 turmas no período da manhã, e 12 à tarde. Dentre essas turmas, duas estão em salas improvisadas no laboratório

de informática e no refeitório do colégio. A sala do refeitório foi criada em consenso entre a diretoria do colégio e o Núcleo de Educação. A zeladora Ivone de Oliveira, trabalha no Colégio a 25 anos e comenta sobre o uso inadequado dos espaços improvisados: “O refeitório foi fechado para ser usado como sala de aula até que as novas salas fiquem prontas, mas tem uma abertura na lateral. Quando chove o local fica molhado”.

agressor e possuir depoimentos suficientes contra ele não aconteceu nada, Mailo foi queimado pelo seu dono dentro da própria casinha. De acordo com testemunhas, o dono de Mailo chegou bêbado em casa, se irritou com o latido do cachorro e ateou fogo em sua casinha com o cão dentro dela. Atualmente Mailo ainda está se recuperando, ele teve a face toda queimada e ainda é alimentado por injeções. “A lei só é cumprida na hora de identificar o problema, faltando visibilidade e responsabilidade na hora de aplicar as punições” reivindica Claudete Em depoimento, o estudante de ensino médio Yuri Szalanski relatou uma ineficiência desses serviços de fiscalização e segurança dos animais: “Já denunciei e mandei fotos para provar que um dos meus vizinhos não cuida de seus animais corretamente, trocando a água e ração somente de dois em dois dias, às vezes até três e deixando o canil de seus animais imundo, porém tudo o que eles fazem é chamar a atenção dele, examinar os animais e

ir embora”. Outra ação de destaque, que aconteceu em abril deste ano, foi o resgate dos mais de 40 animais da casa de uma idosa em Ponta Grossa, essa movimentação contou com a ajuda de várias ONG’s (dentre elas a SOS BICHOS e o Grupo Fauna), do Ministério Público e da OAB, esses animais possuíam várias feridas e doenças, não viviam em um ambiente higiênico e também não se alimentavam direito. O número de denúncias sobre maus-tratos vêm aumentando cada vez mais ao comparar os números dos últimos anos, porém o número de casos resolvidos e devidamente penalizados continua duvidoso, uma boa porção das pessoas que cometeram esses crimes optaram por pagar a multa ou prestar serviços comunitários durante alguns meses, o que se mostra uma pena muito pequena perto da grande ignorância que é descontada nos animais.

Por Ana Flávia Aranna e Camila Zanardini

Aumentam denúncias de maus-tratos aos animais O Brasil vem buscando retratar e dar mais visibilidade para os crimes contra os animais, porém ainda assim a pena ao cometer esses crimes é curta, dificilmente alcançando sequer um ano, número que ainda pode ser convertido em trabalhos para a comunidade ou multas. Além da lei federal, Ponta Grossa dispõe da lei municipal 9.019/2007, que também trata das crueldades cometidas contra os animais. Quem verificar alguém maltratando animais de quaisquer espécies, sejam domésticos, selvagens, silvestres ou exóticos pode fazer denúncia. A Guarda Municipal irá até o local e verifica se o caso configurase maus tratos Dependendo da situação o departamento de zoonoses é acionado. Há várias situações que contemplam esse contexto e consequentemente uma realidade triste para os bichos, por mais que tenha sido possível registrar mais casos de agressão aos animais, além de fazer isso por meio de denúncias anônimas. O único problema da denúncia anônima é que

Denúncias de maus tratos podem ser feitas pelo telefone 153 ou 0800-643-2626 | Foto: Gabriel Miguel

o cidadão nem sempre terá um retorno sobre as providências tomadas, ou ainda, por falta de alguma informação, o caso pode não ser elucidado. A melhor saída, na hipótese do cidadão não querer ser identificado, é procurar uma ONG para assinar a denúncia. Se isto não for possível, sugere-se que o cidadão procure conversar diretamente com o Promotor de Justiça e pedir para que seu nome seja mantido em sigilo. Segundo a integrante da ONG SOS Bichos em Ponta Grossa, Claudete Mesquita dos Santos, “Em último caso é chamado o advogado da nossa ONG para realizar a

retirada dos animais que estão sofrendo maus-tratos, porém somente a atuação da ONG não é suficiente, é necessário notificar a guarda municipal antes de tomar qualquer atitude, principalmente quando é necessário entrar na casa da pessoa e possuímos poucas provas ou relatos para intervir diretamente”. Um dos casos que teve maior repercussão neste ano por parte da mídia, e que Claudete destacou como um grande exemplo da falta de punições para infratores das leis de proteção aos animais foi o do cachorro Mailo. Esse caso que aconteceu em agosto desse ano foi um exemplo explícito de que mesmo após identificar o

Por Gustavo Camargo


dez/2017

cidadania

Dupla jornada de trabalho aumenta diferença acadêmica entre mulheres e homens Brasil e Portugal possuem 49% de pesquisadoras, e mesmo sendo os países com maior nível de produção acadêmica feminina, os artigos de mulheres são pouco citados

lhei”, relembra Jovino. do mestrado e tive que abrir Segundo a “Síntese mão do emprego no escritóde Indicadores Sociais - Uma rio”. análise das condições de vida Na iniciação científida população brasileira”, di- ca da UEPG a maioria são vulgada pelo IBGE em 2016, mulheres. Das 223 bolsas de a renda das mulheres é 34% iniciação científica (IC) e menor que dos homens - ape- tecnológica (IT) pela CNPq, sar de serem responsáveis pe- aproximadamente 120 bolsas lo sustento de quatro a cada são para mulheres (53,81%) e dez casas. A justificativa para 103 para homens (46,18%) . a diferença nos salários é de A estudante e particique elas trabalham aproxi- pante do projeto de empresa madamente seis horas sema- júnior do curso de Engenhanais a menos em sua ria Civil da UEPG Alexya ocupação remunerada. Mereth, afirma que a particiContudo, na soma pação feminina possui um esdas atividades domésticas, tigma de que a construção percebe-se que no total as civil é para homens. mulheres trabalham cinco Ela também reclama horas a mais que os homens e que percebe muitos comennão possuem remuneração. tários desagradáveis por parte A professora de En- de professores e alunos. “Falgenharia de Software da ta bastante consciência de UEPG e doutora em Educa- que a ciência é global entre os ção pela Universidade de homens do meu curso. É pra Londres, Diolete Marcante mim e pra eles”. Lati Cerutti, reclama das difiA professora do curso culdades que as mulheres de Jornalismo e coordenadopassam para conciliar a vida ra do grupo de pesquisa “Joracadêmica e a vida pessoal. nalismo e Gênero”, Paula Paula Rocha é pós-doutora em Jornalismo pela “Eu trabalhava num escritó- Rocha, percebe que as difeUniversidade de Fernando Pessoa, Porto-Portugal rio quando passei no concur- renças na construção de carso para dar aula na reira para mulheres perpassa |Foto: Barbara Popadiuk universidade. Quando meu a relação com a área, ligada pação feminina em um terço eu pude fugir da realidade de filho nasceu, eu estava fazen- ao seu status e ao cargo que deles.O Painel Lattes mostra tantas mulheres negras, que é Os dados do Gender in the Global Research que a porcentagem de douto- o trabalho doméstico, embores no país é de 47,50% mu- ra eu tenha sofrido muito Landscape apontam que as mulheres brasileiras lheres e 52,49% homens mais com racismo do que foram cerca de 0,74 vezes citadas em artigos Ione da Silva Jovino é com o sexismo onde trabacientíficos, enquanto os homens 0,81 vezes. O estudo “Panorama de Gênero nas Pesquisas Globais” (Gender in the Global Research Landscape), feito pela Elsevier, uma das maiores editoras científicas do mundo, indica que a cada quatro estudos publicados em medicina, um deles tem uma mulher como principal autora. Enquanto estudos sobre engenharia tem partici-

pós-doutoranda em Educação pela Universidade Federal de São Carlos, e professora de Letras na UEPG. Ela afirma que a presença de mulheres é significativa na área em que atua. Contudo, acredita que a Educação para ela foi a primeira possibilidade de emancipação e de ascensão social. “A partir dos estudos

ocupa.

Na carreira acadêmica, as etapas são definidas com a qualificação (mestrado, doutorado, etc) além de contar com os cargos de coordenação e chefia dentro de seus departamentos, entre outros. A docente explica que é a evolução da carreira que torna a discrepância mais visível. “Os dados mostram que os homens ocupam mais mais postos relacionados à produtividade, que é o status maior. Já os cargos de chefia são ocupados por mulheres, porque você se dedica mais a administração do que gestão de pesquisa”, ressalta a professora. Rocha aponta os problemas de reconhecimento do trabalho feminino, desde entrevistas com mulheres cientistas, que não são realizadas na mesma proporção do que com os homens, até a falta de tradução de livros escritos por mulheres, o que confirma à professora a maior visibilidade do gênero masculino.

Por Barbara Popadiuk e Debora Chacarski

Desempregados terão direito apasse gratuito para entrevistas de emprego em PontaGrossa Na última terça-feira, o prefeito Marcelo Rangel sancionou a proposta de lei do vereador Divo (PSC) que propõe isenção no preço de duas passagens no transporte público para cidadãos desempregados para realizar entrevistas de emprego. A lei 89/2017, indica que quando o indivíduo isento conseguir um emprego, o valor das passagens fornecidas será devolvido à prefeitura através de desconto no cartão do transporte O “passe-entrevista” é um cartão de bilhetagem

eletrônica entregue pela empresa Viação Campos Gerais (VCG) à pessoas em situação de desemprego cuja renda mensal familiar per capita é inferior a meio salário mínimo (R$ 937,00). Para utilizar o cartão, é preciso ser residente de Ponta Grossa, estar a mais de 1 km de distância do local da entrevista e se cadastrar na Agência do Trabalhador, responsável por agendar previamente essas entrevistas. A lei ainda implica que se o usuário do passe não comparecer à entrevista, terá o benefício

cortado durante um ano. O vereador Divo, autor da proposta, afirma que ‘é um anseio da população. “Muitas vezes as pessoas falavam para mim que não tinham condições de ir até as empresas ou mesmo se locomover a procura de um emprego”, relata o vereador. Para Rafaela da Silva, sete meses desempregada, o projeto vem como auxílio. “Eu moro no bairro Los Angeles, que é afastado do centro,e não tem como ir e voltar a pé a procura de emprego. Eu preciso do transporte pú-

blico”, relata. Esse modelo de passe existe em São Paulo e atende entre 15 e 30 mil pessoas mensalmente. O diretor da Agência do Trabalhador de Ponta Grossa, John Elvis Ribas Ramalho, afirma que entre as pessoas que estão procurando emprego, são poucas as que necessitam de transporte público. “Em média a Agência encaminha de 2.000 a 2.200 entrevista de emprego mensalmente", contabiliza. "Os que se encaixam no perfil da lei, são aproximadamente 200 a 300 pessoas por

mês, cerca de 10 a 15% do total de pessoas que procuram trabalho”. Em resposta, a VCG, única responsável pelo transporte público na cidade, afirma não achar viável o projeto de lei do ponto de vista técnico. “É importante lembrar que qualquer lei que não estabeleça uma fonte de custeio, onera o sistema e por consequência, quem paga a tarifa”, explica a assessoria de imprensa da empresa.

Por Matheus Rolim


1 0 jornalismo literário

dez/2017

Fotografia 3x4

Aquele dia eu corri para pegar o ônibus, corri como tenho corrido para tudo na vida. No meio de todo mundo o que separa a cidade de mim é apenas o vidro, sinto que também há esse vidro entre mim e as pessoas, porque a imagem que elas vêem não é quem eu penso ser, e só sou quem penso ser. Para mostrar quem sou para o mundo e me registrar legalmente, desloco-me da minha casa e logo estou em uma loja que eu não entendo bem, faz fotografias e as revela, vende porta retratos, como deveria se chamar uma loja assim? De qualquer forma, quando chega a minha vez perguntam-me se quero ser datado, como um produto no mercado, para contribuir com todo o

aspecto legal do procedimento digo que sim. Me avisam: não pode aparecer o cabelo em cima da sua testa e também não pode estar em cima das orelhas, esconder alguma dessas partes do corpo não é permitido. A luz branca é forte, flash é o nome do que me cega por alguns segundos e ainda me perguntam se quero repetir o processo, ver como ficou, por mim me registraria com um autoretrato feito com mais seriedade do que o ato de tirar a foto executado pelo atendente desinteressado. Desorganizada e bonita é a vida, quando eu olho para a foto do meu RG, eu me sinto vivo!

Microcontos

Minha vó sempre disse que minha alma gêmea estaria no outro lado da rua. Fui atropelado por um ônibus. Por Jean Borg

Por Gabriel Clarindo Neto

Há um ano os repórteres do Foca Livre tiveram uma oficina de microcontos com o professor Ben-Hur Demeneck, em que deveriam contar“duas historias”em apenas 150 caracteres, incluindo espaços. Veja qual conto você gostou mais. A inflação, a crise política, a guerra na Síria eram problemas. Mas o maior estava no sofá vendo um clássico do futebol paulista. Por Kassy Liandra Sindicato dos Humoristas protesta contra o Congresso Nacional. Motivo: concorrência desleal. Por Isabela Ciuneck

- Professor, como saber o que é a verdade? - Nunca se pode ter certeza. -Certeza? - Absoluta. Por Bruna de Fatima Pereira Saindo do circo, o palhaço lembrou que sua vida era uma piada da qual todos riam. Por Gabriel Miguel A comida da minha avó era tão gostosa. Hoje, o restaurante popular está cheio. Por Stefhany Romanhuk -Qual sua posição política? -De quatro. Por Maíra Orso

A jovem passou a vida recusando convites. Foi preciso visitar um funeral para tomar um gole de café. Por Leticia Dovhy Enterrou o que o sobrou do corpo apressadamente, queria ir logo à igreja lavar a alma. Por Rafael Chornobai Após duas horas na seção de humor da livraria, desistiu de procurar por "A Divina Comédia". Por Rafael Chornobai Plantão da Globo. Gol da Alemanha. Por Pedro Andrade

Mas. E se. Talvez. Não. E a insegurança o consumiu. Por Fernanda Wolf

A noite cala meu quarto. Faltou você calar minha boca. Por Patricia Guedes

RECOMENDAÇÕES O Jornalista e o Assassino

Por Antoniella Signor

É um livro que descreve a relação estabelecida entre o jornalista Joe McGinniss e o médico Jeffrey MacDonald, condenado pelo assassinato de sua esposa grávida e de suas duas filhas. MacDonald confia que o jornalista poderia ajudá-lo, em sua defesa, por meio de um livro sobre o caso, mas não é isso que acaba acontecendo. A autora, influenciada pela psicanálise, Janet Malcolm levanta nesta obra, dúvidas sobre a liberdade de expressão e sobre a ética jornalística, e como uma pode contradizer a outra. TRECHO DO LIVRO: Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável. Ele é uma espécie de confidente, que se nutre da vaidade, da ignorância ou da solidão das pessoas.

Funny Girl: A Garota Genial Por Willian Clarindo

Um musical quase-biográfico, “Funny Girl” conta a história de Fanny Brice, comediante e artista de vaudeville no início do séc u lo XX. Barbra Streisand incorpora Brice e prova que atua, canta e dança o papel como ninguém. O amor cego que Fanny nutre por Nicky (interpretado por Omar Sharif) soma drama ao já conflitante tom do longa, que nem sempre consegue balancear as características esperançosas e cômicas de sua personagem principal com a triste trajetória pessoal e profissional de Brice. Entretanto, Streisand balanceia essas características, segura o filme aparentemente sem esforços e consegue, com sua performance, justificar todas as liberdades criativas tomadas com a história de Fanny.


jornalismo literário 1 1

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A protetora do canil de 281 animais

As aventuras de um quase jornalista ao visitar um abrio de bichos nas bordas da cidade

Roselia é uma senhora branca, tem os olhos azuis, estatura mediana, cabelos curtos e parece não preocupar muito com a aparência. Está com um calção e uma blusa sem mangas – sem produção alguma para dar a entrevista. A protetora de animais me pede duas coisas. Primeiro, não revelar o local do abrigo. Em segundo lugar, que eu olhasse em sua direção quando falasse com ela porque ela usa aparelho auditivo. Minha dicção é naturalmente péssima e, após quase trinta quilômetros de pedal, estava pior. Tive que repetir as perguntas várias vezes porque ela não me entendia. Mas antes de entrevistála e de eu beber água pela segunda vez [a primeira foi no ponto de encontro errado], ela me mostra o canil. Pensava ser longe, separado da casa e com várias casinhas com animais separados individualmente [conforme havia visto no YouTube, em uma reportagem antiga]. Pensava errado. Como tudo em sua história de vida, não tinha como dizer onde terminava a casa e começava o canil. Era tudo junto. Mencionei que estava com dó dos gatos, presos dentro de um recinto de madeira. Ao meu comentário, ela me retrucou – "ou deixo assim, provisoriamente, por 30, 60 dias, ou solto e morrem todos abandonados”. Insisti nos gatos, perguntando se não conseguiam conviver com os cachorros. Roselia disse que não, que os gatos são individualistas e os cachorros traiçoeiros. Imaginei que misturar uns 80 gatos com 160 cachorros não ia mesmo dar muito certo.

Cachorro de desenho

Roselia é uma senhora hiperativa, que não para quieta. Muito falante, ela gosta de dar ordem aos filhos e aos cachorros a todo momento. Sua paixão são os animais e sua vida se re-

sume a cuidar deles. Diz que já tentou fechar o canil ou passá-lo para a prefeitura, mas a resposta que obteve do poder público e de muitas pessoas é que seu abrigo não deveria fechar. A ampliação do canil e do gatil ia de vento em popa. Era um galpão grande, mas todo feito artesanalmente e por seu próprio filho, Felipe, que é um jovem de apenas 18 anos (alguns dias após a visita, o rapaz se acidentou com a máquina e perdeu um dedo). A obra me chamou a atenção pela qualidade, por ser muito bem-feita. Perguntei para ele com quem havia aprendido a trabalhar tão bem. A resposta me surpreendeu. Roselia contou que havia sido ela mesma a mestra-de-obras. E, além de fazer serviços de pedreiro, ela também era carpinteira. O público do canil são animais idosos, violentados ou mutilados que, por terem uma idade avançada, não se enquadram ou se adaptam para serem adotados. “Aqui é o local deles, onde podem correr, brincar, sem ninguém maltratar”, explica. A todo momento, ela mostra os cachorros, destacando a idade dos mais velhos – animais com 18, 19 anos – e a violência sofrida. Roselia apresenta um de porte médio, pêlo acinzentado e que, atualmente, por ter sido vítima de maus

Apesar dos animais idosos e da reclamação de que o estoque de ração só daria para mais um dia e meio, noto que os animais são bem tratados, que estão gordos e com o pêlo lustroso. Todos gostam muito dela. Uma cadela pretinha, de porte pequeno, se manteve debaixo da cadeira dela, durante parte da entrevista. Um cachorro preto grandão, de 18 anos, ficou nos rodeando e chegou a pisar no fio do único microfone de lapela que temos no Departamento de Jornalismo.

Algazarra animal

Incomodada com o assédio dos caninos e comigo, ela chegou a gritar “Aline! Vem me ajudar, segura a Pretinha! Desse jeito não posso conversar com o moço!” Aí, a moça aparece, meio envergonhada, e tenta segurar uns bichos. Digo que não ligo, mas acho que ela não me escuta.

A protetora de animais sofreu vários processos - em todos obteve ganho de causa - e ouviu muitas bombas jogadas pelos vizinhos. tratos, teve a boca cortada. Em função disso, ele come só papinha. Parecia um cachorro de desenho. Na verdade, ele já tinha se apresentado para mim, encostando o focinho e babando na minha perna e nas sacolas onde eu reembalaria os equipamentos levados para a entrevista.

Felipe e Aline são seus filhos de coração, que a ajudam no canil. Lorraine é sua filha, mas não é do casamento que manteve com um - já falecido - subcomandante do Exército. Roselia é viúva e vive, entre a cidade e esse sítio, com a filha mais os filhos adotados - Felipe, o pedreiro e motorista, e Aline, a moça

que a ajuda no controle dos animais. Felipe está terminando o segundo grau no Regente – para onde ia todo dia de bicicleta. Ele quer ser policial. Aline diz que desde os 10 anos ajuda a mãe e tem muito orgulho de cuidar dos bichos. É o maior prazer que ela tem. “Pretendo cuidar dos animais até o resto da vida deles e da nossa também”, conclui. Roselia é muito objetiva e, às vezes, meio ríspida. Talvez, seu temperamento seja resultado das experiências ao longo da vida e da convivência com o marido, militar. O olhar, no entanto, é de uma pessoa bondosa, que adora os animais e não entende a razão pela qual tem gente que maltrata os bichinhos. Em 2011, a mãe de Roselia faleceu aos 87 anos. Teve trombose, já que não cuidava do diabetes. Impossibilitada de andar em decorrência da doença, ela acabou ficando na cidade. A protetora de animais conta que sofreu vários processos - em todos obteve ganho de causa - e ouvir muitas bombas arremessadas pelos vizinhos. Após a morte da mãe, ela se mudou para a zona rural, mas diz que a chácara é alugada, paga R$ 600 de aluguel e R$ 300 de luz. Questiono se ali já tem eletrificação rural e ela responde que paga até a iluminação de postes inexistentes e que pretende

solicitar quatro postes à prefeitura. Cadela grávida No começo do canil, havia dez cachorros abrigados, e todos pertenciam a sua mãe. Aí uns vizinhos jogaram um cadela grávida na propriedade da família. Tentaram doá-la, mas não conseguiram. Depois, vieram outros filhotes. De repente, o local reunia 165 cachorros. Não pude ver a gata de 22 anos de idade [e esqueci de perguntar se ela fazia parte de algumas perdas que havia me relatado no início da visita]. Também não conheci o pastor alemão que tem a pata cortada e foi vítima de violência sexual cometida por seres humanos. Pude, no entanto, conhecer a cadela recém-resgatada e que teve 11 filhotes – dos quais sobraram dois. Os sobreviventes serão castrados e doados. E a cadela? O animal já é a moradora 281 do abrigo. Aliás, castração é outro problema, pois a prefeitura suspendeu as castrações de emergência. Em relação aos planos para o futuro, ela pretende terminar o canil e gatil e depois terminar a casa. Tem o sonho de comprar o imóvel, orçado em R$ 160 mil. Ela me mostra, no celular, fotos da enxurrada, que ano retrasado, invadiu a casa e fez com que sua família perdesse tudo. Por Marcos Vinicius Ionngblood


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esporte&lazer

ÚltimaslocadorasdeVHS aindaatraemclientes Locadoras da cidade estão cada vez mais restritas no mercado, mas ainda se mantêm no comércio divulgando os filmes através das redes sociais. No início dos anos 2000, eram mais de 30 locadoras de filmes VHS em Ponta Grossa. Hoje há cerca de quatro, espalhadas em diferentes regiões da cidade. A proprietária de uma locadora localizada em Uvaranas, Ana Ferreira está no mercado há quatro anos e alega que é preciso "agregar outros produtos além dos filmes, para estimular o cliente a frequentar o estabelecimento, e não se intimidar por formas de filme piratas”. Ana Ferreira possui quase 9 mil clientes cadastrados, mas só uma média de 4.500 clientes ainda vão locar filmes. “Alguns vêm esporadicamente, uns toda semana e outros todo dia”, considera. Mesmo com a internet e novas formas de acessar filmes online, o grande vilão das locadoras continua sendo a pirataria que agora com a

Locadora de Uvaranas resiste aos novos hábitos de assistir filmes. | Foto: Rafael Santos

internet fica mais fácil de propagar no mercado. “A Netflix, que é uma plataforma que todo mundo conhece, não é um fator prejudicial ao mercado porque tem mais séries do que filmes - embora seja um concorrente -, o que prejudica são os sites clandestinos”, comenta o proprietário de locadora no bairro Órfãs, Kelser Ricardo Miler. Alugar filmes para o fi-

nal de semana era um exercício familiar. Muitas pessoas aproveitavam promoções e o longo prazo para devolução e levavam muitos filmes para o final de semana, quase como um costume de época. “Esse costume se perdeu com a pirataria. Os DVDs piratas chegaram a custar menos que a locação de um original, logo as pessoas preferiram comprar os falsos, o que se tornou uma

péssima influência para os filhos”, comenta o colecionador de DVDs Vinicius Costa. Ele ainda ressalta que as formas online de assistir filmes não são um problema. “As locadoras tinham grande variedade de filmes, mas discordo que seja um acervo maior que a internet. Hoje em dia, filmes que nunca foram lançados no Brasil são facilmente encontrados para download na rede, todos

com legenda e qualidade superior ao DVD, é praticamente impossível pensar em um filme e não encontrá-lo na web”, contextualiza. O mercado VHS resiste ao século XXI, não tendo a tecnologia como principal vilão, mas a pirataria que está se propagando. De acordo com Ana Ferreira que participa de um grupo fechado no Facebook de donos de locadoras no país. Já o sócio e proprietário de uma empresa que trabalha com artigos geeks, Diego Juraski defende que "a pirataria em nada afeta as vendas e que ao contrário do que dizem, ele faz as vendas aumentarem". Segundo o empresário, "os consumidores que adquirem um produto pirata acabam gostando do filme e compram o original”. Ele acrescenta que é completamente a favor da pirataria e de alternativas ao Copyright, como por exemplo o Creative Commons.

Por Rafael Santos

Natação carece de investimentos na cidade

A falta de estrutura e escolas de base compromete as competições de natação na cidade. Os altos custos e a falta de investimentos desencorajam os atletas. Arthur Simonete, 19, relata que a maior dificuldade é encontrar piscinas para treinar, "as piscinas públicas geralmente são deixadas de lado e são sujas. Começam arrumar e não terminam. E, as que são boas cobram preços absurdos, isso acaba desmotivando", expressa Simonete. A piscina municipal de Ponta Grossa tem sede na Rua Visconde de Nacar 340, Centro, no Clube Guaíra. A Arena Multiuso, pronta após quase 10 anos de construção, é um dos projetos para competições, mas a prefeitura alega que a piscina não tem a quantidade de raias necessárias para sediar eventos oficiais. Entretanto, a condição para competições oficiais não é a quantidade de raias, mas o comprimento.

Piscina municipal da cidade | Foto: Milena Oliveira

O técnico do time de Ponta Grossa, Roberto Mryczka, afirma que com o tempo diminui o orçamento destinado ao esporte na cidade e no país. "O orçamento público deveria melhorar, através disso teriamos a possibilidade de ter escolinhas pa-

ra ensinar desde a base. Precisamos de mais pessoas nadando. Para isso, precisamos que as piscinas da cidade funcionem para que a população de baixa renda treine gratuitamente. Assim, podem ser revelados muitos outros talentos, como funciona em

todos os esportes", enfatiza o técnico. Roberto também relata que a natação é um esporte de alto rendimento e que um de seus alunos de 14 anos, João Carlos Cherubim, vai competir no Sul Americano com outros sete brasileiros

O auxílio monetário dado pela cidade é de R$400,00 por ano para cada atleta, valor que não cobre os gastos que o atleta gasta para competir. O material é considerado de alto custo, sendo o preço dos maiôs e das bermudas indicadas em torno de R$500,00. Além disso, o atleta pontagrossense gasta com as mensalidades pagas para realizar os treinos, com as viagens e inscrições das provas. "Eu sempre falo, Ponta Grossa é uma cidade que quem não pode pagar, não aprende a nadar", aponta Mryczka. O atleta Matheus Climaco Quirelli, 18, revela que parou de nadar por conta dos altos custos que a família assumia, "Após 8 anos nadando e competindo, meu pai não aguentou mais gastar tanto dinheiro. A prefeitura nunca ajudou com nada", desabafa Quirelli.

Por Milena Oliveira


cultura

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PG tem mais de cem edifícios modernistas Destaque em arquitetura modernista, seria possível criaruma rota turística arquitetônica na cidade A arquitetura modernista tem como ideal a padronização, já que é de um período pós-industrial (século XX). Ponta Grossa destaca-se por ter uma concentração de edificações modernistas no centro e arredores do município. São mais de 100 edifícios característicos e a maioria é residencial. A arquiteta Nisiane Madalozzo explica que, por serem construções próximas, é possível criar uma rota turística de interesse nacional. “Os alunos de arquitetura da PUC de Curitiba faziam visitas em Ponta Grossa para estudar modernismo no Brasil”, destaca a arquiteta. Os pioneiros desse estilo foram as instituições governamentais e bancárias. “Ocorreu uma valorização do estilo por órgãos do governo. Eles investiam e traziam arquitetos para as obras. Tudo para mostrar que a cidade estava em progresso”, explica Madalozzo. Depois, houve a replicação dessas características nas edificações das elites do município. Posteriormente, o modelo modernista foi repetido pela classe média. O alto número de obras dessa arquitetura na cidade está relacionado a diversos fatores, como conta a historiadora e professora da UEPG Elizabeth Johansen: “fatores que não se restrin-

gem apenas a aspectos econômicos, mas sim, culturais, políticos, de representatividade, e até estéticos”, explica. No Brasil, a arquitetura moderna instalou-se entre os anos 40 e 70 e sofreu influências e adaptações pelo contexto do país. As construções brasileiras passaram a usar materiais nacionais em sua confecção. Os jardins eram formados por plantas e pedras brasileiras para os mosaicos, entre outras intervenções. Ponta Grossa tem traços regionais que são notados em alguns edifícios. Os pilares em “V”, que foram usados pela arquitetura paulista e carioca nos anos 50, são vistos na cidade. As construções em desníveis são evidentes pela tipografia local. Também os terrenos estreitos tornam as

obras estreitas e longas, acentuando outra característica urbana do município. O conjunto arquitetônico moderno que a cidade possui, para a arquiteta Nisiane Madalozzo, deve ser preservado. A conservação se dá, principalmente, pelo tombamento como Patrimônio Histórico dos edifícios. Mas a idade das construções acaba tornando-se um empecilho para esse processo. “Muitos proprietários não entendem o porquê do seu prédio ser indicado para tombamento, pois o acham novo e não aceitam essa indicação”, lamenta a arquiteta. Segundo a advogada Caroline Schoenberger, não existe uma cultura em relação a preservação do patrimônio histórico em Ponta Grossa. “Mas a lei existe es-

pecificamente para que seja feita a preservação”, afirma. Schoenberger acredita que a lei e o incentivo para o proprietário de uma construção tombada deveriam ser melhorados. A principal desvantagem para o proprietário de uma casa em processo de tombamento está relacionada à especulação financeira e imobiliária. O dono do imóvel não pode fazer alterações sem autorização prévia e, em alguns casos, não pode realizar mudança nenhuma no edifício. “Esse imóvel geralmente está localizado no centro comercial do município e é de grande valor econômico. Então o congelamento de alterações faz o proprietário perder muito dinheiro”, explica a advogada. A preocupação de

Nos últimos meses, a cultura e a arte brasileira sofreram diversas censuras. A partir de dois casos polêmicos no Brasil, artistas fomentaram o debate sobre os limites das expressões artísticas e da censura. Um dos acontecimentos que se tornou polêmico no país foi a presença de uma criança em uma performance protagonizada por um homem nu, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM). Uma menina, em torno de cinco anos, foi filmada no museu tocando os pés e ombros do artista que estava imóvel e deitado no chão.

Outro caso foi a polêmica em torno da exposição QueerMuseu Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, em cartaz há quase um mês no Santander Cultural em Porto Alegre e apresentava o trabalho de discutir a diversidade de gênero e de sexualidade. Segundo o professor de teatro do Centro de Estudos Cênicos Integrado (CECI) Kaio Gomes Bergamin, um dos problemas envolvendo os dois casos, foram as notícias divulgadas em redes sociais que influenciaram na interpretação dos assuntos. Kaio relata que o princípio da ar-

te é a expressão humana e desde que não difame alguma pessoa, ela é válida. “Se eu sou artista e o que me move é expressar os sentimentos, como alguém pode me barrar?”, questiona Bergamin A professora do Departamento de Artes Visuais da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) Sandra Borsei, pensa que se abordamos a sociedade de forma agressiva, ela trata e discute sobre o que é a arte, o que não acontece há muito tempo. Hoje, para a professora, a concepção de "belo" não é mais suficiente. “Nós estamos em uma outra

dimensão, que é a reflexão, discussão. A intolerância social presente é muito grande, o problema está no cerceamento do pensamento e a proibição do que eu posso ou não ver”, afirma Sandra. A acadêmica de Artes Visuais da UEPG Kannanda Domingues concorda que o artista é uma pessoa sensível e que se expressa com sua arte através de uma pintura, performance, gravura ou música, e quando a sociedade tenta limitá-lo ela consequentemente acaba o matando. Os artistas de Ponta Grossa reconhecem que os acontecimentos noticiados

Nisiane Madalozzo é que o mercado cada vez mais destrói edifícios novos para a construção de outros mais novos ainda. Por isso, a preservação torna-se difícil. “Ponta Grossa vive um crescimento de construção civil. O que permanece, por causa da dificuldade de aquisição, são os imóveis tombados”, observa o corretor de imóveis Fábio Antônio Ferreira. Para a historiadora Elizabeth Johansen, a conservação é muito importante para a cidade. “Somente a preservação do patrimônio arquitetônico local permite que essas diferentes heranças culturais de proveniências as mais diversas sejam capazes de contar o que a cidade já viveu”, defende a professora. Na faculdade de arquitetura da cidade, Madalozzo fez um projeto para inventariar prédios locais. Dos mais de 100 catalogados como modernistas, ela e um grupo de alunos selecionaram aproximadamente 20 edifícios principais para entrar no processo em 2015. Já houve pedidos aceitos de retirada da propriedade do procedimento. Os imóveis que continuam na lista não avançaram no sistema. Por Ana Istschuk e Lucas Cabral

Artistas de PG repudiam censura à cultura nas mídias resultam em um medo de censura e incompreensão de seus trabalhos. Essas censuras são atos políticos que impedem o crescimento social e intelectual. "Não é possível viver sem arte, a roupa que você escolhe, o modelo, as músicas que você ouve, uma fotografia ou gravura admirada, tudo isso é arte e rodeia a vida das pessoas todos os dias, tudo é uma forma de se expressar. As pessoas precisam entender e respeitar o outro antes de querer impor alguma coisa”, expressa Kaio.

Por Jéssica Gradin e Maíra Orso


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da redação

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EDITORIAL

PALAVRA DO EDITOR

Muito mais que uma O zumbido da varejeira Cada edição do apenas deu uma contracapa ao fim, agradeço aos alunos experiência Foca Livre carrega consigo ao ensaio fotográfico como por acreditar num sonho Após uma longa de despedida, partilhamos

caminhada, que se estendeu entre março e a primeira semana de dezembro, entregamos nosso último Foca Livre. A redação alcança a linha de chegada exausta, mas como sempre, pronta para mais. O oitavo Foca é uma despedida, árdua, mas aliviante. Em meio a ataques por parte do governo contra as IES públicas, provas e entregas de trabalhos nós, acadêmicos, que lideramos o Foca Livre durante seu vigésimo quinto ano, respiramos mais calmos após o oitavo Foca rodar nas máquinas. Na capa, você acompanha uma charge que ilustra o encontro dos nossos oito mascotes. Esse encontro é, também, uma representação do desenvolvimento do nosso jornal e de nossa equipe. Dentro do jornal, em clima

nossas páginas com os colegas que assumirão o veículo mais tradicional do curso de Jornalismo da UEPG no próximo ano, os alunosdoatual primeiroano. Várias matérias desta edição são produção deles. A difícil tarefa de integração, buscada em todas as edições, fica visível nas páginas do Foca 199, que passa a arte moribunda do jornal impresso para uma nova geração. Essa edição simboliza uma temporária fuga dos afazeres, da cobrança e dos prazos que envolvem uma graduação em Jornalismo. É um alívio. A retícula preta faz alusão ao momento de desmonte às Universidades Públicas do país e, especialmente, do Estado do Paraná. Oiníciodoanoletivo de 2018 ainda é uma incerteza.

OMBUDSMAN

Ousar para resistir Mais que formar e das edições foi equilibrar o

informar, produzir jornalismo impresso torna-se cada vez mais um ato de resistência. Uma batalha contra a superficialidade das redes sociais, o consumismo apressado de informação e o imediatismo do universo digital. Nesse cenário, o trabalho da equipe que durante todo o ano de 2017 se esmerou para entregar o Foca Livre é digno de reconhecimento por si só. Ao retomar o primeiro texto que produzi para esta coluna, no qual elencava as qualidades necessárias para se produzir um bom jornal laboratório, é inegável enxergar o esforço da equipe na busca daqueles objetivos. Creio que a maior qualidade ao longo

conteúdo entre ambientes distintos: universitário, local, regional e nacional. Por vezes com foco maior em um ou outro, mas sempre se preocupando em olhar para todas essas realidades. Erros? Houve, e não foram poucos. Felizmente. Afinal, como o nome diz, trata-se de um jornal laboratório, que existe para experimentar e no qual os erros são, na maioria das vezes, mais importantes ao aprendizado que os acertos. O fundamental, como mostraram seus responsáveis, é jamais ter medo de ousar. Anderson Gonçalves é jornalista formado pela UEPG, foi repórter e editor nos jornais Diário dos Campos e Gazeta do Povo

as histórias dos jornalistas formados pela UEPG nos últimos 25 anos. Mais que ser o canal de expressão mais tradicional do curso é uma labareda de ousadia. Em 2017, o jornal produzido em software livre implementou expedientes em fact-checking, curadoria e jornalismo literário. O primeiro exemplar foi histórico e carrega algo de artesanal porque a porção "Foca" do "Foca Livre" foi toda carimbada pelas mãos dos alunos. Edição a edição. A ideia de mudança das retículas e o apuro gráfico no formato Berliner, não

também concedeu destaque central à infografia. O Foca Livre - Ano 25 formou discentes atentos a uma plêiade de valores compromisso com a verdade, pluralismo, responsabilidade, independência de edição, honestidade, intelectual, promoção da cidadania, defesa da democracia e da liberdade de expressão. Tal conjunto se traduziu em uma busca por qualidade jornalística, alto padrão estético e diversidade de gêneros jornalísticos. Professor responsável por criar e acompanhar o projeto editorial do início

coletivo editado em 16 páginas. No “balneário das focas” se conheceu a máxima de García Márquez de que “a ética não é uma condição ocasional ao jornalismo; a ética o acompanha tal como o zumbido acompanha a varejeira". A imagem pode não ser das mais belas, mas é precisa. E jornalismo se faz com pensamento crítico e exatidão. Não com cores de aquarela.

al. Nele não é possível errar, não dá para deletar ou atualizar as informações. No máximo uma errata na próxima edição. Uma foto não tratada, e o jornal não ficará bonito. Uma informação equivocada, a edição se eternizará pelo erro. Este é o maior desafio da produção laboratorial do jornal impresso, a reponsabilidade que acompanha sua produção. Com erros, alguns

acertos, finalizamos o ano com a edição 199 do Foca Livre. Espero que o leitor goste desta edição. Foi a mais “corrida”, em razão do final do ano letivo. O leitor irá tirar suas conclusões sobre o trabalho. Como afinal é o Jornalismo, o leitor é a maior autoridade em avaliar sua validade.

Por Ben-Hur Demeneck

Ensinar e fazer jornalismo O Foca Livre este

ano foi editado pelos alunos do segundo ano do curso para a disciplina de Núcleo de Redação Integrada I Um fato interessante, particularmente diria fantástico, foi a integração ou, convergência, como dizem, com as demais turmas do curso. Parece fácil, na prática, muitos cursos de Jornalismo já tentaram e pouquíssimos conseguiram, pois isto exige uma coordenação de propósitos, alinhamento pedagógico e muito diálogo. Para que o veículo chegue ao leitor foi exigido dos editores a discussão da linha editorial , a seleção das matérias e das imagens, revisão do texto, diagramação e o conteúdo da capa. Em cada processo uma decisão é tomada, exatamente neste momento, o da decisão, que a aprendizagem está acontecendo. O Jornalismo é uma arte da tomada de decisões. De todas as plataformas, o impresso ainda guarda uma magia especi.

Edição geral: Lucas Cabral, Rafael Chornobai e Rodrigo Char- diretamente na página da notícia. neski. Edição de texto: Alessandra Delgobo, Amanda Santos, Enaira Schoemberger, Gabriel Miguel, Jéssica Gradin, Júlio Cé- Foca Livre éum jornallaboratorialdo segundo ano do sar Prado, Letícia Dohvy, Maíra Orso, Milena Lopata e Pedro curso de Jornalismo da UEPG. Andrade. Edição de imagem: Ana Lopes, Ingrid Petroski, Nicolas Rutts, Priscilla Pires, Rafaela Martins, Saori Honorato e Ve- Os textos de opinião são de responsabilidade de seus rônica Sheifer. Núcleo de pesquisa e revisão: Lorena autores e não expressam o ponto de vista do jornal. Panassolo. Diagramadores: Ana Istschuk, Barbara Popadiuk, Debora Chacarski, Fernanda Wolf, Guilherme Bronosky, Mari- Endereço (cartas, CDs e DVDs para o Foca): na Santos, Millena Villanueva, Patrícia Guedes e William Cla- Departamento de Jornalismo rindo. Repórteres: Consulte a autoria das reportagens

Por Cibele Abdo Rodella

CHARGE

UEPG - Campus Central Praça Santos Andrade, nº01- Centro CEP: 84010-790 - Ponta Grossa - PR Professores Responsáveis: Ben-Hur Demeneck (DRT 5664 - PR) Cibele Abdo Rodella (MTB 22,156 SP) Impressão: Grafinorte, Apucarana (PR) Tiragem: 2000 exemplares Telefone: +55.42.3220.3389 Contato: focalivre25@gmail.com


entrevista

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Jornalistaexplica a importânciados softwares livres A jornalista BarbaraTostes, formada pela Faculdade Secal Santa Amália participa, como colaboradora e ativista, de projetos voltados à produção e uso de softwares livres. Tostes aposta no uso desses softwares para um acesso mais democrático das redes. Em entrevista, a jornalista explica a importância do softwares livres e seus desenvolvedores no cotidiano das redes, e atenta para os riscos de grandes empresas e proprietários excluirem quem não possui condições financeiras do ambiente virtual. O que lhe motivou ser uma defensora de software livre? Como começou a estudar o assunto? Quando estudava jornalismo para a web, em 2004, precisei de um sistema de gerenciamento de sites para publicar conteúdos e notícias mais rapidamente, que fosse fácil e prático. Optei pelo CMS (Content Management System - Sistema de Gerenciamento de Sites) PHPNuke. Iniciei alguns sites mas logo vi que ele não era seguro, era um software livre (SL), mas tive invasões em meus sites, com "hackers" postando imagens de gaivotas em notícias de assuntos políticos, por exemplo, e "crackers" entrando e apagando todo o site e o banco de dados. Cansada dessas invasões, procurei um sistema mais seguro, aí encontrei em outro software livre, o "e107.org Inc.". Como era um CMS novo na rede, eu comecei a colaborar na comunidade brasileira como tradutora desse sistema. A "troca" que fiz foi ajudar na tradução e tirar dúvidas de novatos. Quando usei um programa para postar notícias na web, ganhei dinheiro fazendo sites com ele. Aí fui ler o que era a licença GNU/GPL, que apresentava as quatro liberdades do Software Livre. Em 2005 eu fui convidada para falar do CMS e107 no Congresso Internacional de Software Livre, em São Paulo e conheci pessoas que me ajudam a compreender a filosofia do SL.

Quais são os principais motivos de se optar por softwares livres? O principal motivo é a sua liberdade mesmo. E além da liberdade, o usuário é capaz de ver o código quando quiser, assim a gente deixa "claro" o que está por trás da construção da lógica de programação e pode ter certeza que não está sendo "vigiado". O motivo principal é a licença GNU/GPL, a filosofia do software livre, que trata as quatro liberdades: a liberdade zero (sim, os programadores começam a contar do zero!) é a de usar o programa para qualquer propósito; a liberdade um é poder estudar como funciona, modificá-lo e adaptá-lo para suas necessidades; a liberdade dois é a de poder distribuir cópias do programa; e, a liberdade três é a que permite melhorar o programa e publicar as melhorias. Qual é aimportânciados softwares livres? Os softwares livres envolvem uma comunidade colaborativa, programadores, usuários, empresas públicas e privadas, associações, cooperativas. É preciso documentar, testar, modificar o código até ficar perfeito. Usuários dos softwares livres sempre podem entrar em contato direto com os desenvolvedores e sugerir modificações ou até mesmo modificar os códigos e enviar, colaborar. Quando melhoram os programas, as mudanças podem ser implementadas e distribuídas com essas "novidades". Então é importante esse acesso dire-

Barbara durante palestra na Campus Party, em 29 de janeiro de 2016. | Foto: Murilo Amancio

to que só os softwares distri- O desenvolvimento do tos sempre serão mantidos buídos sob licença livre têm. software livre atualmen- na licença GNU/GPL.

te é suficiente para competir com os pagos? Eu defendo que o desenvolvimento dos softwares livres vai ultrapassar os proprietários. Tem uma frase que o pessoal do GNU usa que é "não confunda o discurso livr' com cerveja grátis". Ou seja: um software livre respeita as quatro liberdades, mas ele pode ser vendido, sim. Então um software livre pode ser pago. A gente chama de "Software Proprietário" os que não permitem acesso ao código ou que não respeitam as quatro liberdades do usuário.

Quais são as vantagens de utilizar softwares livres? Háalgumadesvantagem? Existem softwares livres para todas as áreas. Eu conheço amigos que colaboram traduzindo o GCompris, que é um conjunto de atividades educativas, um software livre premiado, voltado para crianças das escolas municipais, estaduais e particulares do país inteiro. Não vejo desvantagem em usar softwares livres. Alguns deles vão funcionar em todos os sistemas operacionais; ou seja, usuários que estão com Windows, Linux e Mac po- Como o software livre protege a privacidade dem trocar arquivos. dos usuários? Na verdade os usuáVocê considera o uso de softwares como tendo rios é que sabem que estão um caráter pedagógico? protegidos quando usam Sim, extremamente softwares livres, porque eles pedagógico. O Raspberry Pi podem ver os códigos e se é o menor computador pro- certificar que não tem nada duzido para fins educacio- malicioso neles. nais. As crianças britânicas aprendem a programar por Qual amaiordificuldade ele. É do tamanho de um car- enfrentada por desentão de crédito e tem custo re- volvedores de softwares duzido, para dar mais acesso. livres? Eu sou usuária de Na área de jornalismo, eu sempre defendi o laboratório softwares livres, mas tenho totalmente aberto e livre, feito uns cursos de raspagem com softwares para todas as de dados públicos em áreas. Há um software livre Python, que é uma linguapara atender a demanda. É gem livre para o jornalismo. muito importante o uso e di- Eu acho que é o tempo de fusão nas universidades, por- desenvolvimento. Mas se for que é aí que os alunos uma pessoa apenas ou uma aprendem a filosofia e a ra- equipe pequena, fica cada zão de ser dos softwares livres vez mais lento o processo. e podem participar ainda Então, disponibilizar o códimais na construção e melho- go, distribuí-lo livremente, vai permitir que outras pesria dos mesmos. soas colaborem. Seus crédi-

Quais são as maiores armadilhas contidas nos termos de privacidade dos softwares? É tudo um contrato que só quem ganha é o proprietário do software. Leia atentamente as licenças, quando você compra um software proprietário, ele nunca é seu! A Microsoft vende o Windows e ela pode dizer: "Não quero mais que você use!". Pronto! E você não vai mais poder usar. Como fizeram com o Windows XP. E ainda colhem dados descaradamente e ainda tem usuário que permite isso, clicando em "Sim, eu aceito essa licença" sem ler nada antes. O jornalismo tende a permanecer em que tipo de programas de softwares? Eu vejo que tudo o que os softwares proprietários fazem dá para fazer com softwares livres, mas o pessoal das redações usa os que são mais "renomados" porque é mais legal, é chique dizer que comprou licença da Adobe ou ridículo dizer que está pirateando tudo. Sim, sou contra a pirataria de software. O jornalismo precisa se voltar para as comunidades, para a filosofia do SL. Conheço bastante gente bem profissional utilizando 100% softwares livres.

Por Camila Zanardini e Gabriel Miguel


Foca Livre - Ano 25 - Edição 199  
Foca Livre - Ano 25 - Edição 199  

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