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"Virei líder pois cansei de ver minhas amigas morrendo",diz ativista LGBT

Priscilla Pires

Débora Lee fundou há 17 anos o Grupo Renascer e hoje faz a coordenaçãogeral da ONG. Ela representa a comunidade LGBT em três conselhos municipais e um nacional. A ativista compartilha com o Foca Livre um pouco de sua vivência como ex-prostituta e atual ativista. Só no ano de 2016, houve mais de 140 assassinatos de pessoas trans no Brasil. Segundo o “Dossiê: A Geografia dos Corpos das Pessoas Trans”, publicado pela Rede Trans (Rede Nacional de Pessoas Trans – Brasil), o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo. Ao longo da vida, Lee perdeu colegas de rua, foi estuprada, levou facadas e tiros. Ela oferece um testemunho da violência contra travestis e de sua superação pessoal. Por exemplo, através de uma ação, ela conseguiu o direito de usar o nome social dentro da Universidade e de escolas.

No mês do orgulho LGBT, Foca Livre apresenta um ensaio Confira a entrevista com Défotográfico com a maquiagem e a mensagem das drag queens bora Lee página 13, em que ela ponta-grossenses. Os artistas performáticos foram fotografados por denunciana a hipocrisia da sociedade Priscilla Pires e Nicolas Rutts. | Vire o jornal e confira o ensaio. ponta-grossense.

Sete em cada dez Youtubers,adaptaçõesparaocinema medalhas do JEM e fantasia dominam vendas de livros sãodeparticulares

Para cada escola particular na competição, houve seis públicas. Contudo, as escolas estaduais e municipais conquistaram apenas 30% das medalhas da 33º edição dos Jogos Estudantis Municipais, ocorrida dos dias 20 de maio a 3 de junho. Professores e alunos apontam a estrutura precária, a falta de incentivo para a prática esportiva como responsáveis pelo mau desempenho.

Insegurançaem Uvaranas ameaça comunidade universitária Metade dos colégios de PG ensinam espanhol Rede municipal sofre com falta de investimento em tecnologia

Saori Honorato

Elton Hartman: remanescente dos sebos antigos Rios: a Como funcionaumaaudiênciapública Cassandra escritora mais censurada na Por que políticos LGBT são tão raros ditadura Segundo a pesquisa do Instituto Pró-livro, feita em 2015, os três principais motivos para escolher um livro são o tema ou o assunto, a indicação de outras pessoas e quem é o autor da obra. Nas livrarias da cidade, os best-sellers superam obras de literatura brasileira, que limitam-se aos títulos de vestibular.


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UEPG

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Insegurança no Campus Uvaranas da

UEPG ameaça estudantes e funcionários A falta de segurança no Campus de Uvaranas da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) preocupa a comunidade acadêmica. No dia 24 de maio, o mestrando em Odontologia Eric Acuña Navarro, 28, foi baleado no tórax durante um assalto em um ponto de ônibus dentro da UEPG, Campus Uvaranas, quando retornava para casa. “Dois homens chegaram e abordaram pedindo os celulares e as bolsas. Eu ignorei eles, depois disso eles decidiram ir embora, mas acabaram voltando agressivos. Pediram meu celular e logo já atiraram”, conta Navarro. O capitão da Polícia Militar, Fábio Geraldo Canteri, afirma que há cinco meses foi reforçado o número de viaturas dentro

do campus. No dia em que Navarro foi baleado, o Capitão Canteri afirma que havia duas viaturas no local, “uma estava chegando na UEPG e a outra estava perto do Central de Salas, mas como o campus é extenso não conseguiram chegar a tempo”. Segundo a polícia, não haverá novas medidas para melhorar a segurança no campus Uvaranas. “Não é viável, pois não existem viaturas suficientes”, disse o capitão. O risco afeta principalmente os acadêmicos e funcionários que estudam e trabalham à noite porém, a situação está tão alarmante que estudantes de cursos matutinos e vespertinos também se sentem acuados pelo problema de falta de segurança. Evaldo Leandro Potma, 21, estudante de

Agronomia, vai para o campus às 8 horas da manhã e permanece até por volta das 18h. “O pessoal se organiza para todos irem de carona, para ninguém precisar ficar no ponto de ônibus”, conta Potma. A insegurança atinge também os moradores de bairros e vilas ao redor da UEPG, que precisam cruzar o campus, muitas vezes à noite, para chegar em suas casas. “Muitas pessoas que moram nas redondezas precisam passar durante a noite pelo Campus, e ele é muito mal iluminado e com muitas árvores ao redor”, afirma Potma. Funcionários e acadêmicos tomam medidas para evitar a onda de assaltos, como o fechamento dos laboratórios de estudo antes do horário convencional. “Agora os

laboratórios estão fechando mais cedo, às 18 horas. Nunca estamos sozinhos, e às vezes nos trancamos para dentro. Ainda, se alguém estiver de carro fica para dar carona, para ninguém precisar pegar ônibus”, explica a estudante de biologia, Verônica Vedam. Além dos laboratórios, a partir do dia 21 de Junho, a biblioteca da universidade também passará a fechar uma hora antes, às 21 horas. A bibliotecária Luciana Cristina de Oliveira reconhece o perigo e afirma sentir medo de pegar ônibus no local, que é muito escuro e com pouco tráfego de carros e pessoas. Por Enaira Schoenberger e Maíra Orso

Exposição traz visibilidade LGBT à UEPG O Grupo Universitário de Diversidade Sexual e Identidade de Gênero (GUDI) realizou, nesta terça-feira, a exposição "Sobre nós", com fotos de acadêmicos e professores da UEPG. Além das fotos, foram expostos cartazes de resistência e contra o preconceito. Em 28 de junho é comemorado o dia internacional do orgulho LGBT, que marca a história do movimento. O organizador Guilherme Portela conta que o objetivo do evento é dar visibilidade para os LGBTs na universidade. "Nós organizamos esta exposição para mostrar que também estudamos aqui e que, além de lutar por uma universidade pública e de qualidade, devemos transformá-la numa universidade colorida", afirma Portela. Além da exposição, os estudantes penduraram a bandeira do movimento LGBT na fachada da instituição, com autorização da reitoria. De acordo com Clara do Prado, membro do GUDI, o processo foi burocrático e o limite inicial para permanência da bandeira foi de apenas um dia, mas foi estendido para dois após um pedido do grupo. "Com isso, eu espero

DIMINUI EM 30% O NÚMERO DE REFEIÇÕES NO R.U

A partir do dia 1 de junho aumentou o valor da refeição no Restaurante Universitário (RU) da UEPG. Agora, alunos e servidores pagam R$3,80 por ticket. A nova tabela de preços é baseada na renda familiar. Segundo o servidor da UEPG, Fábio Pontes, no Campus Central o número de refeiçõs diárias diminuiu cerca de 30%. Estima-se que o aumento do preço foi o principal motivo dessa queda.

Por Ingrid Petroski SUSPEITA DE CRIME DE HOMOFOBIA

Sandro Murilo Pedrozo, bacharel em Geografia, formado no começo desse ano pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e massoterapeuta conhecido na cidade foi agredido no ultimo dia 18 nas redondezas da mesma universidade. O homem foi abordado por três sujeitos. A população suspeita de que Sandro tenha sido vitima de homofobia. Segundo a adminidtração do Hospital Bom Jesus, Sandro ainda está desacordado, mas já saiu da UTI.

Por Lorena Panassolo

ESTUDANTES RECRI­ AM DCE DA UEPG

Mostra LGBT na UEPG Central em frente ao bloco D | Foto: Ingrid Petroski

que mais pessoas vejam a bandeira, que também serve como uma ferramenta de resistência para mostrar que a comunidade LGBT está presente na universidade", diz Clara. Uma enquete foi realizada pelos repórteres Ingrid Petroski, Maíra Orso e Pedro Andrade no dia 28 de junho na UEPG, com as questões "Você sabe o que é comemorado no dia 28 de junho?" e "O que você achou da bandeira LGBT na fachada da UEPG?". A maioria não soube responder a pri-

meira pergunta, mas acham a iniativa de pendurar a bandeira muito importante e são favoráveis a outras manifestações deste tipo. "Vejo muita gente que tem pensamentos retrógrados ainda. Dá mais voz, o preconceito é algo que precisa acabar", afirma a estudante de serviço social Bruna Butyn. A bandeira esteve na fachada da UEPG nos dias 28 e 29 de junho e a exposição "Sobre nós" acontece até o dia 7 de julho. Por Ana Lopes e Rafaela Martins

Estudantes aprovam refundação do Diretório Central dos Estudantes (DCE). Durante assembleia, no auditório do campus central da Universidade Estadual de Ponta Grossa, Cerca de 70 pessoas participaram da assembleia. Além da fundação da intituição estudantil na noite de terça-feira, dia 6, houve a criação da Comissão Eleitoral que organizará eleições estudantis no início do segundo semestre letivo da UEPG. Desde de 2013 não há gestão à frente do DCE. A Comissão Eleitoral deve convocar as eleições no fim de julho. Por Maíra Orso e Pedro Andrade


cidadania

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Ausência de regulamentação prejudica trabalho de tatuadores e bodypiercers Cresce em Ponta Grossa a procura de tatuagens e piercings pelos jovens nos últimos anos

Manami Kubo acredita que piercings são tão bonitos como acessórios comuns | Foto: Debora Chacarski

Embora tatuagens e body piercing tenham maior procura por jovens e adultos, a profissão não é regulamentada pelalegislaçãobrasileira. A pesquisa feita pelo Sebrae divulgada em junho de 2016 aponta que entre 2009e2012, o trabalho com tatuagem e bodypiercers no Brasil teve um aumento de 413%, enquanto o crescimento anual chega a 20%. Levantamento

da Revista Superinteressante em 2015, aponta que 48,2% daspessoastatuadastêmentre 19e 25 anos. Em 2009, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) lançou o manual de “Referência Técnica para o Funcionamento dos Serviços de Tatuagem e Piercing”, com as normas básicas para o atendimento dos profissionais à população. O

Em 2003 o prédio do Museu dos Campos Gerais, localizado na Rua Engenheiro Schamber, no antigo fórum, foi desocupado para restauração. Desde então, o museu vem funcionando no local onde antes existia o Banco Banestado. O local não é adequado para a realização de exposições. "Aqui funcionava uma agência bancária, podemos ver onde ficavam os caixas, lá embaixo era outro setor. É uma estrutura muito boa para agências bancárias. Então aqui é tudo adaptado", explica o coordenador do

museu Paulo Eduardo. Foi apenas em 2009 que o Ministério Público autorizou a restauração do prédio, que começou em 2012, pelo teto. Continuando em 2013 com a reforma da fachada. Contudo, as obras pararam depois disso. Somente em 2016, ano previsto de entrega da obra, voltou a se falar da retomada da restauração. A demora ocorreu pela dificuldade da Lei Rouanet e pela burocracia. Para poder iniciar as obras a diretoria do museu tem que solicitar o projeto para a Pró-Reitoria de Planeja-

jurídico e de sindicatos para exercício das profissões. O bodypiercer Junior Teixeira conta que embora seja especializado na área por meio de workshops, é registrado como gerente de umalojade produtos alternativos – piercings, e acessórios–considerandoque a profissão não é reconhecida porlei. Os estúdios seguem o regulamento da Prefeitura Municipal, da Vigilância Sanitária e da Anvisa para entrar em funcionamento. Tatuagens e piercings não podem ter seus objetos reutilizados, pois causam risco de contaminação. Os instrumentos utilizadosnaaplicaçãodospiercings e tatuagens, como agulhas e cateteres, são materiaisesterilizadose sãodescartados como lixo biológico. O serviço que reco-

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lhe e dá o devido fim a esse lixo é de responsabilidade de cada estabelecimento. Caso não se adeque às medidas, o local passa por processos administrativos que podem resultar em multas, cujo valor depende da gravidade do processo e em fechamento do estabelecimento. As tatuagens variam de preço a partir do tamanho até 10cm de 100 a 200 reais dependendo do estilo do traço também. As coloridas, por exemplo, tendem a ser um pouco mais caras, pela variação e quantidade de tintas usada. Os piercings vão de 40 a 120 reais, e seu valor muda de acordo com o lugarda aplicação e jóia escolhida.

cuidado com o histórico de doenças dos clientes, cadastramento de todos os instrumentos utilizados nos procedimentos e a escolha dos materiais, são alguns dos exemplos de regras do documento. Somente a tinta que possuir registro válido na Anvisa pode ser utilizada, como prevê a resolução RDC nº 55/08. O Projeto de Lei 2.104/2007, da Câmara dos Deputados, busca a regulamentação da atividade de dermopigmentação artística (tatuagem), a perfuração corporal (piercing) e as condições de funcionamento dos estúdios. A advogada Katiuscia Rockenbach explica que a falta de regulamentação pode acarretar em problemas para a prática da profissão. “Pode resultar em estúdios fora do padrão de higiene, ou materiais não autorizados pela Anvisa, colocando em risco a saúde dos clientes”, ressalta Rockenbach. A profissional esclarece que a regulamentação aindanão foi aprovadaporhaveruma discussão na Câmara dos Deputados sobre a responsabilidade da Anvisa, que já possui um manual a ser seguido. Os tatuadores e bodypiercers não têm suporte

Will Ferrero tatua há 2 anos e meio e é procurado por fazer desenhos "fora do comum" | Foto: Debora Chacarski

mento da UEPG. Eles fazem o projeto e passam para a Pró-Reitoria de Assuntos Administrativos onde é feita uma licitação. Somente após este trâmite é que a documentação volta para o museu. A partir disso, é protocolado no MINC (Ministério da Cultura) para se conseguir o patrocínio da Lei de Rouanet. Depois o MINC retorna com algumas diligências para serem refeitas e entrarem no padrão, com o prazo de 20 dias para o documento estar pronto. O projeto de reforma do Museu dos Campos

Gerais teve andamento até agora é a reforma exterquando o professor do cur- na e do telhado. A segunda so de Turismo da UEPG etapa prevista será da parte Carlos Alberto Maio era di- interna do museu e a terretor. Contudo, na transi- ceira etapa a criação de um ção de uma direção para anexo para os funcionários outra o projeto ficou para- trabalharem. Na primeira do, tendo que ser refeito to- reforma foram gastos 1 mido o processo novamente. lhão de reais, já na segunda Em 2017, a nova direção etapa da reforma a previsão voltou a atualizar o projeto, está na ordem dos 2 mique é contínuo. Ou seja, a lhões. Caixa Econômica enviaria o dinheiro a partir das etapas entregues, porém, o Por Guilherme Bronosky e Lorena Panassolo projeto deveria ser renovado todos os anos, e na mudança de direção não houve essa renovação. A etapa completa

Por Barbara Popadiuk e Debora Chacarski

Após cinco anos de reforma, obras no Museu dos Campos Gerais não foram


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cidadania

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Câmara aprova Lei que obriga o uso de energias renováveis em obras públicas

Aprovada na Câmara em maio, obras públicas no município deverão gerar sua própria energia nou-se meta para a população mundial. Esta preocupação advém da necessidade de encontrar métodos menos prejudiciais ao meio ambiente, além de tornar aproveitável a energia que está disponível em todo o lugar, como aponta o engenheiro ambiental e consultor da empresa do ramo OBY, Felipe de Arruda Troyner. A adesão destes novos métodos, ele destaca, também se dá por conta do benefício monetário, se for levado em conta o alto custo da energia elétrica (que sofre com as variações de preço pelas bandeiras tarifárias). “A geração de energia local vem ganhando cada vez mais espaço, ainda mais com a redução gradual dos custos de matérias e com as novas tecnologias”, explica Troyner. Isto tem se tornado mais visível na região. Nos últimos dois anos, a Companhia Paranaense de Energia registrou um aumento de 600% na ligação de geradores de energia solar, e também na produção de

energia excedente (suficiente para sustentar pelo menos 1.300 residências). De acordo com a professora de arquitetura sustentável da Faculdades Ponta Grossa, Andressa Ferrari, o nicho da arquitetura sustentável tem se expandido nacional e regionalmente. Ela destaca a adoção de técnicas construtivas que otimizam o emprego de recursos (como o steel frame); a criação de empresas especializadas na implantação de sistemas fotovoltaicos para geração de energia limpa; e a realização de pesquisas científicas para desenvolvimento de novos materiais. Para Ferrari, a valorização dos recursos renováveis é favorável não só ao meio ambiente, mas também para as relações humanas e a qualidade de vida. “A sustentabilidade precisa fazer parte do nosso pensamento diário, não sendo apenas uma ferramenta opcional ou uma tendência do mercado”, acredita.

Pouco mais da metade dos colégios de Ponta Grossa ofertam espanhol como disciplina. Dos 59 colégios, 28 não contam com o idioma. Nove deles são escolas de Educação Especial. Desde 2005, a língua espanhola deveria ser ofertada em horários alternativos em todas escolas de Ensino Médio. A Reforma do Ensino Médio, vigente desde 16 de fevereiro altera diversos elementos do currículo escolar e retira a obrigatoriedade da oferta de espanhol, regulamentada pela lei n° 11.161/2005. A Reforma do Ensino Médio, obriga o ensino do inglês e permite outras línguas de forma optativa. O presidente da As-

sociação de Professores de Espanhol do Estado do Paraná (APEEPR) Gilson Woginski crítica a Reforma. “As vozes das comunidades escolares não foram ouvidas”, acredita Woginski. Sobre a proposta, Gilson reitera que “esse projeto de lei não condiz com a realidade”. O professor do curso de Letras na UEPG Renan Fagundes reafirma o retrocesso que a reforma trouxe. “Ser professor de língua espanhola no Brasil em meio ao contexto em que nos encontramos é um posicionamento ideológico e político”, declara Fagundes. Atualmente, o espanhol é oferecido em 32 dos 59 colégios de Ponta Grossa. Em 28 escolas municipais, a língua é obrigatória confor-

me o currículo do Ensino Fundamental do 6° ao 9° ano. Em 16 escolas, o espanhol é oferecido somente ao Ensino Médio. O espanhol nãoéofertadoem28 colégios estaduais da cidade. Conforme o professor Fagundes, o Núcleo Regional de Educação de Ponta Grossa deveria ter convocado assembleias, para a comunidade escolar decidir. “As poucas escolas que têm o ensino de tal idioma em sua grade, são decorrentes de reuniões onde a comunidade escolar optou pelo ensino do idioma na grade e não apenas no CELEM como algumas realizam”, relata. A reportagem buscou declaração do Núcleo Regional de Educação de Ponta Grossa, mas não

Infográfico: Heloísa Vivan

A lei 12.797 aprovada em 24 de maio na Câmara Municipal de Ponta Grossa é resultado do Projeto de Lei (PL) 53/2017, proposto pelo vereador Rudolf Christensen (PPS), que busca estabelecer a prática de reutilizar energias renováveis como a solar e a captação de água da chuva em obras públicas como hospitais e escolas em Ponta Grossa. Para o vereador, “as energias renováveis são o futuro, nada mais justo e correto que o município realize projetos nesse sentido”. Todas as obras públicas construídas na cidade a partir da aprovação da Lei deverão se enquadrar na nova regulamentação. O impacto gerado pela atividade humana no meio ambiente é uma das principais preocupações do século. Essas discussões só ganharam força na década de 1980, devido às crises do petróleo, que forçaram a busca por energias alternativas. Popularizou-se o conceito de desenvolvimento sustentável — que logo tor-

Por Heloísa Vivan e Priscilla Pires

Apenas metade dos colégios de Ponta Grossa mantém espanhol no currículo recebeu resposta O Centro de Línguas Estrangeiras Modernas (CELEM) oferta aulas de espanhol em algumas escolas públicas do estado. As aulas ofertadas pelo CELEM não são exclusivas para alunos e atendem a população em geral. Segundo o presidente da APEEPR, o CELEM teve 70 mil alunos matriculados em 2015. Entretanto, Woginski destaca que o centro não é reconhecido como uma política pública pelo Estado e está ameaçado pelas recentes leis. Woginski lamenta que a Educação no Estado do Paraná esteja sofrendo constantes ataques em detrimento de medidas governamentais. “Estou presenciando isso.

Duas escolas em que eu trabalho vão fechar. Isso me faz questionar que perspectivas teremos para a Educação no futuro”, reflete. “Ao mesmo tempo que fecham escolas com o pretexto de reduzir gastos, os governantes mantêm cargos comissionados ou suas viagens luxuosas”, conclui o professor. Um abaixo-assinado on-line está em circulação e reivindica a causa. São necessárias 20 mil assinaturas para que o documento se torne uma Sugestão Legislativa. Até a produção desta matéria, a reivindicação contava com 1.549 apoios.

Por Saori Honorato e William Clarindo


política

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Rede municipal de ensino convive com a falta de investimento em tecnologia Em Ponta Grossa existem 124 escolas municipais, desse total, apenas 39 tem laboratórios de informática instalados. Contudo, apenas cinco dessas escolas permanecem com os laboratórios em funcionamento até hoje. “Nós nem queremos esses laboratórios, temos bastante coisas para ensinarpara os alunos”, enfatiza a Secretária de Educação, Esméria de Lourdes Savelli. “Informática básica é tudo, pois algumas crianças até têm celular, mas na sala de aula é possível trazer para o lado pedagógico e em outros países já faz parte do currículo”, ressalta a professora de tecnologia do Núcleo de Tecnologia Educacional (NTE), Adriane de Castro. No entanto, a Secretária de Educação, Esméria de Lourdes afirma que essa tecnologia já está ultrapassada. “Aquilo que eu defendo são as novas tecnologias co-

mo os tablets e não os laboratórios” uma vez que “esses laboratórios para as escolas não cabem mais, pois não temos nem dinheiro”, enfatiza a Secretária. Quanto aos laboratórios que não estão em funcionamento, a professora Adriane de Castro explica que algumas das escolas tiveram que desmontá-los devido à necessidade de reforma do prédio, e voltarão a funcionarapós essas reformas. Nas escolas que tiveram laboratórios desmontados para a implantação do ensino integral, não há projetos para serem montados novamente. “A prioridade é sala de aula, não os laboratórios”, confessa Adriane de Castro. A Escola Municipal Catarina Miró utilizou a sala de informática para os livros, pois a biblioteca é usada como sala de aula devido à falta de reforma das salas normais. “A informática é uma ferra-

menta a mais; mas como nós não a temos, as professoras utilizam outros meios, como o multimídia e notebook”, afirma a Coordenadora Pedagógica da escola, Magali de Almeida dos Santos. Mesmo nas escolas em que há laboratórios instalados, as professoras preocupam-se com a falta de cuidados, como é o caso da Escola Municipal Ludovico Antônio Egg, localizada na Santa Paula. A diretora da escola, Raquel Jobbins de Arruda alega que existem 18 máquinas instaladas e ultrapassadas, pois vieram em 2008 de um pregão do MEC. Um dos principais problemas apresentados pela diretora foi o acesso limitado à internet. “As crianças gostam quando vão, é uma atividade que traz resultados - como os alunos do terceiro ano que trabalhavam com a digitação”, conta a Coordenadora Pedagógica da Esco-

la Municipal Ludovico, Célia Carraro. Segundo estudo realizado por pesquisadores do Departamento de Educação em Informática e Tecnologia da Instrução da Universidade Hacettepe, em Ancara na Turquia, o uso do computador por crianças acelera o desenvolvimento cognitivo e intelectual e ajuda nas habilidades de encontrar solução de problemas que encontram em seu dia-a-dia. “É importante que eles saibam lidar com a tecnologia atual e que saibam perceber algumas ferramentas que são importantes ou não, para que eles possam distinguir o que é certo ou errado”, afirma a professora do Departamento de Engenharia de Software da Universidade Estadual de Ponta Grossa e PHD em Educação pela Universidade de Londres, Diolete Marcante Lati Cerutti. “Existem materiais

importantes na internet, como as ferramentas dos softwares educativos para desenvolver o raciocínio lógico, a própria leitura e a escrita”. reforça Diolete Cerutti. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) são elaborados através de diretrizes pelo Governo Federal e propõe orientar os educadores com os fatores fundamentais de cada disciplina. As diretrizes municipais de educação devem ser baseadasnosPCNs,enocaso de Ponta Grossa, o uso da tecnologia não é citada conforme está colocada nos Parâmetros Nacionais. Segundo a Professora Formadora de Tecnologia de Ponta Grossa, Adriane de Castro, nos PCNs é citado a obrigatoriedade do uso das tecnologias no ensino, já que não faz parte do currículo escolar.

As Carteiras Nacionais de Habilitação (CNH) emitidas após o mês de maio já contam com um novo recurso para evitar fraudes e falsificações, o código QR-Code. Desde o dia 2 de maio, quando começou a ser impressa a nova versão do documento no Paraná, foram entregues 245 mil CNHs - o equivalente a 5 mil por dia. A implantação da nova tecnologia surgiu após uma série de medidas tomadas pelo Conselho de Trânsito (Contran), que vem aplicando outras mudanças na documentação desde 2016. O código do QR-Code é gerado pelo Denatran, que dará acesso ao banco de onde está disponível uma versão digital da CNH, com os dados e fotos do condutor. Dessa forma, será possível identificar se as informações descritas na carteira são compatíveis ao banco de dados, comprovando ou

não sua autenticidade. A nova tecnologia QR-Code permitirá que os dados do motorista sejam acessados por meio de um aplicativo. O Lince - disponível para sistemas Android e iOS - realiza a leitura do código impresso no verso de uma habilitação. A ideia é que qualquer cidadão possa ter acesso a esse recurso e verificar a autenticidade de uma CNH. Entre outras mudanças na CNH, estão a da cor e do layout do documento, além da inclusão de outros itens de segurança, como marcas d'água. Segundo o chefe da Delegacia da Polícia Federal de Ponta Grossa, José Roberto Peres, as mudanças garantem maior autenticidade ao documento, já que a habilitação também é usada como documento de identidade, o que o torna alvo para falsificação. “Quando acontecem furtos de documentos, os bandi-

dos fazem uma lavagem química na CNH e inserem outros dados. O novo documento tem elementos no papel que denunciam que foi feita essa lavagem”, comenta o delegado. Em 2016, foram registradas ocorrências de 10 CNHs falsas na região, sendo que quatro foram nos primeiros três meses. “Se considerarmos que essas apreensões ocorrem durante operações de rotina, em que os condutores são abordados aleatoriamente, esse número é bastante alto, porque pode indicar que há um número muito maior de documentos falsos em circulação”, considera Peres. O instrutor de autoescola Eduardo Cruz destaca melhorias com as novas tecnologias na vida dos condutores. “Cada vez mais, o mundo esta ficando digital. Ações nesse sentido tendem a melhorar a vida do cidadão, no que diz res-

peito à segurança do documento”. A previsão é que em cinco anos todas as habilitações do país sejam emitidas com o código. Os procedimentos para obter ou renovar a habilitação permanecem. Aqueles que estão retirando ou renovando a habilitação vencida

código.

Por Verônica Scheifer

Nova tecnologia usada na CNH garante maior segurança contra falsificações

De acordo com o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), futuramente haverá um sistema eletrônico, gerido pelo Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), que fornecerá acesso às informações do Registro Nacional de Condutores

O lince é um aplicativo gratuito e está disponível para dispositivos IOS e Android.| Foto: Patrícia Guedes

receberão a versão atualizada, mas quem tem carteira dentro da validade não precisará trocá-la pela nova, a CNH continua estando dentro da lei mesmo sem o

Habilitados (Renach), onde estão contidos os dados do veículo e as infrações cometidas pelo condutor.

Por Patrícia Guedes


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esporte & lazer

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Particulares conquistam sete em cada dez medalhas do Jogos Estudantis Municipais Com baixo desempenho nos jogos, escolas públicas e municipais perderam o primeiro lugar para escolas particulares em setenta e cinco agrupamentos

Apesar de haver 19 colégios privados contra 114 são escolas públicas, as redes particulares conquistaram ao todo 104 vitórias durante toda a semana dos Jogos Estudantis Municipais de Ponta Grossa (JEM). Na classificação final das modalidades, elas subiram ao pódio de 72 dos 94 agrupamentos, que corresponde a 70,5% do total dos jogos. Uma das principais causas do baixo desempenho das escolas públicas está na própria formação atlética esuecolar. Aacadêmica de Educação Física, Andrea Ferreira Rodrigues é estagiária nos colégios estaduais João Ricardo von Borell e Arnaldo Jansen e afirma que as estruturas não favorecem a prática. “No Arnaldo Jansen, porexemplo, os alunos jogam vôlei em um local pequeno que não deveria servir de quadra. No Borell, a situação é melhor, mas lá trabalhamos apenas com cinco esportes”, complementa a aluna. O professor Mauricio Kusnick, responsável pela área de Educação Física pela

Secretaria Municipal de Educação, comenta: “AEducaçãoFísicadasescolaséregida por sua matriz curricular. Essa matriz não prevê o trabalho com os esportes estruturadosporregrasoficiais,esimde forma adaptada ao ambiente escolar”, aponta o professor. Há 82 escolas municipais em Ponta Grossa e 32 unidades estaduais. Para compreender o incentivo ao esporte nas escolas públicas, é necessário avaliar o ponto de vista de alguns alunos e ex-alunos desta rede. O acadêmico de Letras, Michael Lacerda, aponta o contrário em relação à realidade do esporte no Colégio Estadual Regente Feijó. “Eu estudei no antigo Colégio Gênesis durante o fundamental, que é particular, e lá praticava judô e futebol. Quando fui fazer o Ensino Médio no Regente, deixei de praticar esportes por falta de incentivo da administração da escola”, recorda. Segundo ele, é visível a diferença entre as duas redes, principalmente em relação aos treinos, que são mais intensos e frequentes

Jogo de futsal entre escolas municipais no JEM 2016. | Foto: Julio César Prado

na particular. O Regente Feijó, um dos maiores da rede pública da cidade, apresenta uma alta demanda dos alunos para a prática esportiva, como aponta o professorde Educação Física, Cláudio Schleder. Professor no Regente há dez anos, ele comenta que os principais problemas para a prática no colégio são a falta de espaço e equipamento. Segundo ele, essa precariedade faz com que os espaços esportivos dêem prioridade às aulas ao invés dos treinos para competições. “Há um bom traba-

lho por parte dos estudantes e professores, tanto em aula quanto em competições, porém o apoio do governo ainda é pequeno. Buscamos patrocínio e temos que tirar do nosso próprio bolso para pagar por equipamento”, comenta o professor. Um dos colégios com melhor atuação no JEM foi o Colégio Estadual Padre Carlos, que ganhou o campeonato de futsal feminino do “Grupo 4”' e se classificou em terceiro lugar com o time masculino na mesma modalidade do “Grupo 5”. “O de-

sempenho do nosso time sempre foi muito bom nos Jogos Municipais, principalmente no futsal feminino, porém, como a estrutura das quadras é precária, a direção tinha que recorrer a arrecadações externas”, afirma Bruna Pereira, 19, ex-estudante do Padre Carlos. Bruna Pereira ainda aponta que parte do bom desempenho da equipe é o pagamento estabelecido às atletas para que haja treino. .

Por Gabriel Miguel e Julio César Prado

Jogos eletrônicos ganham espaço como modalidade esportiva no país Em Ponta Grossa não há times profissionais mas praticantes organizam campeonatos amadores Esportes eletrônicos (eSports) destacam-se como novo gênero desportivo no Brasil. A modalidade das competições organizadas de jogos eletrônicos transmitidas ao vivo destaca-se no cenário mundial. Entre jogos considerados profissionais estão os de estratégia em tempo real, luta, tiro em primeira pessoa (FPS) e Multiplayer online battle arena (MOBA). Com equipes que ingressam profissionalmente no cenário competitivo mundial, a recente vitória no principal torneio de Counter-Strike: Global Offensive (CS:GO),realizada na cidade de Columbos nos Estados Unidos, reafirma a modalidade dos jogos digitais. Além

de classificações para principais torneios de League of Legends (LoL) e Defense of the Ancients (DotA). Na internet popularizam-se canais cujo único tema são jogos digitais. “Por mais que não se pegue uma bola e saia correndo por aí, a atividade cresce muito no Brasil e merece ser incluída no esporte”, explica o professor de Educação Física do Colégio Marista PIO XII, Alex Luryan de Souza. Ele acredita que os eesportes podem ser interpretados como uma forma de inclusão, visto que pessoas com determinadas limitações físicas não podem praticar esportes tradicionais. “Quem tem problemas nas pernas não pode jogar futebol, mas

pode jogar a simulação do jogo, mesmo que seja a versão digital do esporte, em minha opinião a pessoa ainda se sente incluída no universo do futebol”, enfatiza Souza. Times profissionais e jogadores brasileiros do jogo online Smite tem a oportunidade de praticar no mesmo servidor que amadores, então o contato entre amadores e profissionais torna-se mais próximo. O jogador amador de Smite, Gregor “DeathSurgeon”* Dainelli ilustra o cenário: “O nível de habilidade necessária para se profissionalizar é mais acessível, pois jogo desde o lançamento do jogo. Assim a chance de eu ser notado por um time profissional é maior“, comenta Dainelli.

“Se alguém falar que quer ser jogador de futebol, todos entendem, mas ser jogador profissional de Counter Strike, acreditam que não se trata de um esporte em si”, exalta Evandro “BlackHat”* Berti jogador de CounterStrike Global Offense, no cenário competitivo há mais de três anos ele descreve a dificuldade em intercalar a atividade de jogador profissional com os estudos de Engenharia de Produção da faculdade Cescage. Comentaristas de esports devem conhecer profundamente os jogadores e times, porém, a cobertura jornalística de jogos eletrônicos não se diferencia da cobertura esportiva de esportes já consagrados. Campeona-

tos ganham relevância noticiosa a medida que envolvem premiação para competidores e a lógica da rentabilidade para patrocinadores. Mesmo com a insurgência dos e-sports no Brasil, Ponta Grossa ainda não se destaca nessa modalidade. A cidade princesina sedia apenas torneios amadores organizados pelos própios jogadores que contam também com uma equipe de divulgação, narração e pequenos prêmios em dinheiro. *Nickname(apelido) utilizado pelos jogadores na plataforma digital.

Por Gabriel Clarindo e Rodrigo Charneski


cultura

j u l /2 017

Festas Juninas atraem ponta-grossenses

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A Festa Junina, tipicamente brasileira, originalmente nasce como uma solenidade religiosa em homenagem a três santos: São João, São Pedro e Santo Antônio. Em Ponta Grossa, a festa mais tradicional acontece na Igreja do Rosário que realizou a 15º edição do evento no dia 10 de junho. A maior atração da festa é a venda do bolo de Santo Antônio, o famoso santo casamenteiro. Neste ano, foram produzidos sete mil pedaços, sendo que dois mil tiveram a imagem do santo. Segundo a tradição, as pessoas que encontram a imagem do santo dentro do bolo, conseguem arranjar casamento. De acordo com o padre Edivino Sicuro, já aconteceram casos de pessoas que acharam o santo dentro do bolo, e encontraram também o futuro cônjuge durante a festa. “Já realizei cerca de dez ma-

trimônios com o ‘empurrãozinho’ do santo”, confirma o padre. Esse foi o caso da engenheira Mariângela Matuch que, em 2007, encontrou a miniatura dentro do bolo e no ano seguinte casou com seu atual parceiro. Aos que preferem comemorar a festa junina sem vínculo religioso o “Arraiá Estação Saudade” é uma opção. A festa é organizada pela Secretaria Municipal de Cultura e está em sua 3º edição. Para o presidente da Fundação Municipal da Cultura, Fernando Durante, “a festa é importante para a cidade por reviver a tradição das festas juninas, com música autêntica de raiz, com as quadrilhas das escolas municipais e comidas típicas”. Em enquete realizada com 24 pessoas pela equipe de reportagem, de como elas comemoram a festa junina, a maioria respondeu

Festa junina do Colégio Sagrada Família. | Foto: Marina Santos que participa da festa com memorar a festa junina bom. Ela recorda que a família e amigos e que todos os anos na escola que quando era criança seu pai gostam, principalmente, trabalha e ainda acrescenta costumava fazer uma festa das comidas típicas, como que costuma ir à festa de de três dias e convidava topinhão, milho e quentão. Santo Antônio “desde que da a família. “Nós comíaAcrescentam ainda que começou eu perdi apenas mos muito pinhão, pipoca não pode faltar as músicas um ano”. e milho”. tipicamente caipiras. Já para Rita Aguiar de 68 A professora Luiza Cris- anos, comemorar a festa Por Marina Santos tina conta que costuma co- junina sempre foi muito Millena Lopata

Os tipos de livros mais procurados nas principais livrarias de Ponta Grossa são os de fantasia, youtubers ou obras estrangeiras, principalmente romances de lançamento ou que viraram filmes recentemente. A literatura brasileira, muitas vezes, limita-se aos livros de vestibular. Os livros acadêmicos também estão entre os mais vendidos. As informações foram

concedidas à reportagem em visita às Livrarias Curitiba, Verbo Livraria e Universo da Leitura. Segundo a pesquisa do Instituto Pró-livro, feita em 2015, os três principais motivos para escolher um livro são o tema ou o assunto, a indicação de outras pessoas e quem é o autor da obra. A leitora e estudante de Administração da Universi-

dade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) Camila Najy lê por gosto ou por necessidade, devido aos estudos. “Às vezes eu me detenho mais as leituras técnicas mesmo, do curso. Mas eu sempre procuro alguma coisa de literatura estrangeira, alguma coisa nesse sentido, para entretenimento”. “Literatura é meu cotidiano, é o que move

Livros de youtubers, fantasia e adaptados para o cinema lideram vendas em PG

Maioria compra livros em livrarias físicas. | Foto: Saori Honorato

minha vida diariamente. É o que faz eu me perder, para depois me reencontrar. [...] Enfim, literatura me compõe”. É por isso que a estudante de Letras da USP, Mariana Sturzeneker lê, conforme explicou por Whatsapp. Segundo pesquisa do Instituto Pró-livro realizada em 2015, o gosto pela atividade, a atualização cultural, a aquisição de conhecimento e a distração são as principais motivações para a leitura. O estudante de História na UEPG José Rodriguez Vieira procura em sebos livros para seu Trabalho de Conclusão de Curso que não conseguiu achar em livrarias. “Eu faço praticamente uma mescla, de internet, sebos, da biblioteca. Mas eu uso mais a internet porque alguns livros são mais baratos”, conta a acadêmica. Porém, ele acrescenta que nos sebos há a possibilidade de encontrar títulos que não se acham em sites ou em livrarias.

A pesquisa do Instituto Pró-livro revela que a maioria das aquisições são feitas em livrarias. A motivação para a compra de livros são o preço, a variedade, a comodidade, a garantia e o costume. A vendedora Edineia Gonçalves acredita que as pessoas lêem muito nos computadores e celulares atualmente. “As pessoas que não gostam de ler no computador vêm comprar livros nas livrarias”, completa. No Brasil há 104,7 milhões de leitores, o que representa 56% da população do país, embora 30% da população nunca comprou um livro. Na região Sul, metade dos habitantes é leitora. De 2011 para 2015 houve aumento de 7% da população leitora da região. O estudo considera leitor aquele que leu inteiro ou em partes pelo menos um livro nos últimos três meses. Por Ana Istschuk Lucas Cabral


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passo-a-passo

jul

passo-a-passo

2 017

Entenda o que é uma audiência pública e quais as etapas para realizar uma Audiência pública na Constituição

O que é uma audiência pública? “Reunião realizada por um colegiado parlamentar (Comissão ou Ouvidoria) com entidade da sociedade civil para instruir matéria em trâmite ou para debater assuntos de interesse público relevante. A realização de reunião de audiência pública depende de aprovação pela maioria do colegiado apresentada por qualquer membro da comissão ou pela entidade interessada, para que sejam ouvidas as autoridades, as pessoas interessadas e os especialistas ligados às entidades participantes”, define o glossário legislativo da Câmara dos Deputados. No Senado, o glossário destaca a participação de autoridades, especialistas ou entidades Quem pode organizar uma audiência: Qualquer pessoa ou instituição pode organizar uma audiência pública. O vereador Geraldo Stocco cita: “ONGs, faculdades ou qualquer pessoa com a ajuda de outras podem convocar uma audiência pública”.

Passo-a-passo de como organizar uma audiência pública

Mesa de autoridades: formada por secretário de mesa, mestre de cerimônias e pesso as que entendam do assunto.

Requisitos para uma audiência pública

Tema de relevância; Lugar onde comporte todo o público; Data; Hora Pessoas que entendam do tema.

Como definir quem compõe a mesa?

Selecionar quem compõe a mesa

Especialistas; Representantes da esfera pública; Representantes da sociedade civil.

Através do convite. Nele as pessoas são convidadas pelo mediador.

Divulgar a audiência Assim mais pessoas vão saber e podem se programar para participar. Se mais pessoas souberem, mais visibilidade a audiência terá, o que for discutido também ganha visibilidade.

"Não existe uma lei que tutela a realização de uma audiência pública, no âmbito do judiciário você tem copiado o padrão do STF (Supremo Tribunal Federal)”, explica o advogado e professor Vitor Hugo Fogaça. Uma audiência pública pode nascer no judiciário, no legislativo ou na sociedade civil e tem grande relevância. A Constituição menciona audiência pública em alguns artigos, como no Art. 58 na seção VII das comissões: "O Congresso Nacional e suas Casas terão comissões permanentes e temporárias, constituídas na forma e com as atribuições previstas no respectivo regimento ou no ato de que resultar sua criação”. No parágrafo segundo do mesmo artigo, as Comissões, em razão de sua competência devem realizar audiências públicas com entidades da sociedade civil. Na Lei 8.666 de 1993 sobre o

processo de uma licitação, sempre que o valor estimado para uma licitação for superior a 100 vezes o limite previsto na lei, o processo licitatório será iniciado, obrigatoriamente, com uma audiência pública concedida pela autoridade responsável. A sessão deve ser divulgada no mínimo 10 dias à sua realização, para que todos os interessados estejam cientes e possam pesquisar sobre o assunto antes de participar. Na lei 9.478/97 sobre as atividades relativas ao petróleo, no Art. 19, as iniciativas de projetos de lei ou de alteração de normas administrativas que impliquem afetação de direito dos agentes econômicos ou de consumidores e usuários de bens e serviços das indústrias de petróleo, de gás natural ou de biocombustíveis serão precedidas de audiência pública convocada e dirigida pela ANP.

Você já foi em uma audiência pública? Com o pedido de habilitação. A pessoa se convida a participar e passa por um processo de seleção.

Definir regras

Quanto tempo de fala; Se terá réplica e tréplica; Ordem os temas.

9

A graduanda em Direito Isabela Gobbo participa do movimento estudantil e atua perante as burocracias jurídicas encontradas no percurso da militância. Ela afirma que já participou de uma audiência pública e já se habilitou para falar. “Acredito que quanto mais pessoas, maior é a tensão das autoridades públicas que estão realizando a audiência”, relata Gobbo. A acadêmica conta que as pessoas da comunidade e sociedade civil são subjulgadas, e têm dificuldade em falar por uma necessidade de controle das autoridades.

Em enquete realizada pelos acadêmicos de Jornalismo, dos 40 entrevistados, 52% nunca foram em uma audiência pública. Segundo Serena Rosa, aposentada, “falta oportunidade, mas tenho vontade de ir”, justifica. Wanda Barbosa, costureira, relata que “onde eu morava sempre tinha mas eu não me interessava”. A pesquisa aconteceu no Campus Central da Universidade Estadual de Ponta Grossa, no dia 7 de junho das 13h45min até 13h53min e enquetes em redes sociais do dia 14 de junho até o dia 15 de junho.

A audiência acontece Chega a data marcada, as pessoas expõem seus argumentos e o debate ocorre.

Decisões são tomadas

Medidas podem ser tomadas ou não, resultado do debate surge.

Produção de um relatório final Um documento que registre as falas e decisões é importante para organizar os possíveis desdobramentos.

Audiências públicas em Ponta Grossa 2017 Audiência sobre a redução da área de proteção ambiental (APA) da Escarpa Devoniana aconteceu em 9 de março no Cine Teatro Ópera, promovida pela Assembléia Legislativa do Paraná (ALEP). Audiência sobre a regulamentação das atividades dos trailers e food trucks em Ponta Grossa aconteceu na Câmara dos Vereadores no dia 25 de abril. A segurança nas universidades foi o tema da audiência no dia 19 de maio que aconteceu no campus central da UEPG. Por Ingrid Petroski, Pedro Andrade e Rafaela Martins


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Entenda o que é uma audiência pública e quais as etapas para realizar uma Audiência pública na Constituição

O que é uma audiência pública? “Reunião realizada por um colegiado parlamentar (Comissão ou Ouvidoria) com entidade da sociedade civil para instruir matéria em trâmite ou para debater assuntos de interesse público relevante. A realização de reunião de audiência pública depende de aprovação pela maioria do colegiado apresentada por qualquer membro da comissão ou pela entidade interessada, para que sejam ouvidas as autoridades, as pessoas interessadas e os especialistas ligados às entidades participantes”, define o glossário legislativo da Câmara dos Deputados. No Senado, o glossário destaca a participação de autoridades, especialistas ou entidades Quem pode organizar uma audiência: Qualquer pessoa ou instituição pode organizar uma audiência pública. O vereador Geraldo Stocco cita: “ONGs, faculdades ou qualquer pessoa com a ajuda de outras podem convocar uma audiência pública”.

Passo-a-passo de como organizar uma audiência pública

Mesa de autoridades: formada por secretário de mesa, mestre de cerimônias e pesso as que entendam do assunto.

Requisitos para uma audiência pública

Tema de relevância; Lugar onde comporte todo o público; Data; Hora Pessoas que entendam do tema.

Como definir quem compõe a mesa?

Selecionar quem compõe a mesa

Especialistas; Representantes da esfera pública; Representantes da sociedade civil.

Através do convite. Nele as pessoas são convidadas pelo mediador.

Divulgar a audiência Assim mais pessoas vão saber e podem se programar para participar. Se mais pessoas souberem, mais visibilidade a audiência terá, o que for discutido também ganha visibilidade.

"Não existe uma lei que tutela a realização de uma audiência pública, no âmbito do judiciário você tem copiado o padrão do STF (Supremo Tribunal Federal)”, explica o advogado e professor Vitor Hugo Fogaça. Uma audiência pública pode nascer no judiciário, no legislativo ou na sociedade civil e tem grande relevância. A Constituição menciona audiência pública em alguns artigos, como no Art. 58 na seção VII das comissões: "O Congresso Nacional e suas Casas terão comissões permanentes e temporárias, constituídas na forma e com as atribuições previstas no respectivo regimento ou no ato de que resultar sua criação”. No parágrafo segundo do mesmo artigo, as Comissões, em razão de sua competência devem realizar audiências públicas com entidades da sociedade civil. Na Lei 8.666 de 1993 sobre o

processo de uma licitação, sempre que o valor estimado para uma licitação for superior a 100 vezes o limite previsto na lei, o processo licitatório será iniciado, obrigatoriamente, com uma audiência pública concedida pela autoridade responsável. A sessão deve ser divulgada no mínimo 10 dias à sua realização, para que todos os interessados estejam cientes e possam pesquisar sobre o assunto antes de participar. Na lei 9.478/97 sobre as atividades relativas ao petróleo, no Art. 19, as iniciativas de projetos de lei ou de alteração de normas administrativas que impliquem afetação de direito dos agentes econômicos ou de consumidores e usuários de bens e serviços das indústrias de petróleo, de gás natural ou de biocombustíveis serão precedidas de audiência pública convocada e dirigida pela ANP.

Você já foi em uma audiência pública? Com o pedido de habilitação. A pessoa se convida a participar e passa por um processo de seleção.

Definir regras

Quanto tempo de fala; Se terá réplica e tréplica; Ordem os temas.

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A graduanda em Direito Isabela Gobbo participa do movimento estudantil e atua perante as burocracias jurídicas encontradas no percurso da militância. Ela afirma que já participou de uma audiência pública e já se habilitou para falar. “Acredito que quanto mais pessoas, maior é a tensão das autoridades públicas que estão realizando a audiência”, relata Gobbo. A acadêmica conta que as pessoas da comunidade e sociedade civil são subjulgadas, e têm dificuldade em falar por uma necessidade de controle das autoridades.

Em enquete realizada pelos acadêmicos de Jornalismo, dos 40 entrevistados, 52% nunca foram em uma audiência pública. Segundo Serena Rosa, aposentada, “falta oportunidade, mas tenho vontade de ir”, justifica. Wanda Barbosa, costureira, relata que “onde eu morava sempre tinha mas eu não me interessava”. A pesquisa aconteceu no Campus Central da Universidade Estadual de Ponta Grossa, no dia 7 de junho das 13h45min até 13h53min e enquetes em redes sociais do dia 14 de junho até o dia 15 de junho.

A audiência acontece Chega a data marcada, as pessoas expõem seus argumentos e o debate ocorre.

Decisões são tomadas

Medidas podem ser tomadas ou não, resultado do debate surge.

Produção de um relatório final Um documento que registre as falas e decisões é importante para organizar os possíveis desdobramentos.

Audiências públicas em Ponta Grossa 2017 Audiência sobre a redução da área de proteção ambiental (APA) da Escarpa Devoniana aconteceu em 9 de março no Cine Teatro Ópera, promovida pela Assembléia Legislativa do Paraná (ALEP). Audiência sobre a regulamentação das atividades dos trailers e food trucks em Ponta Grossa aconteceu na Câmara dos Vereadores no dia 25 de abril. A segurança nas universidades foi o tema da audiência no dia 19 de maio que aconteceu no campus central da UEPG. Por Ingrid Petroski, Pedro Andrade e Rafaela Martins


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jornalismo literário

j u l /2 017

A coragem das mães não sai no jornal

"Eu aceitei a homossexualidade do meu filho desde o primeiro momento em que eu fiquei sabendo. Antes de descobrir a verdade, eu achei que ele estava envolvido com drogas, porque ele era muito triste, muito quieto, muito afastado. Um dia ele chegou em casa chorando, dizendo que estava com dor de cabeça. Ele pôs o travesseiro na cabeça e disse que tinha vergonha de me contar o que estava acontecendo. Aí eu perguntei para ele: -Você não gosta de mulher, né? - aí ele afirmou que era homossexual." O jornalismo costuma não dar espaço para a primeira pessoa nem para a vida privada. No entanto, temos razão para romper esse acordo. O fato do texto estar numa seção de jornalismo literário

ou de esta edição ser histórica por ser solidária à causa LGBT são menos importantes que o fato de a sociedade se preocupar demais em fantasiar sobre a vida privada dos homossexuais.

Ponta Grossa, Centro. Mais precisamente na rua Comendador Miró, pertinho da oficina Mottim e da Caixa Econômica. O Sebo Pantera - o mais antigo da cidade está bem localizado mas também fica escondido entre prédios e lojinhas do entorno. Na escada, enquanto conversa com um amigo e cliente, Elton Hartman, 58 anos, fuma um cigarro e, assim que nota minha chegada, trata de apagar. Usando um suéter e conversando com voz suave, daquelas de um contador de histórias, ele se dirige a mim. Entre atendimento a clientes e vendedores de acervo, eu converso com o último remanescente da “velha guarda” na cidade. O sebo juntou tudo o que Elton tinha há 20 anos. Eram 100 discos, uns 200 livros e uma paixão que ainda não era possível contabilizar. A loja de calçados e confecções da família havia falido no começo dos anos 1980 e ele viu uma grande oportunidade de conciliar paixão e trabalho. O Pantera é pequeno, mas aconchegante. Vários vinis ornamentam a loja - ora pendurados, ora em prateleiras, ora em caixas no chão. Filmes em DVD e em fitas-cassete estão presentes desde a entrada e se estendem por toda a loja. O novo e o antigo ocupam o mesmo lugar com facilidade e certa sutileza no sebo. Elton conta sobre os “novos materiais” para a venda: aparelhos de som antigos.

Com um ar de desconforto, meio tímido, ele me diz: “Pode ficar à vontade e tirar fotos dos vinis, dos aparelhos...”. Quando peço fotos dele, com toda a educação, ele nega. “Tira de mim com os discos”, sugere. Um casal chega à loja para vender discos e o vendedor de ouvidos treinados mostra o que esses anos lhe ensinaram. Sabe o que vende, aquilo que já não é muito valorizado pelo público e o quanto pode que paga por eles. Elton tem opiniões. Fala

Sou gay e trago o testemunho da minha mãe. "Desde os nove anos, meu filho já sabia que ele era diferente. Para mim, esse processo de descoberta da homosse-

xualidade do meu filho foi o começo da família - e não o fim. Nós ficamos mais unidos. Eu senti que isto serviu para unir mais ainda os irmãos. Quando descobri, não foi um choque, pois no fundo sempre soube, até aquele momento o assunto foi evitado. No começo tentei entender o que estava acontecendo. Pesquisei muito sobre o que aconteceria com ele. Só tenho estas palavras para dizer a ele: ‘amo você do jeito que você é; você é maravilhoso”. Eu só tenho alegrias." O século digital mal começava e eu voltava do colégio Kennedy com a minha mãe quando quatro desconhecidos começaram a gritar palavras contra mim. Eles estavam num bar, a duas quadras da escola, e começaram a berrar

do outro lado da rua - “viado”, “bicha”, “gay”. Dava para ver o ódio com que me atacavam. Pessoas que associavam a virilidade à ignorância e a homossexualidade a motivo de vergonha. Eu tinha 13 anos e era a primeira vez que aquilo acontecia “publicamente”. Foi quando a anônima Andreia Neves enfrentou os quatro covardes com palavras. Tipos que nunca haviam nos visto antes, que nada sabiam de nós. Embora a coragem das mães não saia no jornal, ela circula nas ruas depois das aulas.

do jazz e do rock’n’roll com propriedade. Ele conta sobre a amizade com o falecido cantor da banda Celso Blues Boy e com Oswaldo Vecchione, da banda Made in Brazil. Vecchione ainda o visita no sebo quando o “Made” se apresenta em Ponta Grossa. Em termos materiais, o maior tesouro da loja são os vinis. Os estilos mais pedidos são Rock e MPB. Em 1986, o vinil estava em franca decadência - vendiam-se 30 CDs para um vinil. Agora - com o vinil supervalorizado - a venda de CDs despencou

brutalmente. Baú ambulante, Elton viu revoluções de suporte de mídia - o vinil em sua ascensão, em sua queda e retorno. Ele se torna quase um encantador da velha guarda, um mago da história da música. Ali no seu cantinho pequeno, mas com um enorme significado para a cidade e quem valoriza a música.

Por Luiz Zak

O baú ambulante Elton Hartman

Elton Hartman é dono do Sebo Pantera há mais de 20 anos | Foto: Priscilla Pires

Por Priscilla Pires


jornalismo literário

j u l /2 017

Crítica

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O maior pecado do amor é ser erótico Cassandra Rios foi a escritora mais censurada na ditadura porescreversobre o amorentre mulheres

Sexo é papo de mulher. Provavelmente quem discorda dessa afirmação nunca leu os livros e poemas de Cassandra Rios. Paulista, nascida em 1932 e batizada com o nome de Odete Rios, Cassandra foi uma das autoras mais vendidas nos anos 1960 e 1970. Até mesmo nos dias de hoje, seus livros são reconhecidos como maior referência do gênero erótico (aqueles que a gente lê com uma mão só). Em livros quentes e cheios de conflitos amorosos, Cassandra dava liberdade e muita sensualidade a suas protagonistas, pouco aceitas na sociedade: mulheres que desejam e que amam mulheres. Cassandra assinava seus livros sob pseudônimo por motivos óbvios: ao longo de sua carreira, 33 dos seus 50 livros foram proibidos pela censura do regime militar. Um único livro “Eudemônia” rendeu-lhe 16 processos. O sexo e prazer eram tabus. Nos anos de censura no Brasil, os governos se embrenharam na tarefa de definir o que era

obsceno, pornográfico e subversivo. O estranho era considerado desvio a ser combatido pelo Estado com censura. Mas Cassandra não tinha medo. Falava às claras sobre o prazer feminino, sobre o tesão da mulher numa sociedade onde o moralismo religioso dizia que a mulher apenas se deitava com um homem para gerar filhos de Deus. Lésbica assumida, começou a escrever pequenos textos aos 12 anos de idade. Aos 16 anos, estreou profissionalmente com “A volúpia do pecado” (1948). Chegou a vender quase trezentos mil exemplares de seus livros por ano. Um sucesso editorial que garantiu à autora mais de 1 milhão de livros vendidos, numa época onde somente Jorge Amado e Érico Veríssimo conseguiram a proeza de viver de direitos autorais. Em meados dos anos 1960, aos 33 anos, Cassandra era uma mulher diferente das outras de sua época. Porte alto, vestindo terninho e com certa altivez, sua figura destacava-se

Cassandra foi uma das primeiras autoras brasileiras a escrever sobre lésbicas | Foto: retirada da internet

mesmo estando em uma multidão. Foi a primeira escritora a desfrutar de uma popularidade que a fazia convidada de todos os programas de TV, comparecia também com seus smokings em festas, recebi-

da pelos governadores da época. Apesar das críticas, Cassandra não se considerava obscena. Em sua última entrevista para a revista TPM, em junho de 2001, a autora deixa claro: “nunca

escrevi sobre sexo, sempre fui amorosa. Agora, o amor é erótico! {...} Meus livros não são pornográficos. São livros de amor. Falam da atração que uma pessoa exerce sobre a outra". Sobre a censura que sofreu na ditadura, Cassandra afirmava ser uma questão de gênero. ''Se o homem escreve, ele é sábio, experiente. Se a mulher escreve, é ninfomaníaca, tarada''. Oito meses após a entrevista, a autora morreu de câncer no útero, em março de 2002. Cassandra sofreu por ser mulher e homossexual. Sofreu inúmeros atentados em sua carreira que tentaram deixá-la no esquecimento, como muitas outras mulheres na história da literatura. Hoje são raras as bibliotecas que tenham um exemplar de seus livros – caso da UEPG. É por isso que Cassandra Rios jamais deve ser esquecida, pois sua maior ousadia foi ter orgulho de dizer que existia. Por Patrícia Guedes

"Jairo" Pawlowski: craque da bola e do giz

Paraná, anos 1960. Operário versus Londrina – campeão paranaense da época. Final de primeiro tempo, o técnico abraça o jovem talento e diz: – Garoto, o medo passou. Agora, jogue o teu futebol. Essa foi um das primeiras aparições de Jairo no OFEC, se não a primeira. Estava 3 a 0 para o Londrina. No segundo tempo, Jairo fez o primeiro gol e deu passe para o segundo e o terceiro. O jogo termina empatado. Depois da atuação, o resultado não podia ser outro. “Daí em diante, nunca mais saí do time”, recorda Jairo meio século depois dentro do colégio em que dava aulas de História para vestibulandos. “Treinava até às 18h. Saía do Operário pronto e tomava um ônibus. Descia na Vicente Machado e corria até a universidade, onde eu fazia Geografia e História. Cansei de dormir na primeira au-

la. Deitava na carteira e dormia que chegava a fazer poças de ‘baba’, de tão cansado que eu ficava. Essa rotina durou por oito anos.” Antes de ser profissional da bola ou do giz, Jahir Pawloski (o nome do “Jairo”), começava a des-

pontar nos campos do bairro do alto de seus nove anos. A seleção de Uvaranas mal sabia, mas formava um pequeno craque. No General Osório, castigo não faltava para o menino que preferia usar a caneta para chegar na pequena área do

Fotografia do início dos anos 1960. Jairo aparece agachado, é o primeiro da esquerda para a direita | Foto: divulgação

que o objeto aquela feita para tomar notas e fazer lições. A classe cansou de vê-lo ajoelhado no milho ao canto da sala. “Eu ia fazendo tarefa no caminho da escola. Eu era um vagabundo, terrível”. O péssimo estudante preferia o campo “próximo ao Chafariz”. No entanto, ainda jovem, começou a dar aulas e percebeu que tinha mais uma vocação. “A maior paixão da minha vida até os 20 anos, foi o futebol. Quando eu assumi o magistério eu me apaixonei e fiz disso a minha vida”, sintetiza. Mas a conversa não pode continuar. Ele vai ter que falar sobre a Mesopotâmia e aula já vai começar. Hoje o professor esta aposentado, tanto dos campos como da sala de aula.

Por João Vitor Rezende Borba e Lucas Boamorte


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ideias

jul/2017

Editores do Foca convidaram um professor para manifestar a sua opinião sobre como a escola lida com alunos homossexuais. Se além de acolher as diferenças, consegue coibir bullying

Escola falha em entender as identidades de gênero Grande parte das escolas (públicas ou particulares) têm dificuldades em trabalhar temáticas como diversidade, gênero, sexualidade, homofobia, bullying. Principalmente

quando se trata da aceitação/inclusão do jovem adolescente homossexual. Lembremo-nos que é no ambiente escolar que as diferenças são notadas, assim como as identidades são

firmadas e objetivadas pelos alunos em seu convívio social. O espaço escolar constituise no ambiente de convivência de maior manifestação das pressões sociais para que nossa sexualidade se realize conforme o que “naturalmente” se espera nas relações entre estudantes, familiares, docentes e equipe técnica por se tratar de um contexto privilegiado de aprendizado de pautas de convivência social e de desenvolvimento de habilidade, dentre elas, os modos de compreender a diversidade de gênero e da sexualidade. A escola (e todo seu apara-

to docente/pedagógico) falha nas estratégias de entender e atender as diferenças, as identidades e as orientações sexuais. Não que não tenhamos ótimos resultados e exemplos de escolas inseridas neste contexto, mas na grande maioria apresentam falhas, negam-se ao debate ou simplesmente excluem do currículo tais temáticas. Percebe-se ainda aquela política de “boa vizinhança” entre alunos e família. A disciplina de sociologia através da interdisciplinaridade (a Filosofia/ História/ Geografia/ Psicologia/ Produção Textual) de conteúdos/conhecimentos é responsável pela investigação científica e contempla em seu currículo tal debate a partir de produções em livros didáticos, periódicos

e revistas da área. Existem paradigmas a serem superados, pois variados elementos impedem a escola de atuar de forma clara, política e democrática nesses debates: sendo a falta de informação e preparação dos docentes; a não prática de um Estado laico; a prática do machismo e a ignorância de grupos conservadores que teimam em não enxergar que a humanidade é diversa e que seus autores/autoras são dotadas de particularidades diversas em ser e entender o mundo que os rodeia. Tornar-se humano é aprender a conviver com o diferente e respeitar toda a forma de ser, existir e amar. Por Ronualdo Gualiume

Recomendações HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO Por Nicolas Rutts Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014) é uma produção brasileira que conta os dramas de um adolescente cego e gay. Baseado no curta "Hoje Eu Não Quero Voltar Sozinho" (2010), o filme apresenta a amizade entre Leonardo (Ghilherme Lobo) e Giovana (Tess Amorim) que se desestabiliza com a chegada de um rapaz (Fábio Audi). Entre brigas, festas e trabalhos de escolas, os três encaram os dramas do amor na adolescência, principalmente Leonardo e Gabriel - o casal principal.

LA LUCIÉRNAGA Por Patrícia Guedes O longa colombiano La Luciérnaga (disponível na Netflix como The Firefly), conta a história de Lúcia e Mariana, duas mulheres que se conhecem após um trágico acidente. Lúcia é irmã de Andres, e Andres é noivo de Mariana. Prestes a entrar na igreja, Andres sofre um acidente fatal de carro. Após a morte do irmão, Lúcia se aproxima de Mariana buscando ambas se fortalecer do luto. As duas só não sabiam que disso surgiria uma delicada história de amor. La Luciérnaga é dirigido por uma mulher, que também escreveu a letra da música tema. Desde a primeira cena, o filme passa uma atmosfera muito suave, bonita e surreal, e ainda conta com uma fotografia leve e delicada.

RUPAUL'S DRAG RACE Por Luiz Zak A série de televisão documenta a busca da 13 drag queens pela "próxima estrela drag dos EUA". Apresentado pela diva RuPaul, as drags passam por uma série de desafios que exigem desempenho artístico polivalente, melhor look e bateção de cabelo. Quando a candidata está na berlinda, a única chance dela se salvar é dublando com ferocidade. No momento em que a já icônica frase "The time has come for you to lipsync for your life" (“Chegou a hora de dublar pela sua vida”) é dita, é hora do tudo ou nada. É "Shantay, you stay" (“Parabéns, você continua na competição!") ou "Sashay, away" ("Sua participação acaba por aqui").

MOONLIGHT: SOB A LUZ DO LUAR Por Rafael Chornobai O filme “Moonlight: Sob a Luz do Luar” é, do começo ao fim, um processo de autoconhecimento. Nele, a vida de Chiron, um jovem negro morador de uma comunidade pobre de Miami, é dividida em três partes: sua infância problemática, a conturbada adolescência e a vida adulta já “resolvida”. Chiron se depara com inúmeros conflitos pessoais, começando na infância, quando começa a questionar sua sexualidade. O filme se excede ao mostrar como as repressões acabam refletindo na formação pessoal de Chiron. Com atuações impecáveis, Moonlight não é apenas um filme ou um estudo de personagem, é uma experiência de vida.


Entrevista 1 3

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“Os mesmos homens que fecham as portas de dia, são os que abrem as pernas das travestis à noite”, compara ativista

Débora Lee, 45 anos, nasceu no Rio Grande do Sul. Era uma criança do sexo masculino. No entanto, desde os seis começou a se identificar com o gênero feminino. Filha de pais separados, foi expulsa de casa. Morou na rua por15 dias e foi acolhida na zona do meretrício em Caxias do Sul- RS. A“madrinha” de Débora, ofereceu abrigo num quarto em uma zona de prostituição. Depois, a batizou com seu “nome de guerra”, a vestiu de mulher pela primeira vez e a colocou na esquina para batalhar. Débora atualmente exerce as funções de agente social e é representante LGBT em quatro conselhos municipais e e um nacional. É fundadora e a coordenadora-geral do Grupo Renascer. AONG foi criada por Débora há 17 anos, com o intuito de ajudar LGBTs na prevenção de direitos à educação, saúde e à garantia de direitos.

Como foiasuadescobertade identidade de gênero? De primeiro momento, nem eu me reconhecia. Eu estava em construção de identidade de gênero. Eu tenho 45 anos e vai fazer 35 anos que assumi minha identidade de gênero. Tinha de 12 para 13 anos, quando me identifiquei como travesti e me transformei. Foi muito rápido para mim. Não passei por esse meio de tempo de sergay - como muitas têm quando passam por esse processo de construção. Desde pequeno, a partir dos meus 6 anos, eu já estava tendo outra visão. Já era tudo voltado para a parte

“feminina” - a vestimenta, o comportamento, tudo. Enquanto eu vivia com minha mãe, era um “homenzinho” e estudava em colégio de padre. Minha mãe era separada do meu pai. A partir do momento em que minha mãe morreu, eu já assumi minha identidade de gênero. Quando você mudou definitivamente de identidade de gênero ? Minha mãe foi morta pelo meu irmão, depois se matou na minha frente. Ele não morava conosco. Morávamos somente eu e minha mãe num apartamento. Quando ele deu o primeiro tiro, eu levantei da cama. Eu tinha doze anos, num dia de domingo. Ele deu mais um tiro, olhou para mim e deu um tiro na própria cabeça. Meu pai morava numa cidade vizinha de Porto AlegreRS. Ele e mais oito irmãos. Eu nunca fui criada por ele, mas, a partir do momento que ela morreu, meu pai me assumiu. Ao perceber que eu era “afeminado”, ele e meus irmãos me jogaram para fora. Eu disse: “meu Deusoque eu vou fazer? Não tenho onde morar, não tenho como sobreviver!”. Fiquei uns 15 dias embaixo de uma marquise em Caxias do Sul (RS). E foi lá que conheci uma travesti, que veio conversar comigo. Ela morava na zona do meretrício. Ela me ofereceu um quarto, me vestiu de mulher e me colocou na esquina. E foi assim que eu mudei minha identidade de gênero. E foi a primeira vez que me produzi, caí direto na rua para me prostituir. Eu pensei: “ou eu vou roubar, ou eu viro traficante ou eu vou me prostituir”. Então decidi fazer um mal que seria a mim mesma.

E assim eu assumi minha identidade e me prostituí durante 34 anos. Qual é a sua relação com apolítica? Faz 17 anos que estou à frente de políticas públicas e de uma instituição voltada à população LGBT. Eu sinto falta da união, não especificamente entre travestis e transexuais, mas da sigla inteira para nos ouvir. Nós estamos pedindo socorro, estamos morrendo [o Brasil é o país que mais mata travestis no mundo, só em 2017 foram 87]. Todo mundo está vendo nossa realidade nua e crua. Ninguém está livre de acontecer de ter um LGBT como vizinho ou mesmo dentro de casa. Vou fazer igual fizeram comigo e jogar para fora de casa? Não. Temos que escrever outra história. Temos que nos unir e garantir nossos espaços nas câmaras de vereadores, da prefeitura, dentro da educação, da saúde e da assistência social. Hoje, nocenárioatual,as famíliastêmaceitado,ou aindaexiste este preconceito? Atualmente, as falas do preconceito e da exclusão da família estão vindo muito à tona e estão aparecendo bastante na mídia. Mas, antigamente, não havia discussões sobre este tema e éramos jogadas para fora mesmo. Acho que a família está um pouco mais acessível e sensível, porque a família que ama mesmo não vai jogar sua filha travesti ou transexual para a rua, pois sabe que ela será marginalizada e ou se tornará prostituta. Como você avalia o preparo das escolas para lidar com os homossexuais?

Hoje eu vejo que as travestis enfrentam a situação e conversam com as pedagogas caso se sintam incomodada. Geralmente, o aluno é tratado como se fosse culpado da situação de bulliyng que é acometido. Muitos professores estão preparados, mas ainda têm muitos que estão resistentes com a causa, e que falam assim: “eu respeito, mas não aceito”. Uma professora disse isso durante uma das capacitações ministradas por mim de identidade de gênero e eu respondi: “Asenhora sabe que está sendo multiplicadora de suas ações, porque a partir do momento que diz que ‘respeita, mas não aceita’, particularmente a senhora não aceita e não respeita também”. Nas escolas que eu passo, procuro sensibilizar a partir da minha vivência, tanto para os meus colegas de sala de aula, quanto para os professores. Você considera que PG está preparada para esta questão de gênero hoje? Eu acho que nenhuma cidade está. A gente tenta trabalhar da melhor maneira possível, pois a sociedade nunca vai trabalhar e lutar por nós. Quem trabalha mesmo pornós é: a sociedade civil organizada, a união da população dos travestis e transexuais, a população LGBT. Se fôssemos mais unidas, teríamos direito às nossas políticas públicas. O exemplo que temos é a bancada evangélica que está cada vez mais unida porque eles são articulados e a nossa população deveria ser mais unida por viver mais em vulnerabilidade. Qual amaiordificuldade para um travesti em Ponta Grossa, por ser

uma cidade mais tradicional? Ponta Grossa é bem “futurística” e possui acesso a outras do estado do Paraná. A procura da população [travesti] é grande por parte dos homens. Se tem bastantes travestis aqui na cidade trabalhando, é porque tem procura. É complicado falar, porque eu tive uma vivência muito grande e a minha experiência foi toda voltada aqui na rua. Tudo o que eu consegui na minha vida, foi na rua. Não posso dizer que foi terrível, porém muitas não entendem que temos “prazo de validade”, pois enquanto a cara está boa e o corpo está bom, os homens estão aceitando. Portanto, se você não guardou dinheiro enquanto estava no auge, depois pode sofrer as consequências. Hoje você se sente melhor trabalhando em defesa dos LGBTs ou na rua? Com certeza eu não desejo esta vida para ninguém. Eu sempre falo para as mais novas “se você tiver oportunidade ou o apoio da família, levem em frente os estudos e a formação, para não precisar cair na prostituição”. É uma vida muito triste, ao ponto de você ter a certeza que vai sair, mas nunca sabe se vai voltar para casa. É uma realidade nua e crua que enfrentamos. Graças a Deus eu não passo mais por ela e pretendo não passar. Se um dia precisar voltar para sustentar a minha família, eu falo para todos que me prostituo de novo para não precisar roubar ou matar. Por Camila Zanrdini, Luiz Zack e Maina Santos


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da redação

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EDITORIAL

Por um mundo mais colorido para todos O Foca Livre tem a pretensão de ser um portavoz da comunidade UEPG e da sociedade ponta-grossense. Nosso jornalismo se compromete com o artigo sexto do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros: é dever do jornalista “opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos”. O Foca traz em seu nome a palavra Livre porque prima pela liberdade. Não apenas a liberdade de expressão – ponto alto do jornalismo-, mas também pela liberdade do indivíduo de ser quem quiser ser. É direito de uma pessoa procurar a felicidade como ela queira, desde que não prejudique terceiros. Segundo dados divulgados pelo Grupo Gay da Bahia, no ano de 2016, 347 LGBTs foram mortos. O Foca Livre luta pelo fim da homofobia em um país onde

conservadores enxergam a diversidade sexual como um inimigo a ser combatido. Em decisão democrática, a 31º turma de Jornalismo da UEPG mostra sua responsabilidade como jornalistas e a sua solidariedade pela causa LGBT, dando voz a esse grupo. Importante: a edição adotou o termo LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros), embora há conhecimento de nomenclaturas como LGBTs, LGBTI o LBGTQI (incluindo os termos queer e intersexo). O Foca tem em sua redação pessoas que vivenciaram na pele os relatos de suas fontes, assim como muitos simpatizantes ao movimento. Quem estuda Jornalismo sabe que defender a causa LGBT não precisa pertencer a essa comunidade, basta defender os direitos humanos de cada cidadão. Aedição 194 é pensada desde o início de junho, a

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Contar boas histórias é uma arte

O que é jornalismo, na essência? Contar histórias. Afinal, escrevemos para pessoas. E fatos não existem por si só, são decorrência de nossos atos como seres humanos. A edição passada do Foca Livre merece elogios por ter buscado histórias, desprendendo-se do jornalismo burocrático cada vez mais proeminente no cenário editorial. Contudo, há um longo caminho entre conhecer uma rica história de vida e recontá-la ao leitor. As reportagens sobre o encontro de ferroviários da Rede e o cabelo afro como forma de resistência são, sem sombra de dúvida,

partir da conversa entre os estudantes. Foi decidido o uso do arco-íris, símbolo do movimento LGBT, no plano de fundo do título do jornal para expressar nossa indignação à crescente onda de homofobia em nossa cidade e, principalmente, em nosso país. Durante a preparação da edição e a passagem do mês do Orgulho Gay, o Foca se depara com a triste notícia do ocorrido quase ao lado do prédio da UEPG Campus Central – sede da redação do Foca Livre. No dia 18 de junho, uma semana antes do dia do Orgulho LGBT, Sandro Murilo Pedroso foi agredido covardemente apenas por sua orientação sexual. A polícia não confirmou que o caso de Pedroso foi uma prática homofóbica, já que seu celular foi roubado. Mas por que três homens saem de um carro e o espancam até causar o afundamento do crânio para apenas roubar um celular? Tudo indica que foi um caso de ódio. O Foca Livre exige que a Polícia identifique os agressores do massoterapeuta, Sandro Pedroso, e que os

ótimas histórias, mas que acabaram perdendo a dimensão que poderiam ganhar como reportagem por se limitarem ao declaratório e informações enciclopédicas. Um bom exemplo a ser observado é o texto sobre o Rei Momo, que não se esgotou na fala do personagem. Ao invés de simplesmente reproduzidas, suas palavras serviram como ponto de partida para uma nova narrativa, com elementos que vão além daqueles encontrados quando se limita o olhar à pauta, esquecendo de todo o mundo que a cerca. Anderson Gonçalves é jornalista formado pela UEPG, foi repórter e editor nos jornais Diário dos Campos e Gazeta do Povo.

Edição geral: Enaira Schoemberger, Lucas Cabral e Rodrigo Charneski. Edição de texto: Ana Lopes, Camila Zanardini, Guilherme Bronosky, Julio César Prado, Luiz Irineu, Lorena Panassolo, Maíra Orso, Priscila Pires, Rafael Chornobai, Verônica Scheifer e William Clarindo. Edição de imagem: Alessandra Delgobo, Amanda Santos, Ana Flávia, Ana Istschuk, Jéssica Gradin, Marina Santos e Pedro Andrade. Núcleo de pesquisa e revisão: Amanda Santos, Débora Chacarski, Gabriel Miguel, Fernanda Wolf, Jean Borg, Millena Lopata, Millena Villanueva, Rafaela Martins e Saori Honorato.

CHARGE

órgãos responsáveis tomem medidas necessárias contra o crime. O Foca também exige que o caso de André Panatto seja solucionado. Na noite de 23 de abril, Penatto foi espancado por seguranças no Centro de Eventos enquanto esperava pelo seu companheiro. Basta de impunidade a quem comete crimes de homofobia. O Foca também esti-

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Em buscade sentido A última edição deste jornal

traz como “manchete” principal uma foto estampada da incorporação de um médium, em um terreiro de umbanda , sem título, cuja legenda remete ao preconceito que a religião sofre e anuncia apenas um Ensaio Fotográfico. Sendo isso o que abre o jornal, o mínimo, o que poderíamos esperar dele? Em primeiro lugar, a legenda expõe toda uma problemática, que poderia renderao jornal todo um aprofundamento do tema: levantamento de dados na região, entrevistas e reportagens em alguns terreiros de Ponta Grossa para esclarecer a situação local e, ainda o desmembramento do assunto em vários aspectos.

Diagramadores: Barbara Popadiuk, João Vitor, Ingrid Petroski, Nicolas Rutts, Letícia Dovhy e Patrícia Guedes. Repórteres: Consulte a autoria das reportagens diretamente na página da notícia. Curadoria: Caio do Valle, do Nexo Jornal

Foca Livre éum jornallaboratorialdo segundo ano do curso de Jornalismo da UEPG. Os textos de opinião são de responsabilidade de seus autores e não expressam o ponto de vista do jornal.

mula todo cidadão a denunciar ofensa homofóbica, misógina ou racista. Basta ligar para 100 (disque-denúncia) ou 180 (para mulheres agredidas). Chega de covardia e impunidade. O Foca quer um mundo mais colorido, que respeite cada um conforme as suas escolhas individuais.

Matéria como “Os Mil Nomes de São Jorge”, ganharia mais sentido se relacionadas com Ogum, o santo cultuado por umbandistas, sincretizado com São Jorge. E até mesmo matérias sobre os “penteados afros” e “Pluralidade Ética” ficariam mais coerentes e completariam de forma mais genérica o assunto em questão. Ou seja, o jornal chama a atenção para o assunto, mas, não faz nada além de uma exploração vazia, quase teatral, que resulta num ensaio, que mais parece propaganda do terreiro em questão. As imagens não captam a essência e a riqueza da Umbanda, mas reforçam a “demonização” da religião, bem como querem seus principais oponentes. Eliete Marochi, formada em Comunicação Social e mestre em Teoria Literária pela UFSC.

Endereço (cartas, CDs e DVDs para o Foca): Departamento de Jornalismo UEPG - Campus Central Praça Santos Andrade, nº01- Centro CEP: 84010-790 - Ponta Grossa - PR Professores Responsáveis: Ben-Hur Demeneck (DRT 5664 - PR) Cibele Abdo Rodella (MTB 22,156 SP) Impressão: Grafinorte, Apucarana (PR) Tiragem: 2000 exemplares Telefone: +55.42.3220.3389 Contato: focalivre25@gmail.com


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Por que políticos LGBT eleitos ainda são tão raros no Brasil

curadoria

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DA REDAÇÃO: Os editores do Foca Livre escolheram essa matéria publicada no Nexo Jornal no dia 7de março de 2017 para evidenciar a baixa representatividade LGBTem cargos eletivos no Brasil.

Estrutura partidária, conservadorismo e preconceito contra minorias ajudam a explicar poucos gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros nos poderes Legislativo e Executivo O casamento do prefeito da cidade de Lins, no interior paulista, no sábado (4), virou notícia por ser ele o primeiro político declaradamente homossexual a ocupar o comando de um município no Brasil. O ano é 2017. Já se passaram quase seis desde que o Supremo Tribunal Federal reconheceu o direito ao matrimônio homoafetivo. Já se contam 14 anos do primeiro beijo entre duas pessoas do mesmo sexo numa novela de grande audiência. Já faz duas décadas que o país abriga, anualmente, uma das maiores paradas do orgulho LGBT do mundo, em São Paulo. Mesmo assim, ainda são muito poucos os ocupantes de cargos públicos eletivos que se sentem à vontade para se declararem homossexuais, bissexuais, travestis, transexuais e transgênero. Embora as eleições municipais de 2016 tenham representado um avanço, com a vitória de mais candidatos LGBTs – foram 26 pessoas, segundo um balanço do primeiro turno da ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) – a quantidade é pouco expressiva em face do universo de postos no Legislativo (cerca de 57 mil vagas nas câmaras municipais) e no Executivo (5.500 prefeitos). Na atual composição do Congresso Nacional, que soma 594 parlamentares, nenhum senador e apenas um deputado afirma, abertamente, a sua homossexualidade. Trata-se de Jean Wyllys (PSOL-RJ), eleito pela primeira vez em 2010. Para efeito de comparação, na presente legislatura do Congresso dos Estados Unidos, existem sete legisladores (seis deputados e uma senadora) declaradamente LGBTs. No Reino Unido, esse número chega, hoje, a 35 membros do Parlamento. Edgar de Souza, o prefeito linense pelo PSDB, foi alçado ao cargo no pleito de 2012. Na campanha daquele ano, ele foi o único candidato a prefeito eleito, em todo o país, a reconhecer em público a sua sexualidade homoafetiva. Na votação de 2016, outro concorrente que declarou-se gay, Wirley Rodrigues Reis, conhecido como Têko (PHS), foi escolhido prefeito, em Itapecerica, em Minas Gerais. Semanas depois, ele foi vítima de agressão homofóbica.

Umespaçodeprivilégios

tar minorias de seus quadros. É o que ar- em 2016, também é importante –apesar gumenta Wyllys, em entrevista ao Nexo. das críticas dele a programas sociais que beneficiem a população LGBT. Segundo Felipe Oliva, outro membro do coletivo, são os líderes partiA política é dominada por dários que definem quem sai candidato homens brancos, heterossee quem ganha os recursos eleitorais denxuais e ricos. Em sua maiotro de cada agremiação, durante as eleiria, empresários, ruralistas ou pessoas diretamente liga- ções. Nesse sentido, ele explica, o problema de falta de representatividade das aos setores produtivos. LGBT talvez seja parecido com o déficit Este é o padrão que, apesar de representar menos de 10% de representantes mulheres que acada população, ocupa cerca de bam sendo eleitas, preteridas em detri80% dos cargos no Legislativo mento de candidatos homens. O suplente de deputado estafederal. Muito disto se deve às dual pelo Bruno Maia (PSOL-SP), cocampanhas milionárias, conchavos políticos, toma-lá- nhecido como Tomorrow, que é homossexual declarado, pondera que a dá-cá, e também por conta dos preconceitos, ódio e difa- luta por mais espaço LGBT nos contextos da política tradicional constitui fenômação que se abatem sobre meno relativamente novo. “É preciso mulheres, pessoas negras, ainda ganhar espaço dentro dos partidos LGBTs, pobres, entre outros JeanWyllys, deputado para conseguir maior representatividaOs grupos que os comandam são os federalpelo PSOL-RJ de. mesmos de 20 anos atrás: eles não têm interesse em dividir o poder.” Ainda conforme a sua avaliaMarginalização de grupos sociais Para Evorah Cardoso, doutora ção, a política ainda é vista como uma em direito pela USP e integrante do co- atividade eminentemente masculina e letivo Vote LGBT, que mapeia candi- heteronormativa, e muita gente defendatos favoráveis a pautas lésbicas, gays, dendo bandeiras favoráveis pode estar bissexuais, travestis, transexuais e trans- simplesmente atrás de votos. “LGBTs gênero, grupos sociais marginalizados devem ficar espertos para não servirem podem se sentir repelidos dos espaços apenas de degraus para outros.” institucionais da política. “É importante que as pessoas – Persistênciadoconservadorismo Já de acordo com Oliveira, o sejam mulheres, negras, LGBTs – saibam que elas podem ocupar espaços de próprio conservadorismo de grande parpoder. Existem vários grupos que so- te parte da sociedade brasileira contrifrem discriminação e que, muitas vezes, bui para a menor presença de minorias consideram que não podem ocupar es- nos poderes da República. “Os avanços ses espaços. O que não dá para dizer é [como a união homoafetiva] vieram peque, se hoje elas não os ocupam, é por- lo Judiciário. O Brasil é o país em que que os candidatos não estão declarando mais se matam LGBTs no mundo.” Jean Wyllys afirma que o discur[a sua orientação sexual e de gênero]”, afirma ela, para quem a vitória de um so conservador muitas vezes se traduz candidato como Fernando Holiday em práticas violentas e que tende a ele(DEM-SP), a primeira pessoa aberta- ger um “outro” contra o qual nega direimente homossexual a se eleger para a tos fundamentais, inclusive políticos. Câmara Municipal da capital paulista, “Há um discurso cruel, que demoniza o

É também em decorrência de ataques como o sofrido por Reis – cuja casa teve os muros pichados com ofensas à sua orientação sexual – que nem todos sentem-se à vontade para tornar pública a própria sexualidade. Agravando o cenário, há um meio político que ainda é Prefeito de Lins, Edgar de Souza, do PSDB, em reunião | Foto: Facebook um espaço de privilégios, buscando afas- Oficial de Edgar de Souza

outro, e que circula por iniciativa de quem quer impedir que estas pessoas também sejam reconhecidas como cidadãos de pleno direito.” Por sua vez, Cardoso sustenta que, muitas vezes, pessoas que desejam votar em candidatos LGBTs para o Legislativo não os encontram com facilidade, pela própria falta de exposição na campanha, que é bem menos aprofundada do que a para cargos executivos.

Declarar ou não declarar [a oriental sexual e de gênero] não deve ser uma obrigação, não deve ser nada que seja exigido publicamente. Isso faz parte da trajetória da pessoa. Mas se ela quer construir a política dela em torno disso, ótimo. Eque mais e mais pessoas façam isso, porque, se não, a gente nunca vai ter direitos LGBTs garantidos. Ou vai ter, mas com pessoas que não são LGBTs defendendo esses direitos nesses espaços. O que talvez não seja suficiente, porque, por mais que uma pessoa que não seja negra, não seja LGBT, não seja mulher seja favorável a essas pautas, muita coisa se perde.

Evorah Cardoso, doutora em direito e integrante doVote LGBT

Comoéasituaçãoemoutrospaíses Se a situação no poder Legislativo ainda é desfavorável, no Executivo tampouco é promissora para representantes LGBTs. Contudo, diversos países já têm, ou tiveram, representantes lésbicas, gays, bissexuais, transexuais ou transgênero declarados em postos de destaque. Veja alguns deles, abaixo: - Islândia: em 2009, Jóhanna Sigurðardóttir: foi a primeira homossexual declarada a governar um país; - Bélgica: em 2011, Elio Di Rupo transformou-se no segundo homossexual declarado a comandar uma nação; - Alemanha: entre 2001 e 2014, Klaus Wowereit foi prefeito de Berlim; - Estados Unidos: em 2009, Annise Parker se tornou a primeira lésbica a comandar uma grande cidade no país (Houston, a quarta mais populosa); - Luxemburgo: em 2015, Xavier Bettel tornou-se o primeiro líder gay em exercício da Europa a se casar.

Por Caio do Valle Publicado no


A beleza da arte Drag Queen em Ponta Grossa Por Nicolas Rutts e Priscilla Pires Modelos Julie San Fierro e Morgana Firebomb

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Foca Livre - Ano 25 - Edição 194  

O Jornal Foca Livre é uma produção laboratorial do segundo ano de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Curta a nossa fan pag...

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