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Tudo conta. Uma manhã, pouco depois do acidente, quando ia a sair para a escola, voltei-me junto ao portão e olhei para os degraus da frente. Eram apenas 10 — de cimento cinzento normal, não como os traiçoeiros 22 degraus de madeira nas traseiras. Os degraus da frente tinham uma série de linhas e um pouco de areia cinzenta no meio para que não escorregássemos em dias de mau tempo. De certo modo pareceu-me errado tê-los descido inconscientemente. Senti-me culpada. Ingrata para com aquelas escadas que sem se queixar tinham suportado o meu peso durante todos os meus 8 anos. Voltei para as escadas e subi até ao cimo. Depois comecei a descer de novo, mas desta vez contei cada degrau. Pronto. 10. O dia continuou, mas não conseguia deixar de pensar naqueles 10 degraus. Nada obsessivo. Nada que me impedisse de fazer os trabalhos da escola ou saltar à corda ou conversar, mas uma pequena arreliação, como quando não conseguimos evitar tocar com a língua num dente solto. A caminho de casa pareceu-me natural contar os passos desde o portão da escola, ao longo do caminho, do passeio, através da estrada, ao longo da rua no sopé da colina, por outra estrada, pela colina acima e depois até ao nosso quintal: 2827. Muitos passos para uma distância tão curta, mas na altura eu era mais pequena. Gostava de voltar a fazer esse caminho agora que tenho 172 centímetros em vez de 120, e talvez o faça um dia destes. 9


Só me lembro de estar deitada na cama no final desse primeiro dia, triunfante. Tinha medido as dimensões do meu mundo, conhecia-as, e já ninguém podia alterá-las. Ao contrário do tempo, em Melbourne. 36 graus e soalheiro; 38 e o mesmo; 36 e o mesmo; 12 e chovendo tanto que corro o risco de concussão quando vou buscar o correio. Este Janeiro tem sido assim, até agora. Quando era miúda mal conseguia suportá-lo. Aos 8 anos comecei a traçar um gráfico da máxima e da mínima de todos os dias a partir dos jornais, procurando desesperadamente um padrão. Com o tempo, a contagem tornou-se o alicerce da minha vida. Qual a melhor maneira de parar descontraidamente, para não levantar suspeitas, no caso de alguém nos interromper? Não faz mal parar, não infringe as regras — os números são pacientes e podem esperar, desde que não nos esqueçamos de onde estamos nem dêmos um passo a mais. Mas aconteça o que acontecer, não perder a conta, ou teremos de começar de novo. No entanto, é difícil parar os tiques involuntários. — Grace, porque estão os teus dedos a mexer dessa maneira? — Como? É engraçado como percebia que aquilo não era tema para ser discutido com outras pessoas, mesmo quando tinha 8 anos. Os números eram um segredo que pertencia apenas a mim. Alguns miúdos nem sequer sabiam o comprimento da escola ou da sua casa, e muito menos o número de letras nos seus nomes. Eu sou um 19: Grace Lisa Vandenburg. A Jill é um 20: Jill Stella Vandenburg, mais um do que eu, apesar de ter menos 3 anos. A minha mãe é um 23: Marjorie Anne Vandenburg. O meu pai também era um 19: James Clay Vandenburg. As dezenas começaram a impor-se. Porque é que as coisas terminam quase sempre em zeros? Atravessar uma rua eram 30 passos. Da vedação da frente da casa à loja eram 870. Estaria a decimalizar subconscientemente a minha contagem? Será que parava no capacho da loja, e não à porta, para terminar num zero? Zeros. Dezenas. Os dedos das mãos e dos pés. A maneira de designarmos os números, em blocos. Um dia em matemática aprendemos 10


o arredondamento; alterar um número para o valor mais próximo divisível por 10. Perguntei à Mrs. Doyle a palavra para alterar um número para o valor mais próximo divisível por 7. Ela não percebeu o que eu quis dizer. Porque estão os relógios tão obviamente errados? Contar a partir de uma base 60 é uma tendência pagã. Porque toleram as pessoas isso? Quando terminei a escola secundária já conhecia o sistema digital, a sua história hindu-arábica e o papel de Fibonacci em conseguir apoio para a base 10 em 1202. Continua a haver muito ressentimento por aí no ciberespaço — pessoas retrógradas chateadas por a base 10 ter sido escolhida em detrimento da base 12, que elas consideram mais pura: mais fácil de dividir em dois ou em quartos, o número dos meses e dos apóstolos. Mas para mim tem tudo a ver com os dedos — é a maneira como o corpo foi concebido. Não há discussão. Perceber que o mundo era movido por dezenas foi um belo momento de mudança, como se alguém me tivesse dado a chave. Ao arrumar o meu quarto, começava por apanhar 10 coisas. 10 coisas numa hora, 10 coisas por dia. 10 escovadelas do cabelo. 10 uvas do cacho para o pequeno-almoço. 10 páginas do livro para ler antes de dormir. 10 ervilhas para comer. 10 meias para dobrar. 10 minutos para tomar duche. Podia ver então, não só as dimensões do mundo, mas o tamanho e a forma de todas as coisas nele. Definidas, nítidas e no seu lugar. A minha caravana da Barbie passou à história; foi substituída pelas minhas barras Cuisenaire. Por fora não parecem grande coisa. Uma caixa de plástico verde; lá dentro, bocados de madeira, cortados e alisados, de vários tamanhos e cores. Inventadas por George Cuisenaire, o meu segundo inventor favorito, enquanto procurava uma maneira de tornar a matemática mais fácil para as crianças. Eu adoro-as, sobretudo as cores. Cada barra representa um número que corresponde ao seu comprimento e cada número tem uma cor diferente. Durante anos, até à minha vida adulta, os números foram também cores. O branco era o 1. O vermelho o 2. O verde-claro o 3. O cor-de-rosa (um rosa quente e espesso) era o 4. O amarelo era o 5. O verde11


-escuro o 6. O preto o 7. O castanho o 8. O azul o 9. O cor-de-laranja (embora sempre lhe chamasse bronzeado, uma diferença subtil) era o 10. Passava horas deitada na cama, com as barras nas mãos, escutando o tinido que faziam ao bater umas nas outras. Quando oiço esse ruído tenho novamente 8 anos: a cama na diagonal a partir de um canto do quarto; mais fácil para a minha mãe prender a roupa da cama dos dois lados. Os lençóis, de flanela de algodão com 34 riscas cor-de-rosa pastel e azuis que eu contava à noite em vez de contar carneiros. Na parede leste havia 4 janelas salientes para apanhar o sol da manhã, com as 31 ripas das persianas de alumínio levantadas. A cabeceira da cama tinha uma lâmpada embutida por trás de um plástico translúcido, e uma prateleira com um pequeno rádio, de um prateado imaculado e num estojo de imitação de pele; uma prenda de aniversário do meu avô. Havia mais prateleiras na parede ocidental, com 2 figuras de porcelana, uma pastora e uma sereia, e 3 pequineses empalhados de longo pêlo cor de caramelo que eu escovava todas as noites: pai, mãe e bebé. Havia uma boneca de vestido de noiva de cetim adornado com 40 pérolas. No chão, ao canto, tinha 7 carrinhos de lata do tamanho do punho de uma criança, abandonados após a brincadeira. Na escola era tudo normal. Melhor do que normal. Muito bom, muito bom, muito bom. E a melhor da turma, mais uma vez, é a Grace Vandenburg. O segredo do meu êxito residia nos números: todas as semanas fazia 100 minutos de trabalhos de casa para cada disciplina, e quando terminava decorava 10 palavras a partir do início do dicionário. Abacate, abacaxi, ábaco, abadessa, abaixar, abalone, abandonar, abastança, abater, abcesso, acidente. A minha memória aguçava-se e aperfeiçoava-se com as palavras e os números — factos e algarismos, datas e palavras ainda hoje se mantêm, mesmo quando não o quero. Quando me apaixonei pelos números, ninguém reparou. Ninguém teria reparado se eu pegasse fogo. Foi um mau ano para os meus pais. A minha mãe passava horas no jardim a cuidar das suas plantas, como se a morte de mesmo uma a pudesse diminuir. Nessa altura o meu pai já começara a definhar. Eu e a Jill arranjávamo-nos sozinhas. A contagem tornou-se, e permaneceu, o meu segredo. 12


Eu moro em Glen Iris, a dois quarteirões da casa onde cresci. Moro sozinha, exceptuando o Nikola. (Nikola Tesla: 11.) A fotografia dele está numa moldura de prata polida sobre a minha mesa-de-cabeceira, mesmo ao lado das minhas barras Cuisenaire. A fotografia foi tirada em 1885 quando ele tinha 29 anos, por Napoleon Sarony, o famoso fotógrafo — o original está no Smithsonian em Washington, DC, ao lado de um motor de indução que o Nikola inventou em 1888. O cabelo está meticulosamente separado com uma risca ao meio e alisado, embora o lado direito se recuse a baixar. Está mais curto por cima das orelhas, demasiado grandes para a sua cabeça delicada e viradas para trás: um galgo pressentindo a sua presa. O bigode também é assimétrico, apresentável, com certeza, nada desarranjado, mas também não perfeitamente aparado. Ele veste uma camisa branca com o colarinho preso dentro do casaco, que é mais escuro e às riscas, com lapelas estreitas que presumo se usavam na altura. Mas são os olhos que revelam ao mundo quem ele é. Cavados, escuros — olhando directamente em frente. Para o futuro. Há 20 anos que olho para essa fotografia. Não me surpreenderia se um dia começasse a falar. Se a escala de cinzentos se transformasse em carne quente e os lábios começassem a mexer-se. «Chamo-me Nikola Tesla», diria. «Nasci à meia-noite entre o dia 9 e o dia 10 de Julho de 1856 na Croácia. A minha mãe chamava-se Duka Mandic e o meu pai Milutin Tesla. O meu irmão chamava-se Dane e as minhas irmãs Milka, Angelina e Marica. Estudei engenharia na Escola Politécnica Austríaca de Graz. Em 1884 emigrei para os Estados Unidos, onde descobri a electricidade, o magnetismo, o motor de CA, a robótica, o radar e a comunicação sem fios. Nunca me casei nem tive namorada. Entre os meus amigos incluíram-se Mark Twain, William K. Vanderbilt e Robert Underwood Johnson. Não gosto de jóias nas mulheres. Adoro pombos.» Estarei deitada na cama quando ouvir isso, e voltar-me-ei para o encarar. «Chamo-me Grace Lisa Vanderburg», direi. «Tenho 35 anos. A minha mãe, Marjorie Anne, tem 70 anos e a minha irmã Jill Stella 33. A Jill é casada com o Harry Venables; ele faz 40 anos no dia 2 13


de Maio. Têm 3 filhos: o Harry Júnior tem 11 anos, a Hilary 10 e a Bethany 6. O meu pai chamava-se James Clay Vanderburg e já morreu. Sou professora, embora não esteja a trabalhar agora. Apaixonei-me quando tinha 21 anos. Ele era divertido e inteligente e queria ser realizador de cinema. Chamava-se Chris e era um pouco parecido com o Nick Cave. Perdi a minha virgindade no carro dele à porta da casa da minha mãe. Levei 4 meses a perceber que ele também andava a dormir com a companheira de apartamento. Não gosto de coentros. Não compreendo a dança interpretativa. Não gosto de pinturas realistas. A lycra faz-me parecer gorda». Podem riscar este último bocado. É pouco provável que preenchesse o espaço cerebral do maior génio que o mundo já conheceu com estes pormenores fascinantes. Mas ele compreenderia. Compreender-me-ia. Ele também amava os números, embora pouco ligasse aos 10. O amor pelos números assume várias formas, embora os 10 sejam evidente e anatomicamente superiores. Num célebre caso, um rapaz de 18 anos estava obcecado com o 22. Imaginem transpor todas as portas 22 vezes. Sentar-nos numa cadeira, depois levantar-nos imediatamente, 22 vezes antes de podermos finalmente descansar. Isso só serve para realçar a lógica inerente dos 10. Houve uma rapariga de 13 anos que gostava dos 9 — batia com os pés no lado da cama 9 vezes antes de poder dormir ou levantar-se. Existem alguns registos de 8, incluindo um rapaz que tinha de girar 8 vezes sempre que entrava numa sala. A história do 6 é provavelmente a mais triste. Um adolescente odiava tanto o número que não era capaz de repetir nada 6 vezes. Ou 60. Ou 66. Detestava até mesmo os números que somavam 6. Como os 42. Ou os 33. O Nikola adorava os 3. Contava os passos como eu, mas eram os 3 que lhe conquistavam o coração. Só ficava num quarto de hotel se o número fosse divisível por 3. Todas as noites quando jantava no Waldorf-Astoria, às 20 horas em ponto, na sua mesa habitual, tinha 18 guardanapos dobrados ao seu lado. Porquê 18? Porque não 6 ou 9 ou 72? Adoraria virar-me na cama uma manhã, vê-lo junto à minha almofada e perguntar-lhe. Este ano no dia 27 de Agosto faço 36 anos. Ele adoraria isso. 14


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