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NOTA

À

EDIÇÃO PORTUGUESA

Haverá poucas pessoas no mundo que gostem mais do Vinho do que eu; da sua história, das tradições, das gentes, dos vários estilos, cores e castas; das múltiplas funções, da sofisticação, da sua força e fragilidade. O Vinho é, afinal, a mais humana das bebidas. Conheci o autor deste livro, François, entre outras pessoas da fileira, no mais importante concurso alemão de vinhos. Entrámos em sintonia nos padrões de beleza humana, na hierarquia de valores, na vontade de aprender e partilhar a cultura do vinho. Este é o testemunho que o François, enólogo e produtor nos arredores de Bordéus, homem de família, formador assumido e esclarecido, quis partilhar sobre os valores, os métodos e, sobretudo, a honestidade na avaliação e fruição de um vinho. É o seu manual iniciático, o qual tive o prazer de traduzir, aprendendo ao mesmo tempo. Haverá poucas pessoas no mundo que gostem mais do Vinho do que eu; talvez o François seja uma delas. ANÍBAL COUTINHO

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UMA REVOLUÇÃO PALACIANA

Nos últimos vinte anos, o mundo do vinho mudou e, naturalmente, deu lugar a uma nova abordagem à degustação e prova de vinhos. Três fenómenos interligados influenciaram esta mudança. Em primeiro lugar, a chegada e afirmação de novos países produtores, com forte vocação exportadora, como o Chile, a Argentina ou a Austrália, assim como a restruturação dos vinhedos europeus, sobretudo em Espanha e Itália, modificaram as regras do jogo. Perto de 80 países elaboram, hoje em dia, vinhos de qualidade. Esta mundialização estimula a procura e reorienta a abordagem clássica do vinho, acrescentando a diversidade. Em segundo lugar, as alterações do clima — com tendência para mais quente e mais seco — provocam uma modificação significativa dos terroirs. Se, no hemisfério Sul, a Austrália tem

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falta de água, no hemisfério Norte, o Sul da Inglaterra é, neste momento, um novo e disputado território para a produção de excelentes vinhos. O progresso da pesquisa nas áreas da Agronomia e da Enologia possibilitou a utilização de novos produtos e utensílios que participaram igualmente na evolução do perfil organoléptico* do vinho. Ao mesmo tempo, sem atender ao potencial impacto futuro da Índia e, sobretudo, da China, os consumidores têm interesse crescente pela qualidade, origem e castas. Esta tendência justifica um novo fenómeno social no qual o vinho aparece mais liberto e desvinculado de um padrão de consumo com regras demasiado aristocráticas. Apreciar um vinho é, antes de tudo, um prazer, uma arte viva que deixou de estar restrita a uma elite. De facto, todos nós praticamos a Análise Sensorial* sem disso nos darmos conta. Os aromas naturais e civilizacionais rodeiam-nos diariamente; basta que criemos uma ligação com o vinho. O chá, o café, o chocolate e o pão torrado matinal, os frutos e os legumes da época, as especiarias e as ervas aromáticas utilizadas para a confecção dos almoços e jantares, as flores que oferecemos, as notas empireumáticas* do Inverno,

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os aromas florais e agrestes da Primavera ou os odores fúngicos do Outono, são alguns dos prazeres que encontramos num copo de vinho. A degustação está aberta a todos. Ela estimula os nossos sentidos, activa-nos a memória e suscita a nossa curiosidade. Apenas necessita de seguir um método simples e utilizar uma linguagem clara e actualizada.

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Saber_Apreciar_Vinho  

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