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Prólogo

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Na manhã de 4 de Outubro de 1899, Elizabeth Adora Holland, filha mais velha do falecido Mr. Edward Holland e da sua viúva, Louisa Gansevoort Holland, subiu ao Reino do Céu. Amanhã, domingo, às dez horas da manhã, serão efectuados serviços religiosos na Grace Episcopal Church, no número 800 da Broadway, em Manhattan. — DA PÁGINA DA NECROLOGIA DA NEW YORK NEWS OF THE WORLD GAZETTE, Sábado 7 de Outubro de 1899


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m vida, Elizabeth Adora Holland foi conhecida não apenas pelo seu encanto, mas também pelo seu carácter moral, de modo que era justo presumir que depois da morte ocuparia um assento proeminente com uma vista particularmente agradável. Se, numa certa manhã de Outubro, tivesse olhado para baixo, dessa elevada e celestial posição, para o decorrer do seu próprio funeral, ter-se-ia sentido honrada por veri­ficar que todas as melhores famílias de Nova Iorque tinham comparecido para lhe dizerem adeus. Congestionavam a Broadway com as suas carruagens puxadas por cavalos pretos e seguiam gravemente na direcção da esquina da East ­Tenth Street, onde se erguia a Grace Church. Apesar de, nessa altura, não haver sol nem estar a chover, os seus criados abrigavam-se sob grandes sombrinhas pretas, ocultando os rostos — vincados pelo ­choque e pela tris­teza — dos olhos curiosos do público. Elizabeth teria aprovado a melancolia deles e, também, a atitude de indiferença para com a curiosa gente comum comprimida contra as barricadas policiais. As multidões tinham sido atraídas pelo espanto do falecimento daquela rapa­riga de dezoito anos, perfeita, cujas noites resplandecentes haviam sido relatadas nos matutinos para lhes iluminarem os dias. Um vento frio saudara Nova Iorque inteira naquela manhã, tornando o céu que cobria a cidade num insondável e imenso cinzento. Era, murmurou o reverendo Needlehouse enquanto a sua carruagem se dirigia para a igreja, como se Deus já não pudesse imaginar a beleza, agora que Eliza­ beth Holland deixara de caminhar na Sua terra. Os homens que transportavam o caixão acenavam com a cabeça, concordando, en­quanto seguiam o reverendo para a rua e para a sombra da igreja de estilo ­gótico. Eram os pares de Liz, os jovens com quem ela dançara quadrilhas em incontáveis bailes. Em determinada altura tinham desaparecido para St. Paul’s e para Exeter e regressado, depois, com ideias de adultos e uma vontade feroz de namorar. E ali estavam agora de sobrecasacas pretas e braçadeiras de luto e com ar grave talvez pela primeira vez na vida.


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O primeiro era Teddy Cutting, conhecido por ser tão despreo­cupado e alegre que propusera duas vezes casamento a Elizabeth sem que ninguém o levasse a sério. Parecia tão elegante como sempre, embora Liz tivesse certamente reparado na leve sombra de barba loura do seu ­queixo — sinal revelador de profunda mágoa, pois Teddy era barbeado todas as manhãs pelo seu criado e nunca o viam em público sem o rosto escanhoado. A seguir a ele vinha o vistoso James Hazen Hyde, que acabava de herdar, naquele mês de Maio, uma majority share da Equitable Life Assurance Society. Aproximara, uma vez, o rosto do pescoço rescendente a gardénia de Elizabeth e dissera-lhe que ela cheirava melhor do que qualquer das mademoiselles do Faubourg Saint-Germain. A James seguiu­ ‑se Brody Parker Fish, cuja residência de família na cidade, em Gramercy Park, era vizinha da dos Holland, e depois Nicholas Livingston e Amos Vreewold, que tinham competido frequentemente para ser par de Elizabeth na pista de baile. Estavam parados, imóveis e de olhos baixos, à espera de Henry Schoonmaker, que foi o último a aparecer. Os educados pranteadores não conseguiram abafar, ao vê-lo, um pequeno ofego, e não apenas por, habitualmente, ele ter uns olhos tão perversamente brilhantes e quase sempre uma bebida na mão. A trágica ironia de Henry aparecer a transportar o caixão no próprio dia em que deveria ter desposado Elizabeth parecia profundamente injusta. Os cavalos que puxavam o carro funerário eram de um preto reluzente, mas o caixão estava decorado com um enorme laço de cetim branco, pois Elizabeth morrera virgem. Que pena, murmuravam todos, soprando fantasmais lufadas de ar para os ouvidos uns dos outros, que uma morte prematura se tivesse abatido sobre tão excelente rapariga. Henry, com os lábios finos cerrados num traço duro, dirigiu-se para a carreta, logo seguido pelos outros homens que transportariam o ataúde. Ergueram o caixão extraordinariamente leve e dirigiram-se para a porta da igreja. Alguns soluços foram abafados por lenços quando Nova Iorque inteira teve consciência de que não voltaria a ver a beleza de Liz, a sua pele de porcelana nem o seu sorriso franco. Aliás, não havia, realmente, Liz alguma para ver, pois o seu corpo ainda não fora resgatado do rio Hudson apesar dos dois dias de dragagens e, também, da generosa recompensa oferecida pelo mayor Van Wyck. Toda a cerimónia decorrera, de facto, muito rapidamente, embora todos parecessem demasiado abalados para pensarem nesse pormenor.


B Rebeldes | 15 À frente do cortejo fúnebre vinha a mãe de Elizabeth, com um v­ estido e um véu da sua cor preferida. Mrs. Edward Holland, née ­Louisa ­Gansvoort, parecera sempre tímida e distante — até aos próprios filhos — e só se tornara mais dura e intratável depois do falecimento do marido, no último Inverno. Edward Holland tinha sido um homem estranho, de uma estranheza que se adensara nos anos que tinham antecedido a sua morte. Fora, no entanto, o primogénito de um primogénito de um Holland — uma família que prosperara na pequena ilha de Manhattan desde quando ela se chamava Nova Amesterdão — e por isso a sociedade perdoara-lhe sempre os ardis. Todavia, nas semanas que antecederam a sua própria morte, Elizabeth apercebera-se de que também havia algo de novo e mesquinho na sua mãe. Louisa inclinava-se agora um pouco para o lado esquerdo, como se recordasse a presença do defunto marido. Na sua peugada vinha Edith, a tia de Elizabeth, irmã mais nova do seu falecido pai. Edith Holland foi uma das primeiras mulheres a ­ocupar um lugar proeminente na sociedade depois de um divórcio; sabia-se, embora nunca se comentasse muito, que o seu casamento prematuro com um nobre espanhol a expusera a mau humor e ébria libertinagem suficientes para uma vida inteira. Agora usava o nome de solteira e parecia tão pesarosa pela perda da sobrinha como se Elizabeth tivesse sido sua própria filha. Seguiu-se um intervalo curioso, que toda a gente teve a cortesia suficiente para não comentar, e depois chegou Agnes Jones, a fungar ruidosamente. Agnes não era uma rapariga alta e, embora parecesse suficientemente bem vestida aos carpidores que ainda se comprimiam contra o cordão policial para poderem ver melhor, o seu vestido preto teria parecido tristemente familiar à defunta. Elizabeth usara-o apenas uma vez — no funeral do pai — e depois dera-o. Desde então tinha sido alargado na cintura e subido na bainha. Como Elizabeth muito bem sabia, o pai de Agnes tinha sido confrontado com a ruína financeira quando ela tinha apenas onze anos e, posteriormente, atirara-se da Ponte de Brooklyn. Agnes gostava de dizer que Elizabeth fora a única pessoa a oferecer a sua amizade nesses negros tempos. Elizabeth fora a sua melhor amiga, dissera Agnes frequentemente, e embora Elizabeth se sentisse embaraçada com essas exageradas afirmações, não lhe passaria pela cabeça corrigir a pobre rapariga. A Agnes seguia-se Penelope Hayes, geralmente referida como a ver­ dadeira melhor amiga de Elizabeth. Esta teria, de facto, reconhecido a


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clara expressão de impaciência que ela agora mostrava. Elizabeth nunca gostara de esperar, sobretudo fora de casa. Uma das Mrs. Vanderbilt menos importantes, parada ali perto, reconheceu essa expressão e soltou um cacarejo virtualmente inaudível. Penelope, com as suas reluzentes penas pretas, o perfil egípcio e os grandes olhos de densas pestanas, era muito admirada, mas estava longe de merecer a confiança geral. E havia também o facto — incómodo para todos os presentes — de Penelope ter estado com Elizabeth quando o corpo desta desaparecera nas frias águas do Hudson. Fora, e todos agora o sabiam, a última pessoa a vê-la viva. Não que suspeitassem de que fizera alguma coisa; é claro que não. Mas a verdade é que não parecia, de modo algum, suficientemente atormentada. Trazia ao pescoço um cluster de diamantes e, no braço, o formidável Isaac Phillips Buck. Isaac era um parente distante do velho clã Buck — tão distante que a sua linhagem nunca pôde ser confirmada nem refutada —, mas conti­ nuava a ser formidável em tamanho: duas cabeças mais alto do que Penelope e robusto na cintura. Liz nunca se interessara por ele; tivera sempre uma secreta preferência em fazer o que era prático e estava certo, em vez de o que era inteligente e agradável. Isaac nunca lhe parecera mais do que um escravo do gosto e, na realidade, a coroa de ouro que tinha agora no canino esquerdo condizia com a corrente do relógio que se estendia de debaixo do casaco à algibeira das calças. Se aquela insignificante Mrs. Vanderbilt, que se encontrava de pé ali perto, tivesse dito em voz alta o que estava a pensar — ou seja, que parecia mais espampanante do que pesaroso — ele provavelmente teria considerado isso um elogio. Depois de Penelope e Isaac passarem, o resto da multidão seguiu­‑os e entrou na igreja, inundando a nave com os seus trajes pretos a caminho dos seus lugares habituais. O reverendo Needlehouse estava tranquilamente parado no púlpito, enquanto as melhores famílias de Nova Iorque — os Schermerhorn e os Van Peyser, os Harriman e os Buck, os McBrey e os Astor — ocupavam os seus lugares. Os que já não podiam conter­‑se, mesmo sob aquele imponente tecto, começaram a falar baixinho a respeito da chocante ausência. Por fim, Mrs. Holland dirigiu ao reverendo um brusco aceno de cabeça. — É com os nossos corações pesados... — começou o reverendo Need­le­house. E foi tudo quanto conseguiu dizer antes de a porta em arco de acesso à igreja se escancarar e bater na parede de pedra com um retumbante estrondo. As senhoras da classe elegante de Nova Iorque


B Rebeldes | 17 sentiram­‑se mortinhas por se voltarem e olharem, mas o decoro impedia­ ‑as, evidentemente. Mantiveram as cabeças cuidadosamente arranjadas voltadas para a frente e os olhos no reverendo Needlehouse, cuja expressão não lhes facilitava em nada a tarefa. Diana Holland, a irmãzinha querida da defunta, com alguns caracóis reluzentes a soltarem-se de debaixo do chapéu e as faces rosadas do esforço, descia apressadamente a coxia. Só Elizabeth, se pudesse, realmente, olhar lá do alto do céu cá para baixo, teria sabido interpretar o sorriso que se apagara do rosto de Diana quando esta ocupara um lugar no banco da frente.

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