Issuu on Google+

PREFÁCIO

Na minha carreira de investigador de psicologia, escolhi sempre temas que me pareceram interessantes e relevantes (caso contrário, para quê estudá-los?), mas nunca me senti tentado a explorar nenhum tema em particular. A ideia de estudar o propósito surgiu-me de uma forma totalmente distinta. Não o encarava como mais um tópico de investigação, mas como a culminação de um trabalho que eu havia desenvolvido, durante mais de trinta anos, sobre o compromisso moral, a formação da personalidade e o desenvolvimento humano. Além disso, numa altura em que a sensação de vazio surge como um dos maiores perigos psicológicos da actualidade, o estudo do propósito pareceu-me fundamental, em termos do seu contexto social. Nos meus projectos anteriores, deparei-me inúmeras vezes com o conceito de propósito, mas sempre de uma forma indistinta e indirecta, como se visse através de um telescópio com a lente errada. Nenhum dos meus estudos anteriores se concentrou no propósito por si só; contudo, agora percebo que muito do que tenho tentado compreender ao longo dos anos depende exactamente do propósito. Um estudo levado a cabo por mim (em conjunto com Anne Colby) sobre o compromisso moral revelou que as pessoas que tentam alcançar um propósito nobre são pessoas cheias de alegria, apesar dos sacrifícios constantes que são obrigadas a fazer1. Numa série de estudos subsequentes (elaborados em conjunto com Howard Gardner e Mihaly Csikszentmihalyi), sobre os homens e as mulheres que haviam desenvolvido um «bom trabalho» social no âmbito das suas carreiras, fiquei surpreendido com o entusiasmo com que aquelas pessoas responderam às nossas perguntas sobre o que estavam a tentar alcançar

1 Some Do Care: Contemporary Lives of Moral Commitment, de Anne Colby e William Damon (Nova Iorque: Free Press, 1992).

11


e porquê2. Todas elas tinham um propósito nobre em mente, que servia de incentivo para os seus esforços diários. O propósito era a preocupação principal daquelas pessoas, crucial para todos os seus sucessos pessoais — conferia-lhes energia, dava-lhes satisfação sempre que alcançavam os seus objectivos e perseverança sempre que se deparavam com obstáculos. Mais tarde, quando fui convidado para ajudar a implementar workshops no sentido de fomentar o «bom trabalho» entre os jornalistas, na fase intermédia das suas carreiras, eu e os meus colegas descobrimos que a pergunta mais útil para os nossos workshops era: «Qual é o propósito que pretende alcançar com o seu trabalho?»3 Esse projecto levou-me a examinar a forma como os jovens tentam encontrar o seu propósito de vida. Será que os adolescentes possuem um propósito e, se assim for, como é que o adquirem? Que género de propósito, para além dos relacionados com as carreiras profissionais, é que os jovens de hoje possuem? O que acontece quando os jovens são incapazes de definir qualquer propósito para si próprios? Este livro é a primeira descrição dos conhecimentos que eu e os meus alunos adquirimos através do nosso estudo sobre essas mesmas questões4. Este é o terceiro livro que escrevo sobre o desenvolvimento juvenil, com um público-alvo em mente — ao que parece, desde 1988 que escrevo um por década: The Moral Child, em 1988; Greater Expectations, em 1995; e agora Que Futuro para os Jovens de Hoje?. Em retrospectiva, percebo que, de certa forma, cada livro foi um produto da sua época. Durante os anos oitenta, preocupei-me com os princípios do relativismo moral que haviam assolado as correntes intelectuais da cultura norte-americana e que começavam a escoar para

2 Good Work: When Excelence and Ethics Meet, de Howard Gardner, Mihaly Csikszentmihalyi e William Damon (Nova Iorque: Basic Books, 2001). Ver também: goodworkproject.org. 3 O projecto do «currículo itinerante» foi realizado em colaboração com o Project For Excellence in Journalism (Projecto de Excelência em Jornalismo) e o Committee for Concerned Journalists (journalism.org). 4 Os nossos estudos sobre o propósito nos jovens estão longe de se encontrarem concluídos: estamos a meio de um programa extensivo de recolha de dados e de análise que, segundo esperamos, deverá substanciar e aperfeiçoar o primeiro ciclo de conclusões discutidas neste livro.

12


as escolas e para a comunicação social. Em The Moral Child, defendi a universalidade dos princípios morais fundamentais e a importância da transparência na educação moral dos jovens. O livro foi lido por um grupo simpático de pessoas, mas não teve qualquer impacto nas nossas práticas culturais. Aliás, por volta dos anos noventa, a educação infantil achava-se totalmente dominada por abordagens que consideravam os padrões morais — assim como todos os outros padrões — os vestígios de um tradicionalismo insensível. A auto-estima transformara-se no Cálice Sagrado da educação infantil e os pais haviam sido aconselhados a evitar «traumatizar» os filhos (supostamente) frágeis com a imposição da sua autoridade, o encorajamento à perfeição, a adopção de desafios e o controlo do comportamento deles com base nas restrições morais. Em resposta, escrevi Greater Expectations: Overcoming the Culture of Indulgence in Our Homes and Schools (Grandes Expectativas: Como Ultrapassar a Cultura da Complacência nas Nossas Escolas e nos Nossos Lares). Ao que parece, as pessoas prestaram mais atenção dessa vez (não apenas a mim, mas a outros críticos sociais que manifestaram preocupações semelhantes). No final dessa década, ouviam-se expressões como «padrões elevados» e «educação da personalidade» proclamadas por educadores influentes e dirigentes políticos, sempre que falavam sobre as suas políticas para os jovens. Algumas coisas começaram efectivamente a melhorar: o crime juvenil diminuiu (até certo ponto), o voluntariado entre os jovens atingiu números elevadíssimos e a maioria dos «peritos» deixou de encarar a auto-estima como o objectivo primordial do desenvolvimento humano. Na minha opinião, tudo isto foram progressos excelentes que promoveram o bem-estar e que melhoraram as perspectivas de futuro dos nossos jovens. Actualmente, existem muitos jovens bem sucedidos. No entanto, os nossos dias também têm os seus riscos bastante sérios. O problema mais complicado da actualidade é a sensação de vazio que tem conduzido muitos jovens a longos períodos de alheamento, durante uma altura das suas vidas em que deviam estar a definir as suas ambições e a fazer o possível por as concretizar. Actualmente, a apatia e a ansiedade passaram a fazer parte do estado de espírito permanente de muitos jovens, e o alheamento, tal como o cinismo, veio substituir a esperança que tanto caracterizava a juventude. Este problema não pode ser resolvido com as mesmas soluções do passado. Aliás, os padrões elevados que eu e outras pessoas defen-

13


demos não são uma resposta suficiente para esta questão tão particular. A mensagem que os jovens transmitem quando são desafiados a empenharem-se ou a tentar alcançar algo — uma mensagem em que continuo a acreditar piamente — não responde à pergunta mais importante de todas: Qual é o Propósito? Ou, numa só palavra, Porquê? Para os jovens, esta preocupação equivale à pergunta e à resposta de questões como: «O que espero alcançar com os meus esforços, com a dedicação e o empenho que são exigidos de mim? Quais são as metas importantes que justificam todo este esforço? O que é importante para mim e por que motivo é importante? Qual é a minha maior preocupação?» Se não encararmos estas questões como uma parte fundamental das nossas conversas com os jovens, só nos resta ficarmos a assistir, enquanto eles se aventuram num mar de confusão, de inacção, de dúvidas existenciais e de ansiedade — os sentimentos que surgem quase sempre quando o trabalho e o empenho não são acompanhados de um propósito. A juventude é um período de idealismos, e os jovens levam muito a sério todos os conselhos que recebem sobre o caminho que devem seguir rumo à satisfação pessoal e à alegria de viver. Porém, tais conselhos, oferecidos apenas no início dos cursos universitários ou noutras ocasiões cerimoniosas, tendem a ser demasiado ricos em considerações gerais e por demais pobres em pormenores realmente úteis. No mundo real da competitividade, das exigências profissionais e das responsabilidades sociais, o jovem questiona-se: «Como irei encontrar algo simultaneamente gratificante e relevante? Como deverei tentar alcançar os meus sonhos e evitar «trair» os meus princípios, sem pôr em causa o meu sustento e o da família que ambiciono ter? De que forma conseguirei ganhar a vida como um membro da sociedade importante e ter um impacto positivo no mundo?» Estas são questões com as quais todos os jovens se deparam, mais cedo ou mais tarde, por forma a fazerem as suas opções de vida mais importantes. Encontram as respostas nas suas escolas e universidades? Gostava de poder dizer que sim. A maioria das escolas secundárias serve para criar as bases e, nos últimos anos, tem vindo a dedicar-se exclusivamente ao aperfeiçoamento dessa característica. As universidades são formas excelentes de expor os jovens a um vasto leque de ideias e de conhecimentos culturais. Todas essas dádivas educativas enriquecem tremendamente a vida intelectual e pessoal de um aluno. Contudo, no que diz respeito à orientação dos alunos rumo aos percursos

14


de vida que estes acham gratificantes e relevantes, as nossas escolas deixam muito a desejar. Os alunos aprendem fragmentos de conhecimento para os quais não vêem qualquer utilidade e, de tempos a tempos, há alguém numa assembleia escolar que os incita a cometer grandes feitos. Todavia, no que toca a estabelecer uma ligação entre as duas coisas — isto é, mostrar aos alunos como e por que razão uma fórmula matemática ou uma aula de História podem vir a ser úteis no futuro — as escolas ficam muito aquém. Se visitarmos uma sala de aula normal e escutarmos o que o(a) professor(a) manda os alunos fazerem, ouviremos um sem fim de instruções para pesquisas e exames e uma série de exercícios práticos. Se escutarmos os motivos adiantados pelo(a) mesmo(a) professor(a) por que os alunos devem levar a cabo essas tarefas, ouviremos um rol de objectivos limitados e básicos como ter boas notas e transitar de ano, ou talvez — se os alunos tiverem sorte — a importância da aprendizagem de uma competência específica. Raramente ouvirá um(a) professor(a) falar com os seus alunos sobre os propósitos mais profundos a que esses objectivos podem conduzir. Porque é que as pessoas lêem ou escrevem poesia? Por que razão é que os cientistas estudam os genes? Por que motivo é que trabalhei tanto para me tornar professor? Por incrível que pareça, em todos os meus anos de investigador na área do desenvolvimento e da educação juvenil jamais vi um(a) professor(a) partilhar com os seus alunos as razões por que enveredou pelo ensino. E também nunca ouvi nenhuma família, nem nenhum programa televisivo destinado aos jovens, a debater o significado mais profundo dos nossos esforços diários. Como podemos esperar que os jovens encontrem algum significado naquilo que estão a fazer, se raramente chamamos a sua atenção para o sentido pessoal e para o propósito do nosso trabalho diário? As minhas investigações — bem como este livro — possuem a sua própria finalidade: explicar a importância do propósito para o desenvolvimento juvenil. Espero consegui-lo para benefício de todos os que se interessam pelos jovens, sejam eles pais, educadores, cientistas, profissionais da área do desenvolvimento juvenil ou simplesmente cidadãos da sociedade que os jovens de hoje vão herdar. Entre todos estes grupos, o conceito de propósito é algo relativamente familiar. Já foram elaborados outros estudos tendo por base o mesmo assunto nos jovens (embora não tantos como seria de esperar), e o livro de Rick Warren, The Purpose-Driven Life, um campeão de vendas publicado

15


em 2003, chamou a atenção do grande público para este conceito, de uma perspectiva religiosa. Felizmente, o novo campo da psicologia positiva tem também focado os benefícios de se ter um propósito.5 Ainda assim, com todos os nossos esforços para trabalharmos com os jovens de uma forma construtiva, o propósito continua a ser uma ferramenta pouco utilizada. Não obstante todas as conversas sobre o propósito na comunicação social e noutros contextos populares, este continua a ser uma preocupação insignificante nas ciências humanas, na maioria das famílias e em praticamente todas as nossas escolas — por outras palavras, em todos os lugares que tentam compreender os jovens no sentido de promover o seu desenvolvimento saudável. A minha esperança é que este livro contribua para mudar essa situação. WD Palo Alto, Califórnia Janeiro de 2008

5 Character Strenghts and Virtues: A Handbook and Classification, de Christopher Peterson e Martin Seligman (Nova Iorque: Oxford University Press, 2004).

16


Que_Futuro_Para_Jovens_de_Hoje