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22 anos A Minha Mãe Tinha Razão! – Isto é um pardieiro! Não acredito que trocaste a nossa casa superacolhedora, imaculadamente limpa e sempre arrumadíssima por esta pocilga!? Que cena, Maria de Lurdes! — exasperou-se a minha mãe, de mãos na cintura, da última vez que me visitou. Em alturas como esta, nunca sei o que dizer. Durante os seus ataques, prefiro recolher-me ao mais puro silêncio de consentimento. Há sete meses que divido um apartamento ridiculamente pequeno com a Bené e a Heloísa. Bem que a minha mãe me tinha avisado: nada cabe no apartamento. Nada mesmo! Sinceramente, eu e as minhas amigas mal cabemos no «apertamento», que é o nome carinhoso que damos ao nosso «microlar». Para piorar, a Bené é superdesarrumada, eu sou megadesarrumada e a Heloísa é hiperdesarrumada. A Heloísa, aliás, tem um outro problemazinho que é mesmo chatinho: passa a vida a entrar e a sair com o namorado antipático. Um dia destes, antes de uma festa, o sonso viu-me em cuecas e sutiã! Haverá vexame maior do que este? Morri de vergonha. Ele morreu de riso. Palhaço! 9


THALITA REBOUÇAS

Morar longe de casa não tem sido exactamente o paraíso que eu imaginava, mas dias melhores virão. Ficarei efectiva no meu estágio (viva!), vou passar a ganhar um salário decente e acho que muito em breve estarei pronta para alugar o meu próprio cantinho. Decidi: adoro as minhas amigas, mas quero, preciso de morar sozinha. Pelo bem da nossa amizade. Para ilustrar o caos que é a nossa convivência: há dias cheguei a casa e vi, a repousar no chão da «microssala», repito, no chão da «microssala», vários, torno a repetir, vários objectos. Foi difícil desviar-me deles. Primeiro, toquei de raspão num CD do Nando Reis1; depois, quase pisei a caixa do CD do Nando com um disco de música funk lá dentro, a caixa do DVD de O Sexo e a Cidade, uma lima de unhas, um papel de pastilha elástica, uma ventoinha portátil, um ténis amarelo-imundo, um papel com um número de telefone anotado e «n» sacos cheiíssimos de roupa suja. — Temos de comprar uma máquina de lavar roupa! Ou de ganhar vergonha na cara e lavar a roupa! Não podemos achar normal que estes sacos estejam no meio da sala há uma semana! — reclamei, antes de dizer boa noite às minhas amigas. — Aqui no apartamento não cabe uma máquina de lavar — retorquiram calmamente as duas. A casa estava um horror. Nós as três somos terríveis! A Bené, então, é do piorio. É capaz de deixar um caroço de maçã no lava-loiça dias a fio. Isto porque o caixote do lixo fica ao lado da torneira. Ao caminhar, irritada, pisei com força e ouvi um nítido e crocante «créééc».

1 José Fernando Gomes dos Reis, conhecido como Nando Reis, é um músico, cantor e compositor brasileiro.

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QUE CENA, PROFESSOR!

— Tantas migalhas, malta! Quem é que comeu bolachas sem usar um pratinho? Onde anda aquele aspirador pequenino que a minha mãe nos deu? Desataram ambas a rir. Eu mantive-me séria: estava muito, muito zangada. — Malu! Não stresses! — disse a Bené. — Comemos sem pratinho, sim, deixa estar que depois a gente limpa — completou a Heloísa. — Depois quando? — Depois... — Que bolachas eram? De canela? — quis eu saber. — Hã-hã — fizeram as duas, sabidas. — Ainda há? — perguntei, rendendo-me à gula e ao desleixo. Comi a última do pacote e acabei por me rir com elas. Eu até gosto de desarrumação. Sempre gostei. Mas o apartamento estava tão desarrumado que tinha ultrapassado até os meus níveis de tolerância. — Oh, amigas, assim não dá! Temos de ganhar vergonha na cara. A nossa casa parece uma zona de guerra! — Ih, Malu, pareces o Francisco, aquele professor de Português do quinto ano que tinha a mania da arrumação, lembras-te? — perguntou a Heloísa. — Oh, então não me lembro... — Ele não nos deixava assistir às aulas com muita coisa em cima da mesa, só lápis e borracha — corroborou a Bené. — E não suportava mochilas abertas e esparramadas no chão, tinham de estar atrás da cadeira, fechadas, lembram-se disso? — comentou a Heloísa. — E a stora Mimi? Que não dizia coisa com coisa? — lembrou a Bené. 11


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— Era cá uma figura... — Por falar em professores, e o José Carlos? Lembras-te de que estavas completamente apaixonada por ele, Malu? — brincou a Heloísa. — Qual José Carlos? O ogre? — quis saber a Bené. — Não, o ogre era o André Maurício, de História... — Eu tive tantos professores à maneira... Giros, queridos, apaixonantes. Inesquecíveis. Lembro-me do Afonso, do Gordo, da Graciete, do Joaquim, da Angélica, da Valéria, da Fátima... Histórias com professores... Tenho a memória cheia delas.

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3 anos Primeiro Dia de Aulas A Ângela Cristina, a minha querida mãe, levou-me à escola pela primeira vez numa manhã quente de Setembro. Fez-me uns totós esticadíssimos e puxadíssimos, o que me deixou a parecer uma japonesa com cara de bolacha (nessa época eu tinha o rosto redondinho, era um bocadinho gorducha. Um bocadinho, uma ova! Gordinha, mesmo. E sem este diminutivo mentiroso). Achei que aquele colégio enorrrrme, arborizado, com rampas, escadas, corrimões imponentes e piso brilhante era lindo. Sentia-me como uma estranha, mas muito bem-vinda, e fiquei cheia de vontade de fazer parte daquele universo. Subimos muito. Rampas e mais rampas, escadas e mais escadas. Lembro-me de que tive a sensação de que ia estudar perto do céu. Enquanto eu, num misto de curiosidade e admiração, queria observar atentamente tudo em meu redor, a minha mãe tagarelava sem parar, insistindo a cada três segundos, com os lábios a tremer e a voz embargada, que eu ia gostar do colégio, que eu ia conhecer pessoas, fazer amigos novos... Chegáramos ao acolhedor jardim-de-infância. E a minha mãe não conseguia parar de me beijar. Deu-me, no mínimo, uns 579 beijos. E abraços. Demorados. A mulher não queria lar13


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gar-me de todo. E chorou! A minha mãe chorou no colégio! E mal sabia eu que aquela era só a primeira de muitas outras vezes. Haverá vergonha maior do que a nossa mãe chorar na escola? Que cena! Mesmo com três anos de idade, tive a certeza de que aquela era a vergonha das vergonhas. Enquanto ela me abraçava dramaticamente, eu só pensava em juntar-me à turma e à professora Angélica, uma professorazinha cândida de sorriso largo e sincero. Por seu lado — obviamente — a minha mãe só conseguia vê-la como a personificação da bruxa má da Branca de Neve. Em pranto, tentava ao máximo adiar o momento em que me deixaria, finalmente, assistir à minha primeira aula em paz. E eu sufocada em tanta despedida, aqueles totós a repuxarem-me a cara toda, um calor dos diabos, um desconforto horrível... Mas eis que surge, para me salvar do aperto materno, a Alice. — Olá. Largue a menina, se faz favor. Largue! — disse, cheia de energia, aquela que viria a ser a minha grande amiga. — Deixe-a vir brincar connosco — pediu, já a segurar-me pelo braço e a puxar, decidida a levar-me para perto da turma. — Eu sou a Alice, e tu? — Maria de Lurdes — respondeu a minha mãe por mim, o que me deixou muito aborrecida. — Posso chamar-te Malu? — perguntou a Alice, tããããão querida. — Não! O nome dela é Maria de Lurdes! — exasperou-se a minha mãe. — Podes, eu gosto de Malu — respondi com um sorriso. Simpatizei logo com a Alice. Que menina tão boazinha! Não perdi tempo: — Queres ser a minha melhor amiga? Ela quis. Só não sabia que seríamos amigas para o resto da vida. Eu simplesmente não imagino a minha vida sem a Alice. Nós zangamo-nos e fazemos as pazes, discutimos e fazemos as pazes: é assim desde que éramos crianças, e assim continua. Eu adoro a Alice! 14


QUE CENA, PROFESSOR!

Parti de mão dada com ela, rumo à roda em que a professora Angélica brincava com as outras crianças. Definitivamente, a Alice era a minha nova amigona (eu odiava aquela coisa que meus pais falavam: fazer novos amiguinhos. Para mim, um amiguinho não era nada de especial. Especial era um amigão). — Espera aí, minha menina! — gritou a minha mãe para a Alice. — O que aconteceu à educação? Os teus pais não te ensinaram a... Menina! Menina! Não me vires as costas enquanto eu estiver a falar! Maria de Lurdes, volta aqui! Eu já estava longe da minha mãe. E bem perto da professora Angélica. E do meu novo mundo. A minha mãe, em vez de ficar feliz por me ver inserida no grupo, amuou. Ela nunca confessou, mas acho que morreu de ciúmes da professora Angélica e também da Alice. Tenho a certeza de que foi naquela manhã que a mamã passou a implicar eternamente com a Alice. Pois é, desde que a Alice tinha três anos que a minha mãe implica com ela. Sim, é verdade, a minha mãe é doida. — Aquela miúda é muito atrevida. E não respeita os mais velhos! Onde é que já se viu querer arrancar-te dos meus braços? — queixou-se ela anos a fio. No pátio do Jardim I, a brincadeira estava óptima, o Sol estava quente, a manhã com aquela professora prometia ser simplesmente sensacional. Aquilo ia ser muito melhor do que ficar em casa o dia inteiro! Foi o máximo. Uma sintonia espectacular entre todos. A professora Angélica, de longos cabelos lisos castanhos e voz de Marisa Monte a ser entrevistada, encantou-me imediatamente. Paciente, ela transformava as suas longas pernas em escorrega para a turma toda. E ensinava-nos a fazer massinhas com formas, a cantar músicas, a brincar numa roda... 15


THALITA REBOUÇAS

No primeiro dia de aulas, lembro-me de ter dado muitos mimos à professora Angélica. E o melhor foi que ela também me mimou. Demo-nos mesmo muito bem. Ela era uma professora querida. E eu, modéstia à parte, era uma criança queridíssima. Queridíííssima. Enquanto brincava com a professora e os meus colegas novos, reparei, pelo canto do olho, que a minha mãe estava a espiar-me de longe, tentando esconder-se e sem ser capaz de evitar as lágrimas. E, por mais à vontade que eu estivesse no meu novo meio, senti um bem-estar profundo por tê-la ali por perto. Ainda hoje ela pensa que eu não a vi.

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A Minha Mãe Tinha Razão! 9 1 José Fernando Gomes dos Reis, conhecido como Nando Reis, é um músico, can- tor e compositor brasileiro. THALITA...

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