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PRIMEIRA PARTE

O ESQUEMA


Fix (Esquema): Termo usado pela CIA, durante o perĂ­odo da Guerra Fria, o qual se referia a uma pessoa que ia ser envolvida, ou sobre quem era feita chantagem para a obrigar a servir a AgĂŞncia. The Dictionary of Espionage


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Até tudo ter acontecido, nunca acreditara na velha advertência sobre o cuidado a ter com os nossos desejos, pois eles poderiam vir a realizar-se. Agora acredito. Acredito em todos os provérbios que aconselham cautelas. Acredito que o orgulho se perde antes da queda. Creio que a maçã nunca cai longe da árvore, que uma desgraça nunca vem só, que nem tudo o que luz é ouro, que as mentiras correm depressa. Acredito em tudo o que quiserem. Poderia tentar a demonstração de que tudo começara por um acto de generosidade, mas não estaria a ser totalmente verdadeiro. Melhor será considerar que se tratou de uma manifestação de estupidez. Talvez fosse um acto mais parecido com o erguer ofensivo do dedo médio. Fosse o que fosse, não resultou nada de bom. Pensei que poderia safar-me, ou que poderia ser despedido. Porém, quando recordo como tudo começou, não posso deixar de me admirar de ter sido um burro tão arrogante. Não vou negar que tive o que merecia. Todavia, não foi o que eu esperava — mas quem é que iria esperar um resultado daqueles? Limitei-me a fazer uma série de chamadas telefónicas. Assumi o papel de vice-presidente encarregado da gestão de eventos especiais da companhia e liguei para o fornecedor habitual, a selecta empresa que programava todas as festas da Wyatt Telecom. Ordenei que organizassem uma cerimónia igual à da semana anterior, em que fora entregue o prémio para o Melhor Vendedor do Ano. (Como é evidente, eu não conhecia a opulência do evento.) Forneci-lhes os códigos de despesas e autorizei a transferência antecipada dos fundos necessários. Foi tudo extraordinariamente fácil. 15


O dono da Meals of Splendour queixou-se de que nunca fizera uma daquelas cerimónias numa secção de expedição, que a decoração representava «um desafio», mas eu sabia que o homem nunca viraria as costas a um gordo cheque da Wyatt Telecom. No entanto, também tinha as minhas dúvidas de que a Meals of Splendour alguma vez tivesse organizado a festa de despedida de um encarregado-adjunto. Acho que foi isso que pôs os cabelos em pé aos tipos da Wyatt. Pagar a festa de despedida do Jonesie — um tipo do armazém de expedição, Santo Deus! — constituiu uma violação da ordem natural. Se eu tivesse usado o dinheiro como primeira prestação de um Ferrari 360 Modena descapotável, Nicholas Wyatt talvez até tivesse compreendido. Teria reconhecido na minha ganância uma prova da nossa humanidade partilhada, como se fosse uma fraqueza pelo álcool, ou pelas «gajas», como ele designava as mulheres. Se soubesse o resultado, teria feito o mesmo? Não, que diabo! Mesmo assim, tenho de o dizer, foi bastante giro. Tinha conhecimento de que a festa do Jonesie estava a ser paga através de um fundo destinado a, entre outras coisas, financiar umas «escapadelas» do presidente e do vice-presidente até à estância da ilha de St. Barthélemy. Também adorei ver os homens do armazém de expedição a saborear a forma como os dirigentes viviam. A maioria dos tipos e respectivas caras-metades, cuja ideia de ostentação era a Festa do Camarão na cervejaria Lagosta Vermelha, ou a costeleta na churrasqueira do subúrbio, não sabiam o que fazer com aquelas comidas esquisitas, como o caviar ou a vitela à provençal, mas devoraram o sauerkraut, o lombo de carneiro assado, a lagosta grelhada com ravioli. As figuras de gelado foram um êxito. O Dom Perignon correu, embora a Budweiser corresse ainda mais. (Achei isto normal, pois costumava andar pelo armazém de expedição nas tardes de sexta-feira a fumar o meu cigarro, quando alguém, quase sempre Jonesie ou Jimmy Connolly, o encarregado, trazia uma geleira com umas cervejas para celebrarmos o final de mais uma semana.) Jonesie, um velhote com um daqueles rostos tímidos e batidos pelos anos que obrigam a gostarmos da pessoa imediatamente, mostrou-se radiante durante todo o serão. Esther, a mulher com quem casara quarenta e dois anos antes, a princípio pareceu retraída, mas acabou por revelar-se uma espantosa dançarina. Eu tinha contratado um excelente conjunto jamaicano de reggae e toda a gente entrou na dança, mesmo aqueles tipos que nunca imaginaríamos capazes de dançar. Isto passava-se, é claro, depois do grande desastre tecnológico, na altura em que, por toda a parte, as companhias começavam a despe16


dir pessoal e a impor medidas de «austeridade», significando que quando íamos à sala de convívio tínhamos de pagar o miserável café, que não havia mais Coca-Cola de graça, coisas desse género. Fora decidido que Jonesie deixaria de trabalhar a uma sexta-feira, passaria umas horas no Departamento de Recursos Humanos a assinar uns papéis e iria para casa, passar o resto da vida, sem festa de despedida, nem nada. Entretanto, os administradores da Wyatt Telecom estavam a planear dirigir-se a St. Bart nos seus aviões Learjet para se encafuarem com as mulheres ou as namoradas nas suas vilas particulares, untarem as mãos das amadas com óleo de coco e discutirem políticas de austeridade durante pequenos-almoços obscenos, com papaias e línguas de beija-flor. Jonesie e os amigos não se incomodaram verdadeiramente a procurar saber quem pagava tudo aquilo. Quanto a mim, a festa fez-me sentir um secreto prazer maligno. Até à uma e meia da manhã, altura em que os sons de uma guitarra eléctrica e os berros de dois empregados mais jovens, perdidos de bêbados, devem ter despertado a atenção de um guarda, uma aquisição bastante recente (o salário é uma miséria, a rotação atinge números incríveis) que não conhecia nenhum de nós nem estava disposto a aturar-nos. Era um tipo atarracado, rosto vagamente porcino, dos seus trinta anos. Empunhou o walkie-talkie como se fosse uma pistola e perguntou: — Que raio é isto? Soube, ali mesmo, que a minha vida tinha mudado para sempre.

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O voice-mail já estava à minha espera quando cheguei ao emprego, atrasado, como sempre. De facto, um pouco mais atrasado do que era habitual. Sentia-me enjoado, doía-me a cabeça e o coração batia demasiado depressa depois da enorme caneca de café que emborcara no metropolitano. Sentia o estômago inundado por uma onda ácida. Ainda pensei em dar parte de doente, mas um pouco de sanidade que me restava na cabeça avisou-me que, depois do que se passara na noite anterior, o mais sensato era aparecer no emprego e dançar ao som da música deles. Acontece que esperava ser despedido — quase o desejava, uma sensação parecida à que se tem quando se vai chumbar um dente que está a doer. Quando saí do elevador para percorrer mais de meio quilómetro que me separava do meu posto de trabalho, consegui ver cabeças que surgiam, como as dos cães da pradaria, para conseguirem ver-me de relance. Passara a ser uma celebridade; a história tinha-se espalhado. O correio electrónico estava sem dúvida a funcionar. Tinha os olhos vermelhos, o cabelo em desalinho, parecia uma daquelas figuras dos cartazes colocados nos lugares públicos, com a frase: «DIZ NÃO.» O pequeno ecrã de cristais líquidos do meu telefone mostrava a informação: «Tem 11 mensagens.» Carreguei no botão e deixei correr. Só de ouvir aquelas mensagens frenéticas e directas, senti que a pressão por detrás dos globos oculares estava a aumentar. Peguei no frasco de Advil, que estava na gaveta do fundo, e engoli dois comprimidos a seco. Com os que tomara logo pela manhã, já eram seis, o que excedia o máximo recomendado. O que é que poderia acontecer-me? Morrer de uma dose excessiva de ibuprofen, momentos antes de ser despedido? Era supervisor de linha de produto para routers na nossa Divisão de Empresas. Nem quero saber o que significam aquelas coisas, deixam18


-me de cabeça oca. Passava os dias a ouvir frases do género «circuito de emulação de serviço em banda larga dinâmica» e «instrumento de acesso integrado», ou «esqueleto ATM» e «protocolo IP de segurança de encaminhamento»; juro que nunca soube metade do significado daquelas tretas. Numa das mensagens; um tipo das vendas, de nome Griffin, que me chamava «figurão», gabava-se de ter vendido um par de dúzias de routers do meu sector; assegurara ao cliente que os instrumentos tinham uma certa característica — protocolos extra multicast para condução de imagens de vídeo — e sabia perfeitamente que faltara à verdade. Por isso, dizia que seria interessante que a característica fosse acrescentada ao produto, talvez nas duas semanas seguintes, antes de a encomenda ser satisfeita. «Pois, sonha com isso!» Uma chamada de confirmação do mesmo Griffin, cinco minutos depois da primeira, só para «saber notícias do protocolo multicast em que sabemos que estás a trabalhar», como se fosse eu quem se encarregasse do trabalho técnico propriamente dito. E a voz sincopada, importante, de um homem chamado Arnold Meacham, que se identificara como director de Segurança da Empresa, a pedir que eu fizesse o favor de «passar» pelo seu gabinete, logo que recebesse a chamada. Tirando o título, não fazia ideia de quem seria aquele Arnold Meacham. Nunca tinha ouvido aquele nome. Nem fazia ideia da localização da Segurança da Empresa. Engraçado, quando ouvi o recado o meu coração não começou a bater mais acelerado, como seria de esperar. Na verdade, a batida diminuiu de intensidade, como se o corpo sentisse que a caçada tinha começado. Parecia sentir algo de espiritual, a serenidade interior de saber que, fosse como fosse, não podia fazer nada. Quase me regalei com o momento. Durante uns minutos fiquei a olhar as paredes do meu cubículo, para o forro de tecido rugoso de poliéster que as forrava e parecia a cortina que ia de uma parede à outra no apartamento do meu pai. Mantinha as paredes livres de quaisquer marcas de ocupação humana — sem fotos da mulher ou dos miúdos (o que era fácil, dado que não tinha uma nem outros), sem cartazes Dilbert, nada de inteligente ou irónico que mostrasse que eu não vivia ali de livre vontade; era superior a essas coisas. Tinha uma estante, onde estava um protocolo e quatro grossas pastas negras, que continham a «literatura específica» do router MG-50K. Não iria sentir saudades deste cubículo. 19


Além disso, não era uma questão de estar à espera de ser abatido; pois pensava que já tinha sido abatido. Agora, era apenas uma questão de dispor do cadáver e de limpar as manchas de sangue. Recordo-me de leituras feitas na universidade sobre o aparecimento da guilhotina na História da França, da forma como o carrasco, um médico, se entregou àquela lúgubre experiência (cada um escolhe os estímulos que pode, penso eu). Uns segundos depois de a cabeça ter sido separada do corpo, o médico observou movimentos das pálpebras e espasmos dos lábios, até os olhos se fecharem e terem parado todos os movimentos. Então, chamou o homem morto pelo nome e os olhos do decapitado abriram-se e olharam para o carrasco. Mais uns segundos e os olhos voltaram a fechar-se; o médico voltou a chamar pelo nome, os olhos voltaram a abrir-se e olharam na direcção dele. Interessante. Trinta segundos depois de separada do corpo, a cabeça ainda reagia. Era assim que me sentia. A lâmina já tinha caído e eles estavam a chamar-me pelo nome. Levantei o auscultador, liguei para o gabinete de Arnold Meacham, informei a secretária de que ia a caminho e perguntei como é que conseguiria lá chegar. Como tinha a garganta seca passei pela sala de convívio para beber um refrigerante, dos que dantes eram de borla e agora custavam 50 cêntimos. A sala de convívio ficava longe, no meio do andar, perto da caixa dos elevadores; enquanto caminhava, um pouco aéreo, uns colegas deram comigo de frente e, embaraçados, voltaram a cabeça rapidamente. Observei o armário húmido dos refrigerantes, decidi não beber a minha habitual Diet Pepsi — naquela altura não precisava de mais cafeína — e tirei uma Sprite. Só para demonstrar a minha rebeldia, não deixei a moeda correspondente na caixa. Só para lhes mostrar! Abri a lata e dirigi-me para o elevador. Odiava o emprego, desprezava-o verdadeiramente e, por isso, perdê-lo não era uma desgraça muito grande. Por outro lado, não tinha nenhum fundo a que recorrer, precisava, sem dúvida, do dinheiro. Tudo se resume a isso, não é? No essencial, tinha vindo para cá para ajudar a pagar as despesas médicas do meu pai — do meu pai que me considerava um falhado. Em Manhattan, ao balcão de um bar, ganhava metade do dinheiro mas vivia melhor. Aqui estava a viver num estúdio degradado, ao nível da rua, na Pearl Street, que cheirava aos fumos de escape e cujas janelas estremeciam quando, às cinco da manhã, os camiões começavam a passar. É certo que podia sair umas noites por semana com os amigos, mas, mais ou menos uma semana 20


antes de o cheque mensal aparecer, como por magia, no dia 15 de cada mês, já eu costumava estar a viver, havia cerca de uma semana, à custa do crédito da conta-ordenado. Também não andava a roçar o rabo pelas paredes. Defendia-me. Trabalhava o mínimo de horas exigidas, entrava tarde e saía cedo, mas fazia o meu trabalho. Os números da minha análise de desempenho não eram grande coisa — eu era um «colaborador necessário», tinha dois traços, estava apenas um degrau acima de «colaborador medíocre», o nível em que se tem de começar a preparar a trouxa. Entrei no elevador, olhei para baixo, a ver como vinha vestido — calças pretas, de ganga, e um pólo cinzento, sapatilhas — e achei que teria sido melhor trazer gravata.

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Paranoia  

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