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Prólogo

São Francisco, à noite Entro no parque de estacionamento na esperança de escapar, mas os meus passos ecoam no chão de cimento liso, transmitindo a minha localização para quem estiver à escuta. E eu sei que eles estão à escuta! Quero ver se me lembro de não voltar a usar estes sapatos sempre que houver alguma possibilidade de me envolver numa perseguição. Começo a correr pela rampa da garagem acima sabendo que eles jamais conseguirão acompanhar-me. O som da minha respiração ofegante cobre agora o ruído dos meus passos. Atrás de mim não ouço nada. Paro de repente para ouvir com atenção. Uma pancada surda da porta de um carro a fechar-se, depois outra e um motor a ser posto em marcha. Tento prever-lhes os próximos passos enquanto procuro o carro de Daniel. Acabo por encontrá-lo – um bmw azul-escuro – eclipsado entre dois enormes suv.* Corro para o sedan de quatro portas acabadinho de polir e ponho a chave na fechadura. O guincho do alarme atinge-me como um murro no estômago. Por momentos fico sem fôlego. Esquecera-me do sistema de segurança. É que eu conduzo um Buick de doze anos de portas que se destrancam com o diabo de uma chave banal, como acontece com os carros normais! Tento desesperadamente parar o alarme com o comando à distância, até que consigo. Oiço o outro carro subindo a rampa do parque de esta Abreviatura de sport-utility vehicle (veículo utilitário desportivo). (NT )

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cionamento a passo de caracol só para me torturar! Finalmente, dou com o botão que destranca as portas.

Perseguição automóvel n.º 3 O incaracterístico Ford sedan passa pelo veículo que eu conduzo, dan­do-me tempo suficiente para sair do parque antes que me pudesse bloquear a saída ao fundo da rampa. Disparo para a rua com uma guinada brusca para a esquerda. Carrego no acelerador a fundo e deixo-me surpreender pela aceleração rápida, mas suave, deste automóvel de luxo. Apercebo-me, então, de que há outros motivos que levam as pessoas a comprar este tipo de carros para além da mera vaidade. Tento lembrar-me de não me habituar ao bem-bom. O velocímetro chega aos 80 km/h enquanto o diabo esfrega um olho. Deixei o Ford a cerca de cem metros de mim, mas este vai ganhando terreno. Abrando para os deixar aproximarem-se mais e, com uma guinada brusca para a direita, entro na Sacramento Street, mas eles já conhecem os meus truques e mantêm-se colados à minha traseira. Passo duas colinas a alta velocidade e o bmw, seguido pelo Ford, chega à baixa da cidade em tempo recorde. Olho para o indicador do combustível e calculo que ainda tenha o suficiente para uma hora a alta velocidade. Viro para a direita, entro por uma viela, atravesso a via para o outro lado e, com uma guinada para a esquerda, meto por uma rua de sentido único em contramão. Passo por dois carros, que apitam enquanto se atiram para a berma. Olho de relance pelo espelho retrovisor na esperança de ter ganho algum terreno, mas verifico que não os consegui sacudir da minha traseira. Acelero uma última vez ao passar pelo lado sul da Market Street, mais para me exibir do que para tentar escapar. Em seguida travo a fundo só para os chatear, para lhes lembrar que ainda sou eu quem controla a situação. Oiço o guinchar dos pneus do Ford, que pára a cerca de três metros do bmw. Desligo a ignição e retomo o fôlego antes de sair do carro como se nada fosse e dirijo-me ao Ford. Bato à janela do condutor. Passados alguns instantes, a janela abre-se. Ponho a mão no tejadilho do carro e inclino-me um pouco para lhes falar. – Mãe, pai, isto tem de acabar! 10


O interrogatório Parte 1

Setenta e duas horas depois A sala, sem janelas e escassamente mobilada, é iluminada pela luz monótona de uma simples lâmpada pendurada do tecto. Consigo descrever este espaço até de olhos fechados: uma mesa de madeira, lascada e com o verniz a descascar, com quatro cadeiras decrépitas à volta, um telefone de disco, um velho televisor e um leitor de cassetes de vídeo. Conheço bem esta sala. Perdi aqui horas da minha infância a responder por crimes que provavelmente cometi. Agora, aqui estou eu perante um homem que nunca vi, a responder por um crime de que nada sei, um crime que tenho até medo de imaginar. O homem sentado à minha frente é o inspector Henry Stone. O ins­ pector coloca um leitor de cassetes no centro da mesa e liga-o. Não consigo tirar-lhe bem a pinta: na casa dos quarenta, cabelo cortado à escovinha, grisalho, uma camisa de um branco imaculado e a gravata perfeita. Até se poderia considerar atraente, mas o seu profissionalismo gélido transmite a sensação de uma máscara. O fato parece demasiado caro para um funcionário do Estado e isso faz-me desconfiar. Mas também, desconfio de toda a gente... – Por favor, indique o seu nome e morada para o registo – pediu o inspector. – Isabel Spellman. Dezassete noventa e nove, Clay Street, São Francisco, Califórnia. – Por favor, indique a sua idade e data de nascimento. 11


– Tenho vinte e oito anos. Nasci a 1 de Abril de 1978. – Os seus pais são Albert e Olivia Spellman, correcto? – Sim. – Tem um irmão e uma irmã: David Spellman, trinta anos, e Rae Spellman, catorze, correcto? – Sim. – Por favor, indique a sua profissão e presente entidade patronal para o registo. – Sou detective privada licenciada e trabalho para a Spellman Investigations, a firma de detectives privados dos meus pais. – Quando é que começou a trabalhar para a Spellman Investigations? – indagou Stone. – Há cerca de dezasseis anos. Stone consulta as suas notas e olha para o tecto, perplexo. – Está a dizer-me que começou a trabalhar para uma firma de detectives privados aos doze anos, é isso? – Exactamente – respondi. – Menina Spellman, comecemos pelo princípio – sugeriu Stone. Não posso indicar com precisão o momento em que tudo começou, o que posso afirmar com toda a certeza é que não foi há três dias, uma semana, um mês ou sequer um ano. Para se compreender verdadeiramente o que aconteceu com a minha família é preciso começar pelo princípio e isso foi há muito, muito tempo.

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Os_Ficheiros_Spellman