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Tradução de Maria Emília Ferros Moura

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www.oficinadolivro.pt © 2010, Oficina do Livro, Sociedade Editorial, Lda. uma empresa do grupo LeYa Rua Cidade de Córdova, 2 2610-038 Alfragide Tel.: 210 417 410, Fax: 214 717 737 E-mail: info@oficinadolivro.leya.com Título original: Les Malheurs de Sophie Tradução: Maria Emília Ferros Moura Revisão: Silvina de Sousa Paginação: Maria João Gomes Capa: Neusa Dias / Oficina do Livro sobre ilustração de Patrícia Furtado Impressão e acabamento: Rolo & Filhos II, S.A. 1.ª edição: Novembro de 2010 3.ª edição: Janeiro de 2012 ISBN: 978-989-555-535-2 Depósito legal: 338750/12


À MINHA NETA ELISABETH FRESNAU

Dizes-me, muitas vezes, querida filha: «Oh! avozinha, sou tão sua amiga! A avó é tão boa!» A avó não foi sempre boa; corrigiu-se, o que acontece a muitas crianças endiabradas. Aqui vais encontrar histórias verdadeiras de uma menina que eu conheci quando era pequena. Tinha mau génio, e tornou-se meiga; era gulosa, e tornou-se comedida; era mentirosa, e nunca mais mentiu; era ladra, e fez-se honesta; numa palavra, era má, e fez-se boa. A tua avó procurou fazer o mesmo. Façam como ela. Será fácil, meus queridos, uma vez que não têm os defeitos de Sofia. CONDESSA DE SÉGUR nascida ROSTOPCHINE

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1 A BONECA DE CERA − Venha depressa, venha depressa − disse, um belo dia, Sofia, entrando a correr no quarto da criada. − Ajude-me a abrir uma caixa que o papá me mandou de Paris. Acho que é a boneca de cera que ele me tinha prometido. A CRIADA Onde está a caixa? SOFIA Está lá dentro; venha depressa, por amor de Deus! A criada pousou a costura em que trabalhava e seguiu Sofia. Uma caixa de madeira branca estava em cima de uma cadeira; a criada abriu-a. Dentro, via-se a cabeça loira e encaracolada de uma linda boneca de cera. Sofia soltou um grito de alegria e quis logo pegar na boneca, ainda embrulhada em várias camadas de papel.

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A CRIADA Tenha cuidado, menina! Não puxe por enquanto, olhe que vai partir tudo. A boneca ainda está presa por cordéis. SOFIA − Parta-os, arranque-os... Depressa, quero a minha boneca. A criada, em vez de arrancar os fios, pegou numa tesoura e cortou-os; a seguir, desembrulhou os papéis, e Sofia pôde então pegar na mais linda boneca que alguma vez vira. Tinha as faces rosadas, com duas covinhas; os olhos azuis e brilhantes. O pescoço, o peito e os braços eram de cera, encantadores e rechonchudos. O seu vestido não podia ser mais simples, de cambraia recortada, com um cinto azul; calçava meias brancas e sapatinhos de verniz pretos. Sofia beijou-a mais de vinte vezes, pegou nela ao colo e pôs-se a dançar e a cantar. O seu primo Paulo, que tinha cinco anos e estava a passar uns dias de visita em casa de Sofia, acorreu ao ouvir-lhe os gritos de alegria. − Olha, Paulo, vê a linda boneca que me mandou o papá! − exclamou Sofia.

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PAULO Dá-ma cá, para eu a ver melhor. SOFIA Não, és capaz de a partir. PAULO Não parto, está descansada. Devolvo-ta já. Sofia deu a boneca ao primo, recomendando-lhe por mais de uma vez que tivesse muito cuidado e não a deixasse cair. Paulo olhou para ela e tornou a observá-la de todos os ângulos; depois entregou-a a Sofia, ao mesmo tempo que abanava a cabeça. SOFIA Porque abanas a cabeça? PAULO Porque não é uma boneca sólida. Receio bem que dês cabo dela em pouco tempo.

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SOFIA Oh! Podes ficar descansado! Hei-de ter tanto, mas tanto cuidado com ela, que isso não vai acontecer. Nunca a estragarei. Vou pedir à mamã que convide a Camila e a Madalena para almoçarem connosco. Quero que elas vejam a minha linda boneca. PAULO Olha que ainda te partem a boneca... SOFIA Não, elas são demasiado boazinhas para me darem esse desgosto. No dia seguinte, Sofia penteou e vestiu a boneca, enquanto esperava pelas amigas. Fitando a boneca, esta pareceu-lhe um pouco pálida. «Talvez esteja com frio», disse ela com os seus botões. «Tem os pés gelados. Vou pô-la ao sol, para que as minhas amigas vejam o cuidado que tenho com a minha boneca, e como a mantenho quentinha.» Sofia foi pôr a boneca ao sol, à janela da sala. − O que estás a fazer ao pé da janela, Sofia? − perguntou-lhe a mãe.

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SOFIA Estou a aquecer a minha boneca, mamã. Ela está cheiinha de frio. A MÃE Tem cuidado. Olha que a boneca ainda se derrete. SOFIA Oh! mamã, não tenha medo, ela é dura como pedra. A MÃE Sim, mas o calor amolece-a. Vai acontecer-lhe uma desgraça, desde já te aviso. Sofia não fez caso das palavras da mãe e deixou a boneca ali estendida ao sol, por sinal num dia quentíssimo. Nesse mesmo instante, ouviu as rodas de um carro; eram as amigas que chegavam. Correu ao encontro delas, enquanto Paulo já as esperava junto do portão. Entraram a correr e a falar as duas ao mesmo tempo. Apesar de estarem ansiosas por ver a boneca, as meninas começaram por cumprimentar a senhora de Réan, mãe de Sofia; em seguida aproximaram-se de Sofia, que

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mantinha a boneca ao colo, sem deixar de olhar para ela, profundamente consternada. MADALENA, fitando a boneca A boneca é cega, não tem olhos. CAMILA Que pena! Era tão bonita. MADALENA Mas como foi que ela cegou? De certeza que tinha olhos! Sem dizer uma palavra, Sofia chorava apenas, de olhos postos na boneca. A SENHORA DE RÉAN Eu bem te disse, Sofia, que aconteceria uma desgraça à boneca, se teimasses em deixá-la exposta ao sol. Felizmente, a cabeça e os braços não tiveram tempo de derreter. Vamos, não chores; eu sou uma médica com experiência nestes casos e vou tratar de devolver o olhar à boneca.

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SOFIA, sem deixar de chorar É impossível, mamã, pois se os olhos dela desapareceram! A senhora de Réan pegou na boneca, sorrindo, e sacudiu-a; ouviu-se qualquer coisa a chocalhar-lhe na cabeça. − São os olhos que fazem este barulho, estás a ouvir? − disse a senhora de Réan. − A cera derreteu-se em volta dos olhos e eles caíram. Vou ver se os consigo arranjar. Dispam a boneca, minhas filhas, enquanto eu trato do que é preciso para proceder à operação! Paulo e as três meninas precipitaram-se sobre a boneca e tiraram-lhe a roupa. Sofia já não chorava; esperava, impaciente, para ver o que ia acontecer. Quando a mamã voltou, pegou na tesoura e descoseu o corpo da boneca; os olhos caíram-lhe no regaço; ela pegou neles com uma pinça, colocou-os no devido lugar, e, para que não tornassem a cair, deitou-lhes uns pingos de cera derretida que trouxera numa caçarola. Esperou uns minutos até a cera arrefecer, e, em seguida, voltou a coser o corpo da boneca. As meninas não se tinham mexido. Sofia seguia, receosa, todas aquelas operações, com medo do resultado. Porém, quando viu a boneca consertada, tão bonita como dantes, saltou ao pescoço da mamã, e desatou a dar-lhe beijinhos. − Obrigada, minha querida mamã − dizia ela. − Agradeço muito. Na próxima vez ouvirei com atenção o que me disser.

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As crianças voltaram a vestir rapidamente a boneca e, sentando-a numa cadeirinha, levaram-na a passear em triunfo, cantando: Viva a mamã! Quero-a beijar, beijar. Viva a mamã! O anjo bom do lar. A boneca durou muito tempo, querida e bem tratada, mas pouco a pouco foi perdendo os seus encantos. Vejamos como isso aconteceu. Um dia, Sofia pensou que, já que as crianças tomam banho, as bonecas também deviam tomá-lo. Arranjou água, uma esponja, sabonete e pôs-se a lavar a boneca com tanto entusiasmo, que a deixou sem cor; as faces e os lábios ficaram descorados, como se ela estivesse doente, e assim permaneceram. Sofia chorou, mas a boneca ficou pálida para sempre. De outra vez, Sofia lembrou-se de lhe frisar os cabelos. Pôs-lhes papelotes e passou-os com um ferro quente, para que ficassem bem frisados. Infelizmente, o ferro aqueceu de mais; quando o levantou da cabeça da boneca, os cabelos vieram agarrados. Sofia queimara-os e a pobrezinha estava calva. Sofia chorou, mas a boneca ficou careca. Houve outro dia em que Sofia, que se preocupava muito com a educação da sua boneca, meteu na cabeça ensinar-lhe a fazer ginástica. Suspendeu-a pelos braços numa guita. Resultado: a boneca, que não estava bem segura, caiu e partiu um braço. A mamã consertou-o,

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mas, como faltavam bocados, o braço ficou mais curto do que o outro. Sofia chorou; porém, nada havia a fazer. Noutra ocasião, Sofia pensou que um banho aos pés devia fazer bem à sua boneca, visto que fazia bem às pessoas crescidas. Deitou água a ferver numa bacia e mergulhou nela os pés da boneca. Quando os tirou lá de dentro, estavam derretidos. Sofia chorou, mas a boneca ficou sem pés. Depois de tantas desgraças, Sofia deixou de gostar da boneca, que estava medonha e era alvo da troça de todas as amigas. Por fim, Sofia quis ensinar a boneca a trepar às árvores; fê-la subir a um ramo e sentar-se. Contudo, a boneca, que não estava bem segura, caiu; a cabeça bateu numa pedra e desfez-se em mil bocados. Sofia não chorou; em vez disso, convidou as amigas para sua casa e, juntas, enterraram a boneca.

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