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PRÓLOGO

Fecha os olhos e concentra-te na escuridão. Era este o conselho que o meu pai me dava, quando era pequena e não conseguia adormecer. Acho que agora ele não quereria que eu fizesse isso, mas, de qualquer das formas, dediquei-me plenamente à tarefa. Estou concentrada nessa escuridão imensa que se estende muito para além das minhas pálpebras fechadas. Apesar de estar deitada no chão, imóvel, sinto-me como se estivesse empoleirada no ponto mais alto em que pudesse estar, a tentar agarrar uma estrela no céu nocturno, com as pernas a balouçar por cima do vazio negro e frio. Olho uma última vez para os dedos que envolvem a luz e liberto-a. Então desço, primeiro a cair, depois a flutuar, e a cair novamente, e espero pela aterragem da minha vida. Sei agora, tal como sabia quando era aquela miúda que lutava contra o sono, que, por trás da tela de gaze das pálpebras fechadas, a cor espreita. Provoca-me, desafia-me a abrir os olhos e a perder o sono. Cintilações de vermelho e laranja, amarelo e branco, pontilham a minha escuridão. Recuso-me a abrir os olhos. Revolto-me e fecho as pálpebras com toda a força, para impedir os grãos de luz de entrar, meras distracções que nos mantêm acordados, mas também um sinal de que há vida além da escuridão. Mas não há vida em mim. Nenhuma vida que consiga sentir, de onde estou caída, no fundo das escadas. Agora o coração bate mais depressa, o lutador solitário que ficou sozinho no ringue, uma luva de boxe vermelha a abanar vitoriosamente no ar, recusando-se a desistir. 11


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É a única parte de mim que se importa, a única parte que alguma vez se importou. Luta para bombear sangue pelo corpo, para o curar, para substituir o que estou a perder. Mas tudo abandona o meu corpo assim que é bombeado, formando um profundo oceano negro em volta do sítio onde caí. Apressados, apressados, apressados. Estamos sempre apressados. Nunca temos tempo suficiente aqui, estamos sempre a tentar dirigir-nos para além. Precisava de ter saído daqui há cinco minutos, preciso de estar além agora. O telefone toca outra vez e reconheço a ironia. Podia ter-me demorado e atendê-lo agora. Agora, não nessa altura. Podia ter-me demorado todo o tempo do mundo em cada um desses passos. Mas estamos sempre apressados. Todos, menos o meu coração. Esse abranda. Não me importo muito. Ponho a mão sobre a barriga. Se perdi a criança, e suspeito que foi o que aconteceu, reunir-me-ei a ela além. Além... onde? Onde quer que seja. A criança; uma palavra sem coração. Ele ou ela, tão jovem; em quem se iria tornar, ainda uma pergunta. Mas além, cuidarei dela. Além, não aqui. Dir-lhe-ei «desculpa, meu amor, desculpa ter destruído as tuas hipóteses, a minha hipótese — a nossa hipótese de uma vida em conjunto. Mas fecha os olhos e concentra-te na escuridão agora, como a Mamã está a fazer, e juntas encontraremos o nosso caminho». Oiço um barulho no quarto e sinto uma presença. — Oh meu Deus, Joyce, oh meu Deus. Consegues ouvir-me, amor? Oh meu Deus. Oh meu Deus. Por favor, não, Deus Todo-Poderoso, a minha Joyce não, não leves a minha Joyce. Aguenta, amor, estou aqui. O pai está aqui. Não quero aguentar e tenho vontade de lhe dizer isso mesmo. Oiço-me a gemer, um queixume semelhante ao de um animal, que me choca e me assusta. Tenho um plano, quero dizer-lhe. Quero ir, só assim posso ficar com o meu bebé. Então, não agora. Ele impediu que continuasse a cair, mais ainda não aterrei. Em vez disso, ajuda-me a equilibrar-me sobre o nada, a pairar enquanto sou obrigada a tomar a decisão. Quero continuar a cair, mas ele está a chamar a ambulância e a agarrar-me na mão com tamanha ferocidade que parece que é ele quem está a lutar pela vida. Como se eu fosse tudo o que ele tem. Afasta-me o cabelo da testa e chora convulsivamente. Nunca o ouvi chorar. Nem sequer quando a minha mãe 12


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morreu. Agarra-se à minha mão com toda a força que nunca soube que o seu velho corpo tinha e lembro-me que sou tudo o que ele tem e que ele, uma vez mais, tal como antes, é todo o meu mundo. O sangue continua a fluir depressa através do meu corpo. Apressado, apressado, apressado. Estamos sempre apressados. Talvez esteja a apressar-me outra vez. Talvez ainda não seja a altura de me ir. Sinto a pele dura de mãos velhas a apertarem as minhas, e a sua insistência e familiaridade obrigam-me a abrir os olhos. A luz enche-os e vejo o rosto dele de relance, uma expressão que nunca mais quero voltar a ver. Agarra-se ao bebé dele. Sei que perdi o meu. Não posso deixar que ele perca o dele. Ao tomar a minha decisão, começo já a fazer o luto. Agora já aterrei, a aterragem da minha vida. E, ainda assim, o meu coração continua a bater. Mesmo partido, continua a bater.

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Um MĂŞs Antes


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UM

— A transfusão de sangue — anuncia a Dra. Fields, do pódio de uma sala de conferências, no edifício da Faculdade de Arte do Trinity College — é o processo de transferir sangue, ou produtos derivados do sangue, de uma pessoa para o sistema circulatório de outra. As transfusões de sangue podem tratar problemas médicos, como grandes perdas de sangue devido a um traumatismo, a cirurgia, ou a um choque, e também nos casos em que o mecanismo de produção de glóbulos vermelhos deixa de funcionar. «Os factos são estes: na Irlanda, são precisas três mil doações de sangue por semana. Só três por cento da população irlandesa são doadores e fornecem sangue a uma população de quase quatro milhões de pessoas. Uma em cada quatro pessoas precisará de sangue numa altura qualquer. Agora, olhem em volta da sala. Quinhentas cabeças viram-se, primeiro para a esquerda, depois para a direita, e depois olham em volta. Risinhos de desconforto quebram o silêncio. A Dra. Fields levanta a voz acima da confusão. — Pelo menos cento e cinquenta das pessoas presentes nesta sala irão precisar de uma transfusão de sangue a dada altura nas suas vidas. Aquilo cala-os. Alguém levanta a mão. — Sim? — De quanto sangue é que um paciente precisa? — Qual é o comprimento de um cordel, idiota? — troça uma voz vinda do fundo, e uma bola de papel amarfanhado voa em direcção à cabeça do jovem que fez a pergunta. 17


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— É uma pergunta muito pertinente. — Franze os olhos em direcção à escuridão, incapaz de ver os alunos devido ao reflexo da luz do retroprojector. — Quem fez a pergunta? — O senhor Dover — responde alguém, da extremidade oposta da sala. — Estou certa de que o senhor Dover pode responder por si mesmo. Qual o seu nome próprio? — Ben — responde o rapaz, em tom de desalento. A sala explode de riso. A Dra. Fields suspira. — Ben, obrigada por teres perguntado isso; e, quanto ao resto de vocês, não existem perguntas estúpidas. É precisamente para isso que serve a Semana do Sangue para a Vida. Serve para fazerem todas as perguntas que quiserem, para aprenderem tudo o que precisam de saber sobre transfusões de sangue antes de, eventualmente, darem sangue hoje, amanhã, nos restantes dias da semana, aqui na faculdade, ou talvez a intervalos regulares, no futuro. A porta principal abre-se e um feixe de luz infiltra-se na escuridão da sala de conferências. Justin Hitchcock entra, a expressão de concentração do rosto dele iluminada pelo raio de luz branca do retroprojector. Debaixo de um dos braços segura vários dossiês, todos eles a ponto de escorregar para o chão. Um joelho levanta-se rapidamente para impedir que caiam. Na mão direita segura uma pasta atulhada até cima e, num equilíbrio periclitante, um copo de plástico com café. Lentamente, leva o pé que tinha erguido até ao chão, como se estivesse a fazer um movimento de t’ai chi, e um sorriso de alívio insinua-se-lhe no rosto à medida que retoma a calma. Alguém se ri à socapa e o acto de equilíbrio volta a ficar em risco. Calma, Justin. Afasta os olhos do copo e avalia a situação. Mulher no pódio, quinhentos miúdos. Todos a olhar para ti. Diz qualquer coisa. Qualquer coisa inteligente. — Estou baralhado — anuncia Justin para a escuridão, atrás da qual pressente que há alguma espécie de forma de vida. Há na sala pessoas que usam o Twitter e sente que todos os olhos estão postos nele, enquanto retrocede em direcção à porta para verificar o número. Não entornes o café. Não entornes a bodega do café. Abre a porta, deixando entrar mais uns raios de luz, e os alunos que estão no percurso do feixe luminoso tapam os olhos. Twitter, twitter, não há nada mais engraçado que um homem perdido. 18


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Carregado de tralha, consegue manter a porta aberta com a ajuda da perna. Volta a olhar para o número inscrito na parte de fora da porta e depois olha novamente para a folha que tem na mão, a folha que, se não agarrar nesse preciso momento, vai escorregar para o chão. Faz um movimento para agarrar a folha. Mão errada. O copo de plástico com café cai ao chão. Seguido de perto pela folha de papel. Raios! Lá vão eles outra vez, twitter, twitter. Não há nada mais engraçado que um homem perdido que entornou o café e deixou cair o horário. — Posso ajudá-lo? — A oradora desce do pódio. Justin volta a trazer todo o corpo para dentro da sala de aula e a escuridão regressa. — Bem, está aqui escrito... ou seja, estava ali escrito — diz, acenando com a cabeça em direcção à folha ensopada caída no chão —, que vou dar uma aula aqui, agora. — As inscrições dos alunos internacionais são na sala de exames. Justin franze o sobrolho. — Não... Eu... — Peço desculpa — diz a Dra. Fields, aproximando-se. — Pareceu-me ouvir um sotaque americano. — Apanha o copo de plástico e atira-o para o cesto dos papéis, por cima do qual está afixado o aviso «É proibido trazer bebidas para a sala». — Ah... oh... peço desculpa por isso. — A sala dos alunos adultos é na porta ao lado — informa, e acrescenta, num murmúrio: — Acredite em mim, não quer juntar-se a esta turma. Justin pigarreia e endireita as costas, apertando as pastas com mais força debaixo do braço. — Na verdade, sou professor da disciplina de História da Arte e Arquitectura. — É professor? — Professor convidado. Não parece verdade, mas é — explica, soprando uma madeixa de cabelo da testa transpirada. Cortar o cabelo, lembra-te de cortar o cabelo. Lá estão eles outra vez, twitter, twitter. Um professor perdido, que entornou o café, deixou cair o horário, está prestes a deixar cair as pastas e precisa de cortar o cabelo. Decididamente, não há nada mais engraçado. — Professor Hitchcock? — O próprio — responde, sentindo as pastas a escorregar de debaixo do braço. — Oh, peço imensa desculpa — murmura a Dra. Fields. — Não fazia ideia... — acrescenta, apanhando uma das pastas prestes a cair. — Sou a doutora Sarah Fields, do Serviço Irlandês de Transfusões de 19


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Sangue. O Conselho Directivo disse-me que podia passar meia hora com os alunos antes da sua aula, com a sua permissão, evidentemente. — Ah, bem, ninguém me informou, mas não há qualquer «problemo». — «Problemo»? Abana a cabeça de si para si e dirige-se para a porta. Cafetaria, aqui vou eu. — Professor Hitchcock? Justin pára junto da porta. — Diga. — Gostaria de se juntar a nós? Garantidamente, não gostaria. Há um café com leite e um queque de canela à minha espera. Não. Limita-te a dizer que não. — Huum ... nn–sim. — «Nsim?» — Quero dizer, sim. Twitter, twitter, twitter. Professor apanhado em falso. Obrigado, por uma mulher jovem e atraente, que veste uma bata branca e que diz ser médica numa organização desconhecida cujo nome são iniciais, a fazer uma coisa que, claramente, não queria fazer. — Óptimo. Bem-vindo. A Dra. Fields volta a colocar as pastas debaixo do braço de Justin e regressa ao pódio para falar com os alunos. — Está bem, atenção, toda a gente. Voltamos à pergunta inicial sobre as quantidades de sangue. A vítima de um acidente de automóvel pode precisar de até trinta unidades de sangue. Uma úlcera hemorrágica pode precisar de algo entre três e trinta unidades de sangue. Um bypass da artéria coronária pode usar entre uma e cinco unidades de sangue. Varia muito, mas sendo necessárias quantidades tão grandes, já conseguem perceber porque é que queremos sempre mais dadores. Justin senta-se na primeira fila e ouve, horrorizado, o debate a que se juntou. — Alguém tem perguntas? Pode mudar de assunto? — As pessoas são pagas por dar sangue? Mais gargalhadas. — Lamento, mas neste país não. — A pessoa que recebe o sangue sabe quem é o dador? — Normalmente os dadores permanecem anónimos para quem recebe o sangue, mas é sempre possível rastrear individualmente os produtos existentes num banco de sangue através do ciclo de doação, ensaio, separação em componentes, armazenamento e administração ao recipiente. — Qualquer pessoa pode dar sangue? 20


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— É uma boa pergunta. Trouxe comigo uma lista de contra-indicações no que respeita a ser dador de sangue. Estudem-na todos atentamente e, se quiserem, tomem notas. — A Dra. Fields coloca a folha sob o projector e a bata branca ilumina-se com uma imagem bastante gráfica de alguém que precisa urgentemente de uma doação. Depois afasta-se e a imagem enche o ecrã colocado na parede. Algumas pessoas gemem e a palavra «nojento» espalha-se pelas cadeiras do auditório como uma onda mexicana. Passa por Justin duas vezes. É acometido por tonturas e desvia os olhos da imagem. — Oops, não é esta folha — diz a Dra. Fields alegremente, substituindo-a lentamente pela lista prometida. Extremamente esperançoso, Justin percorre a lista em busca de fobia a sangue ou a agulhas, num esforço de se auto-eliminar como possível dador de sangue. Mas não tem sorte nenhuma — de qualquer modo, não interessa, dado que as hipóteses de ele dar uma gota que seja de sangue a alguém são tão escassas quanto as ideias quando acorda. — Azar, Dover. — Outra bola de papel amarfanhado aparece a voar da parte de trás do auditório e atinge novamente a cabeça de Ben. — Os homossexuais não podem dar sangue. Ben levanta tranquilamente dois dedos. — Isso é discriminação — grita uma rapariga. — E também é uma discussão para outro dia — responde a Dra. Fields, prosseguindo. — Lembrem-se, o vosso corpo substituirá a parte líquida do sangue doado no espaço de vinte e quatro horas. Dado que uma unidade de sangue equivale a quase meio litro e dado que todos as pessoas têm cerca de quatro a seis litros de sangue no corpo, uma pessoa normal pode perfeitamente dar-se ao luxo de dispensar um litro. Ouvem-se vários risos juvenis em resposta à insinuação. — Atenção, todos, por favor. — A Dra. Fields bate palmas, tentando desesperadamente captar a atenção deles. — A Semana do Sangue para a Vida prende-se com a educação das pessoas, tanto quanto com a doação de sangue. É muito bonito podermos estar aqui a rir do assunto e a brincar com ele, mas agora parece-me que é importante salientar que, neste preciso momento, a vida de alguém, seja de um homem, uma mulher ou uma criança, pode depender da vossa ajuda. A turma fica rapidamente em silêncio. Até Justin pára de falar consigo mesmo.

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— Professor Hitchcock. — A Dra. Fields aproxima-se de Justin, que está a organizar as notas dele no pódio, enquanto os alunos fazem um intervalo de cinco minutos. — Por favor, trate-me por Justin, doutora. — Nesse caso, por favor trate-me por Sarah — responde, estendendo a mão. Muito — Prazer em conhecê-la, Sarah. — Queria só certificar-me de que nos veremos mais tarde? — Mais tarde? — Sim, mais tarde. No sentido de... depois da sua aula — explica Sarah, sorrindo. Está a namoriscar? Já passou tanto tempo, como é que posso ter a certeza? Fala, Justin, fala. — Excelente. Um encontro seria excelente. Sarah aperta os lábios para esconder um sorriso. — Está bem, encontramo-nos na entrada principal às seis horas e eu própria o levo lá. — Leva-me lá, onde? — Ao sítio onde temos instalada a unidade de recolha de sangue. É ao lado do campo de râguebi, mas prefiro ser eu a levá-lo lá pessoalmente. — A unidade de recolha de sangue... — Fica imediatamente tomado de pânico. — Ah, não me parece que... — E depois vamos tomar um copo a seguir? 22


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— Sabe que mais? Estou a recuperar de uma constipação, por isso acho que não sou elegível para ser doador — declara, afastando as mãos e encolhendo os ombros. — Está a tomar antibiótico? — Não, mas parece-me boa ideia, Sarah. Talvez devesse tomar... — E esfrega a garganta. — Oh, acho que vai ficar bom — contrapõe ela, sorrindo maliciosamente. — Não, não está a perceber, ultimamente tenho estado em contacto com doenças extremamente infecciosas. Malária, varíola, o conjunto completo. Estive numa região muito tropical. — Pensa na lista das contra-indicações. — E o meu irmão, Al? Bem, ele é leproso. — Desculpa esfarrapada, esfarrapada, esfarrapada. — Não me diga. — Sarah levanta uma sobrancelha e, apesar de Justin lutar com todas as suas forças, não consegue evitar um sorriso. — Há quanto tempo é que saiu dos Estados Unidos? Pensa bem, esta pergunta pode trazer água no bico. — Mudei-me para Londres há três meses — responde finalmente, dizendo a verdade. — Ah, então está cheio de sorte. Se tivesse sido há dois meses, não seria elegível. — Espere, espere, deixe-me pensar... — Coça o queixo e finge grande concentração, murmurando aleatoriamente os meses do ano em voz alta. — Talvez tenha sido há dois meses. Se contar para trás a partir da altura em que cheguei... — Detém-se, enquanto conta os dedos em silêncio e olha para o infinito com uma expressão concentrada. — Está com medo, professor Hitchcock? — pergunta Sarah com um sorriso. — Medo? Não! — Atira a cabeça para trás e dá uma gargalhada. — Mas já lhe disse que tenho malária? — Suspira perante a incapacidade dela para o levar a sério. — Bem, parece-me que esgotei as ideias. — Encontramo-nos na entrada às seis. Ah, e não se esqueça de comer qualquer coisa antes. — Claro, porque vou estar esfomeado antes do meu encontro com uma agulha homicida gigantesca — murmura Justin enquanto a vê afastar-se. Os alunos começam a entrar novamente no auditório e Justin tenta esconder o sorriso de prazer que lhe ilumina o rosto, apesar dos sentimentos contraditórios. Por fim, a turma inteira está na sala. 23


Obrigada_pelas_Recordacoes