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PRIMEIRA PARTE Hoje em dia, as pessoas sabem o preรงo de tudo e o valor de nada. OSCAR WILDE, O Retrato de Dorian Gray


CAPÍTULO UM

A FALHA

Now I a fourfold vision see, And a fourfold vision is given to me; ’This fourfold in my supreme delight, And threefold in soft Beulah’s night, And twofold Always. May God us keep From Single vision, & Newton’s sleep! WILLIAM BLAKE, Poems from Letters*

Se a guerra foi a forma encontrada por Deus para ensinar geografia aos Americanos, a recessão é a Sua maneira de ensinar uns rudimentos de economia a toda a gente. O grande descalabro do sector financeiro mostrou que os mais brilhantes cérebros do planeta, apoiados em alguns dos bolsos mais fundos que existem, não conseguiram construir um mecanismo ágil de prosperidade permanente e, pelo contrário, brindaram-nos com uma palhaçada de negociatas, de trocas e de resultados fictícios que, inevitavelmente, se desfez em pedaços. A recessão não foi provocada por um défice de conhecimento económico; teve uma causa muito específica: o excesso do espírito do capitalismo. O deslumbramento do mercado livre cegou-nos para outras formas de ver o mundo. Como Oscar Wilde escreveu há mais de um século: «Hoje em dia, as pessoas *

Agora enxergo os quatro quadrantes, / Foi-me concedida a visão universal; / Esta visão universal é o meu deleite, / E também sonho, de dia ou de noite, / E nunca deixo de olhar a Natureza. E que Deus nos defenda / Da visão racional e do sono de Newton!

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sabem o preço de tudo e o valor de nada.» Os preços revelaram-se guias pouco fiáveis: o colapso financeiro de 2008 aconteceu no mesmo ano em que se registaram crises do preço do petróleo e de géneros alimentares e, no entanto, parecemos incapazes de avaliar o nosso mundo sem ser através do prisma defeituoso dos mercados. Um facto é evidente. A forma de pensar que nos meteu nesta trapalhada não parece capaz de nos tirar dela. Algumas pessoas sentirão um certo consolo ao saberem que muitos dos pensadores mais respeitados ficaram perplexos perante as deficiências dos seus pressupostos. A mais dolorosa admissão de ignorância foi, provavelmente, a que aconteceu numa sala apinhada, perante a Comissão de Controlo e Reforma do Estado da Câmara dos Representantes, a 23 de Outubro de 2008, quando Alan Greenspan reconheceu o fracasso da sua visão do mundo. Enquanto presidente da Reserva Federal dos EUA, Greenspan foi um dos legisladores reconhecidos da economia mundial durante dezanove anos. Membro encartado da brigada do mercado livre, era grande admirador de Ayn Rand, que, embora muito pouco conhecida fora dos EUA, continuou a ser influente para além de 1982, ano em que faleceu. O seu livro Atlas Shrugged, de 1957, em que heróicos figurões dos negócios combatem o flagelo dos funcionários públicos e dos dirigentes sindicais, voltou à lista dos livros mais vendidos. Considerando o altruísmo como «canibalismo moral», Rand foi a propagandista da escola que propunha um extremado mercado livre libertário, a que chamou «objectivismo». Atraído para o círculo de Rand por esta filosofia apaixonada, Greenspan ganhou o epíteto de «Gato-Pingado» pelo seu comportamento lúgubre e pela sua maneira de vestir. Quando enveredou por uma carreira no serviço público, foi como se um hippie resolvesse alistar-se nos Marines, um passo em falso que os antigos amigos nunca lhe perdoariam. Apesar disso, Greenspan permaneceu em grande parte fiel à filosofia de Rand, continuando a acreditar que o egoísmo nos iria conduzir ao melhor dos mundos possíveis e que quaisquer restrições nos levariam ao desastre. Greenspan foi convocado pelo Congresso dos EUA em finais de 2008, a fim de opinar acerca da crise financeira. A sua carreira na Reserva Federal fora longa e apreciada, pelo que o Congresso queria 12


saber o que tinha corrido mal. Ao iniciar a leitura do testemunho, Greenspan parecia exausto, o queixo papudo metido para dentro, como se o vigor que costumava mantê-lo tenso estivesse totalmente gasto. Mas entrou descontraído. Na primeira volta, tomou como alvo a informação com que tivera de trabalhar. Se a informação fosse correcta, os modelos económicos teriam funcionado e as previsões seriam melhores. Nas suas palavras: Um especialista recebeu o Prémio Nobel pela descoberta do modelo de determinação do valor que está subjacente ao avanço dos mercados de derivados. Este moderno paradigma da gestão de risco aguentou-se durante décadas. Contudo, todo o edifício intelectual se desmoronou no Verão do ano passado porque, em termos gerais, os dados inseridos nos modelos de gestão de risco cobriam apenas as duas décadas mais recentes, um período de euforia. Se, em vez disso, os modelos tivessem sido alimentados de forma mais apropriada, incluindo períodos de tensão económica, as exigências de capital teriam sido mais elevadas e o mundo financeiro estaria hoje em melhor situação, segundo a minha análise.1

É o argumento da informática, segundo o qual «se entra lixo, sai lixo» (garbage in, garbage out). O modelo funcionou perfeitamente, mas os parâmetros sobre riscos e dados baseados apenas nos anos bons eram incorrectos, pelo que os resultados também tinham de estar errados. A sombra negra de Greenspan no debate, Henry Waxman, obrigou-o a aprofundar as suas conclusões, nesta notável troca de argumentos: WAXMAN. A questão que tenho para si é a seguinte: o senhor tem uma ideologia, acredita no mercado livre e na concorrência — vejamos o seu testemunho: «Tenho uma ideologia. Penso que os mercados livres e competitivos são, de longe, a única forma de organização das economias. Tentámos a regulação, mas nada funcionou aceitavelmente». A citação é sua. O senhor dispunha de autoridade para pôr termo às práticas irresponsáveis de concessão de crédito que conduziram à crise das hipotecas subprime. Foi aconselhado a fazê-lo por muitas outras pessoas. E agora é toda a nossa economia que tem de pagar o preço. Sente que a sua ideologia o levou a tomar decisões que gostaria de não ter tomado? GREENSPAN. Bem, mas devemos recordar o que é uma ideologia. É um quadro conceptual com [sic] a forma como as pessoas lidam com a reali-

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dade. Toda a gente tem uma. O senhor tem uma. Para viver, precisamos de uma ideologia. A questão é saber se ela é correcta ou não é. O que tenho a dizer-lhe é, sim, eu notei a falha, não sei até que ponto ela é significativa ou permanente, mas senti-me muito angustiado com esse facto. WAXMAN. O senhor descobriu uma falha? GREENSPAN. Descobri uma falha no modelo, que pensei ser a estrutura crucial que define, digamos, o modo como o mundo funciona. WAXMAN. Por outras palavras, descobriu que a sua visão do mundo, a sua ideologia, não era correcta, que não funcionava. GREENSPAN. Precisamente. É essa precisamente a razão por que me senti chocado, porque durante quarenta anos, ou mais, encontrei numerosas provas de que ela funcionava excepcionalmente bem.

Para sermos claros quanto a essa falha, diremos que não se tratava de um pequeno problema de dados de má qualidade. Também não era um problema imprevisível, aquilo a que Nassim Taleb chama um «Cisne Negro», um problema resultante de não ter sido levado em linha de conta um acontecimento altamente improvável que, a acontecer, teria consequências catastróficas. A falha de Greenspan era ainda mais elementar. Deturpava a sua visão da forma como o mundo estava organizado. E Greenspan não estava só. Larry Summers, o principal assessor económico do presidente, tivera de enfrentar um erro semelhante — o seu conceito de que o mercado se estabilizaria por si próprio «sofrera um golpe fatal»2. Hank Paulson, secretário do Tesouro de Bush, encolhera os ombros com um ar de resignação semelhante. Até Jim Cramer, do programa Mad Money, da CNBC, admitiu a derrota: «O único homem que chamou esta coisa pelo nome foi Karl Marx.»3 Um após outro, os sacerdotes do mercado livre estavam, para usar a linguagem do mercado, a sentir-se corrigidos. A importância da confissão de Greenspan passou ao largo de muitos de nós. Se lermos os artigos de opinião da imprensa financeira, encontraremos numerosas análises que se ajustam à estratégia inicial de Greenspan; os especialistas brindam-nos com histórias em que se afirma que o risco estava incorrectamente avaliado por baixo (e estava), a falta de regulação permitiu que o pânico se reflectisse no sistema financeiro (o que aconteceu), as estruturas de incentivos premiaram corretores que conseguiram empurrar o risco financeiro 14


para um futuro distante (e eles fizeram-no) e os ideólogos do mercado livre ajudaram (o que também é verdade). Mas tudo isto são desculpas; querem convencer-nos de que, se tudo corresse bem, poderíamos ter encontrado respostas mais adequadas. Duvido de que tenhamos compreendido cabalmente o que a confissão de Greenspan significa para nós. Seria demasiado chocante reconhecermos que as bases das políticas, tanto as do governo como as dos agentes económicos, estavam erradas e que não dispomos de quaisquer outras para as substituir. É como se um dia acordássemos e descobríssemos que fôramos transformados em baratas4. É essa a premissa do romance A Metamorfose, de Franz Kafka. No primeiro parágrafo, Gregor Samsa, um jovem vendedor, acorda depois de uma noite de pesadelos e descobre que se transformou num insecto enorme. A reacção de Gregor Samsa é reveladora e diz-nos mais sobre nós próprios do que, possivelmente, gostaríamos de saber. O que é que Samsa faz ao descobrir que é um insecto? Não foge do quarto, não reflecte sobre o que aconteceu nem sobre o significado da sua transformação ou sobre o que lhe acontecerá no dia seguinte. No essencial, a sua reacção fica-se por: «Pobre de mim! Como é que irei conseguir conservar o emprego?» É uma reacção quase coincidente com a nossa perante esta crise económica. Embora nenhum de nós tenha ainda acordado dentro do corpo de um insecto, todos nos achámos num mundo de pernas para o ar, em que nos foi dito que os nossos lucros se tinham transformado em prejuízos. A «falha» de Greenspan tem repercussões profundas — para a compreendermos na totalidade teremos de proceder a uma reavaliação completa da forma como conduzimos a nossa vida. Necessitaremos não só de uma nova âncora para as nossas esperanças, em termos sociais e económicos, uma âncora baseada em concepções mais profundas acerca da natureza humana, mas também de uma ideologia diferente que controle a troca de produtos e serviços. Os preços têm uma certa preponderância ideológica no mundo de Greenspan. Proporcionam uma forma de analisar e conhecer as necessidades colectivas e os recursos do nosso pequeno planeta. A filosofia económica é a de Friedrich Hayek, em que os preços são 15


os canais através dos quais ficamos a conhecer os desejos e as necessidades existentes. Os adeptos da ficção científica sabem como funciona este esquema. No filme The Matrix, os humanos libertados (e os programas que os perseguem) podem ver o mundo na sua forma mais simples, como uma chuva digital de símbolos e sinais. É esta ficção científica que governa os factos económicos. Os senhores do universo e das transferências financeiras globais só têm olhos para os dados que jorram dos monitores, passam de um ecrã para outro, tentando ver através deles o mundo e os lucros que poderão obter. Em The Matrix os sinais são uma simulação do mundo real, que escondem mais do que revelam. O que cria um problema: este tiquetaque digital tornou-se a cena mais importante do drama do comércio moderno. Consideremos o percurso da Volkswagen, que, no final de Outubro de 2008, se tornou temporariamente na companhia mais valiosa do mundo sem precisar de vender um único veículo. Com a economia ainda em queda livre, os corretores das bolsas previam um futuro ensombrado para a Volkswagen. Olhavam para os seus ecrãs e concluíam que, tal como todos os outros fabricantes de automóveis, a empresa teria de enfrentar tempos difíceis. Imagine que é um corretor e, no mais profundo do seu ser, pressente que o preço das acções tem necessariamente de baixar. Uma maneira de ganhar o dia é vender as acções da Volkswagen hoje mesmo, para voltar a comprá-las logo que o preço baixe. Como ninguém anda por aí com acções da Volkswagen a caírem-lhe dos bolsos, terá de recorrer a alguém que as guarde — um investidor institucional, por exemplo. O investidor institucional fica contente, pois ganha dinheiro a alugar as acções que, mais tarde, receberá de volta, de uma só vez. Quem depositou as acções também fica contente, pois pode vendê-las, esperar que o preço baixe, voltar a comprá-las e, com os lucros, pagar ao investidor institucional e ainda ficar com dinheiro suficiente para pagar a prestação do iate que mantém no Mónaco. A prática é designada por «shorting». O problema foi que uma concorrente, a Porsche, começara secretamente a comprar acções da Volkswagen, com o objectivo de controlar 75 por cento do seu capital. Quando a dimensão das compras da Porsche foi conhecida, tornou-se bem depressa evidente que 16


restava pouco capital da empresa para comprar. Com a Porsche a sugar todas as acções, o preço do papel da Volkswagen não baixou. Os corretores estavam a vender à Porsche acções emprestadas e entraram em pânico quando esta empresa anunciou a intenção de manter as acções compradas. A decisão provocou uma «escassez» (short squeeze), com bandos de investidores a tentarem cobrir os prejuízos da aposta na baixa das acções que tinham pago mas não lhes pertenciam. Tinham apostado que a cotação das acções da Volkswagen, como as de todos os fabricantes de automóveis, baixaria por efeito da recessão. Quando se tornou evidente que a Volkswagen não estava a sair-se bem no mercado automóvel, mas a cotação das suas acções continuava, ainda assim, a desafiar a lei da gravidade, os especuladores correram a comprar, antes que as acções se valorizassem ainda mais. Todas as compras combinadas provocaram novas subidas do valor das acções. Subiram tanto que a Volkswagen entrou no índice DAX 30 das maiores sociedades cotadas na bolsa alemã, o que desencadeou uma nova corrida à compra, agora não protagonizada pelos especuladores do mercado, mas pelo seu oposto: os investidores institucionais conservadores. Os fundos de pensões, por exemplo, preferem a acumulação lenta mas segura de riqueza às apostas que envolvem riscos. Uma das maneiras que têm de manter as suas carteiras de títulos saudáveis é investir apenas em capital de empresas de melhor reputação, as que dão garantias de ser menos susceptíveis aos choques a que as bolsas estão sujeitas, empresas de topo, as trinta maiores transaccionadas no mercado livre, por exemplo. Quando a Volkswagen foi incluída no índice DAX 30, os investidores institucionais também quiseram o seu quinhão de prosperidade, correndo a comprar todas as acções da Volkswagen que se lhes deparassem, a qualquer preço. Resultado? O preço por acção subiu de duzentos para mil euros numa semana, aumentando o valor da empresa em trezentos mil milhões de euros (244 mil milhões de libras; 386 mil milhões de dólares). Durante algum tempo, a Volkswagen foi maior do que a Exxon-Mobil (que valia em bolsa uns meros 343 mil milhões de dólares). E, para obter este resultado, a Volkswagen não precisara de mexer um dedo. 17


No final, as regras da DAX mudaram, a cotação estabilizou-se e, em 2009, a Volkswagen comprou a Porsche. É fácil detectar nesta história um caso em que os investidores institucionais foram apanhados com as calças na mão, em que as informações sobre a dimensão do mercado eram incorrectas, em que as diferenças entre as regras de curto prazo e de longo prazo se enredaram. Contudo, vale a pena analisar melhor o que sucedeu. A aceitação desta versão da história revela a estrutura conceptual que está subjacente a todos os casos de excesso e descalabro das cotações. A própria noção de bolha parte da premissa de que, se a bolha rebentar, tudo regressa à normalidade, a uma situação em que a cotação reflecte o valor de uma forma mais exacta. É esta a história que nos contam acerca de todas as expansões e falências, desde a bolha dos mares do Sul, em 1720, à catástrofe do sector imobiliário em 2008. Existe uma noção largamente aceite de que a normalidade acabará por regressar a toda a economia, mas trata-se de uma visão consensual, apoiada numa história em que as bolhas são desvios das regras estandardizadas (e bem-sucedidas) de avaliação do mercado. Se tais regras contiverem falhas, como Greenspan sugere, a nossa crença numa aterragem fácil não tem razão de ser, pois nunca existiu qualquer solidez no terreno que pisávamos. Há discrepâncias entre o preço e o valor das coisas, diferenças que os economistas não conseguem evitar, pois trata-se de um problema inerente ao próprio conceito de fixação dos preços com vista à obtenção de lucros. Por vezes, este fosso provoca-nos uma certa sensação de desconforto. A incerteza em relação aos preços é que torna engraçada a publicidade aos cartões MasterCard. Sabem ao que me refiro — «Aluguer do campo: 240 dólares; lições: 50 dólares; clube de golfe: 110 dólares; diversões: não têm preço». A melhor piada, no entanto, é esta: o preço das coisas não mede de forma alguma o seu valor. Esta desconfortável intuição tornou-se um motivo de divertimento. Um extraterrestre acharia esquisito que um dos mais populares programas da TV, O Preço Certo, difundido em dezenas de países, se valesse da confusão acerca do valor das coisas. Pede-se aos espectadores do programa que adivinhem o preço certo de cada um dos produtos de consumo que lhes são apresentados. O curioso é que não ganha quem se pronuncia sobre a utilidade do 18


produto ou sobre quanto custa produzi-lo — os preços são maus guias quando se trata de dizer que uso se daria a um artigo ou de avaliar quanto custa realmente a produção do mesmo artigo. No mundo da gestão de fundos, há muita gente a enriquecer à custa da confusão sistemática acerca do verdadeiro valor das coisas. Os salários dos corretores são indexados aos lucros que obtêm acima das taxas de risco que aceitam, o chamado lucro «alfa», que representa a sua contribuição para o resultado. Pensemos numa aposta de cara ou coroa, em que a probabilidade de ganhar é de dois para um. Aposto um dólar na cara e recebo dois dólares sempre que acertar. A longo prazo, seria de esperar que uma aposta nessas condições gerasse um dólar, porque em metade das ocasiões sairia coroa. Mas, se eu conseguir gerar 1,5 dólares na aposta, faço a magia acontecer. A magia transforma-se em dólares, em bónus e em aumentos de salários, que meto ao bolso. É um instrumento difícil de tocar porque em gestão de fundos existe apenas uma mão-cheia de maneiras de criar valor acrescentado: comprar acções subvalorizadas que venham a atingir cotações para além das expectativas, promover inovações que mudem as regras do jogo ou criar activos feitos por encomenda, de que os gestores possam vir a gostar. Portanto, podemos considerar que o lucro alfa é raro, o que é verdade, mas muita gente desejosa de ganhar dinheiro inventou lucros alfa através de ofertas de produtos que pareciam assegurar sempre bons rendimentos, apesar da possibilidade intrínseca de eles conduzirem a perdas catastróficas. Se o valor estimado desta perda fosse tido em conta, não haveria quaisquer lucros alfa. Mas os riscos foram ignorados e os bónus fluíram. A rapaziada das organizações que gerem a economia e que tira partido das deficiências da regulamentação ganhou milhares de milhões. Foram pagos por benefícios que eles próprios previram para o futuro, usando uma técnica contabilística chamada «mark to model», que, no essencial, lhes permitia cobrar num dia o que projectavam ganhar no dia seguinte5. Esta prática era justificada pela asserção de que os mercados «é que sabem». Os mercados é que sabem é um dogma recente e incluí-lo na sabedoria convencional da governação foi uma tarefa difícil, em termos ideológicos e políticos. A ideia de que os mercados são inte19


ligentes teve a sua apoteose na Hipótese dos Mercados Eficientes, um conceito formulado por Eugene Fama, um doutorando da Chicago Business School, na década de 1960. As bases ideológicas que proporcionava aos agentes financeiros era uma arma poderosa — pensemos na ideia como uma espécie de Atlas Shrugged, mas com mais equações. A Hipótese dos Mercados Eficientes sustenta que a cotação dos activos financeiros reflecte tudo aquilo que o mercado sabe quanto às perspectivas actuais e futuras. O que é diferente de afirmar que a cotação reflecte realmente os resultados futuros — na verdade, a cotação reflecte o estado actual do que se sabe sobre os resultados bons ou maus do futuro. A cotação envolve uma aposta. Como agora sabemos, a visão do mercado é perigosamente míope em relação às probabilidades, mas a hipótese explica a razão pela qual os economistas acham piada à seguinte anedota: P.: Quantos economistas da Escola de Chicago são precisos para substituir uma lâmpada? R.: Nenhum. Se a substituição fosse necessária, o mercado já a teria feito.

O problema da Hipótese dos Mercados Eficientes é que não funciona. A ser verdadeira, não haveria incentivo para investir em investigação, na medida em que o mercado, por magia, preveria as nossas conclusões. Os economistas Sanford Crossman e Joseph Stiglitz demonstraram-no em 1980; e centenas de estudos subsequentes, alguns da autoria do próprio Eugene Fama, consideraram a hipótese irrealista6. Os mercados podem ter comportamentos irracionais — os investidores podem correr atrás das acções de uma dada sociedade, fazendo subir a cotação para níveis inteiramente desfasados dos títulos que estão a ser transaccionados7. Apesar das muitas provas económicas que demonstram a falsidade da hipótese, a crença nos mercados eficientes levou os governos a fazer loucuras8. Alan Greenspan não foi a única pessoa a achar que a hipótese era uma inverdade conveniente. Levando os reguladores a comportarem-se como se a hipótese fosse verdadeira, os corretores podiam fazer aceitar as suas especulações catastróficas. E, durante algum tempo, o dinheiro correu. Em meados da década 20


de 1990, o Financial Times sentiu-se em condições de lançar um suplemento mensal, sob o título How to Spend It, para ajudar os leitores mais endinheirados a aliviarem os bolsos. A magia da expansão da década precedente também atingiu a classe média, que foi sugada para dentro da bolha, comprando casas que deixaram de ser apenas lares para se tornarem activos financeiros e achas para a fogueira do sector financeiro. Mas os proprietários comuns de casas não podiam competir com o poder dos bancos. Os governos deram carta branca ao sector financeiro ao prometerem defendê-lo se houvesse necessidade; e, se bem prometeram, melhor cumpriram. Quando as especulações dos agentes financeiros rebentaram com o sistema, os lucros conseguidos com as apostas erradas permaneceram intocáveis: o lucro foi privatizado, mas o risco foi nacionalizado. As riquezas adquiridas saíram bem caras ao mundo; contudo, em 2009, os gestores de fundos de risco registaram o seu terceiro melhor ano de sempre. George Soros está, segundo as suas palavras, «a passar por uma crise muito boa», enquanto a administração da Goldman Sachs espera arrecadar os bónus mais chorudos dos 140 anos de existência da firma9. O que esta situação nos sugere é que a retórica dos «mercados livres» encobre actividades que nada têm a ver com os mercados. Os funcionários da Goldman Sachs estão a obter bons resultados porque a firma usou truques muito pouco ortodoxos. Com a sua característica verve, Matt Taibbi, jornalista da Rolling Stone, revelou recentemente a forma como a Goldman Sachs comprou o governo dos EUA. Wall Street tem toda uma geração de amigos na equipa económica da administração Obama, do secretário do Tesouro, Tim Geithner, que, durante o seu mandato de presidente do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque, concedeu um empréstimo histórico de 29 mil milhões de dólares para persuadir a JPMorgan a comprar a Bear Sterns, a Larry Summers, que ganhou 5,2 milhões de dólares a trabalhar um dia por semana, durante dois anos, num grande fundo de risco de Wall Street. As novas posições que estes indivíduos ocupam na Casa Branca fazem de cada um deles um Tarzan da selva económica. Wall Street tem razões para estar satisfeita. A Goldman investiu pesadamente na AIG, a gigantesca seguradora cujo departamento de produtos financeiros conseguiu levar à falên21


cia este potentado com 99 anos de existência. Graças à operação de salvamento de 2008, os treze mil milhões de dólares investidos pela Goldman foram reembolsados ao seu valor facial. Como termo de comparação, os investidores da Chrysler deverão receber 29 cêntimos por cada dólar que investiram10. Qualquer defensor da democracia deveria estar preocupado com o facto de a ligação entre Wall Street e o governo ser quase invisível. Uma situação que, no mínimo, levanta sérias dúvidas de que as instituições que facilitaram a crise sejam capazes de deslindar a trapalhada. Nassim Taleb aponta o absurdo desta situação: «As pessoas que conduziam o autocarro da escola (de olhos vendados) e se estamparam não deviam voltar a conduzir autocarros.»11 O problema é que, por obra e graça da economia e muito por culpa dos políticos, os condutores de autocarros tirarão sempre a carta na mesma escola de condução12. Apesar do sequestro progressivo do governo por Wall Street, os políticos estão a pronunciar uma palavra que já não era ouvida há mais de uma geração: «regulação». É verdade que a Goldman Sachs e outros estão a obter bons lucros com o colapso, mas, ainda assim, existe entre os políticos a sensação crescente de que o mercado foi deixado com a rédea demasiado solta. No seu livro The Shock Doctrine, Naomi Klein demonstra, numa crítica devastadora, como os desastres foram transformados em oportunidades para as políticas radicais do mercado livre, apresentando também uma análise que explica a pilhagem crescente verificada após a Segunda Guerra Mundial e no presente, da Califórnia à Wall Street e à City de Londres. Mas a opinião pública e alguns políticos reconhecem que a crise económica actual representa o fracasso do conceito de mercado livre e não uma justificação para o aprofundar. Respondendo ao clamor popular, políticos de todo o mundo parecem dispostos a discutir normas para regular e refrear o mercado. Resta saber se o podem fazer e, no caso de o conseguirem, quem beneficiará com essa regulação? O mercado livre gerou descontentamento desde o início, mas são raros os momentos em que esse descontentamento consegue aglutinar a sociedade, onde existe um grupo suficientemente grande de pessoas capazes de estabelecer uma relação entre os seus infortúnios 22


e as políticas do mercado livre. O New Deal nos EUA e o Estado-Providência na Europa do pós-guerra resultaram, em parte, de um consórcio de forças sociais que impuseram novos limites aos mercados e a renegociação dos relacionamentos entre os indivíduos e a sociedade. O que é novo na crise presente é o facto de ela ser mundial13 e de aparecer no preciso momento em que ainda poderíamos evitar uma catástrofe climática global. Mas a amplitude e a profundidade de ambas as crises reflectem até que ponto a nossa sociedade foi trespassada pela cultura do mercado livre. Para compreendermos como esta situação nos vai afectar no século XXI, precisamos de perceber como tudo começou e de averiguar que factores conduziram os mercados à situação actual.

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