Page 1

PRÓLOGO DIA DE SÃO JORGE, ABRIL DE 1600, NUMA ESTALAGEM NA ESTRADA PARA LONDRES UM HOMEM IDOSO, DE BARBA ALVA COMO A NEVE, ESTA SENTADO à

cabeceira de uma mesa de refeitório, junto à lareira. Tem a cabeça curvada e aperta nos dedos magros da sua mão direita um objecto negro e brilhante. Botões de Rosa Mundi, com suas pétalas brancas sulcadas de rosa intenso, cobrem a mesa diante dele. Assim, os que estão sentados nos cavaletes sabem que quanto ali se desenrolar é secreto, um casamento do espírito e da alma de todos os presentes, e o nascimento de algo único, por que esperam: o Filho do Filósofo. Em contraste com o alarido esfuziante de outros frequentadores da estalagem, que se ouvem por trás de portas fechadas em salas adjacentes, eles estão calados, aguardando as suas palavras. Uma porta abre-se e fecha-se suavemente, e o súbito arrastar de pés em seu redor insinua-se no silêncio. Um criado, cuja entrada passou quase despercebida, coloca-lhe uma nota na mão fina. O ancião lê-a devagar; na testa alta, espantosamente lisa para um homem da sua idade, vinca-se uma ruga sombria. Após um longo momento, fita sucessivamente cada um dos rostos reunidos em redor da longa mesa; fala por fim, com voz pouco mais audível do que se dissesse as vésperas. — Há pouco tempo, no mês das luzes, o Signor Bruno foi queimado na fogueira no Campo de’ Fiori. Tinham-lhe concedido quarenta dias para renegar as suas heresias: afirmar que a Terra não era o centro deste mundo, que havia muitos sóis e planetas semelhantes para além do nosso, e que a divindade do Salvador não era uma verdade literal. Os monges apresentaram-lhe um crucifixo para beijar em sinal de arrependimento dos seus erros, mas ele desviou a cabeça. Como prova de piedade, as autoridades eclesiásticas colocaram um colar de pólvora em 11


volta da sua cabeça antes de atearem o fogo, para desse modo lhe apressarem o fim. Pregaram-lhe igualmente a língua ao queixo para o impedir de falar. — Ergue os olhos para cada um dos seus companheiros de ceia, e atarda-se alguns momentos antes de voltar a pronunciar-se. — Para alguns de nós, portanto, o fio começa agora a desenrolar-se e inicia-se aqui outra jornada. — O seu olhar pousa agora num só homem, sentado um pouco à esquerda da cabeceira oposta da mesa, curvado sobre uma caneca. O vizinho do lado dá-lhe uma cotovelada e segreda-lhe algo, alertando-o para o orador, que se fixou apenas nele. Os olhares dos dois homens cruzam-se longamente, até que o mais jovem deixa um meio-sorriso adoçar-lhe as feições, estimulando o ancião a prosseguir as suas palavras. — Haverá maneira — pergunta ele, em tom mais forte agora — de usar todo o ardente empenho das nossas faculdades, para conservar as suas ideias de amor e harmonia universal frescas como o orvalho? Será possível que alguma vez triunfem Os Trabalhos de Amor Perdidos?

12


1 O CANTO DE UM MELRO INTERROMPEU OS SEUS SONHOS AGITADOS,

mas as persianas da casa de campo continuaram firmemente cerradas. Will chegara tarde, a ténue claridade desse crepúsculo de Setembro há muito desvanecida, mas a lua brilhava o suficiente para ele encontrar a chave da casa, oculta entre os gerânios. Acordou em pânico e estranhamente desorientado, no meio da escuridão que um minúsculo feixe de luz tentava romper. A manhã chegara sem que se apercebesse. Apressou-se a saltar da cama e esforçou-se por abrir os fechos das janelas. A madeira inchara na época das chuvas e as persianas emperraram um instante até os seus dedos perceberem o que fazer. Depois viu-se imediatamente banhado por uma luz intensa. Estava uma perfeita manhã de início de Outono, com o sol a perfurar já a neblina baixa. O perfume a mirra das rosas penetrou juntamente com a luz e o ar húmido, mesclado com uma característica nota a alfazema proveniente de uma sebe algures lá em baixo. Com a fragrância imiscuíram-se também memórias agridoces mas que, pelo menos, lhe restituíram uma certa sensação de calma, afastando da sua mente os rostos obsessivos que lhe haviam povoado os sonhos. Na noite anterior esquecera-se de ligar o termo-acumulador, mas sentia-se ansioso por um duche que o libertasse do pó da longa viagem feita na véspera desde Lucca. Achou a água fria refrescante, lamentando apenas perder o calor que teria aliviado a rigidez do corpo. A sua Ducati 998 não era decididamente uma mota para turismo; assemelhava-se mais a uma caprichosa supermodelo. Surpreendentemente rápida, absurdamente exigente, mas com uma condução excitante, adequava-se na perfeição ao humor e excentricidade de Will; mas, se queria ser franco, em grandes tiradas directas tornava-se desconfortável. No final do dia anterior sentira os joelhos um bocado comprimidos dentro da roupa de couro, mas não ligara. Uma mota daquelas não era para timoratos. 13


O rosto reflectido no espelho confirmou a opinião da mãe, que o considerava «um anjo um pouco caído»; parecia um figurante de um filme de Zeffirelli, pensou, com a linha do queixo recortada pelo negrume de uma barba incipiente. Riu, algo chocado, apercebendo-se de que o seu actual aspecto até a ela perturbaria. Havia algo de maníaco na face que se ria para ele e percebeu que não conseguira impedir os demónios dessa viagem de se aproximarem demasiado da sua alma. Aparou, mais do que escanhoou, a barba de vários dias, e, ao limpar a espuma da navalha, reparou de súbito numa rosa algo desbotada que secara perfeitamente num velho tinteiro, junto ao lavatório. Talvez Alex, o irmão, tivesse levado para ali alguém nas duas semanas anteriores? Ultimamente, andara tão absorto nos seus pensamentos que ignorava as deslocações de qualquer outra pessoa. Sorriu, a curiosidade despertada pela ideia. — Telefono-lhe logo à tarde — disse ele em voz alta, surpreendido pelo som estranho da sua própria voz —, assim que chegar a Caen. — O ferry só partia quase à meia-noite, mas entretanto tinha coisas a fazer. Na cozinha, envolto na serena claridade matinal, começou a descontrair-se pela primeira vez desde há semanas, libertando-se daquela perturbadora sensação, que recentemente o assaltara, de andar fugido. O odor das maçãs do pomar derramava-se pela porta aberta, trazendo consigo a memória reconfortante dos trinta e um outonos que gozara antes desse. Fugira de tudo e de todos, mas era bom voltar a casa. Lavou o copo manchado do vinho tinto que bebera na noite anterior e meteu no forno o resto do cacete para o amaciar durante alguns minutos. Decidiu ir dar uma vista de olhos à motorizada, pois mal se lembrava de como a estacionara: durante aqueles excruciantes últimos quilómetros, percorridos a alta velocidade desde Lyon, apenas o aguentara o pensamento de encontrar um refúgio, do gosto picante do brie Meaux que, junto com uma baguette, metera na mochila, de um copo do St.-Emilion do pai e de uma cama. Lá fora reinava uma calma apaziguadora. Pela fachada da casa trepava um rebento tardio de glicínia. Exceptuando alguns indícios superficiais de abandono, evidenciado na relva por cortar e num caminho por varrer, a casa não revelava o sofrimento familiar que moldara a sua solidão durante tantos meses. Parecia que ninguém a desejava visitar depois da súbita e terrível perda da mãe de Will devida a um cancro, em finais de Janeiro. Facilmente acessível em qualquer fim-de-semana prolongado a partir da residência de Hampshire, aquele fora o espaço dela, o seu retiro, a sua alegria para pintar e jardinar; e o seu fantasma ainda assombrava cada canto, mesmo à luz crua dessa manhã. O pai sofria em silêncio, dizia muito pouco e trabalhava como nunca para 14


evitar pensar demasiado; e Alex parecia capaz de lidar com todos os acontecimentos sem dar a conhecer a intensidade dos seus sentimentos. Mas Will orgulhava-se de ter saído à mãe: emotivo na sua reacção à vida e apaixonado nos seus relacionamentos. E ali, no espaço encantado da mãe, sentia a falta dela. Percorreu com o olhar a pequena vereda de cascalho que ligava a estrada à porta, mas nada de invulgar lhe chamou a atenção. O vazio era quase um anticlímax, mas agradava-lhe. Parecia que ninguém sabia por onde ele andava, nem se importava com o seu paradeiro, pelo menos de momento. Com um gesto inconsciente, tocou no pequeno objecto de prata suspenso da curta corrente que trazia ao pescoço, e cerrou possessivamente os dedos sobre ele. Depois dirigiu-se ao roseiral da mãe. Em homenagem às personagens ilustres que as haviam cultivado, ela levara mais de vinte anos a reunir uma colecção de rosas antigas, que ficariam perfeitamente enquadradas em Malmaison. Tinha-as pintado, tinha-as bordado e tinha cozinhado na sua companhia; mas se elas haviam dado pela sua partida, não a sussurravam a ninguém. No meio dos canteiros havia uma fonte que ela própria erguera quando Will era pequeno, uma espiral exibindo ao centro a imagem de Vénus, padroeira das rosas, e um mosaico brilhante formado por pedaços de louça partida. Aquilo exercia sobre ele uma atracção magnética. Reparando vagamente que a motorizada de tom amarelo-vivo estava imunda dos quilómetros percorridos, mas absolutamente segura à sombra da casa, Will voltou para trás. Ao entrar na cozinha, o cheiro de bom café chamou-o ao presente. Passou as mãos pelos caracóis revoltos. Tinha o cabelo limpo e já seco pelo ar cálido, mas precisava desesperadamente de o cortar. Seria melhor tratar disso antes do almoço de aniversário de Alex, no domingo; as coisas já estavam suficientemente frias entre si e o pai, mesmo sem aquele ar de vagabundo. O irmão, mais louro e de cabelo mais liso, andava sempre impecável; mas Will, após um mês e tal em Roma, começara a parecer-se com os habitantes locais. E isso agradava-lhe, pois sempre que possível preferia misturar-se com os nativos. Não havia manteiga, mas na despensa descobriu compota da última leva feita pela mãe e o pão aquecido ficou bom depois de barrado. Estava a lamber o polegar quando um postal pousado na cómoda lhe chamou a atenção: era indiscutivelmente a letra dela. «Para o Will e a Siân», começava. Estendeu o braço e pegou-lhe. Quando o teria escrito? Para a Will e o Siân. Procurem descansar alguns dias. Há carne de veado na arca frigorífica — talvez vos seja útil. Por favor, cuidem-me do jardim . Vemo-nos em casa pelo Natal — D x

15


Só podia ter sido em Novembro. Ele e Siân haviam levado a maior parte do ano a discutir, tendo-se finalmente separado no final da Primavera, mas a discórdia grassava entre eles pelo menos desde o seu aniversário, em Agosto do ano anterior, quando as incessantes exigências dela por um compromisso o tinham convencido de que seria melhor abandonar a ideia de irem passar uma semana juntos à casa da Normandia. Na altura, Siân não tinha lá outros amigos e, dado o seu escasso vocabulário em francês, dependeria completamente dele. Will duvidara que a relação pudesse aguentar tal coisa nesse momento. Portanto não haviam chegado a ir para poderem receber a nota, passear no jardim de ervas medicinais da mãe, ou comer um derradeiro jantar no Pays d’Auge. Sorriu ao pensar nela: três meses na estrada tinham aplacado a sua cólera. Siân era espantosamente invulgar — não ao gosto de toda a gente, o que, de certo modo, a tornava duplamente atraente para ele; sentiu de repente um inesperado desejo físico dela, como se notasse pela primeira vez o espaço vazio a seu lado e no seu coração. Mas, pondo de lado a paixão, que fora o núcleo do seu relacionamento, sabia que fizera bem em terminar. O amor deles fora a Primavera e os céus tinham mudado. Will não era magnânimo e pragmático como Alex, nem sempre concluía o que começava e nunca poderia ser o marido que ela ambicionava: o homem de sucesso, o homem que a acompanharia às compras aos domingos a Conrad Shop, o amante capaz de vender a sua Ducati para comprar um Volvo. Afirmando-se apaixonada pela sua rebeldia, Siân tentara domesticá-lo desde o início. Ele sentira-se feliz a cozinhar para ela, a fazê-la rir, a cantar para ela e a fazer amor com ela como nunca ninguém antes; mas sabia que não conseguiria anular a sua própria personalidade para silenciar as fortes opiniões políticas que descambavam sempre em discussões violentas com as amigas acéfalas de Siân e os seus dóceis companheiros. Em última instância, sentira-se incapaz de habitar com ela esse mundo seguro e, em sua opinião, insípido. Estava decidido a viver a vida plenamente, fosse a que preço fosse. Virou o postal. Era a Grande Rosácea de Chartres. A mãe tinha-a pintado frequentemente, tanto do interior como do exterior. Adorava a luz que se filtrava através do vitral, a maneira como perfurava a obscuridade, quase nos ferindo os olhos com o seu brilho. Rodou distraidamente o telemóvel durante um instante. Já estava carregado e, sem desviar os olhos da imagem do postal, digitou uma mensagem para o irmão. Finalmente invadi a Normandia! Estiveste cá recentemente? Parto Caen hoje 23h15. Telefono antes. Muitas perguntas a fazer-te. W

16


Num único movimento hábil, enfiou o blusão de cabedal, meteu o telemóvel no bolso e ocultou o postal contra o peito, junto do precioso documento que o levara a percorrer a Itália durante todo o Verão, numa frenética demanda. Começara já a reunir algumas das respostas de que fora à procura, mas em seu redor as perguntas pareciam continuar a surgir interminavelmente e a sensação de mistério aumentava. Enfiou as botas poeirentas e fechou rapidamente a casa, depositando a chave no seu esconderijo. Nem sequer passou a camurça na mota; limitou-se a colocar o capacete, tirou as luvas da bolsa e montou no assento. Ia precisar de combustível para percorrer os cerca de setenta quilómetros até Chartres.

17

O_Labirinto_Rosa  

DIA DE SÃO JORGE, ABRIL DE 1600, NUMA ESTALAGEM NA ESTRADA PARA LONDRES 11 12 O CANTO DE UM MELRO INTERROMPEU OS SEUS SONHOS AGITADOS, 13 14...

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you