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A história até aqui... Lief, de dezasseis anos, cumprindo um juramento feito por seu pai antes de ele nascer, partiu numa grande demanda a fim de encontrar as sete pedras preciosas do mágico Cinto de Deltora. As gemas foram roubadas para abrir o caminho da invasão do reino ao terrível Senhor das Trevas. Ocultas em lugares assustadores por todo o território, têm de ser repostas no Cinto, para que o herdeiro ao trono seja encontrado e se ponha fim à tirania do Senhor das Trevas. Os companheiros de Lief são um homem, Barda, em tempos guarda do Palácio, e Jasmim, uma rapariga da idade do próprio Lief, que encontraram nas temíveis Florestas do Silêncio. Nas suas viagens, descobriram um movimento de resistência, chefiado por Maldição, um homem misterioso, com

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uma cicatriz no rosto, que os libertou quando foram capturados pelos brutais Guardas Cinzentos do Senhor das Trevas. Cinco gemas já foram encontradas. O topázio, símbolo da lealdade, tem o poder de contactar com o mundo dos espíritos e de aclarar a mente. O rubi, símbolo da felicidade, empalidece quando o perigo ameaça, repele os maus espíritos e é um antídoto contra venenos. A opala, gema da esperança, proporciona lampejos do futuro. O lápis-lazúli, a pedra celestial, é um poderoso talismã. Os poderes da esmeralda, pedra da honra, estão ainda por descobrir. Seguindo o mapa que o pai de Lief desenhou para ele, os companheiros vão agora a caminho da costa e do seu próximo destino – O Labirinto do Monstro. Rapidez e discrição têm a maior importância, pois o Senhor das Trevas tomou conhecimento deles e Lief soube que os seus pais foram presos. E agora continuemos…

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1 - Salvamento

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ief, Barda e Jasmim seguiram da Montanha do Pavor para o rio Tor em silêncio e rapidamente, gratos pelas árvores que os ocultavam do céu aberto. Durante muitos dias tinham viajado assim, sempre conscientes de que, a qualquer momento, o inimigo podia atacar. Durante muitas noites tinham dormido por turnos, completamente vestidos e com as armas nas mãos. Em breve alcançariam o rio e sabiam que precisavam apenas de o seguir para chegarem à costa oeste de Deltora. Aí, nalgum lado, ficava o próximo destino marcado no mapa — o chamado, nome terrífico, Labirinto do Monstro. Se o pai de Lief estava certo, era lá que se ocultava a sexta pedra do Cinto de Deltora. Mas os servos do Senhor das Trevas estavam à espreita deles, só esperando que se mostrassem. O Senhor das Trevas sabia que o topázio tinha sido

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levado das Florestas do Silêncio, que o rubi já não se encontrava no Lago das Lágrimas, nem a opala na Cidade dos Ratos. Naquele momento, talvez até suspeitasse que o lápis-lazúli fora, por seu turno, subtraído ao seu terrível guarda, nas Areias Movediças. Se os gnomos da Montanha do Pavor tivessem êxito em o enganar, passaria algum tempo antes que se desse conta de que a esmeralda seguira o caminho das outras quatro gemas. Mas os seus servos andariam já por aquela área, emboscados no sopé da Montanha ou procurando-os dos céus. E o Labirinto do Monstro, bem como todos os caminhos até lá, estaria bem guardado por inimigos, em busca do grupo que se adaptasse à descrição que lhes fora feita. Um homem, um rapaz e uma rapariga bravia com um pássaro preto. Lief olhou em frente para Kri, sombriamente empoleirado no ombro de Jasmim, ao lado de Filli. A pobre da ave bem queria esticar as asas. Mas era perigoso ser muito visto no ar, não fosse a sua presença revelar-lhes a posição ao inimigo. De modo que era obrigado a manter-se rente ao solo, coisa de que não gostava nada. Nenhum de nós gosta, pensou Lief. Que desagradável andarmos a esgueirar-nos como criaturas perseguidas através desta floresta. Como desagradável é temer a vinda da noite. Mas não há nada a fazer quanto a isso. Deu um salto quando Jasmim subitamente saltou para um lado, sacando a adaga do cinto. Kri ergueu

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voo num estardalhaço de asas, crocitando. Lief teve um lampejo de uns olhos escuros e brilhantes, e de um focinho bicudo nos arbustos. Depois ouviu-se o restolhar de pequenas patas em fuga e logo a seguir já Jasmim voltara a embainhar a arma, fungando de desagrado. — Agora já dou saltos por causa de sombras e combato ratos do bosque — resmungou ela, ao mesmo tempo que estendia o braço para Kri e retomava a marcha pelo piso irregular do caminho. — Não consigo livrar-me da sensação de que estamos a ser observados. — Há dias que sinto isso — redarguiu Barda, lançando-lhe um olhar. — Parece que a floresta está cheia de olhos. Lief nada disse. Estava muito consciente da presença do Cinto a envolvê-lo. E sentia que os observadores ocultos deviam estar também conscientes da sua presença, embora o levasse escondido debaixo da camisa, com a jaqueta bem abotoada por cima. Estava muito mais pesado do que quando o pusera pela primeira vez, vazio, em Del. O poder e a magia das gemas, que preenchiam já cinco dos seus medalhões, pareciam pesar sobre ele. De súbito, de algures lá para a frente, soou um grito fraco e agudo, seguido do som de um chape na água. Os companheiros estacaram. O espadanar tornou-se mais audível e aflito. A uma ordem de Jasmim, Kri levantou voo em direcção ao som.

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— Marie! Marie! — gritou uma voz muito aguda. — Oh, Marie… — O que foi isto? — sussurrou Lief. — Barda, rápido! Parece ser… — Temos de ter cuidado — lembrou Barda. — Pode ser um truque. Espera… Mas já Kri voltava para junto deles, com guinchos de urgência. — Alguém caiu à água! — exclamou Jasmim. — E está-se a afogar! Deitaram a correr, os pés martelando o carreiro estreito e o som da voz desesperada cada vez mais próximo e mais agudo, enquanto o espadanar se tornava cada vez mais fraco. Saíram de rompante de entre as últimas árvores para uma margem larga de fina areia branca. O rio estendia-se, brilhante, à frente deles e corria, rápido e profundo. Uma rapariguinha, que não teria mais de cinco ou seis anos, ia à deriva nos baixios, agarrada ao tronco flutuante de uma árvore. Era ela que gritava, estendendo em vão a mão para outra criança que se debatia em águas mais profundas, ao lado duma jangada virada. Em poucos momentos, Lief e Barda tinham-se libertado de botas e espadas, metendo-se à água. — Apanha tu a que está mais perto da margem — gritou Barda por cima do ombro para Lief, enquanto tentava agarrar a jangada. — Depressa, Lief, senão perdemo-la. O rio vai muito rápido.

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Lief avançou até junto da criança agarrada ao ramo e conseguiu segurá-la antes que fosse arrastada para fora de alcance. Quando a ergueu e recolheu nos braços, agarrou-se a ele freneticamente. Estava fria como gelo. A água ondulava em volta do peito do rapaz, enquanto ele lutava por voltar à margem. — Marie! — soluçou a rapariga, tremendo e esforçando-se por olhar para a jangada voltada. — Eu caí ao rio e ela quis ajudar-me e caiu também! Consegui agarrar-me ao ramo, mas ela… Ai, onde é que ela está? Onde está? Lief olhou para trás e sentiu-se desanimar. Barda quase chegara junto da jangada, mas, onde Marie estivera, só se via um torvelinho de água. Barda encheu os pulmões de ar e mergulhou. Momentos depois, voltava a aparecer, trazendo uma trouxa branca e inerte. Começou a nadar para a margem, remando com um braço e arrastando a trouxa atrás de si com o outro. — Afogou-se! — gritou a criança. — Não, ela não esteve muito tempo debaixo de água. Vai ficar bem — afirmou Lief, com uma certeza maior do que sentia. Continuou a vadear, sentindo com alívio a água a ficar mais baixa enquanto subia para a margem, onde Jasmim já o esperava com um cobertor. — Eu trato dela. Vai ajudar Barda! — disse Jasmim secamente, enrolando a rapariguinha no cobertor.

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— Eu sou a Jasmim — ouviu-a Lief dizer, enquanto corria para onde Barda chapinhava para a margem, com a sua carga ensopada e inerte segura no punho. — Este é o Filli e este o Kri. Como é que te chamas? — Aida! — disse a pequena em lágrimas. — Eu sou a Aida. Oh, leva-me para longe do rio! Não o quero ver mais! A Marie afogou-se. Afogou-se! Lief voltou a saltar para dentro de água e ajudou Barda a trazer a criança inconsciente para a margem. Tal como Aida, estava completamente gelada. Deitaram-na com todo o cuidado. Ao ver-lhe o rosto, Lief arfou de espanto. Cabelo castanho liso, uma delicada pele dourada, rosto em forma de coração, longas pestanas negras e reviradas — enfim, era a cara de Aida, igualzinha, até na pequena marca castanha na face esquerda e no simples vestido branco. Eram gémeas! Idênticas até ao mínimo pormenor. O que andariam duas raparigas gémeas, e tão novinhas ainda, a fazer sozinhas naquele ermo? Onde estariam os pais? Barda virara Marie de lado e inclinara-se sobre ela, de expressão carregada. — Está morta? — sussurrou Lief. Sem saber porquê, essa ideia era ainda mais terrível, agora que sabia que as raparigas eram gémeas. Era horrível pensar que uma delas iria ficar sozinha. Ergueu os olhos e sentiu algum alívio ao ver que Jasmim começava a

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encaminhar a soluçante Aida para longe da margem do rio e em direcção às árvores. Depois, ao mesmo tempo que Jasmim se afastava para a rapariguinha entrar à sua frente no caminho, Lief deu por um leve movimento no mato ali perto. Antes que pudesse mover-se ou soltar um grito de aviso, ouviu-se um ruído vibrante e uma flecha voou pelos ares. Atingiu Aida nas costas. Como se se desmoronasse, ela caiu para a frente sem um grito. Com um brado de raiva, Lief lançou-se contra o atacante. Não tinha a espada ao alcance, mas não se importou. Estava suficientemente furioso e chocado para ir ao combate de mãos nuas. Arrancou os arbustos que escondiam o atirador e lançou-se sobre o rapaz de cabelo escuro que ali se agachava. Arrancando-lhe das mãos com uma pancada o perigoso arco, projectou-o para a areia. O assassino caiu pesadamente de borco, com um braço preso debaixo do corpo, e ficou quieto, gemendo de dor. Lief correu a buscar a espada e desembainhou-a. Ribombavam-lhe os ouvidos e no seu coração havia morte quando de novo se voltou para o outro. Gemendo, o rapaz rolou até ficar deitado de costas. Tentou levantar-se, mas voltou a cair, com uma careta de dor e agarrando o braço. — Não estás a ver? Elas são Ols! Ols! — berrou. Então Lief ouviu o brado gorgolejante de Barda, o grito agudo de Jasmim. Ergueu os olhos.

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O corpo de Aida desaparecera. E Marie, a pequena Marie, estava a erguer-se da areia. Segurava Barda pela garganta, os dedos brancos a fincarem-se profundamente na pele. Arreganhara os dentes. E então o seu corpo começou a borbulhar, a estender-se, crescendo até se tornar uma sombra branca, alta e ondulante, com uma marca negra no centro e uma enorme cabeça, de uma palidez hedionda, em bico como a chama de uma vela. Os olhos da criatura eram de um vermelho de fogo e a boca tornara-se um buraco negro e sem dentes, mas riu como uma criança quando Barda cambaleou para trás e caiu sob o seu peso.

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