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Os raios do sol nascente banharam os cumes do Tauro, os picos cobertos de neve tingiram-se de tons rosados, cintilando como pedras preciosas sobre o vale ainda envolto em sombras. Depois o manto brilhante começou a estender-se lentamente ao longo dos cimos e das vertentes da grande cadeia montanhosa, despertando a vida adormecida nos bosques. As estrelas empalideceram. O falcão foi o primeiro a pairar nos céus, a cumprimentar o Sol, e os seus guinchos agudos ecoaram nas paredes rupestres e nas ravinas, nos precipícios agrestes por entre os quais corria o Korsotes espumoso, intumescido pelas neves derretidas. Sapor I da Pérsia, o rei dos reis, dos Persas e dos não-Persas, o senhor dos quatro cantos do mundo, sobressaltado por aquele grito, ergueu os olhos para contemplar o voo amplo do senhor das alturas, em seguida aproximou-se do puro-sangue árabe magnificamente aparelhado que o escudeiro lhe trazia. Um servo ajoelhou-se para que ele pudesse apoiar o pé na sua perna flectida e saltar para a sela. Outros dois servos entregaram-lhe o arco e a cimitarra com bainha de ouro, e um alferes postou-se a seu lado empunhando o estandarte real: um vexilo comprido de seda vermelha com uma representação a ouro de Ahura Mazda. Os seus oficiais aguardavam-no no centro do campo armados dos pés à cabeça, montados nos seus cavalos cobertos por preciosos xáireis, com o focinho protegido por testeiras de aço. Ardavasd, o comandante supremo, saudou-o com uma profunda vénia e os outros seguiram-lhe o exemplo; em seguida, a um sinal do rei, bateu com os calcanhares nos flancos do cavalo e pôs-se em marcha. Todos os outros oficiais se dispuseram em leque à direita e à esquerda de Sapor e, em conjunto, começaram a descer a colina. 13


A luz atingira agora a embocadura do vale e começava a iluminar as torres de Edessa, sobranceira ao planalto estépico, batida pelos ventos do deserto. Um galo cumprimentou o astro nascente com um chamamento prolongado e repetido. No pátio de sua casa, Marco Metelo Áquila, legado da Segunda Legião Augusta, andava a pé havia já bastante tempo, vestido e com a armadura posta. Oriundo da Itália meridional, enrijara os ossos e os músculos num longo serviço em todas as fronteiras do império: o hábito de gritar as suas ordens no campo de batalha tornara-lhe profunda e rouca a voz e brusca a forma de falar. As maçãs do rosto altas, a queixada forte e o nariz direito eram testemunho da sua ascendência aristocrática, mas o corte sóbrio, quase tosco, dos cabelos e a barba nunca completamente domada pela navalha mostravam a austeridade do soldado e a sua familiaridade com o cansaço. Por causa do seu apelido, mas também pela cor ambarina dos olhos e por uma certa expressão rapace do olhar na iminência do combate, era conhecido em todos os destacamentos a sul do Tauro como «o comandante Águia». Estava naquele momento a prender o gládio ao cinturão, uma arma obsoleta, herança duma estirpe antiga que se recusava a abandonar e substituir por uma arma convencional. Muito pelo contrário, trazia sempre outro gládio pendurado na sela do cavalo e não era raro dizer que com dois daqueles podia fazer frente às espadas mais compridas. — O canto do galo numa cidade cercada é um bom augúrio — afirmou enquanto um impedido lhe prendia nos ombros a capa vermelha, insígnia do seu posto. — Se até ele conseguiu sobrevir à fome que por aí anda à solta, também nós havemos de sobreviver. — Aproximou-se da edícula dos lares e aí depositou uma oferenda, pequena, mas extremamente valiosa numa época de tamanha penúria (um punhado de farinha de espelta aos espíritos dos seus antepassados) e preparou-se para sair. A voz doce da mulher deteve-o: — Marco. — Clélia. O que te faz andar a pé tão cedo? — Vais-te embora sem sequer te despedires de mim? — Não te queria acordar. A noite passada ficaste acordada até muito tarde e dormiste mal. — Estou preocupada. É verdade que o imperador quer ir ao encontro do Persa? 14


Marco Metelo sorriu. — É incrível como as mulheres conseguem sempre descobrir as notícias que nós mais desejamos manter em segredo. Foi a vez de Clélia sorrir. — O imperador tem uma mulher, que tem damas de companhia, que têm amigas… — É verdade. — Então? — Receio que sim. — Vai? — É muito provável. — Mas porquê? — Disse que, pela paz, vale a pena arriscar a vida. — E tu? Não vais fazer nada para o dissuadir? — Se me pedir a opinião, nesse caso, dar-lha-ei e tentarei fazê-lo mudar de ideias. Mas, depois de ter tomado a sua decisão, o meu lugar será ao seu lado. Clélia baixou a cabeça. — Talvez pretenda apenas ganhar tempo. O Galieno encontra-se em Antioquia. Em marcha forçada, poderia chegar cá numa questão de dias e libertar a cidade. — Metelo levantou-lhe o queixo e reparou que tinha os olhos inundados de lágrimas. — Clélia… não sabes que uma mulher despedir-se do marido a chorar é sinal de mau agoiro? Clélia tentou secar os olhos. Nesse preciso instante, ouviu-se o barulho de pequenos passos que desciam apressadamente as escadas e uma voz que chamava: — Pai! Pai! — Tito! Que estás aqui a fazer? Volta já para a cama! — Tinhas prometido que me levavas contigo à palestra. Marco Metelo abaixou-se para olhar o rapazinho nos olhos. — O imperador mandou chamar-me. É ele o pai de todos nós, meu filho, e quando nos chama, temos de acorrer à sua presença. Agora volta para a cama e tenta dormir. O pequeno assumiu repentinamente uma expressão séria. — Tu vais-te embora com o imperador e vais deixar-me sozinho. Foi a vez de o rosto de Marco Metelo ficar taciturno. — Mas que estás tu para aí a dizer? Eu vou voltar, podes ter a certeza. Prometo-te que antes do anoitecer estarei de regresso. E tu sabes que um romano nunca falta à palavra dada. — Beijou a mulher em lágrimas e afastou-se. Na rua, de cada lado da porta de entrada, esperavam-no os seus ajudantes de campo, os centuriões Élio Quadrato e Sérgio Balbo. O primeiro era italiano, de Priverno. O segundo, espanhol, de Sara15


goça. Ambos apresentavam no rosto as marcas do tempo e das inúmeras batalhas travadas em todos os cantos do império, rostos que pareciam esculpidos na rocha, sobrancelhas bastas, barba hirsuta. Quadrato usava o cabelo, já com entradas, muito curto, era alto, corpulento; Balbo era mais baixo, de pele escura, mas com os olhos claros e um nariz achatado que testemunhava a sua paixão pelo pugilato. Metelo colocou o elmo, atou os cordões debaixo do queixo, em seguida trocou com ambos um olhar propositado e disse: — Vamos. Percorreram as ruas ainda desertas e silenciosas da cidade a passo rápido, cada um absorvido nos respectivos pensamentos, cada um com o coração pesado. O canto do galo tornou a ecoar, e o sol inundou de luz a rua que percorriam, fazendo brilhar o pavimento de basalto e alongando as suas sombras até às paredes das últimas casas que haviam deixado para atrás. Num cruzamento, depararam-se com um outro grupo reduzido de oficiais que, como era óbvio, se dirigiam ao mesmo ponto de encontro. Marco reconheceu um companheiro. — Salve, Lúcio Domício! — Salve, Marco Metelo — retribui-lhe o outro a saudação. Continuaram juntos até ao fórum, que atravessaram, chegando ao quartel-general. De lá, avistava-se o caminho de ronda no parapeito das muralhas. O render da guarda: passos cadenciados, ruídos metálicos de dardos contra escudos. Saudações. Ordens secas. — Acabou o último turno — constatou Marco Metelo. — Por hoje — corrigiu-o Lúcio Domício. — Por hoje — confirmou Metelo. Lúcio Domício era supersticioso. Chegaram à entrada do quartel-general. Tinham à sua espera Cássio Silva, comandante da praça, durante anos companheiro de tenda e de armas de Galieno, o filho do imperador. Um piquete de pretorianos apresentou as armas à passagem dos três legados e conduziu-os ao interior. Os centuriões e os restantes oficiais inferiores ficaram lá fora. O imperador Licínio Valeriano recebeu-os pessoalmente, pronto e armado. — Tenho a comunicar-vos que decidi ir ao encontro do Sapor. Já desde a noite passada que um destacamento dos nossos, cerca de cinquenta homens, se encontra na terra de ninguém na margem direita do Korsotes. Na margem oposta do rio, outros tantos cavaleiros persas vigiam e defendem o terreno destinado ao encontro. 16


«O encontro não será improvisado: os nossos plenipotenciários já prepararam os assuntos a serem discutidos de forma a simplificar as coisas o mais possível. «Sapor parece-me disposto a discutir o fim do cerco a Edessa… ainda que a cidade, dada a sua posição geográfica e comercialmente determinante entre a Anatólia e a Síria, seja de extrema importância… a troco dum acordo geral que redimensione as relações entre ambos os impérios e estabeleça uma paz duradoura. Exige-nos que renunciemos a alguns territórios em Adiabena e em Comagena, mas sem pré-condições. Mostra-se disposto a negociar. As premissas pareceram-me boas e decidi ir ao seu encontro. — A tua decisão é sábia, César — aprovou Cássio Silva. Lúcio Domício Aureliano ficara a escutar até àquele momento com uma expressão sombria, apertando com a mão o punho da espada. Era um soldado formidável: em diversas campanhas matara com as suas próprias mãos quase novecentos inimigos e gravara outras tantas incisões na haste do seu dardo. A sua rapidez a desembainhar a espada era tal que os seus homens o apelidavam de manus ad ferrum, «Mão à Espada». Pediu a palavra. — Ouvi dizer que o teu filho Galieno está em Antioquia e que poderia estar aqui com quatro legiões dentro de cinco dias. Para quê corrermos riscos? — Porque temos mantimentos suficientes apenas para dois dias — contrapôs Silva. — Podemos racioná-los e fazê-los durar: um pouco de fome nunca fez mal a ninguém. — Não se trata apenas duma questão de mantimentos — retorquiu o imperador. — Não podemos ter a certeza de que o Galieno venha, nem de que leve apenas cinco dias a chegar cá. Os nossos informadores dizem-nos que há unidades da cavalaria persa ao longo de toda a estrada que vem de Antioquia com o intuito de perturbar as nossas comunicações e cortar os abastecimentos. Não. Não posso deixar de ir ao encontro com o Sapor. Quanto mais não seja, para descobrir as suas intenções. Se pudermos lançar as bases dum acordo durável, tanto melhor. Se eu conseguir ganhar tempo, evitar um ataque em força enquanto não chega o Galieno, já será um bom resultado. O facto de ter sido Sapor a pedir o encontro leva-me a ter esperança. Voltou-se para Metelo. — E tu não nos dizes nada, Marco Metelo? Qual é a tua opinião? — Não vás, César. Valeriano olhou para ele mais surpreso que perturbado. — Porquê? 17


— Porque este negócio não me agrada nada. Tresanda a armadilha à distância. — Tomei todas as precauções necessárias: encontro em campo neutro, em terreno a descoberto. Cinquenta homens de escolta de parte a parte. Não há nada que possa acontecer. Vou, já está decidido. E depois não quero que Sapor pense que o imperador dos Romanos é medroso. Saiu, seguido dos outros oficiais. Metelo aproximou-se dele. — Então eu acompanho-te, César. — Não — respondeu o imperador. — É melhor ficares aqui. — Chegou-se a ele até quase lhe falar ao ouvido: — Quero ter a certeza de encontrar a porta aberta quando regressar. — Então deixa o Lúcio Domício: é o homem mais leal que eu conheço, tem um grande ascendente sobre as tropas e já não é a primeira vez que se encontra numa situação semelhante. Eu ser-te-ei mais útil lá fora. O imperador olhou para Metelo e em seguida para Lúcio Domício, que se mantivera alguns passos atrás, e assentiu. — Então, está bem. Tu virás comigo, e o Lúcio Domício fica na cidade. Queira o céu que seja a decisão acertada… Cássio Silva sorriu. — Quem quer que vá contigo, César, é indiferente. Seja como for, em breve nos tornaremos a reencontrar todos aqui para o almoço, a menos que o Sapor nos convide para a sua luxuosa tenda. Um moço de estrebaria trouxe o cavalo do imperador, e Marco Metelo ordenou que lhe trouxessem o seu. Como era hábito, o impedido já lhe pendurara o segundo gládio no botão do arção da sela. Lúcio Domício ergueu o olhar para os espaldões. Um soldado da torre de guarda desfraldou um pano vermelho: uma, duas, três vezes. — Dão-nos sinal de que está tudo pronto — declarou. Um pano branco adejou do patamar da direita para a esquerda. — …e que está tudo tranquilo. Nada de suspeito. — Muito bem — aprovou Valeriano. — Vamos andando. Clélia conseguira convencer o filho a voltar para a cama e estava a dirigir-se para o terraço cimeiro da casa na esperança de poder ver o que se passava para lá das muralhas quando, subitamente, pressentiu um barulho. Pôs-se à escuta, mas não ouviu mais nada. Talvez tivesse sido impressão sua. Continuou a subir as escadas, mas o barulho tornou a fazer-se sentir, nítido e bem distinguível: parecia provir dos subterrâneos. 18


Clélia foi buscar uma vela a uma prateleira, acendeu-a à chama duma lucerna e desceu ao rés-do-chão. Estava preocupada pelo marido ausente e por se encontrar praticamente sozinha em casa. O que poderia ser? Tentou seguir o barulho: vinha seguramente do subterrâneo. Abriu a porta que dava acesso à cave e começou a descer as escadas segurando a vela ao alto. — Quem está aí? — indagou em voz alta. Respondeu-lhe uma espécie de estertor. — Quem está aí? — repetiu. Pôs o ouvido à escuta e ouviu o barulho de passos arrastados provenientes do outro lado duma pequena porta ferrada. Ao que sabia, a porta ocultava o sistema de drenagem dum antigo balneário termal que se prolongava até ao exterior da cidade e nunca fora aberto desde que ela habitava naquela casa. Encostou o ouvido à porta e continuou a ouvir ruídos, amplificados pelo vazio. Fez deslizar o ferrolho para trás e começou a puxar com todas as suas forças para a abrir, agarrando-se com ambas as mãos à borda. A porta rangeu, chiou e cedeu repentinamente. Clélia recuou com um grito aterrorizado. À sua frente estava um homem seminu e coberto de sangue que a olhou por um instante com uma expressão desvairada e em seguida se deixou cair no chão com um estertor de agonia. Clélia apercebeu-se de imediato que aquele desgraçado não representava perigo algum, uma vez que estava moribundo. Ajudou-o a virar-se para um dos lados, colocou-lhe o xaile debaixo da cabeça para a apoiar e procurou um copo para lhe dar um pouco de água. O homem bebeu e começou a falar. — Fomos traídos… Avisem-nos… Avisem-nos… — Quem és? — interrogou-o Clélia. — Quem és? O homem achava-se no limite da sua resistência. — Apanharam-nos de surpresa e massacraram-nos… Avisem o imperador para não… para não ir ao… É uma emboscada… é uma… — Deixou cair a cabeça, sem vida. Clélia estremeceu, não tardou a ganhar consciência do que acontecera e do que poderia acontecer daí a poucos instantes caso não tentasse deter a máquina mortífera posta em movimento pelo inimigo. Precipitou-se escada acima, atravessou o pátio e saiu de rompante para a rua. A cidade ainda estava deserta, e Clélia recomeçou a correr a plenos pulmões. Os guardas abriram a porta que dava para o exterior, e o pequeno cortejo imperial pôs-se em marcha para se dirigir ao encontro. O Sol 19


encontrava-se já bem acima da linha do horizonte e esculpia com claros-escuros de contrastes violentos o terreno árido e pedregoso que se estendia a todo o redor da cidade, salpicado de moitas de amaranto e terebinto. O Korsotes corria à sua esquerda durante um trecho do percurso, depois curvava para ocidente interceptando a rota que seguiam. A escolta que passara a noite a defender o vau esperava-os ali perto, na terra de ninguém, para os acompanhar até à outra margem, onde se deveriam encontrar com o rei dos Persas, Sapor. Um centurião, que lhes dirigiu um aceno em saudação, e cerca de cinquenta cavaleiros puseram-se em marcha quando o imperador e o respectivo séquito ficaram a menos de cem pés de distância e se aproximaram do baixio. Metelo reparou em qualquer coisa de estranho, e o rosto toldou-se-lhe. Dirigiu um gesto a Balbo. — O que foi, comandante? — perguntou-lhe este a meia voz. — Pernas brancas. — O quê? — Olha com atenção. Aqueles que ali estão ainda ontem usavam calças. São persas, não romanos. — Maldição, e os nossos, onde estão? — O mais provável é que tenham sido massacrados. Avisa o imperador, eu tenho de tentar enviar um sinal ao Lúcio Domício. Ainda vamos a tempo de nos salvar. Balbo aproximou-se do imperador e sussurrou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Metelo orientou o escudo contra o Sol para que este brilhasse em direcção às muralhas. Lúcio Domício, que observava ansiosamente a chegada do pequeno grupo ao baixio, sobressaltou-se ao avistar aqueles sinais: — Per-nas bran-cas! — titubeou. — Pernas brancas! — gritou quase de imediato. — Persas! Traição! O imperador vai cair numa emboscada! Trombeteiros, tocar a rebate! Tocar a rebate! Saia a cavalaria! Rápido! Rápido! Abram a porta! Os legionários de piquete abriram a porta, e o trombeteiro soprou a corneta para reunir a unidade de cavalaria aquartelada a curta distância, junto à residência do imperador. Numa questão de segundos, uma centena de cavaleiros apresentou-se à porta já aberta de par em par e outros tantos se prepararam para acorrer em reforço, porém Cássio Silva, ao comando dum destacamento de pretorianos, interceptou-os. — Quem ordenou a saída? Estão doidos? Quietos, quietos, já disse! 20


— Fui eu que dei a ordem — gritou Lúcio Domício do parapeito. — O imperador corre perigo. Está a decorrer uma cilada, sou eu mesmo quem os vai conduzir até lá, imediatamente! — A responsabilidade pela praça-forte cabe-me a mim — contrapôs Silva —, e ordenar uma saída neste momento, em plena negociação, parece-me uma loucura, seria expor os nossos homens à reacção violenta dos Persas, e, como tal, à morte certa. Não há motivo que nos leve a pensar que o imperador corra perigo. Fechem a porta! Lúcio Domício precipitou-se escada abaixo. — Mas o que estás para aí a dizer? Isso é traição! Terás de prestar contas por uma decisão dessas! Silva dirigiu um gesto aos pretorianos que o acompanhavam. — O legado Lúcio Domício Aureliano ficará detido por insubordinação até nova ordem. Cumpram! E vocês — afirmou virando-se para os soldados do corpo de guarda —, fechem a porta. Os pretorianos rodearam Lúcio Domício, que se viu obrigado a entregar a espada, e levaram-no embora. Os soldados começaram a fechar os pesados batentes da porta. Entretanto, Clélia, chegando ofegante ao pé do corpo de guarda, assistira à cena e sentira o coração cair-lhe aos pés. O marido estava lá fora, alheio a tudo, e no interior parecia estar em curso uma conspiração! Olhou em seu redor angustiada, viu um moço de estrebaria que trazia um cavalo à rédea e não hesitou por um instante sequer. Arregaçou o vestido acima dos joelhos, atirou com o rapaz ao chão com um empurrão e saltou para cima do cavalo, esporeando-o a grande velocidade em direcção à saída. O cavalo empinou-se diante da porta que se fechava, empurrou os batentes com os cascos dianteiros e abriu-se uma passagem para o exterior. Clélia incitou-o mais ainda e lançou-se a galope. O destacamento imperial estava agora próximo do baixio, e a falsa escolta preparava-se para atingir a margem da torrente. Ainda ninguém fizera qualquer movimento, a decisão, contudo, já fora tomada. — Mal cheguem ao outro lado do rio — anunciou Metelo —, nós invertemos a marcha e lançamo-nos em direcção à cidade. A vantagem será suficiente para nos conseguirmos pôr a salvo. — Desde que alguém nos venha abrir a porta — observou Balbo. — Se receberam a nossa mensagem, não percebo por que é que ainda não vieram em nosso auxílio. Ainda não tinha acabado de falar, e já Quadrato o interrompia: — Olhem, devem ter percebido: vem alguém a chegar da cidade. Mas… mas é uma mulher! — exclamou quase de imediato. 21


Marco Metelo virou-se na direcção das muralhas e ficou estupefacto. — É a Clélia! É a minha mulher! — gritou. Entretanto, a falsa escolta começara a atravessar o vau. O imperador fez sinal a Metelo. — Vai! E este lançou-se a galope. Reparou que Clélia cavalgava a toda a brida e gritava qualquer coisa. Encontrava-se agora quase a meio caminho entre o marido e as muralhas de Edessa e continuava a avançar, mas, subitamente, qualquer coisa voou das muralhas em direcção ao alto, descrevendo uma ampla parábola: setas! Silvos cortaram o ar. Uma, duas setas cravaram-se no solo, a terceira atingiu o alvo e Clélia estatelou-se no chão. Metelo precipitou-se para ela, desmontou do cavalo a galope e amparou-a entre os seus braços, ainda respirava. A seta havia-lhe atravessado as costas e saía-lhe pelo peito, o vestido estava completamente ensopado de sangue. Metelo apertou-a contra si, chorando de raiva e de dor, beijando-lhe os lábios já exangues, a testa, os cabelos. — É uma armadilha — murmurou Clélia. — A escolta foi massacrada…. O Silva é… é… Suplico-te, salva-te, vai ter com o nosso filho. Está sozinho… — Irei ter com ele. Prometo-te. Clélia reclinou a cabeça e desfaleceu. Naquele momento, Marco Metelo sentiu-se morrer com ela. Ergueu o olhar para a porta de Edessa, obstinadamente fechada, para as muralhas, e avistou um manto vermelho: seguramente o de Silva. Virou-se para o baixio e verificou que o combate se encarniçava, o imperador estava cercado! Ao ver aquela cena, Metelo recompôs-se, recuperou o sangue-frio e a determinação. Atirou um punhado de terra para cima do corpo da mulher, como uma sepultura simbólica, engoliu as lágrimas e montou a cavalo, esporeando-o a um ritmo desenfreado até à margem do Korsotes. Irrompeu entre as fileiras dos guerreiros persas que compunham a falsa escolta brandindo duas espadas, uma em cada mão, e atirou dois ao rio, à direita e à esquerda, em seguida atacou os outros com uma violência assustadora. Arremetia contra todos os lados, despedaçando, trespassando, mutilando, partindo ossos e crânios, abrindo caminho em direcção a Valeriano, que continuava cercado. De todos os lados chegavam mais guerreiros persas, e Metelo compreendeu que lhe restava muito pouco tempo para conseguir abrir caminho para o imperador fugir. Porém, ao voltar-se, verificou que 22


Valeriano estava a ser projectado do cavalo e caía na água por entre um emaranhado de inimigos. Gritou: — Balbo, Quadrato, aqui! Os dois centuriões postaram-se a seu lado como dois mastins, ergueram-se como duas torres abatendo com a ajuda dos escudos todos os que se aproximavam, trespassando com as espadas todos os que lhes apareciam pela frente, pisando e imobilizando com a ourela inferior do escudo os que estavam caídos no chão. Valeriano defendia-se corajosamente, com uma energia inacreditável para a sua idade, mas era obrigado a enfrentar a corrente vorticosa do rio e, em simultâneo, a defender-se dos golpes dos inimigos. Perdeu o equilíbrio e estava prestes a ser morto por um persa que levantava nesse momento a lança. Contudo, Metelo, no mesmo instante, atacou-o pelas costas e cortou-lhe ambos os braços com dois golpes aplicados numa sucessão fulminante, em seguida atirou-o para a corrente e colocou-se ao lado do imperador. Protegido por Balbo e Quadrato, ajudou-o a montar no seu cavalo, bateu no dorso do animal com a prancha da espada, e o puro-sangue lançou-se a toda a brida na direcção da cidade. Valeriano cavalgava a grande velocidade, consciente de que os seus homens estavam dispostos a sacrificar-se para lhe salvarem a vida, determinado em mandar sair de Edessa todas as forças disponíveis para acorrerem em seu auxílio e fazerem pagar ao Persa a sua falsidade, mas viu um destacamento de inimigos surgir repentinamente do desfiladeiro à sua direita pelo qual corria o rio e dirigir-se para ocidente cortando-lhe o caminho para a cidade. Orientou o cavalo no sentido oposto na esperança de conseguir chegar a algum dos seus postos avançados ao longo da estrada de Nisibis, mas uma linha de tropas de infantaria deteve-se subitamente à sua frente, como se saída de debaixo do solo, e barrou-lhe a passagem. Valeriano não abrandou por um instante sequer e, ao invés, impulsionou o cavalo a descrever um salto impressionante, passando por cima da linha dos soldados. Foi aterrar do outro lado e esporeou o animal ainda com mais força, convencido de já se encontrar a salvo, já a imaginar como haveria de vingar o sangue dos seus valorosos combatentes, mas os seus pensamentos foram de imediato truncados ao avistar uma multidão imensa de cavaleiros e soldados de infantaria que emergia do perfil das colinas à sua frente. Era Sapor em pessoa, por entre o adejar dos estandartes purpúreos, ao comando do exército persa que se estendia numa enorme frente, impedindo todas as passagens e todos os caminhos. 23


O imperador dos Romanos compreendeu que para ele já não havia salvação e voltou para trás, na direcção do vau, para morrer com a espada em punho na companhia dos seus homens, para encerrar com uma morte digna uma vida irrepreensível, contudo, quando se preparava para se lançar para a peleja encarniçada que continuava a ser travada no vau, as trompas soaram, e todos os soldados persas bateram em retirada, deixando os romanos sozinhos no centro dum amplo cerco de homens armados. Ofegantes, exaustos, cobertos do sangue de inúmeras feridas, os soldados do reduzido destacamento preparam-se para receber o imperador que não conseguira pôr-se a salvo. Marco Metelo Áquila saiu do rio e alinhou os seus homens ao longo da margem para enfrentarem o seu destino.

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O_Imperio_dos_Dragoes