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ÍNDICE

INTRODUÇÃO — A origem da crise . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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Dubai: ascensão da finança islâmica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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O Corão na banca: não é só o lucro que interessa. Clientes e gestores arriscam em conjunto. As diferenças profundas relativamente à finança ocidental.

A guerra contra o terrorismo: um conflito suicida . . . . . . . . . . . . .

37

O apetite hegemónico dos americanos. A difusão do capitalismo islâmico após a queda do Muro de Berlim.

A contra-cruzada do fundamentalismo islâmico . . . . . . . . . . . . . . .

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A guerra de libertação económica face ao Ocidente. As analogias com as cruzadas do séc. XI mas agora com inversão dos papéis dos intervenientes. O biombo da religião.

Sangrar a economia americana: o sonho de Bin Laden torna-se realidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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A Al-Qaeda quer ferir a economia americana no seu coração. E consegue. A desregulamentação facilita a economia ilegal, os custos insustentáveis da guerra causam a baixa das taxas de juro e favorecem a disseminação do crédito.

Os efeitos devastadores do Patriot Act . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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A lei contra a lavagem de dinheiro sujo em dólares põe os bancos americanos em crise e favorece os bancos europeus. A irresistível ascensão da máfia calabresa. A profunda diferença entre Bush e o Johnson dos tempos do Vietname

A arma do petróleo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

78

Regresso ao pesadelo de 1973. As flutuações do preço do crude ajudam os especuladores. A quem interessa um dólar enfraquecido. Mas o mundo tem fome por culpa da nova classe que dirige a finança mundial.

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O regresso do Grande Gatsby . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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Londres, o novo paraíso fiscal. Os novos-ricos jogam ao Monopólio com o dinheiro dos outros. Os fabulosos lucros dos bancos, mas apenas no papel.

Os fora-da-lei da globalização . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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O escândalo Madoff e a interminável cadeia dos derivados. O fim dos fabulosos anos loucos. O efeito dominó. Arrogância e leviandade.

A política do medo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 110 Hoje como nos tempos da Guerra Fria: a falsidade do poder. Por um lado aterrorizam-nos com a Al-Qaeda, por outro vendem-nos a ilusão de uma riqueza fácil. A indústria do terrorismo.

Las Vegas e Dubai: «Espelho meu, espelho meu! Há neste reino alguém mais bela do que eu?» . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 120 Uma é a capital dos jogos de azar, a outra a capital da finança de assalto globalizada. A crise acomete ambas, as luzes apagam-se. Acabou a festa.

O perigo do proteccionismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131 A crise dos anos 30. É difícil resistir ao mantra do proteccionismo: o inimigo é o outro, aquele que é diferente de nós. Um novo léxico tribal.

Epílogo — Um novo modelo económico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137 Ardem a riqueza ilusória e a riqueza real. O absurdo de um sistema que comercializa o risco. O irracional apoio generalizado aos bancos. Como sair desta situação? Ajudar a economia real, abolir os derivados.

AGRADECIMENTOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 147 NOTAS BIBLIOGRÁFICAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 149

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INTRODUÇÃO A Origem da Crise

Onde é que foi parar todo este dinheiro? O terrorismo e a economia: são os temas mais debatidos nestes últimos anos. E se entre eles existisse uma relação que vai muito para além das primeiras páginas dos jornais? Se a guerra contra o terrorismo, instaurada por George W. Bush imediatamente a seguir ao 11 de Setembro, tivesse de alguma maneira contribuído para a crise do crédito? São perguntas desconcertantes que, nos últimos tempos, muitas pessoas fazem a si próprias. A Administração Bush recebe da administração de Bill Clinton um pequeno excedente orçamental e Barack Obama — que chega ao poder no meio da pior recessão do pós-guerra — herda uma dívida pública de dez biliões de dólares, igual a 70% do produto interno bruto americano, ou melhor, a 18% da economia mundial. Onde foi parar todo este dinheiro? Duas guerras ainda em curso e um sistema de segurança tão ambicioso quanto inconsistente drenam as finanças do Estado e projectam a América para o grupo dos países com a dívida pública mais elevada a nível mundial. Até há vinte anos atrás, quando os conflitos eram pagos com o erário público e não com a política das baixas taxas de juro, nada disto aconteceria. Como é possível esquecer a histórica decisão de Lyndon Johnson, nos anos 60, de aumentar a pressão fiscal para fazer frente aos elevados custos da guerra do Vietname? Foi uma manobra necessária e, na época, até mesmo profundamente impopular. Na verdade, a ninguém agrada financiar do seu próprio bolso a máquina militar, ainda que o objectivo seja destruir um super13


-terrorista como Osama bin Laden ou ver-se livre do arquiditador Saddam Hussein. A todos aqueles que se questionam por que razão estas guerras do Iraque e do Afeganistão, que parecem ser intermináveis, não suscitaram um movimento de oposição semelhante àquele que pôs termo à guerra do Vietname, é possível responder que até ao momento em que a despesa militar não atinge directamente o nosso bolso ou prejudica a nossa liberdade, obrigando-nos a ir para a frente de combate, os conflitos armados permanecem virtuais, vividos exclusivamente através dos filtros dos meios de comunicação social.

O medo do terrorismo Nem mesmo os atentados terroristas em Madrid e em Londres, ambos ligados ao conflito iraquiano, nos fizeram sentir suficientemente próximos para nos envolvermos. Portanto, até mesmo a ameaça do terrorismo nos toca apenas de raspão, quando as imagens de sangue e morte espreitam furtivamente nos nossos ecrãs ou quando os políticos as usam para nos assustar. Após o atentado de Novembro de 2008 em Mumbai, o ministro dos Negócios Estrangeiros italiano declara que o verdadeiro perigo não está na economia mas no terrorismo. Os jornais e os telejornais italianos reforçam a dose lembrando que sete compatriotas foram feitos prisioneiros nos hotéis ocupados pelos terroristas. E a Itália ficou de tal modo esmagada pelo medo do fundamentalismo islâmico que chegou ao ponto de confundir dois mitómanos marroquinos com super-terroristas. O motivo era igualmente ridículo: inculcar nos filhos com dois anos de idade o culto de Osama bin Laden e sonharem fazer explodir um supermercado suburbano com bombas inexistentes. O medo do terrorista tornou-se um instrumento muito eficaz para distrair a atenção do cidadão ocidental relativamente ao caos económico dos últimos vinte anos e da crise que está a mergulhar o capitalismo numa nova Grande Depressão. Infelizmente, a ligação entre a destruição e a economia não se circunscreve apenas a esta manipulação. A guerra contra o terrorismo promovida pelos neoconservadores americanos, na verdade, contribuiu para a crise 14


do crédito. Como? Para podermos dar resposta a esta pergunta vamos revisitar as fases mais importantes. A queda do Muro de Berlim inaugura a política do crédito fácil e barato. O Presidente da Reserva Federal, Alan Greenspan, é o seu artífice. A deflação facilita o processo de globalização, ou melhor, a colonização do mundo pela finança ocidental. O Estado retira-se do campo económico e deixa ao mercado financeiro o encargo de gerir o grosso da economia. E Alan Greenspan torna-se mais poderoso do que o Presidente Clinton. É ele que detém as rédeas da economia mundial, cujo crescimento parece ser imparável. Sempre que a crise económica bate à porta da aldeia global — desde a crise do rublo até à mini-recessão americana do ano 2000 — Greenspan baixa as taxas de juro. Trata-se de uma estratégia insensata porque, longe de resolver os problemas estruturais da globalização, adia a explosão da crise, aumentando o seu alcance. Também o cidadão, em certo sentido, perde poder enquanto parte integrante do Estado; porém, ninguém se dá conta disso. A diminuição da carga fiscal, cavalo de batalha de Bush pai, de Bush filho e de Bill Clinton, faz com que a participação económica do contribuinte seja cada vez menor nos negócios do Estado, sendo assim natural que se desinteresse da sua gestão. E, depois, os anos 90 e grande parte dos anos 2000 caracterizaram-se pela abundância porque vivemos sob a bandeira do crédito fácil e barato; consumo, investimentos, tudo cresce e ninguém tem vontade de criticar um Estado que criou todo este paraíso. Porém, a euforia esconde uma realidade muito diferente: um dos pilares do contrato social — segundo o qual o Estado deve responder perante os cidadãos quanto à forma como gere o seu dinheiro — está a ruir.

Duas guerras e muitas dívidas Após 2001 a política das taxas de juro baixas é, ainda e principalmente, oportuna para o governo americano, que em apenas dois anos se viu prisioneiro de duas guerras que a Administração previra serem muito rápidas e, por essa razão, de baixo custo. Na realidade, estes conflitos pesam fortemente na despesa pública. 15


O endividamento no mercado financeiro através da venda de títulos do tesouro permite evitar a impopular manobra fiscal do Presidente Johnson, isto é, aumentar os impostos ao povo americano. Mas a angariação do dinheiro não é fácil, o Estado tem de competir com o sector privado e, por essa razão, a Administração Bush pressiona a Reserva Americana para manter a política de impostos baixos, para além do que seria admissível. Na verdade, esta torna os títulos do tesouro americano mais competitivos face aos da indústria privada. A China e o Japão tornam-se muito rapidamente os maiores subscritores da dívida pública dos Estados Unidos. Portanto, na base desta guerra particular, existe uma política deflacionista, luxo a que a nação americana não se pode entregar, política mantida também na segunda metade dos anos 2000, quando já é claro que ela alimenta a bolha financeira. A política deflacionista de Greenspan, por conseguinte, financia em primeiro lugar o ilusório bem-estar da globalização e depois a guerra contra o terrorismo. Isto explica a origem da crise do crédito. Mas se Greenspan cria a bolha durante os anos noventa, o financiamento das duas guerras, após o 11 de Setembro, começa por fazê-la inchar e em seguida vai fazê-la explodir. A descida das taxas de juro, imediatamente a seguir à tragédia activa, o mecanismo perverso dos empréstimos subprime inflaciona os preços do mercado imobiliário na América e no resto do mundo; dá vida, em suma, à espiral do endividamento da banca. As estatísticas mostram que entre 2001 e 2007 os preços dos imóveis registam, um pouco por toda a parte, um crescimento excepcional.

Quem paga esta loucura A população americana está, naturalmente, a pagar esta loucura económica, embora durante quinze anos tenha sido mantida na ignorância sobre a crise do mercado global e durante sete anos tenha ignorado que Pequim e Tóquio financiavam a guerra «ideológica» dos neoconservadores, enquanto Washington ia acumulando uma dívida pública nos países em vias de desenvolvimento. E são ainda os cidadãos americanos que asseguram o pagamento de toda a dívida 16


da banca: se bem que quebrado, o contrato social está ainda de pé e quem responde pelos erros dos políticos é a população. Assim, quando a bolha explode, em Setembro de 2008, e quando a recessão bate à porta, no início de 2009, para salvar os bancos e sustentar duas guerras, Washington usa o dinheiro dos contribuintes, o pouco que o erário público possuía e aquele que ainda faltava arrecadar, penhorando, em suma, a riqueza das gerações futuras. Também o contribuinte da aldeia global paga estes erros. Os Estados Unidos são a locomotiva económica do mundo e, deste modo, o «incêndio» em Wall Street arrasta todo o planeta para a crise económica. Mas não acaba aqui. Para impedir a pressão social e a contracção da economia, a nova Administração americana joga a cartada do proteccionismo. O resto do mundo dá uma resposta análoga. Assim, o espectro das taxas alfandegárias ameaça estrangular o comércio internacional. Como é que a destruição daquelas duas torres perante os olhos do mundo pode ter desencadeado uma reacção em cadeia deste alcance? Como é que conseguiu pôr em risco o primado da economia ocidental e como é que fez precipitar toda a economia mundial na recessão? Este é um dos problemas que nos propomos abordar neste livro. Actualmente a América é muito menos poderosa do que há dez anos atrás. Muitos estão convencidos de que a era da sua supremacia económica está a chegar ao fim e que, após a grande recessão, quando o mundo voltar a erguer a cabeça, a locomotiva económica estará no Oriente, na China, e que o epicentro da finança mundial se vai encontrar à sombra dos minaretes. As finanças islâmicas, embrionárias até ao 11 de Setembro, são hoje o sector financeiro mais dinâmico do mundo, aquele que tem a taxa de crescimento mais elevada. Irá Barack Obama, o novo e mediático Presidente americano, conseguir alterar este processo? Esta é a segunda pergunta para a qual vamos tentar encontrar uma resposta.

O sonho de Bin Laden consiste em destruir a economia ocidental Paradoxalmente, muitas destas mudanças que estão a acontecer parecem coroar o grande sonho de Osama bin Laden: destruir a eco17


nomia americana e ressuscitar o império islâmico, o Califado. Em 1998, após ter sido expulso do seu próprio país e também do Sudão, país que adoptara, Bin Laden lança a sua campanha anti-sionista e anti-americana, identificando no inimigo longínquo, a América e os seus aliados ocidentais, a causa dos problemas do mundo árabe e muçulmano. O objectivo consiste em enfraquecer Washington e abandonar a política de apoio aos regimes oligárquicos muçulmanos, sendo o primeiro a Arábia Saudita. Só então a revolução da Jihad triunfará. Trata-se naturalmente de um plano fantástico e fantasioso, como fantástico e fantasioso é qualquer movimento da Jihad que gira em torno da Al-Qaeda. Antes do 11 de Setembro poucos o conhecem e quem acredita nele fá-lo por um acto de fé, irracionalmente. Porém, a oito anos de distância, o sonho de Bin Laden está a tornar-se realidade, mas não foi o Profeta a realizá-lo, nem o movimento anti-imperialista, o al-qaedismo, nascido das cinzas da Al-Qaeda na sequência da queda do regime dos talibãs. Fazer a economia americana e a mundial ajoelharem-se foi o resultado da loucura cometida com a guerra contra o terrorismo. Também nós, cidadãos indiferentes do estado neo-liberal, somos responsáveis, nós que, em troca de taxas de juro cada vez mais baixas e do crédito fácil e barato, deixámos que banqueiros como Greenspan e políticos como Bush ou Blair baralhassem o jogo e, principalmente, que as suas mentiras ficassem impunes. Paradoxalmente, somos também vítimas da nossa ingenuidade porque nos deixámos assustar com a propaganda do medo: como esquecer as declarações de Colin Powell nas Nações Unidas, as de Bush e Blair na véspera da invasão do Iraque e as conferências realizadas por estes dois com Aznar e Berlusconi sobre o modo de combater a ameaça do terrorismo islâmico? Deveríamos ter intuído então que um bando de fanáticos religiosos não seria certamente capaz de destruir o nosso mundo, isto é, o capitalismo ocidental, mas que quem o geria, os gigantes de Wall Street, eles sim tinham esse poder. A génese da crise do crédito que actualmente ameaça a existência do sistema capitalista e a nossa vida quotidiana deve, portanto, ser procurada nas decisões tomadas na sequência do 11 de Setembro e na indiferença dos cidadãos do mundo ocidental face a uma classe política que deixou de estar ao seu serviço. 18


Se, na verdade, queremos sair desta crise que, embora se manifeste através da economia, é sintoma do mal-estar existencial que aflige a aldeia global, devemos ter a coragem de admitir os nossos erros. Só assim encontraremos a força para voltar a participar activamente na vida política e, se for necessário, também a coragem de renovar totalmente a classe política que nos representa, não uma mas tantas vezes quantas as necessárias para conseguirmos alcançar o nosso objectivo. A América já fez uma tentativa e a história dir-nos-á se funcionou. Na verdade, existe o risco de que a campanha eleitoral de imagem que levou à Casa Branca o novo Presidente não se traduza, no curto prazo, em mudanças reais não só na política externa como também no sector da economia e das finanças. Em suma, este é o perigo de eventuais erros estratégicos nas relações com países muçulmanos como o Irão e a Síria e os salva-vidas incondicionais das pesadas instituições bancárias de Wall Street dão um último aperto à tenaz que nos aprisiona. Mas esta revolução, para ter êxito, deve ocorrer em primeiro lugar na nossa mente. A lição de vida que deve ser retirada do grande fiasco da economia globalizada, à sombra do chapéu da política do medo, é que a sociedade civil não pode deixar-se enganar por quem a representa e sempre que isto acontece é nosso dever rebelarmo-nos. Enquanto os políticos nos aterrorizavam, as finanças desbaratavam as nossas economias, esta é que é a dura verdade. E, se quisermos que isto não volte a acontecer, devemos ter a coragem de dizer basta e virar as costas aos grandes prestidigitadores do nosso tempo, a classe política, que até hoje tão mal nos tem representado.

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O_Fim_de_um_Mundo