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PROFECIA DE O

Verá a luz no inferno gelado, onde os mares se confundem com o firmamento, e crescerá no espinhaço da terra onde os cumes tocam os astros. Alimentar-se-á da força da ursa, crescerá sob o manto cálido da foca impregnando-se da sabedoria da loba e no fim adoptará a astúcia da raposa. A eleita, filha da terra, surgirá da terra que a amará e acolherá no seu seio. Prisioneira da sua tibiez, permanecerá cega e surda, embalada pelas mães escuras e envolvida em suas doces mentiras.


1 A NOITE DO IMBOLC

Anaíd dormia descuidadamente, com os braços estendidos e o semblante plácido, sem se importar com a luz que entrava pelas portadas da janela. À sua volta, no quarto de tectos altíssimos e paredes caiadas mil e uma vezes, respirava-se a atmosfera que precede as migrações sazonais. Roupa empilhada, livros espalhados, sapatos em fila, tudo pronto para ser transferido para a enorme mala que, ainda vazia, aguardava a sua vez aos pés da cama. Selene, com o cabelo revolto e uma caneca de café fumegante na mão, entrou furtivamente, seguida de uma figura resguardada numa peliça de lã. Com olhos marotos, inclinou-se sobre Anaíd e soprou-lhe ao de leve no ouvido. — Bom-dia. Anaíd, a sonhar, deu uma palmada na própria orelha e Selene sorriu. Era o seu jogo de sempre. Tornou a soprar suavemente no lóbulo, o que fez com que a filha, num movimento brusco, rodasse sobre si própria e se destapasse. Contemplou-a com uma mescla de melancolia e orgulho. A sua pequena tinha crescido depressa de mais. Assim a dormir, com as pontas dos dedos a roçar os lábios entreabertos, ainda conservava um ar de menina desamparada; mas as pernas longas, intermináveis, as ancas arredondadas, a curva do peito, que se movia ao ritmo da respiração, e a pele lisa, elástica, novinha em folha, pertenciam ao corpo de uma jovem. 11


Selene sussurrou ao ouvido de Anaíd: — Acorda, bela adormecida. — Deixa-me — ouviu-se por única resposta. — Não estou. E a corroborar o que dizia, tapou a cabeça com a capa nórdica. Mas a mãe continuou a azucriná-la à sua maneira. — O teu príncipe veio despertar-te. — Vai à fava. Então começou a fazer-lhe cócegas sem piedade e, com o dedo indicador, fez sinal à figura muda para que se aproximasse. — Prepara-te — avisou Selene. — Vais receber um beijo de amor. E pousaram-lhe na cara uns lábios brincalhões que lhe foram beijocando o queixo, o nariz, as faces e, no preciso instante em que se aproximavam da boca, Anaíd abriu os olhos e endireitou-se de um salto, com uma expressão de genuína alegria. — Clodia!!! Com efeito, a meiga intrusa não era outra senão a amiga siciliana de Anaíd. A simpática Clodia, engatatona, curtida e boémia. Quinze anos, como ela. Uma bruxa Omar, como ela. Uma jovem do clã do delfim que lhe devia a vida e com quem tinha partilhado um grande perigo em Taormina, sob a lava do Etna, quando ambas ficaram prisioneiras da bruxa Odish Salma. Selene retirou-se prudentemente e deixou-as a sós, abraçando-se e festejando o reencontro. Mais tarde tratariam da mala. Anaíd ainda estava a digerir a surpresa. — A Selene disse-me que não podias vir. — Perder a tua primeira festa de aniversário? Nem que estivesse louca. — Disse-me que estavas ocupada com as aulas — murmurou, enquanto mostrava a Clodia as suas roupas novas. Clodia estava entusiasmada com as compras de Anaíd e embeiçou-se por uma saia curta. — Foi uma excelente desculpa. Desisti do exame de Matemática. Gosto de ti, Anaíd. E adoro esta saia, vou experimentá-la. E tirou as calças num abrir e fechar de olhos. 12


— Queres dizer que vieste até cá para poderes desistir do teu exame asqueroso e rapinar a minha roupa. — Pois claro... Ou julgavas que vinha à tua festa por ser tua amiga? — E quem vai degolar o coelho para lhe ler as vísceras? — Eu, evidentemente. Mas isso será depois. — Depois de quê? — De experimentar todos os teus trapinhos super fashion e de te dar a última lição de maquilhagem. Como é que queres engatar com essa cara? — Mas se acabo de acordar... — Por isso mesmo. Se acabada de acordar tens cara de sono, que cara vais ter à meia-noite? — És impossível! — Vem cá para eu te pintar o risco no sítio devido. — Vem tu primeiro e eu mostro-te uma coisa. Anaíd abriu a janela de par em par e o ar frio dos Pirenéus entrou como um redemoinho, arrastando uma finíssima chuva de folhas e pó que fez Clodia espirrar. — Isso é terrorismo! Não podes abrir a janela deste frigorífico montanhês a uma siciliana de sangue mediterrânico. — Cala-te e olha. E, com um gesto da mão, Anaíd mostrou-lhe a imponente cordilheira pirenaica com os cumes pintados de branco. Contemplaram ambas a paisagem durante uns instantes em que não se ouviu outro som além do crepitar dos ramos agitados pelo vento. Mas Clodia não era capaz de estar calada mais de meio segundo. — Parece um postal. Um postal congelado. — Chiiiiiu. — Este branco... não será neve? — Claro que sim. — Que horror! Tão perto! — É linda. Repara como brilha. A tiritar de frio, Clodia fechou a janela e encarou Anaíd. — Agora percebo porque é que a tua mãe está tão bem conservada. Com esta temperatura... qualquer um. 13


E atiraram-se as duas para cima da cama, lutando por uma camisola azul. Ainda desgrenhada e sonolenta, Selene regressou à cozinha da sua casa de Urt, pôs outra cafeteira ao lume e colocou mais um prato na mesa coberta de oleado amarelo onde, nesse momento, Valeria, Karen e Elena estavam a tomar o pequeno-almoço. Acabavam de aparecer as três juntas, de surpresa, e aquele pequeno-almoço representava, até certo ponto, um reencontro e uma despedida. Karen, que era médica rural e conhecia as estreitas estradas pirenaicas como as palmas das suas mãos, tinha recolhido Valeria, bióloga e matriarca do clã do delfim, com a sua filha Clodia, na estação de Jaca. As duas bruxas sicilianas juntavam-se, assim, à festa de despedida que Anaíd e Selene iam dar nessa noite, antes da partida. — Prova o bolo de pinhões, anda, acabou de sair do forno — tentou-a a bojuda Elena, a bibliotecária, que, com os seus oito filhos e os seus muitos quilos a mais, era a cliente favorita da padaria da aldeia. Valeria, esfaimada depois da longa viagem, chupava gulosamente os dedos cobertos de açúcar. — Se me tivesses dito que na tua terra se faziam destas delícias, a Clodia e eu já cá teríamos vindo mais vezes. Selene sorriu, depenicou um pinhão sem apetite, sorveu o seu café, estremeceu e sentou-se ao pé de Karen, a sua melhor amiga, que, talvez por deformação profissional, com uma rápida olhadela arriscou um diagnóstico. — Estás assustada. Selene assentiu. Valeria, toda energia, pressionou-lhe a mão com força. — Conta connosco. Selene suspirou. — Ninguém poderá saber o nosso paradeiro. Nem sequer vocês. — Quando vão? — Amanhã de manhã. — A Anaíd já sabe? Selene fez estalar a língua. 14


— Evito que saiba demasiadas coisas. Ainda é muito nova, pode pensar que a nossa situação não é desesperada, que se trata de uma simples aventura e que pode contá-la às amigas. Isso seria fatal. Ninguém pôs em dúvida que a situação de Selene fosse desesperada, mas Elena objectou: — A Anaíd é muito madura para a sua idade. — «A sua idade», dizes bem. A qualquer altura pode reagir como aquilo que é, uma miúda de quinze anos — respondeu Selene. — Queres dizer que ainda não está preparada para usar o ceptro do poder? Selene ficou surpreendida com a ingenuidade de Karen. — É claro que não. Foi iniciada há apenas umas semanas. Soube que era bruxa há alguns meses... E era verdade. Tinham acontecido demasiadas coisas num curto espaço de tempo. A morte de Deméter, a grande matriarca e mãe de Selene, havia um ano, às mãos de bruxas Odish. O desaparecimento da ruiva Selene poucos meses depois. A sua busca, a transformação de Anaíd em bruxa, a iniciação e, logo a seguir, a grande revelação: Anaíd — e não a sua mãe, Selene — era a eleita da profecia, a do cabelo de fogo e grandes poderes que todas as bruxas, quer as Odish, quer as Omar, tinham esperado durante milénios para que fizesse inclinar a balança do seu combate, definitivamente. Haviam decorrido apenas umas semanas desde que se dera a grande conjunção astral que anunciava o início do reinado da eleita. E Anaíd, com o seu ceptro do poder, surgido das entranhas da terra, via-se obrigada a fugir, a esconder-se e a fortalecer-se até se sentir capacitada para o empunhar com discernimento e, em seguida, empreender a difícil tarefa profetizada pelos livros antigos: restaurar a paz definitiva exterminando as bruxas Odish, imortais, sanguinárias e inimigas ancestrais das Omar, a quem sangravam em crianças e em jovens para perpetuarem a sua juventude e beleza. Karen sentia grande admiração por Anaíd. — Mas a Anaíd, só neste espaço de tempo, conseguiu aprender tudo o que uma bruxa aprende ao longo de uma vida. Qual de nós foi capaz de efectuar um feitiço de voo sem nunca o ter ensaiado? 15


O_Deserto_de_Gelo