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Dia do Trabalhador*, 2007 Não sabia que o meu filho era capaz de se orientar pelas estrelas. — Coroa Boreal. Lira. Golfinho. O nariz de Sam vai deixando marcas no vidro à medida que a estrada nos leva para fora da cidade, enquanto ele, no banco ao meu lado, enumera as constelações e murmura «Sul», «Leste», «Norte», a cada curva que faço. — Onde foi que aprendeste isso? Sam olha-me com o mesmo ar de há umas noites, quando fui dar com ele no quarto, de fisga na mão, a lançar um pelotão de fuzileiros de plástico, um por um, para cima do telhado do vizinho. — Sou um terrorista — foi a resposta que então me deu, depois de eu lhe perguntar o que julgava estar a fazer. — Onde foi que aprendi o quê? — Isso das estrelas. — Nos livros. — Que livros? — Uns livros. Com Sam, sabia que não iríamos mais longe. A questão é que somos ambos leitores. Não necessariamente por paixão, mas por feitio. Observadores. Críticos. Intérpretes. Leitores de livros (nos últimos tempos, o mais recente do poderosíssimo Philip Roth para mim, e Robinson Crusoe, ouvido em pequenos excertos antes de deitar, para Sam). Mas leitores também de banda desenhada, folhetos turísticos, graffiti de casa de banho, manuais do utilizador e receitas de embalagens de cereais. O material em si não importa. Ler é a nossa maneira de traduzir o mundo para uma língua que possamos, pelo menos em parte, entender. — Norte — diz ele, de nariz voltado para o vidro. Olhamos os dois para a massa escura que surge ao cimo da subida: um monólito rectangular que se destaca de um campo de milho deste nosso Ontário como se fosse o último vestígio de um antigo muro. *

A primeira segunda-feira de Setembro, no Canadá e nos Estados Unidos. (NT)

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— «Mus-tang Drive-in. Fim de Tem-po-rada. Se-ssões pela Noite Fora» — soletra Sam quando passamos pelo anúncio. Chega-se à frente para ver melhor o cowboy de néon montado num cavalo bravo que ao longe nos guia até ao Mustang, como um farol, pelas estradas sem luz. — Já aqui estive — diz. — Lembras-te? — Sim, do anúncio. Com o homem a cavalo. — Eras muito pequeno. — E agora o que é que sou? — Agora? Agora és um homenzinho que lê livros e observa as estrelas. — Não — diz Sam com uma careta. — Tenho oito anos. E lembro-me de coisas, é só isso. Viemos até aqui, o viúvo e o filho, para ver o último filme deste Verão num dos últimos drive-ins do nosso país. O último dos últimos. Tamara — a mãe de Sam, minha mulher — morreu oito meses depois de ele nascer. Daí para cá, as idas ao cinema têm-me sido úteis enquanto pai. Na obscuridade da sala (ou aqui, na do campo de milho), Sam e eu encontramos uma forma de intimidade isenta dos riscos do diálogo. Há nisto qualquer coisa de vincadamente masculino: a proximidade que pais e filhos descobrem em actividades passivas e em grande medida silenciosas, como ir à pesca ou assistir a jogos de basebol. O tipo da bilheteira hesita ao ver Sam no banco da frente. O filme principal desta noite — um arrepiante thriller de Hollywood que tem vindo a sorver os últimos dólares descontraídos do Verão — é para maiores de dezasseis. Estendo-lhe uma nota que chega e sobra para dois bilhetes de adulto. O tipo pisca-me o olho e faz um gesto a mandar-nos seguir, mas não me dá o troco. O parque está à cunha. O melhor lugar vago é em frente da cafetaria, já muito para o lado. Sam queria experimentar mais para trás, mas eu sei que é para aí que vão os miúdos da secundária. Erva e whisky de centeio, trazidos à sorrelfa, adolescentes dos dois sexos e tudo o que eles conseguem fazer pela calada: não é a pensar na formação moral de Sam que prefiro ficar por aqui com o resto das pessoas respeitáveis, mas sim na inveja saudosa que eu teria por estar tão perto de tais delitos. — Vai começar! — anuncia Sam quando os projectores se apagam. Terei de ir buscar os nossos banquinhos e o saco-cama a cheirar a naftalina ao porta-bagagem apenas alumiado pela luz dos anúncios. Avanço encostado às portas do automóvel sem tirar os olhos do ecrã. Para mim, o melhor de vir a um drive-in é isto: o venerável anúncio a comida de plástico. O cachorro quente a dançar, o sorriso lascivo do 10


batido, o coro das batatas fritas… E há qualquer coisa no sapateado da rodela de cebola frita que me comove sempre. Monto o banquinho de Sam, depois o meu. Aninhamo-nos um no outro debaixo do saco-cama. — «De-se-ja-mos-lhe Um Bom Fil-me!» — diz Sam, lendo as palavras projectadas no ecrã. As filas de automóveis estacionados aguardam a transição final do céu, de roxo para negro. Uma buzinadela desgarrada algures à nossa direita — de uma carrinha em festa, a abarrotar de pequenos jogadores de basebol viciados em doces — provoca risos abafados nos veículos em redor. Mas há qualquer coisa de nervoso nestes sons: um berro de alarme, uma resposta de hilaridade vazia. Para espantar esta sensação, também ensaio uma gargalhada. Uma gargalhada de pai. Assim que a liberto, sobe-me ao nariz a conhecida mistura de gases de escape, pipocas e hambúrguer esturricado. A par de um outro cheiro. Que lembra o cheiro a medo. Ténue como o perfume deixado na almofada pelo ocupante anterior de um quarto de motel. O filme começa. Cena de terror inicial: é de noite e uma figura sombria persegue a sua presa através dos campos. Entrevêem-se movimentos aflitos, braços e botas em fuga, chocalham chaves num cinto. A imagem salta constantemente das passadas seguras do assassino para a correria horrorizada do fugitivo, que cai, soluça, avança de gatas. Um breve plano de mãos encharcadas, talvez de óleo, ou lama, ou sangue. O grande plano de um grito. Não sabemos quem é esta pessoa, esta vítima evidente, mas reconhecemos o contexto de esforço inútil. É o pesadelo que já todos tivemos, no qual as pernas se recusam a obedecer e o chão, transformado numa pasta negra, nos engole. E atrás de nós vem a morte. Anónima e implacável, superior a tais obstáculos. Estamos tão perto do ecrã que, para olhar para outro lado, tenho de me voltar por completo no meu banquinho. Uma plateia de olhos. Que me fitam por trás dos pára-brisas polvilhados de mosquitos. Endireito-me de novo e deixo a cabeça descair para trás. A cúpula outonal da noite, imensa e fria, permite-me respirar. Por um instante. Depois, até as estrelas me apertam. — Pai? Sam deu pela minha agitação. Obrigo-me a olhar em frente, para os actores no ecrã. Enormes, incontornáveis. As suas falas vêm de todos os lados, como se nascessem dentro de mim. Em breve, o filme já não é um sonho mau qualquer, é um pesadelo muito específico que já sonhei mil vezes. 11


Estou de pé e nem percebi que me tinha levantado. Cai-me o saco-cama dos joelhos. Sam olha para mim. Neste momento, com o rosto meio na sombra, consigo ver nele a mãe. É o que lhe confere doçura, aquela sua vulnerabilidade franca. Vê-la nos traços dele dá-me a curiosa impressão de ter saudades de alguém que ainda aqui está. — Queres alguma coisa? — pergunto. — Tater Tots?* Sam acena que sim. E, quando lhe estendo a mão, aceita-a. Esgueiramo-nos até junto do projector. O cone azul que dele jorra e o laranja momentâneo de fósforos a acenderem cigarros nos bancos de trás — a par do brilho mortiço do quarto crescente — são as únicas fontes de luz de que dispomos. As colunas penduradas nas janelas de todos os automóveis emitem o mesmo diálogo. «É ele.» «Ele quem?» «Aquela coisa debaixo da tua cama. Os olhos que te espiam durante a noite de dentro do guarda-fato. A escuridão. O que mais te apavorar…» Alguém abre a porta da cafetaria e um triângulo de luz banha-nos os pés. Sam corre para não sair dos seus limites. Imagina que, se pisar a parte não iluminada do saibro até entrar, será sugado para outra dimensão. Coisa que nos acontece de qualquer modo. O barzinho do Mustang não pertence à geração de Sam nem à minha, mas a um tempo em que os homens usavam gravata para comprar hambúrgueres de queijo. Vejam-se os anúncios nas paredes: famílias radiosas dos anos sessenta saem dos seus Fords de cauda de peixe e vão comprar guloseimas para satisfazer a adorável voracidade dos filhos, decalcados do famoso Beaver Cleaver. Quase nos tira o apetite. Mas não tira. Na verdade, até precisamos de uma bandeja. Na qual empilho balsas de cartão carregadas de Tater Tots, cachorros quentes embrulhados em folha de alumínio, rodelas de cebola tão gordurosas que o prato de papel onde as servem se torna transparente, e ainda uma gasosa gigante com duas palhinhas. Porém, antes de sair, temos de pagar. A rapariga da caixa fala sozinha, para o vazio. — Nem pensar — diz, com a boca ao lado. — É que nem pensar! — Reparo então no fio que lhe sai de uma orelha. E no micro preso ao queixo. — A sério?

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Marca de um género de croquetes de batata muito conhecida no Canadá e nos Estados Unidos. (NT)

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— Espero por ti no carro — diz Sam, tirando um cachorro quente da bandeja. — Cuidado com os carros. — Estão estacionados, pai! Lança-me um sorriso de piedade antes de desarvorar porta fora. Cá fora, depois de pagar, a escuridão repentina deixa-me cego. Um Tater Tot resvala da bandeja e vai esmagar-se debaixo do meu sapato. Onde é que deixei a porcaria do carro? O filme dá-me uma ajuda. O ângulo do qual o estava a ver. Um pouco mais para a frente, mais para o lado. Lá está ele. O meu velho Toyota. Devia mesmo pensar em trocá-lo, mas ainda não sou capaz. Por causa do batom e do rímel que Tamara deixou no porta-luvas. De cada vez que o abro para tirar os documentos, rebolam-me para a mão e trazem-ma de volta. Sentada no banco do passageiro, a baixar o espelho de cortesia para os retoques de última hora. Quando chegávamos aonde quer que fôssemos, virava-se para mim e perguntava: — Estou bonita? Eu respondia sempre que sim, e era verdade. Fixo-me na silhueta do Toyota, mesmo ao lado da carrinha dos miúdos do basebol, e avanço a tactear nessa direcção. Agora estão calados. Presos pelo suspense do filme. «Porque é que ele está a fazer isto? Porque é que não nos matou quando teve a oportunidade?» Cai-me a bandeja das mãos. Não foi o filme. Foi o que vi diante do carro. Estão lá os banquinhos. E o saco-cama. Mas o saco-cama está no chão. E os banquinhos estão vazios. Alguns dos pequenos basebolistas riem-se de mim à socapa, apontam para o cachorro quente desembrulhado e caído por terra e para o ketchup extra espalhado nas minhas calças. Volto-me para eles. Seja o que for que viram na minha cara fê-los fechar a porta deslizante da carrinha. Afasto-me do Toyota, a arrastar os pés pelas filas entre os automóveis. Esquadrinho devagar, deliberadamente, todas as direcções. Espreito para dentro dos habitáculos e apanho centenas de vidas norte-americanas em pleno exercício do seu lazer: putos a fumarem ganzas, adultos a empanturrarem-se, casais afundados em cobertores em carrinhas de caixa aberta. Mas não encontro Sam. Vem-me à cabeça pela primeira vez a ideia de chamar a polícia. Mas não passa de uma ideia. Sam desapareceu há três minutos, no máximo. Tem de estar aqui. O que podia estar a acontecer não o está. Não pode estar. Não pode. — Sam! 13


O nome do meu filho chega-me aos ouvidos gritado por outra pessoa. Por um estranho apavorado. — Sam! Largo a correr. Primeiro a toda a velocidade. Depois, percebendo que não vou aguentar assim uma única fila, abrando o ritmo. Um homem de quase quarenta anos a passar a trote entre os automóveis estacionados, a meio da sessão, a bisbilhotar por todo o lado. É o tipo de coisa em que as pessoas reparam. Um adolescente, instalado no descapotável do pai, dirige-me um assobio estridente, e as raparigas que se amontoaram ao lado dele no banco da frente acenam-me ironicamente. Sem pensar, devolvo-lhes o aceno. Quando acabo de ziguezaguear por todas as filas, começo a dar a volta ao parque. A perscrutar os campos na penumbra. Cada fieira de milho é uma possibilidade de encontrar Sam, escondido, à espera de que o descubra. Esta imagem torna-se tão concreta dentro de mim que chego a vê-lo mais do que uma vez. Todavia, quando paro por um segundo, logo desaparece. Encaminho-me para a parte traseira do parque, onde a luz reflectida pelo ecrã é menos intensa e tudo mergulha numa fosforescência de fundo marinho. As fiadas de milho parecem aqui mais largas e escuras. Só o telhado de uma quinta distante interrompe o horizonte. Sem luzes nas janelas. Pestanejo, tento focá-la melhor, mas tenho os olhos turvos de lágrimas que não pressenti. «Julgava que eras um fantasma.» «E era. Mas os fantasmas não conseguem fazer coisas. É muito melhor ser um monstro. Desses que ninguém espera que sejam um monstro até ser tarde demais.» Inclino-me para a frente com as mãos apoiadas nos joelhos. A inspirar avidamente. O pânico aproveita para entrar. Os horrores da imaginação. Com quem estará. O que irão fazer-lhe. O que estarão a fazer-lhe. Não voltarei a vê-lo. «Vi alguém. A espreitar pela janela.» «Viste quem era?» «Um homem. Uma sombra.» Já corro de volta à cafetaria quando vejo qualquer coisa. Um vulto a desaparecer entre as filas de milho. Da minha altura, se não mais alto. Está ali. E já não está. Tento contar as fiadas que me separam do ponto onde o vulto penetrou no milheiral. Sete? Oito? Não mais do que dez. Ao passar a nona, corto à direita e embrenho-me pelo campo. As folhas, fibrosas, vergastam-me a cara, estalam os caules à medida que por eles invisto. De fora, parecia haver mais espaço entre as fiadas, 14


mas, agora que entrei, percebo que não chega para um homem do meu tamanho progredir sem se ver agarrado, preso, golpeado. Nem é correr: é ser ingerido por uma goela apertada. Quem quer que eu tenha visto, como fará para avançar mais depressa? A pergunta faz-me parar. Deito-me de bruços e espreito por entre os caules. Aqui em baixo, a única luz é uma poeira grisalha, celeste. Com a boca aberta colada à terra, é como se o luar tivesse adquirido sabor: a aspereza mineral da limalha de aço. Ensino o corpo a permanecer imóvel. Ocorre-me que posso ter enlouquecido desde que Sam saiu da cafetaria. Demência súbita. Tal explicaria esta incursão num campo de milho a meio da noite. Esta caçada a algo que provavelmente nunca existiu. No entanto, existe. Um par de botas a correr, direito ao extremo do campo. Uns trinta metros à frente, duas fiadas à esquerda. Levanto-me a custo. A gemer, por causa da rigidez dos joelhos, do ardor dos músculos em redor da bacia. Uso as mãos para me impelir para diante. Arranco espigas e atiro-as para trás de mim, onde caem com um baque surdo, como os passos de alguém que me seguisse. A intervalos regulares, vislumbro a quinta ao longe. Corto então obliquamente, na sua direcção. Como se soubesse que é para aí que o vulto se dirige. Como se tivesse um plano. Ergo outra vez a cabeça, à procura do telhado de duas águas, mas é o vulto que detecto. A atravessar o espaço entre duas fiadas, da direita para a esquerda. Um movimento instantâneo por entre as barbas de milho. Mais escuro que a noite, que se estende, cerrada, sobre o campo. Arremeto novamente. Piscando os olhos para aclarar a visão, descortino-o uma vez mais entre as fieiras de milho. Mas que vulto era aquele? Indistinguível como homem ou mulher, sem uma peça de roupa identificável, sem um chapéu, sem nada de assinalável no cabelo. Sem cara. Um espantalho que abandonou o seu posto. Agora, quando grito, já não é a Sam que me dirijo mas a alguém que está aqui comigo, seja quem for. — Dá-me o meu filho! Dá-me o meu filho! Não há no meu apelo qualquer ponta de ameaça, qualquer promessa de retaliação. É apenas a asfixia de um pai vertida em palavras. Desemboco de repente no pátio da quinta. Há ervas altas à volta de um baloiço enferrujado. As janelas têm a tinta a descascar. Os vidros partidos. Contorno o edifício. Não descubro nenhum automóvel. Nenhum sinal da passagem de alguém desde que alguma má notícia expulsou quem ali vivia. 15


Paro um segundo a pensar no que fazer a seguir. É nesse instante que as minhas pernas fraquejam. Caio de joelhos, como que tomado por uma súbita urgência de rezar. Procuro escutar, sobrepondo-se ao barulho do meu coração, quaisquer passos em fuga. Nem as vozes do filme chegam até mim. Apenas oiço o cricrilar eléctrico dos grilos. E apenas vejo o ecrã do Mustang. Do outro lado de um oceano de milho, mas claramente visível. Uma muda exibição de terror, muito mais fluido e verosímil do que o meu. É ao olhar para lá que me ocorre uma coisa. Uma verdade que jamais poderei provar seja a quem for, mas nem por isso menos evidente. Sei quem fez isto. Quem levou o meu filho. Conheço o seu nome. Ajoelho-me nas ervas altas do pátio abandonado, de olhos fixos no seu rosto. Tem quinze metros de altura e ergue-se acima dos campos, movendo os lábios em silêncio, falando cara a cara com a noite, como um deus. Monstruosa ampliação feita de luz sobre um ecrã caiado. O papel que todos os actores dizem ser o melhor de representar. O mau da fita.

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O_Circulo_da_Morte  

Dia do Trabalhador * , 2007 * A primeira segunda-feira de Setembro, no Canadá e nos Estados Unidos. (NT) 9 10 11 * Marca de um género de cro...

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